Marian Keyes  

Um best celer pra chamar de meu.txt



       Digitalizao:
       Comunidade Orkut - Digitalizaes de livros
       
Copyright ? Marian Keyes, 2004
Ttulo original: The Other Side of the Story

Capa: Carolina Vaz

Editorao: DFL


2008
Impresso no Brasil
Printed in Brazil


Cip-Brasil. Catalogao na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ














Todos os direitos reservados pela:
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     AGRADECIMENTOS
      
      Agradeo a todos na Penguin, especialmente a Louise Moore, e ao pessoal da Curtis Brown, na pessoa de Jonathan Lloyd.
      Precisei de muitos conselhos de especialistas enquanto escrevia este livro, e todos aos quais pedi ajuda me ofereceram muito do seu tempo e do seu conhecimento. 
Quaisquer erros so culpa minha.
      Obrigada ao corpo de bombeiros da cidade de Nova York, em especial a Chris O'Brien e aos soldados do fogo da Intervale Ave, 1.215. (s vezes eu simplesmente 
amo o meu trabalho.) Obrigada aos policiais Anthony Torres, Daniel Hui, Charlie Perry e Kevin Perry, do Departamento de Polcia da Cidade de Nova York, a Kathleen, 
Natalie, Clare e Shane Perry, a Viv Gaine, da Visible Gain, empresa organizadora de eventos, a Orlaith McCarthy, Michelle N Longain e Eileen Prendergast, da BCM 
Hanby Wallace, a John e Shirley Baines, e a Tom e Ann Heritage, de Church Farm, Oxhill.
      Obrigada s "Able ladies": Orlaith Brennan, Maria Creed, Gwen Hollingsworth, Celia Houlihan, Sinead O'Sullivan e Aideen Kenny.
      Pelo incentivo, pela leitura dos captulos inacabados e apoio em geral, agradeo a Suzanne Benson, Jenny Boland, Susie Burgin, Ailish Connolly, Gai Griffin, 
Jonathan "Jojo" Harvey, Suzanne Power, Anne-Marie Scanlon, Kate Thompson, Louise Voss e toda a famlia Keyes.
      Como este livro levou muito tempo para ser escrito, tenho a terrvel sensao de estar esquecendo de agradecer a algum que me ajudou nos primeiros dias. Se 
essa pessoa for voc, lamento sinceramente e atribuo a culpa  minha memria, que  muito falha.
      Finalmente, como sempre, no h palavras suficientes para agradecer a Tony por sua fenomenal generosidade, sua pacincia, suas sacadas, sua intuio, sua gentileza, 
sua vontade de trabalhar, sua habilidade e seu jeito de ser fabuloso em tudo. No estou brincando ao dizer que este livro no teria sido possvel sem ele.
      
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     Para.Niall, Ljiljana, Ema e Luka Keyes
      
      








 "Os tempos esto difceis. As crianas j no obedecem
aos pais e todo mundo est escrevendo um livro. "

       MARCUS TULLIUS CICERO, ESTADISTA,
       ORADOR E ESCRITOR (106-43 a.C)



"Existem trs lados em toda histria. O seu lado, o lado 
deles e a verdade. "

       AUTOR ANNIMO
      
     
PARTE UM
   
   GEMMA
   
   1
      
     
      PARA: Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: papai fujo
      
      Susan, voc pediu novidades. Pois bem, eu lhe trago novidades. Apesar de achar que voc vai se arrepender de ter pedido. Parece que meu pai abandonou a minha 
me. No tenho certeza de o quanto isso  srio. Mando mais notcias assim que as tiver, e quando as tiver.
      
      Gemma xxx
      
      Assim que atendi a ligao, achei que ele tinha morrido. Por duas razes. Primeira: participei de um nmero preocupante de funerais, nos ltimos tempos - amigos 
dos meus pais e, o que  pior, pais dos meus amigos. Segunda: mame ligou para o meu celular; foi a primeira vez que ela fez isso em toda a minha vida, pois ela 
sempre acreditou piamente que s se pode ligar para um celular de outro celular, como se fossem aparelhos de radioamador, ou algo do tipo. Portanto, quando coloquei 
o telefone no ouvido e ouvi a voz embargada de mame dizendo "Ele se foi!", quem pode me culpar por eu achar que papai tinha batido as botas e agora seramos apenas 
ns duas, eu e mame?
      - Ele fez a mala e se foi.
      - Ele fez a...? - S nesse momento percebi que papai talvez no estivesse morto.
      - Venha para casa - disse ela.
      - Certo... - Mas eu estava no trabalho. No simplesmente no escritrio, mas no salo de convenes de um hotel, supervisionando os detalhes finais de um congresso 
mdico (O que est por trs da dor nas costas). Era um evento gigantesco que levara semanas para ser preparado; na vspera, eu ficara l at meia-noite e meia, coordenando 
a chegada das centenas de delegados e resolvendo seus problemas (realocando os hspedes no-fumantes que haviam voltado a fumar entre o dia da reserva e o da chegada, 
esse tipo de coisa). Hoje, finalmente, era o Dia D e em menos de uma hora duzentos quiroprticos iam invadir o lugar, cada um deles esperando
      
      a) um crach e uma cadeira
      b) caf com dois tipos de biscoitos (um simples e outro refinado) s 11 da manh
      c) almoo, com trs pratos (incluindo uma opo vegetariana), s 12:45.
      d) caf e dois tipos de biscoito (ambos simples) s 3:30 da tarde
      e) coquetis ao anoitecer, seguidos por um jantar de gala com lembrancinhas, dana e roa-roa (opcional)
      
      Na verdade, ao atender o telefone, pensei que fosse o sujeito que nos alugara o telo, garantindo que ele j estava a caminho, acompanhado - essa  a parte 
mais importante - do telo.
      - Conte-me o que aconteceu - pedi  minha me, dividida entre duas tarefas conflitantes. No d para eu ir embora agora...
      - Conto tudo quando voc chegar. Venha logo! Estou num estado lastimvel, s Deus sabe o que eu seria capaz de fazer.
      Isso me convenceu. Fechei o celular e olhei para Andrea, que obviamente havia sacado que algo estranho acontecera.
      - Est tudo bem? - murmurou ela.
      - Foi o meu pai.
      Percebi pelo seu olhar que ela tambm pensou que ele tivesse batido as botas (expresso que o prprio papai costumava usar). (Pronto! L estou eu de novo falando 
como se ele realmente tivesse morrido.)
      - Minha nossa!... Seu pai... Ele...?
      - No, no - expliquei. - Ele ainda est vivo.
      - V logo, v logo! - Ela me empurrou na direo da sada, certamente visualizando uma despedida no leito de morte.
      - No posso ir. Como  que vai ficar tudo isso aqui? - Indiquei o salo de convenes.
      - Eu e Moiss vamos cuidar de tudo; vou ligar para a firma e pedir para a Ruth vir nos ajudar. No se preocupe, voc deixou tudo muito bem preparado, o que 
poderia dar errado?
      Evidentemente, a resposta correta para essa pergunta era: "Qualquer coisa." Eu j organizava eventos havia sete anos e, durante esse tempo, j vira de tudo, 
desde oradores que despencaram do palco por terem exagerado na dose at professores brigando pela conquista do ltimo biscoito refinado.
      - Sim, mas... - Eu ameaara Andrea e Moiss, avisando-lhes que, mesmo estando mortos, eles deveriam aparecer para trabalhar de manh cedo. E ali estava eu,
pronta para abandonar o meu posto por causa de... Por qu, exatamente?
      Que dia! A manh mal comeara e um monte de coisas j tinha sado errado. A comear pelo meu cabelo. H sculos que eu estava sem tempo para cort-lo, e ento, 
em meio a um chilique, eu mesma havia passado a tesoura nele. Na verdade, pretendia apenas apar-lo, mas depois que comecei no consegui parar, e acabei com uma 
franja ridiculamente curta.
      As pessoas muitas vezes me diziam que eu parecia um pouco com Liza Minnelli em Cabaret, mas quando cheguei ao hotel, naquela manh, Moiss me cumprimentou 
dizendo "Vida longa e prspera" e me saudou com os dedos separados em V,  moda dos vulcanos. Depois, quando pedi que ele ligasse novamente para o sujeito do telo, 
ele me explicou, com ar solene: "Isso seria ilgico, capito." Pronto! Pelo visto, eu j no era mais a Liza Minnelli de Cabaret, mas o Sr. Spock, de Star Trek.
(Nota rpida: Moiss no  um sujeito com cara de aposentado e uma barba bblica, trajando um manto empoeirado e sandlias de espancar crianas, e sim um cara descolado,
de origem nigeriana, que veste roupas da moda.)
      - V! - Andrea me deu outro empurrozinho na direo das portas. - Cuide de tudo e nos avise se pudermos ajudar em alguma coisa.
      Essas so as palavras tpicas que se usam quando algum morre. De repente, eu me vi no estacionamento. O nevoeiro frio e cerrado de janeiro me envolveu por 
completo, mas aquilo s serviu para eu me lembrar que havia esquecido o casaco dentro do hotel. Nem pensei em voltar para peg-lo, pois no me pareceu importante.
      Ao entrar no carro, um homem assobiou - para o carro, no para mim. Tenho um Toyota MR2, pequeno e esportivo (muito pequeno, por sinal; ainda bem que eu tenho 
s um metro e cinqenta e oito de altura). A escolha do carro no foi minha - A F&F
      Dignan  que insistiu nisso. Faria boa presena, disseram, para uma mulher com as minhas funes. Ah, e o filho deles estava vendendo o carro, mesmo, baratinho. 
Argh!
      Os homens exibem reaes opostas a ele. Durante o dia, assobios e piscadas de olho. Mas  noite, quando eles voltam do pub mamados, a histria  diferente. 
Passam o canivete na capota de lona ou quebram o vidro com um tijolo. Na verdade, no pretendem furtar o carro, s deix-lo mortalmente ferido, e esse  o motivo 
de o pobrezinho passar mais tempo na oficina de lanternagem do que nas ruas. Na esperana de angariar a simpatia desses homens misteriosamente amargos, meu vidro 
traseiro informa: "Meu outro carro  um Cortina 89 caindo aos pedaos." (Anton fez esse adesivo especialmente para mim; acho que eu devia t-lo tirado quando Anton 
foi embora, mas aquele no era o momento de pensar nisso.)
      A estrada para a casa dos meus pais estava quase vazia; todo o trfego pesado vinha na direo contrria, para o centro de Dublin. Movendo-me atravs do fog 
que espiralava em volta como gelo-seco, a estrada vazia me fez sentir como se eu estivesse sonhando.
      At cinco minutos antes, aquela tinha sido uma tera-feira perfeitamente normal. Eu entrara em ritmo de "Primeiro Dia de Congresso". Estava ansiosa,  claro 
- sempre pinta um probleminha de ltima hora - , mas no me sentia nem de perto preparada para aquilo.
      No fazia a menor idia do que me esperava ao chegar  casa dos meus pais. Obviamente, algo estava muito errado, mesmo que fosse apenas mame pirando na batatinha. 
Acho que ela no faz o tipo, mas, com essas coisas, nunca se sabe. "Ele fez a mala e se foi... " Isso, por si s, j era to esquisito quanto porcos voadores. Era 
mame quem sempre fazia a mala do papai, fosse para um congresso de vendedores ou uma simples excurso do clube de golfe. Foi nessa hora que eu saquei que mame 
se enganara. Portanto, ou ela realmente havia pirado na batatinha ou papai realmente estava morto. Um sobressalto de pnico me fez seguir em frente, com o p na 
tbua.
      
      Estacionei o carro todo torto, do lado de fora da casa (geminada e simples, estilo anos sessenta). O carro de papai no estava l. Mortos no dirigem.
      Essa onda de alvio comeou a me acalmar, mas deu meia-volta de repente e se transformou novamente em terror. Papai nunca ia dirigindo para o trabalho, sempre 
pegava o nibus; o sumio do carro me provocou uma sensao ruim.
      Mame j abrira a porta da frente antes mesmo de eu saltar do carro. Vestia um roupo cor-de-pssego e um bob laranja prendia-lhe a franja.
      - Ele se foi!
      Eu corri e fui direto para a cozinha. Precisava me sentar. Embora parecesse maluquice, acalentava a idia de que papai estaria sentadinho ali, comentando, 
estupefato: "Estou dizendo a ela que eu no fui embora, mas ela no acredita em mim." Na cozinha, havia s uma torrada fria, facas sujas de manteiga e os badulaques 
normais de uma mesa de caf.
      - Aconteceu alguma coisa? Vocs brigaram?
      - No, nada. Ele tomou o caf normalmente. Mingau. Eu mesma preparei, veja aqui. - Apontou para uma tigela que exibia restos de mingau. S restos. Ele devia 
pelo menos ter tido a decncia de se engasgar de vergonha.
      "Depois do caf, seu pai disse que queria conversar comigo. Pensei que ele fosse me dar sinal verde para eu mandar fazer uma estufa para as plantas. Mas ele 
me disse que no estava feliz, que as coisas no funcionavam mais e ele ia embora."
      - "As coisas no funcionavam mais"? Puxa, mas vocs tm trinta e cinco anos de casados! Talvez... Talvez seja uma crise de meia-idade.
      - Seu pai tem quase sessenta anos, est velho demais para uma crise de meia-idade.
      Mame tinha razo. Papai perdera a chance de ter a sua crise de meia-idade uns quinze anos antes, quando ningum teria dado muita importncia, e ns at mesmo 
espervamos por ela; em vez disso, porm, ele continuou a perder cabelo e a se portar de forma vaga e gentil.
      - Depois disso, ele pegou a mala e jogou coisas l dentro.
      - No acredito! "Jogou coisas" como? Ele fez a prpria mala? Como conseguiu?
      Mame me pareceu meio indecisa e ento, para provar a mim - e provavelmente a ela tambm - , subimos as escadas e ela apontou para um lugar vazio no guarda-roupa 
do quarto de hspedes, onde uma mala costumava ficar. (Parte de um conjunto de malas que eles ganharam depois de juntar pontos enchendo o tanque do carro.) Ento, 
ela me levou at o quarto deles e mostrou os espaos vazios no armrio. Ele levara o sobretudo, o casaco de neve e o terno bom. Deixou para trs uma espantosa quantidade 
de moletons coloridos, agasalhos tricotados e calas velhas que s poderiam ser descritos como "lixo". Tudo desbotado, em modelos horrorosos, feitos de tecidos vagabundos, 
com cortes medonhos. Eu tambm teria deixado aquilo tudo para trs.
      - Ele vai ter que voltar aqui para acabar de pegar as roupas - disse mame.
      Eu no contaria com aquilo.
      - Bem que eu o achei meio distrado ultimamente - disse ela. - Comentei isso com voc.
      Chegamos a pensar que talvez fosse um princpio de Alzheimer. mais a cabea no lugar. Devia estar dirigindo por a, a esmo, piradinho, convencido de que era 
a princesa Anastcia da Rssia. Precisvamos alertar a polcia.
      - Qual  a placa do carro?
      Mame me olhou, surpresa.
      - Sei l! - respondeu.
      - Como no sabe?
      - Por que eu deveria saber? Simplesmente ando naquele troo no o dirijo.
      - Ento, vamos ter que procurar, porque eu tambm no sei.
      - E por que precisamos da placa?
      - Porque no podemos simplesmente dizer aos guardas que procurem por um Nissan Sunny azul dirigido por um homem de cinqenta e nove anos que talvez imagine 
ser o ltimo dos Romanov. Onde ficam os documentos do carro?
      - Sobre uma das prateleiras da sala de jantar.
      Depois de procurarmos com cuidado, inclusive no escritrio de papai, no consegui achar nenhuma informao, e mame no ajudou muito.
      - O carro do papai  da empresa, no ?
      - Ahn... Acho que sim.
      - Vou ligar para l e talvez algum da firma, uma secretria, sei l, possa nos ajudar.
      Ao ligar para o telefone direto do papai, eu sabia que ele no iria atender, pois, onde quer que ele estivesse, no trabalho  que no era. Com a mo no bocal 
do fone, pedi que mame continuasse procurando o nmero da placa, a fim de o informarmos  polcia de Kilmacud. Mas antes mesmo que ela se levantasse da cadeira, 
algum atendeu o telefone. Era papai.
      - Pa-papai?  o senhor mesmo?!
      - Gemma? - respondeu ele, com voz desconfiada. Aquilo, em si, no era incomum. Ele sempre atendia meus telefonemas com voz desconfiada, e com bons motivos. 
Eu s ligava para ele
      
      a) para avisar que minha tev enguiara e pedir para ele ir l em casa com a caixa de ferramentas
      b) para dizer que o meu gramado precisava ser aparado e pedir para ele ir l com o cortador de grama
      c) para comunicar que a minha sala da frente precisava ser pintada e perguntar se ele no poderia ir at l com seus panos de cobrir a moblia, rolos, pincis, 
tinta e fita crepe, alm de uma sacola cheia de barras de chocolate.
      
      - Papai, o senhor est no trabalho? - Pergunta idiota.
      - Sim, eu...
      - O que aconteceu?
      - Escute, eu pensei em ligar para voc mais tarde, mas as coisas enrolaram um pouco por aqui. - Ele estava ofegante. - Os planos para o prottipo do novo lanamento 
devem ter vazado, a concorrncia vai divulgar um comunicado  imprensa. Eles tm um novo produto tambm, praticamente igual ao nosso; deve ser espionagem indus...
      - Papai!
      Antes de seguirmos adiante, preciso lhes contar que meu pai trabalha no departamento de vendas de uma grande fbrica de doces. (No vou dizer o nome porque, 
diante das circunstncias, no pretendo lhes oferecer nenhuma publicidade gratuita.) Papai trabalhou para eles a minha vida toda, e uma das vantagens do emprego 
 que ele podia levar para casa a quantidade que quisesse dos produtos - e de graa. Isso equivale a dizer que nossa casa transbordava de barras de chocolate e eu 
era muito mais popular com meus amiguinhos da rua do que teria sido se no fosse por isso. Obviamente mame e eu ramos terminantemente proibidas de comprar qualquer 
coisa das companhias rivais, "para no dar mole". Embora eu me ressentisse com esse decreto ditatorial (que no era exatamente um decreto, pois papai era muito brando 
para impor decretos), nunca consegui me rebelar contra isso e, embora parea ridculo, na primeira vez em que provei um bombom Ferrero Rocher, eu me senti culpada 
de verdade. (Sei que  brincadeira aquele dilogo no anncio em que um sujeito fala, ao provar um bombom deles: "Embaixador, assim o senhor est nos mimando demais." 
Mas a verdade  que fiquei muito impressionada, especialmente por eles serem to perfeitamente ondas. Mas quando sugeri, com ar casual, que a fbrica de papai deveria 
lanar bombons redondinhos, ele me fitou com olhar triste e perguntou: "Aconteceu algo que voc queira me contar?")
      - Papai, estou ligando aqui de casa porque mame est muito chateada. Quer me contar o que est havendo, por favor? - Em vez de pai, eu o tratava como uma 
criana rebelde que havia feito algo impensado, mas cairia em si depois da minha bronca.
      - Pretendia ligar para voc mais tarde, filha.
      - Pois bem, aproveite que eu liguei antes.
      - Agora eu no posso.
      - Mas  melhor que possa! - Um sinal de alerta comeou a piscar dentro de mim. Ele no estava se desmontando como um biscoito esfarelento do jeito que achei 
que aconteceria assim que eu falasse com ele usando de firmeza. - Papai, mame e eu estamos preocupadas com o senhor. Achamos que talvez o senhor esteja, digamos... 
- Como expressar isso? - Meio perturbado das idias.
      - Pois no estou.
      - O senhor pensa que no. Pessoas mentalmente perturbadas geralmente no sabem que esto mentalmente perturbadas.
      - Gemma, eu sei que me afastei um pouco e andei distante nos ltimos tempos, reconheo. Mas isso no  caduquice.
      O papo no rolava do jeito que eu havia previsto, nem um pouco. Ele no me parecia pirado. Nem envergonhado com o sermo. Parecia saber de algo que eu no 
sabia.
      - O que houve? - Minha voz era quase um sussurro.
      - No posso conversar, estou com um problema aqui que precisa ser resolvido agora.
      Eu disse, com voz impertinente:
      - Acho que a situao do seu casamento  mais importante do que o novo tablete sabor tiramisu que...
      - SSSSHHHH! - Ele sibilou, junto do fone. - Quer que o mundo inteiro descubra? J me arrependi muito por ter lhe contado.
      O medo me deixou muda. Ele nunca ficava bravo comigo.
      - Ligo para voc assim que eu puder. - Seu tom era muito firme.  at engraado, porque ele me pareceu falar com um jeito de... pai.
      - E ento...? - mame quis saber, vida, assim que eu desliguei.
      - Ele vai ligar depois.
      - Quando?
      - Assim que puder.
      Mordendo os ns dos dedos, eu no tinha certeza sobre o que fazer em seguida. Papai no me pareceu maluco, mas tambm no estava agindo de forma normal. Simplesmente 
no me ocorria nada que eu pudesse fazer para ajudar. Nunca estivera em uma situao daquelas antes e no havia precedente nem manual de instrues. Tudo o que podamos 
fazer era esperar por uma notcia que eu sabia, por instinto, que no seria nada boa. Mame continuava tagarelando "O que voc acha?... Gemma, o que acha disso?", 
como se eu fosse um adulto com todas as respostas.
      A nica coisa que se salvou foi que eu no me levantei de repente, toda alegrinha, perguntando: "Que tal uma xcara de ch?", ou o que seria ainda pior: "Vamos 
preparar um chazinho?" Acho que ch no conserta nada e jurei baixinho que, no importavam as circunstncias, aquela crise no conseguiria me transformar em bebedora 
de ch.
      Considerei a idia de ir at o trabalho dele para um confronto, mas, se rolava a tal "crise do sabor tiramisu", talvez eu nem conseguisse encontr-lo.
      - Para onde ele se mudaria? - desabafou mame, com jeito queixoso. - Nenhum dos nossos amigos iria acolh-lo.
      Ela estava certa. O lance no crculo de amigos dos meus pais era que o homem cuidava das finanas e das chaves do carro, mas as mulheres eram a fora-motriz 
do lar. Eram elas que davam a palavra final sobre quem entrava e quem saa, e mesmo que um dos amigos de papai tivesse lhe oferecido o quarto de hspedes para passar 
a noite, sua mulher no permitiria nem que papai passasse da entrada, por pura lealdade  minha me. Portanto, se ele no ia para a casa de nenhum dos amigos, para 
onde poderia ir?
      Eu no conseguia imagin-lo sentado em um colcho bolorento ao lado de um fogareiro porttil de uma boca e uma chaleira enferrujada que no apitasse ao ferver.
      A no ser que ele alimentasse a idia maluca de que conseguiria sobreviver longe de mame e de seus confortos caseiros. Ele iria passar trs dias jogando golfe 
sozinho com a mquina de atirar bolas e voltaria para casa assim que precisasse de meias limpas.
      - Quando  que ele vai ligar de volta? - perguntou mame, mais uma vez.
      - No sei. Vamos assistir tev.
      Enquanto mame assistia ao programa Sunset Beach, escrevi para Susan o meu primeiro e-mail do dia. Susan - tambm conhecida como "minha linda Susan", para 
distingui-la de qualquer outra Susan talvez no to linda - era a terceira do trio formado, alm dela, por mim e por Lily, e, depois do grande desastre, resolvera 
ficar do meu lado.
      Havia menos de uma semana, no dia 10de janeiro, ela se mudara para Seattle, com um contrato de dois anos como relaes pblicas de um banco muito importante. 
Seu plano era achar algum cara da Microsoft para namorar, mesmo que ele fosse do baixo escalo, mas descobriu rapidinho que todos eles trabalham vinte e sete horas 
por dia e no tm muito tempo para dedicar a uma Susan romntica e interessada em badalao. Ter diante de si mltiplas opes na hora de pedir um simples caf s 
servira, at agora, para ele preencher seu vazio existencial, e por isso ela estava solitria, querendo novidades.
      Contei-lhe poucos detalhes e ento apertei a tecla "enviar" do meu Communicator Plus, um notebook to pesado e com tantas funes que s falta ler meus pensamentos. 
A empresa me dera um daqueles para trabalhar,  guisa de presente. T... Me engana que eu gosto! Na realidade, o trambolho s servia para eu me tornar mais escrava 
do que j era - eles podiam me achar em toda parte e na hora que quisessem. O tijolo era to pesado que rasgara a costura do forro de seda da minha segunda melhor 
bolsa.
      Quando Sunset Beach acabou, papai ainda no voltara a ligar, e eu anunciei:
      - Isso no est certo. Vou ligar para ele de novo.
      
     
2
      
      PARA: Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: papai fujo continua sumido
      
      Vamos l, tenho novidades. Voc vai precisar de um Valium quando ouvir isso, portanto no leia nem mais uma palavra sequer antes de pegar o remdio. Anda logo, 
vai!
      Voltou? Est pronta? Muito bem. Meu pai, Noel Hogan, arrumou uma namorada. E a histria  muito pior que isso. Ela tem trinta e seis anos. Apenas quatro anos 
mais velha que eu.
      Onde foi que ele a conheceu? Onde voc acha que poderia ser? No trabalho,  claro! Ela  a (nossa, isso  to previsvel que chega a ser enfadonho...)... Ela 
 a secretria dele. Seu nome  Colette, tem dois filhos, uma menina com nove e um menino com sete, os dois de um casamento anterior.
      Na verdade, ela no era realmente casada com o outro cara e, quando eu comentei isso com mame, ela disse: "Isso no  de estranhar. Para que comprar a vaca 
quando se consegue leite de graa?"
      O fato  que eles passaram muito tempo trabalhando juntos, preparando o lanamento do novo tablete sabor tiramisu, e acabaram ficando ntimos.
      
      Sim, eu j havia contado a Susan toda a saga do tablete tiramisu. Sei que era um segredo de Estado que eu prometi a papai no contar a ningum, mas Susan se 
mostrou to empolgada com o assunto que eu no consegui manter o bico fechado. Ela adoraria fazer uma monografia sobre esse tema. Do tabletinho simples ao tableto 
crocante com amndoas e castanhas - o futuro das barras de chocolate no sculo XXI." Imagine s o monte de pesquisas que eu ia ter de fazer", ela costumava dizer.
      
      Precisei ir correndo at em casa, saindo s pressas do trabalho (e deixando duzentos quiroprticos agitadssimos nas mos de Andrea) para arrancar a frceps 
todas essas informaes de papai, como se fosse o jogo das vinte perguntas. "O senhor est com dvidas?"... "Est doente?"... At finalmente acertar na mosca: "O 
senhor est tendo um caso?"
      A coisa j est rolando h trs meses- pelo menos, foi isso que papai me disse. Que papo  esse de ele cair fora de um casamento de trinta e cinco anos por 
causa de um lance que s tem trs meses? E quando ele pretendia nos contar a respeito? Ser que achou que podia simplesmente fazer a mala em uma tera-feira de manh 
e cair fora para sempre sem ter de se explicar?
      Sem falar na sua falta de peito. Ele se abre comigo ao telefone, me deixa com um abacaxi na mo e me pede para eu soltar a bomba em cima de mame. Ei, se liga!... 
Eu sou apenas a filha dele e minha me  sua mulher.Mas, quando eu mencionei esse detalhe, ele saiu pela tangente, dizendo: "Ah, converse com ela; as mulheres lidam 
melhor com esse tipo de situao."
      Nem teve a delicadeza de me deixar sair correndo contar para mame na mesma hora; antes disso, ele me contou sobre As Delcias de Colette, enquanto mame continuava 
em casa, entocada como um animal ferido.
      "Ela me faz sentir jovem", declarou papai, como se eu devesse me sentir feliz por sua causa. Em seguida, disse - e antes mesmo de as palavras sarem de sua 
boca, eu j sabia que ele ia dizer aquilo: "Eu me sinto um adolescente."
      Eu comentei: "Acho que d para conseguir outro adolescente para o senhor. Prefere homem ou mulher?", mas acho que ele no entendeu a piadinha. Que coroa ridculo!
      Contar  mame que seu marido a trocara pela secretria foi literalmente a coisa mais difcil que eu j fiz em toda a minha vida. Acho que seria mais fcil 
contar que ele havia morrido.
      Mas ela aceitou bem a notcia - bem demais. Simplesmente disse "Entendo", parecendo uma pessoa muito razovel. "Uma namorada? Foi o que voc disse? Vamos ver 
tev."
      Ento, por mais maluco que isso parea, ela se sentou diante da telinha, mesmo sem conseguir ver nada direito (bem, eu, pelo menos, no consegui). De repente, 
sem aviso, ela desligou o aparelho e disse: "Sabe de uma coisa...? Bem que eu gostaria de conversar com ele."
      Mame foi para o telefone. Dessa vez ele atendeu a ligao e eles tiveram o que me pareceu um papo calmo... Calmo demais.
      "Sim, Gemma me contou tudo, mas eu achei que ela talvez tivesse entendido algo errado. H-h... Sei... Ela no entendeu nada errado. H*h... Colette... Voc 
est apaixonado por ela... Entendo... Entendo... Sim, mas  claro que voc merece ser feliz... Ah, ela tem um lindo apartamento...? Que bom, isso  timo! Um lindo 
apartamento  sempre bom... Cuidar da sua correspondncia? Sim, claro... Tudo bem, pode deixar comigo. Bem, a gente se v qualquer hora dessas,"
      Assim que colocou o fone no gancho, ela informou: "Ele arrumou uma namorada." Como se fosse novidade.
      Voltou para a cozinha, e eu na cola dela.
      "Ele arrumou uma namorada. Noel Hogan arrumou uma namorada. Resolveu morar com ela em seu lindo apartamento."
      Nesse instante, abriu um armrio, pegou um prato e disse:
      "Meu marido de trinta e cinco anos de casado arrumou uma namorada."Com a maior naturalidade, atirou o prato contra a parede como se fosse um frisbee; ele se 
espatifou em mil pedacinhos. Depois atirou outro... E mais outro. Foi adquirindo velocidade e os pratos zuniam pela cozinha cada vez mais rpidos; entre um arremesso 
e outro, eu tinha que abaixar a cabea para evitar a exploso de cacos, que aumentavam em nmero.
      Enquanto ela brincava de disco voador com o aparelho vagabundo da cozinha, azul e branco, eu no me incomodei muito. Afinal, ela fazia exatamente o que se 
esperava que fizesse. Mas quando ela foi para a sala de estar e pegou uma das bailarinas de porcelana - voc sabe qual , um daqueles bibels medonhos que vm sempre 
em pares, mas que ela adora - , e, depois de hesitar por um segundo a varejou pela janela, a sim eu fiquei preocupada.
      "Pretendo pegar o carro e ir at l para mat-lo", grunhiu ela, parecendo possuda. Se no fosse pelo fato de que:
      
      a) ela no sabe dirigir;
      b) papai tinha levado o carro e
      c) ela nunca entraria no meu carro nem morta, porque ele  muito "chamativo".
      acho que ela teria feito isso de verdade.
      Ao compreender que no poderia ir a lugar algum, mame comeou a puxar as pontas das prprias roupas (tentando rasg-las, talvez?). Eu tentei segurar as mos 
dela para impedi-la, mas ela era muito mais forte do que eu. A essa altura, eu j estava superapavorada. Ela continuava totalmente descontrolada e eu no tinha a 
mnima idia sobre o que fazer. Para quem eu poderia ligar? Por ironia, a primeira pessoa em quem eu pensei foi papai, mas no daria certo, em especial por ser tudo 
culpa dele. Por fim, liguei para Cody.  claro que eu no esperava nenhum tipo de solidariedade, mas precisava de um conselho prtico. Ele atendeu com a sua voz 
de "fora de expediente", isto , to afrescalhado quanto um monte de tendas cor-de-cereja enfeitadas com penas de pavo. "Que choque, querida! Conta logo esse babado!..."
      "Papai abandonou mame. O que devo fazer?"
      "Nossa!  ela que eu estou ouvindo a no fundo?"
      "Voc est ouvindo o qu?. Guinchos? Ento  ela!"
      "Ela est...? Esse barulho  o de pastorinhas de porcelana barata sendo quebradas?" Fui dar uma olhada.
      "No. Potinhos de servir doce. Voc quase acertou. O que devo fazer?"
      "Esconda a porcelana cara." Quando ficou bvio que eu no ia acompanhar o deboche, ele disse, com um jeito gentil, para seus padres: "Chame um mdico, querida."
      Por aqui  mais difcil achar um mdico que atenda em casa do que comer apenas uma castanha de caju (alis, algo absolutamente impossvel, como ns duas sabemos 
muito bem.) Telefonei e consegui achar a sra. Foy, a recepcionista rabugenta do dr. Bailey. Eu j lhe contei dela? A mulher comeou a trabalhar para ele antes do 
Dilvio e qualquer pedido de consulta parece uma ofensa  falta de tempo do mdico. Mas eu consegui convencer a velha megera de que era mesmo uma emergncia; os 
sons histricos de mame ao fundo devem ter ajudado,  claro.
      Meia hora depois, o dr. Bailey apareceu usando roupas de jogar golfe e - acredite se quiser - aplicou uma injeo em mame. Eu achava que pessoas que esto 
se rasgando todas s recebiam injees quando se tornavam agitadas demais. No sei o que eles colocam nessa medicao, mas deve ser droga da melhor qualidade, porque 
mame parou de arfar na mesma hora diante dos nossos olhos e se largou toda mole sobre a cama.
      "O senhor tem mais disso?", perguntei, mas o mdico respondeu:
      "R-r-r! Conte-me o que aconteceu."
      "Meu pai nos deixou e foi morar com a secretria."
      Esperava que o bom doutor se mostrasse chocado, mas sabe o que aconteceu? Uma espcie de culpa surgiu de relance em seu rosto... No estou brincando, mas me 
pareceu nitidamente ouvir a palavra "Viagra" sendo sussurrada em pleno ar, como uma bolha de sabo azulzinha. Papai havia se consultado com ele recentemente, eu 
poderia apostar!
      O mdico me pareceu louco para ir logo embora dali.
      "Ajeite-a na cama", disse ele, "mas no a deixe sozinha. Se ela acordar..."
      Ele colocou dois comprimidos na mo e os entregou para mim. "D-lhe isso aqui, mas s em caso de emergncia." Em seguida, me deu uma receita para calmantes 
e saiu chispando rumo ao dcimo terceiro buraco. Seus sapatos com ferrinhos deixaram punhados de grama sobre o tapete da sala.
      Ajeitei mame na cama - ela ainda estava de roupo, ento no foi preciso despi-la. Fechei as cortinas e deitei ao lado dela, em cima do edredom. Eu estava 
usando o meu terninho Nicole Farhi e, apesar de no t-lo comprado em nenhuma liquidao e saber que ele ia ficar cheio de fiapos de edredom, no liguei. Isso prova 
o quanto eu estava apavorada.
      Tudo aquilo era muito estranho. Voc sabe como so as coisas por aqui. Ningum abandona a esposa. As pessoas se casam e continuam casadas por cento e setenta 
anos, mesmo que se odeiem profundamente. No que mame e papai parecessem se odiar, porque no era esse o caso. Eles simplesmente eram... voc sabe como ... casados.
      Fiz uma pausa e apaguei o ltimo pargrafo. A me de Susan morreu quando ela estava com dois anos; seu pai se casou novamente quando ela fez vinte. O casamento 
acabara havia trs anos e, embora Carol no fosse sua me verdadeira e Susan no estivesse nem morando com eles quando tudo comeou a dar errado, ela continuava 
muito abalada com o que acontecera.
      
      Resumindo... Eu estava ali largada sobre a cama vestindo um terno de grife quando os sinos da igreja comearam a dar as badaladas do meio-dia. Estava em um 
quarto escuro com minha me sedada ao lado e ainda nem chegara a hora do almoo. Isso me deu um calafrio de medo e ento liguei para o trabalho, s para sentir que 
no era a nica pessoa no planeta. Andrea deixou escapar que os teles no haviam chegado para o congresso dos quiroprticos, mas insistiu que tudo estava correndo 
bem. Obviamente no estava nada bem. Como  que os mdicos podiam olhar para as imagens das colunas tortas sem os teles?
      Ah, que se dane! Para ser franca, algo sempre sai errado em um congresso, no importa o quanto eu me prepare. Pelo menos os arranjos de centro de mesa para 
o jantar de gala haviam chegado. (Havamos encomendado malvas e outras flores de hastes compridas e moles, e resolvemos prender arame fino em volta dos caules, para 
deix-los parecendo uma coluna vertebral. Idia de Andrea, que  muito criativa.)
      A pobre Andrea estava louca para saber o que acontecera com papai, se ele tivera um infarto, um derrame ou o qu, mas voc sabe como so as regras de etiqueta: 
no se deve perguntar nada assim, de cara. Eu simplesmente disse que ele estava bem, mas ela no desistiu.
      "O estado dele  estvel?", ela quis saber.
      "Estvel? Bem, ele certamente no me parece estvel."
      Desliguei rapidinho, mas estou com esse problema. Todo mundo no trabalho pensa que papai est  beira da morte. E agora...? Como  que eu posso lhes contar 
a verdade? Como dizer que a nica coisa grave  ele ter arranjado uma namorada?
      Isso era muito embaraoso, alm do fato de que um monte de gente do meu trabalho conhecia papai e eles jamais acreditariam quando eu contasse o que acontecera. 
Para falar a verdade, embora papai tivesse me contado pessoalmente que arranjara uma namorada, eu tambm no acreditava. Isso simplesmente no fazia o gnero dele. 
At o seu nome est errado, voc no acha? "Senhoras e senhores, reflitam no fundo de seus coraes e se perguntem com sinceridade: Noel Hogan parece o nome de um 
homem que larga a mulher por outra que poderia ser sua filha? Seu nome no deveria ser Johnny Chancer ou Steve Gleam? Pois eu lhes asseguro, senhoras e senhores 
do jri, que Noel Hogan  o nome de um homem que l romances de John Grisham, monta a rvore genealgica da famlia at quatro geraes passadas, um homem cujo grande 
heri no  Arnold Schwarzenegger, nem Rambo, e sim o Inspetor Morse; em outras palavras, senhoras e senhores, um homem que jamais daria  sua mulher e filha um 
nico momento de preocupao."
      Continuando... Depois de sculos deitada na cama, resolvi limpar a loua quebrada e eu juro por Deus... Voc precisava ver o estado da cozinha; havia cacos 
de pratos quebrados por toda parte - dentro da manteiga, flutuando na jarra de leite. Tinha um pedao de prato com dez centmetros de comprimento espetado em um 
vasinho de violetas, parecendo uma obra de arte vanguardista.
      Muitos enfeites da sala de estar viraram farelo.  claro que alguns deles eram to horrveis que ficamos no lucro, mas morri de pena da pobre bailarina. Seus 
dias de bal acabaram.
      Depois disso voltei para o quarto e me deitei ao lado de mame, que estava fazendo uns barulhos engraados, assobiando e roncando ao mesmo tempo, mas fiquei 
por cima do edredom. Havia umas revistas ridculas no cho ao lado da cama e eu passei o resto da tarde lendo todas, de cabo a rabo.
      O lance, Susan,  que eu fiquei preocupada com o meu comportamento a partir dessa hora. O aquecedor desligou sozinho s onze da noite e o quarto ficou gelado, 
mas eu no me cobri. Achei que, enquanto no entrasse na cama junto com mame, eu estaria apenas lhe fazendo companhia, mas no instante em que eu me enfiasse debaixo 
das cobertas isso significaria que papai realmente no ia voltar para casa. Acabei cochilando e, quando acordei, fazia tanto frio que eu parecia anestesiada e nem 
senti a pele; quando cutucava o brao com o dedo, dava para ver a marca do dedo na pele, mas eu no sentia nada. Comecei a me distrair com aquilo, pois era parecido 
com estar morta. Ainda me cutuquei algumas vezes e ento resolvi vestir o casaco de mame. No ia me servir de nada pegar hipotermia s porque papai tinha pirado 
na batatinha. Mesmo assim, no consegui entrar debaixo das cobertas. Quando tornei a acordar, o diabo do sol j se levantara e eu fiquei chateada comigo mesma. Enquanto 
ainda estava escuro, havia esperana de que papai viesse para casa, e se eu tivesse agentado acordada, ali, de guarda, o dia jamais teria amanhecido. Maluquice, 
eu sei, mas foi assim que eu me senti.
      A primeira frase de mame, ao acordar, foi: "Ele no veio para casa."
      A segunda foi: "O que voc est fazendo com o meu casaco bom?"
      Ento  isso a, essa foi a ltima atualizao da novela. Mais novidades quando as tiver, assim que as tiver.
      
      Beijos,
      Gemma xxx
      
      P.S.- A culpa de tudo isso  sua. Se voc no tivesse arrumado esse emprego
      em Seattle, cidade onde no conhece ningum, no estaria se sentindo solitria, louca para saber novidades de casa, e a minha vida no teria se autodestrudo 
s para eu atender ao seu pedido.
      
      P.S. 2 - O P.S. anterior foi brincadeira, viu?
      
     
3
      
      Meu celular tocou. Era Cody. Cody no  o nome verdadeiro dele,  claro. O nome real  Aloysius, mas, assim que ele entrou na escola, nenhum dos novos coleguinhas 
conseguia pronunci-lo. O melhor que conseguiam era "Wishy".
      - Preciso de um apelido! - pediu Cody a seus pais. - Algo que as pessoas consigam falar.
      O sr. Cooper (nome de batismo: Aonghas) lanou um olhar para a sra. Cooper (nome de batismo: Mary). Ele tinha sido contra a idia de dar esse nome ao menino 
desde o princpio. Sabia tudo o que havia para saber a respeito de arrastar pela vida um nome impronuncivel, mas a sua esposa era uma mulher religiosa e havia insistido.
      Aloysius era o nome de um santo altamente conceituado - aos nove anos, fizera voto de castidade e acabou morrendo aos vinte e trs, quando cuidava de vtimas 
de peste e pegou a doena - era uma honra receber o nome dele.
      - Muito bem, escolha um apelido. Qualquer um que voc goste, filho - concordou a sra. Cooper, com ar magnnimo.
      - O nome que eu escolho ... Cody!
      Uma pausa.
      - Cody?
      - Sim, Cody.
      - Cody  um nome estranho, filho. Voc no prefere escolher outro? Paddy  um apelido legal. Ou quem sabe Butch.
      Cody/Aloysius balanou a cabecinha de cinco anos para os lados, com determinao. - Podem me espancar, se quiserem, mas meu nome  Cody.
      - Espancar voc? - reagiu o sr. Cooper, indignado. Virando-se para a sra. Cooper, perguntou: - Que tipo de histrias voc anda lendo para esse menino?
      A sra. Cooper ficou ruborizada. As Vidas dos Santos era uma leitura boa e educativa. Era culpa dela que todos eles acabassem fritos em leo fervente, atravessados 
por um monte de flechas ou apedrejados at a morte?
      Cody foi a primeira pessoa que eu conheci em toda a minha vida que imaginava ter uma "vocao". Passou dois anos em um seminrio, aprendendo os fundamentos 
do sacerdcio (especialmente a parte de espancar pessoas), at o dia em que, como ele mesmo conta, "caiu na real e descobriu que ele no era nenhum santo, simplesmente 
era gay".
      - Prepare-se, Gemma - disse-me Cody. - Voc vai precisar ter coragem.
      - Ai, minha nossa! - reagi, pois quando Cody avisa que voc precisa de coragem  porque as novidades que traz so realmente pavorosas.
      Cody  um cara engraado.  muito honesto, quase exageradamente honesto. Quando voc lhe pergunta "Diga-me, Cody, com toda a honestidade, pois eu consigo agentar. 
Minha celulite est aparecendo por fora desse vestido?", ele responde com sinceridade.
      Agora, c entre ns
      ... Obviamente ningum faz essa pergunta se acha que a resposta vai ser "sim". Quando uma mulher pergunta isso,  porque est orgulhosamente convencida de 
que, depois de um ms de escovadas, uso do aparelho francs para emagrecimento trs vezes por dia e a proteo de meias-calas anticelulite, alm da cartada final: 
uma saia de lycra com resistncia de nvel industrial, a resposta vai ser um imenso e redondo NO.
      Cody  a nica pessoa que lhe diz que d para notar uma textura de "casca de laranja" por baixo da roupa. Acho que no faz isso por crueldade; creio que banca 
o advogado do diabo s para proteger do ridculo as pessoas que lhe so ntimas e caras. Pode-se dizer que ele desaprova falsas esperanas e acha que pender para 
o lado do otimismo s serve para nos fazer de tolas e deixar o resto do mundo em vantagem sobre ns
      - Trata-se de Lily - afirmou ele. - Lily Wright - repetiu, ao perceber que eu no disse nada. - Estou falando do livro dela. Acaba de sair. Chama-se As Poes 
de Mimi. O Irish Times vai publicar a resenha no sbado.
      - Como  que voc sabe?
      Cody conhece todo tipo de gente. Jornalistas, polticos, donos de boates. Trabalha no Departamento de Assuntos Internacionais do governo e faz o estilo Clark 
Kent: srio, ambicioso e heterossexual durante o dia, at o fim do expediente, momento em que saca suas armas imbatveis (bebidas e preparados energticos) e sai 
em defesa da Irlanda. Circula por muitas reas e tem acesso a todo tipo de informao privilegiada.
      - A resenha  boa? - Meus lbios pareciam no reagir de imediato  minha necessidade de falar.
      - Acho que sim.
      Eu ouvira dizer, sculos atrs, que ela conseguira um contrato para a publicao de um livro; meu queixo caiu diante dessa injustia. Eu  que devia escrever 
um livro; vivia falando sobre isso. O problema  que minha carreira literria at agora consistia apenas em ler livros escritos por outras pessoas e atir-los contra 
a parede, declarando: "Isso  uma bosta! At dormindo eu escrevo melhor do que ela! "
      Por algum tempo, toda vez que passava diante de uma livraria, eu entrava e procurava pelo livro de Lily, mas no encontrava nada, e tantos meses haviam passado 
- mais de um ano - que eu cheguei  concluso de que no ia acontecer.
      - Obrigada por me contar, Cody.
      - Noel j voltou para casa?
      - Ainda no.
      Cody estalou a lngua de impacincia e soltou:
      - Quando Deus fecha uma porta, bate com a seguinte bem na sua cara. Bem... Voc sabe... Ligue pra mim, se precisar. - Em se tratando de Cody, isso representava 
um estado de preocupao profunda e eu fiquei comovida.
      Desliguei o celular e olhei para mame. Seus olhos latejavam de ansiedade.
      - Era o seu pai?
      - No, mame. Sinto muito. - J estvamos no meio da manh de quarta-feira e o clima estava pra baixo. Muito pra baixo. Ela estava em um estado to pattico 
quando acordou que, quando ns descemos logo cedo para tomar caf, ao passarmos pela porta da frente, quase deu um grito e exclamou:
      - Meu santo Cristo, Maria e Jos! Ningum fechou a correntinha da porta! - Foi olhar mais de perto. - Nem passaram a tranca!
      Foi correndo at a cozinha e examinou a porta dos fundos.
      - Passaram s uma volta na fechadura da porta de servio e esqueceram de ligar o alarme. E no venha me dizer que as janelas tambm no estavam fechadas!
      Pelo visto, papai executava uma rotina noturna para lacrar a casa e deix-la mais protegida que Fort Knox.
      - Por que voc no trancou tudo? - perguntou mame. Seu ar no era de acusao, ela simplesmente parecia intrigada.
      - No tranquei porque no sabia que era para trancar.
      Isso provocou um ar ainda mais intrigado e, depois de uma pausa, ela declarou:
      - Pois bem, agora voc j sabe.
      Eu j estava prontinha para ir trabalhar, mas mame me pareceu to perdida, parecendo uma criana, que eu liguei para Andrea, a fim de saber como andavam as 
coisas por l; ela me surpreendeu dizendo que o jantar de gala tinha sido "muito divertido", que os mdicos ficaram doides, comearam a entortar os arranjos do 
centro das mesas dizendo que aquilo era hrnia de disco e coisas desse tipo. Acho que Andrea acabou saindo com um deles.
      Ela disse que eu no precisava ir trabalhar, o que foi muito gentil da sua parte, porque arrumar as coisas depois de um congresso  uma trabalheira que ningum 
merece - levar os delegados de balsa at o aeroporto, devolver as cadeiras, os refletores e os teles para as empresas de aluguel - embora os teles no tivessem 
aparecido, o que representava um trabalho a menos - , brigar com o hotel por causa da conta etc.
      Para retribuir sua gentileza, eu contei a Andrea, rapidamente, o que realmente acontecera com papai.
      - Isso  crise de meia-idade - garantiu-me ela. - Qual  a marca do carro dele?
      - Nissan Sunny.
      - Certo. A qualquer momento ele vai troc-lo por um Mazda MX5 vermelho, mas logo depois voltar ao normal.
      Voltei para onde mame estava e lhe informei sobre as novidades, mas ela simplesmente disse:
      - O seguro para carros vermelhos  mais caro, pelo menos foi o que eu li em algum lugar. Quero que ele volte para casa.
      Ela tinha os cotovelos sobre a mesa, ainda cheia dos restos do caf-da-manh da vspera: tigelas, facas cheias de manteiga, xcaras (Aaaargh!). Eu nem me dei 
ao trabalho de tirar a mesa ao limpar a loua quebrada; provavelmente achei que aquilo fosse tarefa da mame. Ela sempre teve orgulho por ser uma boa dona de casa 
- pelo menos em circunstncias normais. Naquele momento, parecia no dar a mnima para a sujeira. Dei incio  limpeza, empilhando os pratos e pires, mas, quando 
peguei a tigela onde papai comera mingau, mame gritou:
      - No!
      Pegou a tigela da minha mo e a colocou no colo.
      Em seguida, ligou novamente para o escritrio de papai. Estava ligando de cinco em cinco minutos desde as oito e meia, mas caa sempre na secretria. J eram 
dez e meia.
      - Podemos ir at o trabalho do seu pai, Gemma? Por favor. Eu preciso v-lo.
      Seu desespero em estado bruto era insuportvel.
      -  melhor falarmos com ele antes, mame - E se ns aparecssemos em sua sala e fssemos dispensadas?... Eu no podia correr esse risco.
      - Me, ser que a senhora se importaria se eu desse uma saidinha por dez minutos?
      - Aonde voc vai? - Sua voz ficou embargada por causa das lgrimas. - No me abandone!
      - Vou dar um pulo nas lojas aqui perto. Prometo voltar logo. A senhora quer alguma coisa? Um litro de leite?
      - Pra que precisamos disso? O leiteiro no trouxe o leite?
      Leiteiro. Ali era outro planeta.
      Procurei pelo meu casaco, mas logo lembrei que o deixara com os quiroprticos. Tinha de sair com aquela roupa mesmo. O terninho da vspera estava todo amarrotado 
e coberto de fiapos de edredom.
      - Voc vai demorar muito? - gritou mame, quando eu sa.
      - No, volto j, j.
      Fui voando at um shopping que ficava ali perto e s faltou eu saltar do carro antes mesmo de estacionar. Meu corao pulava. Por ora, o drama provocado por 
papai fora relegado a segundo plano. O livro de Lily era a causa da minha boca seca. Corri pela porta de entrada torcendo para no dar de cara com ningum do trabalho 
e entrei na livraria em alerta total, sentindo-me uma espi invadindo a embaixada inimiga. Corri os olhos da esquerda para a direita, esperando uma barricada formada 
pelos livros de Lily, e ento virei a cabea para ver se algum me seguira. Ningum at ali. Com minha Viso de Superansiedade, avistei a estante dos lanamentos 
em menos de um segundo e filmei cada capa - o Homem de Seis Milhes de Dlares no desempenharia aquela tarefa to depressa - , mas no havia nenhum ttulo escrito 
por Lily.
      E se eles no tivessem o livro em estoque ali? Afinal, aquela era uma livraria pequena, de bairro. Senti que precisava ir at uma livraria maior, no centro, 
para continuar a busca. No ia desistir at ter uma cpia do livro de Lily nas mos.
      Prximo passo: procurar por ordem alfabtica. Os autores com W estavam nas prateleiras mais baixas, perto do cho. L fui eu, colocando-me de ccoras. Waters, 
Werther, Wogan... ai, Cristo, estava ali. Era o nome dela. Lily Wright. As letras eram cheias de voltinhas e frescuras, assim: Lily Wright. E o ttulo tinha as mesmas 
letras: As Poes de Mimi.
      Meu corao martelou com mais fora e minhas mos estavam to midas de suor que deixaram marcas na capa. Folheei o livro depressa, mas meus dedos tremiam. 
Procurava pelo texto que falava sobre a autora e por fim o encontrei:
      
      Lily Wright mora em Londres, com o companheiro, Anton, e a filhinha, Ema.
      
      Meu santo Cristo. Ver tais palavras na orelha de um livro tornou tudo mais real que nunca. Estava impresso.
      Todo mundo - os editores dela, seus leitores, os funcionrios das livrarias e o povo que trabalhava na grfica - , todos iam achar que aquilo era verdade. 
Anton era companheiro de Lily e eles tinham uma filhinha. Eu me senti abandonada e excluda daquela panelinha, pois era a nica pessoa no planeta que ainda considerava 
Anton meu, por direito. Todo mundo, em toda parte, ia achar que a afirmao de Lily era verdadeira. Uma tremenda injustia! Ela o roubara, mas, em vez de ser tratada 
como a criminosa comum que era, todos lhe davam tapinhas nas costas, parabenizando-a e dizendo: "Muito bem, um tremendo companheiro o seu. Boa menina!" Sem mencionar 
o fato de que, para piorar, ela parecia mais magra do que nunca.  claro. No havia a mnima pista de que ela ficaria bem melhor se
      fizesse um transplante de cabelo em estilo Burt Reynolds. No  implicncia minha no... Ela mesma se cansou de repetir essa frase. Nada disso... A fim de 
exibir apenas seus atributos positivos, ela parecia linda na foto, cheia de cabelos. Na contracapa havia outra foto pequena, em preto-e-branco. Olhei atentamente, 
com a boca seca e uma careta agridoce. Olhem s para ela, toda delicada, com olhos imensos, loura, cheia de cachinhos, parecendo um anjo alto e esbelto. E ainda 
dizem que as cmeras no mentem...
      Cheguei a achar que no devia pagar por aquele livro - afinal, a autora no s roubara o homem que eu mais amava no mundo, mas ainda por cima escrevera um 
livro a meu respeito. Tive uma daquelas vontades quase irresistveis de esbravejar com o vendedor. "Tudo o que est neste livro  sobre mim, sabia?", mas consegui 
me controlar.
      Sem me lembrar como, paguei pelo livro, sa da loja e fiquei l fora parada, no frio, acompanhando o texto com o dedo, pgina por pgina, em busca do meu nome. 
Assim, em uma primeira olhada, no consegui v-lo. Continuei procurando e ento percebi que ela devia ter trocado o meu nome, para evitar processos ou algo assim.
      Eu, provavelmente, era a "Mimi" do ttulo. Cheguei  pgina sete antes de sair do transe em que estava e sacar que era melhor voltar para a casa quentinha 
da minha me do que ficar ali em p no meio da rua, lendo.
      Assim que coloquei os ps novamente em casa, vi mame no portal da cozinha, com a voz embargada:
      - Ele arranjou uma namorada.
      Enquanto eu estive fora, ela finalmente conseguira falar com papai, e era como se tivesse acabado de descobrir a novidade.
      - Isso nunca aconteceu com ningum que eu conheo. O que eu fiz de errado?
      Ela foi at onde eu estava e se lanou em meus braos, arrasada. Algo duro bateu no meu quadril - foi a tigela de mingau, que ela guardara no bolso do roupo. 
Chorava como uma criana, com direito a todos os wa-wa-waaas, arfadas secas, soluos e tosses; aquilo me partiu o corao. Mame me pareceu em um estado to
      terrvel que eu lhe dei os dois comprimidos para emergncias e a levei de volta para a cama. Assim que a vi sossegada, respirando um pouco mais devagar, apertei 
a receita que o dr. Bailey deixara com fora entre os dedos - na primeira oportunidade que eu tivesse, iria  farmcia.
      Ento, em um acesso de fria, liguei para papai, que pareceu surpreso - surpreso, imaginem s - ao ouvir minha voz.
      - Venha aqui em casa hoje  noite para se explicar - disse eu, com voz zangada.
      - No h nada para explicar - tentou ele. - Colette disse que...
      - Foda-se a Colette! Estou cagando e andando para O QUE a Colette diz. - O senhor precisa se dar ao respeito e vir at aqui.
      - Olhe esse palavreado! - disse ele, com voz ressentida. - Tudo bem. Eu passo em casa l pelas sete horas.
      Desliguei e senti o cho literalmente tremer sob meus ps. Meu pai estava tendo um caso. Meu pai largara a minha me.
      
      Fui para o quarto, me acomodei na cama ao lado de mame e comecei a ler o livro que falava de mim.
      No meio da tarde, mame abriu um olho.
      - O que voc est lendo?
      - Um livro.
      - Ah.
      
     
4
      
      PARA:Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Que tipo de mulher rouba o homem da sua melhor amiga, em seguida escreve um livro e nem sequer menciona o fato?
      
      Outro dia, outra douleur.
      Acabo de receber novas notcias chocantes. O livro de Lily foi lanado. Essa mesma, Lily Cada-um-por-si Wright. Lily estou-ficando-careca Wright.  a histria 
mais maluca que eu j li, uma espcie de livro para crianas, s que sem figuras e com palavras muito compridas. Fala de uma bruxa chamada Mimi (sim, isso mesmo, 
voc leu direito, uma bruxa) que se muda para um vilarejo, que tanto poderia ficar na Irlanda quanto na Inglaterra ou em Marte, e comea a interferir na vida de 
todo mundo. Ela inventa encantamentos com instrues do tipo "coloque um punhado de compaixo, uma pitada de inteligncia e uma generosa quantidade de amor". Eu 
quase engasguei. Eu no apareo na histria, nem voc, nem mesmo Anton eu consegui encontrar. A nica pessoa que eu reconheci foi uma garota vingativa de cabelos 
cacheados que s pode ser o Cody.
      Levei quatro horas para ler o livro todo, mas imagino que milhes de pessoas vo compr-lo, ela vai ficar milionria e virar celebridade. A vida  realmente 
cruel.
      Assim que acabei, tive de aprontar mame, porque papai estava vindo. Ela se recusava a trocar de roupa - acho que comeou a curtir demais aquele roupo. Quanto 
 tigela de mingau, ela no larga aquilo. At parece que est  espera dos peritos para recolh-lo como evidncia do crime e etiquet-lo como Prova A.
      Ento ele chegou. Usou a prpria chave para abrir a porta, o que eu achei muito estranho. Ao v-lo, eu me apavorei de verdade. No faz nem dois dias e ele 
j parece diferente. Mais ligado, com uma silhueta mais definida, menos fora de foco, sei l... S percebi o quanto o negcio era srio ao ver que ele usava roupas 
novas. Bem, pelo menos eu nunca as tinha visto antes. Uma jaqueta de camura marrom - meu santo Cristo dos Bazares! Costeletas aparadas, um corte moderno e dinmico 
no cabelo e, o pior de tudo... Tnis! Minha santa Me de Deus, aqueles tnis! Ofuscantemente brancos e to grandes que parecia que os tnis  que usavam papai, e 
no o contrrio.
      "O que est acontecendo?", perguntei.
      Sem nem ao menos se sentar, ele anunciou que sentia muito, mas estava apaixonado por Colette, e ela por ele.
      Isso foi a coisa mais esquisita e terrvel de ouvir. O que havia de errado naquela situao? Simplesmente tudo.
      "Mas e quanto a ns?", perguntei. "E quanto  mame?" Pensei que ia deix-lo embatucado nessa hora, porque ele fora absolutamente devotado a ns por toda a 
sua vida. Mas voc sabe o que ele me disse? Simplesmente "Sinto muito".
      O que,  claro, significava que ele no sentia coisssima nenhuma. Simplesmente no dava a mnima, o que eu no conseguia compreender, porque ele sempre foi 
muito gentil e carinhoso. Levou um tempo para a ficha cair e eu perceber o que acontecia, porque aquele era o meu PAI, entende? Ento - isso foi outro susto terrvel 
- percebi que ele estava envolto por aquele casulo amoroso dentro do qual tudo o que a pessoa sente  a prpria felicidade e ela no consegue imaginar que nem todos 
 sua volta esto no mesmo clima. Nunca imaginei que essas coisas acontecessem com gente velha, muito menos pais.
      Nesse momento, mame perguntou, com voz mida:
      "Voc vai ficar para jantar conosco?"
      Fala srio! Ela realmente fez isso! Ento eu disse na mesma hora, muito angustiada:
      "Ele no pode jantar conosco, porque no temos mais pratos." Ento, contei para ele, com ar acusador: "Mame quebrou toda a loua ontem de to pau da vida 
que ela ficou com o senhor."
      Isso no o abalou. Ele simplesmente informou:
      "Eu no poderia ficar, de qualquer modo." Lanou um olhar furtivo para a porta da frente. Na mesma hora me deu um estalo e eu gritei:
      "Ela est l fora! O senhor a trouxe at aqui!"
      "Gemma!", ele reagiu, mas eu j estava na porta e confirmei. Havia realmente uma mulher sentada no banco do carona do Nissan Sunny. Meu queixo quase caiu. 
Existia realmente outra mulher na vida dele. Papai no estava imaginando coisas por excesso de trabalho.
      Voc sabe como, nos livros, os autores sempre descrevem o olhar de mulheres que roubam o homem de outras como "duro" s para o leitor no sentir simpatia por 
elas. Pois bem, Colette era assim, tinha realmente um olhar duro. Logo que me viu na porta, ela fez uma cara de "no se meta comigo". Agindo como uma luntica, corri 
at o carro, grudei a cara no vidro fechado, bem junto dela, cobri o lbio superior com o inferior, arregalei os olhos e a xinguei de um palavro horrvel. Verdade 
seja dita, ela no demonstrou medo e no recuou um centmetro sequer; simplesmente me lanou um olhar frio com os olhos redondos muito azuis.
      Papai apareceu atrs de mim na mesma hora, ralhando:
      "Gemma, deixe-a em paz, a culpa no  dela." Em seguida, murmurou:
      "Desculpe, amor." E no foi para mim que ele disse isso! Completamente derrotada, tornei a entrar em casa e, acredite se quiser, Susan, sabe o que eu pensei...? 
Que ela tinha feito luzes e os seus cabelos eram mais bonitos que os meus.
      Papai ficou s mais uns cinco minutinhos, e ento, bem na hora de sair, fez surgir do bolso da (mal consigo digitar o nome) jaqueta de camura marrom quatro 
embalagens do tiramisu em barra que estavam em teste. Por um segundo, eu me senti quase comovida - pelo visto ele planejava nos manter  base de chocolate - , mas 
ento disse:
      "Contem-me suas impresses e me avisem caso achem que o sabor caf  forte demais.:"
      Eu atirei a minha barra de volta para ele, atingindo-o em uma das costeletas, e berrei:
      "Faa a sua prpria pesquisa de mercado!"
      Mame, porm, se agarrou  sua barra como se ela fosse um bote salva vidas.
      Logo depois estvamos novamente s mame e eu, sentadas em silncio, boquiabertas.
      Foi s ento que a sensao de choque tomou conta de mim por completo; nada daquilo parecia real. Eu no conseguia mais rodar programa nenhum em meu sistema.
      Como foi que aquilo tudo acontecera? O pior  que... Quer saber de uma coisa? Em meio a todos os outros sentimentos, eu ainda consegui um jeitinho de me sentir 
envergonhada. Isso  pssimo, mas a verdade  que. Nossa, s de pensar em meu pai pulando a cerca e fazendo outras coisas! E fazendo essas coisas com uma mulher 
da minha idade. J  terrvel imaginar os prprios pais fazendo sexo um com o outro, mas transando com pessoas de fora ainda  pior...
      Lembra de quando o seu pai se casou com Carol? E de como a idia de eles transarem um com o outro era to aterrorizante que chegamos  concluso de que estavam 
juntos s pelo companheirismo? Se ao menos eu conseguisse me convencer de que esse era o mesmo caso agora!
      E qual  o lance da tal Colette de olhar duro e cabelos com luzes? Meu pai  to quadrado que usa camiseta por baixo da roupa. Camiseta, d pra acreditar?
      Aaargh! Acabei de ter uma viso dos dois em plena transa.
      "Depois de tudo o que eu fiz por ele - lamentou mame. - Me abandonar agora, quando eu estou no crepsculo da vida. O que eu fiz de errado?"
      Sabe de uma coisa, Susan? Eu sempre tive medo de ter filhos por achar que no conseguiria enfrentar as desiluses amorosas deles durante a adolescncia, mas 
nem nos piores pesadelos eu achei que teria de enfrentar esse problema com a minha me.
      Voc sabe como ela  - a esposa perfeita, sempre preparando pratos deliciosos, mantendo a casa impecvel, nunca preocupando papai quando ele ficava angustiado 
com o fato de as barras de chocolate no venderem tanto quanto deveriam. E ela conseguiu manter a silhueta na menopausa. At o terrvel perodo de menopausa ela 
enfrentou com autoconfiana; nem uma vezinha sequer foi parada na porta do supermercado por tentar sair com uma lata de sardinhas escondida na sacola sem pagar. 
(Por que ser que  sempre uma lata de sardinhas?)
      S posso lhe garantir uma coisa: Isso me fez ficar muito cabreira com os homens. De que adianta? Voc lhes oferece toda a sua vida, se mata de cozinhar at 
defumar a cara no meio da fumaa, morre de fome para evitar a osteoporose e tudo isso para qu? Para eles jogarem voc pro alto bem na hora em que comea a sua descida 
rumo  velhice e trocarem voc por outra mulher que curte homens de camiseta e faz luzes no cabelo?
      "Ele no merecia a senhora", foi o que eu disse  minha me. Mas ela fez cara feia e me repreendeu. " do seu pai que voc est falando." Mas o que mais eu 
poderia dizer a ela? Que o mar est cheio de peixes? A senhora vai encontrar outra pessoa? Puxa vida, mame est com sessenta e dois anos: ela  boazinha, tem um 
jeito aconchegante e parece a vov de algum.
      Se voc tiver chance, ligue para mim. Estou na casa de mame. Ela est morrendo de medo de ficar sozinha, ento eu resolvi passar algum tempo aqui com ela, 
pelo menos at papai cair na real e voltar para casa.
      
      Beijos,
      Gemma
      
      P.S.- No se preocupe, eu no ligo de voc no estar sem Valium em casa e acho que o rum com Coca foi um timo substituto. Voc fez muito bem.
      
      Mame deixou que eu fosse ao meu apartamento pegar roupas limpas, porque era uma viagem de quinze minutos.
      - Se voc no voltar em quarenta minutos, eu vou ficar com medo - ela me garantiu.
      Nessas horas eu odeio ser filha nica. Mame teve dois abortos espontneos - um antes de eu nascer e outro depois - e no adiantou aquele monte de cavalinhos-de-pau 
e triciclos cor-de-rosa que nada disso compensou o fato de eu no ter irmos nem irms.
      Enquanto dirigia, meus pensamentos se voltaram para Colette e suas luzes. O maior choque era ela ter quase a mesma idade que eu. Ser que isso significava 
que meu pai andava paquerando minhas amigas? Ele tinha ficha limpa nessa histria de casos e flertes - at a vspera, essa idia me provocaria acessos de riso - 
, mas de repente eu analisava a possibilidade com outros olhos. Lembrei de como papai se comportava. Ele sempre fora muito legal com as minhas amigas e lhes oferecia 
chocolates sempre que elas apareciam, mas era por gentileza, quase o mesmo que convid-las para entrar em casa. E quando eu estava no fim da adolescncia, at os 
vinte e poucos anos, ele era o pai que costumava sair de casa s duas da manh com um casaco por cima do pijama, a fim de me apanhar, e a mais umas nove ou dez 
amigas pelas boates da cidade. Ns geralmente estvamos ligeiramente altas (pra no dizer "completamente tortas"), e foi memorvel a vez em que Susan abriu a janela 
de trs do carro e vomitou meia garrafa de Schnapps de pssego, deixando a porta do carro toda cagada. Papai no percebeu nada at a manh seguinte, quando, balanando 
as chaves na mo, saiu de casa para jogar golfe e reparo que uma das portas do carro estava coberta de vmito ressecado. Em vez de ficar alterado e ter chiliques, 
como aconteceu com o sr. Byers no dia em que Susan vomitou no seu canteiro de flores ("Diga quela fedelha para vir at aqui limpar essa sujeira! Ela nem devia ingerir 
lcool, para incio de conversa, porque  menor de idade, obviamente no agenta bebida!" etc., etc.), tudo que papai disse, balanando a cabea, foi: "Ah, querida! 
Aquela Susan..." e voltou para casa, a fim de pegar um balde com gua e um esfrego. Nessa hora eu achei que papai era simplesmente um sujeito gentil, mas agora 
estava matutando se no havia algo mais libidinoso por trs daquilo.
      Um pensamento revoltante.
      Peguei um monte de sinais vermelhos pelo caminho, o que acabou me atrasando, mas pelo menos a senha do porto eletrnico estava funcionando. Meu apartamento 
fica em um condomnio metido a besta, cheio de onda, e entre as muitas vantagens que oferece esto uma academia de ginstica (com aparelhos ridiculamente pobres) 
e um porto eletrnico instalado para proporcionar "segurana". O problema  que, quase sempre, a senha do porto no funciona e as pessoas no conseguem sair do 
prdio para trabalhar, ou no conseguem entrar em casa na volta do trabalho, dependendo da hora do dia em que o troo enguia.
      Dei uma olhada na correspondncia - seis ou sete folhetos anunciando power yoga e irrigao do clon - e verifiquei a secretria eletrnica: nada urgente; 
todo mundo terminava a mensagem dizendo: "Vou tentar ligar para o celular." (At parece que vo me achar. Minha vida seria muito mais fcil se os celulares tivessem 
rodinhas e me seguissem por toda parte.) Em seguida peguei meus apetrechos de maquiagem, roupa de baixo e o carregador do celular. Joguei tudo em uma bolsa e tentei 
achar roupas para trabalhar que estivessem limpas. Encontrei uma blusa passadinha a ferro em um dos cabides, mas precisava de duas. Uma expedio pelas gavetas resultou 
na localizao de outra, mas de repente eu me lembrei que o motivo de ela estar ali, intocada,  que havia manchas amareladas por baixo dos braos, manchas que no 
haviam sado com a lavagem e eu preferi no us-la mais. Pois agora ela ia ter que servir; resolvi que no tiraria o casaco. Por fim, guardei o terno riscas-de-giz
      e os sapatos de salto alto. (Eu nunca uso salto baixo. Meus sapatos geralmente so to altos que s vezes, quando eu os tiro, as pessoas olham em volta, confusas, 
e perguntam "Para onde ela foi?", e eu tenho de dizer: "Estou aqui embaixo.")
      Antes de sair lancei um olhar melanclico para a minha cama; naquela noite eu iria dormir no quarto de hspedes da casa de meus pais, e no seria a mesma coisa. 
Eu adoro a minha cama. Deixe-me lhes dizer por qu...
      
     Algumas das minhas coisas favoritas
     Coisa favorita N 1
     Minha Cama: uma histria de amor
      
      Minha cama  linda. No  uma cama velha qualquer no.  uma cama que eu mesma montei, mas isso no significa que ela veio de alguma loja com moblia em estilo 
"monte voc mesmo". Primeiro, eu comprei um colcho carssimo, ou seja, no era o mais barato da loja. Acho que era o terceiro mais barato. Isso  que  extravagncia!
      Depois comprei a base. Eu no tenho apenas um, mas dois edredons. Um deles serve para me cobrir, obviamente. O outro, porm - vocs vo gostar disso - , fica 
por baixo do lenol e eu me deito por cima dele.  um truque que a minha me me ensinou, e no d para descrever a maravilha que  cair na cama e ser acolhida por 
esse envelope duplo macio e recheado de plumas. Os dois edredons parecem me acariciar, murmurando: Est tudo bem agora. Voc est em nossos braos, fique numa boa. 
Esquea seus medos, agora est tudo bem, voc est a salvo - como o heri faz com a mocinha da histria no fim do filme, depois de ela ter fugido o tempo todo dos 
patifes do FBI e ter finalmente conseguido expor as safadezas deles sem levar nenhum tiro.
      Os lenis, o revestimento dos edredons e as fronhas so todos de algodo,  claro. Alm disso, so completamente brancos, brancos,imaculadamente brancos (com 
exceo de algumas manchas de caf).
      O detalhe especial  a cabeceira, tambm conhecida como a melhor parte. Claud, um amigo de Cody, foi quem a fez para mim (eu paguei pelo servio, no foi presente 
no...). Ela parece at cabeceira de cama de uma estrela de cinema dos anos cinqenta: imensa, acolchoada, cheia de curvas e voltinhas, estofada em seda bronze-claro 
com algumas rosas estampadas;  um pouco conto de fadas, um pouco Art nouveau... Em outras palavras:  fantstica! As pessoas sempre reparam nela. Para falar a verdade, 
a primeira vez que Anton a viu, exclamou; "Olhe s para a sua cama!  super feminina!", e deu uma gargalhada gostosa antes de me arrastar para cima dela em companhia 
dele. Ah, dias felizes...
      Pois bem: lancei um ltimo olhar pesaroso para a minha cama, desejando no abandon-la, e consultei, como sempre, as minhas irms imaginrias. "V voc cuidar 
da mame!", disse eu  primeira. "Afinal, voc  a mais velha." Como no adiantou nada, acabei indo eu mesma.
      
      Ao sair do carro e entrar em casa com meu terno impecvel e minhas blusas limpas, mame perguntou:
      - Para que voc precisa dessas roupas?
      - Para trabalhar.
      - Trabalhar? - Pareceu que ela nunca tinha ouvido falar em tal coisa.
      - Sim, senhora. Trabalhar.
      - Quando?
      - Amanh.
      - No v.
      - Mame, eu tenho que ir. Vou perder o emprego se no for.
      - Tire uma licena especial.
      - Eles s do licenas desse tipo quando algum da famlia morre.
      - Eu gostaria que ele tivesse morrido.
      - Mame!
      - Mas gostaria, mesmo. Receberamos uma tonelada de simpatia e solidariedade das pessoas. Alm de respeito. E os vizinhos todos iriam trazer comida.
      - Quiches - disse eu (porque era o que eles levavam).
      - Tortas de ma tambm. Marguerite Kelly leva uma torta de ma maravilhosa para os funerais (isso foi dito com um certo ar de amargura, e vocs sabero por 
que em um minuto). Em vez de ter a decncia de morrer, ele arrumou uma namorada e me abandonou. E agora vem voc me falar nessa histria de ir trabalhar. Tire alguns 
dias de frias.
      - No sobrou nenhum.
      - Licena mdica, ento. O dr. Bailey pode lhe dar um atestado. Eu pago a consulta.
      - Mame, eu no posso. - Comecei a entrar em pnico.
      - Mas o que h de to importante?
      - O casamento de Davinia Westport  na quinta-feira que vem.
      - Grande coisa!
      Trata-se de um dos casamentos mais badalados do ano, para ser exata. O mais importante, complexo, caro e aterrorizante evento que eu j aceitei organizar, 
e s a logstica da coisa me ocupou durante meses, tanto acordada quanto dormindo.
      S a decorao com flores  uma tarefa que envolve cinco mil tulipas que vo chegar da Holanda em um avio frigorfico, alm de um especialista em flores e 
mais seis assistentes que vm de Nova York. O bolo vai ser uma rplica da Esttua da Liberdade com quase quatro metros de altura, mas ele vai ser esculpido em sorvete, 
ento s poder ser preparado momentos antes da festa. A tenda, grande o bastante para acomodar quinhentos convidados, vai ser armada em um campo de Kildare na segunda-feira 
 noite e dever estar devidamente transformada em um pas das maravilhas rabes at quinta de manh. Como Davinia - que, tirando essas excentricidades,  uma garota 
simptica e sensata - resolveu se casar em uma tenda rabe no ms de janeiro, eu ainda tentava conseguir aquecedores em nmero suficiente para garantir que ningum 
congelasse durante a festa. Isso entre outras coisas... Muitas, muitas outras coisas. O fato de Davinia ter me escolhido para organizar o seu casamento de sonhos 
funcionava como um verdadeiro selo de aprovao. Em compensao, o meu nvel de estresse  uma coisa que no d para descrever. Os chefs podiam se envenenar com 
a prpria comida, os floristas podiam desenvolver uma inesperada alergia a plen, os cabeleireiros podiam destroncar os pulsos, a tenda podia ser vandalizada, pois, 
no fim de tudo, quem ia ter de resolver o problema era eu.
      S que eu no poderia contar nenhum dos detalhes para mame, porque era tudo altamente confidencial, e ela conseguia ser pior do que eu para guardar segredos 
- metade do bairro j sabia do lanamento da barra de chocolate sabor tiramisu.
      - Mas se voc for para o trabalho, o que vai ser de mim?
      - Talvez pudssemos pedir a uma das vizinhas para vir aqui passar o dia com a senhora.
      Silncio.
      - Pode ser, mame? Porque, como a senhora sabe, eu recebo salrio para aparecer l, coisa que eu no fao h dois dias.
      - Que vizinhas?
      - Ahnnnn...
      Um recente abalo modificara o delicado equilbrio na estrutura da comunidade local. Durante muito tempo, parecia que toda a vizinhana era formada de mulheres 
da mesma idade de mame ou mais velhas, e todas se chamavam Mary, Maura, May, Maria, Moira, Mary, Maree, Mary, Mary e Mary. A nica exceo era a sra. Prior, cujo 
nome de batismo eu no lembro, s sei que era holandesa. Elas estavam sempre passando l em casa a fim de entregar envelopes para a coleta da igreja, pedir um pulver 
emprestado ou... ou... Vocs sabem, esse tipo de coisa.
      Recentemente, porm, trs ou quatro das Marys haviam se mudado: Mary e o sr. Webb venderam a casa e se mudaram para um apartamento em um condomnio para aposentados, 
"agora que as crianas cresceram"; O sr. Sparrow morreu e Mary Sparrow, grande amiga de mame, foi morar com a irm em Wales. Quanto s outras duas Marys? Confesso 
que no lembro, pois no prestava tanta ateno quanto deveria aos relatos de mame sobre os eventos locais. Ah, lembrei!... Mary Griffin e o marido foram para a 
Espanha, por causa da artrite dela. E quanto  outra Mary?... Ah, sei l, mais tarde eu me lembro.
      - A sra. Parsons - sugeri. - Ela  simptica. Ou ento a sra. Kelly.
      Essa no foi uma grande idia, conforme pude perceber na mesma hora. As relaes andavam abaladas - educadas, como sempre,  claro, mas desgastadas - desde 
que a sra. Parsons pedira  sra. Kelly para preparar o bolo do aniversrio de vinte e um anos de Celia Parsons, em vez de pedir isso  minha me, que, conforme todo 
mundo no pedao sabia muito bem, era quem fazia os bolos de vinte e um anos de todos os moradores da nossa rua; ela os montava no formato de uma chave. (Isso tudo 
aconteceu h mais de oito anos, o problema  que guardar rancor  um dos hobbies por aqui.)
      - A sra. Kelly - tornei a sugerir. - No foi culpa dela a sra, Parsons ter lhe encomendado o bolo.
      - Mas ela no devia ter aceitado a tarefa. Devia ter se recusado.
      Suspirei. J havamos conversado sobre aquele assunto umas mil vezes.
      - Celia Parsons no queria uma chave, queria uma garrafa de champanhe.
      - Dodie Parsons poderia ter me perguntado, pelo menos, se seu conseguiria fazer um bolo assim.
      - Talvez, mas ela sabia que a sra. Kelly tinha um livro sobre decorao de bolos.
      - Pois eu no preciso de livro para seguir. Consigo ter idias prprias.
      - Exato! A senhora  o mximo!
      - E todo mundo comentou que a massa do bolo estava seca e esfarelada como areia.
      -  verdade.
      - Ela devia se manter na sua rea de especializao: tortas de ma para funerais.
      - Tudo bem, mas agora falando srio, mame... No foi culpa da sra. Kelly
      Era importante promover um estreitamento de relaes entre mame e a sra. Kelly porque eu no podia mais tirar folgas no trabalho. Francis e Frances - sim, 
esses mesmo, os F&F da F&F Dignan - ficaram muito satisfeitos quando eu consegui o contrato para organizar o casamento de Davinia e me disseram que se tudo sasse 
perfeito eu poderia ficar com todas as bodas da empresa. Se, por outro lado, eu estragasse tudo, j viram, n...? O fato  que eu morria de medo de Frances e Francis. 
Todo mundo morria. Frances tinha um cabelo grisalho cortado em estilo joozinho e isso realava seu maxilar de lutador de boxe. Embora ela no fumasse charutos, 
no usasse calas de homem nem se sentasse com as pernas abertas, era assim que eu a via sempre que fechava os olhos - coisa que no acontecia com freqncia, pelo 
menos voluntariamente. Francis, seu companheiro de maldades, parecia um ovo com pernas: todo o peso do seu corpo se concentrava na altura do estmago, mas seus membros 
inferiores pareciam dois palitos e eram mais magros do que as pernas de Kate Moss. Ele tinha o rosto redondo e era careca, exceto por dois tufos de cabelo que pareciam 
espetados nas orelhas, o que o tornava muito parecido com Yoda. Quem no o conhecia direito o achava um bundo. Todos diziam que era Frances quem mandava e desmandava, 
mas estavam errados: todos dois sabiam mandar e desmandar, cada um ao seu modo
      Se alguma coisa sasse errada naquele casamento, eles me mandariam para a SSJ (A Sala sem Janelas, a verso deles para a sala 101) e diriam que eu os desapontara. 
Depois, quase como quem comenta um detalhe, me dariam um p na bunda. Por serem casados, muitas vezes apregoavam aos quatro ventos que a empresa, para eles, era 
como uma famlia. Eles certamente conheciam muito bem a frmula para me fazer sentir uma colegial culpada e incentivar outras gerentes de relacionamento (entre elas, 
eu mesma) a competir acirradamente com os colegas, como se aquilo fosse - segundo fui informada por quem sabe dessas coisas - uma saudvel rivalidade entre irmos.
      Mas vamos em frente.
      - Ento, mame...? Posso pedir  sra. Kelly para vir aqui?
      Mame continuava muda.
      De repente abriu a boca. Por alguns instantes, nenhum som saiu, mas eu sabia que vinha algo. Ento, de algum ponto longnquo do fundo da sua alma, veio um 
longo e doloroso lamento de dor. Era quase como um rudo de esttica, mas com um fundo levemente humano. Foi de arrepiar. Prefiro um bom quebra-quebra de pratos 
a qualquer hora do dia a encarar aquilo.
      Ela piou, respirou fundo e recomeou a emitir o som de esttica.
      Eu balancei o seu brao e implorei:
      - Mame! Por favor, mame!
      - Noel se foi. Noel se foi. - Nesse momento, o som de esttica parou e ela comeou a guinchar de forma incontrolvel, exatamente como fizera naquela manh, 
quando eu tive de acalm-la com os comprimidos de emergncia do dr. Bailey. S que o remdio acabara; eu devia ter ido  farmcia quanto tive chance. Ser que havia 
alguma farmcia aberta at tarde, em algum lugar?
      - Mame, vou s pedir a algum para vir ficar com a senhora enquanto eu vou comprar o remdio.
      Ela no me deu ateno. Voei porta afora, segui rua acima at a casa da sra. Kelly. Quando ela atendeu a porta e viu o estado em que eu me encontrava, obviamente 
achou que era hora de preparar a massa e descascar mas para fazer uma torta.
      Expliquei-lhe meu problema e ela disse que conhecia uma farmcia ali perto.
      - Eles fecham s dez.
      Eram dez para as dez. Hora de ganhar uma multa por excesso de velocidade.
      Dirigi como uma louca e cheguei  farmcia um minuto depois das dez, mas ainda havia algum ali dentro. Bati  porta de vidro. Um homem veio caminhando com 
toda a calma do mundo e abriu a porta para mim.
      - Obrigada! Muito obrigada, mesmo! - Entrei.
      -  bom ser to querido - comentou ele.
      Eu lhe entreguei a receita toda amarrotada.
      - Por favor, me diga que o senhor tem esse remdio aqui.  uma emergncia!
      Ele alisou o papel e disse:
      - No se preocupe, ns temos esse produto, sim. Sente-se ali enquanto eu pego.
      Ele sumiu atrs de um biombo branco e foi at onde ficavam os remdios mais fortes enquanto eu afundava na cadeira, tentando retomar o flego.
      - Isso mesmo! - Ouvi a voz incorprea dele por trs do biombo de frmica. - Respire fundo e bem devagar. Inspire... Segure... Solte.
      Ele reapareceu com os tranqilizantes e me disse, com voz suave:
      - Cuide-se bem e lembre-se: nada de operar mquinas pesadas depois de ingerir esses comprimidos.
      - Certo. Obrigada. Muito obrigada. - Quando eu estava atrs do volante, foi que me dei conta de que ele achou que o remdio era para mim.
      
     
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      Normalmente eu no leio as resenhas de livros e por isso levei algum tempo para localiz-las no jornal de sbado. Enquanto lia por alto os artigos a respeito 
de biografias de obscuros generais ingleses e um livro sobre a guerra dos beres, comecei a suspeitar que daquela vez Cody estava enganado. De repente o meu corao 
deu um salto que me machucou o peito. O danado do Cody tinha razo. A resenha que eu procurava havia sado. Ele sabe tudo.
      
     ESTRIA ENCANTADORA
      
      [As Poes de Mimi, de Lily Wright - Editora Dalkin Emery - E6.991]
      
      A estria de Lily Wright no  bem um romance, e sim uma fbula longa - e no h nada de mal nisso. Uma bruxa branca, a Mimi do ttulo, chega misteriosamente
      a uma pequena cidade de localizao indeterminada e d incio ao seu tipo muito particular de bruxaria. Casamentos abalados so fortalecidos e amantes separados 
voltam a se encontrar. Parece aucarado demais para ter substncia? Pois segure o ceticismo e siga o fluxo da leitura. Em um texto enredado em magia, As Poes de 
Mimi consegue ser uma encantadora comdia de costumes e ao mesmo tempo uma cida crtica social.  to saboroso quanto uma torrada coberta com manteiga em uma noite 
fria e igualmente viciante.
      
      Com as mos trmulas, larguei o jornal. Acho que eles gostaram. Respire fundo... Prenda... Solte bem devagar. Respire fundo... Prenda... Solte bem devagar. 
Oh, Deus, eu estava com inveja. Com tanta inveja que sentia o sangue ficar verde e quente, correndo nas veias.
      Percebi tudo naquele instante: Lily Wright iria se tornar uma celebridade. Apareceria em um monte de jornais e todos iriam am-la. Apesar do seu cabelo ralo, 
ela estaria nas pginas da revista Hello! Iria aparecer no Parkinson. Talvez at no David Letterman e na Oprah. Ia se encher de grana, finalmente conseguiria pagar 
um entrelaamento capilar ao estilo Burt Reynolds e todos iriam am-la ainda mais. Ela se envolveria com obras de caridade e ganharia um prmio. Teria sua prpria 
limusine. E uma casa gigantesca. Com segurana particular Ela teria tudo!
      Tornei a pegar o jornal e li novamente toda a resenha em busca de algo - qualquer coisa - negativo. Tinha de haver alguma coisa. Quanto mais eu lia, porm, 
mais me convencia de que aquela resenha demonstrava entusiasmo puro.
      Afastei o jornal de mim com raiva, fazendo-o farfalhar. Por que a vida era assim to cruel? Por que algumas pessoas conseguiam simplesmente tudo? Lily Wright 
tem um homem maravilhoso - meu; tem uma linda garotinha - metade minha; agora, tem uma gloriosa carreira. No era justo.
      Meu celular tocou e eu o atendi correndo. Era Cody.
      - Voc leu? - perguntou ele.
      - Sim. E voc?
      - Eu tambm li. - Um momento de silncio. - Foi legal para ela.
      Cody caminha sobre uma linha muito estreita entre mim e Lily. Recusou-se a tomar partido quando a grande briga ocorreu, e nunca fala mal dela, embora, sob 
circunstncias normais, ele poderia representar a Irlanda em campeonatos de falar mal a distncia (se isso fosse um esporte olmpico, por exemplo). Certa vez ele 
teve a cara-de-pau de sugerir que o fato de Lily roubar Anton de mim talvez tivesse provocado tanta dor nela quanto em mim. E ele falava srio! Em teoria, eu consigo 
entender a posio de Cody - Lily no fizera nada contra ele - , mas s vezes, como naquele dia, ouvir aquilo era uma barra para aturar.
      Era manh de sbado, e fazia cinco dias desde que papai sara de casa - cinco dias - e ainda no voltara. Eu tinha certeza de que a essa altura ele j teria 
voltado. Foi isso que me impediu de ir embora: achar que a situao era muito, muito temporria; que ele deixara a empolgao lhe subir  cabea, por causa do estresse 
provocado pelo lanamento da barra sabor tiramisu, mas logo estaria de volta com os ps no cho.
      Fiquei esperando, esperando e esperando. Fiquei esperando o barulho da sua chave na fechadura; fiquei esperando v-lo aparecer no saguo de entrada e reclamando 
do terrvel erro que cometera; fiquei esperando aquele inferno acabar.
      Na quinta-feira eu telefonara para papai quatro vezes pedindo para ele voltar para casa, e a cada vez ouvi a mesma resposta - que ele sentia muito, mas no 
ia voltar. Ento cheguei  concluso de que j ligara muito para ele e que talvez alguns dias de silncio de minha parte e de mame o fizessem voltar  realidade.
      Uma semana. Resolvi dar uma semana de prazo a ele. A essa altura, ele j teria voltado. Tinha de voltar, porque a alternativa era impensvel.
      No fui trabalhar na quinta nem na sexta-feira. No consegui, estava preocupada demais com mame. Mas trabalhei na casa dela. Passei a quinta-feira dando telefonemas, 
enviando faxes e e-mails, agitando os preparativos para o casamento de Davinia. Consegui at mesmo enviar uns dois e-mails para Seattle, desabafei um pouco mais 
com Susan e acabei concordando com ela. Sim, o palet do papai poderia ser mais feio... Ele poderia ter franjas.
      Na manh de sexta-feira, Andrea foi at a casa de mame com as pastas do evento e ns verificamos todas as listas. Os preparativos do casamento de Davinia 
Westport consistiam em uma infinidade de listas que no paravam de crescer. Havia a lista dos horrios de chegada dos convidados, a lista dos motoristas encarregados 
de ir busc-los, a lista de onde cada um deles iria ficar hospedado, bem como das suas exigncias individuais.
      (Eu adoro listas e s vezes, ao dar incio aos preparativos de algum evento, coloco coisas na lista que na verdade j foram encaminhadas ou resolvidas, s 
para poder riscar alguns itens depois e escrever OK do lado.)
      Depois, vieram os cronogramas. Boletins de hora em hora sobre quando a grande tenda seria erguida, em que momento os hectares de cetim iriam chegar, quando 
o piso de madeira seria instalado e tambm a iluminao e o sistema de aquecimento. Estvamos fazendo grandes avanos at na tarde de sexta-feira, quando Davinia 
telefonou para avisar que um casal de amigos, Blue e Sienna, havia rompido o relacionamento, e eles no poderiam mais ser colocados na mesma mesa durante a festa. 
Todo o resto do planejamento teve de ser paralisado pelas duas horas que se seguiram, enquanto construamos um novo esquema para a distribuio dos convidados. O 
pior  que essa pequena perturbao na superfcie provocou ondas de choque que se espalharam por todo o mapa de localizao dos convidados para a festa, porque todos 
pareciam ter dormido com todos os outros. Cada um dos movimentos propostos tinha um impacto negativo: Sienna no poderia sentar  mesa quatro porque a nova namorada 
de Blue, August, seria instalada l. Tambm no poderia se sentar  mesa cinco porque o seu ex, Charlie, ficaria ali. Na mesa seis estava a ex de Blue, Lia, que 
ele dispensara para ficar com Sienna. Na mesa sete... etc. O pior  que se ns tentssemos remover algum dos obstculos - colocando August em uma nova mesa, por 
exemplo - , ela acabaria cara a cara com algum que j chifrara ou com quem simplesmente dormira. Era como tentar rearrumar um Cubo Mgico.
      O que piorava as coisas era o fato de eu no conseguir a ateno total de Andrea. Ela no tirava os olhos das barras de chocolate que estavam casualmente atiradas 
ao longo do peitoril da janela da cozinha, dentro do cesto de po e em cima da geladeira.
      - Vir aqui  como estar solta em uma loja de doces! - exclamou ela.
      Como um monte de barras de chocolate sempre esteve  minha disposio durante toda a minha vida, eu no tinha essa empolgao toda por elas, mas at que aquela 
abundncia estava sendo providencial desde tera-feira. Mais alarmante do que mame ter perdido a vontade de viver foi ela ter perdido a vontade de cozinhar. Como 
eu no tinha a menor idia de como se preparava comida, era mais fcil me encher de biscoitos com chocolate quando chegava a hora das refeies.
      Dei de presente a Andrea um punhado de chocolates, na esperana de ela se concentrar no trabalho.
      - Fique focada - implorei. - Faa isso por Davinia, se no quiser fazer por mim.
      Sabem o que acontece...? Davinia Westport era uma espcie de pssaro raro em nossa profisso. Embora fosse elegante e podre de rica, era gente fina. (Exceto, 
como eu j expliquei, pelo fato de insistir em se casar sob uma tenda rabe no ms mais frio do ano.) Muitas vezes o cliente  a pior coisa do meu trabalho; pior 
at mesmo do que sales de festa que pegam fogo dois dias antes do casamento ou convidados em um evento para levantar fundos que se intoxicam com a salmo nela do 
frango e tm de ser levados s pressas para a emergncia, onde colocam as prprias tripas para fora enquanto rola o sorteio da rifa. Davinia era diferente. No me 
telefonava desesperada no meio da noite reclamando que a sua suter de gola rul chegara com o tom errado de preto, ou que estava com herpes e era melhor eu resolver 
esse problema.
      Andrea e eu acabamos tudo mais ou menos s oito da noite de sexta-feira. Assim que ela saiu, cheia de gratido pelo estoque de doces que eu lhe dera, mame 
me apareceu com a lista de compras de supermercado para a semana seguinte. Acabou no indo comigo porque nas vrias vezes em que sugeri que fosse se aprontar, ela 
agarrava a sua camisola cor-de-pssego (cada vez mais amarrotada), apertava-a mais junto do corpo e choramingava: "No me obrigue a fazer isso." S que quando eu 
voltei e comecei a desempacotar as coisas, ele comeou a reclamar que eu tinha comprado tudo errado.
      - Para que comprou essa manteiga? - quis saber ela, olhando para mim com a mesma cara intrigada da primeira noite, quando descobriu que eu no trancara a porta 
da frente. - A marca que ns usamos  outra. E no gostamos de sucrilhos de marcas conhecidas, preferimos o genrico. Voc est jogando dinheiro fora... - resmungou.
      Antes de eu ir para a cama, a saga de fechar toda a casa tinha incio; verificar todas as janelas, prender as portas duplas com tranca, passar a corrente nas 
portas externas e deixar o lugar to seguro quanto os altos padres de mame exigiam. Estava exausta quando fui para a cama, me arrastando - e no consegui deixar 
de sentir um pouco de pena por mim mesma. Era noite de sexta e eu devia estar l fora, em alguma balada, em vez de servindo de bab para minha me. Como eu gostaria 
que papai voltasse para casa...!
      Como estava chateada demais para conseguir pegar no sono, eu me refugiei em fantasias. Inventar histrias em que namorados fujes voltam e inimigos so vencidos 
 o meu truque principal para apresentar em festas e reunies. Consegui uma reputao excelente nessa rea, especialmente entre os amigos de Cody, e, s vezes, pessoas 
que eu acabo de conhecer me pedem para inventar uma histria para elas.
      Vou contar como funciona. Geralmente, as pessoas me fazem um pequeno esboo do desastre. Por exemplo: o namorado de algum  avistado na Brown Thomas comprando 
uma bolsa da Burberry e pedindo que a embrulhem para presente. Naturalmente, a jovem em questo imagina que o presente  para ela e faz o que qualquer mulher sensata 
faria - vai correndo comprar sandlias para combinar com a bolsa. S que quando ela encontra o namorado, o cara desmancha o namoro... Sem nem ao menos amortecer 
o golpe dando a bolsa de presente. Obviamente ele acabou de conhecer outra pessoa!
      Em seguida, recolho um pouco mais de informaes do tipo "quanto tempo eles tm de namoro", "qual o preo da bolsa" etc. Penso por alguns instantes e surjo 
com alguma coisa assim:
      "Muito bem, imagine a cena... Daqui a trs meses voc se encontra com ele na rua, por acaso, e vai estar mais linda do que nunca... " Uma pausa para planejar 
o visual, incluindo o cabelo e as descries da roupa - sim, voc pode vestir as calas listradas que viu na Vogue e, sim, elas ficam fantsticas com o top de gola 
em V. (Tudo bem, gola alta, se ela preferir.) E ela tambm estar usando as botas que acabaram de entrar na moda, obviamente. - Em seguida, eu continuo. "As bolsas 
da Burberry acabaram de entrar em liquidao e voc comprou duas. No, no, espere um instante... Voc no comprou nenhuma, pois quem vai desejar bolsas que ningum 
mais quer? No, nada disso... Voc ganhou um bnus no trabalho e comprou uma Orla Kiely legtima, daquelas com fila de espera para a entrega da fbrica; alm do 
mais, acabou de voltar das frias em um lugar ensolarado, onde pegou ictercia, de modo que est no apenas magra como um palito, mas tambm com uma cor maravilhosa. 
Em compensao, o carro dele acabou de ser rebocado em meio a uma chuva torrencial e um dos seus sapatos acabou de ser roubado por
      um larpio violento daqueles que freqentam o centro da cidade."Etc, etc...  a minha ateno aos detalhes que as pessoas adoram, segundo me contaram, e quando 
Anton fugiu com Lily, eu fui um caso tpico da sonhadora que cura a si mesma.
      O enredo no qual tentei buscar conforto envolvia escapulir para uma remota comunidade rural tpica dos livros romnticos da Mills & Boon. Uma cidadezinha  
beira-mar, evidentemente; um marzo fantstico, muito agitado, com ondas imensas, muita espuma e tudo a que eu tenho direito. Eu sairia para dar longas e loucas 
caminhadas ao longo da praia ou  beira dos rochedos; enquanto andava a esmo com ar sombrio, um fazendeiro musculoso me avistaria e, mesmo eu estando com os cabelos 
desgrenhados e sem corte, ele iria se interessar por mim.  claro que ele no era apenas um fazendeiro, mas tambm um diretor de cinema ou um ex-empresrio que acabou 
de vender sua inovadora companhia por milhes de libras. Eu teria um ar etreo e frgil, mas, por ter sido to magoada recentemente, seria rude com ele ao encontr-lo 
na vendinha do vilarejo, apesar de ele tentar ser gentil comigo. Entretanto, em vez de me chamar de vaca grosseira, como faria na vida real, e voltar correndo para 
a piranha da cidadezinha, ele passaria a me deixar dois ovos frescos na porta de casa, todas as manhs. Eu voltaria da minha caminhada solitria ao longo do penhasco 
e encontraria os ovos - ainda com o calor da galinha,  claro - esperando para ser comidos no desjejum.
      (O fato de meu caf-da-manh normalmente ser um mini-Magnum e trs tigelas de cereais em bolinhas no vem ao caso.) Eu prepararia uma deliciosa omelete temperada 
com a salsinha colhida no lindo jardim ao lado da casa. Ou ento ele me deixaria um buqu de flores do campo recm-colhidas, e na vez seguinte em que nos encontrssemos 
eu no perguntaria, com ar de deboche: "J percebi que a Interflora no faz entregas aqui, certo?" Em vez disso, eu agradeceria a ele e lhe informaria que rannculos 
amarelos so as minha flores prediletas (at parece...!). Em algum ponto da histria, eu acabaria dentro da cozinha dele, de onde o veria l fora, amamentando um 
pequeno cordeiro com uma mamadeira, e meu corao congelado comearia lentamente a derreter. At certa manh, quando, durante a minha caminhada, um pedao do penhasco 
iria desmoronar, me carregando junto para o abismo. Apesar dos avisos de que as bordas das trilhas estavam instveis, eu, como se desejasse a morte, no lhes dera 
ouvidos. De algum modo, porm, o fazendeiro musculoso estaria presente no exato instante da queda, e, vendo-me pendurada sobre o mar revolto em meio  nvoa salgada, 
viria correndo com seu trator, algumas cordas e me resgataria da pequena salincia da rocha em que eu conseguira, felizmente, me segurar, de forma instvel. Nossa, 
quanta baboseira nessa terra do "felizes para sempre"!
      
     
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      PARA: Susan -inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: o drama continua
      
      Espere s para ouvir isso. Ontem  noite eu estava na cama, tentando me confortar com a fantasia do fazendeiro que tambm  diretor de cinema, quando ouvi 
um rudo vindo do quarto de mame. Parecia algum batendo na parede, e de repente ela estava chamando, com voz de lamento: "Gemma Gemma...l", s que era mais ou 
menos assim: "Ddgeemmmaaah ddgemmmaaah...!" Eu corri at l e ela estava meio de lado, torcendo - se toda na cama como um hadoque moribundo e dizendo: "Meu corao!" 
(Viu s...? As pessoas realmente fazem isso na vida real.) "Estou tendo um infarto!"
      Eu acreditei nela - mame estava cinza, seu peito arfava e seus olhos ficaram esbugalhados. Agarrei o telefone ao lado da sua cama com tanta fora que ele 
caiu no cho.
      Isso  o troo mais estranho, ligar para o nmero de emergncia - eu s fizera isso uma vez na vida: Anton estava com uma assustadora crise de soluos e eu 
completamente bbada. (Na verdade, ele tambm, e esse era o motivo dos soluos.) J havamos tentado de tudo para acabar com os soluos. Passar um pedao de metal 
gelado (a chave da porta) pelas costas dele, beber pelo lado errado da xcara, analisar o seu extrato bancrio para ver o quanto ele estava no vermelho. Na hora, 
aquilo me pareceu uma emergncia, mas a telefonista foi curta, grossa e me dispensou.
      Agora a histria era diferente. A telefonista me levou muito a srio, disse para eu colocar a mame em posio de recuperao (o que quer que isso queira dizer) 
e me garantiu que uma ambulncia estava a caminho. Enquanto espervamos, segurei a mo de mame e fiquei implorando para que ela no morresse.
      - Pois morrer  o que eu pretendo - informou ela, com a voz ofegante.
      - Isso seria uma boa lio para o seu pai.
      O pior  que eu nem tinha o telefone da nova casa de papai. Devia ter insistido para que ele me desse o nmero da Colette cara-dura, para o caso de emergncia, 
mas tive vergonha de pedir.
      Mame respirava com dificuldade, fazendo fora para inspirar - garanto que foi uma cena apavorante - , e eu no acreditava em tamanha falta de sorte. Imagine 
s! Perder os dois pais na mesma semana! Aquilo no apareceu no meu horscopo do jornal de domingo.
      Foi uma daquelas vezes em que desejei que as aulas noturnas de outono que voc e eu costumvamos freqentar (para desistir sempre na terceira semana) tivessem 
sido de primeiros socorros, em vez de ioga ou conversao em espanhol. Quem sabe eu teria aprendido alguma coisa que fizesse a diferena entre a minha me viver 
ou morrer?
      Eu meio que me lembrava de algo relacionado a aspirina. Parece que havia alguma coisa a ser feita com esse remdio, em caso de infarto. Voc devia dar um comprimido 
de aspirina  pessoa ou no devia dar um comprimido desses de jeito nenhum?
      A distncia, ouvi o som das sirenes cada vez mais prximas, e ento, atravs das cortinas do quarto, vi luzes azuis piscando e girando. Corri para a porta 
da frente e dez minutos depois, quando consegui destrancar todas as fechaduras, trincos, trancas e correntinhas, dois rapazes muito musculosos (voc ia gostar deles, 
Susan) irromperam em casa, seguiram pelos degraus acima com uma maca dobrvel, prenderam mame nela, desceram escada abaixo comigo atrs tentando acompanh-los e 
a colocaram na ambulncia. Eu entrei na ambulncia com ela e de repente eles j ligavam mame a todo tipo de monitores.
      Fomos fazendo "Unn..." atravs das ruas, enquanto os homens examinavam tudo e acompanhavam os resultados nos aparelhos ligados  minha me. No sei explicar 
como descobri, s sei que senti rapidamente a atmosfera mudar de extrema eficincia para algo menos agradvel. Os dois caras ficaram trocando olhares meio engraados 
e o n no meu estmago piorou.
      - Ela vai morrer? - perguntei.
      - No.
      - No...?!
      Um dos sujeitos explicou:
      - No h nada errado com a sua me. Nada de infarto, nada de derrame. Todos os sinais vitais esto timos.
      - Mas ela quase no conseguia respirar - expliquei. - E ficou com a cara cinza.
      - Provavelmente foi um ataque de pnico. Consulte um clnico geral e pea para ele receitar um Valium para ela.
      D pra imaginar o mico?! A sirene foi desligada. A ambulncia pegou um retorno e comeou a fazer o caminho de volta, a uma velocidade muito menor. Mame e 
eu fomos levadas de volta para casa e deixadas do lado de fora do porto. Morrendo de vergonha. Os rapazes at que foram legais a respeito do lance. Quando eu saltei 
e pedi desculpas por faz-los perder tempo, eles disseram apenas: "Tudo bem, no esquente!"
      Voltei para a cama e, juro por Deus, senti o rosto vermelho de vergonha, pegando fogo. Toda vez que comeava a pegar no sono, eu me lembrava do vexame, soltava 
um "Aaargh!" e me sentava na cama. Levei horas para conseguir dormir e, quando acordei, no sbado de manh, foi o dia em que li a elogiosa resenha do livro de Lily 
no Irish Times (anexada a este e-mail, estou enviando a cpia do artigo tirada do site do jornal).
      Odeio a minha vida.
      Apesar disso, estou feliz por estar divertindo voc. Logo voc vai fazer novas amizades e no vai mais se sentir to sozinha.
      Agora preciso ir, porque o dr. Bailey est aqui (de novo!). Por favor, me escreva contando coisas legais a respeito de Seattle.
      
      Beijos,
      Gemma
      
      P.S. - Eu no devia fazer graa, mas se voc realmente est louca para saber, achei o sabor caf concentrado demais e preferi o de chocolate ao leite, em vez 
do meio amargo.
      
      Peguei a receita para ir  farmcia. O dr. Bailey prescrevera tranqilizantes mais fortes. Depois, escreveu alguma coisa em seu caderninho e comentou:
      - Talvez eu lhe receite alguns antidepressivos, tambm.
      - O nico antidepressivo que eu preciso  o meu marido voltando para casa - assegurou mame.
      - Isso ainda no est  venda - disse o dr. Bailey, dirigindo-se para as escadas e todo animado para voltar  sua partida de golfe.
      Fui  mesma farmcia do outro dia. Alm de eles terem sido simpticos comigo, era mais perto de casa.
      Os sininhos da porta tocaram quando eu entrei e algum me cumprimentou:
      - Ol, mais uma vez!
      Era o mesmo homem que salvara a minha vida na quarta-feira  noite.
      - Ol!- Eu lhe entreguei a receita. Ele leu tudo com ateno e deu uma risadinha de solidariedade. - Sente-se um pouco. Enquanto ele sumia atrs do biombo 
de frmica em busca dos comprimidos para deixar mame mais alegrinha, percebi um monte de coisas interessantes nas quais eu no tinha reparado em minha visita-relmpago 
de quarta  noite.
      Havia no apenas a parafernlia tpica de uma farmcia, um monte de analgsicos e xaropes, mas tambm cremes para o rosto a preos razoveis e o mais interessante 
de tudo: esmaltes de unhas. Eis como eu me sinto a respeito de esmalte de unhas...
      
     Algumas das minhas coisas favoritas
     Coisa favorita N 2
     Minhas unhas: um testemunho
      
      Durante toda a vida, odiei minhas unhas. Tenho braos curtos e isso aparece mais do que nunca no comprimento dos meus dedos. H coisa de seis meses, por ordem 
expressa de Susan, comecei a fazer as unhas. Isso significa entrar numa de along-las e fortalec-las com todo tipo de unhas postias estilo abracadabra. Mas o melhor 
de tudo  que elas no do pinta de serem postias. Parecem unhas normais, bonitas, pintadas com uma cor interessante. (No gosto daquelas garras vermelhonas e pontiagudas, 
que mais parecem coisa de bruxa ou de mulher fatal.)
      Eu me sinto diferente quando estou com as unhas feitas. Fico mais dinmica, gesticulo mais e consigo apavorar meus funcionrios. Consigo demonstrar impacincia 
s de tamborilar sobre a mesa, e d para encerrar uma reunio com alguns rudos diferentes,  minha escolha.
      Sou totalmente dependente de unhas compridas. Sem elas, eu me sinto como Sanso sem os cabelos, parece que estou nua e sem poderes. Deixei de rir quando algum 
debocha das mulheres que encaram quebrar uma unha como um desastre, pois unha quebrada tem em mim o mesmo efeito da criptonita no Superman.
      Pela primeira vez na vida eu comecei a comprar esmalte de unhas. Sempre me senti meio por fora desse departamento, mas compensei o tempo perdido e agora tenho 
um monte de vidrinhos de esmalte. Opacos e claros, metlicos, cintilantes e opalescentes.
      O nico problema  descobrir o que fazer quando as coisas do errado no trabalho, agora que eu no posso mais roer as unhas. Eu poderia arrumar umas unhas 
falsas para roer, do mesmo jeito que as pessoas conseguem cigarros sem tabaco quando param de fumar. Melhor ainda: em vez disso, eu poderia comear a fumar.
      
      Quando o sujeito simptico reapareceu de trs do biombo com os comprimidos de felicidade, eu j escolhera um esmalte: um tom bege leitoso, a mesma cor do cu 
em janeiro, a qual, por sinal, fica absolutamente horrvel no cu de janeiro, porm, por incrvel que parea, fica muito chique num esmalte de unhas.
      - Essa  uma cor linda, muito alegre - comentou o vendedor.
      Achei que aquela era uma observao engraada, vinda de um homem. Especialmente por no ser verdadeira.
      Logo em seguida, porm, ele j estava me dando instrues.
      - Tome os antidepressivos uma vez por dia. Se pular um dia, no dobre a dose no dia seguinte, mantenha a dose normal. S tome os calmantes em caso de emergncia, 
porque eles viciam com facilidade. - Nesse ponto eu lembrei que, na quarta-feira  noite, ele havia pensado que os calmantes eram para mim. Pelo visto, ele estava 
achando que os antidepressivos tambm eram para mim, e eu no soube como lhe contar que eram para a minha me.
      - Ahn... Obrigada.
      - Cuide-se bem - gritou ele, quando eu sa.
      Ao chegar  casa de mame, senti a ansiedade aumentando por dentro. Eu precisava ir para a minha casa.
      Tinha de:
      a) colocar a minha roupa para lavar
      b) colocar a lata de lixo com rodinhas para o lixeiro esvaziar
      c) pagar as contas
      d) programar o vdeo para gravar I Love 1988.
      
      Alm disso, no mundo exterior, eu tinha de:
      
      e) comprar um presente de aniversrio para Cody
      f) arrumar um par de meias-calas bem sofisticado para o casamento de Davinia (eu ia participar da festa como se fosse uma convidada, embora estivesse trabalhando). 
(Eu bem que deveria ganhar um adicional para vesturio, porque preciso comprar
      um monte de coisas caras para trabalhar. Chapus, vestidos de gala e um monte de outros itens.)
      g) fazer as unhas.
      
      No instante em que me levantei, devo ter transmitido a minha inteno de sair dali, porque mame me perguntou na mesma hora, muito ansiosa:
      - Aonde  que voc vai?
      - Preciso passar na minha casa, mame. Tenho roupa para lavar e...
      - Quanto tempo vai demorar?
      - Algumas horas, de modo que...
      - Quer dizer que voc vai voltar antes das trs da tarde. Por que no traz a sua roupa e deixa comigo, para eu lav-la?
      - No precisa.
      - Ela ia ficar muito mais bem cuidada.
      - Sim, mas eu preciso fazer outras coisas, tambm.
      - E quanto a mim? Voc vai me abandonar aqui sozinha?
      Fui dirigindo at em casa com uma sensao de medo pesando no estmago como um saco de pedras. Tinha de haver outras pessoas que pudessem ajudar, mas, ao fazer 
uma anlise rpida das opes, encontrei pouca coisa:
      
      1) Irmos ou irms? Nada.
      2) Um cnjuge carinhoso que me desse apoio? Nada.
      3) Irmos ou irms de mame? Nada tambm. Assim como eu, mame foi filha nica - obviamente isso era um problema de famlia.
      4) Irmos e irms de papai? Bingo! Ele tinha duas irms - uma delas morava em Rhode Island e a outra em Inverness. Havia tambm um irmo, tio Leo, mas ele 
morrera havia menos de sete meses, de infarto fulminante, enquanto comprava brocas novas na Woody para a sua furadeira. O choque foi terrvel! O pior  que a mulher 
dele, Margot, que era uma das melhores amigas de mame, morreu menos de cinco semanas depois. Um caso de Sndrome do Corao Partido, vocs provavelmente esto imaginando. 
Na verdade, foi um caso de fazer a curva muito depressa em uma noite chuvosa, derrapar com o carro e bater de frente com um muro. Foi horrvel, especialmente por 
acontecer logo depois da morte do tio Leo - Margot era muito divertida, e embora eu s a visse em casamentos, no Natal e outras festas de famlia, at eu sentia 
a sua falta.
      5) Vizinhos? O melhor que eu consegui foi a pobre e estigmatizada sra. Kelly. Isso no me entrava na cabea, porque quando eu era criana a nossa ruazinha 
parecia uma comunidade; todas as famlias tinham mais ou menos a mesma faixa etria. Agora, sem que eu percebesse, tudo mudara e a maioria dos vizinhos era composta 
de famlias muito mais novas. Quando ocorrera aquela mudana? Quando foi que todo mundo comeara a morrer ou se mudar para apartamentos mais fceis de cuidar, que 
so a ltima parada antes da casa geminada de sala e trs quartos no cu?
      6) Amigos? Mame e papai no faziam exatamente parte de um grupo grande e animado, e todos os amigos de mame eram tambm amigos de papai. Eles formavam um 
"casal", saam
      com outros casais e se referiam s pessoas como "um casal adorvel". Havia "os Baker" - papai jogava golfe com o sr. Baker. E havia tambm "os Tyndal".
      7) Consultor espiritual de mame? Era o padre sei-l-o-nome. Ser que valia a pena tentar?
      O senhor arrumou uma hora excelente para nos abandonar, sr. Noel Hogan, seu sacana. Ele no me ouviu, mas foi bom mesmo assim. Eu no conseguia pensar em outra 
coisa. E se ele nunca mais voltasse para casa? E se as coisas ficassem daquele jeito para sempre? Como  que eu ia agentar se mame comeasse a hiperventilar toda 
vez que eu a deixasse sozinha em casa? Como  que eu ia conseguir manter meu emprego? Como  que eu ia fazer com a minha vida?
      
     
7
      
      Eu tinha de ir trabalhar na segunda-feira de manh. Tinha mesmo,
      tinha de verdade. Davinia solicitara um encontro comigo. Alm do mais, eu precisava ir at Kildare para verificar in loco e me assegurar que a tenda estava 
sendo montada no terreno certo. Sei que isso parece maluquice total, mas j tinha acontecido com Wayne Diffney, da banda de rock Laddz (vocs sabem quem ... ele 
 o "maluco" com os cabelos extra-superembaraados). A tenda do casamento dele foi erguida no terreno errado e no houve tempo de desmont-la para tornar a mont-la 
no local correto. Para piorar a situao, uma soma extorsiva teve de ser paga ao dono da fazenda invadida.
      Graas a Deus a festa no era da nossa agncia, mas isso abalou a estrutura dos organiza dores de eventos em toda a Irlanda.
      Portanto, no domingo  noite, sentindo-me culpada e na defensiva, apertei o boto de "mudo" no controle remoto da tev e disse:
      - Escute, mame, eu preciso de verdade ir trabalhar amanh.
      Ela no respondeu nada, ficou simplesmente ali, sentada, olhando para as imagens silenciosas na telinha, como se no tivesse me ouvido.
      Aquele tinha sido um dia terrvel. Mame no fora  missa, e  impossvel convencer algum no familiarizado com a tpica "me catlica irlandesa" da seriedade 
que isso representa. A "me catlica irlandesa" no perde a missa de domingo nem quando pega raiva do cachorro do vizinho e comea a espumar pelo canto da boca. 
Ela simplesmente leva um caixa de lenos de papel, limpa tudo discretamente e encara o problema com bravura. Se uma das suas pernas cair pelo caminho, ela continua 
indo em frente aos pulos. Se a outra perna cair, ela vai se arrastando at a igreja ajudada pelas mos e ainda consegue acenar de forma graciosa para os vizinhos 
que passam de carro.
      s dez da manh do domingo, interrompi mame, que estava sentada com ar passivo diante da tev, assistindo  retrospectiva semanal sobre o mercado de aes.
      - Mame, a senhora no deveria estar se aprontando para ir  missa?
      (Nesse exato momento, eu me lembrei quem era a quarta Mary que se mudara da nossa rua. No era Mary coisa nenhuma. Era a sra. Prior - Lotte. Com um nome desses, 
no era de estranhar que eu no tivesse lembrado. A missa que estava para comear deve ter me trazido o nome  cabea, porque mame uma vez dissera: "Gosto muito 
da Lotte, apesar de ela ser luterana." S que no vero anterior Lotte fora participar da grande competio de danas tpicas no cu e o sr. Prior vendera a casa 
para morar no asilo.)
      Mame pareceu no ter ouvido, ento eu ofereci:
      - Mame! Est na hora de a senhora se aprontar para a missa. Eu a levo de carro.
      - Eu no vou.
      Meu estmago despencou no p.
      - Tudo bem, eu vou  missa com a senhora.
      - Eu no acabei de dizer que no vou? Todo mundo vai ficar olhando para mim.
      Aproveitei a oportunidade de me vingar, dizendo para mame a frase que ela repetira para mim a vida toda, sempre que eu me preocupava com os outros.
      - No seja tola, mame! Eles esto muito mais interessados neles mesmos. Quem iria se dar ao trabalho de prestar ateno na senhora?
      - Todos eles - disse ela, com ar tristonho, e, na verdade, estava com a razo.
      Sob condies normais, a missa das onze, aos domingos, funcionava como um baile de formatura. Para mame e suas amigas, era como sair para a balada. Quando 
algum da nossa rua ganhava um novo casaco de inverno, a estria para o pblico acontecia na missa das onze.
      Agora, no entanto, que mame se transformara em uma mulher abandonada pelo marido, ela ia roubar a cena de qualquer casaco de inverno - e provavelmente haveria 
vrios casacos sendo estreados na missa, pois estvamos em janeiro, o ms das liquidaes. Todos os cochichos e olhares de lado seriam dirigidos  mame e ao seu 
estado de total abandono, deixando na poeira, por exemplo, o casaco de gola alta marrom feito em l ou fibra de polister que a sra. Parsons havia comprado em uma 
irresistvel queima, com setenta e cinco por cento de desconto.
      Por tudo isso, mame no foi  missa, passou mais um dia vestindo o roupo cor-de-pssego e agora se recusava a me escutar.
      - Mame, por favor, olhe para mim. Eu realmente preciso ir trabalhar amanh.
      Eu desliguei a tev de repente e s ento ela se virou para mim, magoada.
      - Eu estava assistindo...!
      - No estava no.
      - Tire mais um dia de folga.
      - Mame, eu preciso ir para o trabalho logo cedo, porque cada segundo dos prximos quatro dias vai ser muito importante.
      - Isso  falta de planejamento, deixar tudo para o ltimo minuto.
      - Nada disso. O aluguel da tenda custa vinte mil euros por dia e precisamos colocar tudo l dentro nos poucos dias que temos pela frente.
      - Andrea no pode cuidar disso?
      - No, a responsabilidade  minha.
      - E a que horas voc vai estar aqui de volta?
      Uma sensao de pnico surgiu em meu peito. Normalmente eu passaria o dia inteiro no trabalho antes de um evento desses, e a cada minuto em que eu no estivesse 
trabalhando tentaria compensar o precioso sono atrasado. S que, pelo visto, eu teria de fazer a viagem de uma hora e vinte minutos de Dublin at Kildare, todos 
os dias, ida e volta. Duas horas e quarenta minutos de sono perdido! Por dia! Aaargh!
      Na manh da segunda-feira, quando o relgio tocou s seis, eu j estava acordada, chorando. No s porque eram seis da manh de uma segunda feira, mas tambm 
porque sentia saudades do meu pai.
      Aquela tinha sido a semana mais estranha de toda a minha vida. Eu estava chocada e tentei de verdade cuidar de mame. Agora, todo o resto desaparecera e tudo 
o que eu sentia era tristeza.
      As lgrimas molharam o meu travesseiro. De um jeito irracional e absolutamente infantil, eu queria que papai nunca tivesse ido embora e que tudo continuasse 
do jeito que sempre fora.
      Ele era o meu pai e era em casa que ele deveria estar. Papai era um homem calado que deixava a maior parte das conversas para a minha me, mas mesmo assim 
a sua ausncia na casa era quase palpvel.
      Aquilo s podia ser culpa minha. Eu no dera ateno a ele. No dera ateno a nenhum dos dois. Agi assim por achar que eles estavam felizes juntos. Para ser 
franca, eu nunca pensara a respeito daquilo, de to felizes que eles pareciam. Eles nunca me deram sequer um minuto de preocupao e simplesmente seguiam pela vida 
juntos, parecendo gostar muito um do outro. Tudo bem... Papai trabalhava e jogava golfe, e mame ficava em casa o dia todo, mas eles compartilhavam um monte de hobbies 
- palavras cruzadas, passeios at Wicklow para ver a paisagem e adoravam eventos do tipo "morte na comunidade", como as excurses Morse, Assassinato em Midsomer 
e outras. Uma vez eles viajaram para participar de um fim de semana temtico desse tipo, chamado Um Misterioso Assassinato, mas acho que as coisas no saram exatamente 
como haviam imaginado: eles queriam algo em estilo "investigao sria sobre um homicdio", onde haveria um "crime" a ser desvendado e uma srie de pistas que finalmente 
levaria  descoberta do vilo. Em vez disso, ficaram bebendo o tempo todo e acabaram em uma trouxa de roupa suja dentro de um guarda-roupa, sendo apalpados por outros 
co-detetives que mal conseguiam prender o riso. Ser que papai se sentia infeliz havia muito tempo? Ele sempre fora uma pessoa de modos muito discretos, mas ser 
que em torno dele havia uma capa de algo mais sombrio, como depresso? Ser que ele passara vrios anos desejando levar outra vida? At aquele momento eu nunca pensara 
nele como uma pessoa, apenas como marido, pai e entusiasta de golfe. Obviamente, havia mais, muito mais a respeito dele, e a extenso desse territrio desconhecido 
me deixava confusa e envergonhada. Eu me arrastei para fora da cama e me vesti para trabalhar.
      s dez da manh o terreno em Kildare parecia um set de filmagem - havia caminhes e gente por toda parte.
      Eu usava um conjunto de fones sobre a cabea e um pequeno microfone. Parecia a Madonna no show Blonde Ambition, com a diferena de que o meu suti no era 
to pontudo.
      A tenda chegara da Inglaterra e dezessete das vinte pessoas contratadas para mont-la j haviam chegado. Eu encomendara quatro toaletes qumicos portteis, 
uma equipe de carpinteiros j trabalhava duro para construir uma passarela temporria de madeira e, pelo telefone, conseguira convencer um fiscal da alfndega a 
liberar o caminho refrigerado cheio de tulipas e deix-lo fazer sua entrega fora da cidade.
      Depois de receber os fornos para a tenda de preparao de alimentos - que foram entregues com dois dias de antecedncia, mas pelo menos haviam chegado - , 
fui me sentar no carro, liguei o aquecimento e telefonei para papai no trabalho, a fim de lhe pedir,mais uma vez, que voltasse para casa.
      Muito gentil, mas com firmeza, ele disse que no, e eu acabei expressando uma preocupao que pintara em minha cabea durante o fim de semana.
      - Papai, como  que mame vai se arranjar sem grana?
      - Vocs no receberam a carta?
      - Que carta?
      - Enviei uma carta, explicando tudo.
      Na mesma hora eu liguei para mame e ela atendeu, ofegante.
      - Noel?
      Meu corao afundou de pena.
      - No, mame, sou eu. Chegou alguma carta de papai? A senhora poderia dar uma olhadinha?
      Ela saiu e voltou logo em seguida.
      - Sim, chegou um envelope com cara de assunto oficial, endereado a mim.
      - Onde estava?
      - No peitoril da janela, com o resto da correspondncia.
      - Mas... Por que a senhora no o abriu?
      - Ora, eu sempre deixo essas coisas importantes para o seu pai resolver.
      - Mas o envelope foi enviado pelo papai.  do papai para a senhora. D para a senhora abri-lo?
      - No, prefiro esperar at voc voltar para casa. Ah, mais uma coisa... O dr. Bailey veio aqui e me deu a receita de uns comprimidos para dormir. Como eu fao 
para compr-los?
      - V at a farmcia - sugeri.
      - No. - A voz dela pareceu abalada. - No posso sair de casa. Voc no pode ir para mim? Ela fica aberta at as dez da noite, e antes disso voc certamente 
j estar em casa.
      - Vou fazer o possvel. - Desliguei e cobri o rosto com as mos. (Se eu tornasse a ligar, ia ouvir a voz ofegante da minha me ao atender, perguntando "Noel?", 
em uma repetio infinita como a do filme Feitio do Tempo.)
      
      Sair s oito e meia da noite foi quase como trabalhar apenas meio expediente. Dirigi de volta para casa to depressa quanto poderia sem ser parada pelos guardas; 
cheguei em casa, peguei a receita e sa como uma bala em direo  farmcia. O sujeito do outro dia no estava l, graas a Deus. Entreguei o pedao de papel a uma 
garota com ar de tdio, mas ento o tal atendente simptico surgiu de trs do biombo e me saudou com um animado "Oi, tudo bem!?". Ser que ele morava na farmcia?, 
fiquei me perguntando. Quem sabe vivendo  base de balas e pastilhas para tosse e recostando a cabea,  noite, sobre uma Pilha de compressas para calos?
      Ele pegou a receita e perguntou baixinho, com ar solidrio:
      - No est conseguindo dormir? - Ele analisou meu rosto e o que viu nele o fez balanar a cabea, pesaroso. - Sim... s vezes os antidepressivos provocam isso, 
no incio.
      Seu ar compreensivo - apesar de dirigido  pessoa errada - era conforta dor. Lanando-lhe um leve sorriso de gratido, voltei para a casa de mame. Ao chegar 
l, sentamos para abrir a apavorante carta de papai.
      Era uma carta do advogado dele. Nossa, ser que era algo srio? Embora eu estivesse quase trocando as letras, por causa do cansao, entendi do que se tratava.
      Papai propunha o que chamava de "acordo financeiro provisrio". Isso soava meio sinistro, pois indicava que haveria um acordo financeiro definitivo mais tarde. 
A carta dizia que ele daria mensalmente  minha me uma determinada quantia, e com esse dinheiro ela teria de pagar todas as contas, inclusive a prestao da casa.
      - Certo, vamos ter que fazer um levantamento das despesas. Quanto  a prestao da casa?
      Mame olhou para mim como se eu tivesse lhe pedido para me explicar a teoria da relatividade.
      - Tudo bem, vamos s contas dos servios. Quanto  a conta de luz, mais ou menos?
      - Eu... Eu no sei. Era o seu pai que fazia todos os pagamentos. Sinto muito - disse ela, com uma carinha to humilde que eu senti que no dava para ir em 
frente.
      Com mais nada.
      Era difcil de acreditar que mame um dia tivera um emprego - ela trabalhava como secretria em uma empresa, e foi l que ela conheceu papai. S que ela parou 
de trabalhar quando engravidou de mim; depois do primeiro aborto, ela no queria se arriscar. Talvez ela tivesse desistido do emprego de qualquer modo, depois de 
eu nascer, porque era assim que as mulheres irlandesas faziam naquela poca. Quando as outras mes voltaram ao mercado de trabalho, j com todos os filhos na escola, 
mame ficou em casa. Eu era preciosa demais, ela explicou. Para ser franca, a verdade  que ns no precisvamos do dinheiro; embora papai nunca tenha conseguido 
ser promovido a gerento, diretor de fornecimento ou outro cargo executivo, sempre tivemos grana suficiente.
      - Acho que j fizemos todas as contas - suspirei. - Vamos dormir.
      - Tem s mais uma coisinha - disse ela. - Estou com erupes cutneas. - Ela esticou a perna e puxou a ponta da camisola. Sua coxa estava coberta de pontos 
inchados.
      - A senhora precisa consultar um mdico. - Torci a boca de nervoso.
      Ela acabou rindo tambm.
      - No posso ligar para o dr. Bailey e pedir para ele me fazer mais uma consulta domiciliar.
      E eu no posso mais ir  farmcia. O balconista simptico deve estar achando que eu sou uma maluca completa.
      A manh de tera-feira foi muito agitada nos campos de Kildare. O designer de interiores e sua equipe de oito sujeitos fortes corriam de um lado para outro, 
a fim de transformar uma tenda cheirando a grama mida em uma cintilante Terra das Maravilhas das Mil e uma Noites. A estrutura, porm, ainda no estava completamente 
erguida, de modo que ambas as equipes tentavam trabalhar em conjunto. Porm, a partir do instante em que um dos sujeitos que armavam a tenda pisou em um pedao de 
cetim dourado com as botas sujas de lama, foi criada uma linha divisria entre as equipes e uma batalha comeou a ser ensaiada.
      O designer de interiores, um gay do tipo Muscle Mary, muito musculoso e interessado em conseguir o corpo perfeito, chamou o trabalhador com botas enlameadas 
de "brutamontes desastrado".
      Em vez de se ofender, porm, o montador da tenda achou "brutamontes desastrado" o adjetivo mais engraado de todos os que ouvira em sua vida, e ficou repetindo 
o novo apelido para os companheiros.
      "Ouviram s, rapazes? Cuidado comigo, porque eu sou um brutamontes desastrado. Um brutamontes!"
      Em seguida, ele chamou o Muscle Mary de "gorducho com cara de cafeto", o que era a pura verdade, mas no condizia exatamente com um ambiente de trabalho harmonioso 
e eu fui obrigada a utilizar minhas considerveis habilidades de negociadora para impedir que a equipe de decoradores sasse arrastando os babados (no h outra 
maneira de descrever) para fora dali.
      Quando a harmonia foi restabelecida, fui at uma parte gelada do campo, esperando conseguir um pouco de privacidade, e telefonei para tia Gwen em Inverness.
      Depois de soltar um pequeno guincho de alegria quando eu lhe informei quem falava, ela comeou a descrever o quanto era maravilhoso ouvir a minha voz e me 
perguntou com quantos anos eu estava, o que me obrigou a dar-lhe um corte - no consegui evitar, pois o tempo era escasso. De forma sucinta, contei tudo sobre papai 
e encerrei a histria dizendo:
      - Ser que a senhora no poderia ter uma conversa com ele?
      No mesmo instante, tia Gwen encarnou o papel de velha dama hesitante.
      - Bem, querida, no sei se... Eu no poderia... No cabe a mim me meter... Voc disse que ele est com uma jovem...? O que eu poderia dizer a ele...?
      Nesse instante, algo chamou a minha ateno: os decoradores e os operrios estavam do lado de fora da tenda, na clareira que ficava entre os banheiros qumicos 
portteis e a estrada. Para meu horror, eles pareciam estar se preparando para brigar. Vrios dos operrios j arregaavam as mangas e um dos decoradores balanava 
uma garrafinha de gua Evian de forma ameaadora. Hora de agir.
      - T legal, obrigada, tia Gwen. - Em meio s desculpas esfarrapadas dela, fechei o celular com um estalo e corri pela grama congelada.
      Mais tarde tentei ligar para tia Eilish, em Rhode Island, mas ela andava em companhia de um grupo esquisito, um monte de gente altamente analisada que no 
conseguiria emitir uma opinio pessoal e direta nem que tivesse com uma arma apontada para suas cabeas. Sua resposta foi:
      - Somos todos adultos. Seu pai  responsvel pela forma como decide levar a vida, do mesmo modo que a sua me tambm  responsvel pela forma com que leva 
a dela.
      - Ento eu devo aceitar isso como um no, certo?
      - No. O "no" nada mais  do que um tipo diferente de oportunidade. Eu no acredito na palavra "no".
      - Mas a senhora acabou de pronunci-la.
      - No, nada disso.
      Depois, tentei Gerry Baker, o parceiro de golfe de papai, mas ele soltou uma gargalhada que me pareceu meio falsa.
      - Eu imaginei que voc fosse me telefonar. Bem, na verdade eu achei que a sua me  quem iria ligar. Aposto que voc quer que eu troque umas palavrinhas com 
o seu pai.
      - Sim! - Graas ao bom Cristo apareceu algum que poderia nos ajudar. - O senhor faria isso por ns?
      - No esquente. Ele vai cair na real por si mesmo.
      Desconsolada, liguei para a sra. Tyndal, com a esperana de que ela pudesse ajudar a cuidar de mame. Nada feito. Ela me pareceu deliberadamente fria e em 
seguida fingiu que havia algum batendo  sua porta, s para se livrar de mim.
      Eu j ouvira falar de mulheres abandonadas que reclamavam que suas "amigas" no se davam mais com elas, com medo de elas tentarem roubar seus maridos. Sempre 
rotulara isso como parania, mas era verdade.
      
      S cheguei em casa naquela noite quase  uma da manh. Mame ainda estava acordada, porm, para minha surpresa, me pareceu um pouco melhor. O olhar aptico 
que ela exibia me pareceu menos acentuado e mostrou um ar de leveza. Logo eu descobri por qu.
      - Li aquele livro - ela me informou, quase animada.
      - Que livro?
      - As Poes de Mimi. Achei fantstico.
      -  mesmo...?! - Subitamente eu me senti amedrontada. No queria que ningum gostasse dele.
      - A histria me alegrou um pouco. Voc nem comentou que foi a Lily que o escreveu! S quando eu vi a foto dela na contracapa  que me dei conta. Que grande 
faanha escrever um livro. - Depois disse, com ar saudoso: - Eu sempre gostei muito da Lily, ela era sempre to simptica.
      - Ei!... Espere um pouco!... Se liga, me!... Ela roubou o meu namorado, lembra?
      - Ahn... Sim, eu sei. E ela escreveu algum outro livro?
      - Um s - disse eu, sem querer muito papo. - Mas ele no foi publicado.
      - E por que no? - perguntou mame, parecendo indignada.
      - Porque... Porque ningum gostou dele. - Eu estava sendo cruel. Alguns agentes literrios at haviam gostado, de certo modo. Eles quase gostaram. Se ela ao 
menos trocasse um dos personagens, ou fizesse com que a histria acontecesse no Maine, ou tivesse escrito tudo no tempo passado.
      Durante anos Lily escrevera e reescrevera o livro - como era mesmo o nome dele?... Tinha algo a ver com gua... Ah, lembrei: Claro como Cristal foi o nome 
que ela dera. O problema  que, mesmo depois de ela fazer todas as mudanas, ningum o queria. Apesar de ter mexido muito no texto, ela conseguiu ser rejeitada por
      no apenas um, nem mesmo dois, mas trs agentes, e isso me impressionara muito.
      - Vou emprestar As Poes de Mimi para a sra. Kelly - disse mame. - Ela aprecia um bom livro.
      
      O fato de mame ter gostado do livro de Lily serviu de gatilho para o retorno da ansiedade que aquela semana horrvel conseguira disfarar; na primeira oportunidade 
que eu tive, no dia seguinte, liguei para Cody. Ele no estava no escritrio, mas consegui falar com ele pelo celular. Sua respirao estava ofegante e eu deduzi 
que ele estava na esteira. Ou ento transando.
      - Como vo as vendas do livro de Lily?
      - Nada de muito especial.
      - Graas a Deus.
      - Ora, ora...
      - Ah, no enche!
      Ento, quase hesitante, ele perguntou:
      - Voc leu?
      - Claro! Foi a histria mais maluca que eu j li. E voc?... J leu?
      - J.
      - E o que achou?
      Ele esperou um segundo.
      - Achei que... Na verdade, achei maravilhoso.
      Pensei que ele estivesse sendo sarcstico. Puxa, afinal de contas aquele era Cody.
      De repente percebi que no era o caso e o medo quase me matou. Se Cody, o sujeito mais ctico em todo o planeta, achou o livro lindo, ento  porque era mesmo.
      
     
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      PARA:Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO:O demnio da bebida
      
      O aniversrio de Cody foi comemorado na noite de sbado - preciso dizer mais alguma coisa? Ele preparou uma festa no Marmoset. o mais novo restaurante de Dublin, 
e convidou vinte dos amigos mais chegados. Ficou furioso por eu no ter podido colocar as minhas habilidades de organizadora de eventos ao seu dispor. Para ser franca, 
o nico motivo de eu ter ido  o fato de ter mais medo de Cody do que de mame. Mas vamos l... Para encurtar o assunto, o alvio pelo casamento de Davinia, que 
correu sem grandes imprevistos, se somou ao estresse do resto da minha vida e eu fiquei doidona.
      Obviamente eu temia isso desde o princpio, pois preparei um plano  prova de falhas para me manter na linha: resolvi no beber vinho, porque, com essa histria 
de completar o clice o tempo todo, no d para controlar a quantidade de bebida ingerida. Em vez disso, portanto, pedi s vodca
      com tnica e - aqui  que est o pulo-do-gato - depois de cada uma delas eu transferia a fatia de limo para o copo que chegava com a nova dose. Desse modo, 
eu tinha controle do nmero de drinques que j tomara, e quando o copo estivesse cheio de fatias de limo a ponto de no caber mais bebida nenhuma, eu saberia que 
era hora de ir para a casa. Genial, no ?
      No.
      Fui uma das ltimas a chegar, no s porque mame ficou inventando desculpas para atrasar a minha sada, mas tambm porque o Marmoset  um daqueles estabelecimentos 
ridculos que no informam ao mundo a sua localizao - nada de letreiros externos, nem placa com o nmero da rua, nem janelas. Exatamente como os lugares da moda 
faziam em Nova York e Londres, cinco anos atrs. Por fim, consegui achar o lugar e l estava a Princesa Cody  cabeceira da mesa, recebendo seus presentes. Eu havia 
passado o maior sufoco, pois aquela tarde havia sido a primeira vez que mame me deixara ir s compras desde que comeara o problema com papai. A empolgao me subiu 
 cabea e eu nem sabia por onde comear nem o que comprar. Foi por isso que, em vez de procurar logo um presente de aniversrio
      para Cody, acabei comprando - imaginem s... - um recipiente para guardar carvo. No me perguntem por que, eu s sei que algo no design da pea me atraiu; 
eu estava simplesmente ali, circulando pelo departamento de utenslios domsticos da Dunne's, quando vi o produto e subitamente percebi que precisava compr-lo. 
Em seguida - por favor, no espalhem isso para ningum - , fui at a seo de brinquedos e comprei uma varinha de condo. Ela vinha com uma estrela purpurina da 
na ponta, de onde saam uns fiapinhos de cor lils. Fiquei intrigada e envergonhada, pois senti a maior vontade de ter uma daquelas; decidi que o motivo daquilo 
era papai ter fugido de casa e carregado minhas lembranas da infncia, e a varinha de condo seria uma tentativa de t-las de volta.
      Bem, tudo isso  para dizer que no tempo que sobrou eu s consegui comprar uma garrafa de champanhe para Cody e pregar um arranjo de fitas em forma de rosa 
ao lado do rtulo, o qual, por sinal, acabou ficando torto, porque minhas mos vivem trmulas; quando eu lhe entreguei o presente, ele fez a famosa cara de desdm 
debochado e disse, com veneno escorrendo pelos cantos da boca:
      - Vejo que voc gastou um tempo imaginando o que poderia me trazer.
      Eu estava a ponto de dar as costas para ele e voltar para casa, a fim de assistir a um show de prmios na tev.
      - Eu no preciso ficar aqui s para ser insultada - disse a ele. - H um monte de outros lugares onde consigo isso.
      Nesse momento - desfraldem as bandeiras! - , Cody me pediu desculpas e obrigou Trevor a se levantar e me oferecer o lugar que ficava  sua direita.
      As pessoas  sua volta eram as de sempre: barulhentas, lindas e divertidas. Os homens com unhas feitas e as mulheres superproduzidas, exibindo bolsas Burberry. 
Sylvie estava l, Jennifer tambm, e algumas outras que eu no lembro o nome.
      Mergulhei de cabea nas vodcas com tnica e, para ser sincera, comecei a me divertir muito. Contei a Cody o quanto curtia a novidade de estar ali comendo em 
um prato grande, pois na casa de mame s comamos em
      pires, pois foi o que sobrou depois do quebra-quebra e eu ainda no tinha arrumado tempo para comprar pratos novos.
      Nesse instante, Cody bateu com a faca no prprio copo (caram alguns fiapos do tempero de ervas finas dentro do champanhe, mas ele nem notou), pediu silncio 
e me obrigou a contar a histria de como papai havia nos abandonado. Como eu j estava na sexta vodca, aquilo no me pareceu to terrvel e eu achei at divertido. 
Consegui a ateno de toda a mesa, que se dobrou e teve convulses de riso quando eu descrevi o novo visual de papai, a histria da ambulncia e as minhas mltiplas 
visitas  farmcia. Em seguida, eu lhes falei da semana que tive, acordando s cinco da manh e voltando de Kildare  uma da manh do dia seguinte. Contei como, 
no dia do casamento, os banheiros portteis j estavam em um estado terrvel e as pessoas no queriam limp-los porque aquilo no era tarefa delas, e ento eu tive 
de arregaar as mangas do terno que usaria no casamento, vestir luvas de borracha e empunhar a escova de lavar privadas. Enquanto esfregava toda a sujeira, tive 
de manter na cabea o dramtico enfeite de cabelo feito com penas de pavo, pois no havia nenhum lugar limpo onde eu pudesse coloc-lo.
      Na hora, aquilo me pareceu repulsivo, mas ali, contando o caso para pessoas que se dobravam de tanto rir, subitamente percebi o lado engraado da histria. 
Foi HILRIO. To hilrio que, em determinado momento, comecei a urrar de tanto rir. Sylvie e Raymond tiveram de ir comigo ao toalete feminino, para me ajeitar. Depois, 
pedi mais um vodca-tnica e dei o pontap inicial para o segundo tempo.
      Contei a todos sobre a barra de chocolate sabor tiramisu, at mesmo para os garons e as pessoas das outras mesas.
      A partir desse ponto, as imagens comearam a ficar meio desfocadas. Lembro que a conta veio com um valor indecentemente elevado e todo mundo comeou a me culpar, 
pois a vodca-tnica custava dez libras a dose
      e eu tomara pelo menos onze. Ainda mais nebulosas so as lembranas de eu me recusar terminantemente a ir embora do Marmoset porque ainda havia espao para 
trs ou quatro fatias de limo no meu copo. A isso se
      seguiu uma imagem difusa que pode ou no ser um sonho... Eu entrando em um txi com Cody e Sylvie e, de algum modo, conseguindo prender a orelha ao fechar 
a porta do veculo. Como acordei com a orelha parecendo uma couve-flor roxa, talvez isso realmente tenha acontecido. Depois disso, no lembro de mais nada...
      
      Parei de escrever. Se eu no fizesse uma verso reduzida do que aconteceu depois, aquele e-mail ia ficar mais comprido do que Guerra e Paz. Porque na manh 
seguinte  festa de Cody acordei na minha cama, em meu apartamento, e antes mesmo de perceber que eu estava debaixo do edredom, tive um mau pressentimento. Tive 
a sensao esquisita de estar desarrumada, e uma investigao minuciosa revelou que eu estava totalmente vestida, mas o suti por baixo da blusa se abrira e minhas 
calcinhas estavam arriadas at quase os joelhos, embora eu continuasse de calas. Assim que percebi isso, o desconforto foi insuportvel.
      Enquanto eu me contorcia na cama tentando me ajeitar e virando de lado - como costumamos fazer nessas horas - , vi cado no cho, como um daqueles contornos 
que a polcia faz para marcar o local onde um cadver foi achado, um homem. Tinha cabelos pretos e vestia terno. Eu no fazia idia de quem poderia ser. No tinha 
a mnima idia. Ele abriu um olho, apertou-o de leve, para me focalizar, e disse:
      - Bom-dia!
      - Bom-dia. - Eu retribu o cumprimento.
      Quando ele abriu o outro olho, achei que o conhecia. Reconheci o seu rosto, tinha quase certeza disso.
      - Sou o Owen - ele informou, tentando me ajudar. - Voc me conheceu ontem  noite, no Hamman.
      Hamman era o novo bar da moda, mas eu nem imaginava que tivesse ido at l.
      - Por que voc est deitado a no cho? - perguntei.
      - Porque voc me empurrou para fora da cama.
      - Por que fiz isso?
      - Sei l!
      - Voc no est com frio?
      - Estou quase congelando.
      - Voc parece muito jovem.
      - Tenho vinte e oito.
      - Eu sou mais velha... - Olhando em volta do quarto, perguntei:
      - O que o meu novo recipiente de guardar carvo est fazendo aqui?
      - Voc o pegou para me mostrar. Alis, contou a todo mundo a respeito dele, ontem  noite; parecia muito empolgada com a compra. E com razo - acrescentou 
ele. -  realmente uma beleza!
      Ele foi fazer xixi e eu queria que sumisse dali, fosse embora e me deixasse dormir para eu descobrir depois que imaginara tudo.
      - Voc est com uma cara horrvel! - comentou ele, mostrando-se muito observador. - Vou lhe preparar uma xcara de ch e depois caio fora.
      - Nada de ch! - gritei.
      - Caf?
      - Tudo bem.
      Depois disso, eu s me lembro de acordar de um salto com a boca parecendo um pergaminho, imaginando se sonhara com aquilo.
      Mas havia uma xcara de caf ao meu lado, gelado. Eu voltara ao estado de coma antes de conseguir beb-la. O baldinho de carvo ainda estava em cima da penteadeira 
e um monte de coisinhas adorveis - esmaltes de unhas, loes tonificantes, o p compacto da Origins - estava entornado e espalhado pelo cho em volta, fitando os 
meus olhos de anteontem como bonecas de pano traumatizadas por um desastre de carro.
      Foi horrvel. Quando eu sa da cama e tentei me levantar, minhas pernas quase cederam na primeira tentativa. Na sala da frente, as almofadas haviam sido todas 
arrancadas do sof, como se algum (eu e Owen?) tivesse brigado corpo-a-corpo. Marcas redondas se espalhavam por todo o lindo piso de madeira, cortesia de uma garrafa 
de vinho tinto que fora esquecida aberta, e havia uma horrvel mancha, que parecia de sangue, sobre o meu carpete gelo feito com oitenta por cento de pura l. Pelos 
cacos de vidro em volta da mancha, parece que havamos cado sobre um clice de vinho durante a luta corpo-a-corpo.
      Ento fiquei realmente horrorizada ao reparar que o piso de madeira estava cheio de bolhas prateadas, mas uma inspeo cuidadosa mostrou que se tratava apenas 
de um monte de CDs espalhados pelo cho e refletindo a luz do sol. No saguo de entrada, um bilhetinho muito revoltado fora enfiado por baixo da porta: Gary e Gaye, 
do andar de cima, reclamando do barulho. Eles pareciam FURIOSOS e eu desejei estar morta. Teria de pedir desculpas a eles, mas me pareceu que eu nunca mais ia conseguir 
articular uma nica palavra.
      Obviamente esse tipo de cena era comum todos os sbados e domingos de manh, mas havia vrios anos, literalmente - bem, pelo menos um ano - , desde a ltima 
vez em que eu ficara to doidona.
      A novidade  que algo mudara desde a ltima vez em que eu levara para casa um homem que nem me lembrava de ter conhecido, porque o boyzinho esperto me deixara 
um bilhete. Eu sempre achei
      que esse tipo de cara geralmente se escafedia silenciosamente s quatro da manh com a cueca no bolso para nunca mais ser visto. O bilhete, escrito s pressas 
com o meu delineador no folheto sobre irrigao do clon (eu recebia um monte deles), dizia assim:
      
      Anjo do balde de carvo: Achei voc estranhamente encantadora. Vamos repetir a dose uma hora dessas. Pode deixar que eu telefono assim que as marcas roxas 
sararem. Owen
     
      Diante dessas palavras, algo conseguiu se arrastar por entre meus olhos doloridos e os cabelos desgrenhados at alcanar o crebro inchado e eu percebi que 
o terrvel mau pressentimento que me invadia no era provocado apenas pelos horrores da ressaca, mas por mame! Eu me virei para o telefone, quase com medo de olhar.
      A luz da secretria eletrnica piscava; parecia piscar trs vezes mais depressa, como se estivesse furiosa (ser que aquilo era possvel? Ser que a velocidade 
aumentava quando havia um monte de mensagens no respondidas?).
      Que horror! Tive uma sensao terrvel, apavorante, um terror pavorosamente apavorante. Era como se meu despertador no tivesse tocado e eu tivesse perdido 
o casamento da minha melhor amiga, uma viagem grtis de Concorde at Barbados, uma cirurgia de vida ou morte...
      Eu nem devia estar no meu apartamento. Devia ter voltado para a casa de mame na noite anterior. Eu prometera de ps juntos, foi a nica forma de conseguir 
convenc-la a me deixar ir para a rua.
      Como foi que eu pude me esquecer dela? Como foi que eu voltei a pegar no sono, depois de acordar de manh? Como era possvel eu no ter me lembrado dela at 
aquela hora?
      Apertei o boto "play" e, quando a voz montona em estilo Margaret Thatcher anunciou "Voc... tem... dez... recados", eu quis morrer. As primeiras quatro ligaes 
eram de Gary e Gaye, do andar de cima. Eles estavam zangados. Muito, muito zangados. Ento os recados de mame comearam. O primeiro foi s cinco da manh.
      "Onde voc est? Por que no voltou para casa? Por que no atende o celular? Eu no consegui dormir a noite toda." Outra chamada s seis e quinze, outra s 
oito e meia e mais uma s nove e vinte. Mame parecia mais desesperada a cada ligao e no recado das dez e meia ela respirava com muita dificuldade. "No me sinto 
bem.  o corao. Dessa vez  mesmo um infarto. Onde voc est?"
      
     
9
      
      PARA:Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Levou trs dias para os horrores se dissiparem
      
      S hoje  que consegui voltar a ingerir alimentos slidos. Mame - graas ao bom Cristo - no teve um infarto, s outro ataque de pnico. As enfermeiras bateram 
um bom papo com ela e a alertaram de que  "contraveno desperdiar o tempo da polcia". Mas quando mame Ihes explicou sobre o sumio de papai e eu passando a 
noite fora, elas redirecionaram sua insatisfao para mim; eu me senti to culpada que parece at que levei um soco no queixo.
      Papai ainda no voltou. Durante toda a semana passada, quando eu trabalhei como uma mquina, nem tive tempo de pensar com calma no assunto.
      Agora, porm, que a minha rotina voltou ao normal, percebi que j faz duas semanas que ele foi embora.  como se eu estivesse em transe - para onde foram essas 
duas semanas? Sinto-me chocada ao perceber como o tempo voou e agora resolvi esperar um ms; at l, ele provavelmente ter voltado.
      Cody e a sra. Kelly, bem como todo mundo no meu trabalho, ficam buzinando na minha cabea o tempo todo, comentando sobre o grande filho-da-me que ele , mas 
quando eu tento concordar com eles e, em vez disso, me mostro insegura e chorosa, eles me olham com estranheza e d para ver que esto pensando: "Puxa, at parece 
que foi o marido dela que foi embora." Esposas tm todo o direito de se mostrar inseguras e chorosas, mas, quando se trata de filhas, todo mundo espera que elas 
participem do festival de insultos. Bem que eu tentei cham-lo de "velho idiota e insensvel" e a sra. Kelly me incentivou, dizendo "Isso mesmo, garota!". Mas logo 
em seguida comecei a chorar e ela ficou visivelmente irritada.
      O problema tem vrias camadas. s vezes acho que me convenci do fato de papai ter ido embora de vez e arruinado tudo, mas de repente eu me animo e acho que 
ele vai voltar logo para casa. Ento eu me toco de que ele at agora no voltou; a sensao bate mais fundo e  mais dolorosa do que na vez anterior. Mas ainda acho 
que devemos lhe dar um ms, pois trinta dias  um nmero redondo.
      Quanto  varinha de condo, sim, obrigada por me lembrar que eu sempre adorei coisas cafonas e vagabundas. Embora eu no saiba o que h de cafona na minha 
touca de banho"Hello Kitty vai a Nova York". Ela  linda, sem mencionar que  muito prtica.
      Estarei trabalhando no escritrio a semana toda.  um alvio estar de volta ao meu horrio de apenas dez horas de trabalho por dia - e estar perto das lojas. 
Ando comprando coisas. Objetos esquisitos. Ontem, na hora do almoo, comprei um chaveiro de vidro no formato de um sapato de salto agulha cintilante com uma flor 
azul na ponta. Depois pintei minhas unhas de dez cores diferentes, cada uma em tom mais claro do que a anterior.
      Graas a Deus eu ainda sou relativamente jovem.
      Isso a, vamos em frente que atrs vem gente. Mande uma piada para mim.
      Montes de beijos,
      Gemma xxx
      
      Ao voltar para casa depois do trabalho naquela noite - como acontecia quase todo dia - , dei uma passadinha na farmcia para comprar coisas para mame. Dessa 
vez foi pomada para p-de-atleta -  no fao a menor idia de como ela possa ter pegado isso, considerando que a coisa mais atltica que ela j fez na vida foi abrir 
um pacote de biscoitos. Antes mesmo de eu pedir a pomada, o balconista simptico me disse:
      - Voc estava em excelente forma na noite de sbado.
      Todo o sangue que circulava quase exclusivamente pelo meu rosto deu incio a um sbito e veloz xodo, minhas pernas e mos comearam a executar sua dana agitada, 
o que foi muito chato, porque eu tinha acabado de conseguir que elas parassem de tremer.
      - Onde foi mesmo que ns nos encontramos? - perguntei, com os lbios absolutamente sem cor.
      Ele parou de falar, pareceu surpreso e logo em seguida meio desconfortvel.
      Por fim, disse:
      - No Hamman.
      - No Hamman? - Minha nossa, quem mais eu havia encontrado no Hamman, na noite de sbado?
      - Voc me parece... surpresa.
      Pode apostar que sim. A histria toda. Imaginem s, encontrar o balconista da farmcia no Hamman e no me lembrar de nada. E logo no dia em que ele conseguira 
autorizao para sair de trs do balco. Que roupa ser que ele estava usando? Eu no conseguia imagin-lo com nenhuma outra roupa que no fosse um guarda-p branco. 
Ser que ele foi com um grupo grande de outros farmacuticos, todos usando guarda-p?
      - Eu estava meio alta - cochichei para ele.
      - Tudo bem, era noite de sbado - disse ele, mas ento mostrou uma cara meio sria e perguntou: - O seu mdico no lhe avisou que voc no devia beber enquanto 
estiver tomando antidepressivos?
      Era a hora de contar tudo:
      - No, ele no me avisou. Sabe o que ...? As receitas que eu tenho trazido no so para mim, so para a minha me. Desculpe no ter lhe contado antes, mas 
 que no me pareceu certo comentar
      sobre essas coisas.
      Ele afastou o corpo ligeiramente do balco, olhou fixamente para mim e balanou a cabea levemente para a frente algumas vezes, enquanto absorvia a informao, 
at que finalmente disse:
      - Algum daqueles remdios era para voc?
      Tentei lembrar da longa lista de remdios que havia comprado para mame; no apenas os antidepressivos, mas tambm os calmantes, os comprimidos para dormir, 
o anti-histamnico para as erupes cutneas, os anticidos para o estmago, os analgsicos para a sinusite...
      - O esmalte de unhas foi para mim.
      - Sabe de uma coisa? - perguntou ele, refletindo sobre aquilo. - Estou me sentindo um tolo.
      - No sinta - disse eu. - A culpa foi minha, eu devia ter lhe contado logo de cara e gostei muito por algum ser simptico comigo, mesmo sem haver nada de 
errado com a minha sade.
      - Tudo bem, ento - disse ele, ainda meio sem graa.
      - S por curiosidade - quis saber eu. - O que achou do Hamman?
      - Ah, foi legal. Os freqentadores  que eram todos um pouco jovens demais.
      Na mesma hora eu perguntei a mim mesma qual seria a idade dele. At aquele momento no pensara nele como algum que tivesse uma identidade e idade prprias. 
Para ser franca, nem mesmo pensara nele como um ser humano, pois via apenas uma presena benigna que me entregava remdios que impediam minha me de ficar completamente 
zureta.
      -  o guarda-p - disse ele, lendo meus pensamentos. - Ele desumaniza as pessoas. Eu provavelmente no sou muito mais velho do que voc, Maureen, e acabei 
de me tocar de que esse provavelmente no  o seu nome.
      - No. Eu me chamo Gemma.
      - Eu tambm tenho um nome - disse ele. - Johnny.
      
      PARA:Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO:As surpresas continuam
      
      Adivinhe s...? O boyzinho me telefonou. O rapaz que eu conheci na noite do aniversrio de Cody. Owen, ou sei l o nome dele. Quer sair comigo.
      "Para qu?", perguntei. "Para tomar um drinque", ele disse. "Voc levou quase duas semanas para me ligar de volta", disse eu. " que eu estava me fazendo de 
difcil", replicou ele.
      De qualquer modo, eu lhe comuniquei que no podia sair e ele disse "Eu entendo. Voc quer passar mais tempo em companhia do seu baldinho de carvo."
       claro que no era nada disso. O fato  que eu no conseguiria um passe livre de mame, nesse momento. Ela s me deixa sair para trabalhar ou levar suas receitas 
 farmcia, e eu no tenho energia para reagir a isso, especialmente depois de ter feito aquele papelo no aniversrio de Cody... E quanto a voc? Conte como vo 
as coisas! Nenhum namorado ainda?
      Beijos,
      Gemma
      Por falar em receita, os comprimidos de mame para dormir acabaram
      - ela os consumia como se fossem Confeti - , ento eu fui rapidinho, de carro, at a farmcia e, como sempre, o carinha simptico estava em p atrs do balco.
      - Oi, Gemma - cumprimentou ele. - No  Maureen.  Gemma. Vou acabar me habituando, com o tempo. Vai ser como a gilete. Ningum mais fala "lmina de barbear", 
s "gilete"; no incio era meio esquisito, mas agora todo mundo j acostumou.
      -  feito "amido de milho" e maisena - concordei. - Existe algum momento em que voc no est aqui na loja?
      Ele pensou por alguns instantes.
      - No.
      - Mas por qu? Voc no tem como arranjar outro farmacutico para ajudar a cuidar da loja?
      - Tenho algum que me ajuda. Meu irmo. S que ele sofreu um acidente de moto.
      Depois de um breve instante, emiti um gemido de solidariedade, embora nem conhecesse o tal irmo.
      - Quando aconteceu?
      - Em outubro.
      - Nossa, mas isso faz sculos.
      - E ainda vai levar mais um tempo at ele ficar bom. O coitado acabou com a perna.
      Mais gemidos de solidariedade.
      - No consegui encontrar um substituto at agora.
      - Mas voc precisa trabalhar tantas horas assim? No d para fechar a loja um pouco mais cedo?
      - Todo mundo sabe que ns ficamos abertos at as dez horas. Lembra aquela primeira noite em que voc veio aqui? E se a loja estivesse fechada?
      Fechei os olhos s de imaginar a cena. Eu s voltas com uma me maluca e sem ter como deslig-la. Ele tinha razo.
      - Eu tambm quase no saio - informei, pois no queria que ele achasse que era o nico naquela situao. - Para voc ter uma idia, vir aqui conta como um 
evento social.
      - Como assim? - Ele se mostrou muito curioso e eu no podia culp-lo. Eu estaria me enforcando com gaze, de tanto tdio, se tivesse que ficar sentada naquela 
loja o tempo todo lendo a parte de trs dos envelopes de aspirina. Ento eu lhe contei a histria toda - toda mesmo! - o telefonema, as luzes que Colette fizera 
no cabelo, as costeletas de papai, o "infarto" de mame e a quantidade absurda de tev que eu assistia todo dia.
      Ento chegou algum pedindo um colrio e eu o deixei atender o cliente.
      
     
10
      
      Como sou filha nica, era inevitvel que eu acabasse tomando conta de um dos meus pais em sua velhice. S que eu no estava pronta, pelo menos ainda no. Sempre 
imaginei que isso fosse algo muito distante no futuro, e a imagem difusa que me aparecia sempre inclua um homem para dividir o fardo comigo. Alm do mais, imaginei 
que o outro pai ausente teria a decncia de estar morto, e no morando com a secretria. Bem,  isso o que acontece com os planos quase infalveis, como bem sabemos.
      Em um espao de tempo espantosamente curto, a minha antiga vida virara do avesso e se tornara uma linha reta em um monitor cardaco. Embora eu continuasse 
curtindo a minha velha vida a distncia - meu apartamento, meus amigos, minha independncia - , era mais fcil entregar os pontos e ficar com mame. Alis, para 
ser honesta, com o sumio de papai eu sentia necessidade de me segurar em mame, que foi o que me restou.
      Mesmo sem planejar o esquema, eu e mame acabamos entrando em uma rotina que consistia basicamente em ns duas enfurnadas dentro de casa, como duas velhas 
esquisitas. Ela me permitia sair para ir trabalhar - ou ir  farmcia comprar seus remdios - , mas logo eu voltava para casa, sentava no sof ao lado dela e assistia 
 mesma seqncia de programas: um episdio duplo dos Simpsons, uma hora de Buffy, a Caa-vampiros e depois o telejornal das nove da noite.
      Quando eu trabalhava at tarde, ela via os programas sozinha e depois me fazia um relatrio de tudo que vira na tev, com detalhes.Nos fins de semana, assistamos 
a seriados de mistrio, geralmente
      Midsomer Murders ou Morse, o tipo de coisa que ela costumava fazer com papai. O mais estranho era que, embora nunca estivesse sozinha, eu me sentia terrivelmente 
solitria.
      Mame e eu quase no tnhamos assunto uma com a outra. s vezes ela perguntava:
      - Por que voc acha que ele foi embora?
      - Provavelmente pelo fato de tio Leo e tia Margot terem morrido um logo depois do outro.
      - Eu tambm me senti arrasada por causa de Leo e de Margot - replicou ela - , mas no me imagino tendo um caso.
      - Bem, ento talvez seja porque ele vai fazer sessenta anos em agosto. As pessoas ficam meio piradas quando completam um aniversrio que termina em zero.
      - Eu completei sessenta h dois anos. Por acaso tive um caso com algum?
      Estvamos na expectativa de papai voltar para casa e a vida voltar ao normal, mas na verdade ela se tornara uma eterna viglia, embora nunca a vssemos desse 
jeito. Mame no cozinhava mais, ento subsistamos  base de biscoitos, pastinhas e licor Baileys.Sempre que eu me levantava, nem que fosse para fazer um xixi rapidinho, 
ela me olhava assustada e eu me sentia cheia de culpa.
      Ningum acreditou que eu no tivesse conseguido convencer papai a voltar para casa, a comear por mim mesma.
      - Mas voc sempre consegue ajeitar todas as coisas! - espantou-se Cody.
      - Com exceo da minha prpria vida. - No falei isso para me auto depreciar, mas s para Cody no ser obrigado a diz-lo.
      As coisas tambm no andavam grande coisa no trabalho, embora eu no tivesse perdido nenhum cliente. (Aaargh! Que pensamento horrvel! Esse era um deslize 
que definitivamente me faria
      merecer ir para a Sala sem Janelas.) Por outro lado, eu tambm no conseguira nenhum cliente novo, e Frances & Francis no estavam nem um pouco satisfeitos, 
pois, como no cansavam de me lembrar quase todo dia, minha meta era aumentar o faturamento em quinze por cento ao ano. (Era s dez por cento at o ano passado, 
mas eles andavam planejando umas frias na Espanha.)
      - Os novos clientes no vo cair do cu, Gemma - ladrava Frances. - Voc tem que sair em busca deles como se fosse um co de caa.
      O pior  que eu perdera o pique. Meu trabalho depende integralmente de eu estar alerta e ligada. Quando eu levo gente do departamento de recursos humanos de 
grandes companhias para almoar,
      eles precisam ficar ofuscados pela minha energia, a fim de adquirirem a certeza de que o prximo congresso vai ser um evento especial, glamoroso, divertido 
e excelente para a imagem da empresa.
      
      As pessoas se preocupavam comigo, especialmente Cody.
      - Voc no sai mais de casa. No devia desistir da vida.
      - Eu no desisti. Vou ficar assim s at papai voltar para casa. Eu lhe dei um prazo de dois meses para acordar, e s se passaram seis semanas.
      - E se ele no voltar?
      - Vai voltar, sim. - Eu estava com esperanas renovadas devido a vrias coisas, especialmente ao fato de no termos recebido mais nenhuma carta falando do 
tal "acordo financeiro permanente".
      - Se a sua me no sair dessa, voc vai ter que deix-la por conta prpria.
      - . No posso. Ela vai comear a chorar e ter hiperventilao.  mais fcil ficar com ela. Ela nem vai mais  missa. Diz que religio  algo sem sentido.
      Cody se mostrou chocado e disse:
      - Na verdade, ela tem razo, mas eu no sabia que as coisas estavam assim to mal. Vou dar uma passada l.
      Ele apareceu naquele mesmo dia. Sentou-se ao lado de mame e disse:
      - Escute o que eu vou dizer, Maureen... Ficar aqui sentada no vai traz-lo de volta.
      - Nem ir a bailes ou jogar bridge.
      - Maureen, a vida continua.
      - No para mim.
      Ele acabou desistindo depois de algum tempo e comentou com uma espcie de admirao, ao sair:
      - Ela  muito determinada, no acha?
      - Eu no lhe disse? "Teimosa como uma mula"  a expresso certa.
      - Hoje eu descobri a quem voc puxou. Temos algum chocolate novo sendo lanado? Opa!... - Com um jeito teatral, colocou a mo na boca. - No, acho que no. 
Ela est com aparncia de quem comeu o po que o diabo amassou.
      Cody se mostrou chocado e disse:
      - Na verdade, ela tem razo, mas eu no sabia que as coisas estavam assim to mal. Vou dar uma passada l.
      Ele apareceu naquele mesmo dia. Sentou-se ao lado de mame e disse:
      - Escute o que eu vou dizer, Maureen... Ficar aqui sentada no vai traz-lo de volta.
      - Nem ir a bailes ou jogar bridge.
      - Maureen, a vida continua.
      - No para mim.
      Ele acabou desistindo depois de algum tempo e comentou com uma espcie de admirao, ao sair:
      - Ela  muito determinada, no acha?
      - Eu no lhe disse? "Teimosa como uma mula"  a expresso certa.
      - Hoje eu descobri a quem voc puxou. Temos algum chocolate novo sendo lanado? Opa!... - Com um jeito teatral, colocou a mo na boca. - No, acho que no. 
Ela est com aparncia de quem comeu o po que o diabo amassou.
      - Olhe... - Eu ensaiei uma objeo firme, mas ele me interrompeu com determinao e colocou a palma da mo no prprio peito:
      - Cody Cooper, caia na real! - exclamou, como se falasse consigo mesmo. -  melhor algum dizer logo o que precisa ser dito. Sua me era uma mulher atraente, 
Gemma, com um estilo de beleza
      anos cinqenta, tipo Debbie Reynolds. Por falar nisso, o que houve com o cabelo dela?
      - As razes esto aparecendo. Ela precisa tingi-lo, mas no quer saber de ir ao cabeleireiro. Estou contando os dias em que papai est fora pelo comprimento 
das suas razes brancas, e elas esto muito compridas.
      - Sua me est acabada, j era!... - Cody parou para causar impacto, antes de continuar: - Pode acontecer o mesmo com voc. Pense nisso.
      Depois desapareceu de repente, como o Cavaleiro Mascarado.
      Eu no queria pensar no que ele dissera de mim, ento comecei a pensar em mame.
      Normalmente as pessoas no vem os pais com os mesmos olhos com que analisam as outras pessoas, mas acho que mame realmente foi bonita, - de um jeito meio 
rechonchudo. Batatas da perna gorduchas, braos lisinhos, cintura fina, ps e mos macios e pequenos. (Eu tenho uma silhueta parecida com a dela, o que  uma pena, 
porque esse tipo de corpo est fora de moda, no momento.) Por muito tempo, ela pareceu mais nova do que papai, e no sei exatamente em
      que momento a coisa mudou, mas o fato  que agora isso no era mais verdade. At a crise atual, ela ia ao cabeleireiro com freqncia - obviamente no voltava 
com nenhum penteado revolucionrio e a nica pista de que ela mexera nos cabelos era a aparncia deles,
      mais brilhantes e duros do que o normal, mas o importante  que ela tentava. E adorava se vestir bem. No preciso nem informar a vocs que eram sempre roupas 
que eu no usaria nem que a minha vida dependesse disso: casaquinhos de l com aplicaes ou blusas com botes cintilantes. Mas ela adorava usar roupas novas e se 
empolgava muito quando conseguia coisas baratas em alguma liquidao. Em poca de queimas de estoque, ela ia  cidade sozinha, de nibus,  e sempre voltava para 
casa triunfante. "Parecia at o fim do mundo - um monte de megeras empurrando e me dando cotoveladas para alcanar as melhores peas, mas eu as deixei comendo poeira."
      Em seguida ela expunha alegremente as peas da pilhagem; espalhava tudo em cima da cama e me desafiava a adivinhar quanto cada uma custara.
      - Puxa, sei l!
      - Vamos l, d um chute!
      -  para dizer o preo antes ou depois da liquidao?
      - Antes.
      - Setenta e cinco.
      - Setenta e cinco?  pura l!
      - Cem.
      - Mais.
      - Cento e cinqenta.
      - Menos.
      - Cento e trinta.
      - Acertou! Agora, adivinhe quanto eu paguei por ela.
      - Quarenta?
      - Ah, assim no d, Gemma, voc no est colaborando.
      - Cem.
      - Menos, menos!
      - Noventa?
      - Menos.
      - Setenta?
      - Est esquentando.
      - Sessenta?
      - Mais.
      - Sessenta e cinco?
      - Acertou! Metade do preo. E  pura l!
      Isso tinha que rolar para cada item que ela havia comprado e papai sempre compartilhava a empolgao dela. "Isso foi muito bom, amor." E muitas vezes ele comentava 
comigo, com toda a sinceridade:
      "Gemma, sua me  uma mulher muito elegante."
       de espantar que eu tenha ficado to surpresa quando ele a abandonou?
      Se bem que ela o fazia passar por todo o processo de adivinhar os preos tambm, em todas as peas, ento o fato de ele ir embora talvez no seja to surpreendente 
assim.
      
      PARA: Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Vaca traidora
      
      Imagine s!... Andrea chegou correndo perto de mim no trabalho e me informou, toda alegrinha e com os olhos brilhantes: "Acabei de ler aquele livro que Lily 
Wright escreveu!" At parece que ela esperava uma medalha pela faanha de l-Ia ou algo assim. Disseque adorou o livro, pois a histria levantou o seu astral. Deve 
ter reparado na cara que eu fiz, porque calou o bico. Nossa, como as pessoas so tapadas!
      Nem mame nem eu voltamos a colocar os olhos no papai desde o dia em que eu atirei a barra de chocolate sabor tiramisu nele. E ele tambm no telefonou... 
nem uma vezinha. D pra acreditar? As nicas vezes em que consigo falar com ele  quando telefono para o escritrio e Colette no est l para mentir, dizendo que 
ele foi ao dentista. Ele nunca apareceu em casa para pegar suas roupas, sua correspondncia, nada. Ele me pediu que eu enviasse as cartas que chegassem para o escritrio, 
mas eu me recusei a fazer isso, pois queria uma desculpa para ele passar em casa e ser obrigado a nos ver. Mesmo assim, ele no apareceu. Em vez disso, comentou: 
"Tudo bem. So s contas e coisas desse tipo, nada de importante."
      Dei uma parada e pensei bem antes de escrever o resto. A parte em que eu ia contar a Susan que todas as manhs, h mais de quinze dias, eu acordava s cinco, 
perdia o sono, imaginando o que poderia acontecer e sentia um pnico quase sufocante. Eu tinha trinta e dois anos e minha vida parecia ter acabado. Quando  que 
as coisas iam voltar aos eixos? Eu no tinha nenhum relacionamento que me servisse como rota de fuga. Alis, com a vida que levava, provavelmente eu nunca conseguiria 
conhecer algum. Ou papai voltava para casa ou... Ou o qu...?
      Alguma coisa tinha de mudar.
      S que nada funcionava com papai. Nem desculpas, nem promessas, nem raiva e nem apelos para o seu senso de responsabilidade.
      - Papai - eu dizia - , por favor, me ajude, eu no consigo agentar essa barra sozinha. Mame no est preparada para viver sem o senhor.
      - Sei o quanto  duro, mas ela vai acabar se acostumando. - Seu tom continuava gentil, mas sua falta de envolvimento com o problema era alarmante. Ele no 
se importava.
      Minha inocncia sumira de vez e se transformara em algo sujo e corrompido. Quando eu era menina, achava que papai conseguiria consertar qualquer coisa. Tia 
Eilish costumava fazer uma piadinha que na poca era quase uma blasfmia: "Qual  a diferena entre Deus e Noel Hogan?  que Gemma acha que Deus no tem condies 
de ser Noel Hogan."
      S que agora eu estava em um mundo diferente. Nada de solues mgicas. Eu no conseguia suportar aquilo. Ainda mais por ter sido sempre a "filhinha do papai". 
Todos os dias, at eu completar quatro anos, ele chegava do trabalho para me pegar e ns seguamos pela rua de mos dadas (eu empurrando o meu carrinho de bonecas 
com um beb Soneca dentro) at as lojas perto de casa, para ele comprar cigarros.
      Agora, toda aquela proximidade desaparecera para sempre e eu nunca mais seria a sua garotinha. Ele conhecera outra mulher e, embora eu soubesse que aquilo 
era idiota e irracional, sentia-me rejeitada. O que havia de errado comigo para ele me trocar por algum s quatro anos mais velha?
      Mame tinha razo. Era como se ele estivesse morto, s que ainda pior.
      Meu maior medo era que Colette engravidasse. Aquilo iria realmente complicar de forma irremedivel toda aquela lamentvel confuso e ns nunca mais conseguiramos 
ter as coisas de volta como elas costumavam ser.
      O mais irnico  que eu sempre quis uma irm, desde pequena. Cuidado com o que voc deseja.
      Cada vez que eu falava com papai, me encolhia toda de medo, para o caso de ele avisar: "Voc vai ter uma irmzinha ou um irmozinho."Ser que isso estava fadado 
a acontecer, qualquer dia? Eu  tinha at medo de perguntar, pois isso poderia colocar idias na cabea dele, mas a verdade  que eu nunca fui muito paciente, ento 
eu lhe telefonei um dia e disse:
      - Papai, tem uma coisa que eu gostaria de pedir ao senhor.
      -  sobre o gramado? - quis saber ele. - No se preocupe, pois ele s precisa ser aparado em abril e o cortador est no depsito do quintal.
      - Se Colette engravidar... - Deliberadamente, eu fiz uma pausa para dar a ele a chance de pular e avisar, atropelando as palavras, que nada daquilo iria acontecer. 
Mas no aconteceu nada disso.
      Assim, eu me obriguei a continuar: - Pois bem... Se ela engravidar, quero que o senhor me avise. Ouviu o que eu pedi? Ser que o senhor atenderia a esse meu 
pedido?
      - Ah, Gemma, no faa assim comigo.
      Eu suspirei, j arrependida de ter aberto a boca.
      - Desculpe, papai, mas o senhor me telefona para contar?
      - Sim, telefono.
      Por isso  que, embora eu estivesse magoada por ele nunca ligar, aquilo tambm era uma espcie de alvio.
      Vamos voltar a Susan.
      Eu tambm adquiri uma fixao com a idia de comprar uma torradeira
      Helio Kitty. Ela  to bonitinha e, imagine s... O desenho da Helio Kitty fica
      impresso nas torradas.
      Consegui instalar um acesso  internet com banda larga no computador pr-histrico de papai. Apesar de ser muito talentoso, o meu celular blackberry tijolo 
no  muito bom para procurar imagens coloridas de torradeiras Helio Kitty.
      Deseje-me sorte
      .
      Beijos,
      Gemma
      
      P.S.- J faz seis semanas desde que papai foi embora e mame est indo muito bem. Perdeu quase vinte quilos, aplicou luzes, para clarear os cabelos, fez um 
lifting discreto no rosto e arrumou um namorado de trinta e cinco anos. Eles vo passar as frias juntos em Cap Ferrat. Ela continua se recusando a aprender a dirigir, 
mas nada disso importa, pois seu novo namorado (Helmut, ele  suo) sempre manda um motorista apanh-la ou ele mesmo a pega em seu Aston Martin vermelho com portas 
que se abrem para fora como asas.
      
      Apertei a tecla de "enviar" e ento passei para o computador velho de papai. Eu ia encontrar uma torradeira Hello Kitty na internet, nem que morresse tentando.
      - O que est fazendo? - Mame tinha entrado no quarto e se colocou atrs de mim, olhando por sobre os meus ombros enquanto eu teclava e digitava.
      - Estou procurando uma torradeira Hello Kitty.
      - Por qu?
      -  que... - eu analisava a lista de produtos com concentrao total-... eu li que Reese Witherspoon tem uma.
      Mame ficou calada por alguns segundos, at que, por fim, perguntou:
      - Se Reese Whitherspoon se jogasse de um penhasco, voc faria a mesma coisa?
      
      PARA: Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Um dia negro
      
      O ltimo tablete de chocolate grtis que havia em casa foi consumido. Talvez isso ajude a sacudir mame de seu marasmo. Ela parecia ter se enfiado em um buraco 
feito de rotina e se manteve no fundo dele, quase soterrada por chocolates.
      Sim,  claro que eu estava brincando quando falei da transformao dela! Por Deus! Acho que ela est vestindo a mesma camisola bordada desde que papai foi 
embora, e ainda no largou a tigela de mingau. Quanto a perder todo aquele peso, acho que ela ganhou quase vinte quilos, pois no parou de comer chocolates todo 
esse tempo. Diz que se sente "mais prxima" de papai quando consome produtos que a firma dele fabrica.
      Beijos,
      Gemma
      
      P.S.- Encomendei a torradeira. Agora vou querer uma mochila da Barbie.
      
      P.S.2 - Helmut possui uma espessa cabeleira loura (muito parecida com a de mame), exibe um bronzeado permanente e o corpo esbelto e flexvel que, curiosamente, 
eu no curto muito. Usa produtos La Prairie, especialmente os da linha skin-caviar, os verdadeiros, aqueles carsimos com microcpsulas de caviar imersas em regeneradores 
naturais. Ele deixou um pote no banheiro, ento  claro que eu experimentei, e no dia seguinte ele me pressionou, chamando o que eu fiz de "furto". Naturalmente 
neguei tudo, mas ele disse que sabia que tinha sido eu, porque deixei a marca dos meus dedos no frasco, e afirmou que s uma selvagem enfia o dedo e tira um naco 
de creme facial skin-caviar da La Prairie.
      E u reclamei de ser chamada de selvagem e fui me queixar  minha me. Ela estava sentada na cama, encostada  cabeceira, usando um baby-doll perolado de seda, 
tomando o desjejum - uma torrada de po integral coberta por uma camada quase invisvel de mel. Acabara de acordar e j
      estava penteada e maquiada. Eu lhe contei o que acabara de acontecer.
      - Ah, querida - suspirou ela. Mame nunca me chamou de "querida". - Eu gostaria muito que vocs dois parassem de brigar por minha causa e tentassem se dar 
bem um com o outro.
      - No sei o que a senhora v nele!
      - Bem, querida... - Ela ergueu as sobrancelhas perfeitas (quando ser que mame tinha comeado a fazer as sobrancelhas, e ainda mais a ergu-las?). - Digamos 
que ele ... muuuito bom por baixo dos lenis.
      - Informaes demais, mame! No quero saber detalhes, sou sua filha!
      Mame levantou da cama. Seu baby-doll mal lhe cobria o traseiro. Por alar nisso, estava com pernas espetaculares para uma velha senhora de sessenta e dois 
anos. Embora ultimamente ela informasse s pessoas que tinha completado quarenta e nove anos e j comeara a planejar sua festa de cinqenta primaveras, no ano que 
vem.
      Eu a alertei para o fato de que, se ela estava com quarenta e nove, tinha s dezesseis anos quando eu nasci.
      - Eu me casei quase criana, querida.
      - Ento papai tinha treze!
      - Quem...? - Sorriu ela, com ar ausente.
      - Papai. O homem com quem a senhora se casou.
      - Ah, esse... - Ela lanou um pequeno aceno de desdm com a mo, conseguindo transmitir indiferena e pena de papai.
      
     
11
      
      PARA:Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO:Vivendo em um mundo de fantasia
      
      Escrevi um conto curto. Acho que voc gostaria de l-lo.
      
      Noel Hogan estava quieto assistindo ao jogo de golfe quando outro estrondo assustador veio do quarto de cima, fazendo estremecer o lustre de cristal falso. 
Geri e Robbie estavam destruindo tudo, mas ele se sentia muito cansado para levantar dali e ir at l se desgastar com eles. No que isso fizesse alguma diferena, 
pois eles simplesmente iriam rir na cara dele. Voltando a prestar ateno no jogo, Noel disse a si mesmo que era normal as crianas arremessarem aparelhos de tev 
do alto do beliche.
      Colette o deixara tomando conta dos anjinhos enquanto ia  cidade. Disse que aquela era uma boa oportunidade para ele construir pontes no seu relacionamento 
com os pentelhos psicticos (palavras dele, no dela), mas no fundo Noel suspeitava que ela queria apenas circular pelas lojas sem ter os lindinhos agarrados  sua 
saia.
      Depois de algum tempo, Noel percebeu que os estrondos haviam parado. Ah, eles que se danem! E agora, o que foi?... Seu corao quase parou ao ver a porta da 
sala se abrir e Robbie entrar, acompanhado de Geri, um com a cara mais endemoninhada que o outro. Engraado... Os dois eram a imagem da me, mas ela no tinha cara 
de endemoninhada. Ou ser que tinha...?
      Geri pegou o controle remoto da tev e trocou de canal, com ar casual.
      - Eu estava assistindo o jogo - informou Noel.
      - Problema seu! Voc no mora nesta casa.
      Geri zapeou por vrios canais, desprezando qualquer coisa que tivesse interesse, at parar no que parecia o funeral de um cardeal, muito solene e acompanhado 
de um coro fnebre.
      Ficaram todos em silncio ouvindo o coro pouco melodioso, at que Robbie exclamou:
      - Ns odiamos voc.
      - Sim. Voc no  nosso pai.
      - Parece nosso av. S que mais velho.
      Mais silncio. Noel no poderia dizer que ele tambm os odiava, pois ainda estava na fase de conquist-los.
      - Mame est na rua gastando toda a sua grana - informou Geri. - Esse  o nico motivo de ela estar com voc. Mame vai comprar coisas lindas para ela, para 
mim, para Robbie e tambm para o nosso pai. E quando ela gastar o seu dinheiro todo, vai romper o namoro. Se voc ainda estiver
      vivo.
      As observaes malignas de Geri calaram fundo em Noel. Colette realmente andava gastando muito, e a uma velocidade desenfreada.
      - Vocs querem um pouco de chocolate? - Crianas adoram chocolate.
      - No, esse troo  uma bosta! Ns s gostamos de chocolates Ferrero Rocher.
      Por fim, ele ouviu o barulho da chave de Colette na porta. Graas a Deus! Ela entrou e colocou dezenas de sacolas da Marks and Spencer em cima da mesa.
      - Oi, amor! - Ela beijou Noel no nariz e anunciou, com ar brincalho:
      - Trouxe um presentinho para voc!
      Empado de bacon! Pensou Noel. Daqueles da Marks and Spencer, com muito bacon, os melhores que o dinheiro podia comprar. Que mulher maravilhosa! Ele teve razo 
para largar a sua adorvel e fiel esposa de trinta e cinco anos por ela.
      Colette colocou a mo no fundo de uma das sacolas e lentamente puxou algo l de dentro. Ouviu-se um barulho de plstico sendo manuseado, como o de uma embalagem 
de empado de bacon - s que no era empado de bacon. Era um suti. Um suti de nylon preto e turquesa. De arrasar. Ento a mo tornou a entrar dentro da sacola 
e voltou com outra pea ntima que combinava com o suti.
      - Linda calcinha - elogiou ele, entrando no clima.
      - Isso no  uma calcinha comum. - Com o mesmo jeito brincalho, Colette atirou o pedao de renda sobre ele e a pea pareceu grudar sozinha em sua cabea, 
desmanchando seu topete e eriando-lhe os poucos cabelos.
      -  um fio dental!
      Fio dental. Noel percebeu o que uma calcinha fio dental significava. Era sinal de que ela estava a fim de uma transa naquela noite. De novo. Antes, porm, 
eles teriam o desfile de moda ntima, onde ela circularia de um lado para outro do quarto usando apenas roupas de baixo minsculas, quase esfregando a bunda na cara 
dele e danando em volta do cabide para calas, j que no havia uma coluna para pole dance. Aquilo acontecia toda noite.
      Ela era insacivel e ele estava exausto.
      - Tem mais alguma coisa na sacola? - perguntou ele, ainda com a esperana de conseguir empado de bacon.
      - Claro! - Ela pegou uma cinta-liga que combinava com o suti e o fio dental.
      Noel concordou com a cabea, com ar tristonho. Ele devia estar louco por achar que ela lhe traria empado de bacon. Ela nunca mais havia permitido que ele 
comesse um daqueles. Dizia que ele era velho, muito rodado e que suas artrias deviam estar muito frgeis.
      S que aquela dieta sem gordura que ela impusera para ele o estava matando.
      
     FIM
      
      O que achou? Ser que as coisas so desse jeito? No seria o mximo? Eu faria qualquer coisa para ele voltar para casa.
      
      Era hora da minha visita a Johnny, o atendente da farmcia. Ele estava de papo com uma mulher que precisava de algo para tosse seca.
      - Aqui est a Gemma. Ela saber lhe informar.
      - Informar o qu?
      - Quanta grana  preciso levar para um fim de semana em Paris?
      - Muita - respondi. - Um monte de grana.
      - Ele me aconselhou pelo menos quatrocentas libras - informou a Senhora Tosse Seca, apontando para Johnny.
      - Ah, isso fazendo um clculo por baixo. H sapatos maravilhosos em Paris. Sem falar nas jias. E nas roupas. Pense s nos jantares.
      - Nossa! - Eu adoraria ir a Paris.
      - Eu tambm - disse Johnny.
      Nossos olhos se encontraram.
      - Eu levo voc - props ele. - Podemos passar duas semanas l.
      - Duas semanas? Que tal um ms? - Com isso, tivemos um acesso de riso incontrolvel.
      Sorrindo, a Senhora Tosse Seca nos observou em silncio. Mas, quando Johnny e eu conseguimos interromper o ataque de qui-quiquis e olhamos um para o outro, 
tivemos outro ataque de riso, dessa vez ainda maior.
      - O que  to engraado? - quis saber ela.
      - Nada - respondeu Johnny, quase sem flego. - Nada mesmo. - Esse  o problema.
      
      PARA:Susanjnseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Me bate mais uma vez, amor
      
      Adivinhe s...? Owen, o boyzinho, tornou a ligar. Disseque olhou para a sua perna, sentiu que faltava alguma coisa e ento percebeu que era a imensa marca 
roxa que eu provocara ao empurr-lo para fora da cama, naquela noite. Queria saber se havia alguma possibilidade de repetir a dose, e acho que ele me pegou em um 
momento vulnervel, porque eu disse que sim.
      Aguarde mais detalhes. No sei como vou fazer com mame, mas pensarei em algo. Estou planejando me divertir muito...
      Beijos,
      Gemma
      
      At que era bom eu dar uma sada. As horas passadas com mame em casa prejudicavam muito a minha percepo da realidade. Eu no parava de pensar nas coisas 
que podiam estar dando errado para papai e Colette, para depois escrever pequenos textos sobre elas. Isso era a nica coisa que me consolava. Construa um mundo 
imaginrio, porm muito vvido, no qual, entre outras coisas, Colette se recusava a continuar trabalhando, agora que morava com papai. Ao mesmo tempo, papai tinha 
problemas com os seus superiores e lentamente comeava a cair na real.
      Queria loucamente que mame e papai voltassem a ficar juntos. Era horrvel ter um lar despedaado, mesmo aos trinta e dois anos
      Em vez de vivenciar a fantasia do fazendeiro que tambm era diretor de cinema, eu passava minhas manhs insones imaginando cenrios tirados de vrios romances, 
em que mame e papai acabavam sendo atirados nos braos um do outro. Eu adorava uma dessas histrias em especial, na qual, por um motivo qualquer - digamos, o aniversrio 
de um velho amigo comum - , eles tinham que fazer uma longa viagem juntos, mas o carro enguiava e acabavam em uma cabana no meio do nada; em seguida, acontecia 
uma tempestade, faltava luz, eles ouviam rudos estranhos do lado de fora e eram obrigados a dormir na mesma cama, por questes de segurana.
      A minha histria favorita, porm, era aquela em que papai passava na casa de mame, aparentemente para pegar a correspondncia. O cabelo dela estava lindo, 
muito bem penteado, sua maquiagem era discreta, valorizando seu rosto, e vestia uma sada de praia sobre o mai. Estava linda.
      - Noel - dizia ela, de forma calorosa e desconcertante. - Como  bom rev-lo. Eu ia comear a almoar. Voc gostaria de me acompanhar?
      - Ahn... Depende. Qual  o cardpio?
      - Misto quente acompanhado por um chardonnay maravilhosamente seco.
      - Colette no gosta que eu coma queijo.
      - E Helmut pensa que eu sou vegetariana - dizia ela, com um tom frio.
      - Viu s? No podemos...
      - Acha mesmo? - Um sorriso maldoso e lento se abriu no rosto de mame. - Vamos ser travessos. Prometo no contar nada a ningum se voc tambm no contar.
      - Ento eu topo.
      - O dia est to lindo! Vamos comer no ptio.
      Os dois sentavam junto de uma pequena mesa e o sol sorria sobre ambos. As abelhas zumbiam alegremente, entrando e saindo das dedaleiras cor-de-rosa que balanavam 
ao vento. Mame usava
      culos Chanel e seu batom no saa quando ela mordia o sanduche. Papai observava o lindo e bem cuidado jardim que costumava ench-lo de orgulho e alegria, 
antes de ele ser seduzido por calcinhas fio dental.
      - Eu havia me esquecido de o quanto este pequeno terrao  gostoso.
      - Pois eu, no. - Mame estendia uma das pernas bem torneadas e bronzeadas. - Este  o melhor ponto de Kilmacud, meu caro. Ento, conte-me como vo as coisas. 
Como  a sua vida com
      Claudette?
      - Colette.
      - Oh, desculpe. Colette. Est tudo bem?
      - timo - respondia papai, com ar incerto. - Como vai a sua vida com Helmut?
      - Fantstica! Transamos tanto que eu mal consigo dar conta.
      - Ahn... Sim, claro.
      - Sexo - dizia mame nesse instante, com ar de desdm, lambendo um pouco de queijo das pontas dos dedos. -  s nisso que os jovens pensam. At parece que 
foram eles que o inventaram.   pattico.
      - Sim, e isso acaba com a gente. - Subitamente, as palavras comeavam a transbordar da boca de papai. - O que h de errado com um simples aconchego? Por que 
eles querem que a coisa v sempre
      at o final? Por que eu no posso ir para a cama pelo menos uma vez na vida S PARA DORMIR?
      - Exato. Isso  terrivelmente cansativo.
      Os dois ficaram em silncio. (Um silncio cmplice,  claro.)
      - E os dois filhos de Claudette? Como eles esto? As crianas tm muita energia nessa idade, no ?
      - Se tm...! - concordou ele, com ar sombrio.
      - So uns merdinhas, para falar a verdade - incentivou mame.
      - Se so...! - Ele levantou os olhos, surpreso. Antes ela no tinha a lngua to afiada, tinha?
      - E a coisa tende a piorar - avisou ela. - Espere s at aquela mocinha chegar  adolescncia! Ela vai pisar nos seus calos!
      Noel, que era mais calejado que dedo de bailarina, sentiu que a perspectiva de voltar para Chez Colette o deixava desesperado.
      -  melhor eu ir andando. Preciso pegar Geri na aula de hiphop.
      De volta  sala, ele quase saiu sem levar a correspondncia, mas mame lembrou a tempo.
      - Voc seria capaz de esquecer a prpria cabea, se ela no estivesse presa no pescoo - disse ela, de forma carinhosa. Sob a luz difusa do saguo, em meio 
aos tons indistintos azuis e verdes do seu
      mai, ela se parecia muito com a jovem com quem ele se casara.
      - Foi maravilhoso ver voc - disse ela, beijando-o no rosto. - D lembranas minhas a Claudette. E lembre-se... - disse ela, com um sorriso brincalho. - Com 
relao ao queijo, eu no conto a ningum se voc no contar. Esse ser o nosso pequeno segredo.
      
     
Jojo
      
     
12
      
      2:35, segunda-feira  tarde
      Manoj enfiou a cara pela porta aberta.
      - Jojo, Keith Stein est aqui.
      - Quem  Keith Stein?
      - Fotgrafo da Book News.  para o artigo que fala sobre voc. - Tudo bem. Dois minutos - disse Jojo, tirando os ps de cima da mesa e colocando de lado as 
palavras cruzadas que a estavam deixando louca. Tirou do cabelo a esferogrfica que o mantinha preso em um coque improvisado. Ondas em um lindo tom de castanho tombaram-lhe 
sobre os ombros.
      - Uau, srta. Harvey, a senhorita  linda! - exclamou Manoj. - S que sua maquiagem est meio ressecada.
      Ele lhe entregou a bolsa.
      - Capriche no visual- aconselhou.
      Jojo no precisava de incentivo para isso. Todos no mercado editorial costumavam ler a entrevista da Book News; era a primeira coisa procuravam.
      Ela abriu o estojo de maquiagem e passou uma nova camada da sua marca registrada: o batom vermelho vamp. Bem que ela gostaria que aquela no fosse a sua marca 
pessoal, pois adoraria usar brilho rosado nos lbios e sombra cinza discreta. S que, na nica vez em que ela apareceu para trabalhar com maquiagem em tons pastis, 
as pessoas olharam para ela com ar de espanto. Mark Avery lhe disse que ela estava com cara de doente e Richie Gant a acusou de ir trabalhar de ressaca.
      Acontecia a mesma coisa com o cabelo. Se estivesse comprido demais, ela ficava com cara de artes descabelada, e se estivesse muito curto, bem... Aos vinte 
e poucos anos, logo depois de chegar a Londres, ela experimentara um corte joozinho, mas, na primeira vez em que foi a um pub, o barman olhou para ela desconfiado 
e lhe perguntou: "Qual  a sua idade, filho?"
      Essa foi a ltima vez que ela usou cabelo curto e cara limpa.
      - Mais rmel - sugeriu Manoj.
      - Voc  gay demais - comentou Jojo, indulgente.
      - E voc  politicamente incorreta demais. Estou falando srio a respeito do rmel. Duas palavras: Richie Gant. Vamos deix-lo com nuseas.
      Jojo comeou a aplicar o rmel com mais vigor ao ouvir isso.
      Depois de uma rpida sesso de pintura por todo o rosto - com blush, p compacto, sombra e brilho - , Jojo passou a escova nos cabelos com energia uma ltima 
vez e se achou pronta para ir.
      - Muito sexy, chefinha. Muito noir.
      - Mande-o entrar.
      Carregado de equipamentos, Keith entrou no escritrio, parou e deu uma gargalhada.
      - Voc parece a Jessica Rabbit! - disse, com ar de admirao. - Ou ento aquela ruiva dos filmes dos anos cinqenta. Como era mesmo o seu nome? - Ele bateu 
com o p no cho algumas vezes.
      - Katharine Hepburn? No.
      - Spencer Tracy?
      - Esse no era o nome de um cara?
      Jojo cedeu.
      - Rita Hayworth.
      - Essa! Algum j tinha lhe dito isso antes?
      - No. - Ela sorriu. - Ningum. - Ele tinha os olhos to brilhantes de empolgao que era difcil ser cruel.
      Keith desempacotou o equipamento e as cmeras, lanou o olhar em volta pela pequena sala com paredes cobertas de livros, analisou Jojo e ento tornou a olhar 
em torno.
      - Vamos fazer algo um pouquinho diferente - sugeriu. - Em vez da manjada foto da mesa com voc solene, sentada atrs dela com ar de Winston Churchill, vamos 
apimentar um pouco o visual.
      Jojo lanou um olhar duro para Manoj.
      - O que voc andou falando para ele? Pela ltima vez, leia meus lbios. Eu NO VOU tirar a parte de cima da minha roupa.
      Os olhos de Keith se iluminaram.
      - Mas estaria preparada para aceitar essa sugesto? Faramos algo bem discreto. Dois polegares estrategicamente colocados e...
      O olhar ameaador de Jojo o fez calar a boca de sbito e, quando ele tornou a falar, parecia menos empolgado.
      - Linda mesa essa sua, Jojo. Que tal se deitar sobre ela, de lado, dando uma piscadela?
      - Sou uma agente literria! Demonstre um pouco de respeito! - Alm disso, ela era alta demais; iria sobrar corpo dos dois lados da mesa.
      - Tive uma idia! - anunciou Manoj. - Que tal copiarmos aquela famosa foto de Christine Keeler? Voc a conhece?
      - Aquela em que ela est sentada com o corpo apoiado no espaldar de uma cadeira de cozinha? - perguntou Keith. - Uma pose clssica, tima idia.
      - Ela estava nua.
      - Voc no precisa estar.
      - OK. - Jojo imaginou que aquilo seria melhor do que se esticar em cima da mesa com o cotovelo para fora apoiado no ar. Nossa, ela queria acabar logo com aquilo; 
tinha um monte de trabalho pela frente e j perdera meia hora fazendo as palavras cruzadas do jornal.
      Manoj saiu correndo e voltou com uma cadeira de cozinha, sobre a qual Jojo se sentou com as pernas abertas, sentindo-se uma idiota.
      - Fantstico! - Keith se ajoelhou antes de dar o primeiro clique.
      - Sorriso, agora...! - Mas, antes de disparar, abaixou a cmera do rosto e tornou a levantar. - Voc no me parece muito confortvel - sentenciou. -  o seu 
terninho. Voc no poderia tirar o palet? S o palet - acrescentou ele, depressa.
      Jojo no queria ficar sem palet, pelo menos no no trabalho. Seu terno risca-de-giz a cobria como uma espcie de armadura e, sem ele, ela se achava muito 
peituda. Fora dos limites do palet, o seu corpo se comportava como uma caneca de caf prestes a transbordar - tanta coisa tentava pular para o lado de fora que 
era impossvel acreditar que poucos minutos antes aquele busto exuberante estava totalmente contido nos limites determinados pela roupa. Por outro lado, seus peitos 
ficariam ocultos pelo espaldar da cadeira, ento ela despiu o palet e montou novamente sobre o assento, apertando o espaldar de encontro ao trax.
      - Mais uma coisinha... - pediu Keith. - D para arregaar um pouco as mangas da sua blusa? E abra mais um boto perto do pescoo. S um boto,  tudo o que 
eu lhe peo. E tambm... Sabe como  ... Balance um pouco os cabelos de um lado para outro, para deix-los mais leves e volumosos.
      - Pense em algo sensual- provocou Manoj.
      - E voc pense na fila dos desempregados.
      - Vamos em frente - interrompeu Keith. - Jojo, olhe para mim. - CLIC! - O pessoal com que trabalho comentou que voc j foi policial em Nova York, antes de 
abraar essa carreira.  verdade?
      
     CLIC!
      
      - Qual o problema de vocs, homens...? - Todos eles adoravam a idia de ela ter sido policial. At mesmo Mark Avery admitia que visualizava cenas sexy de Jojo 
chutando portas em batidas policiais e colocando algemas em suspeitos ao mesmo tempo que murmurava "Voc vem comigo!". - Puxa vida, vocs no tm mulheres policiais 
aqui neste pas?
      - Aqui no  como nos Estados Unidos. Elas usam sapatos baixos e tm cabelos caidaos, muito secos e mal cortados. Afinal, voc foi realmente uma policial?
      - Sim, por dois anos.
      
     CLIC!
      
      - Que legal!
      No foi nada legal. Era um empreguinho de merda e Jojo culpava a tev por fazer tudo parecer glamouroso.
      - J arrombou portas com o p?
      - Centenas.
      
     CLIC!
      
      - J trabalhou disfarada?
      - Ah, sempre acontecia. Tinha de seduzir chefes da Mfa e dormia com eles para arrancar todos os segredos.
      - SRIO?
      
     CLIC!
      
      - No. - Ela riu.
      - Mantenha esse olhar. J levou algum tiro?
      
     CLIC!
      
      - Sempre.
      - Jogue a cabea meio de lado. J deu tiros em algum?
      
     CLIC!
      
      - J.
      - Sorriso, agora... J matou algum?
      
     CLIC! CLIC! CLIC!
      
     
13
      
      Depois, na parte da tarde de segunda-feira
      Keith foi embora, Jojo se apertou novamente dentro do palet e j comeava a trabalhar quando Manoj a chamou pelo intercomunicador.
      - Eamonn Farrell est na linha.
      - O que foi, dessa vez?
      - Parece que Larson Koza conseguiu uma resenha muito elogiosa no Independent de hoje, e por que no conseguiria? Devo punhet-lo para fora daqui?
      - Voc adora usar essa expresso, no ? Eu nunca deveria ter lhe ensinado algo assim. No, coloque-o na linha.
      Ouviu-se um estalo. A raiva de Eammon parecia se espalhar pela sala a partir do telefone:
      - Jojo, estou de saco cheio desse bundo do Koza.
      Enquanto ele desabafava, Jojo soltou eventuais "ahn-ahns" de incentivo e aproveitou para olhar os e-mails que haviam chegado. Um era de Mark; resolveu esperar 
para l-lo depois de desligar.
      - ... Puro plgio... Eu fui o primeiro a... - dizia Eamonn. - ... Ele me deve muito do seu talento... Mas pensa que tudo  uma questo de imagem, aquele sacana 
bonito... - Jojo afastou o fone do rosto por um instante, s para ver se o aparelho espumava pelo bocal. Seu interlocutor continuava a falar: - Sabe do que o esto 
chamando, agora? "O Jovem Turco." Eu  que sou o nico e legtimo Jovem Turco por aqui.
      Pobrezinho, pensou Jojo. Ela j passara por aquilo com outros autores. Depois do primeiro momento de empolgao por ter um ttulo publicado, a temerosa gratido 
se dissipava e cedia lugar ao cime. Subitamente eles descobriam que no eram os nicos autores novos no planeta - havia outros! E eles recebiam boas resenhas e 
adiantamentos de valor elevado! Era difcil entrar naquele barco, especialmente para algum como Eamonn, que fizera muito sucesso logo no incio da carreira. Ele 
fora descrito como um "Jovem Turco" muito promissor. Agora era o porra-louca do Larson Koza que recebia as aclamaes.
      Eamonn parecia estar no fim de sua exploso de indignao:
      - E agora, o que vai fazer a respeito disso tudo? Lembre-se que voc est andando por a com vinte e cinco mil libras do meu dinheiro no bolso, s de comisses.
      Quem dera...
      Jojo conseguira para Eamonn um adiantamento de um quarto de milho de libras pelo seu livro. Aquele fora um dos seus maiores triunfos profissionais, muito 
impressionante por qualquer padro
      que se analisasse - especialmente considerando o fato de que Jovens Turcos conseguiam grandes resenhas dos crticos literrios, mas no vendiam muito em termos 
comerciais.
      - Aqueles dez por cento que voc levou de mim esto servindo para complementar o seu salrio.
      A  que voc se engana, meu chapa. Jojo no recebia nada daquela grana. Era necessrio ser scio da empresa para poder embolsar a porcentagem conseguida por 
qualquer acordo; mesmo assim, nunca era mais de cinco por cento.
      Mas ela se manteve calada. Ele estava zangado, sentia-se inseguro, e ela no levava nada daquilo para o lado pessoal. Por fim, depois de mais alguns insultos, 
ele parou de falar subitamente e disse:
      - Ahn... Jojo, eu sinto muito, sinto de verdade. Sou um grosso estpido, falando essas coisas para voc.  que a competio  to acirrada nesse trabalho, 
mais do que em qualquer outro, que isso me abala.
      Ele devia tentar ser agente literrio, pensou ela. A, sim, ele ia realmente descobrir o que era competio. Tudo o que ela disse, no entanto, foi:
      - Eu sei, entendo voc perfeitamente. No se preocupe com isso.
      - Voc  uma jia rara, Jojo Harvey. A melhor. Promete esquecer as merdas todas que eu falei?
      - J est tudo esquecido.
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO: Saudade
      
      Saudade (subst.) 1. Necessidade de. 2. Falta de. 3. Percepo com especial pesar da ausncia de algum ou algo. Ex.: Sinto saudade de voc.
      M xx
      PARA:Mark.avery@lipman-haigh.co
      DE:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO Difcil
      
      Difcil (adj.) 1. Duro, severo, desagradvel. Ex.: Est difcil. Voc no devia ter viajado por uma semana inteira para ir  feira do livro. Piada (subst.) 
1. Frase ou histria curta dita para provocar risos.)
      JJ xx
      
      P.S.- Eu tambm sinto o mesmo pesar especial pela sua ausncia.
      
      Dez minutos depois
      Manoj tornou a chamar.
      - Estou com a sua prima Becky na linha, aquela que se parece com voc, s que  menos bonita, a julgar pela foto sobre a mesa. Acho que ela quer v-Ia esta 
noite, e me disse algo a respeito de vocs
      irem ao Pizza Express. Se as caras damas necessitarem de companhia masculina, ficarei feliz em cancelar o pedido que fez  agncia de acompanhantes masculinos 
e posso me oferecer como voluntrio. Devo aceitar ou recusar essa chamada?
      - Coloque-a logo na linha.
      - Nada disso. Voc deve dizer: "Sim, vou atend-la."
      Jojo suspirou.
      - Sim, vou atend-la.
      
     
14
      
      7:10, segunda-feira  noite
      A maioria dos funcionrios j tinha ido para casa quando Jojo comeou a preencher o questionrio enviado pela Book News.
      
      Nome
      Jojo Harvey
      
      Idade
      32
      
      Histrico da carreira?
      Trs anos no Departamento de Polcia de Nova York (dois e meio, na verdade). Alguns meses como atendente de bar, assim que cheguei a Londres. Seis meses como 
leitora crtica da Clarice Inc., antes de ser promovida a assistente e depois a agente literria jnior. Promovida a agente snior quatro anos atrs, fui trabalhar 
na Agncia Literria Lipman Haigh um ano e meio depois.
      
      Qual  o seu perfume favorito?
      Mark Avery
      
      Jojo escreveu devagar, desejando sentir o cheirinho dele naquele exato momento.
      No, espere, ela no podia responder aquilo. Mais que depressa, rabiscou vrias vezes sobre a resposta que escrevera, e fez isso com tanta fora que a folha 
quase rasgou. O que ser que os outros entrevistados haviam colocado nessa pergunta? Uma rpida folheada nas edies passadas mostrou que um sujeito de gravata-borboleta 
escrevera "o cheiro embolorado de uma primeira edio rara". Outro, que apareceu na foto com uma gravata-borboleta ainda maior e cada nos lados disse que era "o 
cheiro de tinta fresca do primeiro livro de um autor".
      Richie Gant (sem gravata, porque no se usa gravata com camiseta) escrevera "o cheiro do dinheiro", e essa grosseria repercutiu em todo o mundo editorial. 
Embora, conforme Jojo avaliou com relutncia, era admirvel a honestidade do cara...
      
      Prxima pergunta:
      
      O que a deixa deprimida?
      Richie Gant
      
      Uma pausa, seguida de mais rabiscos violentos.
      
      Qual  o seu lema?
      Richie Gant devia morrer!
      
      No, ela tambm no poderia escrever isso.
      Nossa! Ela queria muito ser convidada para responder ao questionrio da Book Review, mas aquilo estava sendo mais difcil do que ela esperava.
      
      Qual a pessoa viva que voc mais admira?
      Mark Avery
      
      Qual a pessoa viva que voc mais despreza?
      A esposa de Mark Avery? No, no, no. Eu devia responder "eu mesma". Prxima pergunta...
      
      Que caracterstica voc mais detesta nos outros?
      Mulheres que do em cima de homens casados.
      
      O que voc mudaria em si mesma?
      Tirando o fato de meu namorado ter mulher e dois filhos?
      
      Que tal seu perfeccionismo?, avaliou. Sua tenacidade?... No, nada disso. Para ser honesta, ela teria que responder que eram suas panturrilhas. Elas eram parrudas 
demais, e botas de couro at o joelho eram peas proibidas para Jojo. At mesmo botinhas com meias esticadas eram um problema. Talvez aquela reclamao fosse comum, 
mas o fato  que, no caso de Jojo, o zper nunca conseguia fechar acima dos tornozelos, mesmo em botas mais baixas. O pior  que ela achava que suas panturrilhas 
tinham a consistncia irregular de carne enlatada. Por causa disso, ela quase sempre usava calas cortadas sob medida para ir trabalhar. Elas haviam se tornado a 
sua marca registrada. (Mais uma.)
      
      O que voc faz para relaxar?
      Transo com Mark Avery. Se ele no estiver por perto, abro uma garrafa de merlot e assisto a algum programa sobre vida selvagem na tev, especialmente se for 
sobre bebs foca.
      
      O que faz voc chorar?
      Uma garrafa de merlot e programas sobre vida selvagem na tev, especialmente os que falam de bebs foca.
      
      Voc acredita em monogamia?
      Sim. Pois , eu sei, mas como posso evitar? Sou hipcrita. Mas no planejei nada para que o meu caso com Mark acontecesse, no sou esse tipo de mulher.
      
      Qual o livro do qual voc gostaria de ter sido a agente?
      Essa  fcil... No que ela algum dia fosse confessar, nem sob tortura.
      O livro era Carros Velozes, o grande sucesso do momento. Um grande romance, exceto pelo fato de que Richie Gant havia sido o agente - no Jojo - e ele conseguira 
1,1 milho de libras de adiantamento pelo ttulo, em um leilo. Jojo tambm tinha alguns sucessos na carreira, mas nada de valor to elevado, e ela j estava com 
terrveis acessos de inveja antes de Richie Gant vir pelo corredor at sua sala s para balanar o contrato na sua frente e vociferar "Leia e chore, sua ianque".
      
      Onde voc se v daqui a cinco anos?
      Como scia da Agncia Literria Lipman Haigh. Alis, espero que antes desse prazo. Na verdade, assim que algum se aposentar.
      
      Na Agncia Literria Lipman Haigh havia sete scios - cinco com base em Londres e dois em Edimburgo. Alm desses, havia mais oito agentes que no eram scios 
e, embora no houvesse como saber quem a diretoria iria escolher para colocar no lugar de quem se aposentasse, Jojo tinha muita esperana de ser ela. Apesar de haver 
trs outros agentes que estavam na empresa havia mais tempo que ela, Jojo conseguira um bom dinheiro para a agncia - nos dois anos anteriores ela dera mais lucro 
do que todos os outros agentes.
      
      Qual  a sua frase favorita?
      O que no mata no s no engorda como tambm nos deixa mais divertidos.
      
      Quais as suas qualidades mais marcantes?
      Consigo assobiar muito alto para chamar um txi, sei xingar em italiano, sei fazer uma tima imitao do Pato Donald. Alm disso, sei consertar bicicletas.
      
      Quais so as cinco coisas sem as quais voc no consegue viver?
      Cigarros, caf, vodca-martnis, Os Simpsons... O que mais?... As batidas do corao?... Ahn... Mais cigarros.
      
      Qual das suas faanhas a deixou mais orgulhosa?
      Parar de fumar. Eu acho. Isso ainda no aconteceu...
      
      Qual foi a lio mais importante que a vida lhe deu?
      Coisas ruins acontecem com pessoas boas.
      
      Ela parou. Essa resposta  um lixo, pensou, recolocando a caneta para prender os cabelos, pois ali ele era mais til. Manoj teria que responder quele troo. 
Estava na hora do encontro com Becky.
      
     
15
      
      8:45, segunda-feira  noite
      Do lado de fora, na Wardour Street, ainda havia muito movimento, apesar da noite congelante de final de janeiro. Jojo seguia pela rua to depressa que um mendigo 
murmurou: "Onde  o incndio, querida?"
      Jojo apressou o passo. No queria se atrasar para o encontro com Becky.
      Jojo e Becky eram muito chegadas, to ntimas que pareciam irms. Quando Jojo chegou em Londres, vindo de Nova York, e ganhava uma merreca, primeiro como atendente 
em um bar e depois fazendo leituras crticas para um agente literrio, Jojo se instalara no quarto de Becky. Dividir um espao to apertado poderia ter se transformado 
em um banho de sangue. Em vez disso, as duas combinaram em milhes de coisas diferentes. Acabaram se empolgando e se encantando mutuamente devido s muitas afinidades, 
apesar de terem sido criadas a milhares de quilmetros uma da outra. Descobriram que suas mes (que eram irms) deixavam os plsticos que vinham cobrindo os estofados 
novos sem remover durante mais de um ano. E quando suas filhas saam da linha, ambas as mes diziam "No estou brava com voc, estou apenas decepcionada", e davam 
tapinhas na tmpora das filhas com tanta fora que denotavam mais raiva do que decepo.
      Becky e Jojo at mesmo se pareciam. S que Jojo, mais alta e mais curvilnea, era uma verso vinte e cinco por cento maior de Becky. (Embora ambas tivessem 
cabelos castanhos naturais, o de Becky era curto e com luzes nas pontas, e graas a isso quase nunca era acusada de se parecer com Jessica Rabbit.)
      Depois de muitos meses morando quase amontoadas, elas finalmente se mudaram para outro apartamento, onde cada uma tinha um quarto prprio, e viveram em harmonia 
por vrios anos, at Jojo comprar seu prprio apartamento e Becky conhecer Andy.
      Embora Becky tivesse nascido oito meses antes, era Jojo quem parecia a irm mais velha. Por algum motivo, ela atraa muito mais ateno do que Becky, que tinha 
bom corao e era carinhosa.
      Na Pizza Express, Becky bebia vinho tinto e beliscava po de alho. Acenou e chamou Jojo assim que a viu chegar.
      As duas se abraaram e ento Becky arreganhou os dentes em uma careta silenciosa, perguntando:
      - Meus dentes esto escuros?
      - No. - Jojo ficou alerta. - Por que pergunta? Os meus esto?
      - No, mas  que eu estou bebendo vinho tinto. Fique de olho em num.
      - Tudo bem, mas vou acompanhar voc na bebida, ento  melhor voc ficar de olho em mim tambm.
      Ambas analisaram o cardpio e Becky perguntou:
      - Se eu pedir a Veneziana, voc promete que me avisa se ficar algum pedacinho de espinafre entre os dentes? D para acreditar que Mick Jagger uma vez mandou 
incrustar uma esmeralda nos dentes? Onde ser que ele estava com a cabea? J  terrvel ter comida de verdade presa nos dentes, mas mandar prender algo falso  
demais...
      Depois de fazerem os pedidos, Jojo perguntou:
      - Ento, quais so as novidades?
      Becky era administradora na rea de planos de sade privados, tinha sob sua responsabilidade contratos com grandes companhias e passava por um perodo infernal.
      - Voc no vai acreditar, mas ela me passou mais quatro clientes novos hoje. - "Ela" era Elise, a gerente de Becky e tambm seu tormento. - Quatro! Cada um 
deles tem dezenas de empregados e todos eles esto em busca de planos de sade. Eu j tenho mais do que consigo dar conta. J comecei a cometer erros idiotas e a 
coisa vai piorar, porque no tenho tempo de fiscalizar a minha equipe como deveria.
      - Becky, voc precisa dizer a ela que est sobrecarregada.
      - No d para fazer isso. Vai parecer que eu no consigo dar conta.
      - Mas no h outra escolha.
      - No posso.
      - Bem, se ela est lhe dando um monte de clientes,  porque acha voc boa no que faz.
      - Que nada!... Ela est me sobrecarregando s para eu pirar e cair fora. Ela  uma megera. Eu a odeio!
      Envolvida com o estresse de Becky, Jojo pegou um mao de cigarros da bolsa.
      - De volta a eles.
      - O que aconteceu com suas sesses de acupuntura?
      - Toda vez que eu brincava com a agulha presa na orelha, sentia uma vontade incontrolvel de comer pur de batata. Pode acreditar, era muita vontade. J resolvi 
outra coisa. Vou ser hipnotizada na noite de sexta-feira. Um dos scios da firma, Jim Sweetman, me deu o telefone. Ela fumava quarenta cigarros por dia e j vai 
para a terceira semana sem cigarros.
      - Mas todos ns precisamos de um vcio - disse Becky, com ar virtuoso.
      - Eu sei, mas agora tudo  muito mais difcil para os fumantes. Quando eu quero fumar no horrio de trabalho, tenho que ir para a rua, e s vezes os homens 
me confundem com uma prostituta.
      Becky tomou um pouco de vinho e depois verificou o reflexo dos dentes na colher. Estavam de cabea para baixo, mas continuavam claros. timo.
      - J estou me sentindo melhor - informou ela. - No d para competir com uma chamin. Agora  a sua vez, Jojo. Compartilhe comigo as suas alegrias.
      - Pois ... Vamos l: eu no vendo nada h algum tempo. No tem cado nenhum livro bom em minhas mos. Nada, nadinha mesmo; Richie Gant, o Rei das Piranhas, 
fechou dois supercontratos nos ltimos dois meses e isso me deixa apavorada.
      Becky balanou o dedo, com severidade.
      - Ora, ora, Jojo, no me venha com essa. Voc no fechou um contrato na semana passada? No foi para comemorar isso que voc comprou aquela carteira da Marc 
Jacobs?
      
      - Qual?!... Ah, sim, mas aquilo foi por Eamonn Farrell. No contabilizo os autores que eu j representava. Preciso aumentar a minha lista de clientes. Se as 
coisas no melhorarem depressa, no
      vou conseguir o bnus da empresa para esse ano.
      - Sim. Como far para se sustentar  base de carteiras Marc Jacobs? Bnus uma oval Voc deveria era conseguir uma porcentagem dos contratos que negocia. Devia 
se tornar scia da empresa!
      - Estou ralando para isso.
      - E continua conversando com a carteira de dinheiro?
      - Um pouco menos.
      - E como vo as coisas com o seu novo assistente?
      - Manoj? Ele  jovem, ligado, esperto pra caramba, mas... Bem, ele no  Louisa. Por que ela tinha de engravidar e me deixar na mo?
      - Mas Louisa vai voltar daqui a quatro meses.
      - Ser?... Voc no acha que ela vai se apaixonar pelo beb a ponto de no conseguir mais larg-lo?
      - Louisa?  pouco provvel.
      Louisa usava saltos muito altos, bebia litros de vodca-martni e tinha a mente afiadssima. Resolveu cortar as vodca-martnis assim que engravidou, mas mudou 
pouca coisa em relao ao resto.
      - Eu realmente sinto falta dela - suspirou Jojo. - No tenho com quem conversar agora. - Louisa era a nica pessoa no trabalho que sabia sobre ela e Mark.
      - Descreva Manoj para mim. Como ele ?
      - Ah, no, Becky. No, no, no. Tem trinta e quatro quilos, com roupa e molhado; parece que tem bicho-carpinteiro, de to agitado. Gosta de me ver sempre 
linda e acha que faz parte da sua funo
      de assistente me manter assim.
      - Gay?
      - No.
      - LG?
      - Hein?!...
      - Ligeiramente Gay.
      - Exato! E, como eu disse,  muito esperto. Depois de duas semanas trabalhando l, ele j sabe sobre mim e Richie Gant.
      - Sabe tambm a respeito de Mark?
      - No! Voc est louca?
      - Por falar nisso, quando Mark volta da feira de livros, e onde foi o evento dessa vez?
      - Volta na sexta-feira. Ele est em Jerusalm.
      - E por que voc simplesmente no foi com ele? - quis saber Becky.
      - Para perder uma semana inteira de trabalho andando de um lado para outro dentro de um quarto de hotel, esperando ele chegar de interminveis reunies? - 
Jojo tentou fazer um ar de indignao,
      mas no conseguiu mant-lo por muito tempo. - Puxa vida, imagine s! Cinco dias inteirinhos na cama. Servio de quarto, filmes para assistir, lenis limpos 
todo dia... Adoro lenis de hotel... O problema  que havia outras pessoas da Lipman Haigh, todas hospedadas no mesmo hotel. Algum ia acabar nos vendo juntos. 
- Jojo olhou para a pizza com ar tristonho.
      Becky tentou ser solidria apertando-lhe a mo, mas no havia nada de novo a acrescentar. Desde que tudo comeara, cerca de quatro meses antes, elas haviam 
analisado a situao to minuciosamente que Becky, s vezes, com seu corao mole, sentia arrependimento por ter se envolvido na histria.
      A sabedoria popular reza que alguma coisa j devia estar errada no casamento de Mark para ele pular a cerca. S que as coisas eram diferentes quando as pessoas 
realmente tinham um caso, avaliou Jojo. No dava para evitar uma espcie de vergonha de si mesma.
      Bem, pelo menos, Jojo no conseguia.
      A verdade  que ela no gostava tanto de um homem havia muito tempo. Seu ltimo namorado (o "pobre Craig") se tornara carente demais, depois fez pirraas de 
criana quando Jojo terminou
      com ele. O relacionamento que viera antes desse at que comeara bem, mas o rapaz ("Richard, o Gostoso") descobriu que Jojo ganhava mais do que ele e deu 
incio a um festival de crticas, reclamava da velocidade com que ela caminhava, dos saltos altos que ela usava, apesar de j ter quase um metro e oitenta, do fato 
de ela nunca usar sala.
      - Como vai ser o resto da sua semana? - quis saber Becky.
      - Amanh  noite  o lanamento do quarto romance de Miranda England.
      - Ah, d para voc me conseguir um exemplar? Gosto muito dela. E qual  o programa para a noite de quarta?
      - Ohhh... - Jojo colocou as mos no rosto. - Um jantar.
      Lanamento de uma biografia de Churchill. Tenho de aturar um monte de velhos conversando sobre a Segunda Guerra Mundial e vou acabar desmaiando de tdio com 
a cara dentro da sopa.
      - Por que vai l, ento? Esse no  um dos seus livros.
      - Dan Swann me convidou para ir com ele.
      - Mas ele nem ao menos  o seu chefe. Mande-o enfiar o lanamento ele sabe onde.
      Jojo gargalhou.diante da idia de dizer ao velho e intelectual Dan que ele enfiasse alguma coisa em algum lugar.
      - Ele  um dos scios mais antigos, Becky, e sempre foi muito bom comigo. Foi uma honra eu ter sido convidada. Quinta,  noite,  dia de ioga. Talvez eu no 
v. Na sexta  noite vou ser hipnotizada para parar de fumar e no sbado vou ver Mark.
      - Ento aparea l em casa no domingo. Andy reclamou que no v voc h sculos.
      - Faz menos de duas semanas, na verdade. Ei, Becky, ser que eu no ando passando tempo demais segurando vela para voc e Andy?  que vocs so da famlia, 
sabem tudo sobre Mark, e eu
      posso ficar falando disso pelo tempo que quiser que vocs no me mandam calar a boca. Isto , quase nunca.
      - Nada disso, ns adoramos voc. Aparea l! Podemos ficar s lendo os jornais, comendo sorvete e reclamando.
      - Reclamando do qu?
      - Do que voc quiser - cedeu ela, com ar magnnimo. - Do tempo, do emprego, de como os "Kinder Ovos" diminuram de tamanho. A escolha  sua.
      Uma hora depois, quando as duas se despediram com beijos, Becky perguntou:
      - Meus dentes esto escuros?
      - No. Os meus esto?
      - No.
      - Isso  sinal de que no bebemos o bastante. Isso  mau. A gente se v no domingo.
      
     
16
      
      Tera-feira  tarde
      PARA:Jojo.harvey@l1pman-haigh.co
      DE: Mark.avery@l1pman-haigh.co
      ASSUNTO:Sentir saudade
      
      Consumir-se, desejar, esperar, torcer, ficar com vontade de tirar todas as suas roupas e dormir ao seu lado.
      Mxx
      
      PARA:Mark.avery@l1pman-haigh.co
      DE:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Difcil
      
      Sei que  duro, severo, restritivo, desagradvel, mas isso deve ser visto como resultado da grande idiotice de participar de uma feira de livros durante uma 
semana inteira.
      JJxx
      
      Quarta-feira  tarde
      PARA:Mark.avery@lipman-haigh.co
      DE: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Palavras Cruzadas
      
      Estou bloqueada.
      Preciso de uma confirmao interessante sobre voc voltar na sexta, antes das dez. Com quatro letras.
      JJxx
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE:Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Sexyl
      
      Dez em algarismos romanos  X. Confirmao s pode ser sim. "Sim" comea com "S". Se o significado  atraente, comeando em "s" e com a letra "x", s pode 
ser "sexy". Por favor, confirme se eu acertei o mais rpido possvel. Quando vou poder tornar a v-la? Quando vamos curtir novos e preciosos momentos juntos?
      Mxx
      
      PARA:Mark.avery@lipman-haigh.co
      DE: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Quando vou tornar a v-Ia?
      
      Sbado, sbado, sbado! sbado, sbado, saabado! sbado, sbado, sbado  noite est timo (se for de dia, tambm).
      JJxx
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO: Sbado
      
      timo. A cama fica grande demais sem voc.
      Mxx
      
     
17
      
      8:57, sexta-feira de manh
      Jojo ouviu o bochicho antes mesmo de v-lo - eram os assistentes e leitores reunidos em torno da ltima edio da Book News, todos falando ao mesmo tempo como 
um bando de papagaios.
      Pam foi a primeira a v-Ia.
      - Sua entrevista est aqui!
      - Voc saiu tima na foto!
      Uma das revistas foi exibida para ela, e Jojo quase deu um pulo.
      Aquela foto! Ela parecia uma daquelas sereias de filmes dos anos cinqenta - cabelos castanhos muito ondulados cados sobre um olho, lbios escuros que faziam 
biquinho - e estava piscando um olho.
      Keith usara a foto em que ela piscara para a cmera! Aquilo tinha sido apenas uma brincadeira e ele prometeu que no aproveitaria a imagem.
      - Suas respostas esto excelentes. Muito engraadas!
      - Obrigado - agradeceu Manoj. - Ahn... Claro que estou agradecendo em nome de Jojo.
      
      Qual  o seu perfume favorito?
      O cheiro do sucesso
      
      Qual a pessoa viva que voc mais admira?
      Eu mesma
      
      O que voc mudaria em si mesma?
      Minha falta de modstia
      
      Qual a pessoa viva que voc mais despreza?
      A mim mesma... Pela falta de modstia
      
      O que voc faz para relaxar?
      Fico na cama. No mnimo sete horas por noite
      
      Que caracterstica voc mais detesta nos outros?
      A mente poluda
      
      O que faz voc chorar?
      Cortar cebolas
      
      O que a deixa deprimida?
      Minha falta de habilidades psquicas
      
      Onde voc se v daqui a cinco anos?
      Veja a resposta anterior
      
      Qual o livro do qual voc gostaria de ter sido a agente?
      A Bblia
      
      Voc acredita em monogamia?
      Que  isso? Algum novo jogo de tabuleiro?
      
      Quais as suas qualidades mais marcantes?
      Consigo assobiar muito alto para chamar um txi, sei xingar em italiano, sei fazer uma tima imitao do Pato Donald. Alm disso, sei consertar bicicletas
      
      Essa foi a nica das respostas originais que Manoj mantivera.  claro que as coisas mais pessoais ela no compartilhara com ele.
      
      Quais so as cinco coisas sem as quais voc no consegue viver?
      Ar puro, sono, comida, um sistema circulatrio e... livros
      
      Qual  a sua frase favorita?
      Vocs aceitam Visa?
      
      O que a faz feliz?
      Uma resposta afirmativa  pergunta anterior
      Qual foi a lio mais importante que a vida lhe deu?
      Garotas boazinhas chegam em ltimo lugar
      
      Foi uma boa frase de efeito, para encerrar. Jojo lanou uma piscadela para Manoj e Pam observou com ateno para aprender como ela fazia. Uma vez ela tentara 
imitar a piscadela sexy de Jojo - depois de tomar algumas doses - , mas tudo o que conseguiu foi deslocar a lente de contato, o que fez suas pestanas se agitarem 
como uma borboleta aprisionada. Quando conseguiu acalmar os espasmos oculares, o homem que tentava atrair j oferecia uma dose de Slippery Nipple para outra mulher.
      Mas nem todo mundo estava feliz com o sucesso de Jojo. Ao voltar para a sua sala, Jojo passou por Lobelia French e Aurora Hall, que eram as Garotas de Ouro 
Nmero Um e Nmero Dois... at a chegada de Jojo na empresa. Do mesmo modo que Tarquin Wentworth, uma agente literria sem muito talento que achava que o seu ttulo 
de "honorvel", herana de famlia, lhe garantiria acesso
      imediato ao status de scia na agncia... At a chegada de Jojo.
      
      Onze minutos depois
      Jojo ainda nem comeara a ler os e-mails do dia quando Jocelyn Forsyth, um dos scios mais antigos da firma, bateu  sua porta e pediu "permisso para entrar".
      To ingls quanto o gim Beefeater, ele trazia o exemplar da Book News enrolado em uma das mos e dava batidinhas com ele na palma da outra, at que resolveu 
abrir a revista na pgina onde estava a foto de Jojo.
      - Minha cara jovem, voc  o equivalente literrio do Viagra. Posso sentar? - perguntou, apontando uma cadeira.
      Nossa, puxa vida!...
      - Claro que pode.
      Ele levantou um pouco as calas do seu terno  altura dos joelhos. Sua roupa era cortada sob medida. Ento, se sentou.
      - Voc tem uma tremenda energia, no ?
      Exatamente nesse instante, Manoj enfiou a cabea pela porta entreaberta e cumprimentou Jocelyn.
      - Como vai, Jock? Desculpe, Jojo, mas Eamonn Farrell est ao telefone, completamente descontrolado. Ele passou na Livraria Waterstones e notou que eles tinham 
doze exemplares do livro de Larson Koza na prateleira. E apenas trs do livro dele. Est falando em trocar de editora. O que eu fao? Devo punhet-lo para fora daqui 
e me livrar dele?
      - Deve o qu? - perguntou Jocelyn.
      - Punhet-Io...
      Jojo interrompeu:
      -  uma expresso nova. Significa "alegr-lo e fazer com que ele v embora mais feliz do que chegou". Diga a ele que h doze exemplares do livro de Larson 
Koza porque ningum comprou
      nenhum. Voc sabe como fazer.
      - Qual a origem dessa expresso to forte? - quis saber Jocelyn. - Voc aprendeu isso em seus dias de defensora da lei e da ordem?
      - Ahn... Isso mesmo.
      - Por favor, me explique como era.
      Sentindo-se uma foca amestrada, Jojo concordou com a cabea.
      - Deixe-me ver... Bem, s vezes, as pessoas iam at a delegacia s para reclamar que no havia policiamento suficiente em sua rua. Tinham razo,  claro, ns 
no tnhamos gente suficiente para cobrir toda a cidade. Mas ns dizamos: "No se preocupe, temos um monte de gente  paisana ou trabalhando sob disfarce." Todos 
iam para casa mais felizes.
      - Um uso interessante de psicologia.
      - Exato!
      - D outro exemplo, por favor.
      Jojo estava louca para ler seus e-mails, mas ele era um sujeito legal, muito atencioso. E scio da firma.
      - Deixe-me pensar. Vamos l... Uma vez, uma mulher chegou  delegacia e disse que a CIA a estava espionando pelas tomadas da casa.
      - Ora, pois uma coisa muito parecida aconteceu com uma tia minha - murmurou Jocelyn. - S que ela acusava o M15, em vez da CIA, mas o resto da histria era 
muito similar.
      - Deve ser duro ter algum assim na famlia.
      - Pois sou obrigado a admitir, minha cara - embora no sinta orgulho disso - , que eu achava essa minha tia tremendamente divertida.
      - Pois . Bem, a pobre mulher era completamente zureta das idias e devia estar internada. Quando a levamos para casa, notamos que ela morava em frente a uma 
loja de roupas que tinha diversos
      manequins na vitrine. Garantimos a ela que um dos manequins era, na verdade, uma agente policial disfarada com roupas civis, e que ficaria ali na vitrine 
o tempo todo tomando conta dela.
      - Ela acreditou nisso?
      - Claro.
      - Entendo. Punhet-lo para se livrar dele - repetiu Jocelyn saboreando a frase lentamente. - Fantstico! Vou usar essa expresso uma hora dessas. Bem, agora 
tenho que ir, minha cara. No gostaria, mas preciso. Talvez voc me acompanhe em um almoo, s ns dois, qualquer dia desses.
      - Claro.
      - Acho que ele gosta de voc - disse Manoj, baixinho, assim que Jocelyn saiu.
      - Humm...
      -  bom que um dos scios mais velhos goste de voc.
      - Humm...
      - Aposto que ele transa sem tirar a camiseta.
      - Deixe de ser grosso.
      
      Dois minutos mais tarde
      - O marido de Louisa acabou de ligar - anunciou Manoj. - A bolsa d'gua estourou.
      - J? O nenm s ia nascer...
      - Est duas semanas adiantado - confirmou Manoj.
      timo, pensou Jojo. Quanto mais depressa Louise tivesse o beb, mais rpido voltaria ao trabalho, certo?
      - No adianta, pois ela vai tirar a licena-maternidade integral - afirmou Manoj, lendo os pensamentos de Jojo. - Elas sempre fazem isso. Agora, deixe-me ver... 
Acho que ns devamos enviar flores para ela.
      - "Ns" quem, Cara Plida?
      Voc,  claro.Quer que eu providencie isso?
      
      Hora do almoo
      Manoj saiu para comprar uma garrafa trmica e o andar inteiro estava silencioso. Jojo comia uma ma e lia o texto "difcil" do segundo romance de Eamonn Farrell.
      No ouviu ningum entrar na sala, mas de algum modo sentiu que era observada e levantou os olhos do original.
      Era Mark.
      - Voc voltou!
      Ela se sentou reta na cadeira. Sinal de pura alegria, avaliou. Uma emoo positiva despertada pela viso de Mark Avery diante dela.
      Aquilo era meio absurdo, porque, analisando friamente, Mark Avery no era nenhum gato irresistvel. No tinha a altura, nem a pele morena, nem as outras especificaes 
de beleza masculina bvia necessrias para desempenhar o papel de heri romntico. Sua altura era um metro e oitenta, mas parecia mais baixo, porque ele tinha uma 
compleio macia e sacada. Embora seus cabelos fossem escuros, no havia nenhum extico tom azeitonado neles, e a cor dos olhos e da pele era a dos ingleses comuns. 
Mas nada disso importava...
      Ele sorria de orelha a orelha.
      - Li sua entrevista. Voc tem muita classe, Jojo. - Baixando a voz quase em um sussurro, continuou: - Sete horas de cama, ...? Bem, vamos ver o quanto eu 
agento.
      Antes, porm, de Jojo ter a chance de responder, ouviu-se o som de gente conversando - alguns funcionrios que voltavam do almoo - e Mark sumiu. Eles eram 
to paranicos a respeito de serem
      vistos juntos que muitas vezes Jojo se via falando com o borro indistinto que ficava no ar quando ele desaparecia da frente dela, e as palavras morriam na 
sua boca antes mesmo de sarem.
      
     
18
      
      Quatro segundos mais tarde
      Jojo sentiu um sobressalto, uma vontade de sair correndo atrs dele e esbarrou com a coxa na quina da mesa, de tanta pressa. Puxa, ela no o via h quase uma 
semana, mas no podia fazer isso.
      Tentou voltar ao trabalho, mas o texto complicado do segundo romance de Eamonn Farrell no tinha charme algum. No que o outro tivesse, para incio de conversa.
      Pronto! Agora, como  que eu vou conseguir trabalhar?
      Mas o socorro estava, inesperadamente, ao alcance da mo.
      
      Treze minutos e meio mais tarde
      Pam irrompeu na sala, fechou a porta e se encostou nela como se estivesse sendo perseguida por uma matilha de ces furiosos. Agarrava um original com fora 
contra o peito. Cutucou-o com o dedo e disse, com voz rouca:
      - Temos um sucesso aqui!
      Pam era a leitora crtica de Jojo. Cada agente tinha uma - foi assim que a prpria Jojo comeara sua carreira no mundo editorial. Os leitores viviam atolados 
em meio  pilha de originais que chegavam  Agncia Literria Lipman Haigh todos os dias. De vez em quando, eles encontravam um texto promissor, mas na maior parte 
das vezes eram obrigados a descartar o material e escrever para o autor, aconselhando-os a no largar o emprego.
      Isso fez Jojo se lembrar de um documentrio que assistira sobre o Rio de Janeiro, ou Caracas - ela no lembrava o lugar, mas era uma cidade da Amrica Latina 
- , onde multides de pessoas pobres conseguiam sobreviver na cidade grande com o que encontravam no lixo. Passavam o dia remexendo pilhas de resduos fedorentos 
em busca de qualquer coisa de valor que pudessem consumir, trocar ou vender.
      - Aqui esto os trs primeiros captulos de um livro chamado O Amor e o Vu - informou Pam. - O texto  excelente!
      - Quem  o autor?
      - Nathan Frey.
      - Nunca ouvi falar dele. Deixe-me ver.
      Duas pginas depois, Jojo j fora fisgada. Todas as suas luzes de alerta piscavam e seu transe era to profundo que, em alguns momentos, ela esquecia de respirar. 
Que sorte ter sido Pam a pescar aquele texto, e no outro dos leitores da agncia!
      Ao acabar os trs primeiros captulos, ela se levantou.
      - Manoj, entre em contato com esse cara. Diga-lhe que precisamos ver o resto. Mande um motoboy buscar.
      No adiantava nada se oferecer para agenciar Nathan Frey at acabar de ler o livro todo. No seria a primeira vez que trs primeiros captulos promissores 
como aqueles se transformavam em lagartos
      de quatro metros de altura que dominavam o mundo a partir dos captulos quatro e cinco.
      
      PARA: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Voc
      
      O que Jojo me faz sentir: - dezenove, tamanho grande, cinco letras.
      Mxx
      
      Jojo tentou decifrar o enigma. Existe gente que, quando tem um caso com algum, pensou ela, vai fazer cursos de sexo tntrico. Outras, como era o seu caso, 
aprendem tudo sobre palavras cruzadas.
      Enquanto esperava pelo livro completo de Nathan Frey, ela comeou a rabiscar em um bloquinho.
      - Dezenove, tamanho grande, com cinco letras. Dezenove poderia ser a letra inicial. Contando o K entre as letras do alfabeto, a dcima nona letra  o "esse". 
"S" em tamanho grande com cinco letras. Pulando o K, a dcima nona letra  o "t". "T" em tamanho grande. Depois de algum tempo, ela percebeu e deu uma gargalhada.
      Teso
      .
      Uma hora e cinqenta e cinco minutos depois (um recorde)
      Manoj colocou os originais nas mos de Jojo com muito cuidado, como se eles fossem um beb.
      - timo. Excelente! Obrigada.
      - Quer que eu segure todas as ligaes?
      - Sim, voc leu meus pensamentos.
      Jojo colocou os ps sobre a mesa e desapareceu por trs do livro. Era uma histria de amor maravilhosamente bem escrita sobre uma mulher afeg e um espio 
britnico. Uma mistura de Bravo Two Zero com Capito Corelli. Um daqueles livros raros que ofereciam suspense, empatia com o leitor, humanidade e muito sexo.
      
      Muito tempo depois
      Manoj colocou a cabea pela porta entreaberta.
      - Algum lagarto?
      - Ainda no. Estou achando muito bom.
      - Ns vamos ao pub.
      - Seus fedelhos preguiosos.
      -  sexta-feira  noite. Venha conosco! Eu j trabalho aqui h quase trs semanas e voc at hoje no me pagou um drinque. Todos dizem que voc vivia saindo 
com Louisa.
      - At parece! Ela est grvida de nove meses. Tenho que terminar de ler isso, estou muito adiante na histria para conseguir parar. - Especialmente porque 
ela tinha a impresso de que haveria um fim trgico. Isso provavelmente garantiria boas resenhas para o livro, e quem sabe at um prmio literrio.
      Mas Manoj tinha razo. Ela costumava sair mais com os colegas de trabalho. Foram muitas sextas-feiras barulhentas regadas a vodca-martni e que geralmente 
acabavam de forma igual: as mulheres disponveis saam de boate em boate  procura de um homem. Jojo, porm, j encontrara um homem pra chamar de seu...
      Ela mal recomeara a ler quando outra pessoa perguntou:
      - Voc no vem tomar um drinque?
      Jim Sweetman, chefe do setor de divulgao e mdia, e tambm o scio mais novo da firma.
      - No.
      - Voc nunca mais saiu conosco.
      - Foi Manoj quem mandou voc vir at aqui?
      Jim franziu o cenho.
      - Eu a ofendi? Ser que tentei agarrar voc em alguma noite de bebedeira?
      - No. E sabe como d para ter certeza disso? Voc continua com todos os dentes. - Ela riu. Estou acabando de ler um livro fantstico e mais tarde, s nove, 
tenho uma consulta marcada com a sua hipnotizadora. Para parar de fumar, lembra?
      - Ah, !... Boa sorte.
      - Bom fim de semana pra voc. Tchau.
      Ela continuou a ler por mais vinte, talvez vinte e cinco minutos, at aparecer outra pessoa perguntando:
      - O que est fazendo?
      Quem seria dessa vez? Mas era Mark. Inundada por uma sensao de bem-estar, ela exibiu seu sorriso mais maravilhoso.
      - Estou lendo.
      - E quando aprendeu a fazer isso?
      Ela se ajeitou na cadeira, mantendo um dos ps sobre a mesa, e girou o corpo de leve. Era timo poder olhar para ele pelo tempo que ela quisesse. Na maior 
parte das vezes, no trabalho, ela s se permitia olhar rapidamente para Mark, e sempre de lado. Provavelmente Jojo olhava menos para Mark do que para qualquer dos 
outros colegas. Mesmo assim, ela tinha medo de algum perceber. "Arr! Agora eu peguei! Voc estava olhando fixamente para Mark Avery. O que anda rolando entre voc 
e o scio administrativo da firma?"
      - Pensei que voc j tivesse ido para casa - disse ela.
      - Tinha umas coisas para resolver.
      - Como foi a feira?
      - Voc devia ter ido comigo.
      - Ah, devia...?
      Um sorriso se espalhou lentamente pelo rosto dele at alcanar os olhos.
      - Eu no ganho um beijo de boas-vindas?
      - No sei. - Ela usou o p para balanar um pouco mais a cadeira. - Voc merece?
      Ele foi para trs da mesa e ela se levantou. Enlaando o pescoo dele com os braos, ela pousou o rosto junto do dele e ficou ali por um momento, absorvendo 
o puro alvio da sua presena; o calor
      dele, a textura slida da parte de trs dos seus braos, o cheiro dele - nada de loo ps-barba ou colnia, mas algo indescritvel e muito msculo. Os ns 
de tenso em sua barriga se desfizeram e
      pareceram flutuar, livres.
      Ento ela moveu a cabea, sentindo a aspereza da sua barba por fazer arranhar-lhe o rosto de leve, at encontrar a sua boca.
      - Jojo - sussurrou Mark, com o rosto grudado no pescoo dela. Eles se beijaram mais uma vez, enquanto ele tentava enfiar a mo por baixo do seu terninho. Junto 
 orelha de Jojo, a respirao dele era quente, ofegante, alta, e ela sentiu a quina da mesa apertando- lhe o quadril. A essa altura, ele j abrira os botes do 
palet dela, sua mo j estava na maciez do seu seio e ela sentiu as pernas moles de desejo.
      A ereo dele a pressionava e suas mos apertavam o corpo dela com fora, segurando-a pelos ombros e tentando persuadi-la a ir para o cho. Ele era forte e 
determinado, mas Jojo resistiu.
      - Todo mundo j foi embora - disse ele, com os dedos alcanando um dos mamilos dela. - Est tudo bem.
      - No! - Ela se desvencilhou dele. - Vejo voc amanh.
      No importava o quanto o desejava, ela no ia transar no cho do escritrio. Quem ele achava que ela era?
     
19
      
      Ainda mais tarde, na sexta-feira  noite
      
      Jojo, fale-me do seu pai.
      ... (Pausa)... Ahn?... (Pausa) Voc est brincando comigo, certo?... (Longa pausa)
      
      Fale-me do seu pai
      ... (Pausa)... O que  isso? Estamos em um filme do Woody Allen... (Pausa)... Desculpe, mas voc est me ouvindo direitinho?... (Pausa)...
      
      Estou ouvindo perfeitamente.
      Ento, por que no est conversando comigo?
      
      Estamos aqui para voc conversar comigo, e no o contrrio.
      Ei, espere um instante! Que histria  essa? Eu vim aqui para ser hipnotizada e deixar de fumar.
      
      Preciso conhecer voc antes de ajud-la.
      No, nada disso. J vi hipnotizadores na tev; eles fazem uma pessoa da platia achar que  uma galinha e que acabou de perder a cauda. Eles nunca haviam encontrado 
a vtima antes e no sabiam nada a respeito dela.
      
      Sou uma hipnoterapeuta, no hipnotizadora.
      Tem diferena?
      
      Muita. Os hipnotizadores so artistas, provavelmente charlates. Eu sou uma profissional 
      ... (Pausa)...Ai... meu... Deus! Voc  uma psicloga!
      
      H algum problema nisso?
      No. Isto , sim! Eu queria vir aqui para olhar no fundo dos seus olhos, cair em sono profundo e em seguida acordar para ir embora e nunca mais fumar.
      
      Fumar  um vcio profundamente arraigado. No existem solues mgicas para elimin-la.
      ... (Pausa)... Ah!... Pois bem, eu queria uma soluo mgica... (Pausa)... Quer dizer que quando eu for embora, daqui a pouco, vou continuar sendo uma fumante?
      
      Correto.
      E vou ter que voltar aqui na semana que vem?
      
      Correto.
      E vou ter que contar a voc tudo sobre o meu pai?
      
      Correto
      Por favor, pare de falar "correto". Durante quantas semanas eu vou ter que vir aqui?
      
      Qual  o comprimento de um pedao de corda?
      Bem mais curto que a minha pacincia. Quantas semanas?
      
      Entre seis e nove, em mdia.
      Obrigada.
      
      Voc me parece ter problema em confiar nos outros.
      No tenho problema em confiar nos outros. Tenho problema de tempo.
      
      Voc pode ir embora agora mesmo, se desejar.
      Bem que eu gostaria, mas, j que perdi o episdio de Friends,  melhor ficar. Vamos em frente, por favor! Quanto mais cedo comearmos, mais depressa eu vou 
ser uma ex-fumante. Voc quer saber
      a respeito de papai. Pois bem Ahn, eu posso fumar aqui? No?... (Pausa)... Bem, pelo menos valeu a tentativa. Muito bem. O nome dele  Charlie e ele  meio 
irlands, um quarto italiano e um quarto judeu. Tem um metro e noventa de altura e uns cem quilos, talvez cento e cinco. Primeiro ele foi policial e depois bombeiro. 
O que mais eu devo contar?
      
      Que tipo de pessoa ele era quando voc estava crescendo?
      Ahn... (Pausa)... Sabe como , ele era apenas... (Pausa)... papai.
      
      Voc foi a caula dos filhos e a nica filha dele. Por acaso ele a tratava de forma diferente em relao aos seus irmos?
      No, nem um pouco. Eu sempre fui igual aos meninos, uma espcie de quarto filho. S descobri que era uma garota quando fiz quinze anos, mais ou menos!
      
      Por que acha isso engraado?
      O que quer dizer?
      
      Por que est rindo? Sentir-se confusa a respeito da prpria identidade sexual  motivo de humor?
      Ei, espere um minuto! Esquea o que eu disse, estava s brincando. O que eu quis mostrar  que no era uma daquelas meninas lindas e frescas que usavam vestidos 
de festa cheios de babados e nunca sujavam as mozinhas. Posso mascar um chiclete? No? No?!...
      
      Que roupa voc usava?
      Puxa, os cigarros d para entender, mas chiclete?... No se trata de chiclete comum,  Nicorette. Um remdio! E no vou grud-lo na parte de baixo da cadeira 
na hora de sair. O que me diz disso?
      
      Que roupa voc usava?
      Devo aceitar isso como um "no", certo? Droga. Deixe-me ver... Que roupa eu usava? Roupas comuns: jeans, tnis culos de esqui, penas de pavo, bos compridos 
e emplumados... (Pausa)... Desculpe, brincadeirinha Ahn, usava jeans e tnis.
      
      Essas roupas eram suas?
      Algumas vezes.
      
      De quem mais eram as suas roupas?
      Dos meus irmos. Sabe o que acontece?... No havia muita grana e tanto eu quanto mame no nos importvamos muito com o que eu vestia.
      
      O que os seus irmos fazem hoje em dia?
      So policiais.
      
      Todos trs?
      Ahn... Sim!
      
      Seu ambiente familiar me parece muito masculino.
      Desculpe, mas acho que minha me no ia gostar nem um pouco de ouvir isso! Ela  uma dama! Quando ns dizamos "merda" na hora da raiva, ela nos dava tapes 
na orelha.
      
      Ela dava tapas na sua orelha?
      ... (Pausa)... Ahhh!... (Pausa)... Saquei o que voc est pensando... (Pausa)... Ela no gostava de ouvir os filhos falando palavro. Sempre tentava nos passar 
bons exemplos.
      
      Fale mais sobre a sua me.
      Ela  inglesa e seu nome  Diane;  enfermeira. Conheceu papai no hospital, no dia em que ele chegou com uma vtima de bala para ser atendida.
      
      Ter uma me enfermeira deve ter sido muito bom quando voc ficava doente.
      Est brincando?!... Ela sempre dizia que j cuidava de gente doente o dia inteiro e no queria continuar fazendo isso nas horas de folga. Por exemplo, quando 
eu caa e cortava o joelho, ela me contava que havia uma garotinha na enfermaria dela com queimaduras de terceiro grau em setenta por cento do corpo. Ou ento, quando 
papai tinha alguma dor de cabea, ela dizia que, se ele queria saber de verdade o que era sentir dor de cabea, devia ter o crnio rachado por um taco de beisebol 
- em seguida ela mesma se oferecia para fazer isso.
      
      Ento o casamento dos seus pais no era feliz?
      Nada disso! Eles eram loucos um pelo outro. Quando ela falava aquilo sobre o taco de beisebol, era s brincadeira.
      
      O que aconteceu quando voc completou quinze anos e descobriu que era uma garota?
      Escute, eu sempre soube que era uma garota, s que... Sabe como , eu me sentia igual aos rapazes... (Pausa)... S que, quando fiz quinze anos, derrotei um 
garoto em uma partida de sinuca... (Pausa)... Quer que eu explique melhor?... (Pausa)... Tudo bem! Ns tnhamos uma mesa de sinuca no poro de casa; eu costumava 
jogar com papai e meus irmos, mas eles sempre arrasavam comigo no jogo. S que de tanto praticar eu acabei ficando boa naquilo. Certo dia eu conheci um garoto e 
gostei dele.
      
      Gostou dele como?
      Gostei dele tipo gostei dele. Fiquei a fim dele.
      
      Essa foi a sua primeira paixonite?
      No, eu j tinha quinze anos e vinha tendo paixonites desde os oito - mas no era por caras de verdade, geralmente era por artistas de cinema. Por exemplo, 
eu adorava o Tom Cruise e tinha uma
      quedinha por Tom Selleck... Talvez acontecesse com os artistas que tinham o nome de Tom. Alis, por falar nisso, eu tambm gostei muito de Tom Hanks no filme 
Quero ser Grande.
      
      E como se chamava a sua paixonite dos quinze anos?
      Melvin. No era Tom. Acho que isso era sinal de que a coisa no ia dar certo.
      
      O que aconteceu?
      Ele foi o primeiro cara com quem eu sa. Foi me pegar em casa e papai avisou que, se Melvin encostasse um dedo em mim, ele o mataria. Ento, depois de ter 
colocado um monte de medos no pobrezinho, papai nos disse "Divirtam-se, crianas!", como no seriado Happy Days. Ento eu e Melvin samos, na volta fomos jogar sinuca 
e o derrotei. Ele no gostou nem um pouco de ter perdido e depois desse dia nunca mais quis saber de mim.
      
      Como voc se sentiu a respeito?
      Achei que ele era um perfeito idiota. No queria namorar um cara que desejava ser melhor do que eu.
      
      Agora, sim, estamos chegando a algum lugar.
      Estamos?!...
      
      S que o nosso tempo acabou. Vejo voc na semana que vem.
      
     
20
      
      9:07, sbado de manh
      O telefone tocou: era Mark.
      Ms notcias. De certo modo, ela j esperava por aquilo. Afinal, Mark estivera fora por uma semana e, se ela fosse a esposa dele, ia querer que ele ficasse 
em casa no primeiro dia aps a volta - havia
      lixo para levar para fora, crianas que precisavam ouvir uns gritos, esse tipo de coisa.
      - Jojo? - sussurrou ele ao telefone. - Sinto muito, mas no vou poder v-la hoje.
      Ela no disse nada. Sentia-se desapontada demais para tornar as coisas mais fceis para ele.
      - Sam se meteu em uma enrascada. - Sam era o filho de Mark.
      - Recebemos um telefonema ontem  noite. Ele saiu para beber com alguns amigos. Ele nos avisou que ia assistir a alguns vdeos na casa de algum, mas foi beber 
e passou to mal que acabou indo parar no hospital.
      - Ele est bem agora?
      - Agora est, mas ns levamos um susto enorme e  melhor eu ficar por perto.
      O que ela poderia dizer? Sam era um menino de treze anos. Aquilo era coisa sria.
      - Onde voc est, Mark?
      - No quintal, dentro do galpo de ferramentas.
      Galpo de ferramentas. Cercado por pesticidas, repelentes de lesmas e muitas teias de aranha. Ela quase caiu na risada ao pensar no glamour que era ter um 
caso amoroso.
      
      - Ento... Cuide-se bem. Cuide dele e... ahn... Dos outros tambm. Sua mulher e sua filha
      - Sinto muito, Jojo. Voc sabe o quanto eu sinto. H uma chance de nos vermos amanh. Quem sabe eu dou um jeito de...
      - J tenho planos para amanh. Espero que Sam fique bem. Segunda-feira a gente se v.
      Ela desligou e puxou o edredom para cima, mais perto do queixo, sentindo solido por um momento. No ia reclamar. Desde o princpio, ela sabia no que estava 
se metendo e fizera um acordo consigo mesma.
      O problema  que ela estava muito empolgada, louca para v-lo. Fazia mais de uma semana desde que passara algum tempo a ss com ele...
      Olhou para a mesinha-de-cabeceira, onde ela deixava a sua carteira nova todas as noites, a fim de que fosse a primeira coisa que avistasse ao acordar, e disse 
para o objeto: "Ah, que se dane!" Agora ela estava arrependida de no ter feito sexo com ele no escritrio, na noite anterior. Quando voc sai com um homem casado, 
tem de aproveitar as chances quando elas aparecem.
      Como foi que aquilo aconteceu? Uma situao em que transar em cima de um carpete de fibra sinttica parecia um prmio? Como foi que ela e Mark Avery haviam 
acabado daquele jeito?
      Ela sempre gostara muito dele, desde o incio; respeitava o jeito p-no-cho com que ele motivava a sua equipe, sem assust-los demais. E obviamente ele gostava 
dela. De modo teatral, costumava se encostar contra a parede quando ela passava pelos corredores da Lipman Haigh e gritava: "Cuidado! Ela vem vindo a toda velocidade!"
      Ele a chamava de "Rubra", por causa do batom, e ela o chamava de "Chefe". Muitas vezes eles articulavam as palavras pelo canto da boca com a fisionomia impassvel, 
como se estivessem em um filme noir.
      Ele era um bom chefe, do tipo que os funcionrios procuram em busca de conselhos. Ela tentava no incomod-lo; gostava de resolver as coisas por si prpria 
- a no ser que estivesse enrolada em algo que nenhum tipo de malabarismo conseguisse solucionar. Como no problema com Miranda England, uma situao complicada e 
sem soluo que quase a deixou louca.
      Ela deu uma passada na sala de Mark, sentou-se diante da sua mesa e avisou.
     - Voc vai adorar este pepino, chefe.
      - Era um dia sem novidades - disse ele com voz impassvel, como se estivesse narrando a cena. - ... Em uma semana sem novidades, em uma vida sem novidades.
At ela aparecer. O que foi, Rubra?
      Jojo explicou tudo. Miranda England era uma grande autora, mas sua carreira vinha sendo pessimamente administrada. Ela queria demitir o seu agente, Len McFadden, 
e se tornar cliente de Jojo. Queria tambm mudar de editora. Porm, Len tinha em seu poder um contrato para mais dois livros na editora antiga. A prpria Miranda 
assinara aquele contrato; se ele o devolvesse, ela ficaria
      livre para ir para uma nova editora, mas se o repassasse aos editores antigos, a autora ficaria presa por mais dois livros. Ao saber que Miranda pretendia 
demiti-lo e ver que no poderia impedi-Ia, Len McFadden ameaou fazer exatamente isso.
      - E voc pretende aceit-la como cliente sem cobrar, pelo menos at o prximo contrato estar pronto para negociao?
      - Isso mesmo, se a carreira de Miranda no tiver implodido de vez, a essa altura.
      Mark olhou para o teto e, depois de algum tempo, baixou o olhar para fit-la.
      - A primeira pergunta : a autora compensa todo esse trabalho?
      - Sim, certamente. Miranda England  tima, realmente tima. Vai fazer uma longa carreira escrevendo livros fabulosos, mas precisa achar o editor certo. A 
Pelham no reservou nenhum dinheiro para fazer o marketing dela, mas a Editora Dalkin Emery faria isso. Sua carreira iria voltar aos trilhos na mesma hora com a 
Dalkin Emery, poderamos at tentar comprar de volta os direitos dos seus dois primeiros livros e reedit-los com um tratamento especial, como se fossem lanamentos. 
Se fizssemos a coisa certa dessa vez, seria o mximo...
      - Muito bem. Ento o problema  Len McFadden. Quanto ele afirma que vai perder?
      - Seus dez por cento no contrato para o novo livro.
      - E voc no pode negociar um contrato melhor com a Dalkin Emery? O bastante para cobrir os dez por cento de McFadden sem deixar Miranda sem grana?
      Jojo pensou a respeito. At que ponto a Dalkin Emery realmente queria Miranda?
      - Sabe de uma coisa...? Acho que eu poderia tentar.
      - Ento o problema est resolvido.
      - Nossa, voc  bom.
      Jojo entrara naquela sala aprisionada em uma situao do tipo "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come", em que no importa o que escolhesse, haveria 
uma perda. Acabou saindo dali com a
      comodidade de no perder de um jeito nem de outro.
      - Voc  o mximo... A cerejinha do glac do bolo - disse-lhe ela.
      - O creme chantilly do caf expresso?
      - Isso tambm. Obrigada.
      Isso acontecera dezoito meses antes e ela ficou f dele de forma to inquestionvel que uma luzinha de alerta acendeu em sua cabea. De repente a relao entre 
eles se tornou muito mais calorosa.
      Quando ela fazia sugestes nas reunies das manhs de sexta-feira, ele demonstrava um jeito especial de ouvir o que ela dizia com toda a ateno enquanto desviava 
o olhar, para em seguida sorrir de um jeito que a perturbava positivamente; ele admirava a forma de Jojo trabalhar e ela gostava disso.
      Porm, nem uma vez sequer ela pensou nele como um namorado em potencial. Afinal, ele era casado, e isso automaticamente o colocava fora do preo. Alm do mais, 
se Jojo analisasse a situao conscientemente, acabaria por decidir que, com quarenta e seis anos, ele era velho demais para ela.
      Entretanto, as coisas mudaram na manh em que ele apareceu na sala dela,  procura de algum que representasse a agncia em um jantar naquela noite. Ele se 
programara para ir, mas sua mulher teve
      uma crise de enxaqueca e ele precisava comparecer a uma reunio de pais e professores, no lugar dela.
      - Sei que est em cima da hora - disse ele - , mas voc est livre esta noite?
      Jojo olhou para ele com os olhos semicerrados, fingiu-se de sexy e respondeu:
      Ela esperava que ele casse na gargalhada, mas o olhar que ele lhe lanou mostrou que a piada no surtira efeito. Ele no riu; em vez disso, pareceu meio paralisado. 
O astral dela despencou na mesma hora - e nesse momento foi ela quem ficou surpresa. At ento, ele sempre fora um sujeito brincalho, mas talvez ela tivesse exagerado. 
Por mais que eles se tratassem de forma amigvel, ele continuava sendo chefe dela.
      - Desculpe - pediu ela, muito sria. -  claro que estou livre esta noite.
      Depois disso, ela achou que as coisas haviam voltado ao normal; porm, alguns dias depois, ficou claro que isso no era verdade. Houve uma cerimnia para entrega 
de prmios literrios em um evento longo e barulhento no Park Lane Hilton. No fim da noite, Jojo estava do lado de fora do hotel, na fila do txi, com as sandlias 
de salto alto balanando na mo, quando Mark apareceu. Ela no o vira durante toda a noite.
      - Oi, Rubra - ele disse, esbarrando nela. - Estava procurando voc.
      - Aqui estou.
      Algum atrs deles berrou:
      - Mark Avery, o que acha que est fazendo?
      - Furando a fila!
      - Pelo menos ele  honesto - Jojo ouviu a pessoa comentar.
      - Como foram as coisas hoje  noite? - perguntou ela.
      - Blablabl... Livros. - Mark riu, parecendo meio alto. - Blablabl... Vendas. - Nesse instante ele reparou nas sandlias penduradas na mo de Jojo e, com 
ar surpreso, olhou para os ps dela, descalos na calada fria.
      Ela encolheu os ombros e explicou:
      - Elas estavam me matando.
      Ele balanou a cabea com um ar que poderia ser descrito como de admirao e passou o resto do tempo na fila cantarolando baixinho um velho sucesso de Frank 
Sinatra: "... ela odeia a Califrnia,  diz que l  frio e mido... mas adora o vento gelado nos cabelos e gosta da noite fria... dizem que essa dama  uma vadia."
      -  "ar fresco" e no "noite fria" - corrigiu Jojo. - Chegou o meu txi. Boa-noite. Amanh a gente se v.
      A porta do carro j estava aberta e Jojo j entrava quando Mark a segurou pelos cabelos. Ela se voltou sem compreender e ele perguntou:
      - Posso ir para casa com voc?
      - Como assim...? Voc quer que eu lhe d uma carona at o seu apartamento?
      - No. Quero ir para casa com voc.
      Ela imaginou estar ouvindo coisas.
      - No - respondeu, muito surpresa.
      - Por que no?
      - Porque voc  casado. Porque voc  meu chefe. Porque voc est bbado. Quer que eu d mais motivos?
      - De manh eu vou estar sbrio.
      - Mas vai continuar sendo meu chefe. E vai continuar casado.
      - Por favor...?
      - No! - Ela riu, desvencilhou-se dele e entrou no txi. Antes de fechar a porta, avisou: - Pode deixar que eu vou esquecer que isto aconteceu.
      - Pois eu no.
      No dia seguinte ela esperava um pedido de desculpas meio esfarrapado, feito por um sujeito sem graa que diria, girando os olhos: "Nossa, eu estava em um estado 
lamentvel ontem  noite." A isso se seguiria uma oferta de paz regada a Alka Seltzer. S que no aconteceu nenhum pedido de desculpas, nem Alka Seltzer, nem nada.
      Ela nem mesmo o viu durante todo o expediente, at de tardinha, e isso mesmo por acaso, quando eles passaram um pelo outro no corredor.
      Assim que ele a avistou, seus olhos se mostraram visivelmente alterados. Ela j ouvira falar de pupilas dilatadas - tinha lido romances aucarados em quantidade 
suficiente para conhecer a imagem - , mas nunca vira aquilo acontecer na vida real. Agora, como se para atender a um pedido especial que ela tivesse feito, as pupilas 
de Mark se dilataram at as suas ris virarem quase pontos pretos. Ele no disse uma nica palavra para ela e, depois disso, tudo mudou.
      
     
21
      
      11:12, sbado de manh
      Jojo tinha acabado de pegar novamente no sono quando a campainha tocou. Flores. Desde que o seu relacionamento com Mark comeara, ela nunca recebera tantas 
flores e j no curtia mais quando elas chegavam; elas representavam encontros cancelados, sesses inteis de depilao, cestas de morangos que Jojo era obrigada 
a consumir sozinha com tanta freqncia que j estava com urticria.
      Usando a camiseta comprida, ela ficou na porta, esperando o entregador das flores subir as escadas. O apartamento de Jojo ficava no quinto andar de um prdio 
em Maida Vale, em um edifcio com
      revestimento de tijolinhos na regio onde, em tempos idos, os homens casados costumavam montar apartamento para suas amantes.  claro que quando ela se mudou 
para l no imaginava que ia
      acabar virando amante de algum. Provavelmente teria gargalhado no s pela idia como pela palavra em si.
      Um apanhado imenso de lrios maravilhosos subia as escadas. Ao chegar ao ltimo degrau, eles pareceram se curvar e arfar, como se tentassem recuperar o flego, 
e ento um rapaz apareceu por trs deles.
      - Voc, de novo! - ele acusou Jojo e, entre estalos de celofane, passou o pacote para os braos dela. - Ah, espere um instantinho... Tem um carto! - Ele apalpou 
o bolso e achou um pequeno envelope. - Ele diz que sente muito e vai tentar compensar a mancada.
      - No existe mais privacidade?
      - Tive que escrever pessoalmente o recado, no havia como eu no saber. Dessa vez a coisa deve ter sido feia, porque ele lhe enviou metade da loja.
      - Certo. Obrigada. - Jojo entrou em casa.
      - No d para vocs pararem de brigar? Essas escadas esto me matando!
      Jojo fechou a porta, colocou as flores dentro da pia da cozinha e telefonou para Becky.
      - E a... Qual  a boa para hoje?
      - Pensei que voc fosse passar o dia todo com Mark. - Becky parecia preocupada.
      - Mudana de planos. E ento, qual  a boa? - Seu tom de voz era alegre, pois Jojo no queria que ningum sentisse pena dela.
      - Vou passar no dentista - informou Becky. Uma das minhas obturaes caiu ontem  noite. Mais tarde vamos fazer compras, eu e Shayna. Quer vir tambm?
      Jojo hesitou. Tinha busto, cintura e quadris, o tipo de corpo que entrou na moda pela ltima vez em 1959. Fazer compras com Shayna era meio incmodo, porque 
ela freqentava lojas que s ofereciam roupas para jovens anorxicas de treze anos.
      - Entendo voc - afirmou Becky, percebendo a hesitao. - Ela vai nos obrigar a ir  Morgan. Mas venha conosco, mesmo assim. Vamos dar boas risadas.
      - Querida, eu no pretendo comprar nada, mas vou sim; vejo vocs daqui a pouco.
      
      12:10, sbado  tarde
      - Shayna... - disse Jojo. - Sabe aquele jantar que voc vai oferecer hoje  noite? Sei que eu esnobei o convite, mas posso mudar de idia? Desculpe atrapalhar 
a distribuio dos lugares  mesa, e no me importo se tiver de comer nuggets de frango com as crianas na mesa da cozinha.
      - De novo...? - reagiu Shayna.
      - . De novo...
      Um dos efeitos colaterais de sair com um homem casado era ter de impor sua presena sobre outras pessoas no ltimo instante, mesmo sem se sentir  vontade 
com isso.
      - Voc no devia aceitar esses desaforos dele - aconselhou Shayna, que no aceitava desaforos de ningum.
      - Voc me ouviu reclamando?
      Shayna fez um bico com os lbios.
      - Sei!... De qualquer modo, hoje no teremos crianas em casa, ento voc vai sentar  mesa dos adultos.
      - Oba!
      Shayna era amiga de infncia de Becky e, quando Jojo foi morar na Inglaterra, ela tambm se tornou sua amiga. Era uma mulher fabulosa. Foi a primeira negra 
- mulher, ainda por cima - a conseguir sociedade na firma de consultoria empresarial em que trabalhava, e seu salrio era maior que o de Brandon, seu marido advogado, 
que fazia tudo o que ela mandava. Mesmo depois de dois filhos, sua barriga era lisa e dura, e sua bunda no mostrava sinais de estar prestes a se soltar das costas 
e despencar no cho. Sua casa em Stoke Newington era imensa, tinha trs andares e fora comprada por sete libras e meia, ou um preo irrisrio desse tipo. Eles haviam 
substitudo as partes podres, trocaram todo o encanamento, acabaram com as infiltraes e transformaram uma casa caindo aos pedaos em uma residncia maravilhosa 
- e bem a tempo de aproveitar a valorizao dos imveis naquela rea.
      Shayna costumava oferecer jantares elegantes. Pelo menos, eram elegantes no incio, mas ela enchia os convidados de tanta bebida que no fim da noite eles estavam 
sempre descabelados, desarrumados e com a cara muito mais perto da mesa do que antes.
      2:10, sbado  tarde, Kensington High Street
      Jojo gostava de fazer compras sozinha - isso garantia que ela mudasse de idia  hora que bem quisesse sem ter ningum para pentelhar. Seu plano para aquela 
tarde era comprar coisas de casa, como roupas de cama em linho de boa qualidade e leos exticos para banho, coisa que ela fizera muitas vezes logo que comprou o 
apartamento, um ano e meio antes - e ela no economizara dinheiro nem amor nessa atividade; trocara as revistas normais de informao pelas de decorao de interiores; 
de um dia para outro viu-se mais interessada em cores de tintas para paredes do que em cores de esmaltes para unhas; gastava mais em molduras para quadros do que 
em sapatos; havia comprado um imenso, confortvel e aconchegante sof, mveis em estilo indiano e andava namorando uma poltrona reclinvel Lazy Boy com cinzeiro 
embutido e cooler para cerveja, at Becky aconselh-la a no fazer aquilo. Resumindo, fora contagiada pela Loucura da Casa Nova.
      Quando o frenesi passou, ela voltou a comprar a Harpers & Queen novamente - at comear a sair com Mark. Como eles nunca saam para jantar fora nem nada desse 
tipo, seu apartamento se tornou um ninho de amor, e comprar velas aromticas e lenis de algodo egpcio fazia com que ela se sentisse no controle da situao.
      Naquela tarde, porm, ela subitamente percebeu que no havia motivo para comprar um novo jogo de lenis - a esposa e os filhos dele no iam desaparecer - 
e ela j possua roupas ntimas sexy em
      quantidade suficiente para abrir uma loja. Por isso, exercitou a velha prerrogativa do comprador solitrio e "mudou de idia". Comprar lenis de linho era 
out, comprar roupas era in. Em menos de dez minutos na Barkers, Jojo encontrou um par de calas to caras que ela deu um grito ao ver o preo.
      - Algo errado, senhora? - perguntou uma atendente, materializando-se do nada.
      Jojo riu, meio sem graa.
      - No  de estranhar que vocs digam que os americanos so escandalosos. Isso aqui  o preo, no ? Eu pensei que fosse o nmero de srie.
      - Mas essas calas vestem maravilhosamente bem. Por que no as experimenta?
      Jojo olhou para o crach com o nome da vendedora.
      - Pois , Wendy... Experimentar roupas  um perigo!  exatamente o que elas esperam que a gente faa.
      Ela deveria ter fugido dali correndo para pegar a escada rolante mais prxima e descer rumo  segurana da rua. Em vez disso, acompanhou Wendy at um provador 
e, como por um passe de mgica, viu-se mais alta, sem barriga, com pernas longas e quadris curvilneos.
      - Elas ficaram perfeitas em voc - observou Wendy. Jojo suspirou, fez uma rpida avaliao das finanas, sabendo que no poderia fazer aquela extravagncia, 
e disse, por fim:
      - Ah, que se dane! A gente deve aproveitar as oportunidades quando elas aparecem.
      Despiu as calas, tornou a vestir as prprias roupas e entregou as que experimentara  vendedora.
      - Voc tem esse modelo em outras cores? No? Tudo bem, agora eu vou assustar voc de verdade: ser que aqui tem mais desse modelo na mesma cor e no mesmo tamanho?
      - Talvez, mas voc no gostaria de experimentar algo diferente?
      Jojo balanou a cabea, explicando:
      - Eu fao muito isso. Todo mundo ri de mim, mas a verdade  que, quando algum tem as minhas formas e encontra algo que veste bem, deve agarrar na mesma hora, 
certo? Uma vez eu comprei cinco sutis iguais. Foram cinco cores diferentes, mas, como disse a minha amiga Shayna, continuavam sendo o mesmo suti.
      Falando sem parar, Jojo seguiu a vendedora at o caixa.
      - Minha prima Becky faz a mesma coisa, deve ser de famlia. O problema  que s vezes ela fica to sem graa que engana a vendedora, dizendo que as peas extras 
so para suas irms. E ela no tem irms.
      Wendy estudou a tela, verificando no estoque se havia outro par.
      - Pode ser que eu esteja me sentindo meio sem graa tambm - admitiu Jojo. -  a nica explicao para eu estar lhe contando tudo isso.
      Wendy continuou a consulta sem dizer nada. Era vendedora, no psicloga. Ganhava muito pouco para virar analista das clientes.
      
      8:15, sbado  noite
      Quando Jojo chegou, Shayna flanava pelo salo em uma roupa branca muito justa que deixava de fora dez centmetros da barriga lisinha com tom de mogno enquanto 
servia um drinque especial 
      base de rum.
      - A receita  minha - explicava ela. - Eu o chamo de CTI, porque ele mantm a pessoa viva e ligada.
      Os convidados eram uma mistura de sabe-tudos cheios de atitude vindos do trabalho de Brandon, descolados do trabalho de Shayna e alguns vizinhos antenados. 
Havia tambm velhos amigos,
      como Becky e Andy.
      Jojo aceitou o drinque, cumprimentou todos e percebeu, com leve choque, que j se sentia ligeiramente entediada.
      A sala de jantar estava iluminada por inmeras velas grossas que lanavam sombras sobre as paredes brancas em ptina. Sobre os mveis resplandecentes, havia 
arranjos sofisticados feitos com
      galhos secos e tufos de musgo. Nada de ptalas nem nada banal ou gauche desse tipo.
      - Quando eu crescer - disse Becky - , quero ser igual a Shayna.
      - Hummm - reagiu Jojo. No estou exatamente entediada, mas preferia estar com Mark.
      Seu mundo encolhera. No importa com quem ela estivesse, preferia estar com Mark.  isso que acontece quando a pessoa se apaixona: ela s quer estar com a 
outra pessoa.
      E levara menos de cinco segundos para sacar que ali s havia casaizinhos: Shayna tinha o obediente Brandon ao seu lado, Becky tinha Andy etc. Aquilo parecia 
a Arca de No. E, como Mark era
      casado, Jojo acabava se sentindo em uma regio crepuscular onde no se via nem solteira nem acompanhada.
      Eu, hein! Esse no  um jeito nada bom de se sentir.
      De repente, Becky estava quase colada em Jojo, de frente para ela. Inclinando-se ainda mais para perto, exalou um grande "Ahh!" bem no seu rosto.
      - Meu hlito est legal?
      Mais cedo, naquela tarde, seu dentista lhe informara que suas gengivas estavam recuando de leve, mas uma escova de dentes eltrica daria conta do problema. 
Becky, porm, que era ansiosa a respeito dos dentes em qualquer ocasio, temia estar s portas de uma terrvel
      crise de gengivite.
      - O cheiro est bom. Qual a opinio de Andy?
      - Ele est to acostumado comigo que no ia perceber a diferena nem se eu engolisse um gamb.
      Mais uma fisgada na barriga. Ser que um dia Mark e ela teriam a chance de ficar to acostumados um com o outro a ponto de ele no notar se ela engolisse um 
gamb?
      Nesse instante, ela reparou na mesa comprida em madeira escura: pratos de porcelana antiga ornada com imagens de salgueiros chores, baixelas em prata entalhada 
 mo, doze taas de cristal murano - e uma tigela de plstico dos Teletubbies, um copo enfeitado com uma imagem do bonequinho Bob Construtor e um conjunto de talheres 
do personagem Peter Rabbit: Era o lugar de Jojo. Shayna brincava com ela.
      
      Depois de todos sentarem, Shayna trocou a tigela de Teletubbies por um prato de porcelana cheio de frango desfiado e arroz com ervilhas; havia um bolinho de 
milho ao lado. Jojo respirou fundo e, por fim, atacou a comida.
      - Meu bom Deus! - disse o homem que se sentara ao seu lado. Seu nome era Ambrose, um colega de Brandon. - Voc no precisa comer isso!
      - Mas  comida - replicou Jojo. - O que  que eu vou fazer com esses fiapinhos de frango? Artesanato?
      O sujeito observou mais uma garfada de comida desaparecer na boca de Jojo e exclamou "Caraca!" alto o bastante para todos ouvirem.
      Jojo se encolheu toda na direo do prato. Que sujeito simptico! Alguns homens adoravam implicar com ela. Fosse por causa do seu apetite ou pelo seu peso, 
era sempre o que acontecia. O fato de saber que eram todos idiotas no a fazia se ressentir menos.
      - Jojo nunca faz dieta - informou Shayna, cheia de orgulho.
      Bem que ela tentara uma vez, aos dezessete anos, mas no conseguiu nem por um nico dia.
      - Isso  bvio - declarou o sujeito.
      - Ambrose, pea desculpas, pelo amor de Deus! - exclamou uma jovem do outro lado da mesa. Magra demais, ela parecia quase transparente e Jojo deduziu que devia 
ser a namorada de Ambrose.
      - Pedir desculpas pelo qu? Eu simplesmente declarei um fato.
      - Advogados so foda! - exclamou Shayna, fechando os olhos.
      Sem se abalar, Ambrose acenou com a cabea para o Esqueleto e disse a Jojo:
      - Olhe s para Cecily. Ela no come nada e est com o corpo timo.
      Tem gosto pra tudo, pensou Jojo, especulando consigo mesma quando teria sido a ltima vez em que Esqueleto tivera um ciclo menstrual completo.
      - Sinto muitssimo - desculpou-se Cecily, do outro lado da mesa. - Normalmente ele no  assim to grosso.
      - Ora, no  necessrio que voc pea desculpas - replicou Jojo, sorrindo apesar da revolta. Aquele boal no merecia uma cena.
      - Ele  um perfeito idiota. Por favor, ignore-o. - Cecily estava muito impressionada com Jojo. Observava-a desde que chegara. Jojo era um mulhero - muito 
maior do que Cecily podia se imaginar, mesmo em seus terrveis pesadelos assombrados por balas e bombons. Mesmo assim, ela era linda. Sedutora e atraente dentro 
daquelas calas pretas fantsticas e do top escuro, em tom de vinho, exibindo um decote luminoso e ombros brilhantes, lisos como seda (na verdade, graas  loo 
corporal com elementos perolados, conforme Jojo teria alegremente lhe contado, se ela perguntasse).
      No entanto, foi o fato de Jojo parecer to  vontade com sua aparncia que mais fascinou Cecily. A tal ponto que ela decidiu, por um instante, abandonar a 
academia. Nossa, ela chegou at mesmo a pensar em - droga! - comer o que lhe desse na telha. Se aquilo funcionava para Jojo, por que no poderia funcionar para ela?
      Era comum aquilo acontecer com as mulheres  volta de Jojo. Ao seu lado, elas reconheciam as mentiras da indstria publicitria, e acreditavam que o tamanho 
do corpo no contava e atributos intangveis como joie de vivre e confiana eram os que mais importavam. Ao voltarem para casa, porm, todas descobriam, com grande 
desapontamento, que elas no eram Jojo Harvey, e no conseguiam compreender por que haviam sentido aquelas coisas loucas em sua presena.
      
      11:45, sbado  tarde
      No momento em que as barulhentas e bbadas discusses sobre poltica comearam, Jojo pensou:  agora! Chega! Subitamente ela no agentava mais ficar com pessoas 
que no eram Mark e s queria dar o fora dali. Ultimamente, ela era sempre a primeira a ir embora dos lugares.
      Shayna e Brandon tentaram fazer com que Jojo esperasse at eles chamarem um txi, lembrando-lhe que aquela regio ainda no se tornara to elegante e civilizada 
que fosse seguro ficar circulando
      sozinha em uma noite de sbado, mas ela queria sair logo. Uma sensao abafada de pnico foi crescendo em seu peito at que, em me a uma agitao de abraos 
e beijos, eles finalmente permitiram que ela partisse. Na rua calma e deserta, ela curtiu as golfadas do adorvel
      e gelado ar da noite, e ento viu a luzinha amarela de um carro que se aproximava.
      - Txi!
      Meia hora depois, j em seu apartamento silencioso, ela se serviu de um clice de merlot, ligou a tev que ficava aos ps da sua cama e se enfiou debaixo do 
edredom para assistir a um documentrio sobre os suricatos do deserto de Kalahari. Olga Fisher lhe emprestara o DVD. Olga Fisher era scia da Lipman Haigh - dos 
sete, era a nica mulher - e tanto ela quanto Jojo curtiam muito programas sobre vida selvagem. Todo mundo zoava das duas por causa disso, e elas trocavam seus vdeos 
de David Attenborough de forma to furtiva que parecia at material pornogrfico.
      Olga tinha quarenta e poucos anos, era solteira, usava colares de prolas e echarpes elegantemente drapeadas; como negociava boas clusulas para os autores 
que representava, era conhecida no mercado como "osso duro de roer". Jojo costumava dizer, com desdm, que se Olga fosse homem todos se refeririam a ela como "grande 
agente". Naquele instante, Jojo perguntou a si mesma se os colegas a chamariam, pelas costas, de "osso duro de roer". Provavelmente, sim. Babacas.
      Ela se aninhou na cama e riu muito quando um suricato de tocaia no alto de uma rvore, com as patas nos quadris e olhos a meia distncia, perdeu o equilbrio 
e despencou no cho. Mais que
      depressa, ele se levantou e sacudiu a poeira do corpo, parecendo terrivelmente embaraado pelo mico involuntrio. Olhou para a cmera com a mesma expresso 
de desprezo que Robbie Williams lana aos paparazzi.
      Subitamente, Jojo parou de rir e pensou: Sou uma mulher no vigor da juventude. No devia passar uma noite de sbado sozinha em uma cama assistindo a suricatos 
africanos despencando de rvores.
      Virou-se para a carteira que deixara ao lado do travesseiro e reclamou com ela: "Isso no est direito."
      Mas disso ela j sabia.
      
     
22
      
      Eu jamais deveria ter embarcado nesse caso amoroso com Mark, pensou Jojo. Poderia estar apaixonada por outro homem neste exato momento; algum que no fosse 
casado. Era um saco aquilo de ficar pensando no que deveria, ou iria, ou poderia...
      Se pelo menos a coisa fosse apenas sexo, pensou, pesarosa. Se tudo se resumisse apenas a trepadas excitantes e perigosas... Gurus de relacionamentos sempre 
diziam que uma atrao baseada em
      amizade e respeito mtuo tinha muito mais chances de durar, e o pior  que eles tinham razo.
      Antes mesmo de comear a trabalhar na Lpman Haigh, Jojo j respeitava Mark, ele era conhecido no mercado editorial como um visionrio. Cinco anos antes, quando 
ele conseguira se tornar scio
      administrativo, a Lipman Haigh era uma agncia pequena e apagada, e alguns dos scios eram to velhos que faziam Jocelyn Forsyth parecer um adolescente malcriado. 
A primeira providncia de Mark foi caar vrios agentes literrios arrojados e transformar trs deles em scios; em seguida, conseguiu convencer os dirigentes mais 
velhos e caquticos a se aposentar. Depois criara um departamento para negociao de direitos para outros pases e um vibrante setor de divulgao. Em um ano e meio, 
a Lipman Haigh deixou de ser um patinho feio e esquecido com o qual ningum se importava e se transformou na agncia mais quente de Londres.
      Mark era duro - tinha de ser - , mas o fazia com graa. Nas negociaes com os editores, ele conseguia ser to irredutvel quanto celulite, mas fazia isso 
de forma decente e suave. No  nada pessoal, era o que o seu ar transmitia, mas assim no vai dar certo. Eu no vou ceder, ento ceda voc. No fazia cara feia 
nem bajulava ningum, simplesmente usava objetividade.
      E tinha muito senso de humor. No do tipo "uma piada por minuto", como o seu scio predileto, Jim Sweetman, que certamente sabia como fazer amigos e influenciar 
pessoas. Mas havia um humor sutil em Mark, por baixo da superfcie.
      Mas o que Jojo admirava mais em Mark Avery era a sua incrvel habilidade de resolver problemas. Seus instintos eram apurados, nada o deixava nervoso e ele 
sempre tinha todas as respostas. Era o
      prprio Don Corleone, s que sem a voz rouca, o cortejo de puxa-sacos e a barriguinha saliente.
      Na poca, Jojo j o apreciava, mas no estava a fim dele. Ento veio aquela noite na calada do Hilton, seguida pelo episdio das pupilas dilatadas no corredor 
da firma, e tudo ficou meio esquisito. Quando Jojo fez a sua apresentao usual na reunio das manhs de
      sexta-feira, Mark a ouviu com ateno e seguiu a sua rotina de olhar para um ponto indeterminado a distncia enquanto sorria - s que daquela vez no sorriu. 
Ele j no colava o corpo  parede quando
      Jojo passava por ele a toda velocidade, pelos corredores da Lipman Haigh. Ele passou a cham-la apenas de "Jojo" e no pintou mais nenhuma brincadeira envolvendo 
cerejinhas de bolo nem creme
      chantilly.
      Jojo no gostava da situao, mas resolveu agentar firme. Ela era boa nessa histria de esperar, graas  prtica de lidar com editores, e conseguiu abafar 
as vozes de medo e dvida que zumbiam em sua cabea.
      Mark, porm, no chegara a scio administrativo de uma agncia literria sem ter nervos de ao e o impasse continuou.
      Consigo superar qualquer um no quesito espera, pensou Jojo. Com toda aquela tenso rolando, porm, como evitar que os pensamentos corressem para ele? Quando 
ela focou sua cabea nele como homem, em vez de chefe, sua imaginao alou vo e sua determinao comeou a ceder. O olhar significativo no corredor deu incio 
a uma reao em cadeia que provocou uma violenta atrao fsica por ele, e isso a deixou indignada. Um dia, por fim, ela contou tudo a Becky.
      - Fico imaginando o tempo todo como  dormir com Mark Avery.
      - Deve ser uma merda. Tem de ser. Um cara velho como ele?
      - Ele tem quarenta e seis, no oitenta e seis.
      Becky ficou preocupada. Dali no podia sair nada de bom.
      - Voc est assim porque no transa h nove meses, desde o pobre do Craig. Acho que devia dormir com algum para resolver o problema.
      - Quem?
      - Se quer mesmo saber, pode ser qualquer um.
      - Mas no quero sair por a atrs de algum s para transar. No sou assim. Quero dormir com Mark, no com qualquer um.
      - Jojo, caia fora dessa furada. Por favor.
      - O pior  que, considerando que eu j o admiro e respeito, estou perdida - completou Jojo, desconsolada.
      
      Analisando de forma mais prosaica, havia uma carreira para ela levar em considerao. Jojo planejava se tornar scia da empresa em algum momento do futuro 
prximo, mas como isso poderia acontecer se o seu chefe resolvera, de repente, se comportar como se ela no existisse?
      Depois de cinco semanas, ela desmoronou e marcou uma hora para conversar com ele. Foi at a sua sala, fechou a porta com firmeza atrs de si e se sentou diante 
dele.
      - Oi, Jojo.
      - Mark, eu... No sei como lhe dizer isso, mas as coisas andam meio... tensas entre ns.  o meu trabalho? Voc no est satisfeito com ele?
      Ela sabia que no era esse o caso, mas queria deixar tudo em pratos limpos.
      - No, no h nada de errado com o seu trabalho.
      - Muito bem. Ento ns podemos deixar de lado o clima estranho? Podemos voltar a ser como ramos?
      Ele considerou a proposta e respondeu:
      - No.
      - Por que no?
      - Porque... Porque... Como eu poderia lhe explicar isso? - Ele hesitou. - No podemos porque (por favor, no ria de mim), eu estou apaixonado por voc.
      - Ah, qual ? Como pode estar?
      - Trabalhei com voc durante dois anos. Se eu no a conheci bem at agora...
      Depois de alguns instantes calada, Jojo levantou os olhos que deixara grudados no colo e disse:
      - Voc  casado. Eu nunca me envolveria com um homem casado.
      - Eu sei. Essa  uma das razes de eu sentir o que sinto por voc.
      - Puxa... - suspirou ela. - Isso foi realmente uma porretada na minha cabea.
      
     
23
      
      Era para ser transa de uma noite s, a fim de tirar aquilo da cabea de ambos e deix-los voltar  camaradagem de sempre um com o outro. Isso era uma grande 
enganao,  claro; Jojo sabia disso e Mark tambm. Nenhum dos dois estava interessado em tirar aquilo da cabea, mas transformar o problema em algo com boas intenes 
tornava tudo menos constrangedor.
      Depois de Mark fazer esse dramtico anncio de que estava apaixonado por Jojo, ela ligou correndo para Becky e lhe contou a histria toda, entre sussurros.
      - No se preocupe - tranqilizou-a Becky. - Isso  s uma armao para levar voc pra cama.
      - Voc acha mesmo? - quis saber Jojo, aliviada e desapontada.
      - Tenho certeza.
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Eu fui sincero
      O que eu disse no foi s uma armao para levar voc pra cama.
      Mxx
      - Ele usou exatamente essas palavras? - perguntou Becky. - Minha nossa, o cara  esperto.
      - Sim, eu vivo dizendo isso para voc.
      Becky pareceu surpresa diante da evidente irritao de Jojo.
      - V com calma, amiga.
      Pelos nove dias que se seguiram, Jojo e Mark pareciam pisar em ovos sempre que se encontravam, enrubescendo e deixando cair coisas sempre que se esbarravam. 
Jojo relatava cada detalhe para Becky, que continuava preocupada, mas, ao mesmo tempo, fascinada. Ela nunca fora para a cama com um scio administrativo. Gerente 
de vendas fora o seu limite.
      No dcimo dia, Mark convidou Jojo para jantar. Queria "ter uma conversa" com ela.
      - Essa conversa tem a ver com arriar suas calcinhas - suspirou Becky.
      Tomara, pensou Jojo.
      - O lance  o seguinte - disse Mark, entre a salada e a refeio principal - : no vou lhe dizer que a minha mulher no me compreende. No vou lhe garantir 
que nunca transamos, porque, embora
      muito raramente, isso ainda acontece. S que eu amo meus filhos e no quero fazer nada que v atingi-los.
      - Como abandon-los, por exemplo?
      - Sim. Portanto, a deciso  sua. Sei que voc merece muito mais do que estou oferecendo, Jojo, mas a nica coisa que posso garantir  que eu jamais senti 
por nenhuma outra mulher o que sinto
      por voc.
      - E voc no tem o hbito de fazer esse tipo de coisa?
      - Claro que no! - Ele pareceu chocado.
      Assim que chegou em casa, Jojo ligou para Becky e relatou toda a conversa.
      - Ele est atacando depressa - observou Becky. - Bem... Voc no quer que ele abandone os filhos. Quer apenas dormir com ele.
      - Quero...? Ento, acho que est tudo bem.
      No dia seguinte, logo cedo, um e-mail a esperava:
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Por favor
      Por favor. Significado da expresso: pedir, suplicar, rogar, implorar, mendigar, solicitar ou insistir.
      Mxx
      
      Para sua surpresa, os olhos de Jojo se encheram d'gua, subitamente. Aquilo tudo era demais. Pensou na esposa dele, nos filhos e na comovente humildade que 
ele demonstrava. Precisamos fazer alguma coisa.
      Foi Becky que veio com aquela idia de "resolver logo o assunto para tirar aquilo da cabea".
      - Quem sabe ele  pssimo de cama? - sugeriu ela, esperanosa.
      - Pode ser que ele seja de revirar o estmago.
      Jojo duvidava que aquilo fosse acontecer, mas repassou a idia a Mark, entre risinhos sem graa.
      - Quem sabe, se tivermos sorte, voc vai enjoar de mim - afirmou ela.
      O olhar que ele lanou para ela lhe indicou que aquilo era pouco provvel.
      - Se  isso o que voc quer... - disse ele.
      Ela concordou com a cabea.
      - Ento, aonde ns vamos...? Isto , voc poderia...
      - Venha ao meu apartamento. Eu preparo o jantar. No - emendou ela, na mesma hora. - Nada disso. Dizem que, se eu cozinhar para voc, nunca mais me livro da 
sua presena.
      Ele fez sexo com ela do mesmo modo como fazia tudo o mais: com determinao, confiana, ateno aos detalhes, alm de tirar as roupas dela aos poucos, como 
se desembrulhasse um presente.
      Depois que acabaram, ela perguntou:
      - Como foi para voc?
      - Um desastre! - Ele olhou para o teto. - Ainda no consegui tirar voc da cabea. Nem um pouco. E quanto a voc?
      - Comigo aconteceu o mesmo. Foi pior do que eu esperava.
      
      - E ento...? Ele foi fabuloso? - quis saber Becky, no dia seguinte. - Ou foi meio ruinzinho? s vezes esses caras velhos so pssimos de cama. - Becky dormira 
uma vez com um sujeito de trinta e sete anos que estava bbado e se julgava uma autoridade no assunto.
      - Isso no tem nada a ver! - reagiu Jojo, irritada. - O lance  muito mais do que apenas sexo. Mark  a pessoa que eu mais curto na vida.
      - Puxa, lamento muito - disse Becky, chocada.
      - No, eu  que lamento. - Jojo tambm se sentia chocada.
      - Ento, qual  o prximo passo? Agora que vocs j tiraram todo aquele teso dos seus organismos?
      - Ora, s uma tola poderia dar incio a uma relao com um homem casado.
      - E voc, Jojo, no  nem um pouco tola.
      - No.
      - Sendo assim, quando pretende tornar a v-lo?
      - Hoje  noite.
      
      No encontro daquela mesma noite, Mark perguntou a Jojo quem tinha sido o seu primeiro namorado e ela riu muito, respondendo:
      - No posso contar, pois os cimes acabariam por corroer voc.
      - Consigo lidar com isso.
      - Ento eu conto. Ele era estagirio no quartel de bombeiros onde papai trabalhava.
      - Estagirio?
      - Sim, um cara em perodo de experincia. Um novato.
      - Quer dizer que ele era bombeiro? Droga, j me arrependi de ter perguntado. Mas continue contando, agora eu preciso saber. Ele era um cara imenso, certo?
      - Gigantesco. Um metro e noventa e cinco, braos que pareciam troncos de rvores, pois ele malhava com pesos. Tinha um peito deste tamanho contra o qual costumava 
me esmagar, e eu no conseguia escapar do seu abrao at ele decidir que sim.
      - Aaaargh!
      Jojo riu.
      - Foi voc quem perguntou. Mas quer saber o que eu acho? Qualquer um pode agir como um gorila quando tem peito grande. Para manter o meu interesse,  necessrio 
ter muito mais do que isso.
      O mais engraado foi que depois de se apaixonar por Mark, Jojo descobriu que todas as outras mulheres estavam a fim dele - Louisa, Pam etc.
      Jojo sentiu-se surpresa por nunca ter percebido.
      - Eu pensei que Jim fosse o cara que voc acha o mximo - disse a Louisa. - No ?
      - No me entenda mal... Jim  lindo, mas Mark Mark transpira puro sexo. Eu seria capaz de... Deixe-me pensar Ah, j sei! Veja s o quanto a coisa  grave: 
eu aceitaria nunca mais comprar
      sapatos novamente se tivesse a chance de passar uma hora na cama com Mark Avery. - Ela trepidou de forma dramtica. - Aposto que ele  um TREMENDO animal
      .
      Domingo de manh
      Jojo acordou e pegou um livro de P.G. Wodehouse na pilha de livros leves que tinha ao lado da cama. Ela adorava esse autor, bem como Agatha Christie e todos 
os outros escritores que costumava ler na adolescncia, em Nova York, poca em que fantasiava a respeito da parte britnica da sua ascendncia. Mesmo depois de adulta, 
apesar de saber muito bem que tais livros no tinham nada a ver com o mundo real, ela continuava sentindo um grande prazer ao l-los.
      Dali a mais um pouco, ela se levantou e foi passar algumas roupas, enquanto esperava que ficasse um pouco mais tarde, a fim de ligar para os pais no Queens 
sem acord-los. Ela telefonava para eles
      todos os domingos e a conversa era mais ou menos igual todas as vezes.
      - Oi, papai!
      - Quando voc volta aqui em casa?
      - O senhor acabou de me ver! Lembra que eu estive a no Natal? No ms passado?
      - No, quero saber quando  que voc volta aqui para casa de vez. Sua me se preocupa muito com voc. E  claro que a delegacia aceitaria voc de volta num 
piscar de olhos. - Surgiram alguns rudos.
      - Espere mais um instantinho, porque estamos conversando. Ela  minha filha tambm. Ah, est bem! Olhe aqui, filha, sua me quer falar com voc.
      Ouviu-se um rudo de esttica quando Charlie abriu mo da posse do aparelho.
      - Ol, minha garotinha querida! Como voc est?
      - Estou bem, mame. Estou tima! Todo mundo est bem a em casa?
      - Todos timos. No d ateno ao tolo do seu pai.  que ele se preocupa muito com voc. Ser que existe alguma possibilidade...
      - Vou tentar passar alguns dias em casa durante o vero, est bem?
      Ao desligar, cerca de dez minutos mais tarde, ela se sentiu levemente culpada, mas explicou  sua carteira:
      - Eu moro aqui agora, entende? Aqui  o meu lar. - Jojo adorava a sua carteira. Era uma tima companhia, e muito mais conveniente do que ter um co.
      Em seguida, pegou o nibus para ir ao aconchegante apartamento de Becky e Andy em West Hampstead. Ir de metr seria muito mais rpido, mas ela preferia ir 
de nibus porque dava para ver os lugares pelo caminho; apesar de estar morando l h dez anos, ela continuava adorando Londres, embora a cidade ainda tivesse muita 
coisa para aprender com Nova York, especialmente quanto aos servios de manicure.
      - Ah, que bom voc ter aparecido! - Alegrou-se Andy ao abrir a porta e v-Ia. - Eu e Becky estamos de sada para o supermercado. Voc pode ir conosco para 
ajudar a trazer as sacolas.
      Depois das principais compras da semana, ela circulou com o casal pela seo de flores.
      - Vocs se incomodam por eu ficar sempre por perto, segurando vela?
      - No! - garantiu Andy. - Voc anima um pouco as coisas. Pelo menos fornece assunto para Becky e eu conversarmos.
      Andy e Becky j estavam juntos havia um ano e meio e pareciam sempre querer demonstrar que nunca transavam e estavam de saco cheio da vida em comum. Aquilo 
era um sinal indiscutvel, conforme Jojo bem sabia, de que eles eram loucos um pelo outro. Ningum fazia esse tipo de brincadeira sem estar muito seguro sobre o 
relacionamento. Como resultado desse sucesso, Becky queria que todos  sua volta arrumassem algum com quem fossem felizes, especialmente Jojo.
      - As irms Wyatt vo oferecer uma festa - anunciou Becky quando eles j estavam de volta em casa, guardando as compras no armrio da cozinha.
      As irms Wyatt, Magda, Marina e Mazie eram amigas de Becky desde a poca em que haviam morado juntas em uma casa por seis meses, antes de Becky ir morar com 
Andy. As trs eram louras, muito elegantes, lindas, ricas e incrivelmente simpticas e calorosas.
      Costumavam circular por ambientes muito mais sofisticados que os de Becky, mas eram to adorveis que haviam mantido contato com a antiga amiga, e sempre convidavam 
Becky e Jojo para as festas que ofereciam.
      Becky adorava de paixo todas trs, e essas, por sua vez, eram loucas por Jojo, mas ela sentia uma paixo especial por Magda, a mais velha, que era dotada 
de maravilhosa capacidade de organizao.
      - Mas essa paixo NO  do tipo sexual - Jojo vivia informando a Andy.
      - De qualquer modo, eu s sei que morro de medo delas - afirmou Andy. - Elas so to... fabulosas!
      -  o aniversrio de trinta anos de Mazie. Ela vai armar uma balada superanimada na manso dos pais em Hampstead. A festa  s em junho, mas elas querem ter 
certeza de que voc vai poder ir.
      - Em junho? - exclamou Jojo.
      - Ser que isso  algum hbito elegante? - perguntou Andy. - Avisar com vrios meses de antecedncia?
      - Sei l! Tem s uma coisinha, Jojo.  uma festa  fantasia. Voc tem que ir toda produzida.
      -  fantasia? - Jojo gemeu baixinho. - Por que  que tem de ser uma festa assim?
      Jojo odiava festas desse tipo. Escolher roupas comuns j era muito difcil e, nos casos de festa  fantasia, ela acabava sempre arrumando uma roupa de diaba 
vermelha, enfiando-se dos ps  cabea em um collant preto com chifres vermelhos no cabelo. Depois era s espetar um rabinho tambm vermelho no traseiro.
      - Vai ser um grande agito, e quem sabe voc conhece algum mais... - Becky fez uma pausa, sem graa, antes de completar: - ... Disponvel.
      - Nem todas tm a sua sorte - disse Jojo,
      -  verdade. Sou o ltimo da espcie na praa - garantiu Andy.
      - Mas quem mais alm de mim iria querer voc? - retrucou Becky.
      - Pois ... - concordou Jojo, embora ela achasse Andy muito bonito, e com a vantagem de ser fiel.
      
      - Amanh  dia de trabalho - comentou Becky, com olhar triste, levantando a cabea do mar de jornais espalhados. - Ontem eu sonhei que havia informado os valores 
errados para a British Airways e a empresa acabou devolvendo dinheiro a mais para centenas de pessoas, e olhem que essa companhia area nem  minha cliente. Embora 
eu v pegar a conta deles muito em breve, do jeito que as coisas vo - acrescentou, com ar sombrio. - Todas as companhias do mundo vo acabar na minha carteira de 
clientes. Pelo menos foi assim no pesadelo que eu tive e acordei tremendo.
      - Isso est se tornando uma obsesso - avisou Andy. - Voc tem que conversar seriamente com Elise.
      - Mas como...?
      - Com muita calma. Explique a ela tudo o que voc explica para mim.
      - E se a coisa ficar feia para o meu lado?
      - Feia? So s negcios, pare de ficar to nervosa com isso. Seja como Jojo. Se algum a sobrecarrega no trabalho, ela reclama na mesma hora. - Andy fez uma 
pausa. - Se bem que, considerando que dorme com o chefe, isso pode acabar mal para ela... Muito mal.
      - J est pssimo - comentou Jojo.
      - Como anda o seu relacionamento adltero? - perguntou Andy. - O que vai acontecer agora?
      Jojo encolheu os ombros.
      - Pergunte a Becky. Ela  diretora dos meus assuntos emocionais.
      - Conte, Becky. Agora eu quero saber.
      Becky pensou por alguns instantes.
      - Existem vrios desfechos possveis. Vou fazer uma lista. - Ela rabiscou por alguns instantes sobre a seo de "Estilo" do Sunday Times e, por fim, anunciou: 
- Muito bem, aqui esto as possibilidades:
      
      a) Mark abandona a mulher.
      b) Sua esposa tambm est tendo um caso, com, digamos, o professor do filho e ela abandona Mark.
      c) Jojo e Mark vo se descurtindo aos poucos e acabam sendo apenas amigos.
      d) A esposa de Mark morre tragicamente de... De que as pessoas morrem?... Escarlatina! Jojo entra na casa de Mark como governanta, para cuidar das crianas 
Depois de um perodo de tempo respeitvel, ele torna pblico o fato de ter se apaixonado por ela.
      
      - Qual dessas voc gosta mais?
      - Nenhuma. No quero que ele e a esposa se separem.
      - E quer continuar sendo estepe do carro dele pelo resto da vida? - perguntou Andy.
      - No, mas... - Jojo no queria destruir o casamento de ningum. O cdigo moral sob o qual ela fora criada determinava que manter a famlia estava acima de 
tudo. Quando um dos bombeiros
      do quartel do seu pai tinha um caso fora do casamento, todos os seus colegas de servio se envolviam na histria. Eles recriminavam o marido renegado e o aconselhavam 
a voltar para a esposa: geralmente ele o fazia. E nas raras ocasies em que isso no acontecia, todos se uniam para apoiar a esposa e o traidor se via sozinho e 
sem aliados.
      - Alm do mais, como vai ser com os filhos? Eles vo me odiar - garantiu Jojo.
      - Mas as crianas vo morar com a me.
      - Sim, mas na sexta-feira viro  nossa casa para arruinar nosso fim de semana. Desculpe - continuou ela, meio na defensiva. - Estou apenas sendo honesta.
      - Mas voc  to boa para lidar com crianas! - disse Becky. - Os dois filhos de Shayna adoram voc.
      - E eu pretendo ter filhos, mas quero que eles sejam bebs antes. No quero um adolescente que j mostra sinais de delinqncia e uma garota to bobalhona 
que cai de pneis. Eu ia passar o
      tempo todo em salas de espera como as do seriado Planto Mdico.
      - Mas o George Clooney no  um cara superpintoso? - Essa observao veio de Andy.
      - Eu prefiro Mark.
      - Que saco! Ento, o que voc quer, afinal de contas?
      - Queria que ele nunca tivesse se casado e tambm que no houvesse nenhum filho.
      Becky consultou a lista.
      - Desculpe. Essa opo no consta aqui.
      - Que pena - suspirou Jojo.
      - O quanto esse caso  realmente srio? - quis saber Becky.- O quanto os seus sentimentos por ele so realmente fortes? Em uma escala de um a Dominic?
      - Quem  Dominic? - perguntou Andy.
      - Um cara que Jojo namorou antes de eu conhecer voc - explicou Becky. - O Grando.
      -  que logo que eu cheguei em Londres, h dez anos, no percebia que alguns dos caras com quem eu saa eram perfeitos idiotas - explicou Jojo. - Achava que 
aquilo era o jeito de ser dos britnicos. E mesmo quando eu sabia que eles eram idiotas, eram idiotas britnicos, ento a coisa no me parecia to m. Levei um bom 
tempo antes de me tornar seletiva com relao aos homens.
      - Voc precisava ver os imbecis com quem ela saa... - Ento eu conheci Dominic.
      - E ele no era idiota. Era um homo de um metro e noventa e dois, jornalista. Ele merecia Jojo, Ela quase se casou com ele, chegaram a ficar noivos, com aliana 
e tudo. Mas na hora H ele amarelou.
      Bem, no exatamente amarelou, mas ele achou que poderia amarelar e...
      - Decidiu que "no tinha certeza" - completou Jojo. - Isso aconteceu na semana em que amos passar a morar juntos. Ele me disse que eu podia ficar com a aliana, 
mas no estvamos mais noivos. No descartou a possibilidade de nos casarmos, mas no em uma data definida. Depois ele chegou  concluso de que era melhor darmos 
um tempo...
      - ...Mas continuava aparecendo, louco para brincar de esconder a salsicha.
      - ... O salame.
      - Ah, ... Esqueci que ele era grando em mais de um aspecto.
      - Ele me deixou arrasada - disse Jojo, baixinho. - A sorte  que eu sou uma das mulheres mais fortes do mundo e nunca iria aceitar uma sacanagem dessas dele. 
Alis, de homem nenhum.
      - Ah, mas voc aceitou, por algum tempo - disse Becky. - Lembra da vez em que voc mentiu para mim e jurou que ele estava em sua casa s porque precisava de 
uma cama para passar a noite? Eu acabei pegando vocs transando e...
      - Tudo bem, tudo bem, talvez eu tenha sucumbido  tentao umas duas ou...
      - ...Vinte vezes.
      - Se fosse eu, ainda estaria at hoje com algumas esperanas, torcendo para que ele finalmente tomasse uma deciso - afirmou Becky. - Ficaria um desastre de 
to abatida. Trinta e cinco quilos, com unhas rodas at o sabugo. Meu hobby seria chupar a ponta dos cabelos. Eu me entupiria de Prozac e Valium e acabaria dormindo 
no cho ao lado do telefone. Eu me alimentaria unicamente de papinhas de beb comidas direto do potinho e...
      - H quanto tempo isso aconteceu? - interrompeu Andy.
      Jojo parou para calcular.
      - Uns seis anos? - consultou Becky, que parecia ter acabado de sair de um transe. - Seis anos e meio?
      - Por onde esse cara anda? - perguntou Andy. - Ele se envolveu com mais algum?
      - No fao a mnima idia. Alis, estou pouco me lixando.
      - E voc ainda tem a aliana de noivado?
      - No. Eu a vendi e fui para a Tailndia com Becky, por duas semanas.
      - Voc ama Mark tanto quanto amava Dominic? - perguntou Becky.
      Jojo refletiu sobre o assunto por algum tempo e concluiu:
      - Eu amo Mark muito mais, provavelmente. S que ele  casado.
      O problema, porm,  que ultimamente Mark comeara a dar indiretas sobre a possibilidade de largar Cassie. O pior  que eram sempre ditas de forma espontnea, 
sem precisar de incentivos. Jojo jamais instigaria algo desse tipo. Quem sabe, com o tempo, a clandestinidade de tudo aquilo acabasse por se tornar insuportvel, 
em vez de meramente irritante, e talvez ento ela o pressionasse e exigisse mais. Naquele momento, porm, as especulaes sobre o futuro feliz do relacionamento 
deles - pelo menos no p em que as coisas estavam - vinham todas da parte de Mark.
      
     
24
      
      8:30, segunda-feira de manh
      A caminho da Lipman Haigh, Jojo passou por um sujeito que estava parado na calada, na porta do prdio, Penteava o cabelo olhando-se no espelho retrovisor 
externo do carro de algum e seu rosto tinha um tom de lima-da-prsia. Jojo teve quase certeza de que era Nathan Frey, parecendo nervoso, com urna aparncia horrvel 
e muito adiantado para o encontro das nove horas.
      
      9:00 e dez segundos, segunda-feira de manh
      Manoj avisou que Nathan chegara; era realmente o mesmo homem, com o tom de lima-da-prsia e tudo o mais.
      Seu estado era lamentvel. Ele passara trs anos escrevendo o livro; precisou hipotecar a casa, deixou a mulher e os filhos durante seis meses e foi morar 
no Afeganisto, disfarado de mulher. Nathan j fora dispensado por dois agentes literrios. "Uns tolos", comentou Jojo, e agora que estava diante de urna agente 
literria de verdade, algum que tinha o poder de realizar seu sonho de ser publicado, ele se sentiu desconcertado.
      Quando Jojo lhe deu os parabns pelo livro maravilhoso e explicou que sua histria poderia ser vendida no mundo inteiro, o tom de lima-da-prsia da pele de 
Nathan cedeu um pouco e foi adquirindo aos poucos urna cor mais saudvel, deixando-o com um tom de amarelo cheesecake.
      - Voc enviou o original para mais algum? Algum outro agente literrio? - quis saber Jojo. Aquela no seria a primeira vez que um autor enviava dezenas de 
cpias para um monte de gente e acabava com vrios agentes afirmando que o autor era seu contratado.
      - No. Estou mandando para um de cada vez.
      timo. Pelo menos ela no teria de disputar o contrato a tapa com outros agentes.
      - Eu nem acreditei quando recebi seu telefonema. Voc no imagina o quanto eu precisava de uma agente de verdade...
      - Pois bem, aqui estou eu - disse Jojo. Na mesma hora dois pontos brilhantes cor-de-framboesa despontaram nas bochechas dele.
      - Uau! - exclamou ele baixinho e torceu as mos. Nossa! - Ele enxugou a testa com as costas da mo. - Nem consigo acreditar nisso. - Seu rosto inteiro assumiu 
o tom rosado de uma linda musse de morango. - O que acontece agora?
      - Eu lhe consigo um contrato.
      - Srio? - Ele pareceu espantado. -  to simples assim?
      -  um grande livro. Muitos editores vo querer public-lo.
      - Eu detesto perguntar... Sei que parece meio esquisito, mas...
      - Sim, voc vai ganhar muito dinheiro. E vou lhe conseguir o melhor adiantamento possvel.
      - No quero muito - apressou-se ele em dizer. - S ver meu livro ser editado j  uma recompensa e tanto. O problema  que no est entrando grana nenhuma 
e estamos com dificuldades, eu, minha mulher e meus filhos...
      - No se preocupe. Tenho o palpite de que muita gente vai querer este livro e estar disposta a pagar por ele. Eu lhe peo dez dias para agitar as coisas. 
Assim que eu tiver novidades, entro novamente em contato.
      Nathan saiu repetindo sem parar:
      - Obrigado, obrigado, muito obrigado.
      Manoj o acompanhou at a sada e quando os "obrigados" que ainda se ouviam pelo corredor foram desaparecendo a distncia, comentou:
      - Essa  a fase da lua-de-mel. Quanto tempo vai levar antes que os abusos comecem e ele ligue para voc at para resolver a perda de um bilhete do metr?
      Jojo sorriu.
      - E ento...? Ele  seu? - quis saber Manoj.
      - Ele  nosso.
      - Fale-me dele. O livro  interessante?
      - Muito! - Jojo relatou a histria afeg. - Ele  o que chamamos, no mercado, de autor "altamente comercial". - Ela entregou o original para Manoj. - V xerocar 
isso. Preciso de seis cpias perfeitas e quero-as para a meia hora que j passou.
      - Voc vai colocar o texto em leilo?
      Jojo fez que sim com a cabea. O Amor e o Vu era to maravilhoso que ela tinha certeza de que vrios editores iriam voar em cima do prato oferecido e se engalfinhar 
em uma guerra de lances.
      Enquanto Manoj respirava toner de copiadora, reclamando por ser pssimo em ingls e ser obrigado a aceitar um trabalho que qualquer macaco ensinado conseguiria 
realizar, Jojo fez mentalmente uma lista de possveis editores para a obra.
      Antes de mais nada, porm, precisava verificar com Mark como fora resolvido o caso de Sam, o filho dele. Fingir que se importava com as crises domsticas de 
um namorado casado era difcil, mas, como aquilo era muito importante para Mark, ela tentava - embora no final soubesse que, toda vez que havia um drama, Jojo perdia 
Mark para a famlia dele. Alis, aquele era um grupinho com tendncias altssimas para sofrer acidentes. A esposa, Cassie, professora de uma escola de ensino fundamental, 
sofria de debilitantes crises de enxaqueca quando comia queijo, mas esse fato no a impedia nem por um momento sequer de cair de boca e comer um balde de queijo 
sempre que sentia vontade. Sophie, a filhinha de dez anos, era um perigo para si mesma: desde que Jojo comeara a sair com Mark, ela j cara de um pnei e conseguira 
enfiar a ponta de um compasso no brao.
      Agora tinha sido o pileque de Sam, sua primeira ocorrncia relacionada com bebidas. Antes disso, ele j fora pego roubando um tubo de Mentos sabor frutas de 
uma banca de jornais, evento que tornou necessria uma visita ao psiclogo da escola. At mesmo Hector, o co da famlia Avery, conspirava para mant-los afastados. 
Na noite em que Jojo preparou um jantar completo, s com comida indiana, sem ajuda de ningum, Hector foi atingido por um veculo e sofreu uma sria pancada; Mark 
foi obrigado a ir para casa antes mesmo de provar o primeiro papadum. Uma semana depois, Hector engoliu uma das meias de squash de Mark e Sam tentou aplicar a Manobra 
de Heimlich no animal, o que s serviu para lhe quebrar uma das costelas. Mais uma vez, Mark precisou ir voando para casa.
      
      PARA: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO: Sam
      Ele est bem agora. Sinto muito. Que tal tera  noite?
      M:xx
      PARA: Mark.avery@lipman-haigh.co
      DE: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO: Tera
      Tera est legal.
      JJxx
      
      PARA: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO: Voc
      Eavomoceu
      
      Eavomoceu? Jojo se perguntou que palavra seria aquela? Que diabos aquilo queria dizer? Eavomoceu? Devia ser um anagrama de algum tipo. Jojo o analisou por 
alguns instantes, intrigada, e ento a ficha caiu. EU AMO VOC. Ela riu e, depois de brincar um pouco com as letras, enviou a resposta:
      
      PARA: Mark.avery@llpman-haigh.co
      DE: Jojo.harvey@llpman-haigh.co
      ASSUNTO:Eavomoceu?
      Pois saiba que muvaeoceo ainda mais!
      JJxx
      
      Em seguida, Jojo ligou para seis dos melhores editores de Londres, disse a cada um que ele havia sido escolhido a dedo e prometeu que ia mandar uma jia rara 
pelo motoboy em menos de uma
      hora. A data para o leilo j fora marcada: uma semana, a contar daquele dia - prazo suficiente para os editores solicitarem aos chefes o lance gordo que 
ela esperava.
      O dia poderia ficar ainda melhor? Poderia, sim. Quando Jojo conversou com Tania Teal, da Dalkin Emery, a respeito de O Amor e o Vu, Tania disse: - Voc me 
ligou na hora certa, Jojo, porque eu ia lhe telefonar para falar de Lily Wright.
      Lily Wright era uma das autoras representadas por Jojo. Era uma mulher inteligente, simptica e intuitiva, e Jojo sentiu na hora que a conheceu que ela era 
uma daquelas pessoas "boas" que encontramos pela vida. No primeiro encontro que Jojo teve com Lily, ela veio acompanhada por um rapaz, Anton; os dois se sentaram 
diante de Jojo muito nervosos, completando as frases um do outro e sendo, no geral, adorveis. Lily escrevera As Poes de Mimi, um livro lindo e mgico a respeito 
de uma bruxa branca. Jojo havia adorado o texto, sentiu que havia algo realmente muito especial na narrativa. Porm, como a histria era muito esotrica, no conseguira 
convencer nenhum editor a apostar muito alto nela.
      Tania o comprara com um pequeno adiantamento de quatro mil libras. Na poca, ela comentara: "Eu, pessoalmente, adorei o livro.  melhor que Prozac para levantar 
o astral. Sou obrigada a admitir, do fundo do corao, que no d para ele fazer um sucesso estrondoso, mas mesmo assim vou experimentar lan-lo."
      S que, embora Tania tentasse ao mximo convencer seus colegas de que aquele livro poderia fazer um sucesso inesperado e surpreender a todos, ningum comprou 
sua idia. O resultado  que a Editora Dalkin Emery rodara uma primeira edio pequena, quase no fez publicidade e - no era surpresa - at agora As Poes de Mimi 
ainda no decolara para conquistar o mundo.
      - O que h com Lily Wright, Tania? - perguntou Jojo.
      - timas notcias! - Jojo sentiu empolgao em sua voz. - Saiu uma resenha muito entusiasmada sobre As Poes de Mim na revista Flash! desta semana. Vamos 
rodar uma nova edio. Os relatrios dos livreiros tambm esto timos. D para acreditar que a primeira edio j est quase esgotada?
      - Srio mesmo?! Fantstico! E isso praticamente sem publicidade.
      - Bem, agora que vamos rodar a segunda edio, consegui convencer o pessoal do marketing a publicar alguns anncios.
      - timo! E quantos exemplares voc vai mandar rodar para a segunda edio? Mais cinco mil?
      - No, vo ser dez mil.
      Dez mil? O dobro da edio inicial? Os relatrios dos livreiros deviam estar espetaculares.
      - D uma olhada no que os leitores esto dizendo sobre o livro no site da Amazon - sugeriu Tania. - Acho que o livro est tocando as pessoas de algum modo 
especial. Pelo jeito, a nossa intuio funcionou para esse ttulo, Jojo!
      Jojo concordou, agradeceu o retorno e desligou, muito empolgada. Sempre era uma boa notcia quando um livro comeava a decolar, ainda mais de forma inesperada. 
Naquele caso em especial, pelo fato de a autora ser um amorzinho de pessoa, Jojo estava ainda mais feliz. Entrou no site da Amazon e procurou a pgina de As Poes 
de Mimi. Tania tinha razo. Havia dezessete opinies de leitores e todos haviam adorado o livro. "Um encanto de histria... muito confortador
      ... Mgico... Eu j o li duas vezes..."
      Na mesma hora, Jojo ligou para Lily, que se mostrou atnita e muito grata. Em seguida, ela se recostou na cadeira e se sentiu meio perdida, apesar de feliz. 
O que ela iria fazer agora?... Almoar,
      droga! Jojo j conseguira muita coisa para uma manh de trabalho.
      Pegando o telefone mais uma vez, teclou o nmero de uma extenso interna.
      - Dan? Voc est livre para almoar?
      - Almoar?
      - Sim, aquele evento em que ingerimos comida junto com um monte de gente, todos no mesmo ambiente.
      - Ah, sim... S aceito o convite porque  um almoo com voc.
      - Nos encontramos em trs minutos.
      Dan Swann era exatamente do jeito que Jojo imaginava os homens ingleses, antes de ir morar na Inglaterra. Era magro, louro e, embora estivesse com quase sessenta 
anos, continuava parecendo um
      menino. O melhor de tudo  que ele usava um palet de tweed com uma estranha cor de mingau de aveia e placas de couro costuradas nos cotovelos. A pea devia 
ser herana de famlia e exalava um fedor esquisito quando pegava chuva - cheiro de cachorro ou folhas podres. Jojo achava que esse detalhe deixava Dan ainda mais 
charmoso.
      Foi ele que convencera Jojo a ir para a Lipman Haigh. Os dois haviam se conhecido na festa de lanamento de um jovem Escritor Turco (sim, outro desses). Dan 
se apertara um pouco para entrar no salo onde acontecia o evento e parecia apressado por causa da chuva que pegara. Vestindo seu palet fedorento, parou diante 
da agitao que viu no local.
      - Minha nossa! - comentou, com ar cansado. - Que circo  esse?
      Jojo, que estava junto  porta de entrada esperando a roupa secar um pouco antes de se lanar no tumulto, notou os reforos de couro nos cotovelos do palet, 
a atitude e o cheiro do recm-chegado. Que legal, pensou. Um tpico ingls daqueles bem excntricos.
      Com ar consternado, Dan analisou o salo e sentenciou: - H mais jovens turcos desgraados do que estrelas no firmamento.
      -  mesmo! - concordou Jojo. - O salo est infestado deles.
      - Infestado - repetiu Dan. - Voc usou a palavra exata. - Ele estendeu a mo para Jojo. - Muito prazer... Meu nome  Dan Swann.
      - Jojo Harvey.
      - Srta. Harvey, a senhorita me faz lembrar a minha quarta esposa.
      S que no havia quarta sra. Swann nenhuma, nem mesmo a primeira. O corao de Dan batia em outra direo. Era esse o motivo de ele servir de agente para biografias 
de guerra, conforme ele mesmo admitiu, mais tarde, para Jojo. Dan no resistia a um homem de uniforme, mesmo que ele tivesse oitenta anos e fosse gag.
      A caminho de se encontrar com Dan, Jojo fez uma parada na sala de Jim Sweetman.
      - Oi, Jim! - disse ela, parando na porta e falando bem alto para atrair a sua ateno. - Voc me enrolou. A terapeuta antifumo no  uma hipnotizadora, ela 
 uma PSICLOGA.
      Jim riu, exibindo dentes espantosamente brancos. Jojo semicerrou os olhos, reclamando:
      - Pare com isso, estou ofuscada. Voc tem sempre que mostrar esse sorriso?
      Jim riu ainda mais.
      - Olhe s para o meu cartaz. - Na parede atrs dele havia um papel A4 comum, onde estava escrito, em pincel atmico
      
     Estou completando hoje
     25
     dias sem fumar
      
      - Quem se importa com o mtodo - continuou ele - , contanto que funcione?
      - Humpf - Aquele era o problema com Jirn Sweetman. Ele era um sujeito to obviamente charmoso que era difcil manter a indignao ao tratar com ele. - No 
quero ir a uma analista.
      - Por que no? Jojo Harvey no me parece o tipo de mulher que esconde segredos profundos e inconfessveis. No h com o que se apavorar.
      Ele lanou o mesmo sorriso novamente; era a prpria imagem da inocncia, mas Jojo no tinha tanta certeza disso. Ele e Mark eram muito amigos, e s vezes Jojo 
imaginava o quanto Jim sabia de tudo.
      Ela se virou para sair e, "Bam!", esbarrou com Richie Gant. Magrinho, cabelos pretos cheios de brilhantina, ele parecia um tubaro jovem e cruel, daqueles 
que seriam capazes de atacar tubares
      menores s para roubar o celular deles. Recompondo-se, ele desviou de Jojo e saiu o mais rpido que conseguiu.
      Eeecaa, eu toquei nele.
      De volta  sala de Dan, ele se mostrou atnito ao ver Jojo, embora tivesse conversado com ela havia menos de dois minutos, por telefone.
      - Ah, sim! - reagiu ele, com um olhar vago. - Vamos comer! De qualquer modo, ns somos obrigados a fazer isso.
      Em seguida, ele recolheu do porta-casacos um antiqssimo chapu de feltro verde, meio mole, que parecia quase vivo, como se fosse feito de musgo. Ele o encaixou 
com todo o cuidado na cabea, que ficou parecendo uma colmia verde. Ento, estendendo o cotovelo para Jojo, convidou-a:
      - Gostaria de me acompanhar, senhorita?
      
     
25
      
      10:15, tera-feira de manh
      O primeiro telefonema do dia.
      - Aqui  o seu macaco ensinado - informou Manoj. - Estou com Patricia Evans na linha. Voc atende ou dispensa?
      - Atendo, atendo! - Aquela era a primeira a tomar a dianteira, depois da largada!
      Ouviu-se um dique e, em seguida:
      - Oi, Jojo, acabei de ler O Amor e o Vu.
      O corao de Jojo deu um salto com a sbita descarga de adrenalina.
      - Todos aqui adoraram o livro e eu quero fazer uma oferta pelos direitos dele.
      - Mas tem de ser uma oferta muito tentadora para eu entregar o livro para vocs logo assim, de cara.
      - Pois eu acho que voc vai gostar. Oferecemos um milho de libras.
      De repente, as mos de Jojo ficaram mais quentes e mais adrenalina foi descarregada em seu corpo, invadindo-lhe o organismo como um exrcito. Jojo comeou 
a pensar rpidorpidorpido. Um
      milho de libras era uma oferta fabulosa, especialmente para um romance de estria. Mas se a Pelham estava disposta a oferecer tanta grana, ser que as outras 
editoras tambm no iriam comear desse nvel? Talvez em um leilo ela conseguisse aumentar ainda mais os lances. Quem sabe conseguiria passar do 1,1 milho de libras 
que Richie Gant conseguira por Carros Velozes?...
      Por outro lado... E se ela fizesse uma avaliao equivocada e a Pelham fosse a nica editora a se empolgar com O Amor e o Vu? E se mais ningum oferecesse 
lances naquele nvel, ou chegassem com valores muito menores? No havia jeito de saber, mas Jojo lembrou, na mesma hora, que dois agentes literrios j haviam dispensado 
Nathan. Obviamente no tinham visto grande potencial no texto...
      Pense com calmacalmacalma. Parea calmacalmacalma. Nada de ficar ofegante ao telefone.
      - Ora, essa oferta  muito generosa - disse Jojo, com a voz calmacalmacalma.
      - Vou conversar com Nathan e depois lhe dou retorno.
      - Esse valor vale somente ao longo das prximas vinte e quatro horas - reagiu Patricia, de forma no to calmacalmacalma. Alis, mais parecia revoltada por 
Jojo no dar pulos de alegria e responder "SIM!" de imediato. - Depois desse prazo, ns retiraremos a oferta.
      - Eu entendi. Obrigada, Patsy. A gente se fala.
      Desligou.
      Quando a adrenalina a invadia daquele jeito, os pensamentos de Jojo eram sempre claros como gua. Ela dispunha de vinte e quatro horas para aceitar a oferta 
da Pelham. Se rejeitasse, a Pelham ainda poderia participar do leilo, oferecendo lances. Porm, ela sabia, por experincia prpria, que se eles decidissem participar 
seria apenas para dar um lance muito baixo, ridiculamente baixo, s por despeito. E sempre havia a possibilidade de eles no oferecerem lance nenhum. Naquele instante 
eles estavam curtindo um amor  primeira vista com o livro, mas a essa mesma hora, na semana seguinte, toda a empolgao e o desespero iniciais para comprar os direitos 
poderiam ter diminudo, ou eles poderiam achar que o livro no era to bom quanto eles haviam considerado inicialmente, ou menos comercial, ou l o que fosse. Nesse 
nterim, todas as outras editoras poderiam esnobar o texto e Jojo ficaria sem contrato algum para oferecer a Nathan Frey. Situaes exatamente iguais quela j haviam 
ocorrido, no com Jojo, mas com outros agentes. Uma situao desastrosa, todo mundo com cara de bunda e sem grana na mo.
      Sua funo era aconselhar, mas a deciso final deveria ser de Nathan. Ela pegou o telefone.
      - Nathan? Aqui fala Jojo. Acabamos de receber uma oferta da Pelham. Uma oferta alta.
      - De quanto?
      - Um milho.
      Jojo ouviu um barulho surdo. O fone devia ter cado da mo dele. Em seguida, vieram rudos de algum tentando vomitar. Com toda a pacincia, ela esperou at 
ele voltar e perguntar, com a voz fraca:
      - Posso telefonar para voc daqui a pouco?
      Meia hora depois, Nathan ligou.
      - Desculpe pelo que aconteceu. Eu fiquei meio tonto. Estive pensando.
      Aposto que sim.
      - Se eles ofereceram tanto assim logo de cara, alguma outra editora tambm pode oferecer.
      - No h nenhuma garantia disso, mas estamos no mesmo p.
      - Qual  a sua opinio? Qual  o perfil da Pelham?
      - Eles editam livros muito comerciais, so agressivos na divulgao e j lanaram muitos bestsellers.
      - Argh. Isso me parece horrvel.
      - Eles so muito bons naquilo que fazem - Isso se resumia a rodar livros em grande quantidade para vend-los barato.
      - Sabe o que ...? Eu no tenho a mnima idia sobre o que fazer, Jojo, No me obrigue a dar uma resposta, voc  quem deve decidir. - Ele pareceu  beira 
das lgrimas.
      - Nathan, quero que voc me oua com ateno. Trata-se de um jogo. Se dispensarmos essa primeira oferta, talvez no consigamos nada to alto no leilo.
      Ainda com a voz embargada, ele perguntou:
      - Voc sabe o quanto eu ganhei em todo o ano passado? Nove mil.Nove mil libras, apenas. Qualquer coisa que voc me conseguir alm disso vai ser mais do que 
imaginei em sonhos. Ser que ele seria capaz de abrir mo de um milho de libras?
      Que cara esquisito! Se bem que ele havia se disfarado de mulher e morara no Afeganisto por seis meses. Dava para entender.
      - No decida nada agora, Nathan. Espere at amanh.
      - J decidi o que fazer. No entendo nada dessas coisas. Voc  a minha agente, a especialista no assunto. Confio em voc.
      - Nathan, um leilo de direitos autorais no  cincia exata.Sempre existe a possibilidade de as coisas no se encaixarem e voc acabar sem nada.
      - Confio em voc - ele repetiu.
      Jojo estava por conta prpria. A deciso seria dela.
      11:50, tera-feira de manh
      Ela continuara trabalhando - alis, conseguira duas horas muito produtivas; fizera uma reviso na apresentao da contracapa do novo romance de Kathleen Perry 
e devolveu o texto, por ach-lo muito piegas; depois, ligou para a editora de Eamonn Farrell, a fim de avis-la que eles deveriam trocar a data do lanamento do 
novo livro de Eamonn, para ele no bater de frente com o de Larson Koza; depois disso, lera uma resenha horrorosa sobre o novo romance de Iggy Gibson e telefonou 
para consol-lo.
      O tempo todo, no entanto, por baixo do ar tranqilo e dos pensamentos velozes, ela se lembrava dos dois cenrios opostos que tinha  sua frente, com relao 
a O Amor e o Vu: aceito ou rejeito? Aceito ou rejeito?
      A Pelham no era a casa de sua escolha para aquele lanamento. O perfil da editora era to flagrantemente popular que Jojo tinha dvidas sobre isso ser o certo 
para um livro como aquele. S que um milho de libras era um milho de libras. Aceito ou rejeito? Aceito
      ou rejeito?
      Aceito, decidiu. Nesse instante, Manoj a chamou pelo comunicador.
      - Aqui  o macaco ensinado. Tem alguma banana que voc deseja que eu coma? Quer que eu apresente alguma dana tosca?
      - O que quer de mim, Manoj?
      - Estou com Alice Bagshawe na linha. - Aquela era outra das seis editoras escolhidas. - Voc quer que eu aceite a ligao ou...
      - Aceite! - Ouviu-se um clique. - Oi, Alice!
      - Jojo! O Amor e o Vu! - exclamou Alice, quase sem flego.
      - Eu no lhe disse que o livro era o mximo?
      - E  mesmo! Totalmente. Tanto que ns, aqui da Knoxton House, queremos fazer uma oferta avulsa pelos direitos, antes do leilo.
      Jojo no conseguiu segurar o sorriso.
      - Queremos oferecer um valor sensacional... - Alice pareceu sugar as palavras, para dar mais dramaticidade. O valor  de...
      Dois, pensou Jojo. Dois milhes. Graas a Deus, ela no havia aceitado a oferta da Pelham, de um milho a menos. - ... Duzentas e vinte mil libras. - Alice 
terminou a frase.
      Levou um segundo para a ficha cair.
      - Duzentas e vinte mil? - perguntou Jojo.
      - Isso mesmo - confirmou Alice, confundindo a expresso de choque e pensando que Jojo exprimia uma alegre incredulidade.
      - Ahn... Escute, Alice, eu sinto muito, muitssimo mesmo, mas estou com uma oferta maior do que essa na mo.
      - Maior? Maior quanto...?
      - Muito, muito maior.
      - Jojo, aqui ns chegamos ao limite. No podemos subir mais.
      Ento a Knoxton House j era. Bem, pelo menos ainda havia cinco editoras no preo.
      - Para ser sincera, Jojo, no acho que o livro valha muito mais do que ns oferecemos. Voc devia pegar a oferta que tem na mo agora mesmo.
      - Sim. Obrigada, Alice.
      Jojo ficou balanando sobre a cadeira reclinvel, envolta em pensamentos. A ligao de Alice abalara muito as suas esperanas.
      E quanto s quatro outras editoras que ainda no tinham dado retorno, para que lado elas iriam pular?
      Olive Liddy, da Southern Cross, vinha de dois fracassos consecutivos e andava desesperada por um sucesso. Ser que ela entraria no jogo com uma gorda soma 
de dinheiro na mo? Talvez tivesse
      perdido a ousadia.
      Franz Wilder, da B&B Calder, estava por cima da carne-seca: fora eleito Editor do Ano e lanara um dos cinco indicados a Melhor Livro. Estava preparado para 
outro bestseller, mas talvez o seu imenso sucesso o tivesse ofuscado e ele no estivesse vido o bastante.
      Tony O'Hare, da Thor, era um grande editor, mas a Thor passara por grandes tormentas recentemente - gente se demitindo e outros recebendo bilhete azul - e 
a casa estava desarrumada. Precisavam desesperadamente de um sucesso de vendas, mas sua cadeia de comando estava to confusa, no momento, que talvez eles no conseguissem 
se organizar a tempo de liberar o cofre para Tony.
      E quanto a Tania Teal, da Dalkin Emery? Era uma profissional muito esperta, editora de Miranda England. No havia motivo algum para ela no alcanar valores 
elevados.
      S que no havia jeito de Jojo saber com certeza, pelo menos at que eles ligassem para ela. Telefonar para eles era algo absolutamente fora de questo, s 
serviria para demonstrar uma tremenda falta de confiana.
      Preciso me segurar, pensou ela. Tenho que me manter firme.
      No era a primeira vez que ela se via em uma situao como aquela (embora nunca por valores to altos), e no havia precedentes ruins em sua carreira. Mas 
o simples fato de tudo ter dado certo
      nas outras ocasies no era garantia de que a negociao no poderia dar terrivelmente errado daquela vez.
      Os danos seriam incalculveis, no s para o pobre Nathan Frey, que continuaria sem um tosto, mas para ela tambm. Orquestrar um fracasso antes mesmo de os 
direitos de publicao serem vendidos...
      As ms notcias sempre se espalhavam depressa e a f que todos colocavam em seu trabalho ficaria abalada. A teia finssima de relacionamentos que ela construra 
entre os editores ao longo dos anos levaria muito tempo para ser reparada.
      
     
26
      
      Tera-feira  noite. na cama de Jojo (momento ps-transa)
      - Ento, o que voc vai resolver? - perguntou Mark.
      - O que voc faria?
      - Aceitaria a oferta de um milho de libras.
      - Humm...
      -  um valor estonteante, especialmente para um romance de estria.
      - Humm...
      - Ento  assim?
      - O qu?
      - Voc est pensando em recusar,  isso?
      - Sim. No. No sei.
      - Voc quer alcanar mais do que os 1,1 milho de libras que Richie Gant conseguiu por Carros Velozes, no ? - Mark enroscou as pontas dos dedos entre os 
cabelos dela. - Esse no  um bom modo de tomar decises. Se voc ficar tentando superar Richie, isso a far perder objetividade na hora de avaliar.
      - No pedi seus conselhos - disse ela, com ar arrogante.
      - Pediu, sim. - Ele riu enquanto beijava-lhe os ns dos dedos, um por um. - Esse  o problema de pedir conselhos, Rubra: s vezes voc no ouve o que gostaria.
      Jojo levantou a cabea, afastando-se da mo dele, que estava no emaranhado de seus cabelos, voltou a largar a cabea novamente sobre o travesseiro e soltou 
um longo suspiro.
      - Voc preferia estar de volta  delegacia onde trabalhava? - provocou Mark. Ele tinha um interesse de menino na antiga rotina de Jojo como policial e sempre 
tentava convenc-la a falar disso.
      - Minha vida no era nem um pouco parecida com o seriado As Panteras, sabia? - Ela pareceu ligeiramente irritada. - O que voc acharia de ir verificar um corpo 
em estado de decomposio to avanado que dava para sentir o cheiro quatro andares abaixo, e ainda ter de vigi-lo at o vago aparecer?
      - Vago?
      - Ambulncia do necrotrio. O regulamento dizia que ns deveramos esperar por ela dentro do apartamento, mas s vezes o cheiro era to terrvel que no conseguamos. 
Tnhamos de esperar no corredor do prdio, tentando no vomitar. - Virando-se para olhar para ele, Jojo caiu na gargalhada. - Puxa, Mark, voc devia ver a cara de 
nojo que fez. Viu s no que d ficar perguntando sobre detalhes sanguinolentos? - perguntou, com o rosto sem expresso. - s vezes voc no ouve o que gostaria.
      Ele a beliscou em um lugar muito interessante.
      - No brinque com fogo, a no ser que queira se queimar - avisou ela.
      - Eu quero me queimar, s que...
      - S que...?
      - ...S que os msculos precisam se recuperar, primeiro.
      - Lindamente colocado.
      - Enquanto esperamos, descreva para mim esse cheiro to horrvel.
      -  o pior que pode existir. Depois de senti-lo, a pessoa nunca mais esquece.
      - D para deixar enjoado?
      - Superenjoado! A primeira cafungada j te deixa engasgado, e voc continua enjoado o tempo todo. O cheiro parece penetrar pelos poros, gruda nas roupas e 
nos cabelos com tanta fora que as pessoas sentem o fedor em voc depois. Ento so elas que ficam nauseadas.
      Por outro lado - explicou ela, com descontrao - , s vezes voc d sorte e consegue um defunto fresco, daqueles que morreram h poucas horas. Muitas vezes 
o morto morava em um apartamento confortvel, ento d para assistir tev durante uma ou duas horas, enquanto espera o rabeco. Quem sabe at tomar algumas cervejas, 
para acompanhar o presunto. Esse, sim,  um bom dia de trabalho.
      - Esse lance das cervejas  brincadeira, no ?
      - No.
      Depois de alguns instantes de silncio, Mark quis saber:
      - Isso tudo afetou voc, alguma vez?
      - As cervejas ou os presuntos?
      - Os presuntos.
      - Claro.
      - Quando, por exemplo?
      Depois de alguns instantes refletindo em silncio, Jojo respondeu:
      - Uma menininha de quatro anos, vtima de um desastre de carro, morreu nos meus braos. Eu nem consegui jantar naquela noite.
      - Naquela noite? S naquela noite?l
      - Tudo bem... Fiquei mal por alguns dias. Ei, no me olhe com essa cara!
      - Que cara?
      - Como se eu fosse um monstro. Eu tinha de ser durona,  assim que a gente consegue segurar a onda. No podemos ficar ali, morrendo de pena, seno desistimos 
do emprego em menos de uma semana. D pra mudar de assunto, por favor?
      - Certo. O que est achando do desempenho de Manoj?
      - Ele  legal. Vai dar para quebrar o galho, at Louisa voltar da licena.
      - Se ela voltar...
      - No comece!
      - E mesmo que ela volte - continuou ele, com ar brincalho - , tudo vai mudar. Ela vai chegar atrasada quase todo dia e se mostrar muito distrada; ainda por 
cima, vai feder a vmito de beb. Vai ficar batendo cabea de sono durante o expediente, alm de ter de
      sair mais cedo para levar o beb ao mdico. Aposto que ela vai perder o faro para negcios e o instinto assassino.
      Jojo o beliscou em um lugar interessante.
      - No brinque com fogo se no quiser se queimar.
      - Ora, mas eu quero.
      Depois disso, os dois cochilaram, at que Jojo despertou com um pulo ao ver que j era uma e quinze da manh.
      - Mark, levante-se! Hora de ir para casa.
      Ele se sentou na cama, fazendo o cheirinho da sua pele flutuar docemente at ela, envolto em uma onda de calor. Parecia sonolento, mas obviamente j andara 
pensando a respeito daquilo.
      - Por que eu no posso ficar?
      - Como assim, ficar...? Simplesmente no ir para casa?
      - Sim.
      - Quer que sua mulher descubra?
      - Isso seria to ruim assim?
      - Claro! No importa o que v acontecer, essa no  a melhor maneira de chegarmos l. - Ela jogou uma meia nele. - Anda logo, vista a roupa e v para casa.
      
     
27
      
      10:00, quarta-feira de manh
      O relgio tiquetaqueava sem parar, rumo ao prazo que a Editora Pelham lhe dera para aceitar a oferta. Jojo estava longe de uma deciso.
      Devia pegar aquele milho de libras e perder a chance de conseguir mais? Ou dispensava o milho e corria o risco de conseguir muito menos?
      No havia jeito de saber com certeza: era uma questo de palpite. Embora o nome certo fosse "jogo de apostas".
      No era nem um pouco diferente das rodadas de pquer que ela costumava jogar com o pai e os irmos. Seu pai costumava cantar:
      Voc deve saber o momento de peg-los,
      deve saber quando enrol-los,
      quando sair de fininho...
      
      - Jojo, Patricia Evans est na linha. Aceito a ligao ou dispenso?
      
      ... E tambm o momento de correr.
      - Dispense. Diga que eu ligo para ela em dez minutos. Jojo passou zunindo pela mesa de Manoj e avisou:
      - Vou bater um papo com Dan.
      - Seu consultor - disse Manoj. - Monstrultor - corrigiu ele, depois que Jojo saiu. Manoj morria de medo de Dan Swann e de seu chapu de feltro verde engraado 
e esquisito.
      
     ***
      
      Dan estava em sua sala limpando uma das lembrancinhas de guerra com um pano macio. Ainda estava com o chapu verde na cabea.
      Devia ter esquecido de tir-lo ao chegar da rua. Por baixo dele, o seu rosto era pequeno, fazendo-o parecer um duende travesso.
      - Puxa, Jojo, voc me pegou em pleno flagra! Estou dando um polimento no capacete.
      Jojo nunca sabia ao certo quantas das frases de duplo sentido de Dan eram propositais. Todas elas, provavelmente, mas aquela no era hora para brincadeiras...
      - Voc me parece estar em meio a algum sufoco, minha jovem.
      - Estou mesmo, e preciso desabafar em voz alta: recebi uma oferta prvia de um milho de libras de Patricia Evans. Devo aceit-la e perder a chance de ganhar 
um pouco mais ou devo dispens-la e me arriscar a sair da briga com as mos abanando? Voc, que  um agente veterano e experiente, o que faz nessa horas?
      Dan enfiou a mo no bolso e em seguida a tirou de volta, exibindo uma moeda.
      - Cara ou coroa?
      - Ah, Dan, estou falando srio!
      - s vezes vou at a sala de Olga Fisher e...
      - Por que Olga? Acha que eu devia ir v-la?
      - ...Decidimos no joquemp, aquele joguinho do "pedra, papel ou tesoura".
      Jojo fez cara de irritada e Dan continuou a falar, sem expresso:
      - No tenho respostas certas para isso, minha cara. Trata-se de um jogo de puro acaso, e acho que o que voc devia fazer  usar a ttica daqueles rapazes rudes 
que dizem: "Qual  o pior que poderia acontecer? "
      Jojo considerou a pergunta.
      - O pior que poderia acontecer, Dan? Perder um milho de libras...? Destruir a carreira de um autor...?
      - Exato!
      - Sim - disse Jojo, pensativa. - Muito obrigada, Dan. Voc me ajudou  bea!...
      - Resolveu aceitar a oferta?
      Jojo pareceu surpresa e respondeu:
      - No.
      - Desculpe-me, querida, mas creio que voc acabou de dizer que poderia perder um milho e destruir a carreira de um autor. Foi isso mesmo que eu ouvi, no 
foi? Caso contrrio, talvez eu esteja indo pelo mesmo caminho da tia de Jocelyn Forsyth, aquela que late
      para a lua.
      - Eu disse apenas que isso  o pior que poderia acontecer. No se trata de uma questo de vida ou morte. Independente do resultado, ningum vai se ferir. Ento 
 isso, Dan: resolvi pagar para ver. Obrigada.
      Girando o corpo cento e oitenta graus, cheia de elegncia em seus saltos altos, ela se foi. Dan ficou falando para o ar:
      - Essa mulher seria capaz de devorar a prpria cria - observou ele, com calorosa admirao.
      
      Mais tarde
      Foi um telefonema difcil de ser dado. Patricia no gostou. Nem um pouco. Subitamente, ela recolheu o ar caloroso que sempre reservava para Jojo.
      - Voc ainda pode participar do leilo na segunda-feira - lembrou Jojo, com gentileza.
      - J ofereci o nico lance que pretendia.
      - Desculpe. Sinto muito, de verdade. Se voc mudar de idia... Vou estar por aqui, e voc tem o meu telefone.
      Depois de desligar, Manoj perguntou:
      - Como ela aceitou a recusa?
      - Ela me odeia.
      - Ora, claro que no.
      - Odeia, sim. Mas tudo bem, nunca fomos grandes amigas mesmo. Alm do mais, da prxima vez que eu estiver com um bom livro nas mos, ela vai querer saber. 
Quanto a hoje  noite - continuou ela, mudando completamente de assunto - ... Que aula de ioga eu deveria fazer? Devia pegar a avanada e ficar em p apoiada em 
uma perna s como uma gara e suando como uma leitoa ou  prefervel escolher aquela outra, em que eu fico deitada no cho, respirando profundamente e bem devagar? 
Qual devo escolher? O que
      acha, Manoj?
      - Fique deitada, respirando fundo e devagar.
      - Resposta certa. Voc  um bom garoto.
      - Sou um homem, Jojo, um homem! Quando voc vai enxergar isso?
      
      Muito depois
      Jojo decidiu dispensar a ioga. Ficou tarde e ela poderia deitar no cho e respirar fundo com mais conforto em sua casa, diante da tev.
      Recolheu suas coisas e viu, ao sair do escritrio, que as luzes da sala de Jim Sweetman ainda estavam acesas. Por instinto, resolveu dar uma passada l, para 
um papo rpido, mas, quando bateu de leve  porta e em seguida a abriu, viu que Richie Gant estava l dentro,
      com Jim. Os dois olharam para ela sem expresso e em seguida voltaram a ateno para um alto-falante, de onde vinha uma voz incorprea e muito profunda que 
afirmava "Alm do mais, sempre existem os direitos residuais".
      - Desculpem - sussurrou Jojo, fechando a porta e se afastando dali.
      Eram sete e meia da noite. Jim Sweetman e Richie Gant participavam de uma teleconferncia. Que diabos estariam aprontando?
      Com quem poderiam estar falando de negcios quela hora da noite? Ningum naquele fuso horrio, certamente. O que significava que eles conversavam com algum 
que estava muito longe dali.
      
     
28
      
      11:10, sexta-feira de manh, reunio semanal com todos os agentes
      - Jojo? - perguntou Mark. - Voc tem algo novo a relatar?
      - Tenho, sim. Miranda England, minha autora, entrou no stimo lugar da lista dos mais vendidos do Sunday Times.
      Murmrios de "Muito bem!" e "Grande notcia!" vieram de todos  volta da mesa. Apenas Richie Gant ficou calado. Jojo percebeu isso porque ficou com os olhos 
fixos nele, tentando fazer com que ele levantasse a cabea, a fim de receber o seu olhar de jbilo.
      Mark foi em frente:
      - E voc, Richie?
      Ao mesmo tempo, Jim Sweetman e Richie se mexeram nas cadeiras, colocando o corpo ereto. Trocaram um olhar de cumplicidade e Jim concordou com a cabea na direo 
de Richie. Conte a eles.
      Ai, droga!, pensou Jojo. Ele me deixou para trs mais uma vez.
      - O competentssimo sr. Sweetman - Richie parecia um vendedor de carros usados enrolando um cliente ingnuo - e o seu setor de divulgao e vendas para outros 
meios conseguiram vender os direitos de Carros Velozes para um grande estdio de Hollywood, por um milho e meio de dlares. Estivemos conversando com o pessoal
      da Costa Oeste a semana toda...
      Conversando com o pessoal da Costa Oeste. Richie adorava usar aquela frase. Ento foi esse o papo que rolou na noite de quarta-feira.
      - Fechamos o contrato ontem, depois do expediente.
      S nesse momento Richie olhou para Jojo. Lanou-lhe um sorriso falso, de orelha a orelha, que atravessou a mesa e atingiu-a em cheio.
      
      3:15, sexta-feira  tarde
      Manoj interfonou:
      - Tony O'Hare, da Thor, est na linha. Aceito ou...
      - Aceite!
      A adrenalina de Jojo subitamente estava a toda. Aquilo podia ser bom. Mais uma oferta avulsa antes do leilo, talvez. Era um momento estranho para algum fazer 
isso, uma tarde de sexta-feira, mas quem sabe...?
      - Jojo?  o Tony. Liguei para falar sobre O Amor e o Vu.
      - Sim? - Prendendo a respirao.
      - Sinto muito, mas vou ter de dispensar a sua oferta.
      Merda.
      - Pessoalmente, eu achei o livro fabuloso, mas estamos apertando os cintos por aqui. No foi um bom ano, estamos com pouca grana disponvel para direitos caros. 
 uma situao temporria,  claro, mas  nesse p que as coisas esto. Tenho certeza que voc compreende a situao.
      - Claro. - Ela precisou pigarrear, para limpar a garganta. - Tudo bem - repetiu, com uma voz mais normal. - No se preocupe, Tony. Obrigada por me avisar.
      - Nada disso, eu  que agradeo por voc nos enviar o ttulo. Sinto muito, Jojo, de verdade, mas esse  um grande livro e tenho certeza de que voc no vai 
ter dificuldade para vender os direitos dele.
      Jojo j no tinha certeza de mais nada.
      - E ento? - quis saber Manoj, entrando na sala.
      - Ele no est interessado.
      - Por que no?
      - Disse que est de caixa baixa. Abra a janela para mim, por favor?
      - Por qu? Voc vai pular?
      - Preciso de um pouco de ar.
      - As janelas so vedadas. Voc no acreditou nele?
      -  difcil saber, porque eles nunca dizem abertamente que no gostaram de um livro, por medo de ele virar um grande sucesso e todo mundo descobrir que comeram 
mosca. Vou l fora fumar um cigarro.
      Jojo ficou na rua, inspirando e expirando devagar enquanto fumava, pensativa. Ainda havia trs editoras no preo. O jogo continuava em andamento.
      S que ia adiantar pouca coisa ir  sesso de hipnose daquela noite. Jojo precisava fumar para agentar aquele fim de semana.
      
     
29
      
      3:05, domingo  tarde
      Jojo levantou os olhos do jornal de domingo e perguntou a Mark, em um sbito ataque de curiosidade:
      - Cassie nunca fica encucada, especulando onde voc possa estar?
      Mark tinha aparecido pouco depois das dez da manh. Eles foram para a cama, tomaram um caf-da-manh completo, voltaram para a cama e agora estavam explorando 
uma pilha de revistas e jornais. Ele no parecia estar com a mnima pressa de voltar para casa.
      Mark baixou a Harpers que folheava.
      - Eu nunca sumo de casa de repente. Sempre aviso a ela onde estou.
      - O que voc diz?
      - Que estou trabalhando, jogando golfe ou...
      - E ela acredita nisso?
      - Se no acredita, no me diz nada.
      - Talvez ela tambm esteja aprontando alguma...
      - Voc acha que ela seria capaz...?
      - Isso incomodaria voc?
      Depois de uma longa pausa, Mark confessou:
      - Seria um alvio.
      Na verdade, Jojo no conseguia imaginar Cassie tendo um ardente caso extraconjugal. Se bem que os casos extraconjugais no precisam necessariamente ser ardentes, 
pelo menos no o tempo todo. Cassie talvez curtisse longos passeios ao longo do rio, ou fazer palavras cruzadas ao lado do amante.
      Jojo vira Cassie uma nica vez, mas isso foi muito tempo antes de ela se interessar por Mark e por isso no prestara muita ateno. Lembrava apenas que ela 
se parecia exatamente com a professora primria que era: um sorriso simptico e carinhoso, o cabelo curto em um penteado tradicional. Tinha quarenta e poucos anos, 
mas Jojo s sabia disso porque Mark lhe contara.
      Ela e Mark estavam casados havia quinze anos. Jojo conhecia toda a histria. Mark era amigo do irmo de Cassie - ainda era - e conheceu Cassie na poca em 
que os trs haviam dividido o aluguel
      de um apartamento.
      Jojo muitas vezes se perguntava se Mark ainda a amava; poderia lhe perguntar isso diretamente, mas morria de medo que ele respondesse que sim. Ao mesmo tempo, 
ficava apavorada com a possibilidade de ele dizer que no.
      - Puxa! - disse Jojo. - Desculpe ter mencionado Cassie. No tem nada a ver... Agora estou me sentindo culpada.
      - Mas...
      - Vamos mudar de assunto. Fale algo para me distrair.
      Mark suspirou longamente e, por fim, entrou no jogo:
      - Tudo bem... Olhe s para ela. - Ele apontou para a foto de uma famosa jogadora de tnis na revista. - Ganha dez milhes por ano em patrocnio; pense s nas 
comisses. Estamos no negcio errado, Rubra.
      - Ns poderamos tentar conseguir a Coca-Cola para patrocinar os nossos autores. Pensando bem, no ia dar certo, pois livros no so exatamente uma mercadoria 
sexy. - Ela riu ao ver a cara de arrasado que ele fez. - Ahn... Deixe ver, ento... Que tal merchandising?
      - O qu?
      - Ora, voc sabe como funciona. Escolha a dedo alguns autores famosos, associe-os a um determinado produto e pea para eles escreverem sobre o tal produto 
sob uma tica glamourosa em seu prximo livro.
      - J estou at vendo os protestos da indstria.
      - Bem, no incio essa idia vai provocar um bocado de barulho, mas a grana sempre fala mais alto.
      - Ento me d um exemplo concreto desse merchandising. Jojo colocou as mos atrs da nuca e olhou para o teto com ar pensativo.
      - Pegue, digamos... Deixe-me ver... Pegue Miranda England, por exemplo. Ela deve vender uns duzentos e cinqenta mil exemplares do seu ltimo livro, contando 
apenas as edies de bolso. Seu  pblico-alvo, basicamente, so mulheres entre vinte e quarenta anos.
      - Que produto seria bom para merchandising, nesse caso?
      - Ahn... - Jojo mordeu o lbio inferior, enquanto pensava. - Bem, cosmticos seria a escolha mais bvia. A protagonista poderia usar uma marca especfica. 
Clinique, por exemplo. - Jojo adorava
      os produtos da Clinique desde que entrara em uma filial da Macy's, aos dezesseis anos, e fora convidada a experimentar a marca. - No  preciso esfregar o 
produto na cara dos leitores, basta um pouco de habilidade para alcanar o objetivo. Isso  mais sutil do que propaganda, e tambm muito mais direcionado ao cliente 
final.
      - Puxa, voc  boa nisso, sabia? - Mark balanou a cabea para os lados, admirado.
      - Estou s brincando - disse Jojo, subitamente ansiosa.
      - Eu sei, mas estou curtindo. V em frente.
      - OK. - Ela comeou a se animar. - Homens e carros. Pegue um daqueles livros para homens e coloque o heri dirigindo uma Ferrari. No, esquea a Ferrari,  
cara demais, as pessoas normais no podem compr-la. Talvez um Mercedes ou um BMW.
      A partir da, sua imaginao realmente decolou:
      - No, no! - continuou ela. - J sei! Algo como um Mazda. Um carro de preo mdio que esteja precisando criar, talvez, uma imagem mais sexy. Alm de colocar 
o carro dentro do livro, o autor
      teria que dirigir esse carro por, digamos, um ano. O vilo da histria poderia dirigir o carro de uma fbrica rival, que acabaria enguiando em um ponto vital 
da histria, esse tipo de coisa. As possibilidades so infinitas... Ah, e tem mais uma coisa!... Poderamos ter marcas oferecendo livros. No apenas os ttulos novos, 
mas tambm as reedies de histrias de sucesso poderiam ser patrocinadas. O livro O Encantador de Cavalos poderia virar "Coca-Cola traz at voc o Encantador de 
Cavalos". Ou ento "O Dirio de Bridget Jones apresentado por Clinique". Eles fazem isso com esportes, por que no funcionaria com livros?
      Mark fazia aquela cara de quem sorri sem olhar diretamente para ela.
      - Como conseguiramos convencer nossos autores de sucesso a concordar com isso? Eles so um grupo muito afetado, como voc sabe.
      - Se a grana for alta... - garantiu Jojo, com ar astuto.
      - Voc  brilhante! - elogiou Mark e em seguida brincou: - Ento, a primeira coisa para a agenda de amanh ser marcar reunies com fabricantes de carros e 
distribuidoras de bebidas.
      - Ei, a idia foi minha!
      - Que dureza! O mundo dos negcios  mesmo um territrio selvagem.
      Jojo se ps a pensar no assunto e desabafou:
      - No seria uma coisa horrvel?
      - Revoltante!
      
     
30
      
      Segunda-feira de manh
      Grande dia. Grande dia mesmo. Estava marcada a primeira rodada oficial de lances para O Amor e o Vu. Se a rodada fosse boa, como Jojo esperava, ela poderia 
se estender pela semana toda, com propostas e contrapropostas, telefonemas dela para os editores assistentes, ainda mais telefonemas dos editores assistentes para 
ela, pausas de tirar o flego enquanto eles corriam para os editores gerais, a fim de conseguir mais dinheiro e aumentar os lances, um plat de espera em que pareceria 
que o frenesi havia acabado, at algum surgir no ltimo instante com um lance maior, injetando mais adrenalina em todo o processo, e o dinheiro espiralando loucamente 
at as nuvens...
      
      10:45 da manh
      Tania Teal, da Dalkin Emery, foi a primeira a entrar em campo. Jojo prendeu a respirao e, no silncio que se seguiu, Tania fez um voleio e lanou a bola:
      - Quatrocentas e cinqenta mil libras.
      Jojo expirou com fora. Nada mal, para comear. Se todos trs comeassem naquele nvel, havia uma chance de comearem a dar lances para cobrir uns aos outros 
at passarem de um milho.
      - Obrigada, Tania. Ligo de volta assim que receber as propostas dos outros interessados.
      Jojo desligou. Sentia-se tima!
      
      11:05 da manh
      Olive Liddy, da Editora Southern Cross, foi a seguinte.
      - Pode atirar! - disse Jojo.
      - Cinqenta mil.
      Jojo congelou e, assim que conseguiu descongelar, a primeira coisa que fez foi soltar uma gargalhada, embora o assunto no tivesse graa alguma.
      - Entrei na rua errada? - perguntou Olive, com uma voz mida.
      - Querida, voc no entrou nem mesmo no bairro certo.
      - Vou ver o que posso fazer.
      - Hummm. - Jojo sabia que no ia mais ouvir a voz dela para falar sobre aquilo. Sua avaliao inicial de Olive fora correta: a recente cadeia de fracassos 
acabara com o seu sangue-frio.
      
      11:15 da manh
      Eis que chega Franz Wilder, Editor do Ano.
      - Queria oferecer trs ponto cinco.
      - Trezentas e cinqenta mil? - E no trs libras e meia? Era melhor confirmar logo de cara, considerando o rumo das coisas.
      - Isso mesmo. Trezentas e cinqenta mil libras.
      Graas a Deus. Ainda havia dois jogadores em campo.
      - Uma oferta considervel, Franz. No foi a maior que eu recebi hoje, mas chegou perto. Se voc preferir ligar mais tarde com um lance mais alto, eu...
      - No.
      - No o qu?
      - Essa  a minha ltima oferta.
      - Mas...
      - Eu poderia transformar esse livro em um grande sucesso, como voc sabe... - Franz disse isso bem devagar, para fazer ressoar a mensagem.
      O astral de Jojo despencou, despencou, continuou despencando, desceu pelo seu corpo, atravessou as solas dos sapatos e foi parar na sala dos designers grficos, 
no andar de baixo. Isso  que dava lidar com editores com cara de intelectual que vestiam bluses pretos de gola rul e coavam o queixo com ar pensativo ao falar. 
Assim que conseguiam alguns prmios, comeavam a se achar os reis da cocada preta.
      - A verdade, Franz - reagiu Jojo, forando-se a falar um pouco mais alto - ,  que Nathan  um autor quente, muito promissor e todo mundo quer fazer parte 
desse sucesso.
      - E o livro  excelente. Eu conseguiria extrair todo o potencial dele.
      - Ah, tenho certeza que sim, Franz - concordou Jojo, de forma calorosa - , mas  que...
      -  a minha oferta final, Jojo.
      - Sim, mas... - Se ao menos ela conseguisse levantar o lance dele ao nvel do de Tania, dava para forar a barra e elev-lo ainda mais.
      - No, Jojo.  s isso.
      - Ento est bem. Obrigada. - O que mais ela poderia argumentar diante daquilo? - Vamos considerar suas palavras e sua posio. Se Nathan resolver que prefere 
ganhar menos dinheiro em troca da sua tarimba, Franz, voc certamente ser informado.
      Pode esperar sentado, pensou ela, desligando e sentindo a fora vital se esvair dela. A ficha caiu e a verdade terrvel apareceu; subitamente ela se sentia 
sem controle, caindo em um vcuo. Sobrara s
      uma editora no jogo: Tania Teal. Como  que eu posso promover uma guerra de lances com um s licitante?
      Como as coisas haviam chegado quele ponto?
      Tirando a possibilidade de mentir para Tania e dizer-lhe que havia outras pessoas na jogada arrancando os cabelos e oferecendo mais, no havia como alavancar 
novos lances. O problema  que mentir era terrivelmente antitico, alm de existir uma grande possibilidade de o tiro sair pela culatra: Tania poderia j estar perto 
do seu limite e decidir no subir mais - e Jojo acabaria com as mos abanando.
      Ento, a coisa acabava ali? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe trs! Vendido para Tania Teal por quatrocentas e cinqenta mil libras? Apenas quinhentas e cinqenta 
mil libras a menos do que a
      oferta inicial de Patricia Evans. Puxa, menos da metade. Por Deus!
      Jojo no podia ligar para Tania, pelo menos no to depressa. Eram s onze e meia de segunda-feira de manh - a coisa no podia estar encerrada, assim to 
depressa. Algum deles tinha de ser recuperado. Devia haver alguma coisa que ela pudesse fazer.
      Ela engoliu em seco para evitar a sensao de nusea que lhe subia pela garganta. Estraguei tudo, admitiu a si mesma. Minha percepo foi totalmente equivocada. 
Eu deveria ter aceitado a oferta de
      Patricia Evans logo de cara.
      Patricia Evans! lembrou ela, como se uma lmpada tivesse acabado de se acender sobre a sua cabea. Eu poderia tentar uma nova oferta dela. Talvez ela no oferecesse 
tanto quanto antes, ou at
      mesmo no oferecesse nada, mas qualquer coisa serviria para colocar aquilo de volta nos trilhos.
      Subitamente ela se sentiu loucamente esperanosa, mas foram necessrias trs tentativas desajeitadas antes de conseguir abrir seu caderninho de telefones. 
Enquanto ouvia o telefone tocar, Jojo ensaiou mentalmente o tom da voz; queria parecer bem casual e amigvel.
      "Oi, Patsy", diria ela. "Liguei s para lembrar a voc que hoje  o ltimo dia do leilo para O Amor e o Vu." No havia necessidade de mencionar a oferta 
prvia de um milho de libras nem a raiva de Patricia ao se sentir rejeitada. Ao longo dos anos, Jojo aprendera que, quando voc agia como se as coisas estivessem 
correndo do seu jeito, s vezes as pessoas engoliam a sua verso.
      Mas Patricia no estava em sua sala. Ela poderia estar em um monte de lugares aceitveis - em uma reunio, no dentista, no toalete, mas Jojo se sentia to 
paranica que teve a certeza de que
      Patricia estava ao lado da sua assistente, fazendo mmica das palavras "Diga a ela que eu morri!".
      Jojo desligou e tentou analisar as coisas em sua devida proporo. Quatrocentas e cinqenta mil libras era uma fantstica soma em dinheiro; ela mudaria a vida 
de Nathan Frey para sempre.
      Mas ela poderia ter conseguido muito mais para ele, e quanto maior o adiantamento, maiores seriam tambm o marketing e as verbas publicitrias, pois os editores 
sempre queriam garantir o retorno
      do dinheiro gasto.
      Sua terrvel sensao de perda no tinha relao apenas com o dinheiro, mas com o fato de ela ter estragado tudo. Ela estava certa do sucesso daquele livro, 
de que ele bateria recordes de venda e seria a chance de fortalecer sua carreira. Que pensamento horrvel- talvez a chance tivesse passado. Sem ela notar, talvez 
tivesse perdido a maior chance que j lhe aparecera e estragara tudo. Um milho de libras era muita grana e ela rejeitara a oferta. Onde estava com a cabea?
      E se aquilo arruinasse suas chances de virar scia da firma? E se Richie Gant conseguisse isso antes dela? Ele ingressara na empresa havia apenas oito meses, 
enquanto Jojo j tinha dois anos e meio de casa, mas ele ia muito bem, ao passo que Jojo no...
      O pnico fechava o cerco em volta dela, ameaando asfixi-la, e Jojo se obrigou a ter pensamentos razoveis. Ningum havia morrido, ningum estava ferido. 
Todos vo estar mortos um dia e tudo perder a importncia. E havia ainda a frase clssica dos perdedores: "Ganha-se uma, perde-se outra."
      S que no era nem um pouco agradvel perder alguma coisa, ainda mais quando todo mundo ia ficar sabendo. Ela precisava manter aquilo em segredo. Se Richie 
Gant descobrisse, ela nunca ia parar de ouvir sua gargalhada de desdm.
      Manoj entrou na sala e reparou na expresso de seu rosto.
      - Ah, no!
      - Ah, sim!...
      - Conte-me tudo.
      - Agora no. Vou sair para comprar alguma coisa.
      - Comprar o qu?
      - Qualquer coisa.
      
     
31
      
      Jojo quase comprou uma cestinha de lixo para o banheiro; era em plstico azul e exibia pequenos golfinhos em relevo, mas, depois de peg-la e entrar na fila 
do caixa, ela percebeu que se sentia completamente abatida.
      Voltou quase cambaleando para o escritrio, comeu um croissant de queijo com presunto e ficou olhando sem esperana para os flocos da massa folhada que caam 
e ficavam grudados na mesa.
      Quando Manoj interfonou avisando sobre uma ligao, o seu corao quase pulou do peito... Ser que era Patricia Evans?
      - Olive Liddy na linha um.
      - Eu s tenho uma linha.
      - E da? Isso no significa que ela no esteja na linha um.
      Jojo suspirou, com ar cansado.
      - Eu atendo... Olive? O que posso fazer por voc? Quer acrescentar umas quinhentas mil libras ao seu lance?
      - O Amor e o Vu? Espero que no seja tarde demais. Queria fazer uma oferta.
      - U... Voc bateu com a cabea em algum lugar, Olive? Voc j deu o seu lance. Eu at ri do valor, lembra?
      - Quero aument-lo.
      - Para quanto?
      - Seiscentas mil.
      - Como?!... Ei, o que houve com voc, Olive? - Como conseguiu aprovao para mais quinhentas e cinqenta mil libras em trs horas?
      - Eu avaliei mal as qualidades do livro. Calculei errado.
      Nesse instante Jojo compreendeu. Olive tinha esperana de que ningum mais estivesse interessado na obra e ela conseguisse peg-la por uma pechincha. Que cara-de-pau! 
Mas tudo bem... A bola estava novamente em campo.
      - Eu lhe dou retorno mais tarde.
      
      Segunda-feira, 3:07 da tarde
      - Tania? Conseguimos alguns lances maiores do que o seu.
      - Maiores quanto...?
      - Voc sabe que eu no posso lhe contar, nesse momento.
      - Jojo!
      - Seiscentos.
      - Tudo bem. Eu ofereo setecentos.
      - Obrigada. J lhe dou retorno.
      
      3:09 da tarde
      - Olive? Consegui outro lance. Maior que o seu.
      - Maior em quanto, exatamente?
      - Voc sabe que eu no posso lhe contar, nesse momento.
      - Quanto, Jojo?
      - Setecentos.
      - Dou oitocentos, ento.
      
      3:11 da tarde
      - Tania? Conseguimos outro lance que cobriu o seu.
      - Preciso de um tempo. No tenho bala na agulha para subir mais.
      - E quando voc me d essa resposta?
      - Logo.
      
      Tera-feira, 10:11 da manh
      
      - Jojo,  Olive. O livro  meu?
      - Estou  espera de um retorno final da outra parte interessada.
      - Preciso saber logo.
      - J ligo de volta.
      
      10:15 da manh
      - Tania, vou ter que apressar voc.
      - Desculpe, Jojo. Estamos tentando entrar em contato com o editor-chefe. S posso liberar mais grana com a autorizao dele, mas ele est velejando pelo Caribe.
      - E em quanto tempo voc me d retorno?
      - Eu lhe dou uma resposta ainda hoje, antes do fim do expediente.
      
      4:59 da tarde
      - Olive,  Jojo. D para voc segurar sua oferta at amanh de manh?
      - Bem, no sei...
      - Por favor, Olive. Somos velhas amigas.
      - Tudo bem.
      
      Quarta-feira, 10:14 da manh
      - Tania?
      - Jojo? Escute, ahn... Desculpe eu no ter ligado ontem mesmo, conforme prometi.  que at agora eu no consegui falar com o nosso editor.
      - Sinto muito, Tania, mas a outra parte est me pressionando para ter uma resposta definitiva.
      - Me d mais algumas horas, at depois do almoo. Por favor, Jojo, a gente j se conhece h um tempo.
      
      2:45 da tarde
      - Jojo?
      - Tania?
      - Novecentas.
      
      2:47 da tarde
      - Olive?
      - Jojo?
      - Novecentas mil  o lance que est na ponta.
      - Porra! Eu achei que o livro j era meu. Bem, vou ter que consultar o pessoal acima de mim, na cadeia alimentar, para conseguir mais grana.
      - E quando voc.me d retorno?
      - Logo.
      
      2:55 da tarde
      - Jojo,  a Becky. Tirei um cochilo na hora do almoo e sonhei que todos os meus dentes haviam cado. O que significa isso? Medo do qu? Compromisso srio? 
Morte?
      - Medo de que todos os seus dentes caiam. Estou atolada, preciso desligar, Becky.
      
      Quinta-feira, 10:08 da manh
      - Jojo,  Tania.
      - Continuo  espera de respostas dos outros licitantes.
      -  que eu preciso saber, entende? Novecentas mil  muita grana e eu sei que Olive Liddy  a outra parte interessada.
      - O que a faz pensar assim?
      - As notcias correm e eu sei que ela no vai conseguir mais nada do pessoal acima dela. Eles andam desesperados por l. (Tnia fora dispensada pela Southern 
Cross depois de um fracasso inesperado e sua mgoa ainda era grande.)
      - Por favor, Tania, voc pode me dar pelo menos at depois do almoo?
      - Duas e meia, ento. Depois disso, eu tiro o meu time de campo.
      
      10:10 da manh
      - Olive,  Jojo.
      - Sim, eu sei. Desculpe, mas vamos ter uma reunio de emergncia hoje  tarde com o diretor de vendas e com o pessoal do marketing e da publicidade. Ligo de 
volta para voc assim que resolvermos.
      - No d para vocs fazerem essa reunio um pouco mais cedo? Est todo mundo no meu p por aqui e...
      - No d. Nosso gerente de marketing est neste exato momento removendo uma unha encravada. Ele estava com essa consulta marca da h vrios meses, e s sai 
da cirurgia l pelo meio-dia e meia. Ele disse que vem direto para c. Por favor, Jojo,  como voc mesma disse ontem: somos velhas amigas.
      - Sim, eu sei, mas preciso de uma deciso rpida, seno vou se obrigada a entregar os direitos para a outra parte.
      -  aquela vaca da Tania Teal, no ? No lhe d ouvidos, porque ela no tem peito para cair fora numa hora dessas.
      - Escute...
      - Trs e meia. Juro que ligo de volta nessa hora.  o melhor que eu posso prometer.
      
      2:29 da tarde
      - Aqui  Manoj. Tania Teal est na linha.
      - Mas ainda no so duas e meia!
      - O que eu falo para ela?
      - Alguma coisa. Qualquer coisa. Consiga-me uma hora.
      - Perna quebrada?
      - Nada que parea to srio assim.
      - Suspeita de fratura?
      - Isso! Mande essa
      :24 da tarde
      - Jojo, voc no vai acreditar no que aconteceu.
      - Oi, Becky! Escute, eu...
      - Eu estava em uma reunio hoje de manh e adivinhe o que aconteceu? Um dos meus dentes caiu. Ia abrir a boca para falar alguma coisa quando senti um dente 
rolando solto na boca, como se
      fosse uma bolinha de gude. Foi igualzinho ao sonho!
      - Mas como  que um dente simplesmente despenca assim...?!
      - No foi exatamente um dente, foi uma coroa. Mas no importa, isso talvez prove que eu tenho poderes paranormais.
      - Essa coroa andava meio mole ultimamente?
      - No. Quer dizer, s um pouquinho, mas...
      - Becky, sinto muito... Um beijinho, mas eu preciso desligar.
      
      3:31 da tarde
      - Jojo,  Olive. Tudo bem... - Uma pausa e o som de inspirao profunda. - Um milho.
      
      3:33 da tarde
      - Tania, eles fizeram um lance de um milho.
      - Um milho? Como  que eles podem ter autorizado toda essa grana para uma palerma como aquela? Ela mal consegue descobrir como  que se tira uma bala de dentro 
do saquinho.
      - Voc est dentro ou fora?
      - Dentro, mas vou ter que mexer mais alguns pauzinhos. Por falar nisso, como vai a sua perna?
      
      Agora que Jojo conseguira colocar os lances novamente no patamar de um milho de libras, que era a oferta inicial, seu astral se elevara como uma pipa com 
vento a favor.
      - E agora, o que acontece? - quis saber Manoj.
      - Por hoje  s, mas os adversrios voltaro ao campo amanh. As duas editoras amaram o livro e, para melhorar as coisas, est rolando uma guerrinha de egos, 
o que s pode ser bom para ns.
      - Como pretende celebrar isso hoje  noite? Ioga?
      - Ioga, uma ova. Sexo selvagem com o meu namorado. Merda, ela no devia ter dito aquilo. O alto-astral fez com que ela perdesse a cautela.
      - Quem  ele? - gemeu Manoj.
      - Deixa pra l.
      -  Richie Gant, no ?
      - No. Ele  o seu namorado.
      - Mas era seu namorado antes; deu um chute na sua bunda, voc ficou arrasada e ligava dez vezes por dia para ele, implorando para ele voltar.
      Jojo o ignorou e passou a escova nos cabelos.
      - Como eu estou?
      - Incline o corpo, jogue os cabelos para a frente e depois volte.
      Jojo olhou para ele com frieza.
      - Manoj, voc deve me achar uma idiota completa.
      - No! Ajuda a dar mais volume nos cabelos. Eu no sugeri isso s para poder ver o seu decote no - OK - admitiu ele, depois de um segundo. - No foi apenas 
para olhar o seu decote.
      
      7:15, quinta-feira  noite, ainda no prdio em que loja trabalha
      Ela descobriu que no ia ver Mark aquela noite assim que esbarrou com o rapaz de entrega de flores no saguo.
      - Por onde voc andou? - perguntou ele. - Eu j estava de sada da loja. S trabalho at s sete, voc sabia?
      - Esse arranjo  para mim? - Ela olhou para as flores. - Ai, que merda!
      - Obrigado pela gentileza!
      Enfiando as flores debaixo do brao, junto com a garrafa de champanhe que, pelo visto, ela ia ter de beber sozinha, Jojo ligou o celular. Havia trs mensagens 
de Mark; o pnei da pequena Sophie
      pisara no p da menina e quebrara dois dos seus dedinhos. Mark garantiu que sentia terrivelmente (primeira mensagem). Ele estava realmente arrasado por no 
aparecer (segunda mensagem). Jojo estava dando gelo nele? (terceira mensagem).
      Ela ligou na mesma hora.
      - Cassie podia ter levado Sophie ao mdico - explicou Mark - , mas estava to preocupada que me pediu para ir com ela.
      Dava para reconhecer a agonia em seu tom de voz: sua menininha estava com muitas dores e queria o papai junto dela. Jojo deu um suspiro; como ela poderia ficar 
chateada?
      - Sbado? Domingo? - perguntou Mark.
      - Voc no pode aparecer amanh  noite?  o dia da minha sesso de hipnose para parar de fumar, mas eu quero uma desculpa para no ir.
      - Desculpe, Jojo, mas marquei de levar aqueles editores italianos para jantar. Se no quer ser hipnotizada, simplesmente no v. Voc no precisa de desculpas.
      - Desculpe, Jojo, mas marquei de levar aqueles editores italianos para jantar. Se no quer ser hipnotizada, simplesmente no v. Voc no precisa de desculpas.
      - Tem razo. Tudo bem, que tal sbado, ento? Diga a Sophie para se manter longe daquele cavalo idiota, e se no aparecer nenhum outro membro quebrado, eu 
espero voc.
      Sem ter mais nada programado para a noite, Jojo ligou para Becky, mas tanto o nmero de casa quanto o do celular estavam na caixa postal, ento ela ligou para 
Shayna.
      - Vamos sair - topou Shayna.
      - E voc consegue uma babysitter assim, em cima da hora?
      - Babysitter? Eu no preciso arrumar uma babysitter, tenho Brandon Escute, Brandon! Vou sair com Jojo para tomar uns drinques.
      - Quer que eu v para o seu bairro? - perguntou Jojo.
      - No! Voc no deve vir a um dos pubs aqui perto da minha casa, a no ser que pretenda levar um tiro. Que talo King's Head, em Islington, daqui a uma hora?
      - Certo, a gente se encontra l.
      Elas conversaram a respeito do leilo, sobre o quanto Jojo odiava Richie Gant, Shayna contou da impotncia de Brandon e ento, alguns drinques mais tarde, 
Jojo deu com a lngua nos dentes e contou a Shayna sobre o encontro com Mark, que no acontecera.
      - Isso no  nada bom, garota. - Shayna balanou a cabea, com ar de desprezo.
      Shayna estava com pena dela, pelo que Jojo percebeu. Rindo de leve, reclamou com a amiga:
      - Ei, Shayna, no me olhe com essa cara!
      - Estou apenas lhe dizendo o que eu penso. Se no gosta dessa situao, vire o jogo. Sabe o que eu acho que voc devia fazer? - Shayna se animou e, sem dar 
chance de Jojo retrucar, decretou: - Voc devia traz-lo para nos conhecer... Eu e Brandon, Becky e Andy.  isso que os casais fazem: conhecem os casais amigos um 
do outro.
      - Mas ele  casado.
      - Eu sei, mas, se gosta tanto de voc como parece, vai aceitar nos conhecer.
      - Voc  quem est querendo conhec-lo. Nada disso,Shayna...
      - Mas voc precisa comear a levar uma vida normal. Podemos todos sair para comer fora no domingo, que tal? Peo  minha me para preparar o almoo e ficar 
l em casa cuidando dos pestinhas. Vamos encher a cara e nos enturmar. Uma e meia est legal para voc?
      Minha nossa!
      - No, Shayna. Meu tempo com Mark  precioso demais. No quero dividi-lo com mais ningum.
      - Uma e meia. - Shayna empinou o queixo.
      - No. - Jojo olhou com firmeza para Shayna.
      - Uma e meia.
      - No.
      - Uma e meia.
      - No.
      - Uma e meia.
      - No.
      - Uma e meia.
      - No.
      - Ai, pelo amor de Deus!
      - Que foi?
      -  uma das irms Wyatt.
      Jojo virou a cabea para olhar a multido que saa do teatro e entrava no bar e viu uma loura alta.
      -  Magda! - A favorita de Jojo. De Shayna tambm.
      Magda as avistou.
      - Jojo! Como vai, sua garota de arrasar? - Elas se abraaram. - E Shayna! Que legal tornar a encontrar voc!
      Ela no foi to simptica com Shayna quanto foi comigo, pensou Jojo.
      - Becky tambm est por aqui?
      - No, s ns duas - murmurou Shayna, parecendo pedir desculpas.
      - Vamos fazer uma ceia em algum lugar. - Magda fez um gesto indefinido para a nuvem de pessoas lindas que a rodeavam. Eram sete ou oito homens e mulheres perfeitos. 
- Juntem-se a ns - convidou ela, colocando a mo sobre o brao de Jojo e lanando-lhe um ar de splica. o convite parecia sincero, mas Jojo no achava correto entrar 
de penetra no grupo de ningum e deu uma desculpa esfarrapada sobre acordar muito cedo no dia seguinte.
      - Se tem certeza, tudo bem, mas quero que prometa que voc vai me telefonar para marcar de sairmos. Vamos l! Prometa!
      Logo em seguida, Magda saiu e o salo pareceu muito menos exuberante.
      - Ela foi mais simptica com voc do que comigo - disse Shayna, baixinho.
      - Sim, eu sei, ela foi mesmo. E me chamou de "garota de arrasar". Houve um momento de silncio e ento as duas quase caram uma em cima da outra, desequilibradas 
de tanto rir.
      - Sabe o que ns duas somos? - Concluiu Shayna: - Patticas!
      
     
32
      
      Sexta-feira de manh
      Tania tornou a ligar com mais cinqenta mil, o que era menos do que Jojo esperava. Ento Olive contra props mais vinte mil.
      - Por que voc ficou to jururu? - perguntou Manoj. Mas ele sabia. - Voc acha que no vai conseguir ultrapassar os 1,1 milho de libras que Richie Gant conseguiu 
por Carros Velozes?
      - O leilo ainda no acabou.
      Mas o lance seguinte foi de apenas dez mil libras a mais, e Olive contraprops outras dez. As duas editoras estavam quase no limite e os lances pararam em 
1,09 milho.
      - Voc precisa de mais dez mil - calculou Manoj.
      - Vinte. Quero ultrapass-lo, no apenas empatar com ele.
      Mais cinco de Tania se seguiu, depois cinco de Olive - e ento Jojo conseguiu extrair mais trs mil libras de Tania! Ultrapassou a marca histrica de Richie. 
Por muito pouco, mas no importava.
      Pouco a pouco, Jojo conseguira arrancar lances sucessivamente maiores at que as duas empacaram na casa do 1,12 milho de libras.
      - Vinte mil a mais que ele - observou Manoj. - Agora voc j pode parar.
      Mas Jojo teria de parar, de qualquer jeito. No havia mais dinheiro e, como os lances estavam empatados, ia acontecer uma espcie de concurso de beleza, no 
qual Nathan iria analisar as duas editoras, que armariam um circo para seduzi-lo, at ele decidir de
      qual gostava mais.
      Foi Manoj quem fez as ligaes.
      - Na quinta-feira que vem - informou - , vocs vo  Dalkin Emery s dez da manh e depois  Southern Cross s onze e meia.
      
     ** *
      
      Sexta-feira  meia-noite, no apartamento de Jojo
      A campainha tocou. Era Mark. Ele despachara o grupo de italianos barulhentos para a noite londrina e apareceu na casa de Jojo sem avisar;
      - Queria ver voc. J me livrei dos italianos - gritou ele meio bbado, falando no interfone. - Vim de txi.
      - O que quer de mim? Uma medalha?
      Jojo estava feliz por v-lo, feliz de verdade, mas no queria que Mark pegasse o hbito de passar na casa dela para uma rapidinha sempre que desse vontade, 
antes de ir para casa dormir com sua esposa.
      Ela ficou parada na porta vendo-o subir o ltimo lance de escadas.
      - Foi sorte sua eu no estar com o meu outro namorado aqui em casa, sabia?
      Ele chegou ao ltimo degrau e a puxou com fora para junto de si, com o ardor tpico das pessoas que esto de porre.
      -  melhor mesmo que no haja ningum com voc.
      - R! O cara casado est me dizendo que  melhor eu no ter mais ningum!
      - Tem razo. - Com alguma dificuldade, ele pegou o celular no bolso. - Isso j foi longe demais. Vou dizer a Cassie agora mesmo que eu amo voc e...
      Jojo agarrou o telefone.
      -  melhor me dar isso aqui, seu bobo bbado. J que est aqui, tenho planos para voc.
      
      Vinte minutos depois
      Jojo rolou para o lado, saindo de cima dele. Os dois estavam grudentos de suor e muito ofegantes.
      - Essa foi... Essa foi... - O peito dele arfava.
      - Pavorosa?
      - Isso mesmo. E para voc?
      - A pior da minha vida.
      - Voc ficou toda acesa por causa desse leilo, no foi?
      - Foi - concordou ela. - Toda aquela testosterona...
      - Voc se arriscou muito.
      - Mas deu certo.
      - Quer dizer ento que voc planejou tudo para derrotar Richie Gant?
      -  claro que sim.
      Ela encostou a ponta da lngua no ombro dele. Sal sobre a pele lisa. Depois, enterrou o rosto na lateral do seu pescoo e inspirou fundo para sentir-lhe o 
cheirinho. Nossa, ele era delicioso!
      
      5:45 da manh seguinte
      Os dois acordaram assustados, ao mesmo tempo, olharam para o relgio e em seguida um para o outro, com os olhos arregalados e os cabelos emaranhados e arrepiados 
de medo.
      - Merda! - disse Jojo. - Mark, depressa, levante-se. V para casa!
      - Caraca! - Plido e obviamente de ressaca, Mark disparou porta afora, vestindo-se pelo caminho. - Ligo pra voc mais tarde.
      - Tudo bem. Boa sorte.
      Poucos segundos depois, Jojo ouviu a porta da rua bater; ele devia ter descido os cinco lances de escada fazendo bodysurf pelos degraus. Seu estmago parecia 
uma pedra de tanto medo; era a hora da verdade. Cassie ia sacar, Mark acabaria contando tudo, depois falariam com os filhos. Seria horrvel! Ele sairia de Putney 
e se mudaria para o apartamento de Jojo, eles virariam um casal comum e Jojo no tinha certeza de j estar preparada para tudo aquilo.
      Levou uma eternidade para aquele dia passar, enquanto Jojo aguardava notcias dele. Foi para a aula de ioga, imaginando que os exerccios seriam to puxados 
que tirariam seu pensamento daquela espera. O que funcionou de forma admirvel, mas s por uma hora.
      Ao voltar para casa, ela meio que esperava encontrar Mark parado na porta,  sua espera, ao lado de uma mala. Isso no aconteceu. Nenhum recado. Aquilo no 
era bom. Falta de notcias era mau sinal. Mark e Cassie provavelmente estavam presos em um horrvel carrossel de lgrimas e recriminaes mtuas. As entranhas de 
Jojo se apertaram s de pensar na cena.
      Ela obrigou Becky a sair com ela para fazer compras. Passaram a tarde toda no Whiteleys, com Jojo conferindo o celular a cada quinze minutos,  espera de alguma 
mensagem. Nada. Para piorar, ela odiava a sensao de impotncia por no poder ligar para ele. Finalmente, Mark deu sinal de vida e ligou na noite de sbado, quando 
Jojo estava na casa de Becky e Andy.
      -  ele? - perguntou Becky, fazendo mmica das palavras com os lbios e arregalando os olhos de expectativa.
      Jojo fez que sim com a cabea, de forma brusca.
      -  ele! - cochichou Becky para Andy e os dois ficaram sentados juntos, de mos dadas, como se esperassem o resultado de um exame de cncer.
      Jojo se levantou e foi para o corredor para poder falar.
      - E ento? O que houve? Fomos descobertos?
      - No.
      Ela expirou com fora. Era a primeira vez que ela conseguia soltar a respirao por inteiro, o dia todo. Mas a sensao de alvio foi uma espcie de desapontamento. 
Em sua cabea ele j estava morando com ela, e Jojo aceitara a idia. Para falar a verdade, ficara muito feliz com aquilo.
      - Conte-me tudo.
      Parece que Cassie dormira direto a noite toda e s percebeu que Mark no estava em casa no instante em que ele chegou esbaforido s cinco para as sete da manh 
com uma desculpa toda ensaiada na cabea: "Trabalhei at tarde, depois fui me encontrar com os italianos
      barulhentos no hotel, acabei cochilando no sof macio da sute deles e aqui est o telefone dos caras, se voc no acreditar em mim."
      Mas Cassie acreditou nele. Jojo chegou  concluso de que a mulher de Mark era mais burra do que ela imaginava. Jojo e Mark passaram a maior parte do domingo 
dominados por uma sensao de post-mortem,
      - Essa passou perto demais - concordaram os dois ao avaliar tudo. - Precisamos tomar cuidado para isso nunca mais tornar a acontecer.
      
      Mas aconteceu novamente, quatro noites depois. Apesar da terrvel ansiedade provoca da pelo episdio anterior, no foi o fim do mundo; eles haviam escapado 
do sufoco numa boa. E conseguiram escapar novamente na vez seguinte.
      
     
33
      
      Quinta-feira de manh, na Dalkin Emery
      Jojo saiu do elevador e comandou Nathan para que ele a seguisse.
      - Certo. - Ele engoliu em seco e colocou o p para fora do elevador de modo inseguro, pisando pela primeira vez no solo sagrado da Dalkin Emery. Sentiu vontade 
de beij-lo.
      - No fique nervoso. - Jojo massageou-lhe os ombros com os dedos, de leve. - Eles so apenas editores que querem lhe oferecer toneladas de dinheiro para publicar 
o seu romance. A maioria dos escritores seria capaz de cometer assassinato para estar no seu lugar.
      Jojo seguiu fazendo "click-clicks" com a ponta do salto alto pelo corredor afora e lanou um olhar sorridente e descontrado para a recepcionista.
      - Bom-dia, Shirley.
      - Bom-dia, Jojo,
      - Este  Nathan Frey.
      Shirley lanou um sorriso educado para o sujeito muito plido e com ar estupefato, o qual, por sinal, era o motivo de ela ter sido obrigada a chegar ao trabalho 
s sete e meia da manh naquele dia, s para espalhar areia por todo o salo da sala de reunies.
      - Eles j esto na sala de reunies. Vou avis-los da sua chegada.
      - Eu sei o caminho, Shirley.
      - Sim, deixe eu s...
      Mas Jojo j sara do balco, com Nathan trotando mansamente atrs dela.
      Reunidos na sala de reunies, estavam todos os executivos da Dalkin Emery, o diretor de vendas, o diretor de divulgao e seus auxiliares, bem como a editora 
assistente, Tania Teal, e o editor geral. O Amor e o Vu era o lanamento mais importante daquele ano.
      - Droga, a Jojo sempre se atrasa! - reclamou Tania, enfiando a cabea para fora da porta e trazendo-a de volta rapidinho para avisar: - Nossa, ela est vindo 
pelo corredor!
      Houve um rpido tumulto enquanto todos se preparavam; segundos depois, Jojo apareceu na porta conduzindo Nathan, que tentava sorrir, apesar das gotas de suor 
sobre o lbio superior.
      Dick Barton-King, chefe de vendas, empinou o corpo e olhou atravs da redinha de sua burca. Conseguiu ver muito pouco, o que foi uma pena: ele adorava Jojo.
      Por baixo dos quilmetros de pano escuro embolorado, ele nadou com os braos, tentando achar a bainha da roupa, colocar a mo para fora e fazer os cumprimentos. 
Detestava ter de usar aquele troo, uma idia do departamento de marketing - s podia ser!
      Por que um daqueles idiotas no estava usando aquele manto estranho? Como  que haviam conseguido ficar com a roupa mais interessante, as toalhas de mesa brancas 
enroladas em torno da cabea?
      Ele nem ao menos ganhara uma das metralhadoras de brinquedo que Tania Teal sara pessoalmente para procurar e comprar. No era justo.
      Os lanamentos de livros "grandes" se tornavam um evento mais elaborado a cada dia, pensou Jojo. Vamos esquecer o cho cheio de areia e os enfeites afegos 
pendurados em toda parte; vamos ver a quantidade de grana reservada para o marketing do romance.
      Todos se sentaram e a equipe de divulgao entrou em ao, falando de anncios na televiso, um tour publicitrio de trs semanas, uma primeira edio de cem 
mil exemplares e garantia de resenhas nos jornais bem conceituados.
      - Ser que o Observer vai querer me entrevistar? - Nathan parecia estar adorando tudo.
      - Sim - garantiu Juno, chefe da equipe publicitria. - Tenho certeza de que podemos arranjar isso. - Bem, talvez eles conseguissem. Provavelmente.
      Algumas idias sobre a capa foram apresentadas, em meio a gestos empolgados, e tambm psteres imensos e projees de vendas astronmicas. At mesmo Jojo, 
muito acostumada ao circo para lanamento de livros, teve de reconhecer que aquela era uma apresentao impressionante.
      Quanto a Nathan, estava to estupefato que houve um momento em que Jojo pensou que ele fosse desmaiar.
      Quando acabou a apresentao, toda a equipe da Dalkin Emery os observou indo embora.
      - Acho que deu tudo certo - comentou Tania Teal, baixinho, enquanto abria o zper da bota e fazia uma pequena pirmide de areia no cho.
      - ... - concordou Fran Smith, sua assistente, suspirando ao olhar em volta e ver toda a areia que teria de limpar.
      Jojo pegou um txi com Nathan e o levou  Southern Cross, onde Olive Liddy e sua equipe fizeram uma apresentao completamente diferente. Nada de areia, nem 
de burcas ou metralhadoras. O papo era "prmios literrios".
      Embora oferecessem o mesmo adiantamento da Dalkin Emery pelos direitos autorais de Nathan, eles haviam determinado um oramento muito mais baixo para publicidade. 
Fizeram isso parecer algo positivo.
      - A superexposio pode arruinar um livro - argumentou Olive, com ar srio. - Bons livros no precisam de anncios em shoppings e estaes de metr. Eles falam 
por si mesmos.
      Ao ser pressionado por Olive, Nathan confessou que no, ele no desejava se juntar a nomes como John Grisham e Tom Clancy, com exibio macia em aeroportos, 
livrarias e listas de bestsellers. Concordou que construir uma boa reputao baseada em resenhas elogiosas e recomendaes boca a boca tinha muito mais a ver com 
ele.
      No fim da reunio, Jojo levou Nathan at o pub mais prximo e fez um balano da manh:
      - Mesmo livros maravilhosos como o seu podem se beneficiar da propaganda - opinou ela.
      - O livro  meu - rebateu Nathan, ligeiramente contrariado e com a cabea transtornada pela idia de ganhar prmios literrios.
      - Quero assinar com a Southern Cross.
      Opa, l vamos ns, pensou Jojo. J comeara a sesso vaidade.
      
     
34
      
      Sexta-feira de manh
      - Saiu! - disse Manoj, balanando na mo um exemplar do Book News e atirando-o sobre a mesa de Jojo. - Est na pgina 5.
      
      Book News, 2 de maro
      
     RECORDE ABSOLUTO
      
      Os direitos de publicao de O Amor e o Vu, romance de estria que se passa no Afeganisto, foram vendidos a Olive Liddy, da Editora Southern Cross, por 1,12 
milho de libras, a maior sorna j paga na Gr-Bretanha para o primeiro livro
      de um escritor. Descrito pela sra. Liddy corno "o livro da dcada", seu autor, Nathan Frey,  um ex-professor que viveu corno mulher no Afeganisto durante 
seis meses, a fim de
      fazer pesquisas para o livro. A venda foi intermediada pela agente literria Jojo Harvey, da Lipman Haigh, que d continuidade  sua recente srie de sucessos. 
Ela tambm representa
      Miranda England, que est em primeiro lugar na lista dos livros de bolso mais vendidos da semana com o seu quarto romance. Dizem que Tania Teal, a editora 
da Dalkin
      Emery que perdeu o leilo dos direitos, est "arrasada".
      
      Arrasada era urna boa palavra para descrever o seu estado, pensou Jojo. Tania Teal chegou a soluar quando Jojo ligou, na vspera,para lhe dar a m notcia. 
Aquela era urna das piores coisas do seu trabalho: ser obrigada a decepcionar as pessoas. A verdade, porm,  que s podia haver um vencedor.
      - Manoj, d para voc ir at a esquina para comprar um bolo?
      - Vamos celebrar?
      - No,  que Louisa vem nos visitar hoje  tarde trazendo a sua filhinha, Stella.
      Manoj ficou abalado.
      - Louisa? - Apesar do susto, no perdeu o rebolado. - Ento quem sabe ela consiga me dizer onde foi que enfiou o contrato de Miranda England. E voc me disse 
que ela era eficiente!.
      
      9:45, sexta-feira de manh
      Jocelyn Forsyth bateu  porta de Jojo.
      - Meus parabns, minha cara.
      - Obrigada.
      - J est tudo acertado? Incluindo as letras midas do contrato etc. etc.?
      - Quase. Estamos s cobrindo com rede.
      - Cobrindo com rede...?
      Ah, no...
      - Esse  um daqueles maravilhosos termos jurdicos que voc gosta de usar? - quis saber ele.
      - No.  uma expresso usada pelos bombeiros - explicou Jojo.
      O rosto dele se encheu de interesse e curiosidade, ento Jojo completou:
      - Quando o incndio finalmente  debelado, os bombeiros precisam manter o prdio seguro, ento eles instalam uma rede de plstico para impedir que as janelas 
despenquem.
      - Cobrir com rede... Fantstico!
      O prximo a chegar foi Jim Sweetman, que fez o seu glorioso sorriso desfilar por todo o escritrio.
      - Meus parabns! Seria interessante voc vender os direitos para o cinema.
      - Isso significa uma viagem a Los Angeles? - quis saber Jojo.
      - Depende de como anda o seu jogo de golfe.
      - Meu jogo de... golfe?
      - Isso mesmo! Voc tem de jogar golfe para se enturmar com os caras de Hollywood.
      
      10:56, sexta-feira de manh
      - Soube que fez um belo gol, Senhorita Sortuda.
      Jojo levantou a cabea. Richie Gant estava em p na porta da sala e ela pousou a caneta sobre a mesa.
      - Que gol? Est falando do meu contrato de 1,12 milho para Nathan Frey?
      - No foi um golpe de sorte?
      - Foi sim. - Jojo sorriu. - Sabe o que acontece...? Quanto mais eu trabalho, mais a sorte aparece.
      A boca dele pareceu se mover como se estivesse prestes a emitir algum som, mas no conseguiu articular as palavras. Estava visivelmente abalado.
      - Ahm... - Jojo deixou a cabea tombar meio de lado. - Voc precisa de um abrao de consolo? - Ela olhou para o relgio. - Est na hora da nossa reunio semanal. 
Quer que eu o ajude a chegar l? - Ela tentou colocar a mo sobre o ombro dele, mas Richie se esquivou e saiu.
      Durante a reunio, houve muita agitao por conta do contrato de Jojo, o "livro da dcada". Os scios, em especial, estavam muito animados, pois receberiam 
uma porcentagem da comisso, mas at mesmo os agentes comuns pareciam empolgados, com exceo de
      Richie Gant.
      - Com esse j so quantos os "livros da dcada"? - perguntou ele. - Devem ser uns seis.
      Essa observao provocou mal-estar. Todo mundo tinha cime, mas a maioria das pessoas era esperta o bastante para guardar o sentimento apenas para si.
      - Voc no tem esprito esportivo? - protestou Dan Swann.
      - O que vocs esperavam? - protestou Jocelyn Forsyth, com a voz esquisita e meio esganiada. - O cara  um novato. Devamos esporrar esse sujeito para fora 
daqui.
      - Punhetar - sussurrou Jojo, ao sentir o silncio constrangedor que baixou sobre a sala. - Punhetar, no esporrar.
      Sexta-feira  tarde
      A partir das duas e meia, as funcionrias da Lipman Haigh se amontoaram na sala de Jojo. At mesmo Lobelia French e Aurora Hall deixaram o dio por loja de 
lado. Todas traziam meias.de l minsculas, agasalhos cor-de-rosa, macacezinhos jeans e camisetinhas com estampas cintilantes de diversas princesas.
      - Ai, voc no tem vontade de vestir uma roupinha dessas? - suspirou Pam.
      - O tempo todo.
      De repente, Louisa apareceu na porta e sorriu.
      - Oooiiii!!...
      - Seu cabelo - gritou Jojo. Os cabelos sempre curtos de Louise haviam crescido e emolduravam o seu rosto, fazendo-a parecer mais jovem e doce do que Jojo lembrava.
      - Olhem s!... - Louisa indicou a trouxinha que trazia no colo. - Deixem meu cabelo pra l. Que tal isto?
      - Mostre pra gente! - guinchou Pam.
      - Formem fila - ordenou Jojo. - Atrs de mim. Eu comprei o bolo, tenho o direito de ser a primeira. - Oi, lindinha! - Ela se inclinou para beijar Louisa. - 
Meus parabns! Agora, me deixe pegar o beb.
      - Diga "oi" para a titia Jojo - ensinou Louisa, entregando Stella.
      - Uau! - Jojo olhou para o rosto minsculo, as pestanas muito pretas e os olhos azuis que pareciam fora de foco.
      - Ela no  linda? - perguntou Louisa.
      - Linda! E o cheirinho dela  fantstico! - Era um aroma de talco e leite. Alis, Louisa tambm cheirava a talco e leite; logo ela, que costumava trabalhar 
em meio a uma nuvem de Dior.
      - Posso peg-la agora? - implorou Pam.
      - Depois sou eu! - insistiu Olga Fisher.
      Enquanto todo mundo arrulhava em cima de Stella, Manoj distribua bolo e lanava olhares de esguelha para Louisa.
      - Louisa - disse ele de repente, em voz alta. - J que voc est aqui, saiba que no conseguimos encontrar o contrato de Miranda England. Voc faz alguma idia 
de onde ele possa estar?
      - Hein?!... - Louisa sorriu vagamente. - Miranda quem?!...
      - Miranda England. Sabe o ltimo contrato que ela assinou? Voc lembra onde ele foi arquivado?
      - No, no fao idia. - Outro sorriso indefinido.
      E est pouco ligando, percebeu Jojo.
      Nesse instante, Mark entrou e o aglomerado de mulheres se abriu  sua passagem.
      - Parabns! - Ele beijou Louisa e olhou para baixo. - Estou vendo que ela  a cara da me.
      - Quer segur-la no colo?
      Mark, com todo o cuidado, pegou Stella e a acalentou por alguns instantes em seus braos. Em seguida, sorriu e disse baixinho:
      - Ol, princesa!
      Minha nossa. O pedao de bolo que estava a caminho da boca de Jojo ficou parado em pleno ar e depois caiu de volta sobre o prato de papelo.
      - Que gracinha! - exclamou Mark, com carinho, acariciando o rosto de Stella com a ponta do dedo, at que Louisa riu e disse:
      - Detesto ter que estragar esse momento, mas  melhor eu ir andando.
      - Como assim? Voc j vai?!... - todos perguntaram, alarmados.
      - Vim de nibus para poder amament-la no peito, mas se no sair agora eu vou acabar presa no engarrafamento da hora do rush e levarei horas para chegar em 
casa.
      - Fique mais um pouquinho - pediu Olga Fisher.
      - No posso mesmo, gente.
      - Tudo bem. - Relutantes, todos se despediram e voltaram para suas respectivas salas.
      Jojo recolheu os presentes, acompanhou Louisa at o elevador e perguntou, s para ter a chance de receber a pergunta de volta:
      - Voc est bem?
      Louisa exibiu outro daqueles sorrisos de bem-aventurana e disse:
      - Jojo, nunca estive mais feliz em toda a minha vida. Estou totalmente nas nuvens.
      - Eu continuo saindo com Mark.
      - Ele  um homem adorvel. Reparou como foi maravilhoso com Stella?
      Ah. Tudo bem. A reao que Jojo esperava de Louisa no ia acontecer, nem naquele dia nem nunca. Louisa no era a mesma, era outra pessoa, algum encantada 
e cativada por uma trouxinha. C entre ns: todo o tempo em que esteve na sala de Jojo, a nica pessoa
      que Louisa realmente havia fitado olho no olho tinha sido Stella, apesar de o beb mal conseguir enxergar o que havia  sua volta.
      Ela beijou Louisa e aconselhou:
      - Mantenha contato at voltamos a nos ver em... Quando  mesmo que voc volta?... Junho?
      - Humm... Acho que  junho. At l, ento.
      - Puxa! - disse Manoj, atropelando as palavras, ao ver Jojo de volta. - Voc viu s o que aconteceu?
      - No. O que foi?
      - Quando Mark Avery segurou o beb, todas as mulheres fizeram "Ahhhh!...". Elas todas seguram recm-nascidos o tempo todo e ningum fica dizendo" Ahhhh!...". 
Que diabo foi aquilo?
      Jojo o avaliou.
      - Diga-me voc! - Ela queria saber o porqu de a viso de Mark quase babando em cima de Stella acabara com o seu apetite.
      -  bvio!
      - Porque ele pareceu msculo, mas ao mesmo tempo gentil?
      Ele olhou para cima, com ar de impacincia.
      - Nada disso!  porque Mark  o chefe. Todas fizeram aquilo para puxar o saco dele.
      
      Quatro semanas depois
      - Talvez seja melhor voc dar uma olhada nisto aqui. - Pam entregou uma pilha de papis a Jojo. - Acho que so os originais de um livro.
      - Voc acha?
      - ... Parece um monte de e-mails e rascunhos.
      - No-fico?
      - No exatamente. O interessante  que a pessoa que escreveu o material no  a mesma que nos enviou. A autora se chama Gemma Hogan, mas foi Susan, uma amiga 
dela, quem nos mandou tudo para avaliao.
      - Esse tipo de material no tem nada a ver conosco.
      Pam encolheu os ombros e avisou:
      -  melhor voc dar uma olhada. No tenho certeza, mas acho que isso pode resultar num grande livro.
      
     
Lily
      
      Embora eu mesma tenha feito a escolha, nunca vou me perdoar. Sei que isso parece terrivelmente melodramtico, mas  apenas uma declarao sincera. Muitas vezes 
(isso acontece at hoje) eu preferia nunca t-lo conhecido. Aquela foi a coisa mais terrvel que eu fiz em toda a minha vida, e mesmo agora, sabendo que estamos 
juntos e temos Ema, eu muitas vezes me pego no meio de uma tarefa comum, preparando a mamadeira de Ema, lavando o meu cabelo ou fazendo qualquer outra coisa, e percebo 
que continuo  espera de uma catstrofe iminente. Construir a prpria felicidade em cima do sofrimento de outra pessoa no me parece uma boa base para um relacionamento 
estvel e de longo prazo. Anton diz que isso  resqucio de culpa catlica. S que eu no fui criada no catolicismo. Pelo visto, no precisaria ser para sentir isso.
      
     
35
      
      Jornalistas. Em minha curta carreira como entrevistada, conheci dois tipos de jornalistas. Uns exibiam as suas credenciais de profissionais "srios" andando 
pela rua vestidos como mendigos (um visual ao qual eu inadvertidamente aderi, desde que me tornara me). Os outros eram o oposto: pareciam passar a vida toda freqentando 
recepes em embaixadas estrangeiras. A mulher que naquele instante entrava pela minha porta - Martha Hope Jones, do Daily Echo - pertencia  segunda categoria, 
a dos convidados de embaixadas. Usava um terninho vermelho com botes dourados e dragonas franjadas nos ombros, alm de sapatos altssimos no mesmo tom da roupa. 
Eu me perguntei como ser que ela conseguia aquilo. Talvez tivesse procurado uma daquelas empresas que organizam casamentos e tingem os sapatos das damas de honra 
exatamente com a mesma cor dos vestidos. No que eu conhecesse muito sobre esse assunto.
      - Seja bem-vinda  minha humilde morada - disse e quase mordi a lngua, na mesma hora. No queria destacar o quanto a minha casa era humilde: um quarto-e-sala 
de conjunto residencial onde morvamos Anton, Ema e eu.
      Quando Otalie, a minha consultora publicitria na Dalkin Emery, marcou aquela entrevista, eu implorei para me encontrar com Martha num hotel, num bar, num 
ponto de nibus - qualquer lugar, menos ali. O problema  que se tratava de uma entrevista do tipo "fulano em sua casa" e eu no tive escolha.
      - Que delcia de lugar! - declarou Martha, enfiando o nariz na porta da cozinha e reparando nos dois varais carregados de roupas que se recusavam terminantemente 
a secar.
      - Puxa, no era para voc entrar a! - Fiquei vermelha de vergonha. - Finja que no viu.
      Mas Martha j pegara a bolsa (do mesmo tom exato de vermelho dos sapatos), puxara um bloquinho l de dentro e escrevera alguma coisa nele. Tentei ler de cabea 
para baixo e me pareceu que uma das palavras era "chiqueiro".
      Eu a conduzi  sala de estar, que Anton - graas a Deus - havia arrumado. Bem, na verdade, ele empilhara quarenta ou cinqenta dos bichinhos de pelcia de 
Ema em um canto e em seguida usara uma lata inteira de aromatizador de ambientes com cheiro de pssego em toda a casa, para disfarar o fedor de roupa mofada.
      Martha se atirou no sof e um centsimo de segundo depois gritou "Ai, meu Cristo!", pondo-se novamente em p rapidinho, como se pelo efeito de uma mola. Ns 
duas rimos ao ver a pecinha de Lego que fora a causadora do doloroso amassado na lataria traseira de
      Martha.
      - Desculpe,  da minha garotinha...
      Martha escreveu mais alguma coisa no bloquinho.
      - Voc no usa um gravador? - perguntei.
      - No. Acho que com o bloquinho a coisa fica mais ntima. - Ela brandiu a caneta com um sorriso. Claro que sim, sem falar na sua liberdade para distorcer minhas 
palavras o quanto quisesse.
      - Onde est a sua filhinha? - Ela olhou em volta da sala.
      - Foi para o playground com o pai. - Onde, alis, eles iam brincar nos balancinhos at eu ligar e avisar que o caminho estava livre. Eu no poderia envolv-los 
naquilo.
      Martha aceitou o ch, recusou os biscoitos e ento a entrevista comeou:
      - Ora, ora!... Voc melhorou muito de vida, no  mesmo?
      Hein?... - Seus olhos pareciam pequenas bolas de gude, s que muito mais brilhantes e vidos. - Voc e o seu As Poes de Mimi?
      Do jeito que ela falou, parecia que eu havia aplicado um golpe em milhares de leitores crdulos. O pior  que eu no fazia a menor idia de como responder 
quilo. "Sim, eu me dei muito bem, obrigada"?
      Ser que eu no iria parecer arrogante? Do mesmo modo, se eu encolhesse os ombros e dissesse "Meu livro no  nada de especial, eu no descobri a cura do cncer", 
ser que ela fecharia o bloquinho e iria embora na mesma hora?
      - Eu li parte da sua biografia, mas tenho certeza de que voc j sabe que os perfis dos entrevistados que Martha Hope Jones cria passam longe do trabalho dos 
reprteres comuns e sensacionalistas. Prefiro comear do nada e ir obtendo uma viso clara, at conhecer quem Lily realmente  e descobrir sua verdadeira personalidade.
      Ela fez um gesto de escavar com a mo e eu concordei com tudo, meio desconfiada.  claro que eu no queria que ela descobrisse a verdadeira Lily.
      - Voc no foi sempre uma escritora, certo, Lily?
      - No. At dois anos atrs eu trabalhava na rea de relaes pblicas.
      -  mesmo?! A cara de surpresa que ela fez foi um insulto, embora eu soubesse que no parecia nem um pouco com a tpica imagem de quem trabalha com RP.
      Gente dinmica, que pensa rpido, constri imagens positivas e defende pessoas ou instituies com unhas e dentes. Pessoas que devem transmitir a sensao 
de dinamismo, pensamento rpido e positividade; sempre de terno, cabelo de quem acabou de sair do salo e maquiagem feita por um profissional. O problema era que, 
mesmo no auge do meu modesto sucesso, a bainha das minhas saias sempre se descosturava sozinha de modo misterioso e meus cabelos compridos e louros sempre se soltavam 
do coque e caam dentro do caf no meio de reunies importantes. (Alis, esse foi o motivo de meu gerente parar de me convidar para reunies com novos clientes. 
Ele mentia para eles, dizendo sempre que eu estava na fisioterapia.)
      - Em que rea de construo de imagens voc atuava? - quis saber Martha, intrigada. - Cantores de um sucesso s? Atores de novela decadentes?
      - No, nada assim to importante. - Juro que eu no tentei ser engraada.
      Construo de imagem , na verdade, uma tentativa de fazer com que cantores/atores/modelos sem talento, desajeitados e malvestidos alcancem as pginas de jornais 
ou revistas. Se fosse s isso...! Trabalhar com relaes pblicas tambm significa vender leite em p para africanos pobres, insistindo que aquilo  melhor para 
os bebs
      que leite materno.  a pessoa encarregada das relaes pblicas de um fabricante de cigarros que informa aos governos fracos que uma populao de fumantes 
 uma boa estratgia econmica, pois todo mundo morre antes de alcanar a terceira idade e precisar de aposentadorias e cuidados geritricos.  um comunicado  imprensa 
escrito por um relaes-pblicas talentoso que consegue convencer uma comunidade que no importa se o seu abastecimento de gua est sendo envenenado pelos dejetos 
qumicos de uma fbrica, porque ela est trazendo novos empregos para a regio.
      Propaganda e propinas para polticos s vo at um determinado ponto. Na hora de a ona beber gua e o indefensvel precisar de defesa era sempre eu que aparecia 
para resgat-los com meus comunicados  imprensa.
      Minha solidariedade para com pessoas prestes a abrigar imensos depsitos de lixo txico nos arredores da cidade ou uma rodovia movimentada passando atrs do 
quintal de casa era sincera. Como resultado disso, meus comunicados transmitiam convico; para minha vergonha, eu era muito boa no meu trabalho e inmeras vezes 
eu sonhava com um ou outro artista que simplesmente precisasse de uma levantada na carreira.
      - Ento voc trabalhava na rea de relaes pblicas. - A caneta de Martha fazia hora extra rabiscando loucamente no bloquinho sem ao menos levantar do papel. 
- Onde voc morava?
      - Dublin, no incio, mas depois me mudei para Londres.
      - O que foi fazer na Irlanda?
      - Minha me foi morar l quando fiz vinte anos e eu fui com ela.
      - E agora resolveu voltar para a Inglaterra? O que houve?
      - Cortes nas despesas. Eu fui demitida.
      A culpa disso foi minha. Fiz um trabalho to espetacular em duas campanhas gigantescas que as duas empresas envolvidas conseguiram o que queriam e minha firma 
perdeu seus dois clientes mais lucrativos. Isso coincidiu com uma diminuio de empregos na rea
      de relaes pblicas na Irlanda, e eu no consegui trabalho. Para ser franca, eu me senti incrivelmente aliviada. Trabalhar naquela rea me deixava muito deprimida.
      - Minha me voltou a morar na Inglaterra, ento eu vim tambm. Comecei a trabalhar como freelance e... - parei de falar.
      - E ento foi assaltada - incentivou Martha.
      - . E ento fui assaltada.
      - Voc conseguiria me falar um pouco a respeito disso? - perguntou Martha, apertando a minha mo com a dela, sua voz assumindo um repentino e novelesco tom 
de "eu me importo com voc".
      Fiz que sim com a cabea. No que eu tivesse dvidas. Se eu evitasse falar sobre a nica parte realmente dramtica da minha histria, no haveria entrevista, 
muito menos uma reportagem de duas pginas em cores no quarto jornal mais vendido da Gr-Bretanha.
      Descrevi tudo em poucas palavras, deixando de fora o mximo que consegui e correndo para o final, a parte em que o cara me empurrou no cho e fugiu com minha 
bolsa.
      - Ele foi embora achando que voc estava morta? - Martha rabiscava furiosamente no bloquinho.
      - Ahn... No. Eu desmaiei, mas acordei logo, levantei e fui para casa.
      - Sim, mas voc poderia estar morta - insistiu Martha. - Como  que ele podia saber ao certo?
      - Talvez. - Eu encolhi os ombros, relutando em concordar.
      - E, embora as feridas fsicas fossem curando aos poucos, as cicatrizes psicolgicas permaneceram, certo?
      Engoli em seco.
      - Eu me senti abalada.
      - Abalada? Voc deve ter ficado arrasada. Terrivelmente traumatizada! No ficou?
      Concordei de forma obediente e com ar cansado.
      - O estresse ps-traumtico tomou conta de tudo. - Martha escrevia cada vez mais rpido. - Voc no conseguiu mais sair para trabalhar, no foi?
      - Bem, eu trabalhava como freelance na poca...
      - Mas mal conseguia colocar a cara na rua...
      - Bem, eu conseguia...
      - E deixou de tomar banho? Deixou de se alimentar?
      - Mas eu...
      - Simplesmente no conseguia ver sentido em mais nada em sua vida.
      Parei para pensar. Soltei o ar e tentei mais uma vez:
      - s vezes eu me sentia assim, mas nem sempre eu...
      - E foi nesse lugar sombrio e solitrio que voc divisou um tnue ponto luminoso. Foi como uma viso que a levou a se sentar e escrever As Poes de Mimi.
      Outra pausa e eu acabei desistindo.
      - , foi mais ou menos isso. - Ela no precisava de mim para escrever aquela parte.
      - Ento uma agente a aceitou, lhe conseguiu uma editora e pronto! Voc virou um sucesso da noite para o dia!
      - No exatamente. Eu j vinha escrevendo havia cinco anos, em meu tempo livre, e j conseguira at terminar meu primeiro romance, mas ningum o queria...
      - Quantos exemplares de As Poes de Mimi foram vendidos at agora?
      - Os ltimos nmeros esto na casa dos 150.000. Pelo menos esse  o total que saiu da grfica.
      - Ora, ora... - Martha se maravilhou. - Quase um quarto de milho.
      - No, so s...
      - Aproximadamente,  claro. - Seu sorriso de tubaro no admitia argumentos. - E voc escreveu o livro em um ms.
      - Dois meses.
      - Dois? - Ela pareceu desapontada.
      - Isso  muito rpido para um livro. Levei mais de cinco anos para escrever meu primeiro romance, que ainda no foi publicado.
      - E voc tem seguidores devotados, segundo me contaram.  verdade que alguns dos seus fs formaram grupos de leitura em sua homenagem e se auto denominam "bruxos"?
      Bem, eu ouvira que um grupo de zuretas em Wiltshire, cansados de bancar os druidas, havia realmente feito isso. Provavelmente os mantos brancos de druidas 
eram mais difceis de manter limpos do que as roupas escuras de bruxos. De qualquer modo, concordei. Sim, eles se diziam bruxos.
      Subitamente, a Dama de Vermelho mudou de ttica:
      - Apesar disso, os crticos nem sempre foram muito gentis com voc, certo, Lily?
      Ela estava fazendo a mesma cara de falsa solidariedade. Eu preferia ser esmagada por um rolo compressor.
      - Quem se importa com a opinio dos crticos? - afirmei, com ar resoluto. Na verdade, eu me importava. E muito. Sabia de cor pargrafos inteiros das resenhas 
brutais que haviam sado depois que os exemplares de As Poes de Mimi comearam a vender mais que banana em fim de feira, levados pela divulgao boca a boca. Quando 
o livro foi lanado e ningum levava f que ele fosse vender mais de dois mil exemplares, uma resenha elogiosa em estilo "prmio de consolao" apareceu no Irish 
Times e me amaldioou com um monte de falsos elogios. O sucesso comercial, porm, motivou uma sbita liberao de veneno por parte das colunas literrias. O Independent 
o chamou de...
      - Algodo-doce para o crebro - disse Martha.
      - Sim - concordei, com humildade. Eu sabia de cor o texto inteiro. Esse romance de estria  um ridculo subproduto da atual onda de textos que tentam apelar 
para a sensibilidade. Uma "fbula" que fala de uma bruxa do bem, a Mimi do ttulo, que chega inesperadamente a uma vila pitoresca e monta uma loja para fornecer 
poes mgicas para os habitantes e suas vrias neuroses.
      - E o Observer disse que...
      - " to doce que pode provocar cries nos leitores" - eu terminei por ela. Eu tinha lido. Na verdade, poderia recitar a resenha toda, de ponta a ponta. - 
Por favor - pedi. - Eu escrevi o livro s para me animar. Como poderia imaginar que algum iria querer publicar? Se no fosse por Anton, eu nunca o teria mandado 
para Jojo.
      A caneta de Martha adquiriu mais velocidade.
      - Como voc conheceu Anton, o seu marido?
      - Ainda no nos casamos. - Jornalistas distorciam tudo de qualquer jeito, mas eu precisava, ao menos, tentar mostrar tudo s claras. Odiava ler entrevistas 
cheias de fatos imprecisos a meu respeito porque me preocupava com as pessoas poderem achar que eu estava mentindo (em estilo "J fumei maconha, mas nunca traguei","Lutei 
no Vietn", et).
      - Como voc conheceu o seu fianc, Anton?
      - Trabalhvamos juntos - expliquei, torcendo para ela no me pedir para exibir um anel de noivado.
      Martha me olhou fixamente.
      - Mas vocs vo se casar?
      Fiz alguns rudos vagamente positivos, mas a verdade  que fazia pouca diferena, para mim, se amos nos casar ou no. Em contrapartida, meus pais so grandes 
partidrios da instituio do casamento. Gostam tanto da idia que fazem isso o tempo todo; mame j se casou duas vezes e papai, trs. Tenho tantas meias-irms 
e meios-irmos que uma reunio de famlia iria parecer um dos ltimos episdios de Dallas.
      - Onde voc conheceu Anton? - Martha tornou a perguntar.
      Qual seria a melhor resposta para isso?
      - Eu o conheci por meio de uma amiga em comum.
      - E essa amiga em comum gostaria de ter o nome publicado? - Os olhos dela brilharam.
      - Ahn, no. - Acho que ela no iria querer no.
      - Oh. Tem certeza?
      - Tenho. Obrigada, mesmo assim.
      Martha se mostrou alerta, pois sabia que por trs disso havia alguma coisa e eu tive uma sensao estranha, como se tivesse engolido gelo. Eu odiava, odiava, 
odiava dar entrevistas. Ficava aterrorizada de descobrirem coisas do meu passado e, se aquele nvel de invaso em minha vida continuasse, era exatamente o que iria 
acontecer.
      Mas ela deixou o assunto morrer. Ao menos por ora.
      - Em que Anton trabalha?
      Outra pergunta perigosa.
      - Ele e o seu scio, Mikey, dirigem uma produtora chamada Eye-Kon. Foram eles que fizeram O ltimo a Tombar para a Sky Digital.  um reality show, j ouviu 
falar? - perguntei, esperanosa.
      S que ela nunca ouvira falar. Ela e outros sessenta milhes.
      - No momento eles esto planejando um especial de uma hora e meia para a BBC e o Channel Five. ("Especial de uma hora e meia" significava um filme feito diretamente 
para a tev, s que "especial de uma hora e meia" soava muito melhor.)
      S que Martha no estava interessada nos altos e baixos da carreira de Anton. Bem, pelo menos eu tentara com vontade.
      - Tudo bem, acho que j temos muito material para o artigo. - Ela fechou o bloquinho e correu para o banheiro. Enquanto ela estava fora da sala, eu dei uma 
repassada em tudo o que contara e o que no contara e tentei lembrar se havia toalhas limpas no banheiro.
      Eu a acompanhei at o porto da rua no primeiro andar e passamos pela porta de Paddy Porra-Louca, que morava no trreo. Torci para ele no aparecer no corredor, 
mas  claro que foi exatamente o que aconteceu, pois ele no perdia nada do que rolava no prdio e adorava se divertir. Pelo menos ele no era agressivo e dei graas 
a Deus por isso. Para ser franca, ele pareceu muito alegre, pois elogiou Martha e suas roupas chamativas em carmesim e declarou:
      - Uau! Est vindo inspirao para uma cano.
      - "A Dama de Vermelho." - Martha balanou a cabea, com ar bem-humorado. - Isso acontece muito comigo.
      Mas, em vez de concordar, Paddy Porra-Louca comeou a cantar:
      - Botei meu SAPATINHO... Na janela do QUINTAL...
      Tarde demais eu reconheci a melodia e minha cabea acompanhou a letra, cantando mentalmente. "Papai Noel deixou meu presente de NATAL."
      - Ignore-o. - Eu sorri para ela toda alegrinha e apertei sua mo. - Obrigada por vir  minha casa.
      - ...Como  que Papai Noel...
      - A equipe de imagens vai mandar algum para tirar fotos suas.
      - ... No se esquece de ningum...
      - Foi um prazer conhecer voc. - Ela me lanou um sorriso sombrio.
      - ... Seja rico ou seja pobre...
      - Obrigada, at logo.
      - ... O VELHINHO SEMPRE VEM.
      
      Assim que ela saiu, voltei para casa, respirei fundo algumas vezes e liguei para o celular de Anton.
      - A barra est limpa, pode voltar para casa.
      - Estou indo, amorzinho.
      Dez minutos depois, ele entrou meio torto pela porta, em meio a joelhos e cotovelos. A pequena Ema dormia a sono solto, pendurada no colo do pai. Entre sussurros, 
ele a colocou em seu bero e fechou a porta do quarto devagarzinho.
      Ao chegar  cozinha, Anton tirou o casaco. Por baixo, ele usava um suter de cashmere cor-de-rosa que papai mandara, para o caso de eu ser convidada para o 
programa de entrevistas do Graham Norton. (Papai no vive exatamente em um mundo de fantasia, mas  um visitante assduo.) O suter era muito curto e apertado para 
Anton, e revelava uns quinze centmetros de barriguinha sarada e uma linha de plos pretos que desciam a partir do seu umbigo. Cody certa vez descrevera Anton como 
o homem mais malvestido que j conhecera, mas eu no concordava tanto assim com isso. Rosa era definitivamente a cor em que ele ficava melhor.
      - Essa roupa aqui  sua. - Ele puxou a ponta do suter com ar de surpresa. - Desculpe, amorzinho, mas eu me vesti correndo e pensei que essa aqui fosse uma 
daquelas minhas roupas que encolheram. E, ento, como foram as coisas com a sua visita?
      - No sei dizer ao certo. Talvez no muito mal, pelo menos at ela se encontrar com Paddy Porra-Louca.
      - Ca-ra-ca! De novo? O que houve dessa vez? Ele a convidou para sair?
      - No, ele cantou "O Bom Velhinho" para ela.
      - Mas ainda estamos em abril.
      -  que ela veio toda vestida de vermelho.
      - Mas estava de barba branca?
      - No.
      - Precisamos nos mudar daqui. Sobrou algum biscoito?
      - Sobraram todos.
      - Eu no entendo isso...
      - Nem eu. - A primeira entrevista importante que eu dei me deixou morrendo de vergonha, pois todo mundo ficou sabendo que eu oferecera apenas ch ou caf e 
nada de biscoitos. Desde ento, em uma tentativa tardia de me recobrar, comprvamos os biscoitos mais
      caros que encontrvamos cada vez que um jornalista aparecia, mas nenhum deles comia nada.
      
     
36
      
      Falando de Anton... A coisa mais importante, e isso deve ficar bem claro,  que eu no sou uma mulher sedutora. Para ser franca, sou a menos fatale das femmes. 
Se houvesse uma competio disso, eu acabaria em ltimo lugar, ou ento uma nova categoria teria de ser inventada especialmente para mim.
      Vou lhes contar a histria sucinta de como tudo aconteceu. Eu fui criada em Londres e, depois de vrios anos de tormento, meus pais acabaram se separando, 
Eu tinha quatorze anos. No ano em que eu completei vinte, a minha me se casou com um irlands do tipo "boal, mas gente fina" e resolveu ir morar com ele em Dublin.
      Embora eu j tivesse idade suficiente para morar sozinha, tambm fui para Dublin e acabei fazendo vrias amizades, sendo que uma das minhas melhores amigas 
era Gemma. Depois de viver  custa de mame e seu namorado, Peter, por um ano e pouco, eu me organizei, consegui um diploma em comunicao social e arranjei um emprego 
fazendo comunicados de imprensa para a Mulligan Taney, a maior empresa de relaes pblicas da Irlanda. S que, depois de trabalhar para eles por cinco anos, perdi 
o emprego e no consegui outro. Isso foi mais ou menos na poca em que mame e Peter se separaram.
      Mame voltou para Londres e eu - como uma sombra maligna - a segui. Embora eu no curtisse muito, consegui algum trabalho como freelancer, escrevendo comunicados 
para a mdia, mas vivia dura e no dava para bancar viagens semanais a Dublin, a fim de rever meus amigos. Logo depois de eu voltar para Londres, Gemma conheceu 
Anton; embora ela me visitasse de vez em quando, Anton vivia sem grana e nunca viajava com ela.
      Portanto, eu nunca o conheci pessoalmente, at ele abandonar Gemma com o corao partido, em Dublin, e vir para Londres, a fim de montar uma produtora de filmes 
independente. (Ele e Mikey estavam de saco cheio de fazer anncios pouco criativos na segurana de seu estdio e queriam passar a trabalhar para a tev; essa seria 
uma meta muito mais fcil de alcanar em Londres do que em Dublin, ou pelo menos foi o que eles imaginaram.)
      A verso da histria que Anton me contou era a de que o seu relacionamento de um ano com Gemma acabara; ela, por sua vez, me dissera que eles estavam s dando 
um tempo e que Anton simplesmente ainda no se dera conta disso. Chorando baixinho ao telefone, ela me contou que "ia esperar dois meses, pois nesse perodo de tempo 
ele perceberia que ainda a amava e voltaria para ela".
      Entretanto, ela sentiu medo de ele poder se distrair com alguma garota de Londres e, como eu estava in situ, era a pessoa ideal para funcionar como sua "espi 
de campo". Minha misso era fazer amizade com Anton, colar nele e, se o visse paquerar algum do sexo feminino, devia "enfiar um compasso no seu olho" ou "jogar 
cido no rosto da garota".
      Aceitei e prometi agir assim, mas, para minha eterna desgraa, no fiz nenhuma das duas coisas. Eu gostava muito de Gemma, ela confiara Anton, a coisa mais 
preciosa da sua vida, a mim, e eu lhe retribu tudo isso traindo-a.
      Foi quase como se Gemma tivesse um pressentimento, porque em um dos seus telefonemas ela me disse, em um tom de quem pede desculpas:
      - Sei que eu sou neurtica, ciumenta e preciso de algum na cola de Anton, mas, por favor, no fique muito amiga dele. Voc  muito bonita, entende?
      - S se ele gosta de garotas que esto ficando carecas... (Meu cabelo  to ralo que o rosado da pele da cabea s vezes aparece. Muitas mulheres afirmam que 
se ganhassem na loteria iriam colocar
      silicone nos seios e dar uma levantada no bumbum. Eu faria um transplante de cabelo, mesmo correndo o risco de ter uma infeco, como aconteceu, segundo os 
boatos, com Burt Reynolds.)
      - Nunca se sabe, talvez ele curta uma daquelas mulheres de cabea raspada. Eu j at imagino a cena: vocs dois passeando por todo lado, andando de patins, 
tirando fotos em Trafalgar Square, no
      Big Ben, no Palcio de Buckingham, em... - Gemma hesitou.
      - Carnaby Street - ajudei. - Iremos at l em um nibus vermelho de dois andares.
      - Sim, isso mesmo, obrigada. Ento  isso... Vo entrar numa de curtir uma diverso platnica. At que um dia vai cair um cisco no seu olho, que ele vai ajud-la 
a tirar, e ento... Opa! Vocs ficaro
      em p, um de frente para o outro, perto o bastante para curtir um amasso, e percebero que a atrao vinha esquentando em fogo lento e vocs j estavam apaixonados 
um pelo outro havia um tempo sem perceberem.
      Prometi a Gemma que ela no precisava se preocupar e, de certa forma, cumpri minha palavra. No houve fogo brando nem lance de tirar cisco do olho. Em compensao, 
eu me apaixonei por Anton na primeira vez em que o vi. Se bem que eu me lembro de Gemma descrever a primeira vez em que o viu e descobrir que Anton era "o homem 
da vida dela". Ele j deve at ter se habituado a ouvir isso.
      S que tudo o que eu estou contando ainda estava muito  frente e eu no fazia a menor idia de que tal coisa pudesse acontecer quando, dois dias depois, Anton 
chegou em Londres. Eu peguei o telefone para ligar para seu apartamento em Vauxhall, a fim de saber se ele j se instalara, esse tipo de coisa. Tinha uma misso 
a cumprir, mas qual era a melhor forma de ficar de olho nele? Eu poderia me instalar dentro do carro, de tocaia, na porta do seu prdio, s que no queria fazer 
isso. Um encontro preliminar de boas-vindas, batendo papo e bebendo alguma coisa seria o melhor, decidi. Dependendo de como fossem as coisas, eu poderia apresent-lo 
a outras pessoas que dividiriam comigo a misso de monitor-lo.
      Combinamos de nos encontrar s sete horas da noite de uma quinta-feira na entrada da estao do metr em Haverstock Hill. Eu morava em um conjugado alugado 
ali perto, em Gospel Oak, e dava para ir a p.
      Conforme eu subia a rua rumo  estao, o ar me pareceu cintilante, muito claro e com cheiro de grama; era o friozinho gostoso do outono chegando. Os dias 
gloriosos e cintilantes de agosto haviam cedido lugar quela luz azul-claro, meio acinzentada; o fedor das caambas de lixo aqueci das fora substitudo pelo aroma 
almiscarado das folhas douradas e uma recente pancada de chuva havia limpado o resto da poeira do vero. Eu me sentia mais tranqila agora que era outono. Conseguia 
respirar novamente. At que percebi que, com minha tpica falta de organizao, eu no sabia como Anton era. Tudo que eu tinha para me orientar eram as palavras 
de Gemma, que sempre o descrevia como "lindo, um pedao de mau caminho, o gato dos gatos". S que s vezes o "gato" de uma mulher pode ser o famoso "nem que ele 
fosse o ltimo homem da face da Terra" para
      outra. Sua burra, eu me xinguei, estreitando os olhos na direo da estao ainda distante e torcendo para no haver muitos homens bonitos no pedao. (S esse 
pensamento j prova que eu no estava em meu normal e seguia clere rumo a algum tipo de loucura.)
      Mas, enquanto meus olhos procuravam, percebi que algum junto  entrada da estao me observava. Na mesma hora eu soube. Tive certeza de que era ele.
      No tropecei nos prprios ps, fisicamente falando, mas senti como se isso tivesse acontecido. Em estado de choque, todos os meus pensamentos deram pulos no 
crebro e se rearrumaram; em um
      segundo, tudo mudara em minha vida. Sei que parece absurdo, mas juro que  verdade.
      Poderia ter parado. Na mesma hora, percebi que deveria dar meia-volta e apagar o futuro, mas continuei em frente, colocando um p  frente do outro, de forma 
mecnica, como se um fio invisvel me carregasse at ele. Senti uma clareza, uma espcie de medo e um senso do inevitvel que eu no conseguia ignorar.
      Cada vez que eu respirava, o ar ecoava, parecia aumentar e diminuir, como se eu estivesse usando equipamento de mergulho, e conforme fui chegando mais perto 
eu me obriguei a desviar os olhos
      dele. Foquei a calada - os bilhetes de metr usados, as pontas de cigarros esmagadas, as latas de Coca amassadas - at me ver diante dele.
      Suas primeiras palavras foram:
      - Reconheci voc a quilmetros de distncia. Percebi de cara que s podia ser voc. - Pegou uma das pontas do meu cabelo.
      - Eu tambm sabia que era voc.
      Enquanto multides passavam agitadas por ns, entrando e saindo da estao como em um filme acelerado, Anton e eu permanecemos imveis como esttuas, seus 
olhos nos meus e suas mos em meus braos, completando o crculo mgico.
      
      Fomos a um dos pubs ali perto, onde ele me acomodou em um banco e perguntou:
      - Quer beber alguma coisa?
      Seu sotaque suave e melodioso me fez lembrar a brisa agitada da beira do mar, com atmosfera enevoada e cheirinho de mato. Ele era de Donegal, a noroeste da 
Irlanda; mais tarde, eu descobri que todo mundo da regio fala assim.
      - Quero Aqua Libra - respondi, temerosa de pedir alguma coisa com lcool porque o que eu sentia por dentro j era suficientemente incendirio. Ele se inclinou 
sobre o balco, puxando assunto com o atendente, e eu, terrivelmente confusa, cataloguei tudo o que via. Ele era alto, esbelto, com o corpo anguloso nos lugares 
certos e parecia to magro que a parte de trs da cala no se agarrava ao traseiro; sua camisa era uma declarao colorida e brilhante, no exatamente em estilo 
havaiano, mas perigosamente prximo. Um geek. Foi assim que Cody o descrevera uma vez... Seus cabelos pretos eram muito lisos, sedosos, e ele era dono de um sorriso 
maravilhoso, mas, na verdade, o que rolava ali tinha pouco a ver com aparncia.
      Ele voltou com as bebidas e se inclinou na minha direo, com os olhos brilhando de prazer. Ia dizer algo simptico. Eu pressenti isso, fui mais rpida e falei 
a primeira coisa neutra que me veio  cabea:
      - O seu apartamento em Vauxhall tem microondas?
      - Tem, sim - disse ele, com um tom gentil. - Tem tambm uma geladeira dplex, um fogo, uma chaleira, uma torradeira e uma coifa. Isso tudo s na cozinha.
      Eu perguntei vrias outras coisas, hesitante, cada uma mais sem noo que a outra. Ele estava gostando de Londres? Seu apartamento ficava perto do metr? Com 
ar solene, ele me respondeu a todas elas.
      As verdadeiras perguntas, porm, estavam sendo feitas mentalmente a mim mesma. Eu analisava o rosto de Anton e me perguntava: O que est rolando aqui? O que 
 que ele tem que me faz sentir desse jeito?
      Talvez fosse o fato de ele me parecer a pessoa mais vigorosamente viva que eu j conhecera. Seus olhos cintilavam e, a cada sorriso, gargalhada ou franzir 
de olhos, todo o contedo da sua mente aparecia cintilando no rosto muito expressivo.
      Cada novo detalhe que eu descobria me afetava - o comprimento dos seus dedos com ns largos, to diferentes dos meus... As protuberncias dos ossos do pulso 
dele me encheram com uma admirao quase insuportvel. Eu queria embalar toda a fragilidade daquele homem, absolutamente incompatvel com um corpo to alto e vigoroso, 
e chorar de emoo.
      Mas havia um assunto no qual ainda no havamos tocado e, quanto mais o papo seguia, mais a omisso se tornava quase fsica. No fim, fui eu quem fez o saque, 
mandando uma bola alta que aterrissou no outro lado da quadra com a fora de uma granada.
      - Como est Gemma?
      Eu no podia deixar de perguntar aquilo. Ela fora a catalisadora do nosso encontro e no havia como fingir que no era bem assim.
      Anton olhou para o cho e ento levantou a cabea. - Ela est levando a vida... - Seus olhos pareciam pedir desculpas.
      - Eu no a mereo e vivo dizendo isso a ela.
      Concordei com a cabea, tomei mais um gole da minha bebida, mas senti a cabea esvaziar e uma nusea insuportvel me subiu por dentro. Com as pernas completamente 
bambas, consegui ir at o toalete feminino, tranquei depressa a porta do reservado e vomitei, vomitei sem parar, at no ficar mais nada no estmago, a no ser bile.
      Sa meio zonza, deixei escorrer gua bem gelada em meus pulsos e olhei o meu reflexo. Que diabos estava acontecendo?
      Escrito de forma direta, o fato de me apaixonar por Anton me deixara enjoada. S conseguia pensar em Gemma. Eu adorava Gemma; Gemma adorava Anton.
      Voltei para o salo, fui at onde ele estava e avisei:
      - Preciso ir embora, agora.
      - Eu sei. - Ele compreendeu.
      Levou-me at a porta e disse:
      - Eu telefono para voc amanh. - Ento tocou as pontas dos meus dedos com as dele.
      - At mais... - Subi correndo as escadas que levavam ao santurio do meu apartamento, porm, mesmo depois de entrar, no me senti melhor. Andei de um lado 
para outro a esmo, com uma profunda tristeza e o poder de concentrao completamente destrudo.
      Tudo que passava na tev me deixava irritada, o livro que eu estava lendo no me atraa, eu precisava conversar com algum... Mas quem? Quase todas as minhas 
amigas tambm eram amigas de Gemma. Jessie, minha irm, estava viajando por todo o mundo em companhia do namorado, Julian; o ltimo carto-postal que eu recebera 
deles viera do Chile.
      Quem sabe a minha me...? No, ela continuava evitando as minhas ligaes pelo identificador de chamadas. Eu desconfiava que ela preferia no falar comigo, 
para o caso de eu pedir para ir morar novamente com ela. Quanto a papai, ele acreditava que nem o prprio Deus seria bom o bastante para mim, o que dir um namorado 
de segunda mo vindo de Gemma. Dele eu no conseguiria solidariedade alguma. Estava to desesperada que pensei at mesmo em telefonar
      para o CW.
      Amor  primeira vista no era para ser daquele jeito - alis, s mesmo pessoas absurdamente romnticas poderiam acreditar que aquilo existisse. Certamente 
todo mundo entendia o teso instantneo. Mas assim,  primeira vista, uma mulher no poderia saber nada a respeito da capacidade de um homem de olhar para outras 
mulheres em um restaurante e depois negar tudo de ps juntos. Ou se recusar a entrar em um carro que voc estivesse dirigindo. Ou prometer
      apanh-la  sete e meia e aparecer s s vinte para as dez, fedendo a Jack Daniels e perfume Jo Malone (usado por outra pessoa).
      Porm, apesar de tudo, eu sempre achei que existia amor  primeira vista, embora soubesse que isso  to esquisito quanto acreditar em polticos honestos. 
Eu curtia histrias de amor  primeira
      vista como se elas fossem jias preciosas. Quando trabalhava para a Mulligan Taney, conheci um sujeito - um importante empresrio que tinha o poder de contratar 
e demitir quem bem quisesse - e ele me contou que j estava quase noivo de uma jovem quando encontrou "o amor da sua vida".
      - Assim que eu a vi do outro lado da sala, eu soube. - Essas foram exatamente as suas palavras.
      (Para ser franca, no fao a menor idia de como ns dois fomos falar de um assunto desses. Naquela poca, fazamos reunies para descobrir qual a melhor maneira 
de convencer uma pequena comunidade de que eles no precisavam ter medo das toxinas cancergenas que a fbrica do tal empresrio pretendia despejar no reservatrio 
de gua que servia  populao.)
      Por tudo isso, foi uma surpresa desagradvel descobrir que, ao contrrio das expectativas alardeadas, uma paixo  primeira vista no era uma curtio. Em 
vez de a minha vida simplesmente se encaixar inteirinha no lugar e se completar em jubilosa totalidade, foi como se ela levasse uma cacetada que a tirou do prumo.
      Mesmo sem Gemma, a situao j seria confusa. Com Gemma, ento...
      Fiquei deitada no sof, como se estivesse em terapia, e tentei lembrar tudo o que ela dissera a respeito de Anton: que ele era bom de cama e tinha um pinto 
grande, mas isso j era de imaginar. Ela nunca mencionou que ele era o tipo de homem pelo qual toda mulher se apaixona. Um Warren Beatty irlands que seduzia sem 
esforo todas em seu caminho. Eu sempre detestei homens assim e detestava ainda mais o jeito como as mulheres se lanavam aos ps deles, implorando por ateno. 
Recusava-me a ser mais uma mulher desorientada caindo de quatro por Anton como um domin descerebrado; simplesmente esse no era o meu estilo. (Pelo menos, eu esperava 
que no.)
      Ento, lenta e deliberadamente, eu me preparei para lacrar o corao e resistir. No tornaria a encontr-lo. Aquele era o melhor caminho e eu me senti melhor 
assim que tomei a deciso. Desolada, mas melhor.
      Acabara de conseguir me acalmar o bastante para me concentrar no filme da tev quando o telefone tocou. Eu olhei para o aparelho com medo, como se ele fosse 
uma bomba-relgio. Ser que era ele?
      Provavelmente sim. A secretria eletrnica atendeu e eu quase vomitei pela segunda vez naquela noite quando ouvi a voz de Gemma:
      - Estou ligando s para saber como anda a misso.
      Ignore-a, ignore-a.
      - Por favor, Lily, por favorzinho, me ligue no instante em que colocar os ps em casa, no importa a hora. Estou enlouquecendo aqui
      Eu atendi. Como poderia evitar?
      - Oi, sou eu.
      - Nossa, voc voltou cedo para casa. Conheceu Anton? Ele falou de mim? O que foi que ele disse?
      - Que voc  boa demais para ele.
      - R! Isso ele pode esquecer, pois quem julga sou eu. Quando vocs vo tornar a se encontrar?
      - No sei. Gemma, isso no  maluquice, eu ficar espionando a vida dele? E se...
      - No, no . Voc precisa se encontrar com ele! Preciso saber o que ele anda aprontando. Voc promete que faz isso?
      Silncio.
      - Promete?
      - Tudo bem, eu prometo - garanti, com ar alegre.
      Senti desprezo por mim mesma.
      
      Mantendo a palavra, Anton me ligou e a primeira coisa que disse foi:
      - Quando vou ver voc novamente?
      Minhas mos ficaram pegajosas e o autodesprezo aumentou.
      - Ligo para voc daqui a pouco - falei, com a voz rouca.
      Corri para o banheiro e vomitei todo o caf-da-manh.
      Quando acabei, endireitei o corpo devagarzinho e me sentei no tampo da privada, com a testa suada apoiada na loua gelada da pia. Meio letrgica, fiquei me 
perguntando qual seria o certo a fazer.
      Minha promessa a Gemma era s um pretexto. Eu queria v-lo, mas fiquei apavorada com a possibilidade de ficar a ss com ele. O melhor seria dissolver sua presena 
em meio a outras pessoas.
      Nicky, uma amiga antiga, dos tempos de escola, tinha me convidado para jantar com ela e Simon, seu marido, na casa deles. Talvez Anton quisesse ir tambm. 
Com um pouco de sorte, quem sabe ele tambm faria amizade com eles; se Anton tivesse contato com outras pessoas, eu no me sentiria na obrigao de encontr-lo com 
tanta freqncia.
      Anton no demonstrou sinais de desapontamento quando soube que outras pessoas estariam presentes no nosso prximo encontro. Na verdade, ele se comportou como 
um convidado perfeito, elogiando a casa, a comida e batendo papo muito  vontade sobre assuntos no-controversos. Eu, por outro lado, estava desastrada, tensa e 
morrendo de cime. Mal consegui comer enquanto observava Nicky analisando Anton. Est acontecendo novamente, pensei. Ele a est seduzindo sem o mnimo esforo. D 
para ver que ela est despencando para o lado dele como um prdio condenado.
      Na manh seguinte, o mais cedo que consegui sem parecer mal-educada, telefonei para Nicky com a desculpa de agradecer pelo jantar.
      Ela disse:
      - Aquele Anton, hein? Puxa!
      - Pois .
      - Pois , mesmo!
      Estiquei o assunto com mais alguns "pois " e j estava me preparando para ouvir que ela estava apaixonada por Anton e disposta a abandonar Simon quando continuou:
      - Um perfeito idiota. O que foi que Gemma viu nele?
      - Voc o achou idiota?
      - Ahn... Achei, sim... Superidiota! Ele  exageradamente... - fez uma pausa a fim de dar mais destaque ao desdm que sentia. - ...Empolgado com tudo. E aquele 
sotaque  ruim de aturar, hein? O cara  cheio de "uais" e "uaus", muito fingido e artificial.
      - Mas voc no o achou bonito?
      - Pra mulheres que gostam de boais de dois metros e quarenta de altura, pode ser.
      Seria injusto, nesse ponto, mencionar que Simon tinha um metro e sessenta e trs e quase sempre usava botas de caubi com salto de oito centmetros de altura? 
(Com a ponta de trs dos jeans cobrindo os saltos, em uma tentativa de escond-los.)
      - Acho que ele tem um tom de pele interessante - disse Nicky, e me pareceu ouvir um leve rufar de tambores. - Ele  muito moreno para um irlands. Eu achava 
que eles eram todos branquelos e sardentos.
      -  que a me dele  iugoslava.
      - Ah, isso explica as mas do rosto.
      - Elas no so lindas?
      - Pega leve, mulher! - Ela pareceu se ligar em alguma coisa.
      - Eu queria aquelas mas do rosto. - Era verdade, mas no do jeito que Nicky me entendeu. Sua rpida suspeita desapareceu; nem por um momento sequer, ela 
achou que eu poderia dar em cima
      de um cara que pertencia a outra mulher. Era simples assim. Jamais algum esperaria isso de mim. Muito menos eu.
      
      Tentei ficar longe dele. Deus sabe o quanto. S que conhecer Anton me desviara do centro de gravidade e qualquer possibilidade de escolha foi removida da equao. 
At ento, a minha vida parecia seguir leve como uma pluma. Subitamente, ela adquirira velocidade, como se eu estivesse sendo sugada para baixo por um tnel de vento 
enquanto tentava desesperadamente me segurar.
      Agentamos quase seis semanas, quarenta dias de agonia, nos despedindo um do outro e escolhendo a solido e a honra em vez da culpa por estarmos juntos. Eu 
desejava sinceramente me afastar dele
      cada vez que dizamos "at amanh", s que o tempo foi passando de forma inexorvel e o desejo constante me forou a pegar o telefone e pedir baixinho que 
ele aparecesse l em casa.
      Eu parecia passar as noites sempre em claro durante todo aquele perodo terrvel. Conversamos at tarde durante muitas noites, pesando os prs e os contras, 
analisando tudo de trs para a frente. Anton era muito mais pragmtico do que eu.
      - No amo Gemma - ele argumentava.
      - Mas eu amo - eu respondia.
      Eu tinha tido vrios namorados; a partir dos dezessete anos, eu era um exemplo de monogamia. Foram quatro homens e meio em treze anos. (O meio foi Aiden "Macker" 
McMahon, que me colocou chifres durante todo o nosso namoro de nove meses.) Eu amara de verdade os outros quatro e fiz todas as coisas normais de quando um relacionamento 
termina - chorava em pblico, bebia demais, perdia peso e jurava que nunca mais iria sair com homem nenhum- , mas Anton era diferente.
      A primeira vez que eu dormi com ele foi quase impossvel de descrever. Dava para sentir a emoo fluindo de mim para ele e dele para mim, acalmando minha respirao 
ofegante, como se estivssemos dentro d'gua, tornando-nos parte um do outro. Foi muito mais do que sexo, foi quase uma experincia mstica.
      Em trs ocasies, resolvemos enfrentar a realidade e ir at Dublin contar a Gemma, e em duas dessas vezes eu amarelei.
      Era impossvel. Eu estava disposta a viver sem Anton, caso a opo fosse destruir o corao de Gemma.
      - No importa o que voc faa - dizia Anton, com tristeza. - Eu nunca vou amar Gemma.
      - Eu no me importo! V embora!
      Mas depois de algumas horas longe de Anton a minha determinao se desmontava e chegou o dia em que finalmente ns pegamos o avio para Dublin.
      No consigo nem pensar no que aconteceu, mesmo agora. S sei que nunca vou esquecer a ltima coisa que Gemma me disse:
      "Tudo o que vai volta; lembre-se bem de como voc o conheceu, porque  assim que vai perd-lo."
      
     
37
      
      De volta ao tempo presente, o telefone tocou. Era um sujeito da equipe de imagens do Daily Echo me procurando por causa da entrevista com Martha Hope Jones. 
Ele queria mandar um motoboy para pegar as fotos dos meus ferimentos, no dia em que eu fiquei desmaiada na calada e fui "considerada morta".
      - Mas eu no fui considerada morta.
      - Morta, ferida, tanto faz. Que tal me mandar as fotos?
      - No, sinto muito.
      Logo depois, o telefone tornou a tocar. Dessa vez, era Martha.
      - Lily, eu preciso dessas fotos.
      - Mas eu no tenho fotos dos ferimentos.
      - Por que no?
      - Simplesmente eu no tenho.
      - Isso nos deixa num dilema. - Sua voz estava alterada, com tom de acusao, e ela desligou na minha cara.
      Muito abalada, fiquei olhando com cara de idiota para o telefone, e, por fim, reclamei com Anton:
      - Que tipo de sdico tira fotos de si mesmo depois de ser assaltado?
      
      Apesar de a regio em que eu morava ser meio barra-pesada, eu nunca imaginei que pudesse ser assaltada. Como era uma liberal de bom corao, tinha simpatia 
pelos assaltantes e insistia que eles eram levados ao crime por puro desespero. Tinha certeza de que percebiam que eu estava do lado deles.
      Entretanto, se eu analisasse bem as coisas, veria que eu era a presa perfeita para um assalto. Para afastar os ladres, uma pessoa deve andar de cabea ergui 
da, exibindo confiana e um ar de quem
      sabe lutar tae-kwon-do, As bolsas devem ficar presas, com a musculatura contrada em imobilidade do tipo rigor mortis, entre o cotovelo e as costelas, e o 
ritmo dos passos deve ser rpido, com disposio para enfrentar qualquer obstculo.
      Eu era exatamente o contrrio disso tudo e andava como quem olha para o ontem. Uma vez ouvi meu chefe em Dublin me descrevendo como uma pessoa muito "Ol, 
rvores! Ol, flores". Isso foi
      dito com o objetivo de me insultar e surtiu efeito; eu me senti insultada. No andava saudando as rvores e as flores, mas tambm no encarava a vida como 
uma esteira conectada a um rolo compressor, sobre o qual era vital manter o passo clere, a fim de evitar ser sugada para trs e sair do jogo.
      Na noite do assalto, eu estava indo para casa, depois de descer do nibus. Acabara de sair de uma reunio em uma cadeia de supermercados que estava planejando 
promover a venda de espinafre e o meu trabalho era redigir o texto do folheto da campanha. Vocs devem sacar esse tipo de coisa: uma descrio das vitaminas e propriedades 
do espinafre. ("Voc sabia que o espinafre tem mais ferro do que meio quilo de fgado cru?") Em seguida, uma lista de famosos adoradores de espinafre. (Popeye,  
claro, e... ahn...) Finalmente, novas e exticas maneiras de prepar-lo. (Algum est a fim de sorvete de espinafre?)
      Algum tinha de escrever esses folhetos e, embora aquele no fosse um trabalho do qual eu me orgulhasse, era menos vergonhoso do que a minha situao em Dublin.
      Estava frio, escuro e eu vinha louca para chegar em casa. No s para ver Anton, que se mudara para o meu "apertamento" seis meses antes, no mesmo dia em que 
voltamos da terrvel visita a
      Gemma, mas tambm porque eu estava grvida de trs meses e doida para ir ao banheiro. Como tudo o mais que acontecera entre mim e Anton, a gravidez no fora 
planejada. Ns ramos terrivelmente pobres e, apesar de eu ainda ter algum trabalho, Anton continuava sem ganhar nada e no tnhamos idia de como fazer para sustentar 
um beb. Mas nada daquilo importava. Eu nunca me sentira to feliz. Nem to envergonhada.
      Minha vontade de ir ao banheiro aumentou  medida que apertei o passo, e ento, para minha surpresa, meu ombro foi puxado para trs; algum agarrara a ala 
da minha bolsa e dera um puxo violento nela. Agindo como uma idiota, eu me virei j com um sorriso preparado, pois achei que s podia ser algum conhecido que estava 
apenas sendo um pouco mais brusco do que pretendia.
      Mas no reconheci o rapaz atrs de mim. Ele era gordo, baixinho e com o rosto gosmento de suor.
      Registrei duas coisas ao mesmo tempo: a) eu estava sendo assaltada; b) por um homem que parecia ter tido o corpo e o rosto esculpidos em massa crua de po.
      Aquilo no estava certo. Ele no parecia magro nem desesperado, como os assaltantes deviam parecer. (Acho que sou meio bitolada.) E ele no tinha uma faca 
nem uma seringa.
      Em vez disso, tinha um co. Um pitbull de pernas arqueadas e ar ameaador. A corrente estava presa em torno da mo gorducha do garoto-massa-de-po, mas o co 
comeou a avanar na minha direo rosnando baixinho. Se a corrente se soltasse uma ou duas voltas, eu seria atacada.
      Meus olhos se fixaram nos olhos injetados do garoto-massa-de-po, e ento, sem trocar uma nica palavra com ele, entreguei minha bolsa.
      Ele a agarrou, enfiou-a dentro do imenso bolso da jaqueta e ento - com ar de grand finale - me empurrou no cho.
      Pensei que aquilo fosse tudo, mas o pior ainda estava por vir. Enquanto eu estava cada ali, na calada mida, o co passou por cima de mim, pisando bem na 
minha barriga de trs meses de gravidez. Suas patas pesadas e massudas pareceram se enterrar fundo na minha barriga e o hlito de carne da boca do bicho esquentou 
meu rosto.
      Tudo acabou em dois ou trs segundos, mas mesmo agora, ao lembrar de tudo, eu estremeo de revolta.
      O homem e o co foram embora na maior calma, andando como dois pingins, e eu, sentindo-me tonta e idiota, tentei me colocar em p, meio zonza. Enquanto fazia 
isso, reparei que Irina vinha correndo em meu auxlio, com as pontas de metal dos seus sapatos de salto alto ecoando na noite: o pior pesadelo de um assaltante. 
Ela era a minha vizinha do andar de cima e, embora nos cumprimentssemos trocando acenos de cabea no corredor, nunca havamos conversado
      de verdade. Tudo o que eu sabia a respeito dela  que era alta, muito bonita e russa. Usava tanta maquiagem que Anton e eu j havamos passado muitas horas 
especulando entre ns. Eu achava que talvez ela fosse uma prostituta, mas Anton disse: "Minha aposta  que ela  um travesti."
      Ela parou e olhou para mim com ar intrigado, enquanto eu me levantava, cambaleando.
      - Acabei de ser assaltada.
      - Azaltada?
      - Por um homem com um co.
      - Homem gom um go?
      - Ele foi naquela direo. - Mas o cara-de-massa-de-po j desaparecera.
      - Voz dinha dinheirro?
      - Um pouco. Duas ou trs libras.
      - Do pouco? Grazas a Deus.
      Ela no era exatamente a Miss Simpatia, mas me levou em segurana at Anton. Entretanto, nada do que disse ou fez conseguiu me servir de conforto. Eu sabia 
o que estava para acontecer: eu ia perder o beb. Aquilo era um castigo divino. O pagamento pela minha perversidade em roubar Anton de Gemma.
      Anton insistiu em chamar o mdico, que fez o possvel para tentar me convencer de que as chances de eu abortar eram muito pequenas.
      - Mas eu sou uma pessoa m.
      - A coisa no funciona desse jeito.
      - Eu mereo perder esse beb.
      - Mas isso  pouqussimo provvel.
      Quando o mdico ia sair, algum bateu  porta: era Irina, com um punhado de amostras de maquiagem para substituir o meu estojo roubado.
      - Ezas zo as gores lanzadas rezentemente. Eu trabalho no quisgue da Clinique.
      Em estreo, Anton e eu exclamamos:
      - Ah, voc trabalha em um quiosque de maquiagem.
      Irina observou nossa expresso com objetiva perspiccia.
      - Achamos! - Logo em seguida, hesitantes, murmuramos algumas coisas para disfarar. Honestidade nem sempre  a melhor poltica mas Irina no se importou nem 
um pouco.
      
      Na manh seguinte, Anton me levou at a delegacia local (at ento nos referamos a ela como "pocilga") para fazer abrir um boletim de ocorrncia.
      Ficamos sentados na sala de espera, observando os policiais entrando e saindo. A qualquer momento, um deles ia chamar o outro de "Guv".
      - "Temos vinte e quatro horas para resolver este caso... " - murmurou Anton.
      - " O promotor j est pegando no nosso p... "
      - " Vamos ter que dirigir a toda velocidade por uma rua cheia de caixas de papelo vazias..."
      Em seguida, comeamos a cantarolar, baixinho, a msica da abertura de Starsky e Hutch - Justia em Dobro, olhando um para o outro, at que o meu nome foi chamado. 
O assalto que eu sofrera
      no era muito importante e me encaminharam para um policial muito jovem que bravamente se ps em ao. Ofereci uma descrio do Massa-de-Po e uma lista de 
todas as coisas que havia na minha
      bolsa e que eu conseguia lembrar. Alm da carteira, das chaves de casa e do celular, minha bolsa continha os detritos usuais. Lenos (usados), canetas (vazando), 
blush (esfarelado), laqu (para dar volume aos meus cabelos ralos e escurecer minha cabea rosada) e quatro, talvez cinco, Starbursts.
      - Starbursts? - O policial se mostrou vido e tenho certeza que ele achou que eram... DROGAS!
      -  a nova marca dos caramelos com sabor do tipo Opal Fruits, que saiu no mercado - explicou Anton.
      - Ah. - Desapontado, ele baixou a caneta. - Por que ser que eles vivem fazendo isso?
      - Fazendo o qu?
      - Trocando o nome dos produtos. O que havia de errado com o chocolate Marathon? Porque trocaram o nome para Snickers? E por que o limpador Jif se tornou Cif?
      - Globalizao - disse Anton, de forma educada.
      -  isso que significa a tal da "globalizao"? - Ele suspirou e tornou a pegar a caneta. - No   toa que o povo anda revoltado. Tudo bem, a senhora vai 
ter de ligar para o seu banco e cancelar o
      carto de crdito.
      Anton e eu no dissemos nada (afinal, tnhamos o direito de permanecer calados). Nessa poca, andvamos to duros que no havia necessidade de cancelar o carto. 
O banco que o emitira j fizera isso, junto com meu carto de saque.
      
      Alguns dias depois, Irina teve um dia de folga e me convidou para subir at a casa dela. Minutos depois ela j fumava como uma locomotiva a vapor e me contava, 
toda empolgada, o quanto tinha sido "inveliz" em Moscou.
      - Eu dive um homem, mas no o amava. Viquei inveliz. Gonhezi outro homem, ele no me amava, e eu viquei inveliz. Homens!
      Agora ela arrumara um namorado ingls, que tambm a "vazia inveliz". Pelo que entendi, ele era muito "ziumento",
      - Por que continua com ele, se est to infeliz?
      - Porgue ele  bom para vazer zexo. - Em seguida, encolheu os ombros, sentenciando: - O amor  zempre inveliz.
      Nas entrelinhas dava para perceber que o verdadeiro amor da sua vida eram os cosmticos que ela vendia. Demonstrava verdadeira paixo por eles e seu rosto 
era o seu carto de visitas. Era muito
      boa no que fazia (segundo ela mesma me contou) e ganhava mais dinheiro de comisso que todas as outras garotas.
      - Vou lhe mostrar, porgue tenho gonfianza em voz.
      Ela foi l dentro e voltou com uma lata de biscoitos com tampa em xadrez escocs, que ela abriu para revelar um monte de dinheiro vivo. Notas de cinqenta, 
vinte e dez - a maioria de cinqenta.
      - Comizo por vendas - explicou ela. - Eu gonto esse dinheiro toda noite. No gonzigo dormir zem contar tudo antes.
      Fiquei apavorada. Era perigoso guardar toda aquela grana em casa.
      - Voc devia colocar isso no banco.
      - Bangos! - Ela no confiava neles. - Veja izzo! - Pegou um livro em uma estante e o abriu, exibindo notas de vinte colocadas entre as pginas. - Gogol. Dostoivski. 
- Mais dinheiro. - 
      Tolsti. - Mais ainda.
      - Voc j leu todos esses livros? - Parei de me sentir enjoada diante de tanto dinheiro e em vez disso me senti intimidada pelo calibre da literatura. - ... 
Ou eles so apenas cofres?
      - J li todoz! Voz aprezia literatura ruzza? - perguntou, com ar astuto.
      - Ahn... Aprecio. - Conhecia muito pouco, mas quis parecer educada.
      Ela sorriu.
      - Vozs, ingleses, azistem ao vilme Lolita e ajam que zabem tudo de literatura ruzza. Agora voz precisa ir embora. Ezt na hora de EastEnders.
      - Voc gosta de novela?
      - Adoro. Todoz zo to invelizes, pareze a vida real. Venha me visitar quando quiser, a hora gue for. Ze eu no estiver a fim de rezeber voz, eu aviso.
      Por um instante ela me pareceu estar sendo gentil.
      
      O mdico tinha razo e eu no perdi o beb, mas alguns dias depois do assalto fui deslizando lentamente para um lugar terrvel. Pouco a pouco, a minha viso 
de mundo comeou a ficar sombria, at que eu enxerguei a crueldade dos seres humanos e suas lamentveis imperfeies.
      Arruinamos tudo em que tocamos.
      Por que eu me apaixonei por Anton? Por que Gemma se apaixonou por ele? Por que no conseguimos amar as pessoas certas? O que h de to errado conosco que nos 
colocamos em situaes para as quais somos claramente inadequados? Situaes que traro sofrimentos
      para ns mesmos e para os outros? Por que sentimos emoes que no podemos controlar e nos movem na direo contrria  que realmente gostaramos de ir? Somos 
conflitos ambulantes,
      batalhas internas sobre duas pernas. Se os seres humanos fossem automveis, iramos devolv-los por defeito de fbrica.
      Por que temos uma capacidade finita de ter prazer, mas temos uma outra, infinita, para a dor?
      Somos uma piada csmica, decidi. Uma experincia que deu errado.
      Odiava estar viva. A perspectiva da morte era a nica coisa que fazia valer a pena viver. Mas eu carregava uma criana no ventre e tinha de ir em frente.
      Foi o trauma de ser assaltada que serviu de gatilho para tanta desesperana, explicou Anton; eu devia ir novamente ao mdico. Eu discordei. Foi simplesmente 
a minha perversidade que me reduziu quele estado lastimvel. Anton no queria saber dessa possibilidade e vivia repetindo:
      - Eu no amo Gemma, amo voc.
      Essa era a questo. Por que ele no havia conseguido amar Gemma? Por que as coisas tinham de ser to complicadas?
      Anton no concordava comigo: se o fizesse, estaria assinando a nossa sentena de morte.
      Consegui completar o trabalho sobre o folheto do espinafre, mas, quando a agncia me agendou outros trabalhos, eu no aceitei.
      No tinha praticamente ningum com quem conversar. Desde que Anton e eu voltramos daquela horrenda viagem a Dublin para contar a Gemma sobre ns dois, todas 
as garotas irlandesas que eu
      conhecia em Londres - as amigas de Gemma, as minhas tambm e as Mick Chicks - cortaram relaes comigo abruptamente. A nica amiga que eu tinha e que era anterior 
a Gemma era Nicky, a minha antiga colega de escola. Mas Nicky tinha seus prprios problemas, estava tentando engravidar de Simon, mas ele, alm de ser um baixinho 
metido, pelo visto andava negando fogo.
      Anton ficava na rua o dia todo, com Mikey. Levavam executivos da tev para almoar, tentando descolar alguma grana; levavam agentes literrios para almoar, 
tentando descolar roteiros baratos;
      levavam agentes de teatro para almoar, tentando descolar atores para trabalhar nos roteiros baratos que eles ainda no haviam conseguido e nem arrumado grana 
para adquirir. Eu tinha dores de estmago sempre que pensava na confuso representada por tudo aquilo - eles juravam de ps juntos para o roteirista que a atriz 
tal aceitara o papel, ao mesmo tempo que prometiam  atriz que o financiamento j estava acertado, mentindo em seguida para a tev, confirmando que o roteiro e o 
diretor j estavam garantidos. - Anton, porm, dizia que tudo aquilo era necessrio.
      - Ningum quer ser o primeiro a se comprometer. Se algum j est no barco, todo mundo acha que vai ser uma boa.
      Apesar de Anton e Mikey correrem atrs, estava demorando muito para pelo menos um daqueles projetos decolar e entrar em produo.
      - Tudo vai se encaixar - prometia Anton ao voltar para casa cada noite. - Vamos conseguir o roteiro certo, a estrela certa e o financiamento para o projeto 
vai cair no nosso colo. Depois disso, todo mundo vai fazer fila para trabalhar com a Eye-Kon.
      Enquanto isso no acontecia, eu passava horas a fio em casa, sozinha; um dia, quando a solido se tornou insuportvel, subi at o apartamento de lrina. Ela 
abriu a porta e por sobre os ombros dela
      vi uma pilha de notas sobre a mesa. Ela estava contando o seu dinheiro.
      - Hoje voi dia de pagamento - informou ela. - Venha ver.
      - Obrigada. - Entrei.
      Depois de admirar por alguns instantes as suas notas novinhas, abri meu corao e contei do inferno que povoava a minha mente.
      Irina ouviu tudo com interesse e, quando eu tentei chegar a alguma concluso, murmurou:
      - Voz ezt muito inveliz - e olhou para mim com mais respeito.
      
     ***
      
      S quando me senti exausta de outras perturbaes foi que eu liguei o computador, buscando consolo no meu livro. H quase cinco anos eu andava trabalhando 
em um romance no qual relatava minhas experincias corno relaes-pblicas na rea de ecologia, na Irlanda. Provisoriamente intitulado Claro como Cristal, a histria 
era assim: companhia qumica estava envenenando o ar de urna pequena comunidade; garota que trabalha corno relaes-pblicas (urna verso de
      mim mesma, s que mais bonita, mais determinada e com cabelos mais grossos e volumosos,  claro) bota a boca no trombone e conta a verdade aos habitantes do 
vilarejo, para em seguida fazer todas as coisas corajosas que eu realmente gostaria de ter feito na vida real.
      Nos quatro anos anteriores, incentivada por amigos entusiasmados, eu enviara o original para vrios agentes literrios, e trs deles leram o livro e sugeriram 
algumas mudanas. S que mesmo depois
      de eu refazer certas partes e reestrutuar outras, conforme os pedidos deles, todos continuavam dizendo "no serve para ns, nesse momento".
      Apesar disso, eu tinha urna leve esperana de que Claro como Cristal no fosse um monte de lixo e continuava a mexer no texto de vez em quando. Naquele dia 
em particular, porm, eu simplesmente no estava conseguindo escrever sobre bebs nascendo sem dedos ou homens jovens, chefes de famlia, sucumbindo ao cncer de 
pulmo.
      Mesmo assim, eu no desliguei o computador de imediato. Dei um tempo, desesperada para achar alguma coisa para me distrair. Digitei "Lily Wright", depois "Anton 
Carolan", "Beb Carolan" e por fim a frase"... E viveram felizes para sempre."
      Essas palavras me encheram com urna sensao inesperada de bem-estar e eu tornei a digit-las. Depois de fazer isso pela quinta vez, eu me endireitei na cadeira, 
me sentei diante do monitor com os ombros retos e dancei com os dedos sobre o teclado, corno urna pianista virtuosa tocando "O Vo do Besouro" na melhor apresentao 
de toda a sua vida.
      Resolvi escrever uma histria em que todo mundo fosse feliz para sempre, em um mundo ficcional em que coisas boas aconteciam e as pessoas eram gentis. Aquele 
raio de esperana no era apenas
      por mim, mas tambm pelo meu beb, em primeiro lugar. Eu no poderia colocar aquele pequeno ser humano no mundo sob o peso da minha desolao. Aquela vida 
nova necessitava de esperana.
      Foi assim que eu comecei. Batucava no teclado escrevendo exatamente o que queria, pouco ligando se era aucarado ou sentimental. No pensava em nenhuma outra 
pessoa que fosse ler aquilo; a histria era para mim e para o meu beb. Quando criei a protagonista, Mimi, a mesmo  que fui generosa. Ela era inteligente, simptica, 
de carne e osso, mas tambm mgica - uma mistura de vrias pessoas. Havia nela a sabedoria da minha me, a generosidade do meu pai. Era calorosa como Viv, a segunda 
mulher de papai, e tinha os cabelos da Heather Graham.
      Naquela noite, quando Anton chegou de mais um dia sem fazer filmes, ficou to aliviado por me encontrar entusiasmada e com os olhos brilhando que, alegremente, 
se sentou e ouviu tudo o que eu
      escrevera. E toda noite a partir de ento eu lia para ele o que havia escrito durante o dia. Levei quase oito semanas do incio ao fim e, no ltimo dia, quando 
Mimi havia resolvido todos os infortnios do vilarejo e estava pronta para ir embora, Anton enxugou uma lgrima.
      Em seguida, pulou de alegria.
      -  fantstico! Adorei. Vai ser um bestseller.
      - Voc gosta de tudo o que tem a ver comigo, no  o que se pode chamar de imparcial.
      - Eu sei, mas, juro por Deus, achei soberbo!
      Encolhi os ombros. J estava triste por ter terminado de escrever.
      - Pea a Irina para ler a histria - sugeriu ele. - Ela conhece livros.
      - Ela vai ach-lo muito tosco.
      - Pode ser que no.
      Ento, por ainda no estar preparada para declarar a experincia encerrada, subi as escadas, bati  porta de Irina e disse:
      - Escrevi um livro. Ser que voc poderia l-lo e me dar a sua opinio?
      Ela no comeou a dar pulinhos nem gritinhos, como a maioria das pessoas faz. Voc escreveu um livro. Uau, isso  surpreendente! Nada disso. Ela simplesmente 
esticou o brao para pegar a pilha de folhas e disse:
      - Bode deijar que eu leio.
      - S uma coisinha... Por favor, seja honesta comigo. No seja simptica s para me poupar de uma decepo.
      Ela olhou para mim atnita e eu virei as costas, perguntando a mim mesma que tipo de humilhao estava arrumando para mim mesma. E quanto tempo teria de esperar 
para receb-la.
      Na manh seguinte, porm, para minha surpresa, ela apareceu, com um cigarro na mo. Entregou-me a pilha de folhas e disse:
      - J li.
      - E ento...? - Meu corao disparou e minha boca ficou seca.
      - Gostei - anunciou ela. - Um conto de vadas no qual o mundo  bom. No  real - pensativa, exalou uma comprida espiral de fumaa pela boca - , mas eu gostei.
      - Bem, se Irina gostou - reagiu Anton, muito alegre - , acho que temos algo de valor nas mos.
      
     
38
      
      Eu precisava de um agente, avisou-me Anton. Pelo visto, eu no poderia enviar As Poes de Mimi diretamente para as editoras porque eles no recebiam material 
no-solicitado. Ele procurou um dos seus contatos. ("Tudo na vida depende de contatos, amorzinho.") Era uma agente de quem ele andava tentando comprar roteiros a 
preos irrisrios. Com o seu entusiasmo tpico, Anton interrogou a pobre criatura como se ela fosse a testemunha principal da defesa e ele, o promotor. O conselho 
que ela deu foi procurar um agente literrio.
      - Ela no serve - disse Anton - , porque s trabalha com roteiros.  uma pena. Teria sido um bom exemplo de sinergia. ("Nesse negcio, tudo funciona  base 
de sinergia.") Foi assim que escrevi para os trs agentes que haviam lido Claro como Cristal; mais uma vez, eles disseram: "As Poes de Mimi no serve para ns, 
nesse momento", mas me incentivavam a entrar em contato com eles quando escrevesse o meu prximo livro, exatamente como da outra vez.
      Depois da terceira carta de rejeio, resolvi rufar os tambores e anunciei que no queria mais saber daquela histria de procurar um agente. Era muito desgastante. 
A reao de Anton com relao a isso foi me comprar uma caixa de seis donuts de diversos sabores e a National Enquirer. Esperou at eu me acalmar. Ento, ele me 
colocou novamente nos trilhos fazendo surgir um exemplar do Livro do Ano para Escritores e Artistas.
      - Todos os agentes literrios da Gr-Bretanha esto listados aqui - informou ele, balanando o pesado livro vermelho com muita empolgao. - Vamos analisar 
um por um at conseguirmos o agente certo para voc.
      - No.
      - Sim.
      - No!
      - Sim. - Ele parecia surpreso com a minha veemncia.
      - No vou fazer isso. Faa voc, se quiser.
      - Ento t... Vou fazer mesmo - disse ele, meio zangado.
      - No quero saber de nada a respeito.
      - Tudo bem!
      Nos trs meses que se seguiram, ele evitou me contar a respeito das rejeies, mas, cada vez que o original voltava e aterrissava com um estrondo no cho da 
portaria, eu sabia. Era como a histria da princesa e da ervilha. Eu conseguia ouvir l de cima do meu apartamento o barulho do pacote rejeitado caindo no cho da 
entrada. Acho que conseguiria ouvir mesmo que estivesse no outro quarteiro.
      - Meu livro chegou - eu sempre dizia.
      - Onde ele est?
      - L embaixo, na portaria.
      - Mas eu no ouvi nada.
      Quase invariavelmente, eu estava certa. A exceo foi a vez em que era a entrega do novo catlogo da Argos. A outra vez foi quando entregaram o catlogo telefnico 
novo. E teve outro dia em que era o catlogo de roupas da Next, mas era para o Paddy Porra- Louca. (O qual, por sinal, admitiu a Anton, em um papo de corredor em 
estilo "de homem para homem", que ele s pedia o catlogo para olhar as mulheres com roupa ntima.)
      Nas outras ocasies, toda vez que se ouvia o estrondo de algum pacote jogado sobre o capacho da entrada (ou, melhor dizendo, sobre o local onde o capacho da 
entrada deveria estar, se tivssemos um), era sinal de uma nova rejeio para o meu livro. Eu lanava para Anton um olhar magoado, passivo-agressivo, como quem diz 
"eu bem que avisei", e meu corao sangrava um pouco mais.
      Anton, entretanto, era audaz e atirava na lata de lixo, com jeito descontrado, cada uma das cartas de recusa. Claro que assim que ele saa da cozinha eu corria 
para pescar a carta e me torturava com cada palavra cruel que acompanhava a rejeio, at que ele descobriu.
      Depois desse dia, passou a levar as cartas consigo, a fim de jog-las na lata de lixo do estdio.
      Ao contrrio de mim, ele no perdia tempo se martirizando com os fracassos de As Poes de Mimi. Encarava tudo de frente e simplesmente consultava o guia em 
busca do prximo agente. Desejava boa sorte para o original e seguia rumo  agncia de correios, onde j travara amizade com toda a equipe.
      Em algum momento parei de ter esperanas e quase consegui me dissociar do assunto o bastante para encarar toda aquela atividade envolvendo sacos pardos com 
revestimento de plstico-bolha cobertos por um monte de selos como simplesmente mais um dos estranhos hobbies de Anton.
      At o dia em que ele irrompeu na cozinha com uma carta na mo, dizendo:
      - No diga que eu nunca fao nada por voc.
      - Hein?
      - Uma agente. Voc conseguiu uma agente. - Ele me entregou a carta.
      Eu dei uma olhada. Todas as letras pareciam pular das linhas e danar por toda a folha, e eu no conseguia fazer com que elas fizessem sentido, at alcanar 
o trecho em que estava escrito "Ficarei feliz em representar seus interesses".
      - Veja s! - minha voz balbuciou. - Veja s, ela disse que ficar feliz em representar meus interesses. Feliz! - Comecei a chorar em cima da carta, at que 
a tinta da assinatura escorreu, borrando o nome de Jojo.
      
      Anton e eu fomos v-la em seu escritrio no Soho. Isso aconteceu menos de duas semanas antes do parto de Ema e, por isso, chegar l foi um grande empreendimento, 
semelhante ao de encaixotar e transportar um elefante. Mas fiquei feliz por ter ido. A agncia literria Lipman Haigh era uma firma grande e movimentada que inspirava 
empolgao, mas o melhor de l era Jojo Harvey. Ela foi realmente fabulosa. Cheia de energia e com impressionante jovialidade, Jojo nos recebeu como velhos amigos 
que no via h muito tempo. Na mesma hora, Anton e eu nos apaixonamos pelo jeito dela.
      Jojo nos disse o quanto tinha adorado As Poes de Mimi, afirmou que todo mundo na agncia gostara muito da histria e que o livro era um encanto... Eu fiquei 
radiante - at ela parar e dizer:
      - O lance  o seguinte: vou ser honesta com vocs.
      Meu corao despencou e foi parar no p. Eu detestava quando as pessoas diziam que iam ser honestas comigo. Sempre era coisa m.
      - Vai ser complicado vender esse texto porque ele parece um livro infantil, embora trate de assuntos adultos.  difcil coloc-lo em uma categoria especfica 
e os editores no gostam disso. Eles so meio covardes e morrem de medo de abrir novas frentes no mercado.
      Reparando em nossas expresses de abatimento, ela sorriu.
      - Ei, animem-se! O texto tem muito apelo e eu vou manter contato com vocs.
      Eis que ento veio o dia 4 de outubro e tudo mudou para sempre. As prioridades foram imediatamente reorganizadas; tudo passou para segundo plano na lista de 
prioridades, porque um novo hit entrou de sola em nossa vida: Ema.
      Nunca amei ningum do jeito que a amei e nunca ningum me amou como ela, nem mesmo minha me. O som da minha voz fazia com que ela parasse de chorar e comeasse 
a procurar pelo meu
      rosto na mesma hora, antes mesmo de conseguir focar as imagens.
      Todo mundo acha que seus bebs so a coisa mais fofa que j apareceu no mundo, mas Ema era realmente linda. Herdara a pele morena de Anton e saiu do meu tero 
com um cabelo muito preto e
      sedoso. No havia nem sinal da minha pele clara nem dos meus olhos azuis.
      - Tem certeza de que ela  sua filha? - perguntou Anton, com ar solene.
      A pessoa com quem ela se parecia mais era a me de Anton, Zaga. Como reconhecimento a isso, embora quisssemos cham-la de Emrna, resolvemos faz-lo com a 
grafia iugoslava, usando um nico "m".
      Ela era muito risonha, s vezes gargalhava durante o sono e era uma criaturinha que dava vontade de apertar o tempo todo. As dobrinhas das suas coxas eram 
irresistveis. Ela tinha um cheirinho adorvel, uma pele adorvel, um rostinho adorvel e os rudos que fazia eram adorveis.
      Esses eram os pontos positivos.
      Do lado negativo... Eu no consegui me recobrar do choque de me tornar me. Nada havia me preparado para aquilo e eu no me importava, mas o caso  que (algo 
incomum para mim) eu fizera um curso pr-natal e assistira a aulas sobre cuidados com o beb, tentando me preparar bem. No precisava ter tido todo aquele trabalho, 
porque o impacto em minha vida foi tremendo do mesmo jeito.
      Ser totalmente responsvel por aquele poderoso foco de vida embrulhado em paninhos me deixava apavorada e eu nunca tinha trabalhado tanto na vida sem descansar. 
O que achei mais difcil foi
      perceber que no havia nem um minutinho de folga. Nunca. Anton, pelo menos, tinha um emprego no mundo exterior e era obrigado a sair de casa todo dia; para 
mim, porm, ser me era uma atividade de tempo integral, de domingo a domingo.
      Quanto a amamentar no peito, eu sempre achara uma cena encantadoramente serena. (A no ser quando as mulheres tentam fazer isso em pblico sem deixar que ningum 
veja seu seio.)
      Ningum me advertira que aquilo doa muito, a ponto de ser uma agonia. E isso foi antes de eu ter mastite, primeiro em um seio e depois no outro.
      Havia momentos em que Ema nos deixava desnorteados. Ns a alimentvamos, trocvamos suas fraldas, a colocvamos para arrotar, lhe dvamos palmadinhas consoladoras, 
a ninvamos e mesmo assim ela no parava de chorar. Outras vezes nos apavorvamos sem a ajuda dela: geralmente torcamos para ela pegar logo no sono, mas, quando 
dormia demais, vinha a parania de que ela pudesse estar com meningite e ento a acordvamos
      Nosso apartamento, que nunca fora um primor de limpeza nem mesmo nos tempos calmos, se tornou o pior pesadelo de Martha Stewart. Pacotes imensos de Pampers 
ficavam espalhados pelo cho do quarto, havia fileiras de roupinhas de pago e macacezinhos pendurados para secar por toda a casa, pilhas de bichinhos molinhos 
de tocaia no carpete, esperando furtivamente para me fazer tropear neles, alm da permanente marca roxa na minha canela, pois cada vez que eu passava pelo corredor, 
batia com a perna na haste do freio do carrinho de beb.
      Em meio ao borro dos dias de vinte e quatro horas no ar, noites em claro, mamilos rachados e Ema chorando com clicas, uma boa notcia conseguiu penetrar: 
Jojo vendera os direitos de As Poes de Mimi para uma grande editora chamada Dalkin Emery! Era um contrato para dois livros e eles haviam oferecido um adiantamento 
de quatro mil libras para cada um. Dei pulos de alegria por conseguir uma editora, assim que reuni energias para faz-lo. Quatro mil libras era uma enorme soma em 
dinheiro, mas tambm no era a fortuna fabulosa que espervamos. Pelo visto, o nosso destino era continuarmos pobres, especialmente porque o reality show da Eye-Kon, 
O ltimo a Tombar, quase no deu lucro e certamente no provocou a corrida de executivos de tev dispostos a cobrir Anton e Mikey de dinheiro para novos projetos.
      Em seguida, fomos  Dalkin Emery, a fim de conhecer a minha editora, Tania Teal. Ela tinha trinta e poucos anos e era muito agitada, mas simptica. Informou-nos 
que As Poes de Mim seria lanado em janeiro do ano seguinte.
      - S em janeiro? - Faltava quase um ano, mas eu no me senti em condies de protestar porque no s eu no entendia nada sobre lanamento de livros, como 
meus seios estavam vazando e eu tive medo de Tania reparar. No conseguira tempo nem para uma ducha antes do encontro e tinha tomado um "banho de gato" improvisado, 
com um monte de lencinhos umedecidos; estava me sentindo em desvantagem, imunda e com aparncia medonha.
      - Janeiro  um bom ms para romances de estria - explicou ela. - No tem muita coisa sendo publica da e o seu lindo livro ter uma chance melhor de ser notado.
      - Entendo.
      
     ***
      
      Por muito e muito tempo, nada aconteceu. Pelo menos por seis meses e ento, do nada, recebi a ligao de um sujeito chamado Lee, perguntando quando eu poderia 
marcar para ele vir tirar fotos para a capa do meu livro. Entrei em pnico.
      - Eu ligo para voc de volta - disse a ele, desligando e me perguntando: Quem sou eu? Quem eu quero que as pessoas pensem que eu sou?
      - Quem telefonou? - quis saber Anton.
      - Um cara vem tirar a minha foto para a contracapa do livro. Preciso fazer alguma coisa com o meu cabelo! Estou falando srio, Anton. Preciso de um implante 
em estilo Burt Reynolds. Deveria ter
      providenciado isso h meses! E roupas novas! Preciso de roupas novas! E unhas, Anton, veja s o estado das minhas unhas!
      Sa e gastei metade de um dia e dinheiro demais com um corte de cabelo, uma sesso de tingimento (embora tenha desistido de um implante, Anton me convenceu); 
alm disso, eu comprei trs tops,
      uma cala jeans, botas novas e um pote de creme que se propunha a dar um pouco de brilho  minha pele, mas me deixou com a cara assustadoramente brilhante 
e oleosa depois de aplicado. Quando
      esfreguei o troo do rosto, arrastei um pouco de batom do canto da boca e deixei um rastro vermelho-sangue at o meio da bochecha, o que me deixou com aspecto 
de vtima em pronto-socorro.
      - Isso est um desastre - gemi para Anton. - Eu no devia ter comprado as botas, porque elas nem mesmo vo aparecer na foto.
      - No importa, voc vai saber que elas esto l, isso lhe dar confiana. Segure a onda, amorzinho, vou pedir ajuda a Irina.
      Ele voltou alguns instantes depois, rebocando Irina.
      - Voc  uma superfera nos cosmticos - elogiou Anton. - Poderia maquiar Lily para a sesso de fotos e deix-la maravilhosa? - Voc nos ajuda?
      - No d bara vazer milagres, mas vou tentar.
      - Obrigada, Irina - sussurrei.
      Na manh da sesso de fotos, ela passou em nossa casa antes de ir para o trabalho, esfoliou meu rosto como quem passa sapleo no cho da cozinha, arrancou 
quase todos os plos das minhas sobrancelhas e por fim me cobriu com uma assustadora quantidade de gosma brilhante e espessa, to estranha que Ema olhou espantada.
      - Est tudo bem, querida, sou eu... Mame! - Tentei convenc-la. Mas isso s serviu para faz-Ia chorar a plenos pulmes. Quem era aquela bruxa com cara de 
palhaa e voz de mame?
      Irina, Anton e Ema saram. Anton resolveu levar Ema com ele para o trabalho, porque a sesso de fotos ia levar horas e no tnhamos ningum com quem deix-la.
      Ento Lee chegou. Ele era jovem e devia dormir com um monte de garotas saradas - dava para perceber s de olhar para ele. Veio armado com uma tonelada de equipamentos 
que Paddy Porra-Louca o ajudou a carregar escadas acima. Preferia que ele no tivesse feito isso; meu receio era que ele fosse pedir alguma grana a Lee, mas consegui 
dispens-lo sem muito trabalho.
      Lee descarregou um monte de caixas pretas no cho e olhou em torno.
      - Somos s ns dois? Cad o maquiador?
      - Ahn... Uma amiga me maquiou; eu no sabia que...
      - No sabia? Todo mundo contrata um cabeleireiro e um maquiador profissional. As fotos da pessoa que escreveu o livro so muito importantes para as vendas.
      - Mas... O que conta mesmo  o livro ser bom, no ?
      Aquilo o fez dar uma gargalhada.
      - Voc ainda  novata nesse campo, no ? Raciocine comigo... S os escritores bonitos aparecem na tev, j reparou? Quando uma escritora  um drago, os produtores 
de tev no apresentam matrias com ela. s vezes os editores tentam deix-la longe dos refletores dizendo  mdia que ela prefere se isolar do mundo.
      Aquilo no podia ser verdade. Podia?...
      - Pode crer - ele insistiu. - At que voc no  feia, Lily, mas precisa de uma ajudinha. Por isso eu perguntei sobre o maquiador. Mas pode deixar que eu trabalho 
a foto no computador, para voc ficar bem. Vou fazer o melhor possvel.
      - Ahn... Obrigada.
      Ele analisou a sala, que eu tentara deixar impecvel, sugou o ar por entre os dentes e deu uma risada melanclica.
      - Esse lugar no  exatamente o sonho de um fotgrafo. No tenho muito com o que trabalhar, certo?
      - Ahn...
      - Certo - suspirou ele. - De qualquer modo, eles no iriam liberar a grana para o aluguel de um estdio para voc. Vamos fazer o seguinte: tiramos algumas 
fotos para garantir, depois vamos l fora tentar algo diferente. Estamos pertinho do parque Hampstead Heath, no estamos?
      - Estamos. - Grande erro. Como dizia a grande Julia Roberts na clebre cena de Uma Linda Mulher, eu cometi um grande erro, um erro enorme.
      Ele levou quase uma hora para preparar o equipamento - guarda-chuvas prateados, refletores e trips - enquanto eu ficava sentada imvel, na pontinha do sof, 
tentando usar o poder da concentrao para fazer minha maquiagem parar de evaporar. Finalmente, estvamos prontos para comear.
      - Faa uma cara sensual - comandou ele.
      - Ahn...
      - Pense em sexo.
      Sexo? Acho que foi o que ouvi. Tenho quase certeza.
      - Vamos l, quero uma cara de sexo.
      Eu sorri, tentando atender ao pedido, mas estava terrivelmente intimidada por ele ser to jovem, pela sua falta de frescuras e, o pior de tudo, por sua avaliao 
fria da minha aparncia.
      - Levante o queixo. - Por trs da cmera, ele riu sozinho e murmurou: - Levante o segundo, o terceiro e o quarto queixo tambm. - Em seguida gritou: Relaxe! 
At parece que voc est diante
      de um peloto de fuzilamento!
      Ele ficou trocando lentes, verificando fotmetros e as tais "fotos para garantir" levaram tanto tempo quanto a montagem do equipamento. Depois, eu ainda tive 
de aturar uma caminhada de vinte
      minutos at o parque, carregando um trip e tentando puxar assunto com ele. Eu quase no dormira naquela noite e conversar nunca foi o meu forte.
      - Voc j tirou fotos de muitos escritores?
      - Ah, sim, um monte deles. Christopher Bloind... Miranda England. Ela  realmente fabulosa. O sonho de qualquer fotgrafo. No d para tirar uma foto ruim 
dela. Eles me mandaram at Monte Carlo para fotograf-la. Fui de primeira classe at Nice, e ento eles mandaram me buscar de helicptero. -  claro que ele tinha 
de me contar isso exatamente no instante em que nos arrastvamos atravs de uma ponte ferroviria coberta de pichaes, e demos boas gargalhadas ao comparar os dois 
cenrios. - De um extremo ao outro, no , Lily?
      Ao chegarmos no Hampstead Heath, ele olhou em volta, estreitando os olhos, e ento seu rosto se acendeu.
      - J sei! Vamos fazer voc subir em uma rvore.
      Eu esperei pela risada que se seguiria. Porque aquilo era uma piada, certo?
      Na verdade, no era.
      Ele fez uma "cadeirinha" com as mos entrelaadas, pediu para eu pisar nela e me ergueu. Ento, tive de ficar em p sobre um galho a uns dois metros acima 
do cho, passar os braos em volta do tronco
      ... E sorrir.
      - Agora, olhe para mim, aqui embaixo... Isso mesmo, vento nos cabelos... Isso mesmo! Passe a lngua sobre os lbios.
      Se em uma foto tirada ao nvel dos olhos e sentadinha quieta na ponta do sof eu parecia ter queixo duplo, com o que eu pareceria sendo clicada de baixo para 
cima? Uma perua atropelada? Uma
      sapa? Jabba, the Hutt?
      - Pense em sexo, finja que  uma mulher sensual. PAREA SEXY!
      - Fale mais alto - murmurei. - Acho que no deu para eles ouvirem voc no Cazaquisto.
      - Parea sexy! - ele berrou, clicando sem parar. - Parea sexy, Lily!
      Um bando de alunos de uma escola prxima parou para nos zoar.
      - Vamos mudar um pouco as coisas, Lily. Desa da e vamos fazer uma com voc se balanando pendurada em um galho.
      Eu me arrastei devagarzinho para descer e reparei que minhas botas novas ficaram arranhadas por causa do tronco. Fiquei com os olhos rasos d'gua, mas no 
podia chorar, porque Lee j fazia outra "cadeirinha" com as mos para eu poder alcanar um galho mais alto e me pendurar como uma macaca.
      - Olhe para mim e d uma gargalhada - gritou Lee para mim, com voz de cacarejo, mais parecendo um maluco. - Vamos l, uma gargalhada escandalosa. Como esta: 
Rararararaaahhh!! Voc est
      pendurada em um galho de rvore, divertindo-se como nunca, jogue a cabea para trs, ria, RIA muito. Rararararaaahhh!
      As juntas dos meus ombros doam, minhas mos estavam ardendo, escorregadias, meu rosto estava de matar, minhas botas novas estavam arranhadas e eu, de forma 
obediente, ria, ria, ria muito.
      - Rararararaaahhh! - ensinava ele.
      - Rararararaaahhh! - tentava eu.
      - Rararararaaahhh! - ecoavam os meninos da escola.
      No instante em que eu achava que as coisas no poderiam piorar ainda mais, comeou a garoar. Por um rpido instante, achei que aquilo era bom, pois certamente 
seramos obrigados a parar. V
      esperana...!
      - Chuva?! - reagiu Lee, analisando o cu. - Isso pode ser bom. Selvagem e romntico. Vejamos agora... O que poderamos tentar?
      Avistei um dos meninos escrevendo um bilhete. Um instinto terrvel me deu a dica de que ele ia convocar reforos.
      - Vamos at o alto daquela colina - sugeriu Lee. - Quero ver o que h l.
      Encharcada, pau da vida e carregada de equipamentos, eu o segui colina acima e ento olhei para trs, na esperana de que os fedelhos da escola tivessem desistido 
de nos seguir, mas l vinham
      eles. Mantinham uma distncia respeitosa, mas continuavam firmes, fortes e... Seria a minha imaginao ou agora a quantidade havia aumentado?
      Lee parou ao lado de um banco.
      - Vamos fazer algumas aqui.
      Ofegante e suada, despenquei sobre o banco. Graas a Deus chegara a hora de alguns diques comigo sentada.
      - Lily, preciso que voc fique em p.
      - Em cima do banco?
      - No exatamente.
      - No exatamente?
      Ele parou para pensar. Algo muito terrvel vinha vindo.
      - Quero voc nas costas do banco, Lily. Como se estivesse sobre uma corda bamba. Isso vai dar uma foto fantstica.
      Sem fala, devido ao desespero, simplesmente fiquei ali em p, olhando para ele.
      - Seus editores me pediram para fazer fotos amalucadas - explicou Lee.
      Desmoronei, resignada. Eu precisava fazer aquilo. No queria que me rotulassem de "difcil".
      - Acho que no vou conseguir manter o equilbrio.
      - Pelo menos, tente.
      L fui eu, subindo meio torta, observada pelos garotos. Dava para ouvi-los trocarem idias sobre se deviam ou no me zoar.
      Coloquei um dos ps firmemente sobre o encosto do banco; essa parte at que foi fcil. Em seguida, para minha surpresa, consegui colocar o outro e de repente 
eu estava ali, me equilibrando em cima
      de um pedao de madeira ridiculamente estreito.
      - Voc est indo muito bem, Lily! - gritou Lee, danando sem parar. - Olhe na minha direo e pense em sexo.
      Percebi uma agitao entre os meninos. Desconfio que estavam abrindo uma banca de apostas para tentar acertar o tempo que eu ia levar antes de me estabacar 
no cho.
      - Lily, levante uma das pernas! - gritou Lee. - Equilibre-se em uma perna s, com os braos estendidos, como se estivesse voando!
      Por mais ou menos um segundo, eu consegui fazer isso. Por centsimos de segundo eu me senti no ar, como se flutuasse, at reparar que havia tantos garotos 
na colina que aquilo comeou a parecer um concerto de rock. Foi a que eu balancei e ca pesadamente no cho,como uma jaca. Torci o pulso e, o que  pior, sujei 
meu jeans novo de lama.
      A chuva apertou e o meu nariz estava a poucos centmetros do cho imundo. De repente, eu pensei: Sou uma escritora. O que estou fazendo aqui de quatro, na 
lama?
      Lee chegou com a mo estendida para me ajudar.
      - Mais algumas fotos s... - anunciou ele, com a voz alegre. - Estamos quase acabando.
      - No! - reagi, com a voz aguda e trmula. - Acho que j tiramos fotos suficientes!
      Durante todo o caminho de volta, eu me senti prestes a chorar de humilhao, desespero e exausto, e, quando cheguei em casa, fui direto para a cama.
      
     
39
      
      Depois desse episdio, tudo ficou novamente calmo. Em um determinado momento, recebi uma amostra da capa e em seguida a primeira prova da grfica, para verificar 
se havia erros (encontrei uma preocupante quantidade deles). Durante esse tempo, eu j deveria estar trabalhando no segundo livro. J fizera alguns esboos iniciais, 
mas o problema  que eu vivia cansada. Anton tentava me incentivar, mas estava quase to exausto quanto eu e acabou perdendo o pique.
      Veio o dia em que me enviaram alguns exemplares prontos. Eu me comovi tanto que cheguei s lgrimas. Considerando que uma vez eu ficara toda empolgada ao me 
achar no catlogo telefnico, ver e tocar um livro com o meu nome na capa era uma emoo arrebatadora.Todas aquelas palavras, palavras que eu escrevera sozinha, 
reunidas e impressas por algum de fora. Aquilo me encheu de orgulho e assombro. Obviamente no foi uma emoo to intensa quanto dar  luz, mas certamente vinha 
em segundo lugar.
      A foto da autora, na contracapa, era a primeira que Lee tirara - aquela em que eu estava sentada no sof olhando direto para a cmera. Eu exibia uma sombra 
meio prpura sob os olhos e um queixo duplo que eu jurava no ter na vida real. Parecia ligeiramente ansiosa. No era uma grande foto, mas certamente ficara muito 
melhor do que a outra em que eu aparecia pendurada em um galho
      fazendo Rararararaaahhh!!
      Naquela noite, ao ir para a cama, encontrei o livro sob as cobertas, s com o ttulo de fora; Anton o colocara ali e eu adormeci embalando o meu novo filho.
      O lanamento era no dia 5 de janeiro e, quando acordei nesse dia (pela quarta vez, desde que deitara na vspera), eu me senti uma criana no dia do aniversrio. 
Talvez at um pouco mais ansiosa, equilibrando-me sobre o estreito espao que fica junto do altssimo astral, mas pode se tornar um desapontamento enraivecido em 
menos de um segundo.
      Anton me recebeu na cozinha com uma xcara de caf e cumprimentou:
      - Bom-dia, escritora.
      Eu me vesti e ele apareceu com outra brincadeira:
      Eu me vesti e ele apareceu com outra brincadeira:
      - Por favor, Lily Wright... Qual  a sua profisso?
      - Escritora!
      - Desculpe, madame, mas estamos fazendo uma pesquisa. Poderia me dizer qual  a sua profisso?
      - Sou escritora. J publiquei um livro.
      - Oh, a senhora  a famosa Lily Wright?
      - Lily Wright, a escritora. Sim, sou eu.
      Rimos muito e nos atiramos na cama, com a cabea leve.
      Ema percebeu a atmosfera animada e fez um discurso comprido e sem sentido, para em seguida dar um tapa nos joelhos rechonchudos e guinchar de alegria.
      - Ema trouxe notcias do front, Lily - disse Anton. - Vamos coloc-la no carrinho para irmos visitar o seu outro beb.
      Eu montei o carrinho para a caminhada solene at a livraria mais prxima, que ficava em Hampstead.
      - Vamos visitar o livro da mame - Anton explicou a Ema.
      Ela se mostrou toda dengosa por ver o pai em casa em um dia de semana e gritou:
      - Lalalala-jingjing-urk!
      - Isso mesmo!
      Estvamos com o astral no nvel mximo. Era uma manh fria e ensolarada e caminhvamos pela rua com uma determinao incomum. Eu ia ver o meu primeiro romance 
 venda em uma loja! Que experincia fantstica!
      Entrei na livraria com o pescoo to esticado que parecia um ganso minha cara tinha um sorriso feliz grudado nela. Onde estaria o meu livro?
      No havia nenhum exemplar na vitrine da frente e eu engoli em seco, sentindo uma fisgada de pnico. Tania me explicara, com muito jeitinho, que, embora ela 
desejasse que as coisas fossem diferentes, o meu livro era "pequeno" em termos de mercado e eu no teria cartazes nem psteres nas vitrines. Mesmo assim, eu tinha 
uma leve esperana...
      S que no havia nenhum exemplar de As Poes de Mimi na seo de lanamentos, nem na mesa dos recentemente publicados. Acelerando o passo, deixei Anton e 
o carrinho de Ema para trs e percorri a loja, olhando e procurando. Andava cada vez mais depressa, com a cabea girando como um periscpio, a ansiedade crescendo 
e o meu livro sem aparecer. Embora houvesse milhares de livros expostos, eu sabia que reconheceria o meu na mesma hora, em meio a todos os outros... Se ele estivesse 
ali.
      Ao me ver na seo de livros de psicologia, parei de repente e corri para junto de Anton. Encontrei-o no balco de informaes.
      - Voc o achou? - perguntou ele, nervoso.
      Balancei a cabea.
      - Eu tambm no, mas no se preocupe, vou perguntar ao atendente. - Anton acenou com a cabea para um jovem com olhar triste que olhava para um monitor e se 
esforava ao mximo para nos ignorar. Depois de um instante, Anton pigarreou e disse:
      - Desculpe interromp-lo, mas estamos procurando por um livro.
      - Ento vieram ao lugar certo - disse o rapaz, sem muita empolgao, indicando o mar de livros em toda a loja.
      - Sim, mas o que procuramos se chama As Poes de Mimi.
      Depois de apertar algumas teclas com alguma disposio, o rapaz disse:
      - No.
      - No o qu?
      - No temos esse ttulo no estoque, nem vamos encomend-lo.
      - Por que no?
      - Poltica de vendas da loja.
      - Mas esse livro  fabuloso! - explicou Anton. - Foi ela quem o escreveu - informou, apontando para mim.
      Eu balancei a cabea afirmativamente. Sim, realmente fui eu a escritora.
      Porm, longe de se impressionar com aquilo, o rapaz repetiu:
      - No temos esse ttulo no estoque. - Olhou por cima do ombro de Anton para a pessoa que estava atrs de ns. O significado era claro: Caiam fora!
      Ficamos rodeando o balco, abrindo e fechando a boca como peixinhos de aqurio, atnitos demais para irmos embora. No era assim que as coisas deviam acontecer. 
 claro que eu no esperava desfilar em carro aberto atravs de ruas apinhadas de gente, mas no achei absurdo pensar que conseguiria achar meu livro  venda em 
uma livraria. Afinal, sem ser ali, onde mais eu poderia esperar encontr-lo? Em uma loja de ferragens? Na tinturaria?
      - Ahn... Desculpe - disse Anton, depois de o outro cliente ser despachado. - O rapaz pareceu surpreso por nos ver ainda ali. - Posso falar com o gerente?
      - Est olhando para ele.
      - Oh... Bem, o que devemos dizer para faz-lo mudar de idia a respeito de As Poes de Mimi?
      - Nada.
      - Mas  um grande livro! - insistiu Anton.
      - Converse com o seu editor.
      - Humm... OK.
      Por uma questo de orgulho, esperei at me ver fora da loja para comear a chorar.
      - Babaca! - disse Anton, com o rosto vermelho de humilhao, enquanto caminhvamos de volta para casa, cheios de raiva. - Babaca insignificante e arrogante. 
- Chutou uma lata de lixo e machucou o p. Eu recomecei a chorar.
      - Babaca! - disse.
      - Babaca! - gritou Ema, do carrinho.
      Anton e eu olhamos um para o outro, com o rosto cheio de alegria. Era a primeira palavra dela
      - Isso mesmo! - confirmei, me agachando ao lado do carrinho. Ele  um ba-ba-ca. - Um babaqussimo babaca - disse Anton, novamente furioso. Vamos ligar para 
a editora assim que colocarmos os ps em casa.
      - Babaca - repetiu Ema.
      -  isso a, garota!
      
      Levamos uns vinte minutos para chegar em casa e eu ainda tremia quando liguei para a linha particular de Tania.
      - Posso falar com Tania?
      - Quem deseja...?
      - Lily Wright.
      - E o assunto se refere a...?
      Fiz cara de surpresa.
      - Se refere ao meu livro.
      - Cujo nome ...?
      - As Poes de Mimi.
      - Como  mesmo o seu nome? Leela Ryan?
      - Lily Wright.
      - Lily White. Espere na linha, por favor.
      Dois segundos depois, Tania atendeu:
      - Desculpe a minha assistente. Ela  estagiria e meio sem noo. Como vai, querida?
      Um pouco hesitante e sem querer parecer crtica, relatei a ela tudo o que havia acontecido na livraria.
      Tania falou baixinho, tentando me tranqilizar:
      - Sinto muito, Lily, sinto de verdade. Eu adoro As Poes de Mimi. O problema  que cem mil novos livros so publicados a cada ano. Nem todos podem se tornar 
bestsellers.
      - Mas eu no esperava que ele se tornasse um bestseller. - Bem, obviamente esperava, sim...
      - S para voc ter uma idia da dimenso do mercado, o seu livro teve uma tiragem de cinco mil exemplares. Um escritor como John Grisham tem uma edio inicial 
de quinhentos mil. Confie em
      mim, Lily, o seu lindo livro est nas ruas, embora talvez voc no o encontre em todas as lojas.
      Eu contei a Anton o que ela dissera.
      - Isso no  bom o bastante para voc! - reagiu ele. - E quanto  publicidade? E quanto s entrevistas e s noites de autgrafos?
      - No vai haver nada disso, amor - disse eu, sem expresso. - Esquea o assunto, Anton, nada disso vai acontecer. Vamos em frente com a nossa vida.
      Mas eu no contava com a energia de Anton.
      Mais ou menos uma semana depois, ele chegou do trabalho muito empolgado.
      - Voc vai ter uma noite de autgrafos.
      - O qu?
      - Conhece Miranda England? Uma das autoras mais famosas da Dalkin Emery? Bem, o seu novo livro vai ser lanado. Na quinta-feira, s sete da noite, ela vai 
fazer uma sesso de autgrafos no West End, e eu convenci Tania a transformar esse evento em uma dupla noite de autgrafos... Com voc! Miranda  superfamosa, uma 
multido certamente aparecer l para prestigi-la e, assim que conseguirem o seu autgrafo, ns os pegamos. Vamos ter uma platia cativa.
      - Minha nossa! - Fiquei olhando para ele. - Voc  uma surpresa ambulante. - Fiquei me perguntando como as outras escritoras faziam... Aquelas que no tinham 
um Anton em sua vida. - S por isso, meu bom rapaz, hoje ns vamos transar na posio que voc escolher.
      Puxa, como foi divertido!
      
     
40
      
      Na noite de autgrafos, Anton e eu chegamos  livraria to cedo que chegou a ser embaraoso. Na vitrine havia uma foto de Miranda England quase to grande 
quanto a do camarada Mao Ts-Tung na Praa da Paz Celestial, alm de algumas pilhas com centenas de seus livros. Havia tambm uma foto minha. Menor... Muito menor! 
Praticamente do tamanho de uma foto de passaporte.
      Na loja havia muitas outras fotos da camarada Miranda e, embora ainda faltassem vinte minutos para as sete, uma fila j se formara. Quase todas as pessoas 
eram mulheres, e todas pareciam muito agitadas e empolgadas.
      Um minuto antes das sete, um Mercedes prateado parou e Miranda surgiu, acompanhada de um pequeno sqito. Ela acabara de aparecer no jornal da BBC e vinha 
com o marido, Jeremy. Atrs deles vinha Otalie, responsvel pela divulgao da Dalkin Emery, e Tania, nossa editora, que me deu um beijo e apertou minha mo com 
ar solidrio. Ao chegar  porta, Miranda olhou para a fila, que j aumentava. Havia umas setenta pessoas - alguns grupos eram to grandes que as pessoas deviam ter 
ido para l de van.
      - Merda! - reagiu ela. - Vamos ficar aqui a noite toda! - Virando-se para Otalie, murmurou: - Tira bom, tira mau, certo? O que queriam dizer com aquilo?
      Assim que elas entraram no salo, um rapaz veio andando pela loja em alta velocidade. Freou quase em cima de Miranda e se apresentou como Ernest, gerente de 
eventos.
      -  uma grande honra receb-la. - Ele se curvou e tocou a palma da mo de Miranda com a testa. - Todas essas pessoas esto aqui pela senhora - continuou ele, 
apontando para os fs. - O que podemos fazer para receb-la  altura? Soubemos que aprecia biscoitos de chocolate australianos e mandamos buscar uma caixa em Sidney, 
para lhe oferecer.
      Otalie me empurrou na direo dele, dizendo:
      - Esta  nossa outra escritora da noite, Lily Wright, que tambm vai autografar seu novo livro, As Poes de Mimi.
      - Ah... Sim. J mandei buscar alguns exemplares. - O tom de sua voz parecia insinuar: Eles estavam enterrados em nosso cofre selado, que fica a cinqenta metros 
de profundidade, entre as caixas de lixo nuclear.
      Quando Miranda foi encaminhada atravs da multido na direo da mesa na qual ela comearia a autografar, o nvel de rudo aumentou e algumas pessoas soltaram 
gritinhos. Excludos daquele crculo mgico, Anton e eu nos olhamos e encolhemos os ombros.
      - Estou vendo a sua mesa - disse ele. - V l e sente em seu lugar.
      Ele me encaminhou at uma mesinha lateral onde havia um pequeno cartaz com o meu nome e o ttulo do livro. Uns poucos exemplares surgiram de algum lugar.
      Enquanto eu esperava algum - qualquer pessoa - se aproximar de mim, fiquei observando Miranda e tentei no demonstrar o ar de inveja que estava louco para 
se exibir em meu rosto.  volta dela, um verdadeiro exrcito de funcionrios da livraria trazia caixas e mais caixas dos seus livros, empilhando-os em uma espcie 
de configurao preestabelecida que se assemelhava  construo das pirmides.
      Otalie cuidava da turba, organizando-a em uma fila ordenada e distribuindo senhas.
      - Tragam os livros abertos na primeira pgina e escrevam o seu nome na senha, com a grafia correta! - ordenou ela, em voz alta. - Nada de livros antigos! - 
ameaou. - Miranda NO VAI autografar nenhum dos livros anteriores ao que est sendo lanado hoje. A senhora a, com o saco cheio de livros - ela se dirigiu a uma 
mulher que carregava uma bolsa plstica quase estourando. - Se h algum titulo antigo nessa bolsa, por favor, deixe-os de fora. No h tempo para Miranda autograf-los.
      - Mas esses so os livros favoritos da minha filha. Ela os leu quando se recuperava de um esgotamento nervoso e...
      - Ela vai apreciar um exemplar autografado desse novo lanamento do mesmo jeito. - Otalie pegou o livro novo e o colocou por cima da pilha que a mulher carregava. 
Achei Otalie uma pessoa horrvel e cruel. Embora a pobre mulher fizesse cara de assustada, agiu exatamente como lhe foi ordenado, avanando pela fila conforme ela 
andava.
      - Nada de dedicatrias! - Otalie berrava, ao longo da fila. - Nada de "feliz aniversrio" nem textos especiais. NO PEAM nada a Miranda, com exceo do seu 
nome.
      Apesar do reinado do terror, a atmosfera de festa prevaleceu e de vez em quando alguns dos comentrios das pessoas vinham at onde eu estava.
      "... Mal posso acreditar que estou aqui, diante de voc... "
      "  como se voc fosse a minha melhor amiga..."
      "...Sabe aquele pedao do livro, Pretinho Bsico, quando a protagonista descobre que o namorado est usando as calcinhas dela? Isso tambm aconteceu comigo, 
e eram as minhas favoritas..."
      - Sinto muito pela menina da divulgao - eu ouvia Miranda dizer o tempo todo. - Eu adoraria ficar aqui conversando com cada uma de vocs a noite toda, mas 
ela  uma megera.
      Ah... Tira bom, tira mau. Agora  que eu estava entendendo.
      Ao sair de junto de Miranda, algumas pessoas tinham lgrimas nos olhos e, quando as pessoas da fila perguntavam "Como ela ...?", todas respondiam: " adorvel, 
tanto quanto os livros que escreve."
      Nenhuma delas seguia em frente para me ver.
      - D um passo para o lado - eu disse para Anton, baixinho. - Voc est bloqueando a viso das pessoas e me escondendo.
      Rapidamente ele saiu de perto da mesa e se postou um pouco mais longe.
      Ento... Um homem se aproximou de mim! Veio na minha direo com ar decidido. Eu sorri, toda alegrinha. Meu primeiro f!
      - Ol!
      - Oi. - Ele franziu o cenho. - Estou procurando a seo de livros policiais sobre crimes baseados em fatos reais.
      Eu fiquei paralisada, com o primeiro exemplar de As Poes de Mimi na mo, recm - retirado do montinho. '
      Acho que ele pensa que eu sou funcionria da loja.
      - Onde encontro crimes na vida real? - repetiu ele, impaciente. - Onde eles esto?
      -  s sair da loja e colocar o p na rua - ouvi Anton murmurar.
      - Hummm. - Eu girei o pescoo, olhando em volta da loja. - No sei ao certo, senhor. Por que no pergunta no balco de informaes?
      Resmungando alguma coisa sobre idiotas que no sabem orientar os clientes, ele saiu pisando duro.
      Do outro lado, na fila de Miranda, o termmetro da atmosfera festiva se elevara em vrios graus e algum abriu uma garrafa de champanhe. Copos se materializaram 
do nada e barulhos de tim-tim encheram o ar. Na outra metade da tela, no meu cantinho desolado da loja, um vento frio soprava, uma bola de capim seco rolava de forma 
dolente e ento um sino deu uma nica badalada, emitindo um som funreo. Bem, pelo menos tudo isso era o que me parecia.
      Flashes espocavam e enchiam de luz prateada o espao areo sobre Miranda. As pessoas de uma das excurses de nibus se preparavam para uma foto em grupo, e 
duas fileiras de garotas frvolas e agitadas que no paravam de dar risinhos se ajeitavam, as da frente se agachando como para uma foto de time de futebol.
      Ento algum reparou na minha presena! Trs das garotas,depois da foto, se aglomeraram diante da minha mesa, com as cabeas quase unidas, observando-me como 
se eu fosse um animal no zoolgico.
      - Quem  ela?
      Uma delas leu meu cartaz.
      - Seu nome  Lily-no-sei-o-qu. Acho que ela tambm escreveu um livro.
      Lancei na direo delas o que esperava ser um sorriso convidativo, mas, assim que elas perceberam que eu estava viva, recuaram.
      Anton aproveitou a deixa:
      - Esta  a nova escritora Lily Wright, garotas, e este  o seu novo e fabuloso livro. - Distribuiu As Poes de Mimi para elas darem urna olhada.
      - An-ton. - Eu morri de vergonha.
      - O que vocs acham? - perguntaram as garotas, urnas s outras, corno se eu no estivesse ali ou fosse surda.
      - No... - decidiram. - No queremos no. - Saram dali direto para a porta da rua, aos gritinhos, comentando: - No acredito que acabei de conhecer Miranda 
England!
      Anton e eu trocamos sorrisos amarelos. L pros lados de Miranda, estavam danando a conga.
      Nesse momento uma senhora muito idosa se aproximou da mesa. Depois do vexame anterior, eu no demonstrei tanta pressa em colocar um exemplar de As Poes de 
Mimi em sua mo. Fiz muito bem...
      - Ser que voc poderia me informar onde esto os livros de artesanato, meu bem? - Havia algo engraado com os seus dentes. Eles pareciam estar meio soltos, 
subindo e descendo dentro de sua boca enquanto ela falava. Dentadura. Que possivelmente pertencia a
      outra pessoa!
      - Sinto muito, mas eu no trabalho aqui.
      - Mas o que faz sentada a, ento?  s para confundir as pessoas?
      Era difcil me concentrar no que ela dizia, porque seus dentes pareciam ter vida prpria; era corno assistir a um filme mal dublado.
      Expliquei quem eu era.
      - Ora, mas ento voc  uma escritora? - Gottle, a boneca de ventrloquo. - Que maravilha!
      - Ser? - perguntei. Comeava a duvidar daquilo.
      - Claro, querida! Minha neta tambm escreve urnas coisinhas e adoraria v-las publicadas. Por favor, me d o seu endereo que eu vou lhe mandar algumas das 
histrias de Hannah. Voc pode dar uma ajeitadinha no texto e entreg-las ao seu editor, para publicao.
      - Sim, mas pode ser que elas no...
      Parei de falar. Como em um filme em cmera lenta, ela pegou um dos exemplares de As Poes de Mimi e arrancou um pedao da sobrecapa traseira. Eu me virei 
para Anton, que parecia to chocado quanto eu. Ento Gottle, a boneca de ventrloquo, me entregou o
      pedao rasgado com uma caneta.
      - No esquea de colocar o CEP, por favor.
      Anton entrou em ao:
      - Quem sabe a senhora no gostaria de comprar o livro de Lily...?
      Gottle se empertigou toda diante dessa impertinncia.
      - Eu vivo de aposentadoria, meu jovem. Agora, me entregue esse endereo e me ajude a encontrar livros sobre tapearia.
      Anton ficou olhando de cara feia enquanto a velha saa.
      - Vaca maluca! Olhe, coloque o livro com a capa rasgada por baixo da pilha, seno ainda vamos ter que pagar por ele. Depois dessa, ns vamos para casa.
      - No. - Eu teria ficado ali por toda a eternidade, mesmo que estivesse coberta de mel dos ps  cabea em uma sala infestada por um enxame de abelhas assassinas. 
Anton conseguira aquela noite de autgrafos para mim e eu jamais seria ingrata com ele.
      - Amorzinho, voc no tem que ficar aqui e aturar tudo isso s para me agradar - disse ele. - Vou avisar Otalie que estamos de sada.
      Se at mesmo Anton parecia pessimista,  porque as coisas deviam estar piores do que eu pensava.
      Otalie veio at a minha mesa.
      - Autografe ao menos esses exemplares de As Poes de Mimi e depois pode ir embora - ordenou ela. - Depois de autografados, a loja no pode mais mand-los 
de volta para ns.
      Comecei a trabalhar na modesta pilha, mas Ernest, que se arrastava pelo cho, farejando e lambendo os sapatos de Miranda, me viu de longe, levantou-se na mesma 
hora e veio correndo.
      - Chega! No autografe mais nenhum! Nunca conseguiremos devolver esses livros! - lamentou.
      Ao sairmos, notamos que todos continuavam a beber champanhe e Miranda autografava sem parar as dezenas de livros que iam se empilhando  sua volta em direo 
ao cu, como torres bblicas.
      
     
41
      
      Quando janeiro chegou ao fim, tudo havia terminado (esse "tudo" era uma absoluta falta de eventos). Basicamente nada aconteceu e, depois do ms mais tenso 
de toda a minha vida, percebi que as coisas no iam mudar. Eu era oficialmente uma escritora, com um livro publicado, mas isso no significava nada. Com exceo 
de uma resenha no Irish Times daquelas do tipo "no pisque ao virar as pginas do jornal, seno voc perde", minha vida continuava exatamente do jeito que era antes 
e eu precisava me acostumar com aquilo.
      Tentei me animar pensando Eu perdi os braos e as pernas em um bizarro acidente com uma mquina de moer carne; minha irm e o namorado foram seqestrados por 
terroristas na Chechnia (embora estivessem na Argentina); a cabea de minha filhinha vinha
      crescendo de forma anormal e desproporcional.
      Essa  uma tcnica que eu emprego quando estou infeliz: finjo, por alguns instantes, que uma terrvel catstrofe aconteceu e falo para mim mesma, arrasada: 
"Antes desse desastre acontecer eu era tremendamente feliz e no sabia; daria tudo para poder voltar no tempo." A idia era a de que o que antes me parecia normal 
e tedioso agora assumia ares de utopia. O passo seguinte era lembrar que as catstrofes no haviam acontecido de verdade, que eu nem chegara perto de uma mquina 
de moer carne e minha vida era realmente
      uma utopia abenoada e sem desastres. Isso geralmente fazia com que eu me sentisse grata pelo que tinha.
      
     * * *
      
      Permaneci ali, absolutamente esmagada pelo anticlmax, e, quando meu pai telefonou, alguns dias depois, achei difcil me mostrar animada. No que isso fizesse 
diferena, porque ele sozinho j esbanjava a animao de dez pessoas.
      - Lily, minha filhinha querida! - exclamou. - Trago uma boa novidade. Shirley, uma amiga de Debs (voc deve conhec-la,  aquela alta e magra que parece uma 
cegonha) leu As Poes de Mimi e achou genial. Veio aqui em casa e no falou de outra coisa. Sua voz
      baixou um pouco de tom e ele continuou, em tom de confidncia: - A princpio ela nem sabia que voc  minha filha, no se ligou no nome. Pois bem, o clube 
de leitura dela escolheu o seu como o livro do ms e, assim que ela descobriu que voc  minha filha, ficou louca e agitada, entende? Quer exemplares autografados.
      - Bem, ahn... Puxa, que legal, papai. Obrigada. - Apesar de ser um incidente isolado, aquilo me animou um pouco.
      No perguntei o porqu de ser ele o portador da boa notcia, em vez de Debs: ela ficaria mortificada se fosse obrigada a ser gentil comigo. No era  toa que 
a chamvamos de "Debs, a desagradvel".
      - Estou com seis livros aqui para voc autografar. Quando eu posso passar em sua casa?
      - Quando quiser, papai, eu no tenho aonde ir mesmo.
      Ele percebeu o tom da minha voz.
      - Ei, se anime, garota! - disse ele, com ar de jbilo. - Isso  apenas o comeo.
      Uma vez eu li um artigo no jornal que descrevia o ator Bob Hoskins como "testculos com pernas" e isso me acendeu uma luzinha no crebro: papai era exatamente 
igual. Era baixinho, tinha um corpo de barril e era cheio de si por ser um menino pobre que trabalhara e se dera bem na vida, para depois se dar mal e por fim se 
dar bem novamente.
      Minha me - uma "beldade" - bem que merecia algum mais bonito. Essas eram exatamente as palavras dela (apesar de falar brincando). Ela havia namorado papai 
porque ele lhe disse: "Fique comigo, boneca, porque ns vamos longe!" Essas foram exatamente as palavras dele, e papai cumpriu a promessa. Eles foram de uma casinha 
pobre em Hounslow West para o descolado esplendor de Guildford, indo em seguida para um apartamento de dois quartos em Kentish Town, sobre uma lanchonete de churrasco 
grego.
      Ter um pai com esprito empreendedor parece uma coisa boa, certo? Homens desse tipo acumulam fortunas muito depressa e mudam com a mulher e as duas filhas 
para uma casa de cinco quartos com janelas de vitral em Surrey. Mas o que poucos comentam  que muitas vezes esses sujeitos que gostam de correr riscos vo longe 
demais e arriscam tudo, inclusive a casa onde moram, na expectativa de ter mais um golpe de sorte e aumentar exponencialmente sua j imensa fortuna.
      As colunas financeiras sempre exibem grande admirao por esses homens (quase sempre so homens) que "ganham um milho, perdem tudo, vo em frente e ganham 
outro milho". Mas se esse homem for um pai de famlia?
      s vezes eu ia para a escola em um Bentley zero quilmetro; depois, ia de nibus e, quando a coisa piorava, nem ia mais  escola. s vezes freqentvamos o 
Clube dos Pneis, de repente no havia pnei algum e ento me era oferecida a chance de ter outro pnei e
      eu recusava. Como poderia ter certeza de que ele no me seria novamente arrancado de uma hora para outra?
      Mas eu adorava o meu pai. Ele era basicamente otimista e nada o deixava de farol baixo por muito tempo.
      No dia em que tivemos de deixar a casa de Guildford para trs, ele chorou como uma criana, esfregando os dedinhos rolios sobre o rosto cheio de lgrimas.
      - Minha linda casa de cinco quartos e trs banheiros... - lamentou.
      Eu e minha irm mais nova, Jessie, tentamos consol-lo:
      - No era assim to maravilhosa - disse eu.
      - E os vizinhos nos odiavam - cantarolou Jessie.
      - ... - fungou papai, aceitando um leno de papel que Jessie ofereceu. - So um bando de vagabundos esses corretores da bolsa.
      No momento em que entramos no nibus, cinco minutos depois, ele j se convencera de que era melhor cair fora daquele lugar.
      Acho que foi essa constante insegurana financeira que levou mame a se divorciar dele, depois de aturar muito, mas eu sei que um dia os dois se amaram bastante. 
Eles se referiam a si mesmos de forma carinhosa, na terceira pessoa, chamando-se de "Davey & Carol". Mame dizia que papai era o seu "diamante bruto", e ele a chamava 
de "meu pssaro de plumagem extica".
      Eu nunca aceitei por completo o divrcio dos meus pais. No fundo, existe dentro de mim um foco de resistncia a essa realidade e ainda acalento esperanas 
de uma reaproximao. Mame expulsou papai de casa duas vezes, mas, em ambas as ocasies, chamou-o de volta no mesmo dia. Apesar de eles terem se separado h dezoito 
anos, isso sempre me pareceu uma situao temporria.
      Quando papai conheceu Viv, no entanto, as chances de meus pais tornarem a ficar juntos praticamente desapareceram.
      Viv e mame eram muito diferentes. Minha me no era genuinamente elegante e seu pai era mdico. Comparada a Viv, porm, mame parecia pertencer  aristocracia.
      Papai conheceu Viv em uma corrida de ces e se encontrou com ela em segredo durante meses, at que decidiu se casar. Nesse dia ele chamou a mim e a Jessie 
para conversar e nos deu a notcia.
      - Ela tem um corao de ouro - explicou ele.
      - O que o senhor quer dizer com isso?
      - Que ela  igual a mim.
      - Igual como...? Uma pessoa comum? - perguntou Jessie.
      - Isso mesmo.
      - Ah, que timo!
      Papai morria de medo que Jessie e eu pudssemos odiar Viv, e isso  compreensvel. Afinal, alm de Viv ser a madrasta malvada, eu tinha dezesseis anos e Jessie, 
quatorze, ambas na plena fase adolescente de emoes transbordantes. Odivamos at mesmo as pessoas que amvamos, ento que chances uma intrusa como Viv poderia 
ter?
      Mas Vivera uma flor em forma de gente: calorosa e acolhedora, uma pessoa daquelas que a gente tem vontade de abraar.
      Na primeira vez que papai levou Jessie e a mim  casa de Viv, muito apertada e eternamente imersa em uma nuvem de fumaa de cigarro, vimos um motor de carro 
colocado sobre a mesa da cozinha, pingando leo. Um de seus filhos - Baz, ou Jez - limpava as unhas com uma faca de cozinha comprida e serrilhada.
      - Oohhh, estamos morrendo de medo de voc! - zombou Jessie.
      Baz (ou Jez) lanou-lhe um olhar sombrio e mal-humorado.
      Jessie fingiu tropear de susto e puxou o brao dele, fazendo-o enfiar a faca no dedo sem querer.
      - Aai! - berrou Baz (ou Jez), balanando a mo dolorida. - Caraca, sua vaca idiota!
      Divertindo-se com a reao dele, Jessie espiou por trs das franjas compridas demais e lanou um sorriso de sarcasmo. Houve um instante tenso e eu pensei que 
ele fosse mat-la, mas ento ele caiu na gargalhada e os dois viraram amigos. Ns ramos as irms louras e
      elegantes deles, e ambos cuidavam de ns, orgulhosos e protetores. Ns, do nosso lado, torcamos para que Baz e Jez fossem marginais.Porm, para nosso profundo 
desapontamento, descobrimos aos poucos que era tudo exibio.
      - Quer dizer ento que vocs nunca estiveram presos? - perguntou Jessie, aflita. Baz balanou a cabea para os lados.
      - Nunca estiveram nem mesmo em uma casa de recuperao para delinqentes?
      Jez pareceu que ia responder que sim, por um breve instante, mas depois mudou de idia e admitiu a verdade. No, tambm no estivera em nenhuma casa de recuperao.
      - Puxa vida!-lamentei.
      - Mas j nos metemos em vrias badernas e brigas de rua - garantiu-nos Jez, um pouco ansioso. - Temos at cicatrizes. - J estava arregaando as mangas, para 
exibi-las.
      - Temos tatuagens tambm - completou Baz.
      Mas Jessie e eu balanamos nossas cabeas louras e elegantes. Aquilo no era bom o bastante.
      Jessie e eu morvamos com mame no apartamento de Kentish Town, mas passvamos quase todos os fins de semana na casa de Viv. Ser filha de pais divorciados 
no era a melhor coisa do mundo, mas certamente parecia muito melhor do que eu tinha imaginado.
      Pensando bem, depois de todos esses anos, aquilo se devia muito ao calor de Viv e ao carinho de meus irmos postios.
      Jessie aceitou o divrcio muito melhor do que eu. Vivia enumerando, toda alegrinha, as muitas vantagens de vir de um "lar destroado".
      - Podemos aprontar o que quisermos e todo mundo vai compreender e ser gentil conosco. E pense nos presentes! Se soubermos fazer as coisas direitinho, essa 
histria de divrcio pode ser muito... Como  mesmo a palavra?
      - Lucrativa.
      - Isso significa ganharmos montes de coisas?
      - Sim.
      - Lucrativa, ento.
      Mame tentou ser adulta e imparcial com relao  nova esposa de papai, mas quase todo domingo  noite, quando voltvamos para casa, ela no se agentava e 
perguntava:
      - Como vo o Rei e a Rainha das Prolas?
      - Esto timos. Mandaram um beijo para a senhora.
      - Vocs j jantaram?
      - J.
      - Comeram o qu? Miojo com pur de ontem?
      - Iscas de peixe com batatas fritas.
      Trs anos depois de se casarem, papai e Viv tiveram um filho, Bobby, o Prncipe Perolado. Ele foi batizado com esse nome em homenagem a Bobby Moore, o heri 
do West Ham United.
      Os cimes me devoraram. Papai no me daria mais ateno, agora que tinha um filho.
      Resolvi no visitar o beb e agentei firme por dezesseis dias. S cedi quando mame conversou comigo a respeito:
      - Cresa, querida. Todos a adoram, mas esto muito chateados por voc no ter ido ver seu irmozinho. Quer voc goste ou no, ele faz parte da sua famlia 
e, que diabos, se at eu consegui ir visit-lo, tenho certeza de que voc tambm vai conseguir.
      Com m vontade, comprei um hipoptamo de pelcia e, acompanhada por Jessie, peguei o trem at Dagenham. Jessie me encheu os ouvidos com histrias sobre o quanto 
Bobby era fofinho e meigo, mas eu no acreditei em nada disso. At v-lo
      Com muito cuidado, peguei aquela miniaturinha de gente e o encaixei na curva do brao; ento, ele sorriu para mim - talvez tenha sido apenas uma contrao 
muscular involuntria, mas no importava. Depois, ele agarrou algumas pontas do meu cabelo com seus dedinhos em forma de camaro. Como algum poderia ter cime daquela 
gracinha?
      Logo depois do nascimento do Prncipe Perolado, mame conheceu Peter e tivemos mais mudanas pela frente: mame resolveu morar na Irlanda. Isso virou novamente 
a minha vida de ponta-cabea.
      Minha famlia estava se espalhando pelos quatro cantos do mundo e eu era obrigada a aturar isso.
      No havia lugar para mim na casa de papai; o cmodo no qual Jessie e eu dormamos virara o quarto de Bobby. Eu implorei  minha me para deixar que Jessie 
e eu fssemos com ela para a Irlanda, mas, apesar de mame concordar, Jessie no quis ir. Ela gostava de Londres
      e resolveu permanecer ali. Quando ela soltou essa notcia bombstica para mim, eu reagi do modo habitual: vomitei todo o jantar.
      Aquilo era ridculo: Jessie tinha dezoito anos e eu, vinte, mas parecia que estvamos sendo enviadas a orfanatos diferentes. Enchi baldes de lgrimas no dia 
em que fui para Dublin.
      No era apenas pela tristeza de deixar Jessie para trs, mas porque Peter tinha uma filha, Susan, que era seis meses mais velha do que eu. Eu esperava que 
ela reagisse mal  minha chegada e comeasse a pentelhar a minha vida - mas aconteceu exatamente o contrrio.
      A coisa que mais a empolgava era tentar descobrir se ns ramos irms por afinidade ou simplesmente irms postias, e ficou muito satisfeita ao descobrir que, 
assim que Peter e mame se casassem, poderamos nos considerar "meias-irms".
      A melhor amiga de Susan se chamava Gemma Hogan e ns superamos nossas maiores expectativas ao nos tornarmos um trio inseparvel. Por alguns anos, a situao 
da minha famlia foi estvel e satisfatria, talvez se parecesse muito com um daqueles filmes franceses em que todo mundo j dormiu com o resto do elenco.
      Entretanto, todos se relacionavam bem uns com os outros.
      Mas nada dura para sempre.
      Nove anos depois de se casar com Viv, papai conheceu Debs e, por alguma razo incognoscvel, se apaixonou por ela; acho que Cupido quis pegar uma pea em papai.
      Debs cuidava sozinha de duas crianas, pois fora abandonada pelo marido. Papai resolveu resgat-la. Deixou a adorvel Viv e seu corao de ouro e a trocou 
pela desprezvel Debs.
      Todo mundo achou que ele estivesse sofrendo de insanidade temporria, mas assim que o seu divrcio com Viv foi homologado, ele se casou com Debs. Eu ganhei 
mais dois "meios-irmos", Joshua e Hattie. Ento Debs engravidou e deu  luz uma garotinha, Poppy. Mais uma meia-irm, s que essa era de sangue.
      Quando conheci Anton, tive de desenhar um grfico para conseguir explicar tudo a ele:
      
     
      
     
42
      
      Ento, em uma bela manh no incio de fevereiro, Otalie me telefonou:
      - Saiu uma resenha fantstica de As Poes de Mimi na Flash! desta semana.
      - O que  essa tal de Flash!? - perguntou Anton, que ainda no tinha sado para trabalhar.
      -  uma revista sobre celebridades.
      - Vou comprar! - Ele j estava descendo as escadas.
      
     AS DIVERTIDAS POES DE MIMI
      
      As Poes de Mimi, de Lily Wright- Editora Dalkin Emery, 298 pgs.- preo: E 6.99
      
      Voc est na fissura? Tem o traseiro grande demais? A tatuagem inflamou? O mdico de planto da revista Flash! recomenda que voc calce os seus Jimmy Choos 
novos, v at a livraria mais prxima e se trate com As Poes de Mimi. Sabemos que vocs, garotas, vivem muito ocupadas, agitando todas, e no tm tempo de ler 
livros, mas esse aqui vale a pena e estamos falando srio. Brilhante, alegre e doce como Kylie Minogue, ele vai fazer voc rolar de rir.
      Melhor parte: o casal briga e voa um na garganta do outro - escandalosamente divertido. As Poes de Mimi recoloca a palavra ENGRAADO nos trilhos da anormalidade!
      A pior parte: acabar de ler! Este livro  to delicioso quanto um balde de bombons, s que sem a sensao de culpa. Corram para pegar essa onda, garotas! Ns, 
da revista Flash!, prometemos, de ps juntos: se vocs no se acabarem de tanto rir, juramos comer nossos chapus Philip Tracey.
      
      - Eles deram uma cotao de quatro e meio sapatos de salto agulha - leu Anton, maravilhado. - A cotao mxima  cinco. Essa resenha est fantstica.
      Estava mesmo. Embora nunca tenha sido a minha inteno recolocar a palavra "engraado" nos trilhos da anormalidade, mas deixem pra l.
      Jojo telefonou em seguida:
      - Tenho uma tima notcia - informou. - A Dalkin Emery vai rodar uma nova edio de As Poes de Mimi.
      - O que isso quer dizer?
      - Quer dizer que a primeira edio esgotou e eles esperam vender mais.
      - E isso  bom, no ?
      - Sim,  timo!
      Liguei para Anton e contei a novidade. Ele ficou sem palavras.
      - O que foi? - perguntei, ansiosa.
      - Sou s eu que estou sentindo - ele grasnou - ou algo de muito bom est pintando?
      
      Mais ou menos uma semana depois, Jojo tornou a ligar.
      - Algo incrvel aconteceu!
      - Ah, foi?
      - Vo lanar mais uma edio!
      - Eu sei, voc mesma me contou.
      - No, eles vo rodar outra edio alm daquela. Vinte mil exemplares dessa vez. A primeira edio foi de cinco mil e a segunda, de dez mil. Voc est vendendo 
na base da divulgao boca a boca.
      - Mas, Jojo, por que isso?... O que est acontecendo?
      - O livro tocou em algum ponto sensvel das pessoas. Voc devia olhar as opinies dos leitores no site da Amazon. Sua sinceridade e seu jeito pouco solene 
de escrever esto comovendo todos os que lem o livro. Saiu um artigo na Book News desta semana, com uma foto grande de voc pendurada no galho de uma rvore, tendo 
um ataque de riso. Vou pedir para Manoj lhe mandar por fax.
      - Que bom! S que... Ns no temos fax.
      - Tudo bem, ento. Eu mando pelo motoboy.
      - Ahn... No  melhor mandar pelo correio? - As encomendas especiais eram cobradas na entrega; as cpias tambm eram muito caras e Anton e eu estvamos sem 
grana nenhuma.
      - Pode deixar que o motoboy leva e no pense nas despesas, pois quem vai pagar sou eu.
      Puxa vida!
      - No esquea de ler os depoimentos dos leitores na sua pgina da Amazon - relembrou Jojo, ao desligar.
      Pedi a Anton para me ajudar a procurar As Poes de Mimi no site da Amazon. Havia dezessete resenhas dos leitores, e todos eles tinham dado quatro ou cinco 
estrelas, o que era fantstico, pois a cotao mxima era cinco estrelas. Fui lendo frases como "traz de volta o aconchego da infncia  mgico... Encantador... 
Fui transportada para outra realidade  a recuperao da inocncia perdida... Ausncia total de arrogncia estilstica... Traz esperanas e levanta o astral... Me 
fez rir muito...".
      Eu me senti atnita. Tanto que fiquei com vontade de chorar, de tanto orgulho e felicidade. Quem eram aquelas pessoas maravilhosas? Ser que algum dia eu conheceria 
alguma delas? De repente, eu me senti cheia de novos amigos.
      Ento um pensamento horrvel me assombrou.
      - Anton, isso no  brincadeira, ?... - perguntei, cautelosa. - Ser que no tem algum por a me pregando uma pea?
      -  tudo verdade. Apesar de no ser o que normalmente se v, Lily - explicou Anton. - As opinies dos leitores no site da Amazon muitas vezes so terrveis. 
- Ele me mostrou algumas das crticas que outros escritores recebiam. Algumas os transformavam em coc do cavalo do bandido, e eu me encolhi, trmula.
      - Como  que as pessoas podem ser to cruis?
      - Contanto que ningum faa o mesmo com voc, o que importa? - disse Anton.
      Na semana seguinte, recebemos a notcia de mais uma edio. O livro alcanou a surpreendente vendagem de cinqenta mil exemplares. Ento Tania Teal me ligou 
e perguntou:
      - Voc est sentada?
      - No.
      - Ento sente-se para ouvir isso. Voc, Lily Wright, autora de As Poes de Mimi, est em quarto lugar na lista dos mais vendidos do Sunday Times.
      - Como?
      - Voc vendeu dezoito mil, cento e doze exemplares de As Poes de Mimi na semana passada.
      - Vendi?!...
      - Vendeu. Parabns, Lily, voc virou uma estrela! Estamos todos muito orgulhosos!
      Mais tarde, naquele mesmo dia, recebi flores da Dalkin Emery. Uma pequena nota no Daily Mail me descrevia como um "fenmeno" e, nos dias que se seguiram, todo 
mundo que ligava pedia para falar com o "fenmeno". Alm de ganhar destaque nas prateleiras da livraria em Hampstead, eu agora tinha um painel na porta da frente 
e um display s para o meu livro na vitrine. Elas at me convidaram para ir l autografar exemplares, e Anton me aconselhou a mand-los tomar naquele lugar. Na verdade, 
ele chegou a pedir pelo privilgio de fazer essa ligao. Eu, porm, generosa, decidi perdo-los. No me sentia amarga. Sentia-me embebida em alegria e felicidade.
      At que o Observer publicou uma resenha do meu livro...
      
     
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      The Observer, domingo, 5 de maro
      
     DOCE E AMARGO
      
      As Poes de Mimi, de Li/y Wright - Editora Dalkin Emery, 298 pgs. - preo: f 6.99
      
      As Poes de Mimi  um livro to doce que conseguiu revirar o forte estmago de Alison Janssen.
      Como eu ganho a vida fazendo resenhas de livros, todos os meus amigos tm inveja do meu trabalho, mas, da prxima vez que eles comearem a comentar sobre o 
quanto a minha vida  fcil, vou Ihes dar As Poes de Mimi e insistir para que o leiam at o final. Isso vai faz-las mudar de idia sobre o que fao.
      Se eu dissesse que As Poes de Mimi  o pior livro que eu j li em toda a minha vida, provavelmente estaria exagerando, mas j d para vocs terem uma idia. 
O material de divulgao enviado pelos editores o descreve como uma "fbula" - sinalizando que no devemos esperar realismo, personagens tridimensionais nem dilogos 
plausveis.
      Puxa vida, eles tinham razo. Trata-se de uma desajeitada punhalada no realismo mgico, sem conseguir ser nem mgico nem realista. Para ser franca, o livro 
me pareceu to inspido que eu passei as primeiras cem pginas esperando alguma virada radical na histria.
      Vai acontecer o mesmo com vocs, quando ouvirem o resumo daquilo que se faz passar por trama: uma dama linda e misteriosa aparece do nada em um pequeno vilarejo 
onde se manifestam todas as verses possveis e imaginveis dos defeitos humanos. Um pai e seu filho, que romperam relaes um com o outro, um marido infiel, uma 
jovem esposa frustrada - at aqui, uma cpia fiel do filme Chocolate. Mas, em vez de biscoitos e doce, Mimi prepara encantamentos e at divide a receita com os leitores; 
muitas delas incluem instrues que provocam nsias de vmito: 'Adicione uma pitada de compaixo, uma colher de ch de amor e polvilhe com gentileza."
      Se esse  o remdio, eu prefiro a doena.
      L pelo meio desse romance misericordiosamente curto, eu me senti como se estivesse sendo torturada at a morte por chicotes cobertos de acar ou tivesse 
algodo-doce sendo forado pela minha garganta adentro.
      A autora, uma tal de Lily Wright, j trabalhou como relaes-pblicas de vrias empresas. Certamente conhece tudo sobre a arte de manipular de forma vergonhosa 
os sentimentos das pessoas, e prova sua habilidade em cada uma das palavras piegas que usa. A "trama" do livro  temperada por referncias falsamente modestas a 
milagres, mas o nico milagre verdadeiro  o fato de esse lixo aucarado conseguir ser publicado. O livro consegue ser to doce a ponto de provocar cries nos dentes 
dos leitores, mas , ao mesmo tempo, to desagradvel quanto chupar um limo.
      As Poes de Mimi  indolente, artificial e chega ao limite do impossvel de ser lido. Portanto, da prxima vez que voc reclamar do seu emprego, pare alguns 
instantes e pense nos infortnios desta avaliadora de romances...
      
      Isso foi uma das piores coisas que me aconteceram em toda a minha vida. Foi quase igual ao dia em que eu fui assaltada. Depois de ler o texto mais uma vez, 
meus ouvidos comearam a zumbir e eu me senti a ponto de desmaiar. Corri para o banheiro e pus para fora todo o caf-da-manh. (Talvez, a essa altura, j esteja 
claro para vocs que eu sou o tipo da pessoa fraca que tem nuseas sempre que se aborrece com alguma coisa.).
      Sendo uma liberal de corao compassivo, eu era uma leitora assdua do Observer e era particularmente doloroso ser atacada por um rgo que eu respeitava. 
Se tivesse sido o Torygraph, eu provavelmente teria gargalhado e dito: "Tambm... O que se poderia esperar de um jornal desses?" Na verdade, talvez eu no casse 
na gargalhada, porque ser transformada em escria na frente do mundo inteiro no  nada divertido. Mas eu os teria chamado de fascistas e tentado descartar suas 
opinies.
      Muitas vezes eu lia resenhas ruins sobre livros escritos por outras pessoas, bem como filmes e peas, e sempre presumi que as obras avaliadas mereciam ser 
arrasadas. Eu, porm, no merecia aquilo, e aquela tal de Alison Janssen simplesmente no compreendera o meu objetivo ao escrever o romance.
      Jojo telefonou para me animar um pouco.
      - Esse  o preo do sucesso. Ela est com cime de voc. Aposto que tem algum romance medonho do qual todo mundo quer distncia e ficou revoltada com voc, 
que  uma escritora com um livro de sucesso na praa.
      - Isso acontece? - Eu sempre achei que pessoas que analisam livros fossem criaturas nobres e imparciais, absolutamente desinteressadas nas picuinhas humanas 
e muito acima delas.
      - Claro que acontece. O tempo todo!
      Em seguida, Otalie, a minha divulgadora, ligou.
      - Amanh as palavras dessa mulher vo estar embrulhando peixe na feira - consolou-me ela.
      - Obrigada. - Coloquei o fone no gancho e comecei a tremer violentamente. Estava gripada. S que no estava. Como sou uma Garota Psicossomtica, sentia os 
sintomas de uma gripe forte.
      Ento papai ligou: havia lido a resenha. S Deus sabe como isso pode ter acontecido, porque ele l o Express e no tem tempo para o que chama de "lixo esquerdista" 
apresentado em jornais como o Observer.
      Ele transbordava de fria:
      - Aquela palhaa no pode falar essas coisas a respeito da minha garotinha. Voc merece o melhor, princesa. Vou trocar umas palavrinhas com Thomas Myles.
      Uma vez, no passado longnquo, Thomas Myles tinha sido editor de algum jornal, mas at eu sabia que no era o Observer. Fazer essas coisas era a cara de papai.
      
     ** *
      
      Imaginei que o mundo inteiro estava rindo da minha cara e me vi assustada demais para sair s ruas, pois ia me sentir como se andasse em pblico completamente 
nua.
      Gastei uma absurda quantidade de tempo tentando imaginar quem aquela tal de Alison Janssen poderia ser e o que eu fizera para torn-la to cruel. Cheguei a 
pensar em ficar fazendo hora diante do Observer, a fim de abord-la na rua e exigir explicaes. Em seguida, pensei em escrever ao Observer para contar a minha verso 
da histria.
      Anton comentou que conhecia alguns "rapazes" em Derry e eles poderiam dar uma surra nela com barras de ferro; fiquei chocada ao perceber que no queria que 
os rapazes de Derry fizessem aquilo: eu mesma queria faz-lo.
      Ento, recaindo na falta de auto-estima, decidi que Alison Janssen tinha razo e eu era uma idiota sem talento; nunca mais tentaria escrever uma nica palavra.
      No domingo seguinte, o lndependent publicou uma resenha do livro: era to demolidora quanto a do Observer. Otalie me ligou novamente para oferecer palavras 
de conforto.
      - Amanh essas palavras vo estar no cho do quintal de algum, cobertas por xixi de cachorro.
      Isso pouco me serviu de consolo, pois agora at os ces saberiam o quanto o meu livro era abominvel.
      Um artigo apareceu no Daily Leader, alguns dias depois; at que eram palavras positivas, mas eles comentavam que, apesar de Anton trabalhar como chef em um 
restaurante, eu no oferecera nem um biscoitinho ao jornalista que me entrevistara. Eu me senti terrivelmente envergonhada com aquela histria dos biscoitos, mas 
no tanto quanto meu pai, que sempre se orgulhou de ser generoso e hospitaleiro.
      O resultado disso tudo, em poucas palavras,  que eu tinha receio de abrir qualquer jornal.
      Assim que fomos informados que a Book News vinha me entrevistar, Anton correu at a Sainsburys para buscar os biscoitos mais sofisticados que o dinheiro pudesse 
comprar. Mas o jornalista no comeu nenhum e nem ao menos os mencionou no artigo. Eles chamaram
      Anton de "Tom" e uma foto de ns dois com a cabea inclinada uma na direo da outra foi publica da com a seguinte legenda: "Lily e seu irmo Tom."
      Depois veio a tal reportagem da srie "fulano em sua casa" com Martha Hope Jones. Aquilo foi considerado uma grande vitria e Otalie me pareceu empolgadssima:
      - Voc chegou l, Lily!
      - Eu no poderia me encontrar com ela em um caf?
      Era impossvel transformar o nosso apartamento apertado e escuro em um lugar bonito, e tentar fazer com que os jornalistas escapassem de Paddy Porra-Louca 
acabava com meus nervos.
      - Lily, no pode ser em outro lugar, trata-se de um artigo para a srie "em casa".
      Anton foi mais uma vez enviado ao supermercado para comprar os melhores biscoitos que existissem sobre a face da Terra. O artigo ainda no tinha sado e ns 
estvamos com a respirao suspensa, esperando para ver se Martha iria mencion-los ou no.
      Apesar das resenhas ruins, o livro me deixou surpresa, pois continuava vendendo sem parar. Achei que o grupo de leitores em Wiltshire que se auto-intitularam 
"os bruxos" em minha homenagem fosse um caso isolado, mas outro grupo entrou em contato com
      a Dalkin Emery para dizer que tambm havia criado um clube de fs com esse nome.
      - Alguns crticos podem no gostar de voc - disse Otalie - , mas seus leitores a adoram.
      De vez em quando, pintava uma resenha favorvel. Por exemplo, a revista Loaded descreveu o livro como "a maior diverso que algum pode ter usando roupas". 
O resto da mdia continuou interessado. O mais estranho, porm,  que as boas avaliaes causavam um impacto pequeno em mim. Eu sabia de cor cada palavra das resenhas 
desagradveis, mas no confiava em nenhuma das boas.
      
     
44
      
      Assim que abri os olhos naquele domingo, um pressgio me colocou
      pra baixo.
      Deitado ao meu lado, Anton perguntou:
      - Temos algo terrvel programado para hoje, no ?
      Suspirei.
      - Vamos almoar com papai e Debs, em Vanish Hall.
      - Que alvio! Pela sua cara, achei que eu ia ser executado ou algo assim. Se ao menos a gente pudesse... Isto , o seu pai  um cara legal, mas... - Depois 
de outra pausa, com ar sofrido, Anton pegou o fone e comeou a me imitar, falando: - Debs, eu adoraria visitar
      vocs, querida, mas acabei de quebrar a perna. Foi um acidente esquisitssimo. Eu estava esvaziando a mquina de lavar e, de repente, ouvi um crac!, e em seguida 
me estabaquei no cho. Os ossos da perna so assim mesmo, no se pode confiar neles... Como disse...? Voc quer que eu v pulando em uma perna s at Vanish Hall? 
Bem, eu
      at que gostaria, mas voc no ouviu o noticirio? Sobre a ogiva do mssil nuclear que acabou de explodir sobre Gospel Oak? No, Debs, eu tenho a leve impresso 
de que no d para limpar detritos atmicos com um pano mido e Vanish, o seu amigo para limpeza pesada.
      Anton recolocou o fone no gancho e ficou deitado de costas com olhar sombrio.
      - Merda! - observou ele. - Ainda por cima vamos levar o dia inteiro para chegar l.
      Embora provavelmente' tivesse condies financeiras para isso, papai no voltara a morar em Surrey. Depois de ser quase expulso de l, acho que ele temia que 
algum leo-de-chcara estivesse na entrada do condado s para impedi-lo de retomar.
      Ele agora morava em Muswell Hill, uma linda propriedade, em uma casa em estilo eduardiano que vivia envolta em cheiros fortes e artificiais. Debs limpava e 
aspirava os cmodos quase todo dia, adorava aromatizadores de ar e lencinhos umedecidos eram seus amigos mais chegados.
      Muswell Hill no era to absurdamente longe de Gospel Oak, se voc fosse voando. Por trem, no entanto, a histria era muito diferente.
      Anton estava debaixo do chuveiro e eu trocava a fralda de Ema quando o telefone tocou. Deixei a secretria eletrnica atender, porm, depois de alguns segundos, 
a curiosidade venceu e eu corri para a sala, a fim de ouvir o recado.
      Era Otalie. A entrevista com Martha Hope Jones fora publicada; ela no esperava que a matria sasse na edio de domingo e nem disse que o artigo estava "fantstico". 
Aquilo era mau sinal.
      - Anton - gritei - , vou sair para comprar o jornal.
      Anton saiu do chuveiro e perguntou:
      - O que foi?
      - O artigo da Martha Hope Jones saiu.
      - Deixe que eu vou! - Anton vestiu as roupas correndo, sem nem ao menos se enxugar, e saiu porta afora.
      Enquanto ele no voltava, continuei a vestir Ema como se eu fosse um autmato, enquanto rezava: Por favor, fazei com que a reportagem esteja boa, Senhor, fazei 
com que esteja boa.
      Ento Anton chegou, com o jornal dobrado embaixo do brao.
      - E ento...? - perguntei, ansiosa.
      - Ainda no olhei.
      Abrimos o jornal no cho e o folheamos com dedos trmulos.
      Ali estava. O artigo era de pgina dupla e o ttulo era "Mimi ou mau-mau?". Pelo menos era diferente de "Lily escreve e a leitora  escrava", ou outros ttulos 
do tipo "Lily... que tal l-Ia?". Que outros trocadilhos e jogos de palavras horrorosos ainda havia para os jornalistas inventarem?
      Pelo menos a foto estava boa; dessa vez eu parecia inteligente, em vez de idiota. Porm, embaixo da foto de Martha com suas dra gonas franjadas que encostavam 
nas orelhas, havia uma imagem horrvel de um ombro ferido, com marcas roxas. A legenda dizia: "O ombro de Lily ficou assim depois do assalto." Minha nossa!
      Comecei a passar os olhos pelo texto em estilo "leitura dinmica":
      Lily Wright est escalando a lista dos mais vendidos com o seu "romance" As Poes de Mimi. No pensem, porm, que essa obra foi fruto de um trabalho longo 
e meticuloso. "Levei apenas oito semanas para escrev-o", gabou-se Lily. "Geralmente os livros levam cinco anos para serem escritos, e muitas vezes nem so publicados."
      
      Ler isso foi como receber um balde de gua fria na cara.
      - Eu no me gabei de nada - sussurrei. - E o que ela quer dizer com "romance"? Trata-se de um romance, e no de um "romance".
      
      O livro de Lily vem sendo descrito como "enjoativamente doce", mas no se pode dizer o mesmo de sua criadora. Mostrando um arrogante desdm pela opinio alheia, 
Lily disse: "Pouco me importa o que os crticos dizem."
      
      Meus olhos buscaram mais uma vez a minha foto: agora eu no parecia inteligente, e sim calculista.
      Em seguida, ela citou a minha frase ao receb-la: "Bem-vinda  minha humilde morada."
      
      Bem, uma de ns tinha de falar essa frase!
      
      Ela fez referncias s roupas secando no varal da cozinha...
      
      Lily Wright no d a mnima para a beleza ou a higiene do lar.
      
       pea de Lego...
      
      Quando uma pessoa  convidada a sentar, ser que  demais esperar que a dona da casa tenha removido todos os objetos pontiagudos do sof?
      
      Meu status de solteira...
      
      Embora Lily j tenha uma filhinha, no demonstrou interesse algum em legitimaria. Por falar nisso, que tipo de me manda a filha brincar l fora em uma temperatura 
abaixo de zero?
      
      Foi HORRVEL.
      - Ela me fez parecer a Courtney Love - reclamei, extremamente consternada.
      Ela citou as piores partes das resenhas do Observer e do lndependent, para o caso de uma ou outra pessoa no ter lido os jornais. Em seguida, relatou a histria 
do assalto, enfatizando muito o fato de eu no me esforar para correr no encalo do ladro. O ltimo pargrafo dizia:
      O trauma do ataque que Lily sofreu ainda no se dissipou. Apesar de estar com o bolso cheio de grana, Lily Wright prefere morar em um conjugado com um nico 
cmodo, o qual, para ser franca, parece pouco melhor do que um barraco. Ser que  isso que ela acha que merece? Se for o caso, talvez tenha razo...
      
      - Cad o bolso cheio de grana? - perguntei. - Tirando o adiantamento, u no vi nem um penny sequer. E o que eu sou, afinal? A mulher arrogante ou a vtima 
de baixa auto-estima? Alm do mais, isso aqui no  um conjugado,  um apartamento de quarto-e-sala.
      Pela primeira vez, Anton no se mostrou otimista. No havia nada de bom no artigo. Nadinha.
      - Devemos process-la? - perguntei.
      - No sei - disse ele, pensativo. - Vai ser a sua palavra contra a dela. Alm do mais, muito do que ela escreveu  apenas opinio pessoal, e as pessoas no 
podem ser processadas por isso.  melhor conversar com Jojo a respeito.
      - Certo. - Uma nova sensao glida me atingiu. Aquilo era um milho de vezes pior do que a resenha do Observer. L, a jornalista limitou-se a arrasar com 
o meu livro, mas o artigo que eu acabara de ler me atacava em nvel pessoal.
      - S uma pessoa muito perversa pode ser to cruel- falei, tentando convencer a mim mesma. - Ela provavelmente  muito infeliz.
      - Eu tambm seria, se me parecesse com ela. Que diabos de esfreges so esses que ela carrega em cima dos ombros? Voc no est com vontade de vomitar?
      Balancei a cabea para os lados.
      - Nossa, ento a coisa  pior do que eu pensava.
      Uma segunda leitura do artigo mostrou novos equvocos que no havamos percebido da primeira vez, por causa do choque.
      - Anton, ela d a entender que voc  um operrio.
      - Um otrio?
      - No, um operrio!
      - De onde  que esse pessoal tira essas IDIAS? E a piranha no falou nada dos biscoitos, apesar de termos oferecido os melhores que existem.
      - Vou ligar para Jojo.
      Mas a ligao caiu na secretria.
      Anton e eu ficamos simplesmente olhando um para o outro. No tnhamos nem o equipamento bsico de proteo para lidar com aquele tipo de coisa. At Ema permaneceu 
estranhamente quieta.
      Continuamos em silncio por mais alguns minutos, at Anton dizer:
      - Escute... Tive uma idia!
      Ele colocou a pgina dupla do jornal bem no meio da sala, alisou as pontas e estendeu a mo para mim.
      - Vamos l!
      - Vamos l aonde?...
      Ele procurava um dos seus CDs.
      - Vamos ver... Sex Pistols? No, no... Encontrei um muito melhor!
      Ligou o som e colocou um disco de dana flamenca.
      Perplexa, eu o vi empinar o trax, bater com os ps no cho e abrir os braos em arco acima da cabea, comeando a danar e a sapatear, massacrando o artigo. 
Na verdade, ele me pareceu muito bom, quase to bom quanto Joachim Cortes. Ema, aliviada ao sentir que a atmosfera pesada parecia ter se dissipado, comeou a dar 
gritinhos de alegria e galopar em volta de Anton. A msica acelerou e Anton tambm, sapateando e batendo palmas com muita exuberncia, at que a msica acabou e 
ele atirou a cabea para trs com um floreio.
      - Ol!
      - L!... - gritou Ema, imitando o pai, jogando a cabea para trs e quase capotando de costas.
      A msica seguinte comeou.
      - Venha c! - Anton me chamou.
      Eu tentei bater com o p no cho e gostei. Tornei a bater e de repente entrei no clima. Concentrava os golpes de calcanhar no rosto de Martha, at que Anton 
empurrou meu p para o lado, com o dele, pedindo:
      - Deixe eu pisar na cara dela um pouquinho. Muito bom!... Ema, agora  a sua vez.
      Ema pulou bem em cima da foto de Martha.
      - Grande garota! - incentivou Anton. - Agora, bata com o calcanhar bem no queixo dela.
      Ento, Anton deu alguns passos para trs, tomou distncia, veio correndo e pulou com seus sapatos nmero 42, aterrissando bem no nariz de Martha.
      Ns trs continuamos a sapatear e bater com os ps at as palavras horrveis e a careta medonha de Martha ficarem manchadas de tinta. O grand finale foi quando 
Anton segurou a pgina aberta pelas pontas como a capa de um toureiro e eu enfiei o p por dentro
      dela, rasgando-a enquanto gritava:
      - Ta-r!...
      - Sente-se melhor?
      - Um pouquinho.
      No estava muuuito melhor no, mas valeu o esforo.
      Alguns segundos depois, Paddy Porra-Louca bateu  nossa porta, reclamando: - Que barulhada  essa? Um pedao do gesso acaba de despencar do teto e caiu dentro 
do meu ch!
      - Ch?! - perguntou Anton, com ar de deboche, fechando a porta na cara dele. - S se for ch on the rocks, daqueles envelhecidos doze anos.
      - E se for?... - A voz de Paddy Porra-Louca vinha abafada, mas ele parecia furioso, do lado de fora.
      - Provavelmente a culpa  toda dele, sabia? - comentou
      Anton, olhando para mim. - Se esse boal no tivesse cantado a musiquinha de Papai Noel, aquela mulher talvez no fosse to cruel.
      - No sei...
      - Devamos nos mudar daqui.
      Silncio.
      - Estou falando srio! - repetiu ele ao ver que eu no disse nada. - Devamos pensar em comprar um cantinho para ns.
      - Comprar com o qu? Contas coloridas e espelhinhos? Mal temos grana para comida e roupa.
      - Do jeito que a sua carreira vai, no ficaremos duros para sempre.
      - Do jeito que a minha carreira vai, estou prestes a ser apedrejada em praa pblica. - Peguei o telefone. - Vou cancelar o almoo em Vanish Hall.
      - Por qu?
      - Estou envergonhada demais para sair na rua.
      - As pessoas que se danem! Voc no fez nada de errado, por que deveria ter vergonha?
      - Puxa, mas eu pensei que voc adoraria a chance de passar o domingo sem ter que olhar para Debs.
      - Claro que eu adoraria, mas o mais importante agora  voc manter a cabea erguida. Se voc se despedaar, Martha Hope Jones ganhar a batalha.
      - Tem razo - concordei, com ar cansado. - King's Cross, l vamos ns.
      
     ***
      
      O servio dominical de trens para o norte de Londres  um desastre. J estava mal antes de cancelarem o trem das 11:48 e o das 12:07.
      Anton, Ema e eu ficamos sentados na estao, cercados por correntes de ar frio, esperando o trem seguinte, que torcamos para tambm no ter sido cancelado. 
Para nos distrair, pensvamos em coisas que preferiramos estar fazendo, em vez de visitar Debs.
      - Espetar agulhas nos olhos.
      - Assistir a um musical de Andrew Lloyd Webber.
      - Beijar Margaret Thatcher.
      - Debs no  m pessoa - disse eu.
      - Claro que no - concordou Anton. - Ela nem mesmo  uma pessoa. Repare como ela nunca pisca. Pode acreditar em mim, ela  uma aliengena.
      Silncio.
      - No olhe para aquele lado! - Ele colocou a mo na frente dos meus olhos para impedir a viso de uma mulher no banco ao lado do nosso que folheava o Sunday 
Echo. Meu estmago se contorceu. Quantas pessoas por toda a Gr-Bretanha estariam lendo aquele veneno?
      
      Quarenta e cinco minutos mais tarde, estvamos na porta de Vanish Hall. Debs a abriu e nos revistou de cima a baixo com seus olhos redondos e muito azuis. 
Nesse exato instante, Ema comeou a choramingar.
      - Vocs foram convidados para o almoo - ralhou ela de forma "bem-humorada" - , e no para a ceia.
      Como sempre, estava vestida dos ps  cabea em imaculados tons pastis e seus tnis novos eram to brancos que meus olhos arderam. A fim de olhar diretamente 
para eles em segurana, a pessoa precisava estar munida de um papelo com um furinho no meio, ou ento usar a parte escura de uma radiografia, daquelas usadas para 
observar um eclipse solar.
      - Desculpe o atraso - disse eu, tentando dobrar o carrinho de Ema, enquanto Anton fazia de tudo para acalm-la. - Os trens estavam com problemas de horrio.
      - Vocs e os trens... - comentou Debs, com ar indulgente. Ela tratava a mim e a Anton como se fssemos bomios inveterados, em vez de simplesmente pobres. 
- Um de vocs dois devia arranjar um emprego decente!
      Lancei um olhar de aviso para Anton.  feio matar a anfitri.
      - Vamos entrando! - Debs nos levou pelo corredor, levantando a ponta de cada um dos seus pezinhos antes de pisar no cho, com todo o cuidado.
      Na cozinha, papai me abraou com fora, como se algum tivesse acabado de falecer.
      - Minha garotinha - disse, com a voz embargada. Quando finalmente me soltou, havia lgrimas em seus olhos.
      - J percebi - que o senhor leu o Sunday Evho.
      - Ela  uma bruxa, aquela mulher. Uma bruxa malvada.
      - Isso no so modos de se referir  sua esposa - disse Anton, baixinho, em meu ouvido.
      - H algo que eu possa fazer por vocs? - perguntou papai.
      - No, obrigada, eu simplesmente adoraria esquecer tudo isso. Ema, querida, v dar um beijinho no vov!
      - Olhe o rostinho dela - corujou papai. - Parece uma pintura!
      Debs preparou alguns drinques e disse alegremente para Anton:
      - Ora, ora!... Soube que seus amigos ainda no desistiram.
      - Como assim, mame?
      Debs fez cara de quem no gostou muito do "mame", mas foi em frente:
      - O IRA. Eles se recusam a abrir mo da luta armada.
      Passvamos por isso sempre que o IRA aparecia no noticirio, e Anton j desistira h muito tempo de explicar a Debs que, na verdade, ele no era membro. Anton 
 irlands e isso era o bastante para Debs. Basicamente, Debs no aprovava nada em relao a nenhum
      pas estrangeiro. Com exceo da Provena e do Algarve, ela no conseguia compreender por que o mundo inteiro simplesmente no poderia ser ingls.
      Em seguida, Anton cumprimentou Joshua, o filho de oito anos, e Hattie, a de dez anos do primeiro casamento de Debs.
      - Ah!... - disse ele, de forma efusiva. - As Crianas do Milho.
      Debs achava que Anton se referia a seus filhos desse modo porque ambos eram muito louros. As Crianas do Milho, * porm,  um conto de Stephen King, e tem 
pouco a ver com a cor dos seus cabelos e tudo com o jeito esquisito das crianas: elas eram limpas demais, de forma pouco natural, e tambm excessivamente dceis.
      - Oi, Joshua... Oi, Hattie. - Eu me agachei para dizer al, mas eles evitaram me olhar direto nos olhos. No entanto, em vez de agirem como crianas rudes e 
rebeldes, no me empurraram nem fugiram. Limitaram-se a ficar em p diante de mim, de forma obediente, e fixaram o olhar em algum objeto invisvel atrs da minha 
cabea.
      Anton costuma dizer que torcia para eles se tornarem serial killers e fazerem picadinho de Debs quando ela estivesse dormindo.
      Ento, como um minifuraco, surgiu Poppy. Ela parece papai em miniatura, s que usando uma peruca de cachinhos.
      - Lily! - gritou ela. - Anton! E Ema! - Ela nos beijou a todos, pegou Ema pela mo e as duas saram da sala, correndo. Ela  uma delcia de menina; somos todos 
loucos por ela, especialmente Ema.
      
      Quando finalmente nos sentamos para almoar, a comida estava meio fria e tivemos de aturar as desculpas de Debs pelo estado do rosbife.
      - Infelizmente, ele foi preparado para ser comido mais de uma hora atrs.
      - Desculpe - murmurei.
      Mas isso foi apenas a preliminar do verdadeiro jogo da tarde- as expresses de alegria pelo artigo de Martha Hope Jones.
      - Voc deve estar arrasada, Lily. Eu estaria morrendo de vergonha, com medo at de mostrar a minha cara na rua. Quando penso em todos os milhares de pessoas 
que esto lendo aquilo e julgando voc, puxa... Isso deve ser terrivelmente perturbador!
      
      Esse conto foi lanado em portugus com o ttulo de A Colheita Maldita. (N.T.)
      
      - Sim. - Olhei para o meu prato. -  por isso que eu preferia que no falssemos do assunto.
      -  claro! Voc deve estar louca para esquecer que aquilo aconteceu. Imagine, uma pessoa de fora escrever coisas de provocar indignao e depois public-las 
em um jornal de circulao nacional, com milhes de exemplares... Se fosse comigo, eu estaria com vontade de me matar.
      - Posso lhe poupar o trabalho e cumprir eu mesmo essa misso - disse Anton, com ar alegre - , se voc no calar a boca agora mesmo!
      Debs ficou vermelha como um tomate.
      - Nossa, desculpem! Eu estava apenas tentando ser solidria. Afinal de contas, depois de um momento to terrvel, embaraoso, humilhante e....
      - Chega! - disse papai. Pareceu to firme que Debs perdeu o rebolado por um instante, mas logo em seguida ele cometeu o erro de lamber a faca de manteiga e 
ela pulou nas tamancas, chamando a ateno dele com a voz estridente.
      Ao longo dos anos, Debs protagonizara cenas semelhantes s do filme My Fair Lady, tentando acabar com as manias mais condenveis de papai, como beber leite 
direto da embalagem, deixando escorrer lquido pelo pescoo para depois limpar tudo com a manga da camisa. Ela at conseguira faz-lo perder peso preparando-lhe 
refeies especiais com pouca gordura, mas eu morria de pena ao v-la diminu-lo literalmente na frente das pessoas.
      Foi um dia terrivelmente difcil, mas, s quatro e meia, recebemos um presente antecipado: Debs ia jogar uma partida de tnis. Deixou papai lavando a loua 
e correu para trocar de roupa. Cinco minutos depois, desceu as escadas vestindo um saiote branco e uma
      faixa nos cabelos.
      - Uau! - elogiou Anton. - Voc parece mais com uma garotinha de escola do que com uma aliengena de quarenta e seis anos.
      Debs fez pose com a raquete sobre o ombro, toda prosa, deu uma risadinha e em seguida franziu o cenho.
      - Uma o que de quarenta e seis anos?
      - Aliengena - disse Anton, com ar muito animado.
      Senti vontade de sair dali correndo.
      -  uma palavra irlandesa - explicou ele. - Significa "deusa".
      - Srio, mesmo? - Ela mostrou-se indecisa. - Entendo... Bem, est na hora de ir! O tempo no espera por ningum.
      - Muito menos por aliengenas - Anton piscou um olho.
      - Ahn... Pois .
      - At logo. Boa sorte na partida de tnis. E nada de sair com as garotas depois do jogo para tomar umas e outras - ralhou Anton. - Eu conheo voc, sua garota 
levada...
      Ela deu mais uma risadinha, sacudiu o corpo para soltar Joshua, que estava agarrado em sua perna e foi parar no canto da sala com o empurro. Em seguida, entrou 
no seu Toyota Yaris verde-limo e saiu a toda velocidade.
      
      - No! - disse Anton, de forma categrica, enquanto sacolejvamos no trem de volta para casa.
      - No o qu?
      - No consigo acreditar que ela alguma vez transou na vida. Com aquela mania de limpeza, ela deve ter um Bom Bril no lugar do corao. Como  que a pequena 
Poppy conseguiu nascer? Vamos combinar... Sr. Vanish, o super-heri da limpeza pesada,  o nico homem pelo qual Debs demonstra algum interesse.
      - Talvez ela realmente durma abraada a uma embalagem de Vanish.
      - Ah, pare com isso, porque eu comeo a imaginar coisas ttricas. Nossa, aquela mulher  horrvel!
      - Eu sei - concordei. - Mas papai  louco por ela, ento eu acho que devamos tentar agent-la. Alm do mais, ela  muito boa para ele, de vrias maneiras.
      - Como?
      - Ela curou a mania dele de correr riscos financeiros.
      - Voc quer dizer que ela foi astuta o bastante para passar a escritura de Vanish Hall para o nome dela.
      - Pelo menos eles vo sempre ter um teto sobre suas cabeas.
      - Bem, isso  verdade.
      
     
45
      
      - Voc faria uma coisa por mim, se eu pedisse? - perguntou Anton.
      - Qualquer coisa - disse eu. Como fui tola.
      - H uma casa  venda na Grantham Road. Ser que voc e Ema poderiam ir comigo visit-la?
      Depois de uma pausa, perguntei:
      - Quanto esto pedindo pela casa?
      - Quatrocentos e setenta e cinco mil libras.
      - E por que voc quer visitar uma casa que nunca teremos condies de comprar, nem em um milho de anos?
      - Eu a vejo todo dia a caminho do metr e fiquei curioso. Ela tem o aspecto de uma casa de conto de fadas, nem parece que fica em plena Londres.
      - Por que est  venda?
      - Pertencia a um velho que morreu e sua famlia no quer ficar com ela.
      Senti uma fisgada no estmago. Anton andara pesquisando aquilo tudo sem me dizer nada.
      - No far mal darmos uma olhada - disse ele.
      Eu no concordava com aquilo, mas Anton pedia to pouco de mim... Como eu poderia negar-lhe aquilo?
      
      -  esta aqui - disse Anton, ao pararmos diante de uma casa em centro de terreno, imponente, revesti da de tijolinhos vermelhos e com um telhado pontudo, meio 
gtico. Parecia um castelo em miniatura, e no era nem muito grande nem muito pequena. Tinha o
      tamanho certo.
      Droga!
      - Vitoriana - informou Anton, empurrando o porto de um metro de altura e estendendo a mo. Ema e eu o acompanhamos atravs de um caminho de pedra spera que 
ia dar em uma varanda com piso em lajotes e um telhado inclinado. A pesada porta da frente se abriu na mesma hora e um rapaz de terno, usando botas, apareceu. Greg, 
o corretor.
      Quando atravessei o portal e entrei no saguo, a porta se fechou atrs de mim e eu me senti inundada na mesma hora por uma sensao de calma. A luz era muito 
diferente ali. A janela em arco e raiada, de vidro fosco, que ficava acima da porta da frente lanava padres coloridos sobre o piso de madeira, e tudo parecia dourado 
e calmo.
      - A maior parte da moblia se foi - explicou Greg. - A famlia do senhor que residia na casa levou os mveis. Podemos comear daqui mesmo?
      Nossos passos ecoaram no piso de madeira enquanto acompanhvamos o corretor at uma sala que se estendia at os fundos da casa, onde havia uma janela saliente 
e portas francesas, envidraadas, que davam para o jardim - o qual se mostrou cheio de antiquados arbustos de malva muito mal cuidados e necessitando de poda. Uma 
lareira alta coberta de ladrilhos de cermica em estilo William Morris ocupava a parede  direita.
      -  original - informou Greg, batendo com os ns dos dedos no consolo da lareira.
      Havia um aroma indistinto de fumo para cachimbo; imaginei crianas usando botinas de abotoar, comendo caramelos e brincando em volta, cavalgando antigos cavalos 
de madeira.
      Ao lado do saguo, havia um aconchegante aposento quadrado, tambm com uma janela saliente e uma lareira.
      - Esse aqui poderia ser o seu escritrio - disse Anton. - Lily  escritora - contou a Greg.
      - Ah, ? - ele demonstrou interesse, de forma educada. - Ser que eu j ouvi falar de voc?
      - Lily Wright - eu disse, timidamente.
      - Ah, ? - repetiu Greg, e notei claramente que ele no reconheceu meu nome. - Ahn... Meus parabns.
      As tbuas corridas junto  janela rangeram e na mesma hora eu me lembrei de uma mulher americana que quis recriar uma casa vitoriana e pagou carssimo por 
tbuas corridas legtimas, daquelas que rangiam. Ali estavam elas diante de mim, autnticas e j instaladas.
      Eu poderia colocar a minha mesa de trabalho aqui - disse eu, acariciando a parede. Um pouquinho de massa corrida se esfarelou na minha mo.
      - Obviamente, esta casa precisa de alguns reparos - disse Greg. - Vai ser divertido colocar tudo conforme o gosto de vocs.
      - Sim - assenti, e estava sendo sincera.
      Em seguida entramos na cozinha, que era escura e muito apertada.
      - D vontade de sair quebrando as paredes todas - murmurei, sem expressar devidamente o que pensava, mas gostando da frase.
      Consegui visualizar o que queria ali. Aquela cozinha escura com paredes que a gente tinha vontade de sair quebrando seria ampliada e ficaria quatro vezes maior, 
revestida por lajotes de cermica. O tempo todo haveria uma pesada caarola de barro com ensopado,
      colocada sobre um fogo Aga azul-claro, em fogo brando. Se algum chegasse de repente, eu poderia circular pela cozinha, descala, para receb-la de forma 
calorosa, oferecer-lhe jantar e brindar com vinho de frutas vermelhas feito em casa. Eu seria como Nigella Lawson.
      Quando as pessoas tivessem crises, elas apareceriam na minha porta lindamente emoldurada por uma faixa de ladrilhos, sabendo que poderiam contar comigo para 
proteg-las e consol-las. Eu as envolveria em um sedoso cobertor de l angor, para em seguida
      instal-las no peitoril interno da janela saliente da sala, onde elas poderiam observar a brisa brincando nos galhos e tomar ch de camomila quentinho em uma 
xcara charmosamente diferente do pires, at a crise passar.
      Greg nos levou at o p da escada e, quando eu me abaixei para pegar Ema no colo, vi furinhos minsculos nas tbuas do assoalho. Carunchos de madeira. Que 
charmoso! To... To autntico. Seria impossvel no ser feliz nessa casa.
      Cada um dos trs quartos era mais encantador que o outro. Eu me senti cativada por imagens de cabeceiras de cama em ferro trabalhado, edredons bordados, cadeiras 
de balano e cortinas de voile baloiando suavemente ao sabor da brisa.
      Dei uma olhada rpida no minsculo banheiro antediluviano e murmurei novamente alguma coisa sobre sair quebrando as paredes.
      Ento Greg tornou a nos levar para o andar trreo, a fim de conhecermos o ponto alto da propriedade: o charmoso jardim coberto de vegetao. Ao longo dos limites 
do terreno, uma cerca em semicrculo feita de rvores e arbustos se debruava para dentro e camuflava quase toda a casa e a torre, para quem olhava de fora.
      - Ps de groselha-preta e um arbusto de framboesas - indicou Greg. - H uma macieira tambm. No vero, vocs tero frutas frescas.
      No resisti e apertei o brao de Anton.
      Junto  cerca dos fundos, havia uma estufa baixa, muito antiga, com uma pequena plantao de tomates. Ao lado, havia um antigo banco de praa, voltado para 
o sul, em madeira e com pernas em ferro batido, tudo pintado de branco.
      - No d nem para sentir que estamos em Londres - afirmou Greg.
      - Hummm. - Eu concordei com ele, tentando ignorar o barulho estridente de um alarme de carro que disparou na rua ao lado.
      Eu me vi sentada naquele jardim, escrevendo livros em um lindo notebook, tendo ao lado uma cesta de framboesas recm-colhidas.  luz do sol, os meus cabelos 
estavam louros e ondulados, como se eu tivesse acabado de fazer luzes, e vestia uma roupa leve e branca comprada na Ghost, ou talvez na Marni.
      A imagem mais vvida era a de Ema brincando com outras crianas - seus irmos e irms, talvez? Por alguma razo, todos tinham cabelos cacheados e jogavam pedras, 
alegremente, na direo da estufa.
      Eu prepararia flores prensadas. Minhas portas francesas teriam cortinas leves de musselina, que brincariam na brisa quando eu passasse atravs delas vindo 
do jardim, trazendo uma cesta transbordante de flores recm-cortadas por pequenas tesouras de jardinagem.
      Tudo na casa tinha um cheiro bom, parecia um sonho que no lembramos por inteiro; as coisas eram familiares, como se eu j tivesse morado ali, embora soubesse 
que isso nunca acontecera.
      Eu no sou materialista. Desde que me entendo por gente, sempre achei que o dinheiro era uma iluso. Ele promete o mundo - e talvez o traga, por algum tempo 
- , mas perdemos tudo novamente, um pouco adiante.
      De repente, percebi que grande idiota eu era. Devia estar com um p no materialismo desde a primeira chance que tive na vida. Devia ter brigado por salrios 
melhores.
      Naquele instante, eu queria tanto aquela casa que me vi vida, cheia de ambies egostas. Seria capaz de vender a minha prpria av, se ela ainda estivesse 
viva e algum se interessasse em compr-la.
      Nunca na vida eu desejara algo com tamanha intensidade. Eu morreria se no conseguisse essa casa. Se bem que no era necessrio tanto melodrama, porque ela 
j me pertencia. Eu s precisava achar meio milho de libras em algum lugar.
      
      Mal me lembro da caminhada de volta para casa, ms assim que me vi novamente em meu apartamento pouco maior que um ovo, descontei em Anton. Era como se eu 
tivesse passado por uma experincia de quase-morte, conhecido a transcendente beleza do divino cara a cara s para no fim voltar ao meu corpo porque, devido a um 
erro burocrtico, ainda no era a minha hora. Aquilo me arruinou o dia.
      - Por que voc inventou de me mostrar aquela casa? Nunca poderemos compr-la!
      - Ei! Me escute por um instante. - Anton rabiscava alguns nmeros em um papel pardo. - Voc j vendeu quase duzentos mil exemplares do seu livro, ento vai 
receber mais ou menos cem mil libras de direitos autorais.
      - Eu j expliquei a voc que a minha primeira parcela de direitos autorais s vai sair no fim de setembro, e ainda faltam quase cinco meses. A casa ter sido 
vendida a essa altura.
      Ele balanava a cabea para os lados.
      - Ns podemos pedir emprstimo por conta de dinheiro a receber. 
      - Podemos? Mas, Anton, a casa custa meio milho e vamos precisar de grana para as reformas.
      - Pense no futuro - incentivou ele, com os olhos brilhando. - Em algum momento, a Eye-Kon vai virar um negcio lucrativo.
      Eu me mantive calada porque no queria que Anton achasse que no o apoiava, mas a verdade  que a nica coisa que a Eye-Kon conseguira virar era o meu estmago, 
quando eu via na planilha o dinheiro que j havia sido gasto em almoos no Soho visando seduzir
      possveis produtores, tudo sem retorno algum.
      - O mais importante de tudo - lembrou Anton -  que voc tem um contrato para dois livros.
      - Sim, mas s escrevi dois captulos do segundo. Alis, ningum na Dalkin Emery se importava; at recentemente, quando As Poes de Mimi os surpreendeu vendendo 
horrores, eles nem se lembravam que eu havia assinado um contrato para outro livro.
      - E quanto a Claro como Cristal? - Obviamente, Anton j andara pensando a respeito disso. - Est pronto e  um grande livro. Mostre-o a eles.
      Isso foi muito estranho, porque exatamente no dia seguinte Tania ligou. Queria dar uma olhada no novo livro que eu estava preparando.
      - Vamos lan-lo em capa dura a tempo de aproveitar as vendas
      de Natal.
      Fui obrigada a declarar o fato terrvel:
      - Tania, no existe nenhum livro novo.
      - Como disse?...
      - Com o nascimento do beb, o cansao e tudo o mais, eu no consegui. S fiz dois captulos.
      - Hummm, entendo. - Silncio. Ento: -  que ns pensamos que, como voc assinou contrato para dois livros... Sabe como ... O normal  comear o novo logo 
depois de terminar o primeiro. Mas, claro, eu entendo... O beb, o cansao. Certamente voc anda muito ocupada...
      Mas ela deixou claro que no ficou nem um pouco satisfeita.
      Aflita, liguei para Anton.
      - Mostre-lhe Claro como Cristal - ele tornou a sugerir.
      - Mas o livro no  bom. Eu nem consegui um agente para ele.
      -  bom, sim, muito bom. Aqueles agentes eram uns idiotas. O livro  timo!
      - Voc acha?
      - Acho.
      Ento eu liguei para Tania e contei tudo a ela, com alguma hesitao.
      - No sei se voc vai gostar da histria. Eu enviei o livro para um monte de agentes e...
      Tania me interrompeu:
      - Voc est me dizendo que tem outro livro j pronto?
      - Sim.
      - Aleluia! Lily tem outro livro prontinho - berrou ela, e algum deu gritos de alegria. - Vou mandar o motoboy pegar.
      Mais tarde, naquela noite, Tania ligou.
      - Adorei, adorei. Adorei de verdade!
      - Voc j leu tudo? Que rpido!
      - No consegui larg-lo.  um livro diferente de As Poes de Mimi, muito diferente, mas d para perceber a magia de Lily Wright. J temos o nosso bestseller 
de Natal.
      
      Logo depois, Jojo falou comigo sobre a assinatura de um contrato para o terceiro e o quarto livros.
      - Por um adiantamento muito maior do que o primeiro contrato,  claro.
      - Viu s? - disse Anton, muito alegre.
      Jojo me avisou que podamos assinar naquele momento, enquanto minhas vendas estavam nas alturas, ou podamos esperar at o fim do outono, quando o meu segundo 
livro tomaria de assalto as listas dos mais vendidos e a minha posio para negociar seria muito melhor.
      - Mas... E se o meu segundo livro no tomar de assalto as listas dos mais vendidos?
      - Bem, sempre existe essa possibilidade, mas a palavra final  sua.
      - Mas... O que voc acha?
      - Acho que voc est numa excelente posio de barganha agora, mas ela poderia ficar ainda melhor em novembro. S que tem uma coisa, Lily, e voc precisa saber: 
sempre existem riscos, no h resultados certos nesse jogo. Desculpe, querida, sei que voc no
      deseja isso, mas s voc poder tomar essa deciso.
      Anton no deu importncia ao aviso de Jojo.
      - Ela no quer apavorar voc, mas precisa se proteger. No final a deciso tem que ser sua, porque  voc que escreve os livros. Voc sabe que eu vou apoi-la 
no que decidir, mas voc  quem deve fazer a escolha final.
      Eu no tinha a mnima idia sobre o que seria melhor. Estava apavorada por ter de dar a resposta, pois poderia tomar a deciso errada e confiava mais na opinio 
dos outros do que na minha.
      - Anton, o que voc acha?
      - No sei, mas acho que devamos esperar.
      - Srio? Por que voc no quer pegar essa grana agora, de imediato?
      Ele riu.
      - Voc me conhece muito bem, mesmo. Estou tentando mudar os hbitos de toda uma vida, quero comear a pensar em termos de longo prazo, entende? A longo prazo, 
acho que voc ter chance de conseguir mais grana se esperar.
      - Certo, ento ns vamos esperar - eu me ouvi dizendo.
      Decidir esperar at novembro era o menor dos problemas. Certamente aquilo no traria conseqncias imediatas. Mesmo assim, eu me senti agoniada.
      - Oh, pobre Lily. - Anton colocou meu rosto de encontro ao seu peito e me fez cafun.
      - Cuidado a em cima - murmurei. - No esfregue muito meus cabelos, seno vou ficar sem o resto deles.
      - Desculpe. De qualquer modo, venha c... Tenho uma coisa para lhe contar que eu sei que vai faz-la sorrir. Sabe a nossa casa, aquela que custava quatrocentos 
e setenta e cinco mil libras? Eles diminuram o preo! Baixaram cinqenta mil!
      - Por qu?
      - Ela j est  venda h quase quatro meses e os donos devem ter ficado desesperados.
      - Por que ela no foi vendida durante todo esse tempo?
      - Porque estava supervalorizada. Agora est no preo justo, e  por isso que devamos entrar em campo neste exato momento. Todo mundo vai querer compr-la.
      S que eu no poderia me comprometer com um emprstimo to alto.
      - Existem muitas variveis envolvidas - disse eu. - E se Claro como Cristal encalhar? E se eu no conseguir mais escrever livro algum e tiver que devolver 
o adiantamento?
      - Claro como Cristal no vai encalhar e ns vamos contratar uma bab para voc poder se dedicar  literatura em tempo integral. Podemos at deixar um quarto 
s para a bab, na casa nova.
      Emiti um "hummm" evasivo.
      - O que vamos fazer quando o dinheiro dos direitos autorais chegar? - perguntou ele. - Comprar um apartamento de um quarto s onde Judas perdeu as botas e 
morar empilhados uns sobre os outros por mais um ou dois anos, exatamente como estamos aqui, dormindo todos no mesmo cmodo? Depois, quando entrar mais alguma grana, 
vamos vender o apartamento, comprar outro um pouco maior e pagar duas vezes o imposto de transferncia, que equivale a trs por cento do valor do imvel, uma fortuna? 
Sem contar que j vamos pagar quinze mil libras de impostos pela compra da casa, grana que nunca mais vamos ver de volta?
      - Nossa, voc anda mesmo matutando sobre esse assunto.
      - No momento eu no consigo pensar em mais nada. - Ele se inclinou na minha direo, com muita convico nos olhos. - Acho que a casa  exatamente o que precisamos. 
Ela tem aquele cmodo lindo, que seria perfeito para voc montar seu escritrio, temos espao para uma bab e nunca mais precisaremos nos mudar. Tudo bem, eu reconheo 
que ainda no temos o dinheiro, mas ele vai chegar. S que se ficarmos esperando sentados at esse dinheiro cair na nossa conta a casa ter sido vendida h muito 
tempo. - Ele parou para pegar flego. - Lily, ns dois somos pssimos para lidar com dinheiro, no ?.
      Concordei com ele. ramos um caso perdido.
      - Pelo menos uma vez na vida vamos tentar fazer a coisa certa. Vamos tentar ver o quadro todo, Lily, precisamos adquirir viso. Deixe-me saber uma coisa: voc 
gostou da casa?
      Fiz que sim com a cabea. Assim que coloquei os ps l dentro, eu me apaixonei pelo lugar e senti que aquela casa foi feita para mim.
      - Eu a adorei tambm.  a casa perfeita para ns... A um preo excelente. O valor das casas talvez caia um pouco este ano, mas logo os imveis vo tornar a 
subir de preo. Talvez nunca mais tenhamos esta oportunidade. Ajudaria dar mais uma olhada na casa?
      Pulei de alegria ao ouvir isso; estava louca para analisar a casa toda com calma, novamente.
      A sensao suave de pertencer quele lugar, que me preenchera na primeira visita, tornou-se ainda mais profunda na segunda vez. Anton tinha razo ao dizer 
que aquele lugar no parecia estar em plena Londres; era o tipo de casa que as pessoas encontram em uma clareira no bosque, em um conto de fadas em estilo antigo. 
Quando estava dentro dela, eu me sentia segura, tocada de algum modo pelo seu encantamento.
      
      Engraado o jeito de as coisas acontecerem, porque no mesmo dia em que visitamos a casa recebemos uma notificao do sr. Manatee, nosso senhorio, informando 
que, devido a "aumentos inesperados nos custos", ele ia aumentar o nosso aluguel. Quando vi o novo valor, eu quase tive um infarto - era mais que o dobro.
      - Isso  ultrajante! Vou falar com Irina a respeito disso, e tambm, minha nossa - passei a mo sobre os olhos - , Paddy Porra-Louca. Se formarmos uma frente 
unida, teremos mais chances de ganhar.
      Mas nem lrina nem Paddy Porra-Louca tinham recebido notificao de aumento. A ficha comeou a cair.
      Manatee deve ter lido a seu respeito - disse Anton. - Safado
      oportunista. Isso  extorso!
      - Anton, no temos condies de pagar o novo valor do aluguel, disso no h dvida.
      - Precisamos nos mudar daqui! - Nossos olhos se encontraram, faiscando com a nova percepo do que estava acontecendo.
      Eu sempre procuro por "sinais" em toda parte e tive de reconhecer aquilo como um sinal, mesmo sem querer aceitar.
      Anton aproveitou a chance:
      - Eles esto pedindo quatrocentas e vinte e cinco mil libras. Vamos oferecer quatrocentas e ver o que acontece.
      - Mas ns no temos quatrocentas mil libras, provavelmente no temos nem quatrocentas.
      - Vamos fazer uma oferta pela casa e esperar a resposta. Nunca se sabe, porque essa no  uma situao padro. Os herdeiros do velho...
      - Herdeiros! - Anton j estava usando uma linguagem diferente e eu me senti excluda.
      - ...Os herdeiros do velho no esto presos a um valor; no precisam vender o imvel pelo preo escolhido para comprar uma casa nova, por exemplo; esto s 
esperando a sorte grande cair do cu.  muito mais provvel eles aceitarem uma oferta menor, pois devem estar loucos para colocar a mo na bufunfa; esto amarrados 
a uma casa que no serve para todos ao mesmo tempo.
      - Anton! No podemos fazer oferta para uma casa sem ter alguma grana na mo.
      - Claro que podemos.
      
      - Voc no vai acreditar! - gritou Anton. - Eles aceitaram nossa oferta de quatrocentas mil libras.
      Senti o sangue desaparecer do rosto.
      - Voc fez uma proposta para a compra de uma casa e ns no estamos nem perto de ter o dinheiro! Que idiotice foi essa?
      Ele no conseguia parar de rir. Quase caiu sobre o meu ombro, tonto de alegria.
      - Vamos conseguir o dinheiro.
      - Onde?
      - No banco.
      - Como? Voc pretende assaltar um?
      - Concordo com voc quanto a ns no termos o perfil-padro para pedir financiamento de casa prpria. Precisamos de um banco que tenha viso.
      - No quero tomar parte nisso. Ligue para o pobre Greg e diga lhe que ele est perdendo tempo conosco.
      Isso o deixou irritado:
      - Pobre Greg?... Lily, o cara  um corretor de imveis.
      - Se voc no ligar para ele, eu mesma ligo!
      - No, Lily, por favor, no ligue para ele. Preciso apenas de um pouco mais de tempo. Confie em mim.
      - No.
      - Por favor, Lily, por favor, amorzinho, confie em mim. - Ele me agarrou, me puxou para junto dele e seu amor por mim estava estampado em seu rosto. - Eu nunca 
faria nada que pudesse magoar voc. Vou passar o resto da vida tentando tornar as coisas lindas e perfeitas para voc e Ema. Por favor, confie em mim.
      Encolhi os ombros. No era exatamente um "sim", mas tambm no era um "no". Nunca era.
      
      Anton comeou a fazer ligaes daquelas que o faziam virar de costas para mim cada vez que eu entrava na sala. Quando eu perguntava "Quem era?", ele simplesmente 
dava um tapinha na ponta do nariz e piscava. O carteiro comeou a trazer cartas gordas que Anton
      carregava para longe, a fim de abri-las sozinho, e quando eu perguntava a respeito delas, l vinha ele com tapinhas na ponta do nariz e sorrisos misteriosos. 
 claro que eu poderia insistir em saber de tudo, mas a verdade  que eu no queria.
      Uma noite, tive um pesadelo em que me vi em um imenso depsito encaixotando montanhas de coisas minhas em meio a um mar de caixas de papelo de trs metros 
de altura. Uma das caixas era s para sapatos, outra estava cheia de televisores quebrados e eu tentava espremer a lareira William Morris em uma caixa do tamanho 
de uma lata de biscoitos e, de repente, uma voz incorprea falava: "Todas as lareiras devem ser devidamente embaladas." Ento o sonho mudava e eu via Ema ao meu 
lado, as duas sentadas no canteiro divisrio de uma auto-estrada, acompanhadas de todas as caixas, e eu sabia com enjoativa certeza que no tnhamos lugar algum 
para chamar de lar.
      Quando estava acordada, eu me pegava pensando o tempo todo na casa, de um jeito sonhador e nostlgico. Em minha cabea eu a pintara, reformara, mobiliara todos 
os cmodos e vivia mudando a decorao o tempo todo, como se ela fosse uma casa de bonecas. No meu quarto havia uma cama antiga em estilo francs, com linhas curvas, 
pintada de creme e com ps em ferro trabalhados no formato de garras, uma cabeceira alta tambm trabalhada, um colcho muito macio e charmoso, bas com rosas entalhadas 
nas bordas, mesinhas-de-cabeceira com a parte. de baixo em curva, almofadas gordinhas, edredons de cetim, tapetes feitos em tear espalhados pelo piso de madeira 
muito bem encerado...
      Quando eu pensava em morar l, trs diferentes verses da minha vida se abriam. Eu queria ter outros filhos, pelo menos mais dois, mas aquele era um desejo 
que tentava reprimir com firmeza, porque sob as nossas condies financeiras simplesmente era invivel.
      Mas poderia acontecer na nova casa.
      Ento, um dia, Anton chegou e me disse:
      - Lily, luz da minha vida, amor do meu corao, voc estar livre amanh  tarde?
      - Por qu? - perguntei, desconfiada. Aquela histria de "amor da minha vida" geralmente vinha antes de um pedido para pegar o terno dele no tintureiro para 
algum evento com a mdia.
      - Marquei hora para ns em um banco.
      Uma pausa.
      - Isso  brincadeira, no ?
      - No, eu realmente marquei, ma petite, meu docinho-de-coco.
      Na manh seguinte, deixamos Ema com Irina e lhe pedimos para no colocar a mscara de gosma verde na pobrezinha, pois ainda estvamos arrancando restos grudados 
no cabelo dela desde a ltima vez. Em seguida, vestimos nossas roupas mais apresentveis e fomos recebidos, ao chegar ao banco, por trs senhores com rostos praticamente 
idnticos e ternos escuros absolutamente iguais. Eu me senti sem graa, como se tivesse invadido a sala deles sob falsos pretextos, mas Anton foi absolutamente cativante. 
At eu me convenci. Ele explicou que grande estrela eu era, como aquele era o incio de uma carreira de sucessos e o quanto eles iriam se beneficiar se entrassem 
no barco naquele momento, pois seramos leais ao banco no futuro, quando ganharamos milhes por ano e teramos outras casas em Nova York, Monte Carlo e Letterkenny 
(terra dos ancestrais dos Carolans). Ento, para dar respaldo aos argumentos, Anton exibiu cartas de Jojo e dos contadores da Dalkin Emery, extratos das minhas vendagens 
at o momento, ganhos associados e uma projeo de vendas de Claro como Cristal, feita pelo gerente de vendas da Dalkin Emery, com um clculo aproximado de quanto 
eu poderia ganhar no futuro. (Muito dinheiro, por falar nisso. Fiquei atnita ao ver o tamanho da ambio deles.)
      Para amenizar a preocupao dos banqueiros pelo fato de no termos uma entrada para o imvel nem um salrio fixo, ele mostrou um grfico propondo vrias formas 
de pagamento, com uma parcela alta a ser paga assim que eu recebesse o meu primeiro cheque de direitos autorais, em setembro, e outra parcela alta quando eu assinasse 
o novo contrato, em novembro.
      - Cavalheiros, podem ter certeza de que os senhores recebero o seu dinheiro de volta.
      Com um floreio final, Anton fez surgir trs exemplares de As Poes de Mimi, que eu autografei no ato e enviei para as esposas dos homens de palet escuro.
      - Essa grana est no papo - disse ele, quando voltvamos para casa de metr.
      
     ***
      
      A carta com a resposta do banco chegou dois dias depois. Senti o estmago embrulhado quando tentamos abrir a carta ao mesmo tempo. Meus olhos leram tudo por 
alto, tentando captar o texto, mas Anton foi mais rpido que eu.
      - Merda!
      - Que foi?
      - Eles nos desejam sorte na empreitada, mas no vo embarcar na nossa canoa.
      - Ento est resolvido - disse eu, arrasada e, ao mesmo tempo, estranhamente aliviada. - Que babacas!
      S que  claro que no estava nada resolvido. Anton, o eterno otimista, simplesmente marcou hora em outro banco.
      -  s bater em um monte de portas que uma delas vai se abrir.
      Apesar de outra apresentao brilhante de Anton, o segundo banco tambm nos esnobou; ele nem acabou de lamber as feridas e j estava com outro banco engatilhado. 
Dessa vez, sabendo a enorme chance de aquilo no dar em nada, eu me senti uma fraude quando Anton comeou a encher a minha bola. E quando eles enviaram a sua carta 
de recusa, implorei para que ele parasse.
      - S mais unzinho - insistiu ele. - Voc desiste muito fcil.
      
      Eu estava dando mingau a Ema, uma atividade extenuante e complicada, pois geralmente deixava o cho, as paredes e o meu cabelo grudentos de comida, quando 
Anton lanou uma carta sobre a mesa como se fosse um disco de frisbee.
      - D uma olhada nisso. - Ele estava rindo feito bobo.
      - Conte-me. - Eu estava com medo de acreditar, mas o que mais poderia ser...?
      - O banco aceitou e vai nos emprestar o dinheiro. A casa  nossa!
      Essa era a deixa para eu me atirar nos seus braos e ser girada por toda a cozinha, ns dois rindo de felicidade com a cabea para trs. Em vez disso, eu me 
senti paralisada e fiquei olhando fixamente para ele, quase com medo.
      Anton era uma espcie de alquimista, s podia ser. Como era possvel ele, do nada, encontrar solues de sonho como aquelas? Ele me conseguira uma agente, 
que me conseguiu uma editora, tinha "encontrado" o meu segundo livro quando eu achei que no havia nenhum e agora assegurara a minha casa dos sonhos, embora no 
tivssemos grana nem para a entrada.
      - Como voc consegue isso? - perguntei, baixinho. - Voc fez algum pacto com o diabo?
      Ele poliu uma medalha imaginria no peito e riu de si mesmo.
      - Lily, eu me curvo a voc.  mrito seu ns estarmos para receber uma tonelada de dinheiro em setembro e mais ainda quando voc assinar o seu novo contrato. 
Sem isso tudo, no adiantaria nada eu pentelhar os caras, pois no conseguiria nada. Eles mandariam o
      segurana me jogar no olho da rua.
      - Ei! - Lutei para pegar a carta da mo de Ema, que usava as costas da colher para cobrir o envelope de mingau mole. Ela soltou um guincho de reclamao, mas 
estava presa em sua cadeirinha de refeio e no havia muito que pudesse fazer. Ao ler a carta escrita  mquina, um calorzinho de cautelosa alegria me fez ccegas 
na barriga. Se o banco concordara,  porque estava tudo bem. Obviamente, eles achavam que eu conseguiria dinheiro suficiente para lhes pagar tudo; aquilo era mais 
que um emprstimo, era um aval para a minha carreira.
      Ento eu li uma clusula que fez o meu calorzinho de alegria esfriar de repente. Abafei um grito de espanto.
      Ema me imitou; seus olhos ficaram arregalados e assustados, como os meus.
      - Anton, aqui diz que o emprstimo "depende de avaliaes". O que isso quer dizer?
      - Anton, quizo qu diz? - ecoou Ema.
      - Significa que querem ter certeza de que a casa vale o dinheiro que eles esto nos dando, para o caso de no pagarmos o emprstimo e eles terem de retom-la.
      Franzi o cenho. Aquele papo de retomada de imvel me congelava por dentro. Trazia lembranas do dia em que samos da casa imensa em Guildford.
      - Eles fazem uma avaliao estrutural tambm, para ter certeza de que a casa est em bom estado e  segura.
      - E se no estiver?
      - Ela parece segura para voc?
      - Sim, mas...
      - Ento, pronto!
      
      Anton abriu a carta. Leu-a em silncio, mas algo estranho impregnou a atmosfera da sala.
      - Que foi?
      - Tudo bem. -  o resultado da avaliao do banco.
      - E...?
      - Encontraram pontos com cupim na sala da frente. Em grande quantidade, segundo dizem.
      Eu senti uma fisgada de desapontamento na barriga e lgrimas surgiram em meus olhos. Nossa casa linda, linda... E quanto aos ps de framboesa, o peitoril da 
janela saliente, eu circulando pela casa em um vestido vaporoso, carregando uma cesta cheia de flores? Os jantares bomios que eu ofereceria para agradecer a Nicky 
e Simon, Mikeye Ciara, Viv, Baz e Jez, e todas as outras pessoas que haviam recebido a mim e a Anton em suas casas e a quem eu nunca convidara para ir  nossa porque 
o espao era mnimo?
      Eu me ouvi dizendo:
      - Bem, ento j era...
      - Nada disso. Lily, no desista, cupim tem conserto, mole, mole! Eles ainda esto dispostos a nos emprestar o dinheiro, s que menos. Trezentas e oitenta mil.
      - E onde vamos conseguir mais vinte mil libras?
      - Se liga, Lily, no vamos! Simplesmente voltamos aos vendedores e baixamos a nossa oferta em vinte mil.
      - Mas ainda vamos ter que fazer descupinizao! Repito a pergunta: onde vamos arranjar mais vinte mil libras?
      - Uma descupinizao no custa vinte mil libras. No mximo, duas mil.
      - Mas o banco disse...
      - Eles esto apenas se garantindo. O que voc resolve?
      - Tudo bem - eu disse. - Faa o que voc tem de fazer.
      
      Para meu espanto completo, os vendedores aceitaram a reduo na oferta. Quantos sinais mais eu precisava para me convencer de que aquela casa era para ser 
minha? Mesmo assim, dei um chiliquezinho final. Anton me perguntou:
      - E ento, vamos compr-la?
      Eu me ouvi soltar um lamento choroso:
      - No, estou com muito medo.
      - Ento, t bom!
      - T bom? - Surpresa, olhei para ele.
      - Claro. Voc est com muito medo. Vamos esquecer o assunto.
      - Voc no acha isso realmente, certo? Est apenas tentando usar psicologia reversa comigo.
      Ele balanou a cabea.
      - Nada disso. Quero apenas que voc fique feliz.
      Olhei para ele, meio desconfiada. Acho que acreditei nele.
      - Tudo bem, ento, Anton. Convena-me a comprar essa casa.
      - Tem certeza de que  isso o que quer? - hesitou ele.
      - Depressa, Anton, antes que eu mude de idia. Convena-me.
      - Ahh... Est bem. - Ele fez uma lista de motivos pelos quais ns devamos comprar aquela casa: tnhamos uma fortuna chegando; minha carreira comeara a deslanchar 
e eu estava prestes a receber um polpudo adiantamento em novembro; o banco - notoriamente cauteloso - nos dera o selo de aprovao; comprar aquela casa era melhor 
do que comprar um apartamento pequeno agora e enfrentar o trabalho de outra mudana em pouco mais de um ano; ns no queramos simplesmente uma casa, havamos nos 
apaixonado
      por aquela casa em particular, que tinha tudo a ver conosco. E
      finalmente:
      - Se as coisas ficarem meio esquisitas, poderemos vender a casa e pegar de volta a parte que pagamos por ela.
      - E se ela se desvalorizar e ns ficarmos devendo montanhas de dinheiro?
      - Uma casa como aquela, em um ponto privilegiado?  claro que ela s tende a valorizar, isso  bvio. No temos como perder. Nada pode dar errado.
      
     
PARTE DOIS
   
   Gemma
   
   1
      
      J fazia oitenta dias desde que papai sara de casa. Menos de trs meses. Contado desse jeito, no parecia to ruim. Nada de novo andava rolando quando, subitamente, 
quatro coisas IMPORTANTES aconteceram, uma emendada na outra.
      A primeira delas: no fim de maro comeou o horrio de vero. Nada demais, eu sei, mas esperem um pouco, isso no  o mais importante, foi s o gatilho do 
resto. Enfim, o fato  que o horrio foi adiantado em uma hora e, embora eu tivesse passado a maior parte do domingo acertando as horas do forno eltrico da mame, 
do microondas, do DVD, do telefone, de mais sete relgios e at mesmo do seu relgio de pulso, no percebi as implicaes daquilo at na segunda de tarde, no trabalho, 
quando Andrea colocou o casaco e disse:
      - Vou nessa! At amanh.
      O dia ainda estava to claro que eu disse:
      - Mas ainda estamos no meio da tarde!
      - Ela informou:
      - So vinte para as seis.
      De repente eu me liguei e quase engasguei de susto. As noites estavam mais longas por causa do vero; quando papai fora embora, estvamos no meio do inverno. 
O tempo tinha voado sem que eu me desse conta disso.
      Eu precisava v-lo. No por causa de mame, mas por mim mesma. Embora eu raramente sasse do trabalho antes das sete, estava turbinada com uma necessidade 
to desesperada que nem mesmo as foras combinadas de Frances e Francis conseguiriam me segurar.
      Sa do trabalho quase tropeando, de tanta pressa, entrei no carro e fui at o trabalho de papai - no iria procur-lo no apartamento deles nem por um milho 
de libras. Seu carro estava parado no estacionamento, o que significava que ele ainda no tinha sado. Fiquei observando a porta, grudada no volante, enquanto os 
funcionrios iam embora para casa, aos poucos. Engraado como eles no eram gorduchos, reparei. Na verdade, pouqussimos deles eram rechonchudos, e eu imaginava 
que com todo aquele chocolate dando sopa por ali... Ai, caramba, l vinha papai. Ao lado de Colette! Merda. Eu tinha a esperana de encontr-lo sozinho.
      Papai estava de palet e tinha a aparncia de sempre; seu rosto me era to familiar quanto o meu prprio e me pareceu estranho no v-lo h tanto tempo.
      O cabelo de Colette estava alourado nos lugares certos. Ela continuava fazendo luzes. No tinha descuidado da aparncia, mesmo depois de fisgar um marido. 
Pelo lado positivo, no parecia estar grvida.
      Enquanto se aproximavam de mim, vinham batendo papo com uma camaradagem que me causou desalento. Saltei do carro, caminhei na direo deles e parei na frente 
dos dois. Aquilo era para ter
      um tom dramtico, mas eles caminhavam to depressa que quase me atropelaram sem me notar e seguiram em frente.
      - Papai! - eu chamei.
      Os dois se viraram para trs, com o rosto sem expresso.
      - Papai? - repeti.
      - Gemma. Ora... Ol!
      - Papai, no tenho notcias suas j faz algum tempo...
      - Ah, eu sei. - Ele parecia pouco  vontade. Virou-se para Colette. - Pode me esperar no carro, amor?
      "Amor" lanou-me um olhar de desprezo, mas foi em frente, na direo do Nissan.
      - Ela precisa ser assim to desagradvel? - perguntei. No resisti. - Que motivos ela tem para ser uma pessoa to horrvel?
      - Ela est apenas insegura.
      - Ela est insegura? E quanto a mim? No vejo o senhor h quase trs meses.
      - Tanto assim? Ele arrastou os ps, trocando o peso do corpo com o jeito incerto das pessoas mais velhas.
      - Sim, papai. - Em um esforo desesperado para fazer graa, perguntei: - No vai requerer custdia sobre a sua filhinha? O senhor poderia exigir o direito 
de me visitar nos fins de semana e ns
      iramos ao McDonalds.
      Mas ele simplesmente disse:
      - Voc j  adulta e dona do prprio nariz.
      - Mas o senhor nunca tem vontade de me ver?
      Dizem que no se deve fazer uma pergunta para a qual no se tem certeza da resposta.  claro que ele queria me ver.
      Mas ele disse:
      - Provavelmente vai ser melhor que no nos encontremos, por enquanto.
      - Mas, papai... - A dor foi surgindo dentro de mim como uma onda e eu comecei a chorar. As pessoas que passavam por ns comearam a olhar, mas eu pouco liguei. 
A onda se transformou num tsunami. Eu no via meu pai havia trs meses, chorava muito e me engasguei, como se um amendoim tivesse entrado pelo buraco errado; mesmo 
assim, ele nem me tocou. Eu me lancei em seus braos; ele permaneceu duro como uma tbua e me deu tapinhas nas costas, meio sem graa.
      - Ah, Gemma, por favor, no faa isso.
      - Voc no gosta mais de mim.
      - Gosto sim, claro que gosto!
      Com um esforo monumental, forcei-me a controlar o engasgo, pigarreei para limpar a garganta e tentei me recompor.
      - Papai, por favor, volte para casa. Por favor!
      - Noel, ainda temos que pegar as crianas. - Era Colette.
      Eu me virei para ela.
      - Acho que ele mandou voc esperar no carro.
      - Vamos logo, Noel! - insistiu ela, me ignorando. - As crianas! Elas devem estar se perguntando onde ns estamos.
      - Quer saber de uma coisa? - eu lhe disse, apontando para papai. - Eu sou a criana dele e ando me perguntando a mesma coisa. - Acrescentei: portanto, v se 
foder!
      Ela me avaliou, mais fria do que nunca, e reagiu:
      - V voc! Mais dois minutos - avisou a papai. - Estou contando! - Entrou no carro com estardalhao.
      - Ela  cheia de classe, no?
      - Como vai a sua me? - perguntou papai.
      - Sua MULHER - gritei, para todos em volta do estacionamento ouvirem. As poucas pessoas que no olhavam comearam a se interessar pela cena. - Sua MULHER est 
TIMA. Arrumou um
      namorado. Um cara suo chamado Helmut. Ele tem um Aston Martin vermelho com portas que se abrem para cima, como asas de gaivota.
      -  mesmo? Que extico! Oua, Gemma, preciso ir, agora. Geri fica revoltado quando demoramos para peg-lo.
      Um enorme desprezo por ele era tudo o que sobrara dentro de mim. Olhei para o meu pai e disse:
      - O senhor  um covarde.
      Na segurana do meu carro, as lgrimas voltaram. Todos os homens so covardes. Isso era uma coisa que ningum ia conseguir consertar to cedo; arrasava-me 
reconhecer, mas papai e Colette
      pareciam estar em um relacionamento permanente. Se fosse assim, onde isso me deixava? E quanto  minha vida?
      Mame fazia o melhor que podia e tentava realmente ser valente. Ela seguia uma nova rotina, assistindo a uma novela diurna atrs da outra para ajud-la a passar 
o tempo, como uma ponte de cordas sobre o abismo. Voltou a freqentar a missa, foi at mesmo tomar caf com a sra. Kelly umas duas vezes, mas sempre voltava para 
casa tremendo que nem gelia. Ainda era necessrio eu passar todas as noites com ela.
      Por tudo isso, quais eram as chances de ela se virar para mim e dizer "Gemma, por que no tira uma folga de mim nesse fim de semana? Saia para tomar um porre, 
arrume uns dois namorados e curta-os at o meio da semana que vem. Ser timo para voc!"
      No... Por algum motivo eu no conseguia imagin-la dizendo isso..
      Ningum me ajudaria. Pensei em Owen, o boyzinho que eu tinha conhecido na noite do aniversrio de Cody (embora no me lembrasse disso). Ele j me convidara 
para sair duas vezes e na segunda eu topei, mas no conseguimos marcar um dia porque no havia como escapar da mame.
      Eu prometi ligar para ele, mas at ento a chance no tinha pintado.
      
     
2
      
      A segunda coisa - provavelmente a menos importante das quatro - foi que eu consegui um novo cliente no trabalho. Recebi a ligao no dia seguinte,  uma e 
dez da tarde, bem na hora em que eu ia sair para almoar. Aquilo era um sinal de como as coisas continuavam sendo como eram; algumas pessoas eram super exigentes, 
mesmo sem querer. A diva intransigente da vez era Lesley Lattimore, uma patricinha irlandesa: em outras palavras, ela freqentava um monte de festas e gastava um 
monte de dinheiro que no havia sido ganho por ela. Seu pai, Larry "Balofo" Lattimore, fizera fortuna comprando casas na Irlanda, reformando-as e vendendo-as sem 
pagar impostos sobre o lucro, mas ningum parecia se importar com isso. Muito menos Lesley.
      - Preciso de algum para organizar a minha festa de aniversrio de treze anos e soube que foi voc quem organizou o casamento de Davinia Westport.
      No perguntei se ela estivera na festa de casamento de Davinia, pois eu sabia que no. Ela era filha de um criminoso ainda no condenado, e Davinia era elegante 
demais para convid-la. S que papai
      Balofo obviamente queria oferecer para a sua nica filhinha uma superfesta no estilo Davinia.
      - Que tipo de evento voc tem em mente?
      - Mais de duzentos convidados. O tema  "Princesas". Pensei em Barbie Gtica - informou ela, e eu concordei; de repente, eu precisava muito daquele trabalho. 
- Quando voc pode vir aqui me ver?
      - Hoje. Agora!
      Peguei algumas pastas com fotos das festas mais criativas e extravagantes que eu organizara e fui at o duplex no centro da cidade, com vista para o rio, onde 
Lesley morava. A menina tinha o cabelo super bem cuidado, um bronzeado de St. Tropez, roupas estalando de novas e toda aquela camada de brilho que as pessoas ricas 
tm, como se tivessem sido mergulhadas em verniz. Alm de tudo,  claro, Lesley tinha uma bolsa minscula - confirmando a minha teoria de que, quanto mais rica a 
pessoa , menor a sua bolsa. Afinal, do que elas precisam? S do carto dourado, das chaves do Audi TI, de um celular minsculo e de um tubinho de brilho para os 
lbios. Quanto a mim, minha bolsa  do tamanho da mala com rodinhas de uma aeromoa e vive cheia de pastas de trabalho, estojos de maquiagem, canetas que vazam, 
notinhas de servio da tinturaria, barras de cereais comidas pela metade, Tylenol, uma Diet Coke, uma revista de celebridades e,  claro, meu celular tijolo.
      Lesley seguia o figurino at na atitude, que ficava em algum ponto entre "arrogante desagradvel" e "grossa ao extremo", passando por todos os pontos intermedirios. 
Isso tudo, ajudado pelo brilho que exibia, ajudava a mascarar sua beleza abaixo da mdia.
      Era necessrio ter contato com ela por algum tempo para reparar que seu nariz e o queixo eram pontudos. Para ser franca, se ela escolhesse uma festa temtica 
sobre bruxas, em vez de princesas,
      estaria pronta para o papel principal. Engraado o seu pai ainda no ter lhe comprado um queixo novo. Apesar desse detalhe e da bronca que eu senti por tudo 
aquilo, fui obrigada a admitir que a coisa podia dar certo.
      - Por que eu devo contratar voc? - ela quis saber, e eu comecei a citar os inmeros eventos importantes que j organizara - casamentos, congressos, cerimnias 
para entrega de prmios. De
      repente, eu hesitei, pensei um pouco e resolvi usar um coringa:
      - Eu tenho uma varinha de condo - informei. - Ela  prateada e tem uma estrela purpurinada na ponta, de onde saem fiapinhos lils.
      - Eu tambm tenho uma, igualzinha! - exclamou ela. - Voc est contratada!
      Ela saiu correndo da sala, foi buscar a varinha e a passou em crculos sobre a minha cabea, dizendo:
      - Eu lhe concedo a honra de organizar a festa de aniversrio de Lesley.
      Em seguida, ela me passou a varinha e ordenou:
      - Diga: "Eu lhe prometo um castelo cheio de torres."
      Com ar relutante, peguei a varinha.
      - Vamos l! - incentivou ela. - "Eu lhe prometo um castelo cheio de torres."
      - Eu lhe prometo um castelo cheio de torres - disse eu.
      - Eu lhe prometo um legtimo salo medieval.
      - Eu lhe prometo um legtimo salo medieval - repeti. Senti que aquilo seria muito desgastante.
      - Eu lhe prometo um grupo de cavaleiros com armaduras e lanas.
      - Eu lhe prometo um grupo de cavaleiros com armaduras e lanas.
      A cada "prometo", eu era obrigada a circular com a varinha a cabea dela e em seguida tocar com a ponta dela cada um dos seus ombros. Aquilo estava ficando 
um saco, mas logo ela perdeu o interesse na varinha e eu quase chorei de alegria. Especialmente porque eu precisava fazer uma lista de todas aquelas exigncias.
      E que lista! Ela queria um vestido prateado em estilo Camelot (palavras dela), com mangas pontudas que deveriam ir at o cho, uma capa branca de arminho, 
um chapu pontudo de princesa e sapatos de prata (pontudos,  claro). Queria tambm drinques cor-de-rosa. Queria cadeiras prateadas de pernas curvas. Queria s comida 
cor-de-rosa.
      Eu ia anotando tudo e concordando. "H-h... Boa idia!" No lhe fiz nenhuma pergunta complicada do tipo "como convencer os rapazes a tomar bebidas cor-de-rosa?" 
nem "como ser possvel danar ao som de uma banda de menestris tocando alade?". Aquele no era o momento para eu mostrar os furos das exigncias pouco prticas 
do seu sonho. Ainda estvamos na fase de brilho caloroso da lua-de-mel e teramos muito tempo para trocas de desaforos nas semanas que viriam - ocasies em que ela 
gritaria comigo e eu retribuiria tudo com sorrisos suaves. Nossa, havia muito tempo.
      - Qual vai ser a data da festa?
      - Trinta e um de maio.
      Dali a dois meses. Para preparar tudo aquilo, eu teria preferido dois anos, mas as Lesleys deste mundo nunca so to generosas.
      Apesar de tudo, eu sa dali com a cabea buzinando de idias e tudo comeou a parecer mais fcil. Enfrentar um novo desafio sempre me provocava um efeito bom 
- quando o tempo passava sem eu conseguir nenhum trabalho novo, eu me sentia privada de oxignio. Naquele momento, porm, eu me senti respirando livre,  vontade, 
e era bvio que a prxima sexta-feira  noite seria um momento perfeito para o meu contato imediato com Owen. Podia dizer  minha me que iria passar a noite trabalhando 
e, ao mesmo tempo, curtir uma ressaca tranqila no dia seguinte. No ajudava em nada mentir para mame, mas eu no me importava. Depois de ver a proximidade de papai 
e Colette, precisava tentar mudar as coisas na minha vida.
      Quando cheguei de volta  minha mesa, Lesley j deixara quatro mensagens. Tivera "grandes" idias: os convites seriam entregues pessoalmente por um lindo prncipe; 
as convidadas ganhariam sacolinhas com presentes logo na entrada - mas ela no queria pagar por eles.
      - Ligue para a Clinique - sugeriu ela. - E tambm para a Origins e para a Prescriptives. Diga-lhes que precisamos de muitas amostras grtis.
      Na mensagem seguinte:
      - Telefone para a Declor e para a Jo Malone tambm
      Depois mais uma:
      - Mande Lulu Guinness projetar o modelo das sacolinhas
      
     
3
      
      A terceira coisa importante: meu encontro com Owen.
      Liguei para ele e disse: "Oi, aqui  a Gemma, do baldinho para carvo. Que tal sexta-feira,  noite?"
      Eu j resolvera que, se ele no pudesse, eu iria mand-lo  merda, mas ele perguntou:
      - A que horas? Nove?
      Eu hesitei em responder e ele perguntou:
      - Voc prefere s dez?
      - No, estava pensando em oito.  que, por motivos que no vm ao caso, no tenho tido muitas chances de sair de casa e preciso extrair o mximo de diverso 
que conseguir dessa noite.
      - Podemos marcar s sete, ento, j que  assim.
      - No, a essa hora vou estar saindo do trabalho. Alis, onde vamos nos encontrar? Por favor, no sugira a Kehoes. Voc  um rapaz esperto, por dentro dos points 
da cidade, conhece todos os
      lugares quentes, e eu quero ir neles.
      - Todos eles?
      -  como eu expliquei: no tenho tido muita chance de sair.
      Fez-se um silncio pensativo.
      - Ns estamos em Dublin, no em Manhattan. No existem tantos lugares novos assim.
      - Eu sei, desculpe. - Tentei explicar: - Quero ir a uma daquelas boates onde eu possa me sentir completamente desorientada, especialmente na hora de procurar 
o toalete. Preciso me sentir um pouco viva, entende?
      - Ento, que tal a Crash? L tem um monte de espelhos e degraus em toda parte. As pessoas vivem tropeando e esbarrando umas nas outras.
      Perfeito. E ia dar tempo de eu sair do trabalho com folga.
      - Oito horas, ento, sexta-feira na Crash. No se atrase! - avisei.
      
      Ao tropear logo na entrada da Crash, toda espelhada e cheia de degraus, avistei Owen. Ele no era to bonito quanto eu lembrava, no dia em que o vi deitado 
no cho do meu quarto, naquela manh terrvel- devia estar vendo-o com meus culos de birita. Na verdade, ele no era feio, s que no se parecia com aquele gatinho 
solista de banda com ar de criminoso que eu lembrava.
      Enfim, no se pode ter tudo.
      - Gostei da sua camiseta - disse eu. Tinha um Cadillac de frente, vindo pela estrada no meio de um deserto. Muito legal. - Gostei do seu cabelo tambm. - Era 
muito brilhante e espetado, ele certamente gastara um tempo se arrumando.
      - Obrigado - disse ele, fazendo uma pausa e em seguida acrescentando: - Passei uns produtos espertos nele, t ligada, para causar uma boa impresso. - Exagerei 
no lance?
      - No.
      - Quer que eu lhe pegue um drinque?
      - Vou tomar um clice de vinho branco agora - me ajeitei no banco - , mas, a partir do segundo, vou intercalar um copo de gua mineral; antes de vir, bebi 
um copo de leite para forrar o estmago, ento no h perigo de eu dar um vexame igual ao daquela noite. Exagerei no lance?
      - Ahn... No. - Ele foi em direo ao bar e a parte de trs da camiseta mostrava a mesma estrada no deserto, dessa vez com o Cadillac indo embora.
      De repente, o Cadillac j estava aumentando de tamanho novamente, vindo na minha direo.
      - Seu drinque. - Ele ergueu o copo. - Sade!  primeira balada de Gemma, depois de muito tempo.
      Brindamos, tomamos o primeiro gole, recolocamos os copos sobre a mesa e ento baixou um silncio esquisito entre ns.
      - E ento... Ahn... O baldinho de carvo continua na rea? - perguntou Owen.
      Mas era tarde demais, a reao j viera:
      - Owen, foi um silncio estranho esse que rolou ainda agora. Por motivos que no vm ao caso no momento, no tenho tempo a perder com silncios estranhos. 
Precisamos acelerar esse lance. No temos tempo bastante para conhecermos um ao outro de forma natural; vamos ter que impulsionar o processo. Sei que isso parece 
louco, mas ser que no podamos avanar a fita uns trs meses at chegar  parte em que ficamos juntos assistindo a DVDs sem nenhum desconforto?
      Ele ficou me olhando meio desconfiado, e ento, para minha alegria, perguntou:
      - A fase em que eu j vi voc sem maquiagem?
      Sim, essa  a idia. J nem transamos toda noite. - De repente, fiquei vermelha. Na verdade, senti um fogaru descontrolado invadir meu rosto, ao lembrar que 
ainda no havamos transado nem uma vez. Por assim dizer. - Minha nossa, Owen. - Cobri o rosto em chamas com as mos. - Desculpe.
      Fiquei com vontade de ir embora. No estava pronta para circular pelas ruas e fiquei atnita com a minha grosseria. Aquela no era eu, o que estava acontecendo?
      - Sinto muito - repeti. - Eu no sou completamente insana,  que ando meio... estressada.
      Houve um instante em que a noite pareceu se equilibrar sobre um fio de navalha, mas Owen pareceu aliviado com o meu pedido de desculpas e chegou at a sorrir.
      - Depois da ltima vez que nos vimos, eu j sei como voc ... Voc  doida demais!
      Sorri de leve, no muito feliz por ser a Pirada do Pedao. Por.outro lado, no entanto, se ele j me achava maluquete, eu no precisaria me esforar tanto para 
parecer normal.
      - Que os jogos comecem! - disse ele. - Conte-me tudo a seu respeito, Gemma.
      Embora aquilo fosse idia minha, fiquei meio sem graa.
      - Tenho trinta e dois, filha nica, trabalho como organizadora de eventos, o que  muito desgastante, mas nem sempre odeio o que fao; moro em Clonskeagh e... 
Ser que esqueci alguma coisa?
      - Carro?
      - Toyota MR2. Devia ter imaginado que voc se interessaria por isso. Agora  a sua vez.
      - Honda Civic cup VTi, todo equipado, com dois anos de uso, mas cara de novo.
      - Legal para voc. Que mais?
      - Bancos de couro, painel imitando madeira...
      - Que gracinha! - Achei engraado. - Quero os detalhes do resto da sua vida.
      - Tenho vinte e oito anos e sou o filho do meio; de segunda a sexta vendo minha alma  Edachi Eletrnicos.
      - Fazendo o qu?
      - Marketing. - Com ar de cansao, continuou: - Tento fazer com que as pessoas comprem coisas.
      - E voc tem um monte de colegas de apartamento nojentos?
      - No, eu moro... - engoliu em seco - ... Sozinho.
      - Certo. Agora eu vou ao banheiro.
      - Boa sorte.
      Quando voltei, estava impressionada.
      - Muito esperta a maneira com que os reservados ficam escondidos atrs da pia e de um monte de espelhos. Levei horas para me achar. Voc escolheu muito bem 
esse lugar. Agora, vamos passar ao
      histrico dos nossos relacionamentos. Dois anos e meio atrs, minha melhor amiga roubou o amor da minha vida; eles continuam juntos e tm uma filha; nunca 
vou perdoar nenhum dos dois e no encontrei mais ningum desde ento; talvez eu parea amarga, mas isso  exatamente o que sou. Agora  a sua vez.
      - Caraca! - Ele me pareceu um pouco chocado diante do desabafo. Puxa, eu o assustara novamente. Por fim, porm, respondeu:
      - Ahn... Eu saa com uma pessoa. Uma garota.
      Fiz que sim com a cabea, para encoraj-lo.
      - Ento ns terminamos.
      - Quando? H quanto tempo vocs estavam juntos?
      - Humm...
      Tornei a incentiv-lo com a cabea.
      - Ficamos juntos por quase dois anos. Terminamos pouco antes - engoliu em seco novamente - ... do Natal.
      - Faz menos de quatro meses? E durou dois anos?
      - Sim, mas eu estou legal.
      - No seja tolo.  claro que no est.
      Enquanto ele insistia que estava bem, fiquei pensando: Isso  timo! Ele no vai querer nada de mim.
      Ao longo das trs horas que se seguiram, e mais dois outros bares desorientadores, peneirei tudo sobre Owen e descobri:
      
      1) Ele fazia tai chi chuan.
      2) No gostava de camaro - no era alrgico, simplesmente no apreciava o sabor.
      3) Um dos seus ps era meio nmero maior que o outro.
      4) Sua idia de frias perfeitas era a Jamaica.
      5) Achava que o anncio original dos bombons Rolo ("Voc ama algum o bastante para lhe oferecer o seu ltimo Rolo?") era muito mais charmoso e humano do que 
o atual, em que um rapaz tenta arrancar o Rolo da boca da sua namorada para entreg-lo a uma garota mais bonita que acabou de aparecer.
      
      Ele respondeu a todas as minhas perguntas, uma por uma.
      - Do que voc mais tem medo na vida? - ele quis saber.
      - Ficar velha e morrer sozinha - respondi e uma pequena lgrima escorreu-me pelo rosto. - No, no se preocupe - tranqilizei-o abanando a mo. -  efeito 
do vinho. E quanto a voc? Qual o seu maior medo na vida?
      Ele pensou.
      - Ficar trancado no porta-malas de um Nissan modelo Micra com dez anos de uso em companhia de Uri Geller.
      - Excelente resposta! Agora, vamos danar.
      
     * * *
      
      Algumas horas mais tarde, no apartamento dele (at que bem arrumadinho, considerando que pertencia a um rapaz), curtimos uns amassos enquanto tirvamos as 
roupas sobre a cama dele.  claro que eu pensei em Anton, o ltimo homem com quem dormira; depois dele, achei que nunca mais dormiria com ningum. Se bem que o que 
estava rolando ali era completamente diferente. No s em intensidade emocional, mas tambm fisicamente. Anton era magro e esbelto, enquanto Owen era muito mais 
compacto. De qualquer
      modo, eu no podia reclamar. Antes que as coisas fossem mais adiante, agarrei um dos pulsos de Owen, interrompendo a deliciosa rodada de mordidas no pescoo, 
e disse, atropelando as palavras:
      - Owen, eu normalmente no vou para a cama com ningum na primeira noite.
      - Eu sei. - Seu cabelo estava emaranhado e ele parecia quase sem flego. - S que, por motivos que no vm ao caso, a noite de hoje conta como se j estivssemos 
juntos h trs meses. No se preocupe, Gemma. Simplesmente curta o momento.
      Ele me colou nele, apertando-me com a sua excelente ereo, e eu fiz exatamente o que ele sugeriu.
      
      Ele acordou no momento em que eu vestia minhas calas.
      - Aonde voc vai?
      - Preciso ir para casa.
      Ele se inclinou e olhou para o despertador.
      - Mas so trs e meia da manh. Por que est indo embora? Ei...!Voc no  casada, ?
      - No.
      - Nem tem filhos?
      - No.
      - Voc vai cuidar do baldinho de carvo?
      - No. - Uma gargalhada escapou.
      - Espere at amanhecer. No v embora.
      - Tenho de ir. Voc poderia me chamar um txi?
      - Voc  um txi.
      - Tudo bem, eu pego um na esquina.
      - Ento t...
      - Pode deixar que eu ligo.
      - No precisa se incomodar.
      Deixei escapar outra gargalhada.
      - Owen, esta  a nossa primeira briga! Agora a gente acelerou de verdade!
      
     
4
      
      A quarta coisa.
      L H Agncia Literria
      Wardour Street, 4-8
      Londres, W1P 3AG
      31 de maro
      Cara Srta. Hogan,
      (Ser que j posso cham-la de Gemma? - sinto como se j nos conhecssemos!)
      Muito obrigada pelas suas pginas, enviadas por ns pela sua amiga Susan Looby. Minha avaliadora e eu adoramos seu texto.
      Obviamente ainda estamos longe de ter um livro e precisamos decidir sobre o formato final - memrias, no-fico ou romance. No entanto, estou interessada 
em conversar com voc. Por favor, entre em contato, para podermos combinar tudo.
      
      Abraos,
      Jojo Harvey
      
      D para imaginar? Era uma noite de sbado. Eu curtira uma manh linda, cochilando, tomando um monte de Alka Seltzers e pensando em Owen, at me sentir bem 
o bastante para me levantar e dar uma passada no meu apartamento (que, por sinal, estava com um cheirinho esquisito), a fim de pegar a correspondncia, dar gua 
para o gato, olhar com saudade para a minha cama etc., quando encontrei isto. Antes mesmo de abrir o envelope, minha boca j estava mais seca que o deserto de Gobi; 
toda carta com selo de Londres me provocava esse efeito - que idiota eu sou, n? Tinha esperanas de que pudesse ser Anton me dizendo que tudo foi um terrvel erro, 
que Lily era uma megera careca com roupas de riponga e ele me queria de volta. Aquele envelope, em especial, provocou um efeito ainda pior, pois o selo fora carimbado 
com as palavras Londres Wl e, por acaso, eu sabia (tinha implorado a Cody para que ele me dissesse) que o prdio onde Anton trabalhava ficava exatamente naquela 
rea.
      Ento resolvi abrir o envelope e vi que era uma carta escrita em um papel sofisticado de cor creme, mas no havia palavras em nmero suficiente ali para ser 
uma carta de arrependimento de Anton. Mesmo assim, os meus olhos correram at a ltima linha e, como eu previra, no havia assinatura nenhuma de Anton, e sim de 
algum com o nome de Jojo Harvey. Quem diabos era aquela pessoa? Engoli vrias vezes para tentar umedecer a boca e ler o texto, mas, em vez de entender melhor o 
que estava acontecendo, fiquei ainda mais confusa. Devia ser um erro, decidi. Mas... Ela mencionara Susan, com nome e sobrenome.
      Resolvi telefonar para Susan. Eram dez da manh em Seattle e eu a acordei, mas ela fez questo de me dizer que no se importava e ns duas ficamos to empolgadas 
ao ouvir a voz uma da outra depois de tanto tempo que demorou um pouco at chegarmos ao motivo da ligao.
      - Susan, veja que esquisito... Acabei de receber uma carta. Eu a abri porque veio endereada a mim, mas o assunto tem alguma coisa a ver com voc.
      - V em frente. - Ela parecia intrigada. - Quem enviou essa carta?
      - Uma mulher chamada Jojo Harvey, de uma agncia literria de Londres.
      Depois disso, veio um silncio muito longo. To longo que eu acabei sendo a primeira a falar:
      - Susan? Voc ainda est a?
      - Ahn... Estou.
      - Pensei que a ligao tivesse cado. Fale alguma coisa.
      - Sim... Escute... Ela devia ter mandado essa carta para mim, e no para voc.
      - Ento eu posso simplesmente reencaminh-la a voc. - Fiquei surpresa ao notar que ela estava na defensiva.
      Depois de outro silncio incmodo, ela comeou a falar muito depressa:
      - Gemma, tenho uma coisa para lhe contar e voc no vai gostar nem um pouco, pelo menos no de imediato, e sinto muito voc descobrir tudo dessa forma.
      Aquelas eram as piores palavras do mundo: "Tenho uma coisa para lhe contar." Nunca  uma notcia boa, do tipo "Acaba de cair uma pedra preciosa do seu colar; 
acho que voc no percebeu, mas algum precisava lhe contar." Ou: "Um milionrio excntrico lhe
      deixou de herana uma quantidade absurdamente grande de dinheiro, capaz de mudar sua vida para sempre, e pediu que o dinheiro entrasse na sua conta sem avis-lo, 
mas eu, na condio de seu amigo, senti que era meu dever contar." Nada disso... Geralmente eram ms notcias.
      Meu estmago despencou e continuou caindo em direo ao centro da Terra.
      - O que foi, Susan? O que aconteceu?
      - Voc sabe que desde que eu mudei aqui para Seattle voc me manda um monte de e-mails, no sabe?
      - Sei.
      - Lembra que desde que o seu pai deixou a sua me voc anda inventando pequenas histrias sobre eles?
      - Lembro.
      - Pois ento... Escute, eu achei todas as histrias muito engraadas. Sempre soube que voc era uma grande escritora e tenho certeza de que jamais faria alguma 
coisa a respeito disso por conta prpria; alm do mais, no imaginava que algo de bom pudesse resultar disso e... - Subitamente ela parou, parecendo acuada, e disse, 
com a voz mais aguda: - Eu sei que voc jamais faria algo por conta prpria a respeito disso.
      - Eu no faria nada a respeito de qu? - Mas eu sabia. - Voc enviou as minhas histrias para essa agente, no foi?
      Aquilo era uma coisa boa, no era? Por que ela parecia to acuada?
      De repente, ela confessou:
      - Eu no enviei s as histrias.
      - Enviou mais o qu?
      - Os e-mails que voc vem me mandando durante todo esse tempo.
      Minha cabea repassou rapidamente todas as coisas que eu contara a Susan: papai saindo de casa e abandonando a mame, o lanamento do livro de Lily, meu lance 
com Owen, que continuava rolando... Fiquei quase sem ar.
      - Susan, voc no mandou... Todos os e-mails, mandou?
      - No, nem todos. - Ela estava procurando pelas palavras certas. - Deixei um ou outro de fora.
      - Um ou outro? Aquilo me pareceu bem pouco.
      - Filtrei todas as partes realmente ruins, como o quanto voc odeia Lily, e tambm...
      - E tambm...? - Eu estava desesperada.
      - O quanto voc detestou o livro de Lily.
      - E...?
      - Como voc se sente a respeito dela.
      - Isso voc j disse. Voc mandou todo o resto?
      - Sim. - Ela falou to baixo que sua voz pareceu rudo de esttica.
      - Puxa, Susan!
      - Sinto muito, Gemma, juro por Deus. Achei que estava fazendo a coisa certa...
      Comecei a chorar. Devia me sentir furiosa, mas no tive foras para isso.
      
      Fui de carro at a casa da mame.
      - Entre logo! - disse ela, oferecendo-me um clice de licor Baileys. - Estamos perdendo o Midsomer Murders.
      - No, hoje eu no posso assistir tev.
      Liguei o computador, louca para reler tudo o que enviara para Susan e que estava em Londres naquele exato momento sobre a mesa de uma mulher que eu nem conhecia.
      Fiz leitura dinmica na lista de "e-mails enviados". Caraca... Caraca... Caraca!... Aquilo ainda era pior do que eu lembrava. Toda a dor e os sentimentos ntimos 
que eu alimentava a respeito de papai e de mame. Sem falar nas baixarias que eu no me importava que meus amigos soubessem, mas que iriam me matar de vergonha se 
cassem na boca de todo mundo.
      
     
5
      
      Na noite de sbado e durante o domingo inteiro o meu celular no parou de tocar. Era Susan, arrasada, tentando pedir desculpas. Eu no atendi a nenhuma das 
ligaes; precisava de um tempo para me recuperar.
      - Eu estava apenas tentando ajudar - dizia ela, vrias vezes em cada recado. - Voc  uma escritora fantstica, mas eu sabia que jamais faria nada a respeito 
por conta prpria.
      Aquele era o problema com Susan. S porque ela foi para Seattle, em busca da porcaria do sonho da sua vida, queria que todo mundo fizesse a mesma coisa. Nos 
bons e velhos tempos (ano passado) ela costumava suspirar, lamentando-se:
      - No estamos levando nossa vida para lugar algum, Gemma.
      E eu sempre dizia:
      - Eu sei. Isso no  timo?
      Foi um choque enorme quando ela resolveu fazer algo de bom acontecer na vida dela, mas tentar repetir o processo com a minha vida era totalmente errado.
      Ao ir para o trabalho na segunda-feira, fiquei morrendo de medo de estar com cara de idiota a qualquer momento. Toda vez que eu lembrava que a tal agente literria 
poderia estar lendo, naquele exato momento, sobre a minha primeira noite com Owen, por exemplo, ou sobre o falso infarto de mame, eu me sentia enrubescer.
      Alm do mais, percebi que devia ter trabalhado durante o fim de semana, em vez de ficar tratando da minha ressaca. Havia um monte de recados na minha caixa 
postal, inclusive um de Lesley Lattimore, onde ela avisava que:
      
      1) No havia gostado de nenhum dos estilistas que eu indicara.
      2) Quais as amostras grtis de cosmticos que eu conseguira at agora?
      3) Onde estava o castelo cheio de torres?
      
       claro que eu no agitara nenhuma amostra grtis de cosmticos, pois era difcil persuadir empresas famosas a descarregar toneladas de amostras grtis para 
uma festa de um contraventor que nenhuma coluna social iria divulgar. Alm do mais, ainda no conseguira localizar nenhum castelo com torres que pudesse servir de 
cenrio para a festa.
      Em seguida, ouvi as mensagens dos trs estilistas. Um deles se referiu a Lesley como "aquela pessoa horrvel". A segunda era de uma mulher, contando que Lesley 
queria que ela lhe preparasse o vestido de graa, em troca da publicidade que ela teria. A terceira chamou Lesley de "lixo branco". Uau!
      Comecei a dar telefonemas de forma frentica, sentindo-me em pnico e ligando para um monte de lugares praticamente ao mesmo tempo - designers, jornalistas, 
empresas de cosmticos, castelos com torres. Em uma das pequenas brechas entre uma ligao e outra, Cody ligou:
      - Aqui  Cody "Kofi Annan" Cooper, ligando em misso de paz, para interceder em uma questo internacional. Susan me disse que voc no quer falar com ela.
      - E no quero mesmo. Essa foi a pior coisa que algum j fez comigo em toda a minha vida!
      - Deixe disso, sua rainha do drama. Puxa, voc devia ter nascido gay, sabia? Gemma, vou lhe dizer uma coisa, e quero que voc me escute com ateno. Uma agente 
literria est interessada em representar o seu trabalho e voc nem mesmo escreveu um livro. Ser que voc faz idia de o quanto  sortuda? Milhares de pessoas escrevem 
livros, abrem mo do seu tempo livre, se magoam tentando achar algum que publique seus textos e mesmo assim no conseguem um agente. Quanto a voc, uma agente literria 
cai bem no seu colo.
      Encolhi os ombros, com desdm.
      - Voc encolheu os ombros?
      - Nossa, Cody, s vezes voc me assusta.
      - Garota, essa  uma sensao mtua, sabia?
      - Sobre o que est falando?
      - Sobre voc. E sobre o fato de voc no fazer mais nada de interessante na vida.
      - Ah, olha s quem est sendo a rainha do drama agora! Voc sabe o quanto o meu trabalho  duro. Meu emprego exige muito de mim e, mesmo eu sendo perfeccionista, 
a verdade  que sou muito boa no que fao.
      - Isso  verdade, voc  tima quando se trata de trazer rios de dinheiro para os Gmeos do Mal, para eles poderem comprar uma casa de fazenda na Normandia 
ou sei l onde, s com a grana desta semana. O que voc recebe do dinheiro que gera?
      - Eu ganho bem e por favor, Cody, no os chame de Gmeos do Mal, porque s vezes eles monitoram as minhas ligaes.
      - Abra a sua prpria empresa.
      Todo mundo, na rea em que eu trabalho, tem o sonho dourado de abrir a prpria empresa. S que  preciso muito capital, clientes em potencial, e F&F me prenderam 
em um contrato que determina que eu no posso levar nenhum dos clientes da firma, caso v trabalhar por conta prpria. Alm disso, eu morreria de medo de que F&F 
pudessem roubar os que eu conseguisse depois.
      - Quem sabe um dia... - disse eu.
      - Nesse meio-tempo, telefone para essa agente literria. Se  que voc tem algum juzo...
      - E se o livro for publicado e o mundo inteiro descobrir tudo sobre o meu pai abandonando a minha me?
      - Troque alguns detalhes.
      - Meus pais vo saber que estou falando deles.
      - Escute, eu no tenho todas as respostas. Pense em alguma coisa.
      Permaneci calada at que, por fim, Cody disse:
      - S mais uma coisinha. Essa agente  a mesma de Lily.
      - Lily Wright?
      - Quantas Lilys ns conhecemos?
      - Mas por que Susan escolheu logo ela?
      - Porque ela no fazia a mnima idia de onde procurar uma agente literria. Essa mulher, Jojo, era a nica de quem Susan j ouvira falar, e ento pediu ao 
pai que ele perguntasse  me de Lily o nome da sua agente.
      - Por Deus Todo-Poderoso...
      - Telefone para ela.
      - Se ela realmente quiser ser minha agente, ela mesma vai me ligar.
      - No, no vai. Ela  muito ocupada e a demanda pelos seus servios  grande.
      - Ento que se dane!
      Eu no ia ligar para Jojo Harvey. Se aquilo era para acontecer, teria que ser sem a minha ajuda.
      
     
6
      
      Tudo bem, eu acabei telefonando para ela. Mas s na segunda-feira da semana seguinte. Nesse intervalo, eu tive dias muito cheios, lotados de Lesley Lattimore. 
Esperei pelo que estivesse destinado a acontecer e, quando no aconteceu nada, peguei o telefone e liguei para a tal de Jojo Harvey.
      Era manh de segunda e eu havia passado o fim de semana inteiro atravessando a Irlanda de uma ponta a outra em busca de uma droga de castelo com torres. Precisava 
de algo bom na minha vida.
      Levou alguns instantes para Jojo se lembrar de quem eu era, mas, quando isso aconteceu, ela me disse:
      - Venha at aqui para conversarmos.
      - Eu moro na Irlanda, no  fcil ir a Londres.
      Ela no disse que poderia ir a Dublin, nem que pagaria a minha passagem area para Londres. Pelo visto, ela no estava to interessada assim no meu trabalho 
- desconfio que s atendeu  minha ligao porque achou que fosse outra pessoa - e isso me provocou uma inesperada ansiedade.
      Entretanto, recusei tomar a deciso de ir at l. Mais uma vez achei que, se aquilo realmente estivesse destinado a ser, aconteceria sem interferncia alguma 
de minha parte. Mesmo assim, para dar um empurrozinho no destino, tentei fazer com que Francis & Frances me mandassem a Londres, comentando bem alto, do lado de 
fora da sala deles:
      - Nossa, como eu odeio Londres! Adoro nunca precisar ir l a trabalho. Apesar do que, pensando bem, as oportunidades so infinitas; h um monte de astros e 
estrelas britnicos loucos para casar na Irlanda, mas s de pensar em ser mandada a Londres para garimpar clientes nas agncias de l, isso me deixa desanimada.
      Entretanto - como  que eu ainda conseguia me surpreender com essas coisas? - , eles me passaram para trs e na quarta-feira de manh eu soube que eles iam 
mandar Andrea a Londres. Babacas diablicos.  claro que eu j sabia que eles so convidados de honra das festas do lado negro, devem ter at um carto de milhagem. 
E eu recebera o recado: aquilo no era para acontecer.
      Pode esquecer.
      Ento liguei para Cody, que perguntou:
      - Como anda a vida no convento?
      - Nada mal. Temos um mingau gostosinho.
      Cody estalou a lngua e eu aposto que virou os olhos para o teto.
      - Voc precisa ir a Londres por algum motivo nos prximos dias? - perguntei.
      - No, mas ouvi dizer que voc precisa.
      Desisti de disfarar.
      - Acho que sim. Quer ir comigo?
      - Se for para acompanhar voc at o prdio onde a sua agente literria trabalha, eu topo. Quando?
      - Qualquer dia da semana que vem. Que tal na quarta?
      - Tudo bem, eu arrumo uma enxaqueca para esse dia. Agora, mande um e-mail para a Susan.
      
      PARA: Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Obrigada e desculpe
      
      Vou conhecer Jojo Harvey na quarta-feira. Obrigada, obrigada, obrigada por fazer com que isso acontecesse. Voc tem razo, eu jamais faria isso por conta prpria. 
Desculpe por no atender as suas ligaes; estava tentando ser cruel, mas, no fundo, me senti meio apavorada. Cody vai at l comigo, j programou uma enxaqueca 
para faltar ao trabalho e eu vou ter clicas menstruais. Prometo ligar quando no for o meio da madrugada em Seattle.
      Muitos, muitos, muitos e muitos beijos da sua amiga eternamente grata,
      Gemma
      
      Depois daquela vez em que eu ca fora no meio da noite, Owen nunca mais telefonou, o que eu achei estranho, realmente estranho. Muita gente poderia dizer que 
eu "dei a ele o que ele queria" e no havia razo para ele se importar comigo novamente. Reconheo que a primeira vez que eu durmo com um homem  um momento perigoso 
- eu me preparo para uma mudana no equilbrio de poder, ou para ele se mostrar ausente ou distante, ou para eu sentir que estou abrindo mo de alguma coisa boa. 
Com Owen, no entanto - no sei por que - , eu no dava a mnima mesmo, e ento, toda alegrinha, liguei para ele.
      - Owen,  Gemma! Vamos sair na noite de sexta? - Parecia at que estava tudo numa boa entre ns.
      - Voc tem muita cara-de-pau, sabia?
      - Geralmente no - admiti. - Voc  o nico que provoca esse efeito em mim. Ento, que tal na sexta?
      - Voc vai escapar sorrateiramente no meio da noite?
      - Vou, mas eu tenho um motivo. Encontre-se comigo e eu conto tudo.
       claro que ele no resistiu e s oito em ponto de sexta-feira l estava eu, tropeando nos degraus espelhados da boate Crash.
      - Dj-vu - disse eu, sorridente. - Gostei da sua camisa. - Era outra, mas tambm muito bonita.
      Ele no riu, mas eu continuei olhando com o mesmo sorriso nos lbios, at que ele desistiu da cara amarrada. Ento, parecendo surpreso com a prpria atitude, 
ele se levantou, me agarrou e me deu um beijo. Um beijo muito bom por sinal, que continuou por muito mais tempo do que planejamos e s acabou quando algum ao lado 
gritou:
      "Ei, por que no arrumam um quarto pra transar?"
      - Muito bem, Gemma, qual  a sua desculpa para me largar sozinho no meio da noite?
      -  uma desculpa tima. Pea um drinque para mim que eu conto.
      Eu relatei tudo a ele, com detalhes, especialmente a parte de mame no poder passar a noite sozinha, seno teria mais uma ameaa de infarto.
      - Para ser justa, at que mame anda menos grudenta, mas o pesadelo ainda no acabou. Agora voc entende que o fato de eu abandonar voc no  nada pessoal, 
certo?
      - Eu no queria que voc fosse embora. - Ele conseguiu parecer emburrado e sexy ao mesmo tempo.
      Diante das circunstncias, achei que seria simptico responder:
      - Eu tambm no queria ir.
      Foi uma noite cheia de flertes, toques e sentimentos, muitas carcias de mos, significativas trocas de olhar, e ns dois acabamos ligeiramente altos. Ficamos 
na Crash at a hora de fechar; depois, na rua, continuamos colados um no outro e ele perguntou:
      - E agora? Vamos a outro lugar?
      - Vamos para a sua casa - eu propus, dedilhando os botes da frente da sua camisa de um jeito picante e sedutor.
      - Voc vai sair de fininho novamente, no meio da noite?
      - Vou.
      - Ento no pode ir para a minha casa.
      Atnita, olhei para a cara dele e vi que ele falava srio!
      - Mas, Owen, isso  a maior idiotice. - Eu estava louca para transar, pegara gostinho pela coisa.
      - Se voc no quer se dar ao trabalho de passar a noite toda, prefiro que nem v.
      - Mas eu j lhe expliquei o que est acontecendo! Preciso voltar para casa porque tenho que ficar com a minha me.
      - Voc tem trinta e dois anos! - ele gritou. - Esse tipo de problema eu posso conseguir com uma garota de dezesseis.
      - Ento v arrumar uma garota de dezesseis por a!
      - Tudo bem.
      Ele se virou e se afastou de mim, muito zangado e meio abalado.
      Estiquei o brao e chamei um txi.
      Tremendo de raiva, entrei e informei o destino:
      - Kilmacud.
      Um segundo antes de o txi se pr em movimento, a porta se escancarou e Owen se lanou dentro do carro, por cima de mim.
      - Vou com voc - avisou ele.
      - No, nada disso.
      - Vou sim.
      - Ah, que timo! Minha me vai adorar conhecer voc. No!
      - Pare o carro! - berrou ele. Embora mal tivssemos sado do lugar, paramos junto  calada com um freada brusca, mas Owen no saltou. - Por que ns precisamos 
ir para a casa da sua me? No podemos ir para o seu apartamento?
      - No adianta nada, porque eu vou ter que ir embora no meio da noite, do mesmo jeito.
      - Tudo bem, eu aceito assim mesmo. Vamos para a casa dela, em Clonskeagh - ele avisou ao taxista.
      Como assim, vamos? Quem  que disse que voc pode ir?
      Ele tentou me beijar e eu lhe dei uma cotovelada. Mas ele tornou a tentar e, como beijava muito bem, eu deixei.
      Ento ele passou a mo espalmada por cima do meu top, pegou um mamilo e apertou-o com as pontas dos dedos; um choque eltrico desceu at l embaixo e de repente 
eu me vi muito excitada.
      
      No dia seguinte, eu estava muito plida e calada. Fiquei bbada e tinha brigado no meio da rua. Cometi um ato sexual dentro de um txi - pelo menos tentei, 
mas o taxista me pediu para parar. Em seguida, tinha dormido com um homem que chamava seus pases baixos de "Tio Dick e os gmeos". Na verdade, o que ele disse foi:
      - Tio Dick e os gmeos se apresentando para a misso, senhor!
      Mas querem saber de uma coisa? A transa foi fantstica. Rpida, fabulosa, suarenta, sexy - e abundante.
      Entre uma rodada e outra, ele sussurrou, perdido em meus cabelos:
      - Desculpe eu ter dito aquilo sobre a garota de dezesseis anos.
      Eu bem que ficara uma arara na hora, mas para guardar mgoa voc tem que se importar com a pessoa, e no era esse o caso.
      - Voc  muito babaca, mas eu o perdo - afirmei, com ar magnnimo.
      - Eu vi Lorna hoje.
      Quem? Ah, a ex-namorada dele.
      - Voc ficou chateado? - perguntei.
      - No.
      Claro que no, apenas devastado. Percebi o que acontecera na rua - ele no estava brigando comigo, e sim com algum que no estava l. E no meu caso, qual 
seria a desculpa?
      Tentando ser solidria, afaguei-lhe a mo at sentir seu instrumento se manifestar e se colocar novamente em posio de sentido, e ento me virei para ele.
      - Diga! - pedi.
      - Permisso para acoplar, comandante.
      
      Ele me ligou no domingo  tarde.
      - Arrumei dois ingressos para um show na noite de tera-feira. Voc est a fim de ir?
      - Vamos ter que assistir em p?
      - Vamos.
      - Ento eu dispenso. No se ofenda, o problema  comigo. V com outra pessoa.
      - Tudo bem. - Uma pausa. - O que voc est fazendo agora?
      Eu estava trabalhando, digitando as listas para a festa de Lesley.
      - Nada - eu disse. Senti uma comicho aumentando na boca do estmago.
      - Gostaria de fazer alguma coisa?
      Engoli em seco.
      - Como o qu, por exemplo?
      - O que voc gostaria de fazer?
      Eu sabia o que queria fazer, e queria muito.
      - Uma hora - avisei. - Esse  o tempo que eu tenho. Encontre-me no meu apartamento em vinte minutos. Mame! - berrei, enfiando um monte de coisas na bolsa. 
- Preciso dar uma saidinha. Assunto de trabalho. Vou ficar fora duas horas, no mximo
      
     
7
      
      Na quarta-feira de manh, depois de trocar palavras mgicas com rapazes de cabelo bem tratado, Cody, vestindo terno e botas, nos conseguiu um upgrade para 
a primeira classe, com direito a usar a sala VIP.
      - De onde voc conhece todos esses rapazes? - perguntei.
      Cody folheava com desdm duas revistas, uma de golfe e outra de finanas. De repente, reclamou:
      - Puxa vida! Custava alguma coisa eles colocarem um exemplar de Heat por aqui? Ahn... Eu conheci essa galera nas minhas baladas.
      Assim que embarcamos no avio, um dos comissrios reparou em Cody e ficou vermelho como um pimento.
      - Cody? - perguntou ele, atnito.
      - Esse  o meu nome. Pelo menos por hoje. Quem sabe qual das minhas mltiplas personalidades estar no comando amanh? - Cody se virou para mim. - Prenda o 
cinto, minha cara. Puxa, olhe s para isso! No vou conseguir fechar o meu prprio cinto sem ajuda.
      -  muito simples, seu burraldo, basta vo...
      - Por favor, meu jovem! - Cody deu um tapa na minha mo, empurrou-a para longe e chamou o Senhor Pimento. - Ser que voc poderia me ajudar a lidar com isto 
aqui? - Apontou para o espao entre as pernas.
      - H algum problema com o equipamento? - A cara de vergonha do pobre Senhor Pimento se manifestou com mais vermelhido ainda.
      - Preciso que algum prenda isso para mim, se voc no se importa... Opal... Que dedos de seda... Isso a... Muito gostoso! Maciiiooo e gostoooso.
      - Conheceu nas baladas, n? - murmurei. - Voc anda badalando muito, n?
      -  muito melhor do que vestir um hbito e fazer voto de castidade.
      - No estou mais usando hbito. - De repente, comecei a achar isso engraado. - E voc  um porco fedorento.
      - O que quer dizer com "no estou mais usando hbito"? - Ele olhou para mim meio desconfiado e, de repente, seus olhos brilharam de alegria. -  o cara da 
farmcia!
      - No. - Fiz um pouco mais de suspense, s para v-lo sofrer.
      -  Owen.
      - Owen, o gatinho?
      Na noite do aniversrio de Cody, Owen se aproximou dele e perguntou: "Desculpe, mas a sua amiga j tem namorado?" Como resultado disso, Cody achou Owen uma 
delcia.
      - Owen, o lindinho - confirmei.
      - Voc dormiu com ele?
      Fiquei atnita.
      - Claro que sim!
      - Mas nunca me contou.
      - No tive muita chance. Mal temos nos visto ultimamente, certo?
      - Minha nossa! Conte mais.
      - Ele faz com que eu me sinta jovem. - Mais que depressa, continuei a falar, antes de Cody comear a me zoar com seus arrulhos:
      - Nem sempre nesse sentido. Desde que comecei a sair com ele, eu... Primeiro... - comecei a contar nos dedos (Olhe s, minhas unhas no esto com uma cor linda?...) 
- Enfim, vamos l... Primeiro: briguei com ele, ambos bbados, no meio da rua; segundo: peguei no bilau dele dentro de um txi; terceiro: escapei da casa de mame 
no domingo  tarde s para transar com ele.
      - S para transar? - Cody fez eco.
      - E fiz a mesma coisa ontem  noite - disse - , antes de ir para casa, depois do trabalho.
      Owen ligara para o meu trabalho mais ou menos s seis e meia e perguntou: "O que vai fazer hoje  noite?"
      - Vou para casa, e voc vai assistir quele show.
      - S daqui a uma hora e meia. Passe aqui em casa.
      Na mesma hora eu fechei todos os meus arquivos e me mandei.
      Assim que toquei a campainha dele, a porta se abriu, ele me puxou para dentro e em poucos segundos j estvamos transando, eu pressionada de encontro  porta 
s com metade das roupas e as pernas enroscadas na cintura dele.
      - Qual a cor dos olhos de Owen? - perguntou Cody, com interesse.
      - Sei l! Uma cor de olho comum. No se trata disso, Cody, estou s me divertindo e, de qualquer modo, Owen continua apaixonado pela ex-namorada.
      - Mas foi a primeira pessoa com quem voc dormiu desde Anton. Qual  a nota dele?
      - Isso no  justo - disse. - Eu amo Anton, seria como comparar fast-food com um jantar completo no Ivy. - Pensei um pouco mais a respeito. - Se bem que... 
Tenho que admitir que h momentos em que um Big Mac  exatamente o que a gente quer comer e...
      O piloto nos interrompeu: "Vamos aterrissar no aeroporto de Heathrow em quarenta e cinco minutos."
      Owen foi instantaneamente esquecido quando eu me dei conta de que estava indo em direo a Londres, e do potencial disso. Minha boca ficou seca quando considerei 
os melhores resultados possveis: se eu fosse uma autora publicada e fizesse sucesso, me tornaria uma bola espelhada em forma de gente... Mas qual seria a probabilidade 
disso?
      Tornando-me sombria na mesma hora, disse a Cody:
      - Provavelmente essa visita  agente no vai dar em nada.
      - Isso  que  atitude positiva!
      - No, estou falando srio. Provavelmente tudo isso no vai dar em nada.
      - E eu estou concordando com voc.
      - Ah, desculpe. Esqueci que era voc.
      Caiu um momento de silncio.
      - Como alguma coisa poderia acontecer? - perguntei. - Voc  um tremendo derrotista.
      Ele suspirou e folheou a edio de cortesia do lrish Times, declarando:-
      Neste andar temos chaleiras, panelas etc.
      
      A partir do momento em que aterrissamos em Heathrow, uma hora e meia depois - o piloto era um mentiroso sem vergonha - , toda loura que eu via era Lily, e 
todo homem com mais de um metro e setenta era Anton.
      - Vivem oito milhes de pessoas nesta cidade - sussurrou Cody, quando sentiu que eu no parava de enfiar as unhas no seu brao. - Ns nunca, nunquinha mesmo, 
vamos encontrar com eles por acaso.
      - Desculpe - pedi, baixinho. Desde que Anton e Lily foram morar juntos eu j tinha estado em Londres duas vezes - aquela era a terceira - e me ver no territrio 
deles sempre me reduzia a gelia. Ao mesmo tempo que eu morria de medo de dar de cara com eles em algum lugar, tambm sentia uma vontade repulsiva e voyeurstica 
de v-los.
      Tremia, literalmente, quando samos do metr na Leicester Square e Cody foi mostrando o caminho em direo ao Soho; Anton trabalhava em algum lugar naquela 
rea, mas Cody no quis me dizer em que rua.
      - Nada de tocaias! - ralhou. - Lembre-se da razo de voc estar aqui.
      
      Vocs precisavam conhecer Jojo Harvey. Tinha uns trs metros de altura, lbios carnudos, clios pretos e cabelos castanho-avermelhados ondulados que lhe desciam 
at os ombros. Se Jojo fosse um filme, um sax emitiria uma nota dolente e sexy sempre que ela aparecesse em cena. Ela era linda. E sem ser magricela, entendem? Era 
abundante nos lugares certos.
      Cody avisou que ia esperar na recepo e ela me levou por um corredor at a sua sala. Havia montes de livros em prateleiras e, ao ver um exemplar de As Poes 
Perebentas de Mimi, senti vontade, dio e mais umas sessenta emoes. Quero isso para mim.
      Jojo balanou nas mos uma pilha instvel de papis e disse:
      - Seus originais. Morremos de rir, juro por Deus.
      - Ahn... Que bom!
      - Aquela parte em que a garota vai  farmcia. E o pai deixando crescer costeletas. O texto  fantstico.
      - Obrigada.
      - Tem alguma idia sobre o formato final? Vida real ou fico?
      - Bem... Vida real, certamente no. - Fiquei horrorizada.
      - Fico, ento.
      - Mas eu no posso - disse. - A histria toda trata da minha me e do meu pai.
      - At mesmo aquele pedao em que voc descreve Helmut? Ou a garota - Colette? - danando em volta do cabideiro s de calcinhas? Adorei essa parte.
      - Bem, isso foi inventado. Mas a histria bsica, a do meu pai abandonando a minha me,  toda verdadeira.
      - Sabe qual o problema? Pode me chamar de chata... - ela colocou os ps sobre a mesa (botas lindas) - , mas essa  a histria mais velha do mundo, a do homem 
que troca a mulher por um modelo mais novo. - Com um sorriso largo, completou: - Quem vai processar voc por plagiar a trama principal?
      Fcil para ela dizer isso.
      - Se preferir, Gemma, voc pode modificar um pouco os detalhes.
      - Como?
      - O pai poderia trabalhar em uma fbrica diferente - se bem que eu adorei aquela histria dos chocolates. - A me tambm poderia ser um pouco diferente.
      - Como?
      - De um monte de formas. Observe as mes  sua volta e veja o quanto elas so diferentes umas das outras.
      - Mas todo mundo ainda vai saber que so os meus pais.
      - Bem, todos dizem que o primeiro romance  autobiogrfico.
      Eu queria que ela continuasse a falar coisas desse tipo, para me convencer, para me atrair; queria continuar fazendo objees e v-la rebater todas na mesma 
hora. Era bom ver que algum me queria; eu adoraria ficar ali por horas a fio.
      Porm, logo em seguida, ela tirou as pernas longas de cima da mesa, levantou-se e esticou a mo.
      - Gemma, eu no vou obrig-la a fazer algo que voc no queira.
      - Oh! Certo...
      - Foi uma pena ns duas termos perdido o nosso tempo.
      Aquilo doeu. Mas eu acho que ela era uma mulher importante e muito ocupada. Mesmo assim, eu adoraria ser cortejada e persuadida, e agora j no gostava tanto 
dela.
      Ento, quando ela me levou pelo corredor at onde Cody estava, vi um tremendo gato vindo pelo outro lado, na nossa direo, com lindas pernas compridas e usando 
um terno maravilhoso. Seus cabelos eram pretos e brilhantes como as asas da grana e seus olhos
      azuis como luzes de ambulncia (dessa ltima semelhana eu no estou inteiramente certa).
      Ele me cumprimentou com a cabea e perguntou:
      - Jojo, voc ainda vai demorar?
      - No, vou j, j.
      - Esse  Jim Sweetman - Jojo me informou. - Chefe do setor de divulgao e mdia.
      
      No metr, de volta para o aeroporto, Cody parecia enojado comigo e eu estava com o rabo entre as pernas. Uma agente, uma agente literria, demonstrou interesse 
em algo que eu escrevera - um evento mais raro, como se sabe, que um eclipse do sol, e agora tudo estava acabado. Suspirei. Aposto que Jojo andava tendo um caso 
ardente com aquele gatssimo do Jim Sweetman.
      Aquilo tudo me incomodou tanto quanto uma coceira que no passa. Eu perdera um precioso dia de folga - e o pior ainda estava por vir. Ao chegar a Heathrow, 
passei na banca de jornais para comprar algumas revistas e no pensar na minha burrada quando voltasse
      para casa, e ento, a menos de dois metros de mim, eu vi. Pelo jeito que os cabelinhos do meu brao se arrepiaram, eu sabia que algo de muito mau acontecera. 
Antes mesmo de o crebro traduzir as palavras do jornal em significados reais, o terror me invadira. Era uma foto de Lily, na capa do Evening Standard. O ttulo 
da reportagem - isso  que foi o pior - a descrevia em letras pretas e grandes:A Londrina Desconhecida que Tomou de Assalto o Mundo Literrio.
      A histria completa estava na pgina 9. Agarrei o tablide e vasculhei as pginas at achar uma foto de Lily em sua casa suntuosa (para ser justa, dava para 
ver s um pedacinho do sof), com seu marido suntuoso, falando do suntuoso bestseller que eu achei um
      lixo. Di reconhecer, mas ela estava com tima aparncia, muito frgil, etrea e cheia de cabelo. Aquilo era muito, mas muito efeito digital mesmo, suspeitei 
na mesma hora.
      Anton tambm estava timo, muito mais bonito que ela, para falar a verdade, ainda mais pelo fato de o seu cabelo pertencer a ele mesmo, e no a um entrelaamento 
em estilo Burt Reynolds. Fiquei chocada por no ver mudana alguma - ele se parecia exatamente. com o meu Anton - e ao mesmo tempo me senti ofendida pelas diferenas; 
seu cabelo estava mais comprido e sua camisa era de puro algodo, cheia de vincos estratgicos, muito diferentes do tempo em que suas roupas pareciam ter sido arrancadas 
de dentro de uma garrafa (fato que no o deixava mais charmoso, eu tambm no sou to m assim).
      Olhei fixamente para a foto e deixei seus olhos sorridentes olharem diretamente para os meus. Ele est sorrindo para mim. Pare com isso, sua luntica! Agora, 
s faltava eu comear a achar que ele se comunicava comigo por cdigos.
      Empurrada e apertada por outros passageiros, com Cody olhando por cima do meu ombro, li de relance a histria da ascenso meterica de Lily Wright ao reino 
dos bestsellers e tive medo de vomitar em pblico.
      Virei-me para Cody.
      - Voc me disse que ela no estava com essa bola toda.
      - E no estava mesmo - Ele estava revoltado por no ter percebido isso antes. - No desconte em mim.  consigo mesma que voc deveria estar revoltada. - Cody 
nunca pedia desculpas, simplesmente transferia a culpa. - Pense s na oportunidade que voc jogou pela janela agora h pouco.
      Ele acenou com a cabea para a foto sorridente no jornal e sentenciou:
      - Viu s? Essa a poderia ser voc.
      
      Eu no comprei o jornal - no consegui - , mas pensei em Anton durante todo o percurso de volta para casa. Aquela tinha sido a primeira vez que eu o via em 
mais de dois anos, mas sua foto me afetou como se tivssemos terminado h uma semana. E eu estivera to perto dele naquela manh. Talvez tivesse at passado pela 
porta do seu prdio. Talvez tivesse estado a poucos metros dele. Aquilo devia ter algum significado.
      
     
8
      
      Sem sentir, fomos entrando no quinto ms da ausncia de papai. Consegui no pensar nisso durante alguns dias, por estar deprimida com outras coisas, especialmente 
a minha natimorta carreira de escritora.
      Jojo tinha razo - um marido que troca a mulher por outra mais jovem  a histria mais velha do mundo. Mesmo sabendo que meu romance nunca seria publicado, 
as coisas comearam a se desenrolar na minha cabea, ainda mais depois que eu comecei novamente a acordar s cinco da manh.
      No livro eu poderia ter um emprego diferente. Na verdade, poderia no ter emprego nenhum, se eu quisesse. Poderia ser uma dona de casa (ah, que felicidade!) 
com uns dois filhos para cuidar.
      Poderia dar a mim mesma duas irms, ou talvez um irmo e uma irm; ensaiei vrios cenrios na cabea e no fim decidi ter uma irm mais velha chamada Monica. 
Ela era competente, simptica, tinha me emprestado suas roupas durante a adolescncia, mas agora vivia em constante estado de prontido em uma casa slida, com quatro 
filhos de formao igualmente slida, morava muito distante (Belfast? Birmingham? Eu ainda no decidira) e no podia me ajudar em nada, na prtica.
      Tambm dei a mim mesma um irmo mais novo, um homem lindo chamado Ben, que tinha uma fila de mulheres atrs dele. Cada vez 'que o telefone tocava, ele agitava 
as mos e dava uma srie de instrues para mame:
      "Se for a Mia, diga que eu sa; se for a Cara ligando de novo, diga que eu sinto muito e que ela vai acabar me esquecendo um dia." Pausa para risos. "E se 
for a Jackie, diga que eu estou indo para l. J sa faz dez minutos."
      Pensei em deix-lo fora da histria. A minha me ficcional tambm no era f do comportamento do filho, o que seria nadar contra a corrente, em termos de expectativa 
do leitor; normalmente as mes ficam encantadas com seus filhos egostas e charmosos, fingindo ralhar com eles quando tratam as namoradas como lixo, mas adorando 
a situao, em segredo, convencidas de que nenhuma mulher  boa o bastante para eles.
      Ben no fazia muita diferena para o desenvolvimento da histria. Era irresponsvel e egosta demais para prestar ajuda  nossa recm-abandonada mame. Eu 
continuava tendo de carregar o piano sozinha e era, para todos os efeitos, filha nica.
      "Meu" nome  Izzy e tenho cabelo cacheado que desce at a altura do queixo e  muito bonito. Por mais que eu quisesse, no conseguia me imaginar sendo uma 
dona de casa, ento refleti muito a respeito do emprego que daria a Izzy. Minha primeira escolha foi a de assistente pessoal para compras, mas pensei em termos de 
realismo e popularidade - todo mundo iria detestar a personagem por ela ter um emprego to maravilhoso - e acabei desistindo. Em vez disso - no  nenhuma surpresa 
- , ela ia trabalhar como relaes pblicas, alm de,  claro, organizar eventos.
      Izzy tambm tinha um histrico romntico similar ao meu:
      
      1) uma infinidade de paixonites adolescentes no-correspondidas;
      2) uma paixo avassaladoramente ridcula entre os dezenove e os vinte e um anos, que ela achava que nunca fosse superar;
      3) um relacionamento fixo dos vinte e cinco aos vinte e oito anos com um homem com quem todo mundo achava que ela iria se casar, s que ela ainda no se sentia 
"pronta" (na verdade, no meu caso, toda vez que o pobre Bryan levantava essa hiptese, eu quase engasgava).
      
      Mas eu no quis dar um Anton a Izzy, um verdadeiro amor da sua vida, cruelmente roubado, debaixo do seu nariz, por sua melhor amiga. Afinal, e se... e se Anton 
um dia lesse o livro?
      Em vez disso, Izzy tinha uma relao de flerte, na base do amor e dio, com um de seus clientes. Seu nome era Emmet, um nome muito sexy, e ele no era diretor 
de cinema nem fazendeiro porque a histria se passava em Dublin. Ele gerenciava o prprio negcio
      (cuja natureza exata eu ainda no decidira) e Izzy organizava congressos para ele. Ele era meio angustiado - mas s porque gostava dela - e quando ela reservou 
o hotel errado para todos os delegados de um evento por estar preocupada com seu pai, um vendedor de
      sorvetes que abandonara a sua me, Emmet no a demitiu no ato, como certamente aconteceria na vida real. Por algum tempo, ele teve uma cicatriz na bochecha 
direita, mas depois eu me manquei e consertei sua cara. Depois, por algum tempo, fiz Izzy ser lindssima sem se dar conta disso, mas isso comeou a me dar nos nervos 
e eu a mantive como uma mulher de aparncia normal.
      Outras modificaes: o pai no estava de caso com a secretria, pois isso era um clich insuportvel. O caso dele era com a filha mais velha do seu parceiro 
de golfe. E a me da protagonista no era to "banana" quanto a minha me - eu desconfiava que as pessoas no
      iriam acreditar se eu descrevesse a verdade.
      Algumas coisas permaneceram como eram: meu carro, por exemplo. E eu mantive o rapaz simptico da farmcia, mas troquei seu nome para Will.
      
      Achei tudo aquilo um exerccio divertido - era como ser uma verso diferente de mim, ou talvez descobrir como seria viver a vida de outra pessoa. De qualquer 
modo, quando eu acordava cedo demais em cada manh amarga e brilhante, paralisada por uma vontade desesperadora de gritar, aquilo ajudava a me distrair.
      
     
9
      
      PARA:Susan-inseattle@yahoo.com
      DE:Gemma 343@hotmail.com
      .ASSUNTO:J comecei a escrever o livro
      
      Ando pensando tanto no assunto que acho que ia explodir se no colocasse tudo para fora da cabea. Escrevo sempre de manh cedinho e  noite. Mame vai para 
a cama cedo, s nove e meia; dorme o sono profundo dos, apagados pelo sedativo e eu fico livre para batucar no teclado do computador. Mesmo quando assisto a Buffy, 
penso o tempo todo na minha trama, louca para mame ir dormir e eu comear a escrever.
       isso o que significa ser uma artista atormentada? Respostas por carto- postal, por favor.
      Beijos,
      Gemma
      
      De volta ao mundo real, eu finalmente achei um castelo com torres. Ficava em Offaly - uma viagem longa para ir e voltar no mesmo dia. Tambm consegui uma estilista 
em mar to ruim que se mostrou disposta a aceitar Lesley e suas exigncias absurdas.
      Aluguei vinte e oito chaises Lus XIV e mandei reestof-las em lam. Depois, liguei para uma agncia de modelos e pedi:
      - Estou  procura de um prncipe lindo.
      O homem do outro lado da linha disse:
      - Todos ns estamos, queridinha.
      Carregava pra cima e pra baixo, o tempo todo, um livro ilustrado de A Bela Adormecida. Era a minha fonte de referncia.
      Ainda no tinha tido sorte com as saco linhas de presentes, e Deus sabe o quanto tentei.
      - Faa-me lembrar mais uma vez... - pediu Lesley. - Para o que mesmo eu estou pagando voc? (Esse era outro problema: eu no vira a cor de dinheiro algum at 
ento, apesar de perguntar tantas vezes que ficara sem graa para insistir no assunto.) - Existe um monte de outros organizadores de eventos em Dublin. Ser que 
eu no devia procurar um deles?
      Nossa, eu a odiava!
      - Estou trabalhando muito - eu argumentava, e era verdade. Estava prestes a conseguir a equipe de reportagem de uma revista famosa e, se os cosmticos tivessem 
publicidade garantida na mdia, seria muito mais fcil conseguir patrocnio.
      Apesar disso, repetia para mim mesma "Sou TIMA no que fao". Para pegar uma festa cafona como aquela e transform-la em algo parecido com um evento de celebridades 
 preciso muito talento!
      Lesley se mancou, resolveu me dar uma trgua e me convidou para meditar com ela. Achei que no podia dizer no, mas talvez devesse, porque peguei no sono.
      
      PARA: Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Liguei para Jojo
      
      e lhe comuniquei que resolvi escrever o livro. Ela me disse: "Meus parabns, voc j conseguiu a agente!" Depois, me perguntou se eu resolvera tudo com mame 
e eu disse simplesmente: "Hummm." Vou deixar para pular da ponte quando chegar nela.
      Beijos,
      Gemma
      No contei a Susan o que aconteceu logo em seguida. Ainda no telefone, eu pigarreei, pois tinha algo importante a dizer. Hesitei por alguns instantes, que 
me pareceram uma eternidade, e ento:
      - Jojo, eu conheo uma das suas clientes.
      -  mesmo? - Ela no mostrou muito interesse.
      - Lily. Lily Wright.
      - Ah! Lily est se saindo muito bem! De verdade! Superbem!
      - , pois ... Diga a ela que Gemma Hogan manda lembranas.
      - Digo, sim! Ei, tive uma idia!... Talvez esteja me precipitando, mas se ns vendermos o seu livro, e estou certa de que conseguiremos, na poca do lanamento 
podamos marcar uma entrevista com vocs duas, no estilo "Viva a Amizade", para a revista de domingo de algum jornal. Sabe como ... Faturar alguma publicidade.
      O tempo pareceu parar enquanto a minha voz ecoava na cabea:
      - Sugira isso a ela, mas pode ser que ela no tope.
      - Claro que vai topar! Lily  um doce de pessoa.
      Como vem, eu no estava muito certa sobre Susan aprovar essa histria. Ela era minha amiga e encarava todo esse lance de agente literria de forma muito positiva, 
e confesso que a minha abordagem era meio "esprito de porco" e maldosa. Na verdade, eu queria deixar Lily perturbada com uma mensagem do tipo: "Entrei no mesmo 
ramo e agora estou na sua cola."
      Ah, tambm... Qual ?!... Afinal de contas, ela roubou o grande amor da minha vida, ficou milionria e aparecia em um monte de jornais e revistas. O que era 
de esperar que eu fizesse?
      
      As noites de sexta-feira com Owen haviam se tornado uma coisa regular e ainda conseguamos uma rapidinha no meio da semana. Owen era muito divertido e no 
havia estmago dando cambalhotas, joelhos trmulos nem lngua travada, coisas que acontecem
      quando voc est louco por algum. Ele no ficava pensando em outras coisas quando estava comigo, era um cara bom para bater papo, eu no pensava nele quando 
no estava ao seu lado, mas sempre gostava de saber notcias dele. E ele sentia o mesmo com relao a mim;
      O engraado  que quase sempre ns tnhamos algum tipo de briga. Ou ele implicava comigo ou eu implicava com ele. No digo que seja saudvel, mas era um acontecimento 
regular.
      - Adivinhe s! - disse eu, quando tornei a encontr-lo.
      - Anton quer voc de volta?
      - No. Estou escrevendo um livro.
      -  mesmo? Estou nele?
      - No. - Eu ri.
      - Por que no?
      - Por que deveria estar?
      - Porque sou o seu namorado.
      Eu tornei a rir.
      - Voc ?...
      Mais uma pausa. Ele continuava a sorrir, s que um pouco menos.
      - Qual o nome disso? - quis saber ele. - Seis semanas de drinques, telefonemas, contatos regulares com Tio Dick e os gmeos?
      - Mas voc no  meu namorado,  apenas... Voc  meu hobby.
      - Ah. - O rosto sorridente desapareceu por completo.
      - No fique com essa cara - eu disse na mesma hora. - Eu tambm no sou sua namorada.
      - Isso pra mim  novidade.
      - No, no! - insisti. - Eu sou a sua experincia com uma mulher mais velha. Sua, ah, amante, se quiser. Uma espcie de rito de passagem. Por mim, est timo 
- eu o tranqilizei. - No me importo.
      - Ento, tudo o que eu sou para voc  uma bunda redondinha?
      - No - protestei. - Voc no  apenas uma bunda redondinha; alis, essa  uma grande expresso. Mas escute: no  nada disso, eu tambm adoro o seu Tio Dick 
e os gmeos.
      Ele se levantou e foi embora. No o culpei, mas tambm no levantei para ir atrs dele. Eu j conhecia bem o script a essa altura.
      Ele vivia saindo daquele jeito, pisando duro e pau da vida, mas sempre voltava cinco minutos depois.
      Tomei o meu vinho e fiquei pensando em coisas agradveis at que - eu no disse? - l estava ele de volta, reaparecendo com a cabea na porta entreaberta e 
andando at a mesa.
      - Seu idiotinha! - disse eu. - Sente-se e acabe de tomar seu drinque. Aceita uma batata frita?
      - Obrigado - disse ele, irritado.
      - Qual  o seu problema? - perguntei, com jeitinho.
      - Voc no me leva a srio.
      Olhei para ele, confusa.
      - Claro que no. E voc tambm no me leva a srio.
      - Pode ser que eu esteja levando.
      - No faa uma coisa dessas - avisei. - Isso seria horrvel.
      - Por qu?
      - Primeiro motivo - declarei, abrindo os dedos para fazer uma lista - , eu acho que todos os homens so canalhas; segundo: quando eu comeo a listar coisas 
contando nos dedos acabo me distraindo com a cor do esmalte, e terceiro... Viu s? Esqueci o que ia dizer! Ah!... terceiro: acho que todos os homens so canalhas. 
Eu j tinha contado esse, n?... Enfim, acho que no existe esperana para ns. De qualquer modo, voc  novo demais para mim. Isso no vai dar certo. Meu pai era 
mais novo do que a minha me e veja s no que deu.
      - Mas eles ficaram casados por trinta e cinco anos! - ele argumentou.
      - Escute uma coisa - disse eu. - No estou em condies de ter um relacionamento. Nem voc! Veja s como ns vivemos brigando, e isso prova que somos dois 
bundes. Apenas temporariamente, mas dois bundes, do mesmo jeito. Alm do mais, voc est na rebordosa.
      - E voc quer que eu v procurar algum da minha idade?
      - Nada disso. Bem, claro que quero, mas no agora.
      
     * * *
      
      PARA: Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Em boca de Matilde
      
      Frances me aparece e diz: "Soube que voc est escrevendo um livro."
      Nossa, quem ser que abriu o bico?
      "Vamos processar voc, sabia?", ela ameaa. "Vamos arrancar o seu ltimo penny."
      Mas eles no se chamam Francs e Francis,  claro. Qualquer meno a pessoas reais no livro ser totalmente disfarada, e meu casal de chefes vai se chamar 
Gabrielle e Gabriel, conhecidos carinhosamente por Tira Mau e Tira Pior.
      
      A gente se fala...
      Beijos,
      Gemma
      
     
10
      
      No domingo eu estava fazendo as compras semanais no supermercado e me vi hesitante ao entrar no corredor dos cereais matinais. Meu plano inicial tinha sido 
de quebrar o hbito de mame, afast-la do seu adorado mingau matinal e promover a ingesto de slidos, como
      Fruit'n'Fibre, mas, em vez disso, eu me apaixonei por mingau. Trata-se de uma comida adorvel que pode ser preparada no microondas e vem em vrios sabores. 
Eu acabara de me dobrar a essa realidade e pegara um pacote de mingau de aveia sabor banana quando notei um homem junto dos CocoPops olhando diretamente para mim 
e sorrindo de forma calorosa.
      S que ele no era um daqueles tarados com cabelo mais comprido de um dos lados da cabea e penteado de forma a disfarar a calvcie, pelo contrrio, era melhor 
que a encomenda - sabe como , na idade certa e muito bonito. A novidade daquilo quase me fez rir alto. Eu estava sendo paquerada. Dentro de um supermercado irlands! 
Abram alas para me dar passagem, So Francisco!, pensei, orgulhosa. Aqui em Dublin tambm podemos encontrar amor entre os legumes.
      S que o cara me parecia familiar. Esquisi...
      - Gemma?
      Caraca, ele me conhecia! E eu no fazia idia de quem ele era.
      - Gemma? - repetiu ele, s que agora franzia o cenho e sorria ao mesmo tempo, no sei como, e entrei em pnico. Esse  o problema com Dublin. A cidade  to 
pequena que qualquer tentativa de curtir noites escuras repletas de paixes annimas vai para o espao quando voc se v frente a frente com o seu amante annimo 
sob a implacvel luz fria do corredor de cereais. (Se bem que eu s tivera alguns carinhas do tipo "transa de uma noite s", e quando encontro um deles pela rua 
o sujeito me ignora por completo, o que eu acho timo.)
      AimeuDeusdocueraJohnnyocaradafarmcia!
      - Ol, Johnny! Puxa, me desculpe. - A sensao de alvio me fez flutuar e eu abandonei o carrinho e o mingau para apertar o brao dele com fora. - Por um 
momento achei que voc era algum com quem eu tinha dormido.
      - No, isso no aconteceu, seno eu me lembraria.
      -  que eu no reconheci voc sem o guarda-p branco.
      - Isso acontece o tempo todo.
      Uma mulher que pegava um saco de cinco quilos cheio de barras de cereais Alpen parou com a estiva e nos lanou um olhar.
      
      Izzy estava fazendo as compras semanais no supermercado e se viu hesitante ao entrar no corredor dos cereais matinais. Seu plano inicial tinha sido o de quebrar 
o hbito de sua me, afast-la do seu adorado mingau matinal e promover a ingesto de slidos, como Frut'n'Fbre, mas, em vez disso, ela se apaixonou por mingau. 
Trata-se de uma comida adorvel que pode ser preparada no microondas e vem em vrios sabores. Ela acabara de se dobrar a essa realidade e pegara um pacote de mingau 
de aveia sabor banana quando notou um homem junto dos CocoPops olhando diretamente para ela e sorrindo de forma calorosa.
      S que ele no era um daqueles tarados com cabelo mais comprido de um dos lados da cabea e penteado de forma a disfarar a calvcie; pelo contrrio, era melhor 
que a encomenda - sabe como , na idade certa e muito bonito. A novidade daquilo quase a fez rir alto; Ela estava sendo paquerada. Dentro de um supermercado irlands! 
Abram alas para me dar passagem, So Francisco, pensou, orgulhosa. Aqui em Dublin tambm podemos encontrar amor entre os legumes.
      S que o cara lhe parecia familiar. Esquisi...
      - Izzy?
      Caraca, ele a conhecia! E ela no fazia idia de quem ele era.
      - Izzy? - repetiu ele, s que agora franzia o cenho e sorria ao mesmo tempo, ela no sabia como, e entrou em pnico. Esse  o problema com Dublin. A cidade 
 to pequena que qualquer tentativa de curtir noites escuras repletas de paixes annimas vai para o espao quando voc se v frente a frente com o seu amante annimo 
sob a implacvel luz fria do corredor de cereais. (Se bem que ela s tivera alguns carinhas do tipo "transa de uma noite s", e quando encontrava um deles pela rua 
o sujeito a ignorava por completo, o que ela achava timo.)
      AimeuDeusdocueraWillocaradafarmcia!
      - Ol, Will! Puxa, me desculpe. - A sensao de alvio a fez flutuar e ela abandonou o carrinho e o mingau para apertar o brao dele com fora. - Por um momento 
achei que voc era algum com quem eu tinha dormido.
      - No, isso no aconteceu - d1sse ele, mantendo o olhar fixo no dela - , seno eu me lembraria.
      Subitamente ela percebeu o calor do brao dele sob a sua mo. E estremeceu.
      -  que eu no reconheci voc sem o guarda-p branco.
      - Isso acontece o tempo todo.
      
      Parei de digitar, me afastei um pouco do teclado e olhei para ele. Minha nossa, pensei. Acho que Izzy gosta de Will.
      
     
11
      
      Depois daquele dia no estacionamento, no tornei a ligar para papai. Eu costumava telefonar para ele pelo menos uma vez por semana, mas estava to magoada 
que no ligava mais.
      Entretanto, a sua ausncia estava sempre presente e lembranas dolorosas e freqentes viviam me atingindo. Como na noite em que, zapeando atravs dos canais 
pelo controle remoto da tev, eu vi Tommy Cooper aparecer na tela.  claro que eu no curto Tommy Cooper, mas papai era louco por ele.
      - Olha s! - Apontei para a tela e meu primeiro instinto foi chamar papai para vir v-lo, mas logo fechei a boca; a empolgao se esvaziou em um mar de insensatez 
e se transformou em sofrimento.
      Ser que ele estava assistindo quilo em companhia de Colette, na sala de estar deles, que eu nem sabia como era?
      S imaginar a cena j era doloroso e resolvi voltar os pensamentos, na mesma hora, para o meu livro. Graas a Deus por ele! Sem dvida, era a maior vlvula 
de escape que eu tinha. Eu simplesmente mergulhava nele e as horas passavam sem eu sentir; apesar de Izzy e sua me estarem tendo problemas, eu sabia que momentos 
felizes estavam por vir. Helmut e a me do livro estavam cada vez mais unidos e haviam acabado de abrir uma empresa de importao dos produtos La Prairie para a 
Irlanda; andavam at pensando em abrir um Spa La Prairie. Nesse nterim, as coisas tambm andavam maravilhosamente bem para Izzy e Emmet; ele era louco por ela e 
provava isso mostrando-se superpreocupado com qualquer coisa que se relacionasse com ela, alm de ser gentil com todo mundo, especialmente outras mulheres. Enquanto, 
na vida real, eu suspeitava que papai e Colette tambm se entendiam muito bem, dentro do meu livro eu podia me dar o conforto de ver que a vida deles era uma diablica 
rodada de danas em volta do cabideiro e jejum de empado de bacon.
      Ento, um belo dia, o telefone tocou no trabalho e era papai. Meu queixo quase caiu quando atendi.
      - O que houve? - perguntei, aflita. - Ela est grvida?
      - O qu? Quem? Collete? No...!
      - Ento, por que o senhor est ligando?
      - No tenho notcias suas h algum tempo. Existe alguma lei que me proba de ligar para a minha prpria filha?
      - Papai, esta  a primeira vez que o senhor me telefona desde que foi embora, quase cinco meses atrs.
      - Ora, Gemma, tambm no precisa exagerar.
      - No estou exagerando,  um fato. O senhor no me ligou nem uma vezinha.
      - Ora, devo ter ligado sim.
      - No ligou no.
      - Pois ento estou ligando agora. Como voc est?
      - Bem.
      - E sua me?
      - Bem. Agora tenho de desligar, estou ocupada.
      - Tem mesmo? - Papai demonstrou surpresa por eu no me mostrar dengosa, mas ele me magoara muito e eu no estava a fim de tornar as coisas fceis. De qualquer 
modo, eu estava realmente ocupada, preparando-me para ir  casa de Owen.
      
      - O que voc acha que vai acontecer?
      Owen e eu estvamos deitados na cama, de barriga para cima, na aura rosada ps-transa, inventando futuros imaginrios e felizes um para o outro.
      - Seu livro vai ser publicado - garantiu ele. - Voc vai ser famosa e os editores de Lily Agora--cada-homem-por-mim Wright vo ficar loucos para contrat-la, 
mas voc no vai aceitar, a no ser
      que eles dispensem Lily.
      - E Anton vai largar Lily, voltar para mim e a vingana vai ser minha! Sem querer ofender voc. - Dei um soco de leve no ombro dele, para aliviar o golpe. 
- Voc no vai se importar, porque estar casado com Lorna e seremos todos amigos. Vamos nos hospedar em uma pousada na Dordonha e passar as frias de vero juntos.
      - Eu terei sempre um carinho especial por voc.
      - Exato! E eu tambm terei sempre um carinho especial por voc. Talvez voc at possa ser padrinho do meu primeiro filho com Anton. No, esquea essa idia. 
Isso j  ir longe demais.
      - Como  que Lorna vai voltar para mim?
      - Sei l! Como voc imagina?
      - Ela vai nos ver juntos e perceber o valor do que ela desprezou.
      - Exatamente! Voc aprende rpido, meu pequeno pupilo.
      - Obrigado, gafanhoto.
      Olhei para o despertador dele.
      - So onze e dez, ainda tenho algumas horas antes do meu toque de recolher. Vamos sair para tomar um drinque?
      - Eu andei pensando - disse ele.
      - No! No faa isso - reagi, passando a mo na testa.
      - Por que voc no me leva para conhecer a sua me? Talvez eu pudesse lev-las para almoar fora, num domingo desses, ou algo assim bem baba-ovo. Se eu me 
entrosasse bem com a sua me, talvez ela no se incomodasse de voc passar mais tempo comigo.
      - De jeito nenhum! Toda vez que eu dissesse que fiquei trabalhando at tarde, ela saberia que eu estava aqui transando com voc.
      Esperei que ele fizesse alguma pirraa, mas no estava vestido, ento no poderia sair porta afora de forma dramtica. De qualquer modo, ele preferia sair 
porta afora de um lugar que no fosse o seu
      prprio apartamento. Cada coisa na sua hora...
      Mais tarde, na Renards, depois de colocarmos vrios drinques no estmago, Owen perguntou:
      - Vou poder ir a essa festa Barbie Gtica?
      - No.
      - Por qu? Voc tem vergonha de mim?
      - Tenho - confirmei, embora no fosse verdade. No sei o que dava em mim de vez em quando, nas horas em que estava com ele.
      Ele no poderia ir porque aquilo era trabalho; eu no era uma das convidadas da festa badalada de Lesley, era apenas uma escrava.
      Empurrei minha cadeira com o corpo, a fim de dar espao a ele para sair da boate porta afora.
      - Pode ir - sugeri.
      L foi ele. Eu tomei o meu vinho e fiquei pensando em coisas agradveis, quando, em meio  multido, reparei em um homem junto ao balco do bar; ele olhava 
fixamente para mim e sorria de forma calorosa.
      S que ele no era um daqueles tarados com cabelo mais comprido de um dos lados da cabea e penteado de forma a disfarar a calvcie; pelo contrrio, ele era 
melhor que a encomenda - sabe como , na idade certa e muito bonito. A novidade daquilo quase me fez rir alto. Eu estava sendo paquerada. Dentro de uma boate irlandesa!
      Ele veio se aproximando. Ela chuta e marca!
      Mas eu o conhecia. S no sabia de onde. Ele me era frustrantemente familiar; de onde diabos ser que... Oh, mas  claro! Era Johnny, o cara da farmcia. Cheio 
de pose. Senti um calorzinho na boca do estmago, mas pode ter sido efeito do vinho.
      - Quem est cuidando da loja? - gritei.
      - Quem est cuidando da sua me?
      Demos risadinhas ofegantes e cmplices.
      Ele apontou com a cabea para o meu vinho e disse, com bom humor:
      - Escute, Gemma, eu adoraria convid-la para um drinque, mas ser que voc devia beber, j que toma tranqilizantes?
      - No zo pramim, zeu man, zo baminhame. - Eu estava um pouco mais alta do que imaginava.
      - Eu sei. - Ele piscou.
      - Eu sei que voc sabe. - Pisquei de volta.
      - Desculpem incomodar. - Owen voltou, forando passagem por entre as pessoas, com o rostinho afogueado, e empurrou o cotovelo de Johnny, fazendo entornar um 
pouco da sua bebida.
      - Vou deixar voc resolver isso. - Johnny me lanou um olhar do tipo "seu jovem acompanhante est meio mamado" e voltou para onde estavam os seus amigos. - 
Foi muito bom v-la, Gemma.
      - Quem era esse sujeito? - quis saber Owen, me olhando com cara feia.
      - Apenas um cara de quem eu estou a fim. - Puxa, qual era a minha? No havia necessidade de dizer uma coisa dessas, ainda que fosse verdade.
      Embora, pensando bem, talvez fosse.
      Owen me lanou um olhar fulminante.
      - Gemma, eu gosto muito de voc, mas acho que no compensa o trabalho que me d.
      - Eu dou trabalho a voc? - Fiz ar de pouco-caso. - R! Essa  boa! Ainda mais dito por um cara que voltou mais vezes ao palco do que Frank Sinatra. Bebe demais! 
- Comecei a contar nos dedos. - Sofre de completa imaturidade. Demonstra uma irritante irracionalidade. E olha que ainda estou falando de mim. Normalmente eu no 
sou assim.
      Parei, com os olhos cheios de lgrimas, e ento continuei:
      - No sei qual  a minha, Owen. Ser que estou pirando? No gosto da pessoa na qual me torno quando estou com voc.
      - Nem eu.
      - Cai fora!
      - Cai fora voc! - exclamou ele, tomando o meu rosto entre suas mos com estranha ternura e me beijando ardentemente; ele realmente beijava muito bem. Depois, 
beijou minhas lgrimas at elas secarem.
      
     
12
      
      A semana da festa de Lesley Lattimore representou sete dias de inferno. Quando Deus criou o mundo, aposto que Ele no trabalhou tanto quanto eu em seis dias.
      
      No primeiro dia...
      Acordei no meio da madrugada e dirigi at Offaly. Havia toneladas de coisas para fazer, comeando pela instalao de um sistema de iluminao externa ferica 
que transformaria o castelo em uma jia cintilante capaz de ser avistada do espao sideral.
      As coisas at que estavam correndo bem, at que Lesley resolveu que queria as paredes externas do castelo pintadas em cor-de-rosa. Fui pedir autorizao ao 
dono da propriedade, sr. Evans-Black, mas ele me mandou cair fora da sua sala. Literalmente. E olhem que ele no era esse tipo de homem; tinha um ar anglo-irlands, 
era muito distinto e educado.
      - Caia fora, caia fora daqui! - gritou ele, transtornado. - Caiam fora todos vocs, filisteus irlandeses! Deixem meu adorado castelo em paz! - Ele cobriu o 
rosto com as palmas das mos e choramingou:
      - Ser que  tarde demais para desistir dessa loucura?
      Fui at onde Lesley estava e lhe disse que nada feito.
      - Ento eu quero o castelo pintado em prata - disse ela - , j que ele no aceita cor-de-rosa. V at l e pea!
      E sabem o que aconteceu? Eu fui. Tinha de ir. Mesmo correndo o risco de ele sofrer um infarto e morrer. Precisava fazer aquilo porque era o meu trabalho.
      Ao voltar com a notcia de que prata era igualmente inaceitvel, Lesley reagiu com naturalidade, dizendo:
      - Tudo bem... Vamos procurar outro castelo.
      Levei um tempo e gastei todo o estoque de diplomacia para convenc-la de que no, ns no iramos procurar outro castelo. No s era tarde demais como tambm 
todo mundo j sabia que a festa seria ali...
      
      No segundo dia...
      Acordei no meio da madrugada e dirigi at Offaly. Minha vida seria muito mais fcil se eu pudesse ter permanecido dentro do tero, mas pas de chance. Mame 
no aceitaria isso sob nenhuma circunstncia.
      Havia tanta coisa a providenciar - o vestido, as flores, a msica - , toda a preparao era muito similar  de um casamento. Inclusive os ataques histricos. 
Tivemos a primeira prova, in situ, do vestido de mangas pontudas de Lesley e tambm dos sapatos pontudos, e ainda do chapu pontudo. Mas, ao girar o corpo diante 
do espelho, ela colocou o dedo na boca e disse, com ar pensativa:
      - Tem alguma coisa faltando...
      - Voc est LINDA! - eu gritei, sentindo as mandbulas do inferno, que se abriam. - No falta nada!
      - Falta sim! - sentenciou ela, balanando o corpo para a frente e para trs e se comportando como uma garotinha de cinco anos. Aquilo era assustador, especialmente 
porque ela continuava se olhando no espelho e claramente aprovava o que via. - J sei! Quero um aplique nos cabelos, com uma imensa cascata de cachos que vo descer 
desde o alto da cabea at o meio das costas.
      A estilista e eu compartilhamos um momento de desespero, e ento ela pigarreou para limpar a garganta e ousou mencionar que o chapu pontudo teria que ter 
a abertura do tamanho de um balde para conseguir ficar em p sobre a "cascata" de cachos. Lesley analisou esse detalhe por um momento e se virou para mim guinchando:
      - Resolva esse problema! Para que eu estou pagando voc, afinal?
      Mentalmente, eu disse: Tudo bem, pode deixar comigo. Vou s modificar um pouco as leis da fsica, quem sabe trocar algumas palavrinhas com o simptico sr. 
Isaac Newton.
      Ela riu baixinho e disse:
      - Voc me odeia, no , Gemma? Acha que eu sou uma pirralha mimada. Vamos l, admita, eu sei que voc pensa isso de mim.
      Eu simplesmente arregalei os olhos e respondi:
      - Lesley, qual ? No seja louca! Este  o meu trabalho. Se eu levasse esse tipo de coisa para o lado pessoal, devia procurar outro emprego.
       claro que o que eu queria dizer, na verdade, era:
      "Sim, eu odeio voc, odeio mesmo, ODEIO COM TODAS AS MINHAS FORAS! Lamento terrivelmente ter aceitado essa merda de trabalho, no tem dinheiro que pague, 
e voc devia saber que no importa quanto o seu chapu seja pontudo, nem suas mangas ou seus sapatos, eles nunca ficaro to pontudos quanto o seu NARIZ. Sabe como 
 que todos aqui se referem a voc? CARA DE MACHADINHA.  isso! s vezes, quando voc vem correndo em minha direo, eu acho que algum me atirou um machado pontudo. 
Srio mesmo! Embora, s vezes, eu sinta um certo cime ao ver o quanto o seu pai  bom para voc, prefiro mil vezes ser eu mesma do que voc."
      Mas eu no disse nada disso,  claro. Sou fantstica! Se algum sofresse uma fratura feia na perna e precisasse de fios de ao para costurar os pedaos de 
osso, poderia usar alguns dos meus nervos.
      Sou o mximo!
      Para piorar o estresse, eu estava ocupada demais para escrever e comecei a sentir sndrome de abstinncia. Foi como quando eu estava deixando de fumar. Pensava 
no cigarro o tempo todo e me sentia angustiada.
       isso que significa ser uma artista atormentada?
      
      No terceiro dia...
      Acordei no meio da madrugada e dirigi at Offaly. O cabeleireiro que ia preparar a "cascata" de cachos de Lesley chegou e eu supervisionava a instalao das 
peas de seda cor-de-rosa que ficariam penduradas no teto e desceriam at o cho quando, de repente, ouvi algum trovejar:
      - Ento voc  a mulher que est gastando todo o meu dinheiro.
      Eu me virei. Caraca! Era Larry "Balofo" Lattimore. Papai Balofo! Acompanhado pela sra. Balofo, que era um exemplo vivo do que acontece quando grana demais 
se mistura com tranqilizantes em excesso: um desastre de trem ambulante.
      Balofo era gordo e sorridente - dava para perceber que se orgulhava da sua cordialidade e do estilo "rico boa-praa". Era um homem assustador. Pressenti que 
seu ar fraternal e festivo poderia se transformar a qualquer momento e ele mandaria seus "rapazes" levarem algum para um celeiro abandonado e amarr-lo numa cadeira 
para lhe quebrar as rtulas, "para ele aprender".
      - Sr. Lattimore! Que prazer conhec-lo pessoalmente! - menti.
      - Diga-me uma coisa, minha jovem... Rende muita grana esse lance de organizar festas?
      Aposto todas as minhas fichas que em um encontro com Elizabeth II ele seria capaz de perguntar se rendia muita grana esse lance de ser rainha.
      Estremeci de medo.
      - Bem, senhor, eu no sou a pessoa certa para responder a isso.
      - A quem devo perguntar, ento?
      Ai, minha nossa.
      - Entendi! - continuou ele. - Aqueles dois, no ? Francis e Frances? Os Gmeos do Mal? So eles que ficam com todo o lucro?
      O que eu poderia responder?
      - Sim, sr. Lattimore.
      - Pare de me chamar de "senhor", no precisa fazer cerimnia comigo.
      - J que insiste, Balofo.
      Os olhos de peixe-morto da sra. Balofo-tranqilizante-desastre-de-trem cintilaram subitamente, ganharam vida e uma mnima e significativa pausa se seguiu. 
Balofo, por fim, disse:
      - Meu nome... - acentuou ele, com ameaadora calma - ... Larry!
      Oh, Senhor! L se vo minhas rtulas.
      
      No quarto dia...
      Acordei no meio da madrugada e dirigi at Offaly. O ventilador para fazer as peas de seda voarem pelo salo j havia chegado; a moblia estava a caminho; 
um novo chapu com boca de balde estava sendo montado; Andrea e Moiss tinham ido me ajudar e as coisas estavam comeando a parecer menos perigosamente descontroladas 
quando Lesley teve um sbito chilique:
      - Os quartos so muito comuns! Precisamos decor-los!
      Eu a segurei com fora pelos braos, olhei fixamente nos seus olhos e disse, entre dentes:
      - No... Vai... Dar... Tempo!
      Ela manteve os olhos nos meus e rebateu:
      - Invente... Tempo! Quero aquelas coisas que ficam por cima da cama, que parecem redes para mosquito, s que mais bonitas. Em prata.
      Pensei em Balofo e nas minhas rtulas.
      - Pegue o telefone! - gritei para Andrea, histrica e perigosamente perto de pirar. - Agora me d licena, que eu preciso sair um instantinho para comprar 
todo o lam prateado que existe na Irlanda.
      Tive de ligar para todos os costureiros que eu conhecia; firmas grandes, firmas pequenas, at mesmo autnomos. Foi uma operao de guerra. Parecia a evacuao 
de Dunquerque.
      
      No quinto dia...
      Acordei no meio da madrugada e dirigi at Offaly. As taas chegaram e metade delas no sobreviveu  jornada. Foi um sufoco conseguir mais taas; e no eram 
taas comuns, eram de cristal italiano cor-de-rosa. Mas eram as telas de mosquito em lam prata que estavam
      acabando comigo. S alguns costureiros avulsos aceitaram o trabalho num prazo to apertado, ento eu mesma tive de ajudar a costurar a bosta do lam. Trabalhei 
a noite toda. Nem consegui ir para casa. Liguei para mame e sugeri mandar um carro para busc-la e traz-la at o castelo, mas no fim, diante das minhas juras de 
que aquilo nunca mais tornaria a acontecer, ela disse que conseguiria passar uma noite sozinha.
      
      No sexto dia...
      O dia da festa. No dormi nada, meus dedos estavam cheios de cortes, mas eu estava me segurando. Eu... Estava... Me... Segurando. Ouvido no cho, como fazem 
os ndios, dedo no pulso, essa era eu. Tentava resolver todos os problemas e defeitos, incluindo os dois sujeitos abrutalhados com cabea pontuda que pareciam transbordar 
de dois palets apertados demais. Seguranas. Nossa, eles pareciam bandidos...
      Chamei Moiss num canto.
      - Aqueles dois... Ns no podamos ter arrumado seguranas que no tivessem cara de psicticos?
      - Aqueles? So os irmos de Lesley. - Moiss disse isso e saiu correndo para receber os menestris tocadores de alade e lhes fornecer malhas colantes e sapatos 
de pontas curvas.
      Todo o resto do dia e da noite foi uma longa sucesso de pessoas me procurando para dizer:
      "Gemma, algum desmaiou no salo."
      "Gemma, voc tem camisinhas?"
      "Gemma, Balofo quer uma xcara de ch, mas Evans-Black se entrincheirou dentro do quarto e no quer liberar a chaleira."
      "Gemma, esto vaiando os tocadores de alade. A coisa t ficando feia."
      "Gemma, ningum aqui trouxe drogas."
      "Gemma, os irmos de Lesley esto arrebentando a cara um do outro."
      "Gemma, a sra. Balofo est transando com um cara que no  o sr. Balofo."
      "Gemma, o toalete feminino est entupido e Evans-Black no quer emprestar o desentupidor."
      "Gemma, Evans-Black est reclamando da imundcie."
      
      E no stimo dia...
      Ela mentiu para a me e disse que ia voltar ao castelo para cuidar da limpeza, quando na verdade Andrea e Moiss eram os desafortunados que estavam cuidando 
disso. Ao chegar  casa de Owen, ela avisou:
      - Quero transar, mas estou completamente esgotada. Voc se importa se eu simplesmente ficar ali deitada e deixar todo o trabalho por sua conta?
      - E qual  a novidade?
      Aquilo no era justo, ela era muito criativa e cheia de energia no rala-e-rola com Owen. Mesmo assim, ele fez o que ela pediu; depois, lhe preparou torradas 
com queijo e eles se sentaram no sof para assistir a Billy Elliot.
      
     
13
      
      Izzy tomou o seu vinho e ficou pensando em coisas agradveis, quando, em meio  multido, reparou em um homem junto ao balco do bar; ele olhava fixamente 
para ela e sorria de forma calorosa.
      S que ele no era um daqueles tarados com cabelo mais comprido de um dos lados da cabea e penteado de forma a disfarar a calvcie; pelo contrrio, era melhor 
que a encomenda - sabe como , na idade certa e muito bonito. A novidade daquilo quase a fez rir alto; ela estava sendo paquerada. Dentro de uma boate irlandesa!
      Ele veio se aproximando. Ela chuta e marca!
      Mas ela o conhecia. S no sabia de onde. Ele lhe era frustrantemente familiar; de onde diabos ser que... Oh, mas  claro! Era Will, o cara da farmcia. Cheio 
de pose. Ela sentiu um calorzinho na boca do estmago, mas pode ter sido efeito do vinho.
      - Quem est cuidando da loja? - ela gritou.
      - Quem est cuidando da sua me?
      Deram risadinhas ofegantes e cmplices.
      Ele apontou com a cabea para o vinho dela e disse, com bom humor:
      - Escute, Izzy, eu adoraria convid-la para um drinque, mas ser que voc devia beber, j que toma tranqilizantes?
      - No zo pramim, zeu man, zo baminhame. - Ela estava um pouco mais alta do que imaginava.
      - Eu sei. - Ele piscou.
      - Eu sei que voc sabe. - Ela piscou de volta.
      
      Izzy realmente estava a fim dele. Algo esquisito rolava ali: o livro foi parar longe, muito longe de onde comeara. As pessoas tinham mudado. A me, o pai 
e "eu" tinham se modificado e se tornado pessoas com vontade prpria. Era aquilo que os escritores queriam dizer ao falar da magia de escrever, mas s vezes isso 
se tornava muito irritante. Eu tinha um adorvel empresrio que no atuava na rea de internet prontinho para Izzy, mas ela insistia em sentir atrao pelo carinha 
da farmcia, coisa que eu no tinha encomendado  personagem, em absoluto. Que cara-de-pau a dela!
      Oh, beu Cristo, o guevoi gue eu griei? (Esse  o meu sotaque de Doutor Frankenstein.)
      Tenho de admitir que todas as vezes que escrevia algo agradvel a respeito de "Will" eu me sentia traindo Owen. Como ele aceitaria o fato de que o atendente 
da farmcia, e no ele, tinha servido de inspirao para o meu heri romntico? Quando o livro estivesse pronto, Owen e eu j estaramos cada um para o seu lado 
h muito tempo. Para ser franca, toda vez que nos encontrvamos parecia ser a ltima.
      Nesse nterim, quanto mais eu escrevia sobre Will no meu livro, mais real o Johnny da farmcia aparecia, entrando em foco aos poucos como a revelao em uma 
Polaroid. Havia um corpo legal debaixo do guarda-p. Eu havia reparado isso na noite de sexta-feira, pois o vira de roupa. Quer dizer, roupa de sair. Roupa de sair 
bem transada - em vez do guarda-p branco, que no o favorecia em nada.
      Ser que Johnny tinha namorada? Eu sabia que ele no era casado porque me dissera isso em algum momento, quando ns dois nos queixvamos das nossas existncias 
infelizes. Mas nada indicava que ele tivesse uma namorada. E se tivesse, ser que conseguia ir v-la, ao menos? Provavelmente no, a no ser que ela fosse uma daquelas 
mulheres irritantemente fiis que resolvera "esperar por ele" at seu irmo melhorar da perna e aquele momento difcil ser superado.
      Na semana seguinte  festa de Lesley, eu tive de pedir uma receita para a minha me (antiinflamatrios... Mame teve um estiramento dos msculos da mo, sabe 
Deus como - apertando o controle remoto, talvez?) e pela primeira vez me senti tmida ao ver Johnny. Enquanto caminhava pela calada, depois de sair do carro, senti 
que ele me acompanhava pelo vidro.  claro que eu tropecei.
      - Oi, Gemma. - Ele sorriu e eu tambm. Havia algo realmente muito simptico nele. Um jeito educado, adorvel. No parecia o mesmo cara que eu vira na Renards, 
um homem com luz prpria, vivaz e ligeiramente ousado. Ser que aquilo era Complexo de Cinderela? Subitamente, compreendi que ele estava exausto. Desde o dia em 
que o conhecera, vinha trabalhando doze horas por dia, seis dias por semana, e embora fosse sempre gentil com a clientela, eu nunca o via em seu melhor momento. 
Se ao menos ele no precisasse trabalhar tanto...
      Entreguei-lhe a receita e perguntei:
      - Como vai o seu irmo?
      - Vai levar sculos at ele voltar a pisar no cho. Ahn, escute... espero no ter deixado o seu namorado aborrecido naquele dia, na Renards.
      Respirei fundo.
      - Ele no  meu namorado.
      - Mas... Tudo bem.
      Eu no tinha a mnima idia de como explicar a relao estranha que rolava entre mim e Owen, e ento, de brincadeira, disse:
      - Pois , eu tenho o hbito de beijar homens que no so meus namorados.
      - timo! Ento eu tenho alguma chance. (Isso parece papo de um cara que tem namorada?)
      - Ah, quer dizer ento que voc no quer ser meu namorado? - Eu pretendia ser esperta, sabem como ... Divertida, mas logo senti uma onda vermelha surgir no 
rosto dele e depois no meu. Morrendo de vergonha e completamente mudos, irradivamos calor um para o outro e minhas axilas comearam a coar loucamente.
      - Nossa! - Tentei salvar o dia com minha cintilante sagacidade. - Acho que conseguiramos assar marshmallows s com o calor de ns dois.
      Ele riu, cada vez mais vermelho, e disse:
      - E olhe que j estamos meio grandinhos para ficar envergonhados desse jeito.
     
14
      
      Depois que a extenuante festa de Lesley Lattimore acabou, eu consegui voltar o foco para o meu livro, que ia muito bem, obrigada; minha avaliao era a de 
que trs quartos dele j estavam prontos. Havia outros eventos para eu organizar - mas nada to desgastante quanto a festa de Lesley - e a nica pedra no sapato 
(alis, uma pedra muito grande) era minha me. Eu desconfiava que ela nunca aceitaria que o meu romance fosse publicado, embora, como eu vivia dizendo para mim mesma 
o tempo todo, aquela era a histria mais velha do mundo. Alm do mais, as pessoas j tinham se tornado completamente diferentes de ns.
      Pensei em todos os tipos de coisas assustadoras. Como eu ser obrigada a lanar o livro sob pseudnimo e pagar a alguma atriz para ela se fazer passar por mim. 
S que desse jeito eu no poderia tripudiar em cima de Lily nem mostrar a Anton o grande sucesso que eu era. Eu queria ter as honras e as glrias. Queria que a revista 
Yeah! mostrasse fotos da minha casa suntuosa. Queria que as pessoas perguntassem: "Voc  a Gemma Hogan?
      Busquei conselhos com Susan.
      - Simplesmente seja honesta com a sua me. Perguntar no machuca.
      Nisso ela estava errada.
      Trouxe o assunto  baila entre um comercial e outro, enquanto assistamos  tev.
      - Mame?
      - Hummmmm?
      - Estou pensando em escrever um livro.
      - Que tipo de livro?
      - Um romance.
      - Sobre quem? Cromwell?
      - No...
      - Uma garota judia na Alemanha, em 1938?
      - Escute... Ahn... Desligue a tev um instantinho e eu lhe conto tudo.
      
      PARA:Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Dei com a lngua nos dentes
      
      Querida Susan,
      
      Segui seu conselho e contei  minha me. Ela me chamou de vaca. Eu mal pude acreditar, e muito menos ela. As piores palavras pelas quais ela j se referira 
a algum tinham sido "dondoca" ou "mocinha". Nem Colette fora chamada de "vaca".
      S que, quando mame soube da trama do livro, sua boca foi se abrindo, abrindo, abrindo cada vez mais, e seus olhos ficaram mais e mais esbugalhados. Sua expresso 
era a de algum que tenta dizer um monte de coisas, mas o choque do pavor leva a sua voz; por fim, in extremis, as palavras lhe foram liberadas e vieram de uma rea 
restrita da alma.
      Muito bem... Sua grandessssima... - Pausa longa e dramtica, enquanto a palavra era direcionada por corredores pouco familiares, como os bastidores de um 
concerto de rock, at serem indo empurradas para a frente e para o alto, para o alto, sempre para o alto, para cima ("vai, vai, vai!"), em direo  luz do dia... 
VACA!
      Foi como se ela tivesse me esbofeteado - ento eu percebi que ela realmente fizera isso. Foi uma chicotada no meu rosto, vinda da palma da sua mo. A aliana 
eternamente enfiada em seu dedo me pegou bem na ponta da orelha e doeu de verdade.
      - Voc quer que o mundo inteiro saiba o quanto eu fui humilhada?
      Tentei explicar que o livro no era sobre ela e papai, pelo menos agora no era mais, e que aquela era a histria mais velha do mundo. Mas ela pegou a pilha 
de folhas que eu me dei ao trabalho de imprimir para ela ler.
      -  isso aqui? - Ela arreganhou os dentes. (Sim, arreganhou os dentes.Minha me!) Tentou rasgar tudo ao meio, mas era grosso demais, ento ela pegou algumas 
pginas de cada vez e atacou com vontade. Pode-se dizer at selvageria. Juro por Deus que ela estava rosnando, e tive medo de ela comear a morder as pginas, ou 
at mesmo com-las.
      - Pronto! - declarou, ao ver que cada uma das pginas fora reduzida a fiapos e confetes minsculos que flutuavam em torno da sala como uma nevasca. - No tem 
mais livro nenhum!
      No tive coragem de contar a ela que o arquivo estava todo no computador.
      Minha orelha ardia. Eu realmente sou uma artista atormentada.
      Beijos,
      Gemma
     
      Isso fez o caldo entornar entre mim e mame. Eu me senti culpada e envergonhada - mas tambm muito magoada, e isso me deixou ainda mais envergonhada. Mesmo 
assim, eu no deixaria de escrever. Se eu gostava tanto dela, no deveria interromper tudo? O problema
      - pode me chamar de egosta -  que eu achei que j tinha desistido de muita coisa na vida; havia uma vozinha interna dizendo:E quanto a mim?
      Nesse nterim, mame, que andava melhorando, voltou com as suspeitas, a todo vapor, e tentava monitorar todos os meus movimentos. A corda tinha de arrebentar 
em algum momento - e foi o que aconteceu.
      Era um dia de semana, comum, eu estava borboleteando pelo quarto, de um lado para outro, me vestindo, e mame me encurralou.
      - A que horas voc vai voltar para casa hoje  noite?
      - Tarde. Onze. Vou jantar no hotel novo que abriu no cais. Aquele onde vai haver um congresso.
      - Por qu?
      - Porque sim! - Suspirei, colocando as meias. - Preciso experimentar a comida do hotel para ver se ela serve para o congresso. A senhora pode jantar comigo, 
se no estiver acreditando.
      - No disse que no acreditei, s no gostaria que voc fosse.
      - Bem, isso  uma pena, porque eu no tenho escolha. Preciso trabalhar.
      - Por qu?
      - Porque tenho a prestao da minha casa para pagar.
      - Por que voc no vende aquele apartamento velho e vem morar aqui de vez?
      AAAAAAAARRRRRRGGGGGGGHHHHHHH! Aquele era o meu pior pesadelo, disparado.
      De repente, me deu um estalo.
      - Vou lhe dizer o porqu, mame - disse, com a voz meio alterada. - ... E se papai resolver casar com Colette e ns tivermos que nos mudar daqui? Ficaremos 
felizes pelo meu apartamento, pois assim teremos onde morar, pelo menos.
      Na mesma hora, eu me arrependi de ter falado isso. At os lbios de mame ficaram plidos e eu pensei que ela fosse ter outro daqueles falsos ataques do corao. 
Comeou a lutar, com falta de ar, e, entre uma arfada e outra, disse:
      - Isso nunca poderia acontecer! - Ela ofegou, sem ar, por mais algum tempo, e ento, para minha surpresa, reconheceu: - Poderia sim. J faz seis meses e nem 
uma nica vez ele pegou o telefone para me ligar. No tem o mnimo interesse por mim.
      E querem saber?... No dia seguinte, como se o destino escolhesse o momento exato, chegou uma carta do advogado de papai, solicitando um encontro para discutir 
um acordo financeiro definitivo.
      Eu li tudo e entreguei a carta para mame. Ela olhou para o papel por longo tempo, muito tempo mesmo, antes de falar:
      - Isso quer dizer que ele vai vender a casa mesmo eu estando aqui?
      - No sei. - Eu estava muito nervosa, mas no queria mentir. - Talvez. Ou talvez ele a deixe ficar com ela, se a senhora abrir mo de outros direitos.
      - Tais como...?
      - O salrio dele, ou a sua aposentadoria.
      - E vou viver de qu? Vento?
      - Eu cuido da senhora.
      - Mas isso no est certo. - Ela olhou pela janela e j no parecia to perplexa e arrasada. - Sempre cuidei da casa dele - ela refletiu. - Fui sua cozinheira,
***faxineira, concubina, me da filha dele. No tenho direitos?
      - No sei. Precisamos arranjar um advogado. - Alis, algo que eu deveria ter feito h sculos, mas no esperava que um dia chegssemos quele ponto.
      Mais um longo silncio.
      - E aquele livro que voc estava escrevendo? Como voc descrevia o seu pai na histria?
      - Como um homem mau. - Resposta certa.
      - Estou arrependida por t-lo rasgado.
      - Arrependida at que ponto?
      - Voc no poderia escrever tudo novamente?
      PARA: Susan-inseattle@yahoo.com
      DE: Gemma 343@hotmail.com
      ASSUNTO: Ela topou!
      
      Mame me disse que queria papai descrito no livro com nome e sobrenome, para ench-lo de vergonha, e queria tambm que todos soubessem da situao dele; estava 
at mesmo disposta a ir ao programa da Trisha, para confirmar o nome e o sobrenome dele ao vivo, na tev. Adivinhe a outra novidade... Terminei o livro! Pensei que 
ainda fosse demorar um pouco para acab-lo, mas amarrei as pontas soltas bem depressa, no final. Fiquei acordada at s seis da manh, escrevendo. Tudo bem, o final 
 meio aucarado e talvez eu risse se fosse o livro de outra pessoa, mas, como tudo na vida,  diferente quando a dona  voc.
      
      Beijos,
      Gemma
      
      Liguei para papai e perguntei em que consistia o tal acordo financeiro definitivo. Era exatamente o que eu temia: ele queria vender a casa para conseguir dinheiro 
e comprar uma nova para abrigar Colette e seus fedelhos. Mame e eu contratamos uma advogada especializada em direito de famlia, Breda Sweeney, e fomos v-la.
      - Papai quer vender a casa. Ele pode fazer isso?
      - No sem o consentimento da esposa.
      - O qual,  claro, ele no ter - afirmou mame.
      Fiquei satisfeita e expressei minha surpresa, pois sempre suspeitara que a lei, nesse caso, era tendenciosa e contra as mulheres. Na verdade, ela me pareceu 
at protetora...
      Mas eu me precipitei. Breda ainda estava falando...
      - Quando completar um ano da separao do casal, ele poder entrar com uma apelao em juzo, argumentando algumas coisas.
      - E esses argumentos sero...?
      - De que ele tem duas famlias para sustentar agora e muito do seu patrimnio  representado pela casa antiga. O que geralmente ocorre  que o juiz emite uma 
autorizao para que a casa seja vendida, e o dinheiro arrecadado ser dividido entre os cnjuges.
      O medo me assaltou e mame perguntou, quase sussurrando:
      - Quer dizer que eu posso perder a minha casa?
      - A senhora ter dinheiro para comprar outra - explicou a advogada. - No ser necessariamente cinqenta por cento do arrecadado, quem vai decidir isso  o 
juiz, mas a senhora no sair de mos abanando.
      - Mas aquele  o meu lar. Morei l durante trinta e cinco anos. E quanto ao jardim? - Ela caminhava clere rumo  histeria. E no era a nica. O preo das 
casas na Irlanda estava to alto que, mesmo que mame ficasse com metade do valor do imvel, claro que nunca conseguiria comprar nada sequer parecido com a casa 
onde morava.
      A coisa ia de mal a pior. Mame tinha sessenta e dois anos, uma mulher na terceira idade prestes a ser arrancada do lugar onde vivera por mais da metade da 
vida e condenada a morar em uma casa minscula a meio caminho de Cork.
      - Mas papai ser obrigado a sustent-la? - perguntei.
      - No necessariamente. Por lei, Maureen tem direito a receber o que ele puder dar, a fim de mant-la no mesmo padro de vida, mas sem empobrec-lo. - Breda 
fez um gesto de impotncia. - O dinheiro vai ter que cobrir tudo.
      
      - Meus tranqilizantes esto acabando - avisou mame, assim que chegamos em casa. - No quero ficar sem remdios. No agora, quanto mais depois dessas notcias. 
Voc pode ir  farmcia para mim?
      - Ahn... Tudo bem. - Acho que me senti estranha. No via Johnny h duas semanas, desde o nosso ataque de flerte, quando eu tropecei na entrada e depois levei 
aquele papo com ele, cheio de insinuaes.
      Por que eu sentia hesitao em v-lo?, perguntei a mim mesma. Afinal, ele era muito gentil e simptico. Mas eu sabia que o que estava fazendo era errado. Owen 
- eu querendo ou no - era meu namorado e no me parecia justo eu ficar de flerte com Johnny. A
      no ser que eu estivesse realmente a fim de alguma coisa; como, por exemplo, terminar com Owen e ir com a maior cara-de-pau at a farmcia, torcendo para Johnny 
enfiar coisas no apenas na minha cestinha de compras. Ser que eu estava a fim de encarar isso?
      Uma coisa era eu passar um tempo com Owen fantasiando em voz alta mil lances com Anton, mas Johnny era diferente. Ele era real. Estava mais perto de mim.
      E estava interessado.
      Eu sabia que poderia rolar algo com ele e, embora pensar nisso me provocasse fisgadas no estmago (fisgadas boas), eu tinha receio. No sabia por qu. Tudo 
o que sabia  que com Owen eu no tinha aquele tipo de medo.
      
     
Jojo
      
     
15
      
      Book News, 10 de junho
      
     DIREITOS DE FILMAGEM
      
      Os direitos para a filmagem de O Amor e o Vu, romance de estria de Nathan Frey, foi vendido  Miramax por um valor de sete dgitos e estimado em cerca de 
1,5 milho de dlares. Brent Modigliani, da produtora Creative Artists Associates, fechou o contrato com Jim Sweetman, da Lipman Haigh. O romance, representado por 
Jojo Harvey, da Lipman Haigh, ser publicado no primeiro semestre do ano que vem pela Southern Cross.
      A srta. Harvey tambm representa LilyWright, autora do grande e surpreendente sucesso da temporada, As Poes de Mimi, e tambm Eamon Farrell, indicado ao 
prmio Whitbread de melhor autor do ano.
      
      Nenhuma meno a Miranda England, que estava entre os dez autores mais vendidos desde janeiro, mas, tambm, Jojo no podia reclamar. Ah, nada como umas boas 
notcias para despertar seus velhos instintos consumistas. E j estava na hora do almoo. Quase.
      - Manoj, vou sair! Talvez demore um pouco.
      - Vai escolher cores de esmalte?
      Aquela era uma das prioridades nova-iorquinas que Jojo nunca deixara de lado: a importncia de cuidar bem das unhas.
      - Esmaltes, bolsas, quem sabe? Estou aberta s possibilidades, livre e solta.
      Mas no por muito tempo. Assim que colocou os ps na rua ensolarada, ela foi fisgada pela jaqueta de couro azul-beb que viu na vitrine da Whistles, um tremendo 
objeto de desejo; sua boca ficou seca.
      Jojo entrou, viu que eles tinham o modelo no seu tamanho, estendeu o brao e comeou a acariciar a pea como se ela fosse um animal. O couro era fino e suave 
como uma pele, e a roupa lhe pareceu to linda que ela estremeceu. Era tambm absurdamente cara,pouco prtica e s serviria para aquela estao. Todos ririam dela 
se Jojo a usasse no ano que vem, mas o que importava?
      De volta ao trreo, ela vestiu a jaqueta, procurou um espelho - e ento, de repente, a empolgao acabou. Ela fazia seus seios aumentarem de tamanho como se 
tivessem sido enchidos por uma bomba de bicicleta. Era obsceno. Mark adoraria a roupa,  claro, mas em que lugar ela poderia us-la, quando estivesse em companhia 
dele? Na sala de estar? No quarto? Na cozinha?
      Em pensamento, ela j tinha comprado a jaqueta, levara a pea para casa dentro de uma sacola lindssima e a usara duas vezes - uma delas s para impressionar 
as irms Wyatt. Agora, porm, reconsiderava a idia. Era muito cara para algo que ela s poderia usar em seu apartamento. Ela no estava desistindo da idia, mas 
teria que pensar melhor a respeito. Ser que isso  maturidade, refletiu. Se fosse, no havia pressa para obt-Ia.
      De volta  sua sala, Manoj avisou:
      - Sweetman Sorrisos veio aqui procurar voc.
      Jojo se virou para o sanduche com olho comprido, mas falar com Jim s levaria um minuto. Ela foi correndo at a sua sala.
      - Qual  a boa?
      - Tenho uma tima notcia. Entre e sente-se.
      - Meu almoo est  minha espera. D para ouvir uma boa notcia em p mesmo.
      - Voc  quem sabe, Dona Agitadinha. Brent Modigliani, da CAA, quer trabalhar "em conjunto" conosco. Isto , com a Lipman Haigh.
      Brent era o agente americano que intermediara o contrato com a Miramax.
      - Ter algum baseado em Los Angeles, defendendo nossos interesses, vai facilitar a colocao dos nossos livros sobre a mesa dos produtores de Hollywood. E 
voc tem um grande mrito nisso, pois O Amor e o Vu foi o ttulo que o deixou interessado e abriu seus olhos para os autores que a nossa agncia representa.
      - Agora voc me convenceu. J estou me sentando.
      Ele vem nos visitar na semana que vem, com o scio. Ns vamos almoar em um lugar bem badalado.
      - Ns quem?
      - Voc, eu e eles.
      Richie Gant no foi citado. Yes!, comemorou ela.
      - Quer saber, Jim? Os livros de Miranda England so PERFEITOS para Hollywood. Comdias malucas nunca saem de moda. E As Poes de Mimi  uma histria feita 
para as telas.
      Jim riu do entusiasmo dela.
      - Voc anda nos esnobando muito ultimamente, Jojo, mas hoje quero que venha tomar um drinque conosco depois do expediente. Vamos celebrar.
      Ela pensou rpido. No havia nada programado. Mark ia assistir  pea de Sophie na escola.
      - Combinado! - assentiu ela.
      - Voc desistiu da hipnoterapia?
      - No. Bem, talvez sim. Eu gosto de fumar. Sou uma fumante assumida, embora faa parte de uma raa em extino.
      - Em extino mesmo, sob todas as formas.
      - Corta esse papo de recm-convertido.
      De volta  sua mesa, Jojo comeu o sanduche e verificou seus e-mails. Havia apenas um, de Mark:
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Segunda,  noite?.
      
      Posso marcar na agenda? Desculpe por furar esse fim de semana.  a droga das bodas de ouro dos meus pais. E tem tambm a droga da pea da minha filha na escola. 
Tenha um bom - mas no muito bom - fim-de-semana sem mim.
      Mxx
      P.S.- Ovecamoeu.
      
      Isso era arriscado, mas nos ltimos meses ela e Mark vinham curtindo cada vez mais tempo juntos. Passavam quase todos os domingos na companhia um do outro. 
Shayna finalmente os recebeu em seu precioso almoo de domingo, e eles conseguiram at mesmo, uma vez, passear em pblico; foram a Bath para o feriado na Pscoa, 
onde aproveitaram para transar muito entre lenis engomados profissionalmente, alm de fazerem vagarosas caminhadas atravs das ruazinhas, de mos dadas, na certeza 
de que estavam to longe de Londres que ningum os veria. No fim do feriado, Mark correu para casa, a fim de levar a famlia para uma viagem de uma semana  ustria, 
onde todos iriam esquiar. Jojo achou isso timo. Ela o tivera por quarenta e oito horas consecutivas e agora estava sendo gentil com sua famlia; portanto, no precisava 
se sentir culpada.
      - Tem certeza de que levar a famlia para esquiar  uma boa idia? - ela perguntara. - Seus filhos so propensos a acidentes. Alm do mais, no tem um monte 
de queijo na ustria?
      - Isso  na Sua. Vocs, americanos, no sabem nada sobre a Europa.
      - Voc est completamente errado. - Com jeito brincalho, ela cutucou-lhe o espao entre as pernas com a ponta da bota. - Eu sei tudo sobre biscoitos dinamarqueses, 
sei tudo sobre massagens suecas, sei danar em estilo espanhol. - Ela aumentou a presso da bota e comeou a mov-la com suavidade para trs e para a frente. - E 
sei tambm... - continuou com voz provocante - ... Tudo sobre beijos de lngua  francesa.
      - Sabe mesmo?
      - Sei mesmo, sei tudo.
      Em silncio, os dois observaram a bota se erguer, levantada por algo que subia por baixo dela.
      - Pois ento prove... - exigiu ele.
      - No. S depois que voc me pedir desculpas.
      Ele pediu.
      Desde aquela noite com os italianos, quando Mark ficara na casa dela, inadvertidamente, at amanhecer, ele agora dormia l pelo menos uma noite por semana. 
Cassie nunca reclamava de ele no dormir em casa, e Jojo ficava atnita com a sua passividade.
      - O que voc conta a ela?
      - Que vou ligar para a Califrnia, ou vou sair com algum cliente e no quero entrar em casa s trs da manh, tateando no escuro e acabar acordando todo mundo, 
ainda mais sabendo que ela tem de ir para o trabalho muito cedo.
      - Ela acredita nisso?
      - Parece que sim. Ela s pede para eu avis-la antes de meia-noite, para passar a tranca na porta.
      - Onde ela acha que voc dorme?
      - Em um hotel.
      - Eu nunca embarcaria nessa histria. De jeito nenhum. Se meu marido de repente comeasse a passar as noites fora, sem ter mudado de emprego, eu daria na cabea 
dele com uma chave de roda sem parar, at conseguir algumas respostas.
      - Nem todas so como voc, Jojo.
      - Eu sei. - E ela sabia, tambm, que muitas vezes era muito difcil, para algumas pessoas, enxergar o que estava bem debaixo do seu nariz. Aquilo doa e ela 
no queria magoar Cassie. Nem ningum.
      Mas qual seria a opo? Deixar de ver Mark? Impossvel.
      
      PARA: Mark.avery@lipman-haigh.co
      DE: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Bom fim de semana?
      
      Segunda  noite est legal. Falta muito, mas est legal. S tem uma coisa... "Tenha um bom fim de semana?" Como  que eu posso ter um bom fim de semana? Nunca 
vou me esquecer do jeito que voc me tratou no meu aniversrio.
      Jxx
      P.S. - Omavoeceu tambm.
      
      Quatro fins de semana antes, no dia 12 de maio, Jojo tinha completado trinta e trs anos. Alguns dias antes, Mark lhe avisara:
      - Vou viajar com voc no seu aniversrio.
      - ?... - Ela sentiu um calor de prazer diante da considerao dele. - Vamos para onde?
      Ele esperou alguns segundos, antes de responder:
      - Londres.
      - Londres? Esta Londres onde ns estamos?
      Antes que ela o mandasse ir  merda, ele lhe mostrou um pedao de papel, informando:
      -  a programao da viagem.
      
     Fim de Semana do Aniversrio de Jojo
      
      Sexta, s 3:30 da tarde: Sair de fininho do trabalho. Os dois seguiro em separado, por caladas opostas, at a Brook Street, onde faro o check in no Hotel 
Claridges.
      
      - O Claridges! Eu sempre quis conhecer o Claridges! - Isso fazia parte de uma grande fantasia de Jojo. Uma Gr-Bretanha bem no estilo Agatha Christie, cheia 
de chs com creme, mordomos arrogantes, gelias trazidas do campo naquela manh, tomar ch com uma tia-av excntrica, o tipo de mulher que usa as jias da famlia 
at para cuidar do jardim.
      - Eu sei! - disse ele.
      Ela ficou to comovida com aquilo que, por um instante, quase chorou, mas desistiu.
      
      Sexta, 4:00 da tarde: Conhecer as instalaes da sute,
      
      - Uma sute! Eu amo voc!
      
      ...dedicando especial ateno  cama, para em seguida dar um pulinho na Bond Street, ali perto, a fim de procurar um presente de aniversrio para Jojo.
      
      Ela olhou para ele.
      - A Bond Street  terrivelmente cara.
      - Eu sei.
      Ela olhou para ele com admirao.
      - Que cara fantstico!
      
      Sexta-feira, 7:00 da noite: Drinques e depois jantar em um restaurante exclusivo, onde eu tive de prometer ao chef que ia editar um livro dele s para conseguir 
uma reserva antes do Natal.
      
     * * *
      
      Sbado, de manh: Desjejum na sute, seguido por um mergulho na piscina do hotel para em seguida voltar  Bond Street e dar prosseguimento  busca pelo presente 
de Jojo.
      
      Tarde livre: Sugiro testar a maciez do colcho.
      
      Sbado, 7:00 da noite: Coquetis e em seguida jantar em outro restaurante onde  quase impossvel conseguir reserva.
      
     * * *
      
      Domingo, de manh: Desjejum na sute, mais um mergulho e um teste final das molas da cama.
      
      Meio-dia: Check out e volta para casa.
      
      Aquele fora o fim de semana perfeito. Quando eles chegaram  sute, flores e champanhe j estavam  espera. Transaram umas sessenta vezes, at mesmo na piscina, 
onde eles eram os nicos no local. Jojo no topou, a princpio, achou aquilo meio baixaria, mas na hora ele j a havia excitado tanto que ela no se importou em 
ceder.
      Com toda a pacincia, ele foi de loja em loja com ela, admirou cada livro de bolso que Jojo pegava para olhar, mesmo ela sabendo que para ele todos pareciam 
iguais; prestou ateno quando ela explicou que a lombada de um era branca, enquanto a do outro era preta, e o quanto aquilo fazia diferena na apresentao do produto. 
O nico sinal de que ele estava quase enlouquecendo foi quando ela no conseguiu decidir entre a bolsa Prada com ala longa ou a bolsa Prada idntica, s que com 
ala de mo. Mark resolveu comprar-lhe as duas.
      - Ah, entendi! - Ela riu. - Voc deve estar preocupado com a moblia da sute.  melhor voltarmos l para confirmar se foi o que pedimos.
      Eles tomaram ch no Garden Room e beberam champanhe no almoo, que foi servido no quarto, na tarde de sbado. O nico contratempo nos dois dias foi quando 
ele tentou arrast-la na direo das alianas, na Tiffany.
      - Acho que voc devia escolher uma delas - sugeriu ele.
      - No seja estraga-prazeres - disse ela, subitamente zangada. A ltima coisa que ela queria, durante aqueles dias preciosos, era ser lembrada de que ele era 
casado.
      Naquela noite no restaurante, enquanto olhavam o cardpio, ele entrelaou os dedos com os dela. Jojo recolheu o brao, mas ele pegou novamente a mo dela e 
comeou a afag-la.
      - Mark! - ela ralhou, franzindo a testa. - Algum pode nos ver.
      - E da?
      - Estamos em Londres, precisamos tomar cuidado.
      - Tomar cuidado  a coisa mais perigosa que uma mulher como voc pode fazer.
      Ela caiu na gargalhada.
      - Feitio da Lua? Nicolas Cage diz exatamente isso para Cher. Acertei?
      Mark deu um suspiro.
      - Era para voc pensar que eu criei essa frase. Sabe que voc  a mulher mais surpreendente que eu conheci em toda a minha vida? Voc sabe tudo!
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Aniversrio no fim de semana
      
      Voc no gostou?
      
      PARA:Mark.avery@lipman-haigh.co
      DE: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Se eu gostei?...
      
      Sim. Gostei at demais. Nada vai conseguir superar aquilo.
      
     
16
      
      6:30 de sexta-feira, no The Coach and Horses
      Um monte de gente apareceu para tomar os drinques de comemorao - afinal, era a empresa que estava pagando. Richie Gant circulava  volta de todos como um 
tubaro, tentando atrair um pouco da ateno para si, mas Jojo e Jim eram o foco principal, sentados juntos como um rei e uma rainha, bebendo vodca-martnis.
      - Viu s? No  to mau - disse-lhe Jim. - Eu lembro da poca em que ns sempre podamos contar com voc no happy hour das noites de sexta-feira.
      - Tem razo. - Ela estava ruborizada e feliz. - Eu estou me divertindo  bea. Talvez tenha algo a ver com todo esse lcool, mas quem est reclamando? E ento, 
como vo as coisas com voc, Jim? Como vai sua namorada, Amanda?
      - Jojo, voc anda to distante... Amanda me dispensou faz duas semanas.
      - Ela fez isso? Puxa, sinto muito. E voc j arrumou uma nova garota?
      - Estou na fase dos testes para elenco, mas at agora, nada.
      Aconteceu uma pausa estranha que serviu de alerta e Jojo, movida por algum sexto sentido, disse:
      - Voc no me perguntou se eu tenho namorado.
      Mais uma pequena pausa estranha e Jim disse:
      -  porque eu sei que voc tem.
      O tempo parou.
      - Sei tudo sobre Mark.
      O estmago de Jojo pulou, como se ela estivesse em um elevador que parara de repente.
      - Ele contou a voc?
      - No. Eu adivinhei. Ele apenas confirmou.
      - Ento ele lhe contou? Quando?
      - Hoje.
      Subitamente, ela se sentiu completamente sbria e muito zangada com Mark. Ele quebrara um acordo tcito que eles haviam feito. Mark no era o nico com muita 
coisa a perder se o relacionamento deles se tornasse pblico. Aquilo no ia pegar nada bem para ela nas conversas entre os scios. Lembrando de o quanto Jim e Richie 
Gant eram amigos, Jojo se sentiu nauseada.
      Mark devia ter contado a ela! Algum conhecia os seus segredos sem ela ter conhecimento disso. Aquilo a deixou com o p atrs, na mesma hora.
      - No seja muito dura com Mark. Ele precisa de algum com quem conversar.
      Ela no podia nem ligar para Mark e gritar com ele. Que situao!
      - No se preocupe - acudiu Jim. - O segredo de vocs est em segurana comigo.
      Jojo no sabia se poderia acreditar nele. No sabia tambm se poderia confiar nele. De repente, ficou paranica.
      - Preciso ir! - Ela recolheu suas coisas, fez uma ligao e chamou um txi para ir  casa de Becky e Andy.
      No txi, sua raiva com Mark pareceu explodir e ela pensou: No vou me segurar at a prxima chance de encontr-lo. Ento, enviou-lhe uma mensagem de texto: 
Ligue para mim Quase na mesma hora ele ligou.
      - Qual foi o seu lance com Jim Sweetman?
      - Ele j sabia.
      - No-ele-no-sabia! Voc pisou na bola, Mark. Talvez Jim pensasse que sabia, mas, at voc confirmar, ele no tinha como ter certeza. Capisce?
      - Jojo, ele me viu saindo do seu apartamento s nove e meia da manh, no domingo.
      - Viu? Como?!
      - Estava passando por ali de carro.
      - E por que ele passaria pela minha rua?
      - Ele mora em West Hampstead, perto de voc. Fui pego no flagra. Pode acreditar, Jojo, esse  o tipo de situao da qual eu adoraria escapar pela tangente. 
Teria feito isso, se tivesse conseguido. Ela ficou calada. Eles andavam se arriscando tanto que um flagra daqueles, em algum momento, seria inevitvel. Mas por que 
tinha de ser algum da firma?
      - Podemos confiar em Jim - afirmou Mark.
      - Espero que sim. - De qualquer modo, Jojo ainda poderia pegar no p dele por outra coisa. - Se voc sabia que ele j sabia, por que no me avisou com antecedncia?
      - Eu avisei. - Ele pareceu confuso. - Mandei um e-mail para voc, assim que ele saiu da minha sala.
      - A que horas?
      - Quatro, quatro e meia...
      Ela no verificara seus e-mails antes de sair. No clima festivo da sexta-feira, ela no se dera ao trabalho de verificar as mensagens, antes de sair, e tinha 
ido direto para o pub. Aquilo no era do feitio dela e foi um erro.
      - Tudo bem. - Mark estava limpo. No fizera nada de errado. - Voc est liberado, mesmo sem fiana.
      - Ufa! Achei que voc fosse ler meus direitos e deveres perante a lei e me permitir um nico telefonema.
      - Direitos? Telefonema? - Ela conseguiu dar uma risada. - Voc acha que eu lhe daria essa moleza?
      - Sinto tanto no poder ver voc neste fim de semana.
      - Tudo bem, numa boa. Mazie Wyatt, uma das fabulosas irms Wyatt, vai dar uma festa amanh, para comemorar os seus trinta anos. Uma festa  fantasia. Isso 
vai me manter ocupada.
      - S para eu lembrar... Qual  mesmo a irm que voc curte mais?
      - Magda. Mas...
      - ... No sexualmente falando - os dois entoaram, juntos.
      - Obrigado por me avisar, meu caro amigo - disse Mark, parecendo muito srio de repente.
      Hein?
      - Ela  uma grande escritora e no queremos perd-la - continuou ele.
      Cassie deve ter entrado no quarto.
      - A gente se v na segunda.
      
      Ela contou a Becky e Andy tudo o que acontecera.
      - Quando as pessoas do escritrio comearem a descobrir, todo mundo vai acabar sabendo - disse Jojo.
      - Acho que no era  toa que vocs estavam se arriscando - disse Andy, - Queriam ser pegos. Por que no escolher logo de uma vez a opo mais decente e contar 
 esposa, antes que algum faa isso por vocs?
      Jojo respirou fundo.
      - Eu lhe digo por que, Andy. Porque  a pior merda do mundo acabar com um casamento. No s pela esposa, mas tambm pela dor dos filhos. Como eles vo conseguir 
superar?
      - Sei l - disse Andy. - S sei  que esse tipo de coisa acontece muito. O tempo todo.
      - Mas eu no sou assim.  como dar incio a uma guerra. Mal posso acreditar que eu esteja discutindo essa possibilidade. No compreendo como certas pessoas 
conseguem encarar tudo numa boa. Os caras odeiam as esposas, dizem que a culpa pelo fracasso do casamento  delas, por engordarem feito umas baiacas e nunca fazerem 
boquete nos maridos. Por que ser que no  desse jeito comigo? Por que eu me sinto to envergonhada de mim mesma?
      - Ento d um chute na bunda dele. - Andy parecia entediado com aquilo. No conseguia evitar, porque era homem.
      - Talvez no sinta tanta vergonha assim - explicou Jojo. - O que  pssimo e faz com que eu me sinta ainda pior.
      - Ah, isso  ps-moderno demais para a minha cabea - disse ele.
      - Se... Quando... Se Mark e eu tornarmos pblica a nossa relao, a coisa no vai ter um desfecho cor-de-rosa. No importa a forma como acontea, a coisa vai 
ser feia. Isso  um fato.
      - Mas vai acontecer? Sim ou no? - Sem lhe dar a chance de responder, Andy continuou: - Estou desapontado com voc, Jojo, A maioria das mulheres no faz nada, 
s reclama dos problemas. Elas reclamam, reclamam, reclamam e nunca fazem nada. Veja a pobrezinha
      da Becky e o seu trabalho. Desculpe, amor - disse ele, olhando para Becky meio de lado. - Eu sei que voc no consegue evitar. Mas de voc, Jojo, eu esperava 
mais! Prove que eu no estava enganado a seu respeito. Mostre-me que voc vai agir de acordo com os seus princpios. Preciso de algo em que acreditar.
      - Andy est assim porque o centro financeiro de Londres acabou de demitir um dos administradores - explicou Becky.
      - Tudo bem. - Jojo engoliu em seco. - Isso vai acontecer,  s uma questo de "quando". O problema  que eu ainda me lembro da poca em que tinha a idade de 
Sam... - Ela parou, mas logo foi em frente, com a voz trmula: - Quando penso em Sophie e Sam ficando sem o pai...
      As lgrimas comearam a escorrer e ela soluou baixinho com a cabea baixa. Becky e Andy fizeram uma cara de "t feia a coisa..." um para o outro. Jojo no 
era de chorar.
      
      Naquela noite, deitada na cama, Jojo enfrentou a verdade. Ela esperava o momento em que a dor de no estar com Mark fosse maior do que a de acabar com aquele 
casamento e deixar seus filhos sem pai. Esse momento, porm, ainda no chegara.
      Jojo amava Mark, mas se segurava um pouco. Ela nunca - a no ser de brincadeira - declarara o seu amor por ele, embora ele tivesse lhe dito mais de uma vez: 
"Voc est resistindo e me enrolando,
      Jojo."
      O fato  que ela no queria que seus sentimentos transbordassem a ponto de ela ser obrigada a fazer algo que entrasse em conflito com seu cdigo moral de forma 
to violenta.
      Mas Andy tinha razo. Ela e Mark andavam se arriscando muito. Era como se estivessem torcendo para algum v-los juntos, pois a deciso seria retirada da mo 
deles.
      E como seria o dia-a-dia da vida dos dois, juntos? Onde eles iriam morar? Ser que ela teria de vender o seu apartamento? Sim, e por ela, tudo bem. Ela teria 
de entrar para uma academia, pois subir as escadas do prdio a mantinha em forma. Mais ou menos. Talvez eles comprassem uma casa longe do centro.
      Mas tudo aquilo deixou de assust-la. Estou pronta, ela percebeu. Quase. Ela e Mark poderiam viajar juntos, dormir juntos todas as noites, acordar um ao lado 
do outro a cada manh... Toda aquela coisa de viverem se esgueirando teria um fim.
      Ela no achava que a empolgao com Mark pudesse desaparecer. As pessoas sempre dizem que casos extraconjugais se alimentavam do sexo frentico e nunca sobreviviam 
 transio da fase de
      encontros furtivos para o tdio domstico. O fato, porm,  que quando ela e Mark estavam sozinhos eram entediantes de dar d. Com exceo do sexo, que era 
sempre excitante, eles faziam pequenas coisas calmas. Ela lhe preparava o jantar, eles liam revistas, faziam palavras cruzadas, conversavam sobre o trabalho. S 
faltavam os chinelos de flanela.
      - Mark, olhe s para ns - ela exclamara, no domingo anterior. - Parece que estamos casados h dcadas.
      - Isso pode ser providenciado.
      - No comece!
      Jojo suspirou na escurido. Aquilo traria dor para muita gente e vergonha para ela. Era preciso pesar tudo com cuidado. A sorte  que Jojo era tima em fazer 
coisas que no queria, mas o fato de ser boa naquilo no a obrigava a gostar da situao
      
     
17
      
      Sbado  noite, na casa da famlia Wyatt
      Magda abriu a pesada porta de madeira e gritou a plenos pulmes:
      - JOJO HARVEY, sua garota de arrasar, de ARRASAR! Mazie! Marina! Jojo chegou!
      Um monte de louras deslumbrantes se reuniu em torno de Jojo, que usava suas antigas calas legging, chifres vermelhos meio gastos e uma cauda vermelha de prender 
com velcro. Todas a encheram de carinho. At a sra. Wyatt, "Magnolia, por favor" - que poderia passar por uma das trs irms - , se juntou ao grupo.
      - Voc est mais SEXY do que NUNCA - elogiou ela.
      - Que grande idia vir fantasiada de diabinha - aprovou Magda.
      Aquilo era a prova, pensou Jojo, de que algumas pessoas merecem ser ricas e lindas. As fantasias das irms Wyatt tinham sido alugadas ou, talvez, feitas sob 
medida. Mesmo assim, elas demonstravam empolgao com os chifres sujos e a cauda vermelha como se eles fossem a coisa mais fantstica que elas j tinham visto na 
vida.
      Mazie, com um vestido branco frente-nica, era Marilyn Monroe; Marina, com vrios pardais empalhados costurados no seu terninho Chanel azul-claro, era Tippi 
Hedren em Os Pssaros, e Magda estava alta e gloriosa como a Rainha dos Elfos de O Senhor dos Anis.
      - Jojo, estou achando a minha fantasia o mximo - comentou Magda. - Sempre detestei minhas orelhas. Elas so retas e pontudas, pensei at em fazer plstica, 
mas agora estou feliz por no ter
      feito.
      Magnolia concordou:
      - Eu sempre lhe disse, filha, que quando a gente insiste em usar alguma coisa por muito tempo ela acaba entrando na moda novamente.
      Nesse momento, trs meninas muito comportadas, filhinhas do irmo de Magda, Mikhail, apareceram no saguo. A primeira levou o casaco de Jojo para guard-lo; 
a segunda, com ar solene, pegou o embrulho que Jojo trouxera e avisou que iria coloc-lo na "sala dos presentes", enquanto a terceira ofereceu  convidada uma taa 
de champanhe.
      A festa era sofisticada e elegante, como se um profissional tivesse organizado o evento, mas Magda fizera os preparativos sozinha e pensara em tudo. Havia 
uma sala de descanso fracamente iluminada
      e com ar-condicionado, um salo de jantar com um buf variado e sofs macios e confortveis, um salo com sistema de som e bar, a "sala da balada". Bandejas 
com drinques apareciam do nada centsimos de segundo depois de voc terminar o que tinha na mo, poltronas surgiam no momento exato em que voc resolvia se sentar 
e homens lindos lanavam olhares de admirao exatamente no momento em que voc se sentia desconfortvel por ser a nica pessoa da festa com fantasia improvisada. 
Todo mundo envergava trajes alugados. Nos primeiros cinco minutos, Jojo avistou um gorila, um Gandalf, uma Pantera Cor-de-Rosa, um cavaleiro com armadura e elmo, 
uma donzela em perigo, outro Gandalf, uma freira, Batman, mais um Gandalf e duas Maria Antonietas, ambas homens. Andy apareceu fantasiado de Superman e Becky veio 
com um collant apertado, em vinil, e mscara de Mulher-Gato.
      Ento Jojo viu Shayna e Brandon; suspirou aliviada. Shayna, magrrima como sempre, tambm veio de collant claro imitando pele de crocodilo. Estava fantasiada 
de biscoito Skinny. Brandon
      tinha blocos arredondados de isopor, em formatos irregulares, presos em todo o corpo. Sua fantasia era "tigela de pipoca".
      - Temos alguns rapazes maravilhosos para voc, Jojo - informou Magda. - O primeiro  um que veio vestido de Ali Bab. Tem rios de dinheiro e  muito gente-fina. 
Voc no encontraria um par
      melhor. Ele s tem um probleminha, mas voc tem que me prometer que isso no vai fazer voc desistir de conhec-lo. - Ela apertou a mo de Jojo. - Por favor, 
por mim... Voc promete?
      Sorrindo, Jojo prometeu. Ela adorava Magda, que continuou a falar:
      -  que ningum explicou ao pobrezinho como aplicar creme de autobronzeamento para compor o seu Ali Bab. Apesar disso, ele  um doce e, como eu j disse, 
tem rios de dinheiro. Venha comigo,
      para eu apresentar vocs dois.
      Ela levou Jojo atravs do salo at um sujeito com calas bufantes em cetim cor-de-rosa e faixa vermelha na cintura.
      - Jojo, este  Henry. Sei que vocs vo adorar se conhecer.
      Jojo deu uma olhada no Ali Bab e precisou se segurar muito para no cair na risada. O rosto de Henry, por baixo do turbante cor-de-aafro, parecia ter sido 
tingido. O contorno dos olhos feito com kohl muito mal aplicado tambm no ajudava muito.
      Magda borboleteou para longe. Henry pigarreou para limpar sua garganta regada  tequila sunrise e disse:
      - Desculpe pelo meu rosto listrado. Eu no soube usar corretamente um produto para autobronzeamento e deu nisso.
      - Ora, mas como voc poderia saber, sendo homem?
      - J me disseram que vai levar mais de uma semana para meu rosto voltar ao normal.
      Jojo riu, solidria.
      - Vai ser horrvel trabalhar com a cara desse jeito - continuou ele.
      - Em que voc trabalha?
      - Eu leio o noticirio.
      Outra gargalhada reprimida quase a fez engasgar. Ela fechou as mos com fora.
      - Leio os relatrios do mercado de aes, na verdade - explicou ele - , e no o noticirio propriamente dito. Mesmo assim vai ficar esquisito.
      Jojo se perguntou como poderia escapar dele, mas nem precisava ter se preocupado. Magda Wyatt j estava vrios passos  frente dela e reapareceu com um coelho 
cor-de-rosa.
      - Henry, esta  Athena, irm mais nova de Hermione. Sei que posso confiar em voc para tomar conta dela por alguns minutos. Jojo, sinto muito interromper o 
seu papo com Henry, que parecia to
      agradvel, mas preciso roubar voc um instantinho.
      Quando se viu longe de Henry, murmurou:
      - O que desanimou voc foi o bronzeado artificial?
      - No...
      - Deixa pra l, temos mais um monte de homens maravilhosos em nossas fileiras. Deixe ver... Para quem eu poderia apresentar voc agora?...
      Havia algo de interessante em Magda: ela parecia estar sempre pronta a ouvir confidncias.
      - Sabe o que , Magda? Eu j tenho namorado, s que ele  casado.
      - Meu Deus, que emocionante! - Mas, ao dizer isso, percebeu o olhar triste de Jojo. - No  to emocionante assim? Venha conversar, sente-se aqui.
      Naturalmente, elas estavam ao lado de um peitoril de janela baixo, no tamanho ideal, como se ele tivesse sido feito sob medida para acomodar Jojo e Magda. 
Uma das sobrinhas se materializou do
      nada e Magda lhe pediu uma garrafa de champanhe, que foi devidamente consumida enquanto Jojo desabafava tudo sobre Mark.
      - Ele  o homem certo para voc? - perguntou Magda, quando Jojo acabou de contar tudo.
      - No sei. Acho que sim, mas como posso ter certeza?
      - Sabe quando  que eu descubro se um homem serve para mim? Ele sempre tem sapatos medonhos, daqueles que deixam a gente morrendo de vergonha. Mesmo que ele 
seja perfeito no resto, os seus sapatos sero horrorosos.  assim que eu descubro que ele  o homem certo.
      - Quem me dera que para mim fosse assim to fcil. - O pior  que parecia que toda aquela coisa ia aumentando de intensidade, percebeu Jojo. Era como se ela 
e Mark j no pudessem evitar o transbordamento. Mark havia contado tudo a Jim Sweetman. E veja s o que acabara de acontecer ali. Embora ela gostasse muito de Magda, 
Jojo no a conhecia assim to bem e elas nem tinham muita intimidade. Mesmo assim, abrira o seu corao para ela.
      
      No dia seguinte, na casa de Becky e Andy
      Andy abriu a porta de casa e olhou para Jojo por um longo tempo.
      - Jojo, voc j levantou? Deve ter a constituio de um elefante. Ns estamos caindo pelas tabelas.
      - Eu sa da festa enquanto ainda conseguia andar. - Ela entrou, acompanhando-o. - Onde est Becky?
      - Vomitando, eu acho.
      - Nossa, no quero saber dos detalhes! Muito bem, voc! - apontou para Andy. - Voc  homem.
      - Hoje no. Um dia talvez tenha sido, mas hoje estou arruinado. Aquelas irms Wyatt, hein...?
      - O aniversrio de Mark  na semana que vem. O que eu deveria comprar para ele? Do que os homens gostam?
      - Posies sexuais diferentes com uma mulher perigosa?
      - Isso ele sempre tem. Outra coisa, por favor.
      - Abotoaduras?
      - Nyet.
      - Algemas?
      - Nyet.
      - Uma carteira?
      - Nyet.
      - Roupas.
      - Nyet. Cassie vai notar qualquer uma das coisas que voc sugeriu e no pode ser to burra.
      - Sei no... - refletiu Andy. - Ela no come sanduches de queijo mesmo sabendo que eles lhe provocam enxaquecas? Que tal um tabuleiro de gamo?
      - Nyet.
      - Um livro?
      Andy estava tentando fazer graa, mas Jojo pulou de alegria.
      - Agora voc me deu uma boa idia! A primeira edio de um livro famoso. Ele adora Steinbeck. Que tal uma primeira edio de As Vinhas da Ira?
      Becky chegara na sala, quase rastejando, com o rosto cinza e muito abatida. Com todo o cuidado, foi se arrastando at o sof e se deitou nele, de barriga para 
cima.
      - Acabei de vomitar.
      - E o que quer agora? - perguntou Jojo. - Uma medalha?
      - Estou s comentando! Quanto ao livro, se voc der a ele uma primeira edio, no vai poder escrever uma dedicatria bonita, porque a mulher dele vai acabar 
lendo.
      - Voc estava ouvindo tudo! - Andy ficou surpreso.
      - Consigo vomitar e ouvir ao mesmo tempo.
      - Jojo quer a minha opinio. Na condio de homem. E ela pode fazer uma dedicatria, sim, se ele mantiver o livro em seu escritrio na agncia.
      - Crianas, parem de brigar. Eu nunca escreveria nada em uma primeira edio. Ponto final.
      Becky cutucou Andy com o p.
      - V l dentro pegar alguma coisa para dor.
      - Pea por favor.
      - Por favor. Olhe o meu estado, Jojo. Coloquei meu pijama para dormir s trs da manh, com a cabea latejando e o estmago ardendo, sem falar no mal-estar. 
Aquelas garotas Wyatt sabem
      mesmo dar uma festa!
      - Foi simplesmente o mximo. Marina no estava uma gracinha com aquele terninho Chanel?
      - E Mazie, com o vestido branco?
      - E Magnolia, com a sua roupa de Pussy Calare?
      - Mas, Magda... - as duas arrulharam de admirao por Magda, e ento, l da cozinha, Andy soltou gemidos lascivos. Jojo exclamou, em sua defesa: - No sexualmente 
falando.
      Andy voltou com um punhado de analgsicos.
      - Pelo que eu me lembro, havia cinco Gandalfs.
      - Acho que pelo menos um deles era Dumbledore - afirmou Becky. - Mas havia homens aos montes. Foi uma tima festa para arrumar companhia, especialmente para 
quem  solteiro. - Ela olhou para Jojo. - E ento? Sei que voc no est solteira, mas os homens da festa no sabiam. Como foi? Teve sorte com algum?
      - No posso reclamar. Dancei coladinha a um Gandalf, fiz a minha exibio de Os Embalas de Sbado  Noite acompanhada de uma Madre Superiora e um aromatizador 
de ambientes me convidou para sair.
      - Aromatizador de ambientes? De que tipo?
      - Daqueles em forma de pinheiro, para pendurar no espelho retrovisor.
      - U!... Pensei que aquilo fosse uma rvore de Natal. Ele era bonito?
      - No deu para ver sua cara. Tinha um nariz gigantesco na frente.
      - E eu vi voc danando com um Rei Canuto - disse Andy.
      Jojo balanou a cabea para os lados.
      - Danou sim. Eu vi! Mesmo bbado, eu me lembro de achar que vocs dois estavam se agarrando no meio do salo.
      - No, eu fiquei presa na malha metlica da roupa dele. No estvamos danando, eu queria era me soltar dos fios de arame.
      
     
18
      
      Segunda-feira de manh, abrindo a correspondncia
      Uma das cartas estava marcada como pessoal e Jojo achava que conhecia a caligrafia. Rasgou o envelope e puxou a carta.
      - Ah, no!
      
      Querida Jojo,
      No existe uma forma fcil de lhe contar isso, mas eu resolvi no voltar a trabalhar. Sei que prometi a voc que voltaria. Pretendia voltar mesmo, na poca, 
mas no estava preparada para o que eu sinto por Stella, e no agento pensar em deix-la todos os dias com uma bab. Quando acontecer com voc, sei que vai entender
      o que estou sentindo.
      Sei que voc estar em boas mos com Manoj e espero que continuemos amigas.
      
      Montes de beijos,
      
      Louisa e Stella
      
      Jojo adorava Louisa. Ela era seu brao direito, uma garota esperta que sempre chegava junto. Pelo menos era, at que perdeu os neurnios durante o trabalho 
de parto. Aquilo no era nada bom. Na mesma hora, ela foi falar com Mark:
      - Louisa resolveu parar de trabalhar.
      - Aaaahhhhh.
      - Voc j sabia?
      - Imaginei que ela fosse parar. Isso acontece.
      - Mas ela jurou de ps juntos que voltaria.
      - Certamente ela pensava em voltar, na poca.
      - Pensava mesmo - confirmou Jojo.
      - Quer que coloquemos um anncio para contratar algum ou voc vai ficar com Manoj?
      - Manoj est indo bem. Tudo bem, devo reconhecer que ele  timo - admitiu Jojo, com relutncia. -  que Louisa era minha amiga. Ela sabia a seu respeito. 
Agora no tenho com quem conversar.
      Pelo menos posso desabafar com Jim Sweetman, quando precisar.
      Mark no disse nada. Permaneceu calado por mais algum tempo, at que Jojo teve de quebrar o gelo:
      - Ei, seu aniversrio  na sexta-feira. - Ela se sentiu mais leve. - Vamos nos encontrar s oito da noite, na minha cama, para um presente muito especial.
      Um longo silncio se seguiu e ele disse, por fim:
      - No posso. - Pareceu agoniado. - Cassie marcou uma comemorao especial.
      - Oh. Qual?
      - Uma noite em um hotel em estilo rstico. Weymouth Manor ou algo assim. Sinto muito.
      Jojo tentou se recompor.
      - Tudo bem, Mark. Afinal, ela  a sua mulher.
      - Pode ser no domingo?
      - Claro.
      Em seguida, ela voltou  sua sala e avisou a Manoj que a sua funo ali passaria a ser permanente. Ele ficou to feliz que quase chorou.
      - Voc no vai se arrepender disso - assegurou ele, trmulo de emoo.
      - J estou me arrependendo. Controle-se! Algum recado?
      - Gemma Hogan ligou. Perguntou se voc j conseguiu vender o livro dela.
      Jojo girou os olhos para cima. Gemma Hogan era uma irlandesa que enviara um monte de e-mails para uma amiga contando em detalhes a histria do seu pai idoso 
que abandonara a me. Quando aquelas pginas amontoadas despencaram sobre a mesa de Jojo, elas nem mesmo estavam em forma de livro, mas o material foi interessante 
e divertido o bastante para atrair sua ateno.
      Ento elas se conheceram - e aquele foi um dos encontros mais estranhos que Jojo tivera em sua vida: todo escritor que aparecia chegava absolutamente louco 
para ver seu livro publicado. Mas aquela tal de Gemma era diferente e, quando Jojo percebeu que estava se oferecendo para representar uma mulher que nem mesmo havia 
escrito um livro e nem queria ser publicada, acabou com o papo na mesma hora. Achou que nunca mais ouviria falar dela, mas algumas semanas depois Gemma ligou dizendo 
que estava em pleno processo de criao do livro - e menos de um ms depois o produto final chegou.
      Ele pertencia  categoria de livros que Jojo batizara de "... E da?" - nada to especial a ponto de ser vendido atravs de um leilo badalado; em vez disso, 
Jojo teria de bater de porta em porta e pass-lo adiante  editora seguinte, aps cada recusa.
      Izzy, a protagonista do romance, vivia uma histria de amor certinha demais com uma fraca reviravolta no final. Desde a pgina 1, dava a entender que ela acabaria 
com o sisudo Emmet e seu queixo quadrado, um heri muito convencional; em vez disso, porm, ela se
      apaixonou pelo farmacutico sossegado e sexy que vendia os tranqilizantes que sua me tomava. A histria da me era a mais difcil de digerir. Sessenta e 
dois anos, tola e dependente a ponto de nunca ter aprendido a dirigir. Mesmo assim, ela j gerenciava o prprio negcio, com sucesso, na pgina 79 (importao de 
cosmticos da Sua para a Irlanda, em sociedade com o namorado garoto tambm suo).
      Nonsense total. Na vida real, para cada esposa abandonada que virara Empresria do Ano, havia milhares de outras que nunca recobravam o equilbrio, o que era 
compreensvel. Qual delas Cassie iria ser?, perguntou-se Jojo. Se Mark e ela um dia se separassem, ela torcia sinceramente para Cassie ser a verso Empresria do 
Ano.
      Apesar das falhas, porm, o livro era divertido e provavelmente venderia bem.  claro que os crticos nem iriam reconhecer que ele existia; livros daquele 
tipo - "bobagens de mulher" - voavam pelo mercado abaixo do radar. De vez em quando, para servir de exemplo aos outros, eles tiravam um desses da gaveta e faziam 
sua "resenha" (embora, na verdade, o texto tivesse sido escrito antes de o crtico ler o livro), e destilavam deboche com a terrvel superioridade de membros da 
Ku Klux Klan que gargalham diante de rapazes negros amarrados a um tronco.
      Seria muito diferente, claro, se o mesmo livro fosse escrito por um homem... Nesse caso, haveria elogios  sua "corajosa ternura" e  "destemida explorao 
e exposio de emoes". E as mulheres que normalmente riem de "fico feminina" o leriam com orgulho em lugares pblicos.
      Alis, aquela era uma boa idia... Ser que ela conseguiria convencer Gemma a fingir que era homem? No se vestir como um, mas apenas lanar o livro sob o 
pseudnimo de Gerry Hogan, por exemplo. Mas no havia jeito. Como acontecia com muitos autores, Gemma provavelmente estava a fim de agito, de ver sua foto na Hello! 
e seu nome nos jornais.
      Quando Jojo ligou para Gemma comunicando que iria represent-la, Gemma riu baixinho.
      - Estou dando cambalhotas de alegria, mas bem quietinha, porque estou no trabalho - disse ela, como se pedisse desculpas. - Quer dizer que voc gostou do livro?
      - ADOREI! - Bem, na verdade, ela tinha apenas gostado. - Ah, mais um detalhe... Voc j tem ttulo para ele?
      - Claro. Eu no coloquei no original? O nome vai ser Os Pecados do Pai.
      - Ah, no, nada disso.
      - Desculpe, eu no entendi...
      - Desculpas peo eu! Mude o nome depressa, de preferncia para ontem.
      - Mas tem a ver com a histria.
      - O livro  fico romntica leve! Precisa de um ttulo leve e romntico. Pecados do Pai  nome de dramalho barato: a histria terrvel de uma menina que 
acaba de entrar na adolescncia e  espancada e chicoteada por um meio-irmo que vive querendo estupr-la. E manca de uma perna.
      - Quem manca? A menina ou o irmo?
      - O irmo. Mas tambm poderia ser a menina. Na verdade, provavelmente os dois. Que tal Zoao e Reao?
      - Mas isso no significa nada.
      - Gemma, preste ateno ao que eu vou lhe dizer. Eu-no-consigo- vender-um-livro-com-esse-ttulo. Arrume-um-nome-novo.
      Depois de uma longa pausa, Gemma perguntou, meio contrariada:
      - Papai Fujo?
      - Nada disso.
      - No consigo pensar em outro ttulo.
      - Tudo bem. Vamos usar esse, ento. Temporariamente. Precisamos de um ttulo, mas vou comear a oferecer o livro agora mesmo.
      - No precisa mand-lo para um monte de editoras. Gostaria de lan-lo pela editora de Lily Wright, a Dalkin Emery. Pode ser?
      Ora... Para uma novata, Gemma sabia muito a respeito de editoras. Mas Jojo refletiu sobre a idia... At que no era m. A Dalkin Emery era boa para fico 
feminina: alm de Lily Wright, eles haviam transformado Miranda England em um grande sucesso.
      - Tudo bem, Gemma. Podemos tentar a Dalkin Emery, mas antes vou mand-lo para um editor diferente. No  uma boa idia duas amigas trabalharem para a mesma 
editora. Talvez lhe parea difcil de acreditar, mas isso pode dar incio a uma tremenda rivalidade. - Se  que isso j no acontecia, como Jojo comeava a suspeitar.
      - A amizade de vocs duas vai acabar sendo prejudicada.
      - Ns no somos amigas, na verdade. Apenas... nos conhecemos.
      Mesmo assim, Jojo no aceitou (o cliente nem sempre tem razo) e mandou o livro para Aoife Byrne.
      Mas Aoife Byrne ligou de volta explicando:
      - Jojo, esse tal de Papai Fujo tem mais a ver com Tania Teal. Eu j o enviei para ela.
      O mais estranho  que, assim que Jojo desligou, Gemma ligou novamente para saber como iam as coisas, e, quando ouviu que a editora de Lily estava avaliando 
o seu livro, exclamou:
      - Eu sabia! Era meu destino cair nessa editora.
      Embora Jojo no acreditasse naquela histria de "destino", ficou muito impressionada.
      Mas s por cinco minutos. Tania dispensou o livro. Disse que era uma histria leve, que a fez lembrar os primeiros trabalhos de Miranda England, mas no achou 
nada de especial.
      Droga, pensou Jojo. A grana que ela ganhava com esses livros "... E da?" s servia para comprar esmalte de unhas, eles davam mais trabalho do que lucro.
      Quem agora? Patricia Evans, da Pelham. S que Patricia nunca a perdoara por no aceitar a oferta pr-leilo para O Amor e o Vu.
      Para confirmar essa impresso, dois dias depois de mandar Papai Fujo para Patricia pelo motoboy, uma carta-padro de rejeio pousou na mesa de Jojo. Ela 
era capaz de apostar que Patricia nem sequer lera o livro. Ele agora estava com Claire Colton, da Southern Cross.
      Mesmo sem ter novidades, Jojo ligou para Gemma. Ela seguia a poltica de sempre retornar as ligaes de seus autores, no importa o quo pouco lucrativos eles 
fossem, e era sempre direta com eles.
      - Nada de venda at agora, Gemma. Recebemos mais duas recusas. Mesmo assim, no se preocupe, pois h um monte de editoras por a.
      - Ser que no poderamos tentar novamente a editora de Lily?
      - No, isso  totalmente impossvel.
      - Tudo bem. J pensei em um novo ttulo.
      - Diga.
      - Traio.
      - No,  "Danielle Steel" demais. Para ser franca... Bem, talvez no caiba a mim lhe dizer isso, mas eu acho que voc precisa levar a vida em frente. Todos 
os ttulos que voc escolheu so meio... Como direi... Amargos.
      -  porque eu sou amarga. - Ela parecia orgulhosa disso.
      - Ah. Tudo bem, ento. Por favor, me avise quando escolher um novo ttulo.
      
     
19
      
      Quinta-feira de manh
      Brent e Tyler, os dois agentes de direitos cinematogrficos da CAA, chegaram e iluminaram a recepo com o brilho de dez sis. Brent era louro e Tyler exibia 
uma cabeleira escura; ambos tinham a pele clara, mas estavam bronzeados e transbordavam charme por todos os poros, em estilo Costa Oeste americana. Ambos usavam 
calas de
      algodo sadas da loja, camisas plo e, embora estivessem com jet lag, seus olhos cintilavam. Alm disso, ambos tinham a pele perfeita demais.
      Jim Sweetman apresentou Jojo como a mulher que "descobrira" O Amor e o Vu.
      - Temos muito a lhe agradecer - arrulhou Brent, com ar empolgado.
      - Sim, no estaramos aqui se no fosse voc.
      - Mal posso esperar para ler seus outros autores. J ouvimos coisas surpreendeeentchisss a respeito deleishh.
      - Sim, supreendeeentchisss.
      - Surpreendeeentchiss meishmo!
      Jojo teve de rir do sotaque deles.
      - Volto j, rapazes.
      A caminho de volta para sua sala, esbarrou em Mark. - D s uma olhada nos bonecos Ken da CAA - ela cochichou, com o canto da boca. - Fazem o resto de ns 
parecer o elenco do filme A Noite dos Mortos Vivos.
      Mark ps os olhos em cima deles.
      - Caramba! Eles so a nica coisa colorida em um mundo preto-e- branco.
      - Como a estrada de tijolos amarelos em O Mgico de Oz.
      - Ou a menina de roupa vermelha em A Lista de Schindler. Vou l trocar uma palavrinha com eles.
      - Cuidado. Eles so to envolventes quanto um cobertor barato.
      
      - Parecem mais com brotoeja - comentou Mark com ela, baixinho, quando os dois tornaram a se encontrar dez minutos depois em uma grande sala de reunies.
      Jojo observou todos os agentes que entravam. Primeiro veio Dan Swann, que, pelo visto, j nem tirava mais o seu chapu de feltro verde da cabea. Est doido 
para ser promovido a excntrico emplumado de planto, decidiu ela. Dan se sentou ao seu lado e olhou, hipnotizado, para a dupla de super-heris bronzeados.
      - Eles parecem seres humanos - disse, em voz baixa - , s que so mais cintilantes.
      Em seguida, entrou Jocelyn Forsyth, em um terno risca-de-giz e se mostrando muito British ao chamar Brent de "carssimo" e Tyler de "prezado".
      Logo depois entraram Lobelia French e Aurora Hall, e as duas, como sempre, olharam diretamente para Jojo, sendo seguidas pela honorvel Tarquin Wentworth, 
que tambm lhe lanou um olhar de dio declarado. Nem um pouco agradvel, mas, por outro lado, qual a sua culpa se Jojo trabalhava com mais vontade e gerava mais 
dinheiro para a empresa do que aquelas trs juntas?
      Mas havia algum que todas desprezavam ainda mais do que ela e ele acabara de chegar: Richie Gant, que conseguia ficar mais repulsivo a cada dia. Por um segundo, 
todas as quatro mulheres se uniram em seu desdm por ele.
      Olga Fisher se sentou do outro lado de Jojo e olhou para Brent e Tyler, comentando:
      - Que pele maravilhosa a deles, no acha?
      - O que ser que eles usam? - especulou Jojo.
      - La Mer. Eu perguntei. Ah, tenho um DVD sobre javalis para lhe emprestar. No so as criaturas mais bonitas do planeta, mas o documentrio  interessante. 
Vou deixar com aquele rapaz, o seu auxiliar.
      - Manoj. Est com um contrato permanente agora. Louisa no vai voltar a trabalhar.
      - Se eu fosse me de um anjinho como aquele, acho que eu tambm no gostaria de voltar.
      -  mesmo? - Mas todos na empresa chamavam Olga de "osso duro de roer", pensou Jojo consigo mesma.
      - No, acho que no voltaria. Escritores so to exigentes quanto filhos, mas muito menos gratificantes. E quanto a voc, Jojo? Voltaria a trabalhar depois 
de ter um filho?
      -  claro!
      - Sei! Voc diz isso agora...
      - Mas  claro que eu...
      Mark estava dando incio aos trabalhos e Jojo teve de calar a boca.
      A reunio acabou mais ou menos ao meio-dia e chegou o momento da verdade: Jojo ia almoar no Caprice com Jim e os rapazes da CAA, mas temia que Jim convidasse 
Richie Gant no ltimo minuto. Mas ele no fez isso e ela estava sendo sincera ao comentar
      com Jim, no txi de volta para a agncia:
      - Adorei conversar com eles.
      Brent e Tyler eram to entusiasmados que faziam parecer que todos os direitos para o cinema dos autores que Jojo representava j estavam vendidos para Hollywood 
e em pr-produo. Eles at mesmo a encorajaram a deixar a imaginao correr solta e lhes dizer
      que atores achava que deviam representar cada um dos personagens de seus autores, e de quais os diretores ela gostaria mais.
      - Sei que estavam exagerando um pouco - suspirou ela para Jim, com ar alegre - , mas eu realmente cheguei a ver meus livros subindo no pdio. - Jojo tomara 
trs taas de champanhe e um verso lhe veio  cabea: "Topo do TOPO!", da cano New York,New York.
      - Ento...? - perguntou Manoj. - Voltando s dez para as quatro? Espero que tenha sido bom.
      - Todos se enturmaram. Foi muito, muito bom. Eles encheram tanto a minha bola que foi to bom quanto sexo. Puxa, acho que foi melhor!
      - Voc vai sair para gastar dinheiro?
      - Pode apostar. Compras tarde da noite e tudo o mais. Que tal isso?
      
      Sexta-feira, logo cedo
      Havia um e-mail de Claire Colton, da Southern Cross, agradecendo e recusando o livro de Gemma Hogan. Ela disse exatamente o que Tania Teal j dissera e o que 
Jojo tambm pensava - era uma leitura divertida, mas nada de especial.
      Tudo bem, pensou Jojo, absorvendo o golpe. Quem vem agora? B&B Calder. O problema  que a sua lista de opes j estava acabando; as editoras pequenas haviam 
sido compradas pelas maiores e agora s havia seis grandes editoras em Londres. Vrios selos existiam sob o guarda-chuva de cada uma delas, mas, se um editor rejeitasse 
o original, no dava para ficar reencaminhando a obra para outro editor do mesmo grupo. Com cada um deles, s dava para ter uma chance, ento era preciso escolher 
o editor com muito cuidado. Quem, na B&B Calder, ela poderia abordar? No Franz "Editor do Ano" Wilder, certamente! Ela j conseguia ouvir sua risada de malvolo 
deboche ao ler as primeiras pginas de Papai Fujo.
      Alguma agente iniciante na profisso e cheia de gs serviria para esse livro. Ento ela lembrou: Harriet J. Evans; jovem e entusiasmada, ela comeava a marcar 
sua carreira graas a alguns lanamentos com personalidade. Por que ela no havia pensado em Harriet antes? Jojo pegou o telefone.
      - Mande um e-mail para mim - pediu Harriet.
      Em seguida, Jojo mostrou a Manoj uma fabulosa agenda que ela comprara na vspera. Estava demonstrando o funcionamento de uma seo secreta onde alguns cigarros 
podiam ser escondidos quando Richie Gant veio chegando na direo da mesa de Manoj. Jojo o
      sentiu antes mesmo de v-lo - uma vaga sensao de repulsa veio lhe subindo pela espinha. E l estava ele, com os cabelos empastados com gel em demasia, o 
terno barato e o pescoo sardento.
      Ele fez uma pausa, lanou um olhar de escrnio por cima dela e ento, para sua surpresa, riu na sua cara.
      - Rindo de piadas que s voc consegue ouvir? - Ento acrescentou, com ar gentil: Pobrezinho... Pirou!
      Mas ele tornou a rir alto e o sopro de sua expirao atingiu-a em cheio. Ela o viu seguindo bem devagar pelo corredor, continuando a rir sozinho.
      - Algo est rolando - disse ela para Manoj, que assumiu um ar assustado. - V descobrir!
      Depois de fazer hora durante quinze minutos ao lado da copiadora, Manoj voltou com o relato:
      - Ontem  noite eles todos saram.
      - Quem?
      - Brent, Tyler, Jim e Richie.
      - E por que no me convidaram?
      - Porque foram a uma boate de striptease.
      - Mesmo assim, por que no me chamaram?
      - Para no deixar ningum sem graa.
      - Mas eu no ficaria sem graa!
      - Mas eles talvez ficassem. D...!
      Uma boate de striptease! Richie Gant, o pequeno sacana. Ele fizera aquilo novamente: almoo no Caprice no era nada comparado a uma noite bebendo e se enturmando 
em companhia de mulheres nuas. Ela se sentiu ferver por dentro por ter sido tratada de forma condescendente. Brent e Tyler a levaram para almoar e j tinham um 
momento de diverso - diverso de verdade - agendado para mais tarde. O tempo todo eles estavam apenas tentando deix-la alegrinha.
      Jojo no era ingnua, sabia muito bem que essas coisas aconteciam, mas pensou que no ramo editorial houvesse um pouco mais de classe. Lembrou-se de como se 
sentira feliz no txi, ao voltar para a agncia, e se encolheu toda. Jim Sweetman devia ter lhe contado que
      eles iam sair com Richie Gant mais tarde, mas Jim era o tipo de cara covarde que acredita que o mensageiro sempre leva o primeiro tiro. Ele s dava boas notcias.
      Homens, pensou, contrariada. Babacas inteis com um crebro e um pnis, mas sem sangue suficiente para irrigar os dois ao mesmo tempo.
      Ento o seu dio se transferiu para as mulheres que tiravam as roupas e davam chance aos homens de confraternizar com clientes e roubar o trabalho de outras 
mulheres. Como os homens poderiam respeitar o sexo oposto, profissionalmente, quando podiam pagar a
      vagabundas para tirarem a roupa diante deles? Como evitar aquela imagem de que todas as mulheres eram brinquedos?
      Ela nunca sentira, em termos profissionais, que no teria acesso irrestrito a algum lugar. Pois se enganara. Ela era uma grande agente literria, mas jamais 
estreitaria laos com ningum daquele jeito, pagando strippers para clientes idiotas. Homens, no entanto, podiam fazer isso, o que lhes dava uma vantagem. A injustia 
daquilo foi como uma bofetada em seu rosto. Os homens e seus bilaus governavam o mundo. Por um momento, ela sentiu todo o peso daquele desequilbrio. Estava furiosa 
e tambm deprimida, o que era incomum.
      De qualquer forma, ela se sentiria melanclica: era aniversrio de Mark e queria estar em sua companhia. Em vez disso, a qualquer hora da tarde, Cassie iria 
aparecer na firma e arrast-lo para passar uma noite em um hotel com paredes em tons pastis, camas com quatro colunas, jantares de sete pratos e uma piscina romanesca 
(ela pesquisara na internet).
      
     
20
      
      Sexta-feira  tarde
      O dia s foi piorando. Logo depois do almoo, Harriet J. Evans ligou.
      - E ento...?
      - No quero. Desculpe, Jojo.
      - Mas voc nem teve tempo de ler o livro!
      - Li o bastante. Na verdade, eu gostei do texto, ele me fez rir, mas tem muitos outros como ele por a. Desculpe, Jojo - repetiu ela.
      Prximo!
      Paul Whitington, da Thor. Apesar de ser homem, ele era bom para fico comercial. Ao contrrio de um monte de homens editores, ele no achava que bom senso 
de humor fosse motivo para vergonha.
      Jojo ligou para ele, levantou a bola de Papai Fujo como se ele fosse o livro do ano, e Paul prometeu l-lo no fim de semana.
      - Manoj! Mande pelo motoboy!
      
      Eamonn Farrell, autor famoso e bbado profissional, estava agendado para v-la s trs e meia. Apareceu s cinco para as quatro, fedendo a cigarro, hambrguer, 
Paco Rabanne e um toque de urina. Isso tudo  porque ele era um gnio. Como era um dos autores cinco
      estrelas de loja, perdendo s para Nathan Frey, ela foi obrigada a beij-lo. No  freqente, mas tem horas que eu odeio o meu trabalho, pensou ela, com tristeza.
      Ele se sentou diante da mesa usando roupas que pareciam ter sido amarradas ao pra-choque de um carro e arrastadas por toda a cidade durante duas horas (outro 
sinal do gnio que ele era) e reclamou por exatos quarenta e cinco minutos de todos os outros escritores do sexo masculino no planeta. Ento, de repente, levantou-se 
e anunciou:
      - Tudo bem. Vou sair e tomar um porre.
      - Eu o acompanho at o elevador.
      No corredor, eles passaram pela porta de Jim, que gritou:
      - Jojo, voc vai demorar muito?
      Curtiu a noite passada, Jim, pagando quelas mulheres para tirarem a roupa? Ela se obrigou a engolir a raiva.
      - No. Volto j, j.
      - Passe aqui.
      - Quem  esse cara? - perguntou Eamonn. -  o tal de Jim Sweetman, o sujeito dos direitos para o cinema? O agente que vendeu aquele monte de merda do Nathan 
Frey para Hollywood? O que ele vai fazer comigo?
      - Com relao ao seu monte de merda? Estamos batalhando.
      
      - O qu...
      - Pronto, chegou o elevador! - Ela empurrou Eamonn e o seu fedor junto. - Cuide-se, querido. J estou com saudades!
      As portas se fecharam, levando Eamonn Farrell, atnito. Ai, que alvio! A educao esmerada de Jojo para lidar com autores ficara em casa naquele dia. Com 
o corao mais leve, ela se virou para voltar, e ento, na outra ponta do corredor, viu Mark acompanhado de uma loura. Uma escritora? Uma editora? Todos os seus 
nervos entraram em posio de alerta quando Jojo percebeu que era Cassie.
      A qual, por sinal, no era nem um pouco do jeito que ela lembrava.
      Estava mais alta e mais magra, usava jeans, uma blusa branca e... O QU? MEU BOM DEUS! No podia ser. Mas ela olhou de novo. E era! O seu crebro pareceu se 
encolher diante da impossibilidade daquilo. Cassie est usando a minha jaqueta. Ela tem mais de quarenta anos, que diabos est fazendo com uma jaqueta de couro da 
Whistle? Um produto estiloso que ia cair de moda dali a trs meses? Algo que at eu hesitei em comprar, e tenho apenas trinta e trs anos.
      Mark a viu, seu rosto se acendeu com o susto e eles trocaram um olhar que atravessou como um relmpago toda a extenso do corredor. Jojo poderia dar meia-volta 
e chamar o elevador, mas ia parecer estranho; ela se viu obrigada a caminhar na direo deles. O corredor era como uma passarela e no havia escapatria, nenhuma 
porta lateral por onde escapar e os seis ou sete metros levariam uma eternidade para ser atravessados. Cassie vinha andando mais depressa que Mark, sua voz era mais 
alta e ela parecia estar reclamando de alguma coisa com ele.
      - Deixe de ser bobo! - ela dizia, e ento sorriu.
      Quando os alcanou, Jojo abaixou a cabea, murmurou um "Ol", e passou batida, mas ento ouviu Cassie dizer:
      - Ooooi!
      Merrrda.
      - Oi.
      Tanto Mark quanto Jojo tentaram seguir em frente, cada um para um lado, mas Cassie parou e Mark teve de apresent-las, o que ele fez com o entusiasmo que um 
homem demonstraria ao se encaminhar para a cadeira eltrica.
      - Esta  Jojo Harvey, uma das nossas agentes.
      - Jojo Harvey? - Cassie cumprimentou Jojo colocando a mo dela entre as suas. Olhou-a fixamente e disse: - Minha nossa, voc  linda! - Os olhos de Cassie 
eram azuis muito claros, do tipo escandinavo, e apesar da pintura, ela era muito atraente. - Sou Cassie, a esposa sofrida de Mark.
      Merrrda.
      Mas Cassie piscou e Jojo percebeu que ela estava brincando.
      - Andei pensando em lhe mandar um e-mail, Jojo.
      Merrrda.
      - Andou?...
      - Voc representa tantos escritores bons. Deve ser muito inteligente.
      Como  que ela sabe quais autores eu represento?
      - Adorei As Poes de Mimi - exclamou ela. - Histria brilhante, uma pequena jia. - Era exatamente o que Jojo achava.
      Merrrda.
      - Espero que voc no se incomode, mas eu pedi a Mark para roubar um exemplar do mais novo livro de Miranda England da sua sala. Ela  tima, no? Escapismo 
puro. - Exatamente o que Jojo achava. Merrrda.
      - Voc l muito? - Jojo se sentia um rob falando, mas, puxa vida, estava em estado de choque. Esperava saias de cambraia folgadas no traseiro e com elstico 
na cintura, ps chatos em sapatos baixos largos em uma mulher mortalmente entediante que curtia ch e jardinagem.
      - Eu adoro livros - Cassie mostrou-se esplendorosa em sua alegria - e acho que a nica coisa melhor que um livro  um livro grtis. - Era exatamente o que 
Jojo achava. Merrrda.
      - Que... Bom... Para... Voc - comentou Jojo, em seu tom montono de rob mutante - ...Conhecer... Algum... No ramo... Editorial.
      Cassie sorriu afetuosamente para Mark.
      - Sim, ele serve para algumas coisas. - Deu uma risadinha. Uma risadinha! Como se estivesse lembrando os outros usos de Mark. Em seguida, puxou-o pela gravata. 
- Venha comigo, aniversariante.
      Enquanto era levado pelo corredor, Mark lanou um olhar de splica para Jojo; seu rosto tinha a cor de cimento recm-preparado.
      - Prazer em conhec-la, Jojo - despediu-se Cassie, acenando com o exemplar de Miranda England. - E obrigada pelo livro.
      Jojo os viu entrar no elevador e sentiu uma vontade desesperada de gritar: "Mark, por favor, no durma com ela!"
      Por falar nisso, quando teria sido a ltima vez que Mark dormira com Cassie? Aquilo era uma coisa com a qual Jojo nunca se importara. O cime da esposa de 
Mark nunca aparecera em cena. Jojo se ressentia pelo tempo que a famlia de Mark roubava dele, mas aquela
      era a primeira vez em que ela pensara em Cassie como uma rival. At ento, ela sentia unicamente pena. Pena e culpa.
      Ele conversa com ela. Ele conta a ela sobre o seu trabalho. Ela gosta de ler,  inteligente. Tem muito bom gosto para escolher jaquetas. E homens. Merrda. 
Vou l fora, preciso de um cigarro.
      Ela pegou o mao de cigarros, o isqueiro e j estava a caminho do elevador quando, ao passar pela porta entreaberta de Jim Sweetman, ele a chamou:
      - Jojo, venha aqui um instantinho!
      Ela abriu a porta com o p, fazendo-a bater em um armrio, e se encostou no portal.
      - Aquele Eamonn Farrell fede a caminho de lixo! - Ento, Jim notou seu jeito estranho.
      - ......Voc conheceu Cassie?
      - Ela estava usando a minha jaqueta. Vou  rua fumar um pouco. Volto para conversar depois.
      O elevador fedia a Eamonn. Na calada, ela deu a primeira tragada no cigarro, muito bem-vinda por sinal, e se encostou  parede externa do prdio quando, com 
um susto, viu Mark e Cassie dentro de um carro junto  calada do outro lado da rua. Eles ainda no tinham ido embora. Instintivamente, ela deu um passo atrs, escondendo-se 
no recesso da entrada do edifcio, para o caso de eles a verem. Mark ia no banco do carona e Cassie estava atrs do volante. Tinha um cigarro apertado entre os lbios 
e dava r em uma vaga apertada, com os olhos estreitados pela fumaa. Ela fuma! O jeito dela tem muito a ver comigo!
      De repente, ela saiu da vaga com determinao, entrou em meio ao fluxo de carros e quase bateu em um veculo que passava. O motorista, um senhor idoso, buzinou 
com raiva, mas Cassie tirou o cigarro da boca e lanou-lhe um beijo; Jojo viu que ela quase gargalhou e saiu pela rua a toda velocidade.
      Puta merda!
      Jojo esmagou o cigarro sob o sapato, acendeu outro, depois fumou mais um, e s ento subiu para ver Jim.
      - Seja l o que voc quer conversar comigo, podemos faz-lo enquanto tomamos uns drinques, Jim?
      - Quando? Agora?!
      - J passa das cinco. Vamos nessa.
      - Aonde voc quer ir? Que tal The Coach and Horses?
      - Tudo bem. Qualquer lugar que venda bebidas fortes.
      
     
21
      
      A idia de Jim no era to difcil de acompanhar, mas, depois do terceiro vodca-martni, Jojo sentiu dificuldades para seguir o raciocnio dele.
      - ... Estava doido para pegar esse ttulo, mas, em vez de seguir o figurino normal, batendo de porta em porta nos estdios, Brent acha que um diretor "famoso" 
ou uma atriz de primeira linha nos deixaria com o contrato praticamente no papo.
      - Qual ttulo? As Poes de Mimi?
      - No. O primeiro livro de Miranda.
      - Ah, sim... Claro. - Ela riu, meio sem graa.
      - Jojo, querida, acho que voc no est prestando ateno a nada do que estou dizendo.
      - No estou mesmo, desculpe. - Jojo suspirou e entornou em um gole s o seu copo quase vazio. - Hora de pegar mais um.
      - Deixe que eu pego.
      Quando ele voltou, Jojo comentou, cheia de jovialidade:
      - E a, Jim? Voc conhece Cassie. Fale-me dela. E NO MINTA!
      - Acha que eu faria isso?
      - Provavelmente. Como deseja que todo mundo o ame, voc s fala o que as pessoas querem ouvir.
      Na mesma hora, o sorriso abandonou os olhos de Jim e sua boca se tornou uma linha rgida.
      - Opa - Jojo riu, fingindo-se de confusa. - Acho que ele no gostou.
      Jim nem olhou para ela. Encolheu-se e comeou a tamborilar sobre a mesa.
      - Voc gostaria de no ter parado de fumar, Jim? - Ela vasculhou a bolsa em busca dos cigarros e atirou o mao na direo dele.
      - Eu consigo tentar voc?
      Ele se virou rapidamente e a olhou direto no rosto, garantindo:
      - No, Jojo, a mim voc no consegue tentar.
      Ela o fitou com olhar duro. Que merda ele estava insinuando?
      - Ei! - Ela se sentiu lanada de volta a um desagradvel estado de sobriedade. - Qual  a sua?
      Ele no respondeu e baixou os olhos. Jojo esperou se acalmar um pouco antes de falar:
      - Jim, eu sinto muito. Estou meio alta e um pouco magoada. Agora, era a vez de ele pedir desculpas.
      - Ei, Jim, eu lhe dei uma oportunidade.
      - Para qu?
      - Pedir desculpas.
      - Pelo qu?
      - Que tal voc mesmo me dizer? Quem sabe por insinuar que estou tentando chegar a scia da firma dormindo com o chefe?
      - Ora, mas  isso que voc anda fazendo? Engraado, e eu aqui pensando que voc era boa o bastante em seu trabalho para no precisar recorrer a truques.
      timo! Ela s estava piorando as coisas.
      - Ento, Jim... Que tal pedir desculpas por me fazer de idiota diante de Brent e Tyler?
      - Como assim?
      - Uma boate de striptease com Richie Gant, enquanto eu consegui apenas um almoo maante? Puxa, obrigada.
      - O almoo no foi maante, foi fantstico. Eles gostaram muito de voc! Adoraram os seus livros.
      - E ganharam uma noite em um clube de strippers por causa disso?
      - Ofereo a cada um o que ele pede. E fao o melhor para cada agente, individualmente, porque - ele afirmou, com nfase - esse  o meu trabalho.
      Jim normalmente no era to sombrio; ele era o Senhor Brilho do Sol, o Sweetman Sorrisos, tudo para todos. Em silncio, os dois: acabaram seus drinques muito 
depressa. Jim estava novamente tamborilando na mesa e Jojo engolia golfadas de ar junto com as tragadas de nicotina.
      Os minutos se passaram. Muita gente entrou no pub, mais gente saiu, Jojo acendeu outro cigarro, fumou-o inteiro e esmagou a guimba no cinzeiro. Mais alguns 
minutos se passaram e ento ela tocou a manga do palet dele.
      - Escute, Jim, vamos comear tudo de novo.
      Ele afastou o brao dela, dizendo:
      - Certo, mas antes eu quero deixar algumas coisas bem claras.
      No acho que voc esteja dormindo com o chefe para conseguir promoo; voc  uma agente literria brilhante.  to importante para Brent e Tyles quanto Richie 
Gant. At mais.
      Jim sorriu novamente, mas Jojo no parecia convencida. Ele fazia o mesmo que ela: fingia que as coisas eram de uma determinada maneira e a maioria das pessoas 
era idiota o bastante para acreditar.
      - E a? Voc quer saber tudo sobre Cassie? OK, vou ser bem franco. - Outro sorriso. - Ela  uma boneca, uma pessoa muito doce e especial.
      - Mas ela me pareceu muito inteligente tambm, quando eu a encontrei hoje.
      - Muito. Mark gosta de mulheres fortes e inteligentes.
      Jojo no gostou da forma como ele disse isso, fazendo parecer que Mark tinha um batalho de namoradas, todas fortes e inteligentes.
      - Voc disse que ela estava usando a sua jaqueta? Como foi que ela a conseguiu? Voc a esqueceu no carro de Mark ou algo idiota desse tipo?
      - No era a minha jaqueta. Eu vi uma jaqueta em uma vitrine e gostei muito dela. Cassie a estava usando. Sim, eu sei... Temos muito em comum. - Sem pensar, 
ela perguntou, de repente: - Cassie sabe sobre mim?
      Jim olhou para Jojo com os olhos sem expresso, impossveis de decifrar.
      - No fao a menor idia.
      Os dois acabaram seus drinques e ambos sabiam que no iam beber mais nada.
      - Quer que eu lhe chame um txi? - perguntou Jim, com um jeito educado demais.
      - Deixe-me fazer uma ligao primeiro - Jojo pegou o celular. - Becky, vocs vo ficar em casa? Posso passar a? - Em seguida, disse a Jim: - Vou pegar um 
txi para West Hampstead. Voc no mora l? Posso deixar voc em casa.
      Mas ele no quis. Estava sorridente, recusou com muita educao, mas no aceitou a carona. Sentindo-se mal como h muito tempo no acontecia, ela chegou  
casa de Becky e Andy, onde eles lhe serviram vinho e deixaram que ela se abrisse:
      - Tive um dia de merda! Acabei de brigar com Jim Sweetman e acho que estraguei nossa amizade, o que  pssimo, porque talvez eu precise do voto dele, se um 
dia Jocelyn Forsyth se aposentar e eu quiser virar scia. Por outro lado, Richie Gant provavelmente o tem no bolso h muito tempo, ento seria difcil de qualquer 
jeito. O pior de tudo, porm, muito pior, foi que eu conheci Cassie Avery e ela  uma tremenda gata.
      Becky riu, com cara de deboche.
      -  srio! Ela foi calorosa, divertida e seu cabelo estava maravilhoso. Ela me fez sentir do mesmo jeito que Magda Wyatt. Sob diferentes circunstncias, eu 
poderia at me interessar por ela. - Virando-se para Andy, gritou: - NO SEXUALMENTE FALANDO.
      Baixando a voz, continuou a falar, olhando para Becky:
      - Ela disse que eu era linda, mais ou menos como Magda faz. E ainda teve uma coisa muito estranha: ela estava usando a jaqueta azul-claro que eu quase comprei.
      Becky no conseguiu esconder o espanto ao ouvir isso.
      - Acho que ela sabe de tudo a seu respeito - afirmou Andy. - Mandou seguir voc e a jaqueta foi uma mensagem em cdigo. Ainda bem que voc no tem um coelho.
      - Voc anda assistindo muitos filmes de suspense antigos - reagiu Becky, olhando para Andy. - Alm do mais, voc sempre fala a coisa errada. Voltando-se para 
Jojo, continuou: - Pensando bem, eu acho que ela pode suspeitar de voc sim. Parece que ela armou a cena toda. Puxa, fala srio... A mesma jaqueta? E voc disse 
que o cabelo dela estava lindo. Como se ela tivesse acabado de sair do salo?
      - Isso!
      - Viu s?
      - Bem, mas no foi exatamente assim. Espero que a jaqueta tenha sido coincidncia. Quer dizer... Foi pura coincidncia eu t-la encontrado. No creio que Cassie 
saiba de algo a meu respeito.
      - E eu achava que ela era apenas uma mulher idiota que comia sanduche de queijo mesmo sabendo que ele lhe provoca enxaqueca - disse Andy.
      - Eu tambm. Que diferena uma semana faz! Na sexta passada eu me sentia muito culpada, no queria que Mark a deixasse nunca; hoje  o contrrio: quero que 
ele a abandone, mas acho que isso no vai acontecer.
      - Vai sim, Jojo. Ele no est brincando - garantiu Andy. - Eu o observei naquele dia, na casa de Shayna. Ele olha como se quisesse devorar voc.
      - Devorar? A mim? Sei... Vai largar a mulher para ir morar comigo? Acho que no. Vocs sabem que ele dorme l em casa agora e ela nem questiona isso, no sabem? 
Pois eu achei que fosse uma
      deciso dela no querer notar. Depois fiquei achando que talvez ela tivesse notado, mas pouco ligava! Achei que eles viviam cada um a sua vida, continuavam 
casados s por causa das crianas e que talvez ela at tivesse um amante tambm. S que hoje eles no me pareceram estar levando vidas separadas. Sabem o que eles 
pareciam?
      - o qu?
      - Um casal muito bem casado e feliz.
      - Eca!...
      At aquele instante, Jojo vinha se recusando a tocar as beiradas da sua vida, recusando-se a pensar muito a respeito do assunto. Agora ela se via forada a 
faz-lo, Ser que acontecia o mesmo com
      toda mulher que se envolvia com um homem casado? Ser que ela era uma tola? Ser que Mark nunca largaria a sua mulher?
      - Puxa, eu no me sentia assim to mal desde Dominique, na poca em que ele ficava tentando decidir o nosso futuro e no decidia nunca. Prefiro terminar com 
Mark a passar por tudo aquilo
      novamente.
      - Mas voc o ama! - protestou Becky.
      - Pois justamente por am-lo  que eu no conseguiria agentar ficar ali esperando que ele decidisse o nosso destino.
      - No, nada disso! - objetou Andy. - Voc s deseja puni-lo, Est magoada e quer deix-lo apavorado por ele ter uma esposa bonita. E quanto ao seu emprego? 
Se voc der um chute na bunda dele, o que isso vai fazer com as suas chances de ser promovida? Voc vai acabar tendo que sair da Lipman Haigh para ir trabalhar em 
outro lugar, comeando tudo do zero.
      Jojo se sentiu quente e gelada ao mesmo tempo, de medo. At ento, ela achava que tudo estava sob controle, mas o breve encontro com Cassie a tirara do prumo; 
ela se viu to impotente quanto
      uma rolha flutuando no mar.
      Muito tempo atrs, Andy a alertara sobre o perigo de ela se envolver com o chefe. Ele tinha razo.
      - Estou enjoada. E se ele aceitou ter um caso comigo s por achar que eu jamais lhe pediria para abandonar a esposa? E por que ele me fez achar que ela era 
uma mulher que no se cuida?
      - Mas ele fez isso?
      Jojo pensou. Talvez no. Ele at dissera ao jantar, na primeira noite em que eles saram juntos, que sua esposa o compreendia. Comentou que, de vez em quando, 
eles ainda dormiam juntos. Ela se
      sentiu muito abalada e insegura.
      Jojo contou a Becky e Andy o resto da histria e Becky concluiu:
      - Pelo menos ela no colocou o cigarro na boca dele e arrancou com o carro em estilo "amigos para sempre", como Thelma e Louise.
      - Alm do mais, voc est meio alta, Jojo - disse Andy. - As coisas sempre parecem piores do que so quando a pessoa est bbada.
      - Elas sempre parecem melhores quando voc est bbada, seu idiota.
      - Ah, !... Desculpem.
      
     
22
      
      Sbado de manh
      Chegaram flores. Isso j acontecera tantas vezes que ela odiava o presente.
      Logo depois o telefone tocou. Ela olhou o nmero: era o celular de Mark. Ao atender, Jojo dispensou as amabilidades e perguntou, muito direta:
      - Onde est Cassie?
      - Hein? No spa.
      - E como foi o seu jantar de sete pratos diferentes?
      - O qu?
      - E a cama de quatro colunas?
      - A...?
      - E a piscina romanesca? Escute, pare de me mandar flores!
      - Mas isso  para que voc saiba que eu a amo mesmo quando no posso estar a. - Ele pareceu magoado.
      - Eu sei. T legal, eu sei! S que coloc-las em um vaso para depois de alguns dias recolher as ptalas murchas do cho e jogar os galhos mortos no saco de 
lixo sem ficar com gosma nos dedos  horrvel. Quer saber de uma coisa? Eu sempre estrago tudo, mas j estou de saco cheio!
      - Por causa de Cassie?
      - Acho que sim.
      Houve um longo silncio, at que, por fim, ele disse com uma voz pesada e resignada:
      - Precisamos conversar.
      Ela sentiu o arrepio cruel de algo muito ruim, e ento ele disse:
      - Isso no poderia mesmo continuar para sempre. - A cabea de Jojo se ergueu com o choque. Ela no estava pronta para o fim de tudo.
      - Converse comigo agora, Mark.
      - No posso. Cassie vai voltar a qualquer momento. Vejo voc amanh.
      Ela desligou. Merda! Vinte e quatro horas de tormento.
      Na mesma hora, Jojo ligou para a me. No para conversar sobre esse assunto, e sim para se lembrar quem ela era.
      - Como vai todo mundo, mame?
      - Esto timos. O pequeno Luka fica mais lindo a cada dia.
      Luka j estava comeando a andar. Era o filho do irmo de Jojo, Kevin, e de sua mulher, Natalie.
      - Recebi as fotos. Ele  uma gracinha.
      - Os pais at j o inscreveram em uma agncia de modelos.
      - Boa idia.
      - No acho no. J  horrvel para um homem ser bonito, mas ter conscincia disso desde criana... Oh, cus! Felizmente o seu pai nunca teve esse problema.
      - Eu escutei isso! - A voz de Charlie se fez ouvir, ao longe.
      -  muito melhor para um homem aprender a desenvolver a personalidade - garantiu a me de Jojo, - Se bem que o seu pai tambm no fez isso.
      - Escutei isso tambm! - Charlie tornou a gritar.
      Depois de desligar, Jojo ligou para Becky, que apareceu em sua casa uma hora depois com Andy a tiracolo.
      - Voc deve estar agoniada - observou Becky.
      Jojo encolheu os ombros.
      - De qualquer modo, acho que est mostrando coragem!...
      - Sou assim mesmo, Becky. Durona. Mais forte que a mdia das mulheres.
      - Isso mesmo. - Becky e Andy trocaram um olhar, reparando na garrafa de vinho tinto quase vazia sobre a mesa, no cigarro queimando abandonado dentro do cinzeiro 
e no outro preso entre os dedos de loja. Na tev, o vdeo Fuinhas da frica.
      - Pelo menos tem uma coisa boa nessa histria - refletiu Jojo. - No gastei todo o meu dinheiro em uma primeira edio de As Vinhas da Ira. Acabei comprando 
a primeira edio de A Prola, porque As Vinhas da Ira era muito caro.
      - No o d a ele! Revenda pela internet - aconselhou Becky.
      - D o livro a ele sim - sugeriu Andy. - Fique do lado dele. No importa o que acontea, ele ainda  o seu chefe.
      - Certamente a carreira dela, a essa altura,  a menor das preocupaes - reclamou Becky.
      - Estamos falando de Jojo - reclamou Andy, de volta - , e no de voc.
      
      No dia seguinte, Mark chegou ao apartamento de Jojo  uma e quinze. Tentou abra-la, mas ela se afastou dele. Ele a seguiu at a sala de estar, onde ambos 
se sentaram em um silncio sombrio.
      - Eu amo meus filhos - disse ele.
      - Eu sei.
      - Nunca quis abandon-los. Disse isso a voc desde o incio.
      - Sempre.
      - Andei pensando sobre qual seria o melhor momento de deix-los. Primeiro, achei que poderia ser no fim do ano letivo, mas no queria lhes arruinar as frias. 
Depois, resolvi lev-los para curtir suas ltimas frias felizes, em famlia, e resolvi sair de casa depois que voltssemos da Itlia, em agosto, mas a eles estariam 
prestes a comear o novo ano escolar e seria um momento terrvel. - Ele parou e deixou os ombros carem. - Jojo, eu percebi que no existe momento ideal. Nunca ser 
o momento certo. Nunca.
      O corao dela pareceu parar.
      - Portanto, vamos fazer isso agora - ele disse. - Hoje!
      - Fazer o qu?
      - Vou contar tudo a Cassie. Vou deix-la hoje mesmo!
      - Hoje? Espere um instante, no estou acompanhando o seu raciocnio. Pensei que voc estivesse terminando tudo comigo.
      - Terminando tudo? - Ele era a prpria imagem da confuso. - Por que razo voc acharia isso? Eu amo voc, Jojo.
      - Mas voc disse que precisava conversar. E nunca me disse que Cassie era to atraente.
      - Voc j a tinha visto antes! Voc sabia como ela era.
      - No me lembro de ela ser to bonita.
      - Porque na poca no lhe importava a aparncia dela.
      Jojo reconheceu que poderia ser isso.
      - Mark, vocs se do to bem!
      - Eu tambm me dou muito bem com Jim Sweetman, mas isso no significa que eu devia me casar com ele.
      Jojo acendeu um cigarro. A reviravolta fora rpida demais. Ela achou que fosse perd-lo, j estava quase aceitando o fato e, em vez disso, as coisas estavam 
acelerando na direo contrria. Ele estava vindo morar com ela... Naquele mesmo dia!
      Depois de achar que ia perd-lo, Jojo o queria com uma intensidade tamanha que isso a assustou. S que, antes, havia um pergunta para a qual ela precisava 
de uma resposta:
      - Mark, voc dormiu com ela neste fim de semana?
      - No - respondeu ele, rindo.
      - Por que no? Vocs tinham a cama de quatro colunas, o jantar de sete pratos diferentes...
      - Nada disso importa. Eu no a amo, pelo menos no desse jeito. Eu amo voc.
      - Qual foi a ltima vez em que voc dormiu com ela?
      Ele baixou os olhos, franziu a testa e ento tornou a levantar a cabea.
      - Honestamente?... No fao a mnima idia.
      - No precisa mentir para mim. No incio voc me contou que, s vezes, vocs faziam sexo.
      - Sim, mas desde que eu me envolvi com voc no consegui dormir com mais ningum.
      Ela teve de acreditar nele.
      Mark se levantou.
      - Vou para casa agora para contar tudo a ela. No sei quando volto...
      - No, no, espere! Hoje  muito cedo.
      Ele olhou para Jojo com curiosidade.
      - Quando, ento?
      Ela pensou com cuidado. Quando seria o melhor momento para deixar Sam e Sopbie sem o pai? Na semana seguinte? Dali a quatro semanas? Quando? O adiamento no 
poderia continuar para sempre, eles precisavam de uma data definida.
      - Muito bem! - exclamou ela, por fim. - V passar as frias com a sua famlia, em agosto.
      - Tem certeza?
      - Tenho.
      - OK. Fim de agosto, ento. Agora, podemos ir para a cama?
      
     
23
      
      Segunda-feira de manh
      - Estou com Jeremy, o marido de Miranda England, na linha. Aceito a ligao ou dispenso?
      - Aceite. - Ouviu-se um clique. - Oi, Jeremy! A que devo a honra...
      - Miranda est grvida.
      - Meus parab...
      - Ela sofreu trs abortos espontneos nos ltimos oito meses e seu ginecologista a mandou ficar em repouso absoluto. Trabalho, NEM PENSAR! Isso quer dizer 
que o prximo livro dela no vai ser entregue a tempo. Avise ao pessoal da Dalkin Emery.
      - Tudo bem, mas...
      - At logo.
      - Espere!
      Mas ele desligou. Na mesma hora, ela ligou de volta e a ligao caiu na secretria.
      - Jeremy, aqui  a Jojo. Precisamos conversar a respeito disso...
      A ligao foi atendida com rispidez:
      - No h mais nada a dizer. Vamos ter um beb, ela precisa repousar, no vai terminar o livro at estar bem e liberada para isso.
      - Jeremy, d para perceber o quanto voc est preocupado...
      - Eles a sugam de todo jeito. Um livro por ano e todo aquele circo promocional. Os babacas dos jornalistas perguntam at a cor das calcinhas que ela usa. No 
 de espantar que ela perca um beb atrs do outro.
      - Eu entendo, entendo de verdade. Miranda trabalha muito, eu reconheo.
      - Sei que ela tem um contrato a cumprir, mas eles podem pegar o dinheiro de volta, se quiserem. Certas coisas so mais importantes.
      Jojo fechou os olhos. Ela no ia jogar na cara dele que, dois anos antes, ela conseguira para Miranda um adiantamento de mais de cem mil libras. Aquele era 
o maior erro que uma agente poderia cometer: conseguir tanto dinheiro para uma escritora que ela no precisava mais trabalhar.
      - Para quando  o beb?
      - Janeiro. E nem pense que ela vai voltar a trabalhar assim que ele nascer. Portanto, avise aos caras da Dalkin Emery que eles podem esquecer o livro dela. 
Nem precisa se dar ao trabalho de telefonar para nos fazer mudar de idia. Estamos decididos e Miranda no pode se estressar.
      Ele tornou a desligar e dessa vez Jojo no ligou de volta. Entendera muito bem a mensagem. E agora...? Era melhor telefonar para Tania Teal e tentar avisar 
a ela que a autora mais estrelada deles estava em greve. Aquilo no iria pegar nada bem.
      Tania ainda no chegara ao trabalho, mas Jojo deixou um recado muito detalhado com a assistente que a atendeu.
      Dez minutos depois, Tania ligou.
      - Soube da maravilhosa notcia sobre a gravidez de Miranda. Tentei ligar para ela, mas caiu na secretria.
      E continuaria a cair, se dependesse de Jeremy.
      - Jojo, a gravidez de Miranda  uma tima notcia, mas estou com o diretor de vendas bufando no meu cangote. Quais so as chances de Miranda entregar esse 
livro dentro do prazo?
      Jojo pesou bem as palavras.
      - Sempre existe a chance de Miranda e Jeremy mudarem de idia, mas... Quer saber honestamente? Acho melhor esquecer. Eles querem esse beb de verdade, e me 
parece que vo fazer exatamente o que o mdico mandou. Para publicao em maio, ela j deveria estar acabando o livro, e ainda est na metade.
      - Mas... E se ela recomear a escrever assim que tiver o beb? Se ela nos entregar o livro at maro, d para apressar as coisas. Podemos fazer o copidesque 
e a primeira prova de qualquer original em cinco semanas, no mximo. Depois, mais trs semanas na grfica e estamos prontos para lanar.
      Jojo ia anotar aquele cronograma para a prxima vez que os editores reclamassem sobre o atraso na entrega de algum original.
      - No existe chance de uma autora escrever com um recm-nascido em casa - disse Jojo. - Tania, isso no vai acontecer.
      Tania ficou calada e ento, quase para testar, afirmou:
      - Ela tem um contrato a cumprir.
      - Mas pouco se importa. Jeremy disse que vocs podem receber o dinheiro do adiantamento de volta, se quiserem.
      Tania ficou calada e Jojo sabia exatamente o que ela estava pensando: se Miranda precisasse de dinheiro, escreveria o livro. Talvez tivesse sido um erro lhe 
oferecer um adiantamento to grande. Mas teve a elegncia de no dizer tal coisa. Em vez disso, simplesmente suspirou e comentou:
      - Pobre Miranda, ela no merece esse tipo de presso. D-lhe lembranas minhas, Jojo. Algumas flores j esto a caminho,  claro.
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Encontre-me para almoar
      
      Tenho uma coisa para lhe contar.
      
      PARA:Mark.avery@lipman-haigh.co
      DE: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Re: Encontre-me para almoar
      
      Conte logo agora, especialmente se a notcia for ruim.
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Re: Encontre-me para almoar
      
      No  ruim, mas  confidencial. Nos vemos no Antonio's da Old Compton Street, ao meio-dia e meia.
      
      PARA:Mark.avery@lipman-haigh.co
      DE: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Re: Encontre-me para almoar
      ANTONIO'S?Na ltima vez que eu estive naquela espelunca, eu ainda era atendente do balco e Becky foi envenenada.  melhor que seja coisa boa.
      
      Mark j estava l quando Jojo chegou. Tinha diante de si uma xcara de loua branca barata com cappuccino aguado.
      Jojo veio rebolando pelo corredor apertado com mesas de frmica dos dois lados e quase deslocou os pratos dos outros clientes com os movimentos dos quadris.
      - Que lugar legal! - Riu ela. - Para no dizer o contrrio.
      - Aqui  bom porque ningum nos ver.
      - Voc poderia dizer a mesma coisa de uma sute no Ritz. - Ela se lanou no compartimento apertado onde ficava a mesa. - O que houve?
      - Jocelyn Forsyth vai se aposentar.
      Jojo prendeu a respirao.
      - Vau! Quando?
      - Em novembro. S ser anunciado oficialmente depois que ele comunicar o fato aos clientes, mas achei que voc gostaria de saber em primeira mo.
      - Obrigada. - Subitamente, ela se sentiu empolgada e seus olhos ficaram brilhantes. - s vezes, at que vem a calhar dormir com o scio administrativo da empresa. 
Quer dizer ento que a
      Lipman Haigh vai aceitar um novo scio, certo?
      - Certo.
      - E quem vai ser?
      Ele riu com jeito culpado.
      - No tenho tanto poder assim, Jojo. Essa deciso cabe a todos os scios.
      - Ento eu preciso ser boazinha com todos eles.
      - A comear por mim. - Ele enfiou o joelho por entre as coxas dela. - Podemos fazer o pedido?
      - No sei. Comer neste lugar  uma espcie de esporte radical.
      Ele empurrou a perna um pouco para a frente.
      - Mais um pouco - ela pediu baixinho.
      - Ahn?... Ah, certo. - Na mesma hora as pupilas dele se tornaram quase pretas. Escritores de livros romnticos eram muito criticados, mas Jojo tinha de reconhecer 
que eles estavam certos a respeito
      de pupilas que se dilatavam.
      Mark empurrou o joelho para a frente mais alguns centmetros e ela se deixou escorregar um pouco no banco, abrindo as pernas at encostar a plvis no joelho 
dele.
      - Bingo! - disse ela, baixinho. - Acho que vou acabar gostando daqui.
      - Puxa vida, Jojo! - reagiu ele, demonstrando desejo, agarrando-lhe a mo e olhando para a sua boca, para em seguida observar seus mamilos entumescidos, que 
pareciam querer furar o suti, a blusa e o terninho colante.
      Ele comeou a avanar com o joelho e ela lambeu os dedos dele de forma sensual, para ento, de repente, se endireitar no banco e quase cuspir a mo como se 
ela estivesse em brasa; algum que ela reconheceu vinha entrando. Na verdade, Jojo sentiu sua chegada antes mesmo de seu crebro identificar a pessoa. Era Richie 
Gant. E ele vinha acompanhado de... Ora, ora, quem diria...?Olga Fisher!
      Uma relampejante troca de olhares se passou entre os quatro, ais parecendo um rpido e confuso arremesso de facas em um mero de circo, e todos ficaram petrificados, 
com ar aturdido.
      Merda, pensou Jojo, sentindo-se estranhamente deslocada. Pensei que Olga fosse me apoiar.
      - A lasanha daqui  surpreendentemente boa - comentou Olga,  guisa de cumprimento. - S que eu acho que vou querer comida chinesa hoje.
      Voltaram por onde haviam entrado. Jojo e Mark ficaram olhando um para o outro.
      - Quantas pessoas sabem a respeito da aposentadoria de Jocelyn? - perguntou Jojo, com jeito casual. - Achei que ele s tivesse contado a mim, mas pelo visto 
o velho tolo j espalhou para todo mundo.
      - E eu que pensei... - Jojo sentiu a garganta quase se fechar quando continuou: - Pensei que Olga estivesse do meu lado. O que ela estava fazendo com o boyzinho 
nojento, o Rei das Piranhas?
      - Talvez estejam tendo um caso.
      Jojo riu, embora aquilo no tivesse graa nenhuma. De repente, porm, a possibilidade lhe pareceu divertida. A refinada Olga transando com o garoto propaganda 
de creme para acne era uma imagem cmica.
      - Tudo bem. - Jojo sorriu. - Voc, Dan Swann e Jocelyn esto do meu lado, com certeza.
      - Jim tambm.
      - Acho que no.
      - Pois eu lhe garanto. Srio! - insistiu ele. - Jim acha voc o mximo. E os rapazes de Edimburgo tambm.
      - Acham...? Sabe de uma coisa? Talvez eu devesse fazer uma viagem a Edimburgo, s para ver como Nicholas e Cam esto passando.
      - Grande idia! E como eu tambm estou devendo uma visita a eles h muito tempo, talvez v junto.
      Mais animada, ela perguntou:
      - E a?... Onde  mesmo que ns estvamos?
      
      Ao voltar, Jojo recebeu um recado de Tania Teal na caixa postal:
      - Acabo de voltar de uma reunio sobre o caso Miranda. Estivemos pensando se no h um jeito de contornarmos o problema. - Ela tentava aparentar descontrao, 
mas sua voz tremia de ansiedade.
      Jojo ligou de volta e Tania a colocou a par das idias que haviam surgido:
      - Poderamos fornecer uma secretria para ficar com Miranda, em casa, e escrever tudo o que ela ditasse. Miranda no precisaria nem mesmo levantar da cama. 
Podia ficar deitadinha ali o dia todo e...
      - No adianta, Tania. Isso seria estressante do mesmo jeito.
      - Mas...
      - O difcil no  ficar sentada ou deitada, e sim ser criativo.
      - Mas...
      - Vocs podem publicar o novo livro dela no ano que vem.
      - Mas j perdemos as vendas do vero. Contvamos com um aumento expressivo para...
      - Tania! - exclamou Jojo, com ar de ameaa.
      - Desculpe - disse ela, depressa. - Desculpe, desculpe.
      
      PARA: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Andei pensando...
      
      Talvez seja melhor esperarmos at a indicao do novo scio em novembro, antes de tornar pblico o nosso relacionamento. No quero que o fator "ns" prejudique 
a sua carreira.
      Mxxx
      
      Jojo olhou para a tela consternada. Ser que Mark a estava enrolando? Novembro estava longe, muito longe; to longe que talvez nunca chegasse. Ser que ele 
tinha amarelado?
      A possibilidade a deixou to apavorada que ela se sentiu surpresa com a reao.
      Foi direto at a sala dele e entrou sem bater.
      - Qual  a sua?
      - Em relao a qu?
      - Havamos concordado em soltar a bomba em agosto, agora voc quer me empurrar para novembro. Se est fazendo isso para me ajudar, esquea a idia, porque 
eu vou rir na sua cara.
      Mark ergueu as sobrancelhas, com ar de educado questionamento.
      - Alguns dos scios (Jocelyn Forsyth e Nicholas, na Esccia, por exemplo) so homens de famlia. - Mark parecia calmo, at mesmo frio, mas Jojo o conhecia 
bem o bastante para saber que ele estava zangado. Quando ele se indignava, parecia transbordar do terno. - Eles no vo ter uma boa impresso do nosso estilo "destruidores 
de lares". Para ser franco, acho que nenhum dos scios vai gostar dessa histria. No quero correr o risco de voc perder votos.
      Jojo teve de reconhecer que aquela possibilidade j passara por sua cabea.
      - Eu tomei aquela deciso... Sugesto - corrigiu Mark - ... Tendo em mente apenas a sua carreira.
      Jojo concordou com a cabea, um pouco intimidada com o tom rspido dele.
      - Mas Jim j sabe - argumentou ela. - Olga tambm j deve ter desconfiado. E aposto que Richie Gant j foi contar para todo mundo que nos viu juntos.
      - Pode ser... Mas ter um caso  diferente de eu largar minha mulher e juntar os trapinhos com voc.
      Jojo refletiu um pouco: ele tinha razo. Era melhor esperar. Novembro era pouco depois de agosto. O problema era que...
      - Puxa, Mark... Geralmente sou eu que vivo adiando o nosso grande dia - ela admitiu.
      - J percebi - concordou ele, em tom seco.
      - Voc sempre foi muito paciente comigo.
      - Por voc eu seria capaz de esperar para sempre. - Ento acrescentou: - Embora, obviamente, preferisse no passar por isso.
      - Novembro, ento. Mas quando? Qual vai ser o dia da deciso?
      - Acho melhor esperarmos a notcia ser oficialmente anunciada e devidamente publicada na Book News. No adianta nada morrermos na praia, depois de tanto sufoco.
      - Voc est fazendo a mesma coisa novamente.
      - Fazendo o qu?
      - Me apavorando.
      - No devemos temer nada.
      - Exceto o prprio medo.
      - Ou monstros que saem do armrio.
      - E rochas gigantes que despencam do cu sobre nossas cabeas.
      - Exatamente!
      
      Tera-feira de manh
      A primeira carta que Jojo abriu vinha de Paul Whitington, rejeitando o livro de Gemma. Com aquela recusa, sobrara apenas a Knoxton House. Depois, seria a hora 
das editoras independentes. A essa altura do campeonato, Jojo reconhecia que era possvel no conseguir vender o livro para ningum e, se conseguisse, pegaria um 
adiantamento mnimo. Talvez mil libras.
      - Escolha com muita cautela seu prximo editor, srta. Harvey - aconselhou Manoj. - Pode ser o ltimo.
      Jojo decidiu ligar para Nadine Steidl e se obrigou a parecer entusiasmada.
      - Consegui uma pequena jia para voc. - Jojo resolveu usar a expresso de Cassie, da qual gostara muito.
      S que sua simpatia no foi suficiente para convencer Nadine e, na quinta-feira de manh, ela devolveu o livro acompanhado de um no.
      
      Quinta-feira  tarde
      - Tania Teal na linha. Voc atende ou dispensa? - perguntou Manoj.
      - Preferia enfiar um compasso enferrujado no olho.
      - No foi isso que eu perguntei. Atende ou dispensa?
      - OK, atendo!
      Ouviu-se um dique e logo depois a voz de Tania, transbordando de ansiedade:
      - Jojo, por causa de Miranda a nossa programao para o prximo vero est pssima!
      De volta  choradeira por causa da autora grvida.
      - Precisamos de um livro popular de fico feminina para preencher o buraco deixado por Miranda, mas no temos nada.
      - Ora, Tania, vocs publicam tantos autores bons!...
      - Andei pesquisando o que temos e todos os livros para o ano que vem esto ligados a esquemas promocionais especficos ou programados para maio.
      E o que voc quer que eu faa?, perguntou-se Jojo. Sente em um canto e escreva a droga de um livro eu mesma?
      - Andei matutando a respeito daquele original irlands que voc me enviou - disse Tania. - Ele bem que nos serviria... Voc j conseguiu vender os direitos 
dele para algum?
      Ela se referia ao livro de Gemma Hogan. O mesmo que Jojo no conseguia empurrar para ningum. S que ela no iria confessar isso a Tania,  claro!
      - Talvez esse seja o seu dia de sorte! - exclamou ela. - O romance ainda est disponvel, mas no por muito tempo. H duas editoras que ficaram de oferecer 
lances por ele e...
      - Na faixa de quanto?... - interrompeu Tania. - Dez mil?
      - Ahn...
      - Vinte?! Trinta mil, ento?
      Jojo no disse nada. Por que deveria? Tania estava fazendo um leilo consigo mesma.
      - Trinta e cinco? - tentou.
      Jojo fez a sua jogada:
      - Cem mil por dois ttulos.
      - Nossa! - Tania sussurrou. Em seguida, com voz mais apropriada para uma profissional, perguntou: - J existe um segundo livro dessa autora?
      - Claro! - Jojo no sabia ao certo, mas provavelmente havia.
      - Sessenta mil por um ttulo - props Tania. -  pegar ou largar. No quero nenhuma autora nova, j temos um monte. Preciso apenas de um lanamento tapa-buraco.
      No era a situao ideal. Um contrato para dois livros era sempre melhor, pois significava que a editora se comprometia com o autor a longo prazo.
      Por outro lado, um contrato nico era melhor do que nenhum. E sessenta mil libras era um valor melhor que mil. E quem sabe?... Se o livro vendesse bem, ela 
conseguiria um contrato para Gemma por muito mais.
      - Voc venceu. Papai Fujo  todo seu.
      Dava para sentir Tania recuar de horror diante do ttulo.
      - Mas esse nome tem que danar, Jojo.
      Em seguida, Jojo ligou para Gemma, que ficou empolgada ao saber que seu livro fora vendido para a mesma editora de Lily Wright.
      - Obrigada por insistir, Jojo. Eu sabia que voc iria convenc-la.
      Escritores, pensou Jojo. No sabem de nada! Em seguida, contou a Gemma sobre o dinheiro.
      - Sessenta mil. Sessenta mil? Meu bom Deus! Grande! Fabuloso! Fantstico!
      Era fantstico mesmo. No precisava contar a Gemma que ela era o equivalente literrio de um Band-Aid, porque aquilo podia acabar dando certo.
      
     
Lily
      
     
24
      
      Book News, 5 de agosto
      
     COMPRA DE DIREITOS
      
      Tania Teal, da Dalkin Emery, acaba de adquirir os direitos de publicao de Caando Arco-ris, romance de estria da escritora irlandesa Gemma Hogan. Agenciado 
por Jojo Harvey, da Lipman Haigh, o livro foi vendido por sessenta mil libras. Descrito como uma mistura de Miranda England com Bridie O'Connor, ele ser lanado 
em maio do ano que vem.
      
      Eu folheava a Book News como pretexto para no escrever quando as palavras "Gemma" e "Hogan" saltaram da pgina, esperaram at eu voltar toda a minha ateno 
para elas, e ento me golpearam o estmago. Segurando a pgina com fora demais, li a notcia bem devagar e depois tornei a l-Ia, enquanto ondas de choque me invadiam 
o crebro. Gemma. Livro. Minha agente. Minha editora. Montes de dinheiro.
      Com o corao aos pulos de medo, olhei fixamente para as letras pretas at meus olhos ficarem embaados. Podia ser que existissem muitas Gemma Hogans irlandesas, 
pois o nome no era to incomum assim, mas na mesma hora eu tive certeza: aquela era a minha Gemma. Ela muitas vezes comentara sobre escrever um livro e o fato de 
estar com a minha agente e a minha editora seria o cmulo da coincidncia. Como era possvel ela ter conseguido aquilo? Se j era dificlimo uma pessoa ter um livro 
publicado, o que dir conseguir a agente e a editora de sua escolha! Ela s podia ter se tornado praticante de magia negra. Enterrei o rosto entre as mos; aquilo 
era uma mensagem, como a cabea ensangentada do cavalo na cama daquele sujeito em O Poderoso Chefo.
      Tenho o dom da intuio e at premonies; sabia que o jogo tinha comeado. Embora receasse algum tipo de vingana, tanto tempo j havia passado que eu comecei 
a alimentar a esperana de que Gemma tivesse tocado a vida em frente e talvez at me esquecido.Nossa, como eu estava errada! Todo aquele tempo ela planejava o ataque. 
Eu no sabia exatamente como ela conseguiria arruinar a minha vida, nem poderia determinar com certeza os detalhes de onde nem quando, mas sabia que aquele era o 
primeiro de uma srie de desdobramentos.
      Em um segundo, senti toda a minha vida desaparecer sob meus ps. Gemma me odiava. Contaria ao mundo inteiro o que eu fizera a ela e todos se voltariam contra 
mim.
      E o dinheiro! Sessenta mil libras! Uma fbula, comparada s minguadas quatro mil libras que eu conseguira de adiantamento. Seu livro devia ser assombrosamente 
bom. Pronto, minha carreira estava condenada! Ela ia me tirar do campo com sua obra-prima de sessenta mil libras.
      Peguei o fone, soprei o p que se acumulara sobre ele e, com mos trmulas, liguei para Anton.
      - Gemma escreveu um livro.
      - Gemma Hogan?
      - O pior no  isso... Sabe quem  a agente literria dela? Jojo. Agora adivinhe o nome da sua editora? Tania.
      - No! No pode ser!
      - Mas , juro que ! Saiu na Book News.
      Silncio. Ento...
      - Caraca! Ela est nos mandando uma mensagem cifrada.  como a cabea do cavalo em O Poderoso Chefo.
      - Foi exatamente o que eu pensei.
      - Ligue para Jojo e descubra que histria  essa. S pode ter a ver com ns dois, certo?
      - Lgico! O pior, porm, voc ainda no ouviu. - Eu mal conseguia pronunciar as palavras, tamanha era a minha inveja. - Ela conseguiu um adiantamento gigantesco.
      - De quanto?
      - Voc no vai acreditar.
      - Quanto?!...
      - Sessenta mil.
      Anton ficou calado por muito, muito tempo, e ento eu ouvi um gemido distante.
      - O que foi? - perguntei, quase aos gritos.
      - Escolhi a garota errada!
      - R... r... r... - reagi, muito pau da vida.
      Liguei para Jojo. Embora a minha cabea estivesse a mil por hora e eu louca para saber de tudo, consegui perguntar, com toda a educao:
      - Como vai?
      Em seguida, lutando para manter a voz bem casual, mas parecendo meio abafada, perguntei:
      - Ahn... Jojo... Eu li na Book News que voc est com uma nova autora, chamada Gemma Hogan... Fiquei aqui imaginando se ela no seria...
      - Sim,  a mesma que voc conhece - confirmou Jojo.
      Merda. Merda, merda, merda, merda, MERDA.
      - Tem certeza? Ela mora em Dublin, trabalha na rea de relaes pblicas e tem o cabelo parecido com o da Liza Minnelli?
      - Essa mesma!
      Senti vontade de chorar baixinho
      - Pois ... - continuou Jojo. - Ela mandou lembranas para voc. Nossa, isso j faz sculos, mas eu esqueci de dar o recado. Desculpe.
      - Ela... Ela mandou alguma mensagem para mim?
      - No, simplesmente pediu para eu lhe dar um al.
      O terror me sufocou. Qualquer esperana de que aquilo pudesse ser alguma coincidncia bizarra se dissolveu. Gemma armara tudo aquilo. Era um ato deliberado 
e com alvo especfico.
      - Jojo, eu gostaria de saber se... No quero quebrar o sigilo entre voc e sua cliente, mas... O livro dela  sobre o qu?
      - O pai dela, que abandonou a me.
      - E a melhor amiga, que roubou o namorado de outra mulher?
      - No, nada disso,  apenas o pai se separando da me.  divertido! Vou mandar um exemplar para voc assim que chegar da grfica.
      - Obrigada - falei baixinho e desliguei.
      Jojo estava mentindo para mim. Gemma j devia t-la convencido a ir para o lado negro.
      Ema cresceu e fugiu com um bando de larpios, todos formados em contabilidade, pensei. Anton estava com gangrena na perna esquerda e eu perdi minha me em 
uma rodada de pquer.
      Eu me obriguei a focar naquilo e me concentrei com determinao em todos os horrores daquele enredo que eu acabara de criar. Franzi a testa e tentei de verdade.
      Por um rpido momento, tive um vislumbre de como seria terrvel conviver com um homem que tinha a prpria perna apodreci da e infestada de insetos. Depois 
eu me sacudi mentalmente, dizendo em voz alta:
      - Sua tola! Nada disso  verdade!
      Esse exerccio normalmente me deixava grata e feliz. S que naquele dia no funcionou.
      
     
25
      
      Anton ligou de volta.
      - Eles j apareceram?
      Nem precisava perguntar quem eram "eles": os operrios. Nossa obsesso, nossa fixao, o centro da nossa vida.
      Apesar dos empecilhos da maioria dos bancos da Gr-Bretanha, havamos conseguido comprar nossa maravilhosa casa dos sonhos, revestida de tijolinhos, e mudado 
para ela em fins de junho. Nosso astral estava nas alturas. Eu me senti to feliz que achei que fosse explodir e passei uma semana inteira sem fazer mais nada na 
vida, a no ser procurar camas de ferro trabalhado na internet.
      Antes mesmo de nos mudarmos, apareceu uma empreiteira disposta a acabar com a infestao de cupins na casa e aquilo parecia o preldio de uma poro de coisas 
boas. Mal havamos terminado de desencaixotar a mudana e um pequeno exrcito de operrios irlandeses desceu sobre ns, todos preocupantemente parecidos com Paddy 
Porra-Louca.
      Os Paddys Porra-Louca empunharam os seus martelos e alicates e se puseram a trabalhar com dedicao, comportando-se como se tivessem pela frente um trabalho 
de demolio. Arrancaram a tinta e o reboco das paredes, em seguida os tijolos, para em seguida removerem quase toda a fachada da casa; a nica coisa que a impediu 
de tombar sobre o jardim da frente foi a elaborada estrutura de andaimes  sua volta.
      Por quase uma semana eles racharam, quebraram e destruram tudo. Quando chegou ao ponto em que deveriam comear a reconstruir nossa casa arruinada, descobriram 
que a infestao de cupins era muito pior do que haviam avaliado originalmente. Todo mundo que lida com obras e tem experincia no assunto diz que isso  o que geralmente 
acontece. Entretanto, pelo fato de Anton, Ema e eu sermos a Famlia Cagada, para a qual nada jamais d certo, aqueles que sempre entram nos restaurantes da vida 
e so encaminhados para a mesa instvel e com uma das pernas bambas, levei a coisa para o lado pessoal.
      E o custo da obra? Diante das novas descobertas, o oramento original duplicou da noite para o dia. Mais uma vez aquilo era de esperar, em se tratando de gente 
como ns, e eu levei para o lado pessoal.
      Resmungando alguma coisa sobre a necessidade de novos lintis para as janelas (o que quer que fosse isso) e de no terem condies de adiantar nada na obra 
at o material chegar, os rapazes - conforme a tradio, pelo que me contaram - desapareceram do mapa. Mais uma vez, levei para o lado pessoal.
      Por mais de duas semanas no tivemos notcias deles. Sumiram, mas no foram esquecidos. Anton, Ema, Zulema (j falo dela) e eu morvamos em meio  imundcie. 
Marcas de cimento em forma de botas marchavam pela sala ao longo do maravilhoso piso de madeira antiga; eu vivia encontrando jornais velhos nos lugares mais esquisitos 
(embaixo do travesseiro de Ema, que tal?) e pisava em torres de acar semi-esfarelados; as pessoas reclamam que os operrios ingleses passam o dia bebendo ch, 
mas no era o ch que me incomodava, e sim a baguna deixada pelos restos de acar.
      Toda noite eu imaginava que algum ia subir pelos andaimes e entrar na casa por um dos muitos buracos nas paredes, a fim de nos assaltar. Se isso acontecesse, 
os ladres ficariam muito desapontados, pois a nica coisa de valor que tnhamos era Ema.
      Ferramentas de todo tipo estavam espalhadas por toda a casa e uma delas, uma chave inglesa de trinta centmetros de comprimento, havia se tornado um objeto 
de afeto para Ema. Ela ficara to apaixonada pelo troo que insistia em dormir com ele. As crianas geralmente sentem fixao por coelhos de pelcia ou pequenos 
cobertores; minha filha se apaixonara por uma chave inglesa maior que o seu bracinho comprido e fofinho. (Ela batizara a ferramenta de Jessie, depois que minha irm 
estivera em nossa casa para uma rpida visita, vinda da Argentina, onde ela resolvera morar de vez com o namorado, Julian. Ema se impressionara muito com Jessie.)
      Pior, no entanto, que todas as outras pragas juntas era a poeira onipresente... Ela se enfiava debaixo das unhas, entre os lenis, por trs das plpebras. 
Era muito parecido com morar dentro de uma tempestade de areia. Toda vez que eu passava creme no rosto, ele me parecia um esfoliante, e eu j desistira de limpar 
a casa, porque me parecia algo absurdamente sem sentido.
      A calamidade estava muito alm da minha capacidade de descrev-la, especialmente para mim,que trabalhava em casa. Quando implorei a Anton para fazer algo a 
respeito, ele me garantiu que os homens voltariam assim que os lintis chegassem, seja l de onde viessem.
      Eu continuava sem fazer a menor idia do que era um lintel, mas tambm no queria saber, e eles acabavam com a minha paz de esprito do mesmo jeito.
      Uma empoeirada manh, antes de Anton ir trabalhar, ele estava comendo mingau. De repente, baixou a colher no prato e confessou:
      - Isso est com gosto de poeira!
      Passou o dedo pela borda do prato e olhou para algo que ficara grudado.
      - Olhe s para isso! - exclamou ele, estendendo o dedo para mim. -  poeira mesmo.
      -  farinha de aveia.
      - No,  a porra da poeira!
      Eu fingi observar o p suspeito com mais ateno.
      - Voc tem razo,  poeira. - Quem sabe assim ele ligaria para os homens, chamando-os para trabalhar...
      Com efeito, ele ligou para Macko, o empreiteiro, e as notcias foram terrveis; os lintis haviam chegado da Lintelndia, mas os Paddys Porra-Louca estavam 
trabalhando em outra obra. Eles voltariam para nossa casa assim que tivessem chance.
      Ns bufamos, samos pela casa pisando duro e reclamando com as piores palavras possveis. Eles tm de vir! Olhe para o estado deste lugar! No podemos viver 
desse jeito!
      Isso tinha acontecido mais de uma semana antes, e desde ento Anton e eu vnhamos nos revezando na tentativa de ser adultos, ligando para eles e insistindo 
com firmeza na voz que eles tinham de voltar para acabar o servio em menos de uma semana. Eles riam da gente. Isso no  fora de expresso nem parania. Eu sabia 
que eles riam porque eu os ouvia fazendo isso, ao fundo.
      Por fim, Anton conseguiu arrancar deles uma promessa.
      - Eles vm na segunda-feira. Juraram pelas mes mortinhas que estaro aqui com os lintis na segunda de manh.
      J estvamos na quinta-feira. Trs dias depois.
      - No, Anton. Ainda nenhum sinal deles.
      -  a sua vez de ligar reclamando.
      - Desculpe, mas acho que  a sua. Eu liguei hoje de manh cedo. - Ns telefonvamos para a firma quatro ou cinco vezes por dia.
      - No foi voc que ligou, foi Zulema.
      - Mas fui eu quem a subornou.
      - O que voc lhe ofereceu, dessa vez?
      Hesitei antes de responder:
      - Meu creme tonificante.
      - O creme que eu lhe dei de presente? Aquele da Jo Malone?
      - Esse mesmo - confirmei. - Desculpe, Anton, no fique aborrecido. Eu adorava o produto, de verdade, mas odeio ficar ligando toda hora para os caras, e Zulema 
 tima para essas coisas.
      Eles no riem na cara dela.
      - Isso j foi longe demais! - afirmou Anton, com sbita determinao. - Vou consultar um advogado.
      - No! - exclamei. - Desse jeito, eles nunca mais vo voltar!
      - Uma das coisas que eu ouvia o tempo todo era que, se voc fizesse uma ameaa de coloc-los na justia, j era...! - Por favor, Anton. Essa  a ltima coisa 
que devemos tentar fazer.  melhor continuar implorando.
      - Tudo bem, eu ligo para eles.
      Ento eu me lembrei que concordara em dar uma trgua a Anton, devido a uma obturao de dente que ele fizera na vspera.
      Ao longo da semana que passara, com relao a telefonar para os operrios, Anton e eu havamos criado um complicado sistema de obrigaes, excees e prmios. 
Pelo fato de o meu trabalho ser mais bem remunerado que o de Anton, ele era obrigado a fazer duas ligaes para cada uma das minhas. S que esse pepino poderia ser 
vendido, permutado ou passado para outra pessoa, se consegussemos persuadi-Ia a ligar em nosso nome. Duas vezes desde segunda-feira eu subornara Zulema com cosmticos. 
Anton tentara convencer Ema. Casos de doena tambm eram considerados exceo; a obturao de Anton lhe garantia um dia livre. Eu, pelo meu lado, estava louca para 
chegar a minha menstruao.
      Ouvi a chave na porta da frente; Zulema e Ema acabavam de chegar do seu passeio.
      - Esqueci da sua obturao - eu disse a Anton. - No esquenta, deixa que eu ligo.
      Com essa magnnima oferta, desliguei.
      Ia convencer Zulema a ligar.
      
      Muito bem, vamos falar de Zulema.
      Zulema era a nossa au pairo Fazia parte do nosso maravilhoso mundo novo (casa nova, eu escrevendo meu novo romance etc.). Uma latina alta, bonita e muito determinada, 
Zulema chegara trs semanas antes da Venezuela.
      Eu morria de medo de Zulema. Anton tambm. At mesmo o sorriso perene de Ema perdia um pouco do brilho na presena dela.
      Sua chegada na nossa vida foi cronometrada para coincidir com o fim das obras na casa. Tnhamos a esperana de dar-lhe as boasvindas em uma maravilhosa casa 
livre de cupins, e quando ficou claro que a casa ainda estaria um caos no dia de sua chegada, eu lhe telefonei, para faz-Ia desistir. Mas ela se mostrou to inflexvel 
quanto um mssil pr-programado.
      - Estou indo!
      - Mas, Zulema... A casa ainda est um canteiro de obras, literalmente, e voc...
      - Estou indo!
      Anton e eu corremos de um lado para outro como duas baratas tontas, a fim de preparar o quarto nos fundos da casa (o nico com todas as paredes intactas) para 
ela. Instalamos l a nossa cama de
      ferro trabalhado, nosso melhor edredom e, no fim, ele ficou mais bonito que o nosso prprio quarto, ou o de Ema. Mas Zulema olhou para a casa revestida de 
andaimes, observou a poeira que se entranhara em toda parte e anunciou:
      - Vocs vivem como animais. No pretendo dormir aqui.
      Com espantosa velocidade, ela arrumou um namorado - um cara cujo apelido era Blogueiro (no me perguntem por que, pois ele no tinha nenhum blog). O rapaz 
morava em um apartamento simptico em Cricklewood e Zulema se mudou para l.
      - Ser que ela deixa a gente se mudar para l tambm? - perguntou Anton.
      Zulema era uma mo na roda, fabulosamente prestativa. O dia todo ela cuidava de Ema e me deixava com tempo livre para trabalhar, mas eu sentia falta da minha 
filhinha, alm de detestar o conceito de ter uma au pair em casa. Alm do mais, o salrio ridiculamente baixo que lhe pagvamos fazia com que eu me encolhesse de 
vergonha, embora o valor fosse muito maior do que a maioria das profissionais recebia para trabalhar em uma creche, conforme descobri ao confessar a minha culpa 
para Nicky. (Nicky e Simon conseguiram ter o seu sonhado beb trs meses depois de Ema nascer.) Ela comentou:
      - Simon e eu pagamos  bab metade do que vocs pagam  sua, e olhe que ela fica superfeliz com o salrio. Pense s... Zulema est aprendendo ingls e trabalhando 
legalmente em Londres. Voc est lhe fazendo um grande favor!
      Como Zulema morava longe, no tnhamos ningum disponvel para ficar de babysitter, mas eu no me importava. Na verdade, sentia o maior alvio por no ter 
de morar na mesma casa que ela. Como eu conseguiria relaxar? Dividir o espao com algum estranho  sempre complicado, mesmo que a pessoa seja adorvel. O que Zulema 
no era. Trabalhadora? Sem dvida! Responsvel? Garanto que sim! Muito honesta tambm, a no ser quando usava o meu shower gel Gloomaway, da Origins(do qual eu tinha 
dependncia total. Era a nica coisa que me animava a tomar banho naquela banheira velha e empoeirada). O problema  que Zulema no era nem um pouco divertida. Nem 
de longe. Toda vez que eu a via chegar com sua beleza sria e as sobrancelhas espessas muito franzidas, ficava deprimida.
      - Zulema! - chamei.
      Ela abriu a porta do escritrio com fora. Pareceu chateada.
      - Dando almoo Ema.
      - Sim, ahn... Obrigada. - Ema apareceu entre as pernas de Zulema e piscou para mim (com ar de cumplicidade?...). Ela estava com vinte e dois meses, era muito 
novinha para lanar olhares de cumplicidade, no era? Logo em seguida ela foi embora, aos pulos.
      - Zulema, voc se importaria de ligar para Macko novamente? Dessa vez implore para eles aparecerem. Pode ser?
      - O que voc vai me dar?
      - Ahn... Dinheiro? Vinte libras? - Eu no devia ter lhe oferecido grana, pois estvamos quase a zero.
      - Gosto do seu creme anti-rugas, aquele da marca famosa... Prescriptives.
      Olhei para ela com ar de splica. Meu adorado creme noturno. Novinho em folha. Mas que escolha eu tinha?
      - Tudo bem - concordei. Pelo visto, eu ia ficar sem creme nenhum em pouco tempo.
      Ela voltou com a resposta em questo de segundos:
      - Ele diz que est vindo.
      - Ser que falou srio?
      Ela deu de ombros, olhou para mim e comunicou:
      - Vou levar o anti-rugas da Prescriptives.
      - Tudo bem.
      Zulema subiu correndo para pegar meu creme da penteadeira e eu voltei para a mesa de trabalho. Quem sabe eles viriam mesmo daquela vez? Por alguns instantes, 
deixei-me carregar pela esperana
      e meu astral se elevou alguns centmetros. Ento vi um exemplar da Book News.sobre a escrivaninha, lembrei do tremendo contrato que Gemma conseguira, e do 
qual eu me esquecera por breves instantes - e o astral tornou a despencar a nveis abissais. Que droga de dia!
      Com ar sombrio, acabei de abrir o resto da correspondncia, torcendo para no topar com nada insano; agora que eu virara uma "escritora de sucesso", chegava 
pelo menos uma coisa maluca por dia.
      Recebia cartas de gente pedindo dinheiro, outras de gente que me avisava que escrever sobre feitiaria era trabalho do diabo e eu seria castigada (essas sempre 
vinham escritas em tinta verde), chegavam cartas de pessoas que haviam passado por experincias muito interessantes e estavam dispostas a compartilh-las comigo 
em detalhes (desde que eu lhes desse cinqenta por cento dos lucros da histria), vinham cartas de gente me convidando para passar o fim de semana em suas casas 
("No tenho muita coisa, mas ficarei feliz em dormir no cho e deix-la usar a minha cama. As atraes locais incluem uma torre que  uma rplica do Big Ben e h 
menos de seis meses foi inaugurada uma filial da Marks and Spencer, chiqurrima!"), havia ainda cartas de pessoas que me enviavam seu original e pediam para que 
eu lhes conseguisse uma editora para public-lo.
      Cada dia era uma coisa diferente. Na vspera eu recebera uma carta de uma jovem chamada Hilary, com quem eu estudara em Kentish Town. Ela fazia parte de um 
trio de pentelhas que fizera da
      minha vida um inferno. Foi logo depois de eu me mudar de Guildford e me sentia profundamente infeliz, com medo de mame largar papai. Hilary e suas duas amigas 
gordas decidiram que eu era uma "vaca metida" e obrigavam todo mundo a me chamar de "Sua Majestade". Sempre que eu abria a boca na sala, Hilary liderava um coro 
de "L vem a Lady Di!".
      Na carta que ela me enviou no havia meno alguma a nada disso,  claro. Ela me dava os parabns pelo sucesso de As Poes de Mimi e dizia que adoraria me 
reencontrar.
      - ... Agora que voc ficou famosa - debochou Anton, falando pelo canto da boca por causa da obturao - , mande ela se foder. Se quiser, eu mesmo fao isso.
      -  melhor simplesmente ignor-la - disse eu, amassando a carta e jogando-a na cesta de lixo, enquanto pensava: Como as pessoas so estranhas. Ser que Hilary 
realmente achava que eu gostaria de me encontrar com ela? Ser que no sentiria vergonha?
      Resolvi ligar para Nicky. Ela tambm sofrera muito com as zoaes de Hilary. Ento resolvi no ligar. Nicky e Simon viviam convidando a mim e a Anton para 
jantar e eu morria de vergonha porque, apesar de termos uma casa bem grande agora, ainda no tnhamos retribudo a hospitalidade deles.
      Voltei  correspondncia.
      Naquele dia chegou a carta de uma mulher chamada Beth, que me enviara um original seu um ms antes, pedindo-me para encaminh-la  minha editora, o que eu 
fizera. Entretanto, Tnia no deve ter gostado do texto a ponto de querer public-lo, e eu agora tinha nas mos algumas pginas cheias de revolta me informando o 
quanto eu era egosta. "Muito obrigada", dizia Beth. Ela agradecia por eu ter destrudo a chance de o livro dela ser publicado, ainda mais tendo tudo na vida. Achou 
que eu fosse uma boa pessoa, mas, nossa, como estava enganada! Nunca mais iria comprar nenhum dos meus livros enquanto vivesse, e iria contar a todo mundo a pessoa 
horrvel que eu era.
      Eu sabia que o fracasso de Beth no era culpa minha, mas, mesmo assim, aquele ataque me chateou e me deixou abalada. Depois das alegrias da correspondncia, 
era hora de - aaargghh! - escrever um pouco.
      
      Meu novo livro era sobre um homem e uma mulher que passaram a infncia juntos e se reencontravam, depois de adultos, na reunio de veteranos da escola. Quase 
trinta anos antes, quando ambos tinham cinco anos, eles haviam testemunhado um assassinato. Na ocasio, no entenderam o que viram, mas o reencontro destrancou e 
recolocou em perspectiva lembranas h muito reprimidas. Ambos tinham suas vidas pessoais e eram casados, mas,  medida que comearam a explorar o que havia acontecido, 
comearam a se envolver um com o outro. Como resultado disso, os seus casamentos estavam em crise. Aquilo no era o que eu queria escrever, pois tratava de um tema 
que me deixava triste, mas meus dedos insistiam em levar a histria adiante.
      Franzi o cenho para mostrar ao monitor que eu estava disposta a trabalhar pesado e fui em frente. Bem que eu tentei. Digitava palavras no teclado... Sim, sem 
dvida eram palavras, mas ser que prestavam?
      Bocejei. Uma soneira baixou em mim, envolvente como um cobertor, e era difcil me concentrar. Tinha dormido muito mal naquela noite, um sono todo fragmentado. 
Alis, na vspera tambm. E na antevspera...
      a maioria das vezes, Ema acordava duas ou trs vezes durante a noite e embora, teoricamente, Anton e eu nos revezssemos para atend-la, na prtica sobrava 
sempre para mim. Em parte aquilo era culpa minha - eu vivia levantando para ir olhar se Ema estava bem; em parte era culpa dela - no meio da noite, Ema sempre preferia 
ficar comigo a ficar com Anton.
      Resolvi tomar uma xcara de caf assim que Zulema sasse para o passeio da tarde. No dava para aturar ficar na cozinha "de papo" com ela enquanto esperava 
a chaleira ferver. Atenta a sinais de sua
      sada, esperei um pouco. Estava louca para deitar a cabea no travesseiro e tirar uma soneca, s que certamente Zulema iria me pegar no flagra e ela j me 
achava pattica demais sem precisar daquilo.
      De repente, eu a ouvi empurrando Ema para fora de casa. Corri para a cozinha, fiz um caf e voltei ao trabalho.
      Quando o contador do programa me avisou que eu j escrevera quinhentas palavras naquela manh, parei. Bem no fundo, eu sabia que quatrocentas e setenta e cinco 
daquelas palavras eram lixo. Se ao menos a histria no insistisse em ser to triste.
      Buscando conselhos ou, pelo menos, um pouco de distrao, liguei para Miranda. Sim, Miranda England, aquela Miranda. Quando nos vimos pela primeira vez na 
catastrfica noite de autgrafos, eu a achei to distante e remota quanto as estrelas. Mas havamos tornado a nos encontrar em outros eventos literrios - uma conferncia 
de vendas e uma festa para os autores - e ela me pareceu muito mais calorosa. Anton me disse que ela s estava sendo gentil porque eu era um sucesso, e talvez fosse 
verdade. De fato, Miranda era diferente da pessoa que eu pensei que fosse, e quando descobri que estava passando por um sufoco para ter um beb, isso a tornou mais 
humana aos meus olhos.
      Ela finalmente havia conseguido engravidar e resolvera ficar um tempo sem escrever para evitar um aborto, mas estava sempre disposta a ouvir meus desabafos 
de escritora.
      - Estou sem inspirao - disse eu, explicando meu dilema.
      - Quando estiver bloqueada - aconselhou ela - , escreva uma cena de sexo. - Mas eu no conseguiria fazer aquilo. Papai podia ler.
      De repente, ouvi o barulho de uma caminhonete rugindo l fora. Logo depois a campainha tocou e havia vozes na porta de casa. Vozes masculinas. Vozes altas, 
arrastadas, graves e cobertas de cimento. Parece que ouvi a palavra "boceta". Ser que eram...?
      Olhei pela janelinha do escritrio. Eles haviam chegado! Macko e sua equipe finalmente haviam voltado para consertar a minha casa!
      - Miranda, eu preciso desligar agora! Obrigada!
      Valeu a pena perder meu anti-rugas e o creme noturno. Eu seria capaz de dar um beijo em Zulema. Isto , se no morresse de medo de virar uma esttua de sal.
      Abri a porta da frente e deixei os Paddys Porra-Louca entrarem, pisando duro. Como eles eram todos iguais, eu nunca sabia exatamente quantos havia na casa, 
mas naquele dia reparei que eram quatro. A caminhonete, que continuava com o motor ligado junto  calada, tinha um monte de peas de madeira compridas e grossas 
- os tais lintis esquivos! Aos berros e tentando seguir as ordens recebidas, os Paddys Porra-Louca levaram as toras de madeira para o andar de cima, arrancando 
pedaos do revestimento das paredes durante o processo, alm de lascas de sancas. (Aquilo tudo era material original e insubstituvel, mas na hora eu me senti to 
feliz que nem liguei.)
      Telefonei para Anton.
      - Eles chegaram! Com os lintis novos! J esto arrancando os antigos neste exato momento! Esto fazendo buracos imensos em todas as paredes!
      Silncio. Mais silncio.
      - Anton? Voc ouviu o que eu disse?
      - Ah, ouvi sim.  que eu fiquei to feliz que perdi a voz.
      Pelo resto do dia eu me sentei no escritrio tentando escrever, enquanto a equipe de operrios zumbia em torno da casa como um enxame, aos berras, batendo 
as portas e falando "porra" isso e "caralho" aquilo. Suspirei, feliz. Tudo estava como devia estar.
      Quando Anton voltou do trabalho, olhou com ar furtivo em torno e fez mmica com a boca, perguntando: "Ela ainda est aqui?" Referia-se a Zulema.
      - No, j foi embora. Mas os rapazes ainda esto!
      - Uau! - Ele se mostrou impressionado. Nos raros dias em que eles apareciam, sumiam como por encanto antes das quatro da tarde.
      - Tenho uma idia - sugeri. - Mas voc no vai gostar dela.
      Anton me olhou, desconfiado.
      - J que esto todos aqui, vamos bater um papo com eles - propus. - Vai causar muito mais impacto do que reclamar pelo telefone. Precisamos elogi-los pelo 
bom trabalho que fizeram. - Eu tinha lido isso em algum artigo sobre como lidar com empregados. - Depois vamos ter que assust-las, sabe como , para que terminem 
o servio. Podemos fazer o estilo tira bom, tira mau. Que tal?
      - Tudo bem, contanto que eu possa ser o tira bom.
      - No.
      - Droga!
      - Vamos l! - Eu o levei at a sala da frente, onde os rapazes estavam sentados nos lintis novos, bebendo ch quase melado de tanto acar.
      - Ol, Macko, Banzo, Tommo, Spazzo. - Cumprimentei a todos com um aceno de cabea (tinha quase certeza de que aqueles eram os nomes deles). - Obrigada por 
voltarem e removerem os lintis velhos. Estou vendo que os lintis foram todos... Ahn... Removidos. Se vocs instalarem os lintis novos de forma to eficiente quanto 
tiraram os velhos, ficaremos muito felizes.
      Nesse momento cutuquei Anton e o empurrei para a frente.
      - Como sabem, rapazes, vocs j deveriam ter terminado tudo h mais de trs semanas - continuou ele, com voz severa, mas logo perdeu o pique. Apertou as mos 
e pediu: - Por favor, pessoal, estamos enlouquecendo aqui! E h uma criana pequena envolvida nessa situao... Ahn... Obrigado.
      Samos de fininho e, assim que fechamos a porta, a sala explodiu em gargalhadas. Abri a porta novamente, com fora. Macko enxugava os olhos e dizia:
      - Pobrezinhos, caralho!
      Tornamos a sair. Anton e eu olhamos meio desconfiados um para o outro.
      - Bem... - disse eu. - ... Acho que nos samos muito bem.
      
     
26
      
      Mais uma semana se passou. Macko e os rapazes continuavam a aparecer em dias incertos, de forma intermitente - s o necessrio para nos manter de forma precria 
sobre uma corda bamba de esperana - , mas no o bastante para que a obra avanasse de forma significativa. Eles haviam removido os lintis velhos, mas no tinham 
comeado a instalar os novos.
      Ter buracos na parede do quarto era bom em julho e agosto - at agradvel - , mas entramos em setembro e o calendrio seguiu outono adentro.
      Toda manh eu me via prendendo a respirao at um dos operrios chegar, e Anton me ligava vinte vezes por dia para saber se algum tinha aparecido para trabalhar.
      Eu conseguia me livrar da maioria dos telefonemas obrigatrios - estava transando muito com Anton e Zulema tambm resolvera me dar um refresco - , ento no 
tinha de ouvir a maioria das desculpas criativas deles, mas, segundo Anton, eles eram especialistas em inventar desculpas; Spazzo deslocou o pulso; o tio de Macko 
morreu; o tio de Bonzo morreu; a van de Tommo foi roubada e logo depois o tio dele tambm morreu.
      - O que foi dessa vez? - Anton costumava berrar ao telefone. - Essa semana foi a morte de quem?
      Ento, justamente quando conseguimos alguns dias sem a morte de nenhum tio, choveu. Os novos lintis no podiam ser colocados enquanto estivesse chovendo. 
Nas quatro semanas anteriores, o tempo estivera glorioso, mas; assim que precisamos de tempo bom, comeou a chover.
      
     * * *
      
      Eu parecia estar sendo arrastada e puxada do fundo do mar. Com muito esforo, consegui chegar  superfcie do meu sono. Fui acordada pelo choro de Ema pela 
quarta vez s naquela madrugada. Foi uma noite terrvel, mesmo para os padres de Ema.
      - Deixa que eu vou - disse Anton.
      - Obrigada. - Voltei ao estado comatoso. De repente, havia algum me sacudindo o ombro, tentando me fazer recobrar a conscincia. Era Anton.
      - Ela est enjoada e vomitou no pijaminha.
      - Troque os lenis e a roupa dela.
      No que me pareceu dois segundos depois, eu fui puxada novamente do fundo do mar.
      - Desculpe, querida, mas ela quer voc.
      Preciso levantar, preciso levantar, preciso levantar.
      Tive de me forar a sair da cama, uma das coisas mais difceis que j fiz na vida, e fui atender Ema. Seu rosto estava com um tom vermelho brilhante e o quarto 
cheirava a vmito, mas mesmo assim ela sorriu de orelha a orelha ao me ver.
      - Lily! - Ela se mostrou empolgadssima por eu estar ali, embora fizesse menos de cinco minutos desde que me vira.
      Eu a peguei no colo. Ema me pareceu muito quente. Ela quase no ficava doente. Era uma bonequinha resistente e, quando caa, dava topadas ou levava esbarres 
que fariam qualquer criana colocar a casa abaixo com os gritos, simplesmente massageava o lugar machucado e se levantava. Para falar a verdade, ela era to resistente 
que muitas vezes zoava as outras crianas que se machucavam e choravam; ria, esfregava os olhos com os dedos fechados e fazia "Bu! Bu!", imitando o choro escandaloso 
delas. (Eu bem que tentava impedi-la de fazer isso, porque pegava muito mal com as outras mes.)
      - Vamos ver se voc est com febre.
      Debaixo do brao, ela estava com 36,7; no ouvido, 36,8. A temperatura oral era de 36,9; a retal- "Desculpe, querida" - , de 37 graus, certinhos. Em todos os 
buracos em que eu verifiquei a existncia de uma possvel febre, ela estava bem.
      Procurei por marcas vermelhas na pele e depois apalpei seu pescoo, para ver se estava rgido.
      - Ai! - ela reclamou. Aquilo me deixou preocupada, ento eu apertei mais algumas vezes, at que ela comeou a rir.
      - Voc est tima - eu lhe disse. - Volte a dormir que eu tenho um livro para escrever amanh.
      Ela colocou a mo espalmada sobre os olhos, espiou por entre os dedos e cantou:
      - Estou vendo voc!
      - Querida, so quatro e quinze da manh e ver pessoas a essa hora  terrvel.
      Sentei-me em uma cadeira de balano, torcendo para conseguir faz-la dormir novamente, e ento, para meu espanto total, a cabea de um sujeito apareceu na 
janela do quarto. Era um homem de quarenta e poucos anos. Passou-se mais um instante antes de eu perceber que ele era um ladro. Sempre achei que os ladres fossem 
jovens.  claro que ele subira at ali pelos andaimes. Ficamos olhando um para o outro em silncio, petrificados de susto.
      - No se d ao trabalho de entrar - avisei. - No temos nada de valor.
      Ele continuou imvel.
      - Nossa empregada venezuelana se recusou a ficar aqui! - insisti, apertando Ema com mais fora. - Preferiu ir morar em Cricklewood, com um homem que mal conhecia. 
Um sujeito chamado Blogueiro. Eu tinha alguns cosmticos caros, mas ela levou tudo. Os potes esto em Cricklewood agora.
      Deixei aquelas informaes pairando no ar e, quando tornei a levantar a cabea, o ladro desaparecera to silenciosamente quanto havia chegado. Voltei para 
o quarto dos fundos, acordei Anton e lhe contei tudo o que acontecera.
      - Isso  um absurdo! - ele reagiu. - Vou ligar para Macko logo cedo.
      Dito e feito. Assim que se levantou, Anton pegou o telefone com uma determinao provocada por fria em estado puro.
      - Bom-dia, Macko! Ser que h alguma chance de eu avistar voc ou algum dos seus homens hoje? No? O que foi dessa vez? Morte de algum da famlia? No me 
conte quem foi, deixe eu adivinhar. Seu co? Seu primo de dcimo quarto grau? Ah. Seu pai? Puxa, essa deve ser a terceira vez que seu velho morreu, s neste ms. 
Quem sabe  uma daquelas epidemias de morte que andam por a, n? Acho que ele devia tomar umas colheradas de leo de fgado de bacalhau.
      Anton ficou calado. Ouviu, ouviu um pouco mais, em seguida murmurou alguma coisa, desligou e disse:
      - Merda!
      - Que foi?
      - O pai de Macko morreu de verdade. Ele estava chorando. Agora mesmo  que eles nunca mais vo aparecer aqui.
      Eu fiquei desesperada. No poderia culpar Gemma por aquilo, mas decidi fazer isso do mesmo jeito.
      Mais tarde, naquela mesma manh, eu tive mais um motivo para pensar em Gemma: Tania Teal me mandou, pelo motoboy, um exemplar pronto de Claro como Cristal. 
Era um livro muito bonito, pesado, com uma capa muito parecida com a de As Poes de Mimi. A ilustrao da capa do primeiro livro era a de uma pintura a leo meio 
enevoada, onde se vislumbrava uma mulher com jeito de bruxa contra um fundo azul-beb. Aquela era uma pintura a leo meio enevoada onde se vislumbrava uma mulher 
com jeito de bruxa contra um fundo azul-claro. Parecia absolutamente igual  capa do primeiro livro, mas, quando eu o comparei com As Poes de Mimi, notei que havia 
um monte de diferenas. A mulher de As Poes de Mimi tinha olhos azuis. A de Claro como Cristal tinha olhos verdes. Na capa de As Poes de Mimi, a mulher usava 
botas de abotoar, enquanto a de Claro como Cristal usava sapatos de saltos no muito altos, com alguns botes. Um monte de diferenas.
      Ele seria lanado s dali a dois meses, no dia 25 de outubro, mas a partir do dia seguinte j estaria  venda nos aeroportos.
      - Boa sorte, meu livrinho - disse eu, beijando-o, como se tentasse proteg-lo da magia negra que Gemma pudesse ter posto em ao.
      Se eu no estivesse morta de cansao pela noite maldormida, iria mostr-lo a Irina.
      A vida de Irina mudara muito. Ela conhecera um "empresrio" ucraniano chamado Vassily, que a arrancara de Gospel Oak e a instalara em um apartamento montado 
em St. John's Wood. Ele era
      louco por ela. Irina continuava a trabalhar em regime de meio expediente, mas por puro amor  Clinique, e no por precisar de grana.
      - Acho que, se eu tivesse que passar o resto da vida sem ganhar amostras grtis, seria melhor morrer. (Ao dizer isso, ela apertara o peito de forma dramtica 
e em seguida pegou o espelhinho do p compacto para examinar os lbios.)
      Eu j a visitara na casa nova: um imenso apartamento de trs quartos em um prdio estiloso, com entrada de servio e tudo. Folhas verdes enfeitavam as janelas 
do segundo andar e, embora aquela fosse a casa de uma amante russa bancada por um gngster ucraniano, tudo parecia tremendamente respeitvel. Havia um pouco mais 
de enfeites dourados do que eu teria escolhido, mas, de resto, era um lugar muito bonito. Eu admirei, em especial, a falta de poeira.
      
     
     
27
      
      Enviamos flores para o funeral do pai de Macko e ele deve ter nos perdoado, pois na segunda-feira seguinte quatro dos operrios apareceram em nossa casa. Havia 
um ar de profissionalismo neles e parecia que os lintis seriam finalmente instalados. At que Bonzo, ao passar pela sala com um dos canos da armao dos andaimes, 
se virou rpido demais e o enfiou sem querer pela vidraa em arco que ficava acima da porta da frente, estilhaando-a em mil pedaos.
      Eu tinha agentado aqueles homens das cavernas discutindo a respeito dos mamilos da minha empregada, passando tempo demais trancados dentro do banheiro lendo 
o Sun ou ensinando a Ema alguns palavres irlandeses, tudo isso sem reclamar uma nica vez. Mas a vidraa sobre o portal de entrada era antiga, linda e insubstituvel. 
Aquilo foi demais para mim. Tudo desabou. A espera, o desapontamento e o terror da ver a obra eternamente inacabada despencaram sobre a minha cabea e, diante de 
Bonzo, Macko e Tommo, eu me acabei de chorar.
      Semanas de exausto, preocupaes financeiras, tentativas de escrever um livro que no queria ser escrito, alm do terror de saber que Gemma poderia fazer 
alguma coisa contra a minha famlia, tudo me transbordou dos olhos.
      Tommo, o de corao mais mole, disse, meio sem jeito:
      - Puxa, no chore!
      Porm, como punio pelas crticas a ele, ainda que indiretas, Bonzo foi embora. De repente, voltou e convocou os colegas para acompanh-lo, com ar zangado, 
e todos o seguiram1 meio envergonhados. Dois dias depois disso, eles ainda no haviam voltado e eu atingi o fundo do poo. Sempre que algo saa errado, eu me lembrava 
de Gemma. Morria de medo de ela ter adquirido poderes mgicos voltados para o mal. Ela era o Darth Vader do meu Luke Skywalker, o Voldemort do meu Harry Potter e 
eu imaginei - sem nenhuma lgica - que ela orquestrava, de forma malvola, a morte de tudo de bom que havia na minha vida. Tentei alertar Anton para aquilo, mas 
ele, de forma sensata, me garantiu que nada daquilo tinha a ver com Gemma.
      - At eu sentiria impulsos homicidas - assegurou-me ele. - o prprio Dalai-Lama perderia todo o seu equilbrio mental se morasse nesta casa.
      Pensamos na possibilidade de contratar outra equipe para terminar a obra, mas no tnhamos dinheiro e nem teramos, pelo menos at eu receber o cheque de direitos 
autorais, no fim de setembro, ou seja, dali a um ms.
      Anton estava deprimido demais para pensar em sexo e eu j dera a Zulema todos os cosmticos que eu tinha, com exceo da minha frasqueira da Jo Malone para 
viagens areas. Sendo assim, no tive alternativa seno ligar para Macko implorando pela volta de Bonzo.
      - Vocs o magoaram - informou Macko. - Do mesmo jeito que me magoaram tambm - seu tom de voz parecia completar - quando voc e seu amante fizeram chacota 
da morte do meu pai.
      Meu nico pai!
      - Desculpe - eu disse. - No pretendamos mago-lo.
      - Bonzo  muito sensvel.
      - Sinto muito, de verdade.
      - Vou conversar com ele e ver o que podemos fazer.
      
      O telefone tocou. Era Tania Teal. Mas sua voz me pareceu muito fina e ela falava rpido demais:
      - Oi, Lily, tenho notcias! Boas notcias, na verdade. Decidimos refazer a capa de Claro como Cristal. A outra era linda, mas muito parecida com a de As Poes 
de Mimi. Preparamos uma nova. O motoboy vai a lev-la para a sua aprovao.
      - Tudo bem.
      - Essa mudana  tima. No quero que a capa fique parecida e as pessoas o confundam com As Poes de Mimi.
      - Voc est bem, Tania?
      - Estou - respondeu ela, depressa. - Estou sim, estou tima. Mas preciso da sua aprovao, rapidinho! Tenho que mandar tudo para a grfica ainda hoje. No 
podemos perder a data do lanamento. O motoboy j est a caminho. Avise-me se ele no chegar a em meia hora, que eu mando outro.
      Em menos de meia hora, a capa nova chegou. Era marrom, com imagens meio indistintas que a faziam parecer muito sria. O extremo oposto da capa original, mas 
muito mais a ver com o livro. Eu gostei. Liguei para Tania, que continuava falando como uma metralhadora:
      - Gostou? Que bom! timo!  claro que os exemplares que foram distribudos nos aeroportos esto com a capa azul, mas quando o livro for lanado no mundo real 
vai ser com a capa nova.
      - Tania, voc tem certeza de que est bem?
      - Sim, estou tima. tima!
      Tinha alguma coisa rolando por trs daquilo.
      
      Era o dia da Dalkin Emery, porque, logo depois Otalie, a responsvel pela divulgao, me telefonou:
      - Tenho uma grande notcia! O Show das Onze quer entrevistar voc.
      O Show das Onze era um programa matinal de tev, meio brega. Apesar do nome, ele passava das dez e meia ao meio-dia e era apresentado por duas mulheres que, 
pelos comentrios que eu ouvia, odiavam uma  outra, mas se tratavam com uma doura perturbadora diante das cmeras. O ibope delas era altssimo.
      - Sei que Claro como Cristal ainda no foi lanado, mas o programa passa em rede nacional, uma chance grande demais para dispensarmos!
      - Quando eles querem que eu v?
      - Sexta-feira.
      Dali a dois dias. Estremeci de medo. Eu estava um caos esttico ambulante. Tornei a pensar em Gemma; se fosse ela a convidada do Show das Onze, certamente 
pareceria deslumbrante. Gemma tinha roupas caras, cabelos brilhantes (e volumosos), alm de usar sempre saltos altos; vivia bem cuidada. Eu, por outro lado, mesmo 
nos melhores dias, parecia sempre um desastre (imaginem sem estar nos melhores dias).
      - Que bom, Otalie! - Foi a minha reao. Coloquei o fone no gancho, mas tornei a peg-lo e liguei para Anton.
      - Vou aparecer no Show das Onze, sexta-feira! - Estava quase histrica. - Em rede nacional! Eu me odeio. No tenho roupas, ainda no consegui o meu entrelaamento 
capilar estilo Burt Reynolds e me odeio.
      - Voc j tinha dito que se odiava, duas frases atrs. Vamos s compras!
      - Anton! Preciso que voc seja prtico e objetivo. Preciso que ME AJUDE!
      - Me encontre debaixo do relgio da Selfridges em uma hora.
      - No podemos ir  Selfridges. NO TEMOS GRANA.
      - Temos cartes de crdito.
      - E QUANTO A EMA?
      - Vou ligar para o celular de Zulema e pedir para que ela fique at mais tarde.
      - ELA VAI ESTRAALHAR VOC!
      - Tudo bem.
      A calma dele era tamanha que aquilo comeou a me afetar.
      - Selfridges - ele repetiu. - Daqui a uma hora. Vamos dar um banho de loja em voc.
      - Anton. - Consegui puxar todo o ar que havia  minha volta e coloc-lo para dentro dos pulmes. - Estou falando srio... Ns estamos sem grana.
      - Tambm estou falando srio. Temos dois cartes de crdito. Que nem mesmo esto estourados. No sei se acontece o mesmo com voc, mas eu nunca me sinto  
vontade com um carto de crdito
      que no foi usado at o limite. Tenho uma sensao incmoda, como se tivesse deixado o gs de casa ligado...
      
     * * *
      
      Ele j estava  espera quando eu apareci, com o rosto sombrio e assustado. Fui at onde ele estava e nem parei, continuei andando.
      - Vamos logo com isso. Preciso de calas pretas e algum top. Tudo o mais barato possvel.
      - No. Ele parou de andar e eu tive de parar tambm. - Nada disso. Vamos nos divertir um pouco. Voc merece!
      - Vamos comear pelo trreo. As roupas l tm preos razoavelmente baixos.
      - No. Quero ver os preos absurdamente altos do segundo andar.  onde ficam os produtos de boa qualidade.
      Respirei fundo. Inspirei mais uma vez e acabei me rendendo a ele, deixando-me levar pela sensao quase fsica. Anton estava assumindo o comando, portanto 
eu no precisava me sentir culpada. Meu senso de responsabilidade foi-se embora, deixando-me frvola e quase nas nuvens.
      - Lembre-se, Lily, no estamos aqui para passar o tempo, estamos aqui para nos divertir!
      - OK. V em frente.
      No segundo andar, Anton comeou a pegar roupas das araras e empilh-las sobre os braos. Escolheu coisas que eu nem havia reparado e, embora algumas delas 
fossem impossveis de usar, outras me deixaram surpresa e cheia de vontade de experiment-las. Aquilo era uma metfora perfeita da minha vida com Anton: ele expandia 
a minha viso, me fazia olhar a vida, as roupas - e a mim mesma - de um novo jeito.
      Rapidinho, Anton conseguiu uma atendente que entrou na onda dele; os dois me afogaram em roupas maravilhosas.
      Ele me incentivou a experimentar um monte de coisas: saias curtas de couro, "Por que voc tem pernas lindas, Lily". Vestidos colantes em lycra, muito sexy, 
com alguns buracos estratgicos, "Porque voc tem a pele linda, Lily".
      Assumi vrias identidades - virei uma roqueira radical com roupas pespontadas, uma estrela de cinema francesa bem soigne, uma bibliotecria chiqurrima em 
roupas Prada. Meus piores receios se dissiparam e eu comecei a rir e a me divertir. Aquele era Anton no que ele sabia fazer de melhor, um homem empolgado de gestos 
largos, extravagncia e viso.
      Desde que passamos a nos ver regularmente, ele sempre me trazia presentes - coisas que eu no compraria para mim mesma, por serem suprfluas. Como a frasqueira 
para viagens areas, por exemplo, que eu vira em uma revista e namorara como uma menina de seis anos namora uma bicicleta cor-de-rosa. Eu raramente viajava de avio 
e no precisava de uma frasqueira perfeita para guardar miudezas, mas Anton, com sua incrvel percepo para os detalhes, percebeu
      que eu queria uma. E, embora eu o repreendesse por gastar tanto dinheiro que ns no tnhamos, amei tanto o presente que dormi com ele ao lado do travesseiro. 
Era a nica coisa que eu no tinha dado (nem jamais daria) a Zulema.
      Anton me cobriu com sua percepo em estilo "pode ser que voc no precise disso, mas deseja" e no parava de me trazer carregamentos de roupas para o trocador, 
enquanto levava outras embora.
      Fui proibida de ver quanto as peas custavam e ele me avisou:
      - S vou fechar a porta do trocador se voc jurar no olhar o preo de nada.
      Depois de mais de uma hora experimentando coisas lindas, decidi por um par de calas pretas com feitio de arrasar e um top estranho, cheio de pontas, que revelava 
meus ombros. Anton tambm me
      convenceu a comprar uma das saias curtas de couro e um vestido colante de cashmere.
      - Posso usar as calas e o top a partir de agora? - pedi.
      Comparadas quelas maravilhas, as roupas com as quais eu entrara na loja me pareceram velhas e caidaas. Depois de aturar vrios meses de poeira e desleixo, 
descobri que estava louca para
      ganhar coisas novas e brilhantes.
      - Voc pode ter tudo que seu corao desejar.
      Anton foi at o caixa para pagar e, pelo olhar de desejo no rosto das vendedoras, elas deviam estar achando que ele era um cara rico e gostoso, e eu, uma 
piranha mimada. Se ao menos soubessem que Anton e eu estvamos rezando para o carto no ser rejeitado...
      Mas o carto no foi rejeitado e o vestido, a saia de couro e minhas roupas velhas e nojentas foram embrulhados com cuidado. Ao sairmos do caixa, Anton anunciou:
      - Agora, vamos aos calados.
      - Que calados? Voc est abusando da sorte.
      - No preciso abusar, porque a sorte est do nosso lado.
      Era sempre assim com Anton. Quando ele estava num bom dia, a vida com ele era superexcitante. Eu entrei na pilha, feliz por me mostrar submissa; ele levou 
poucos minutos para achar o par de
      sapatos perfeito - na verdade, eram botas. Eu as experimentei e as botas pareceram se aninhar em torno dos meus ps, como se os tranqilizasse entre sussurros.
      Anton viu minha expresso de xtase e decidiu:
      - Elas so suas!
      - Mas, Anton, essas so botas Jimmy Choo! No fao nem idia de quanto elas custam!
      - Voc  uma escritora de sucesso. Merece botas Jimmy Choo.
      - T... - No consegui evitar um risinho, como direi... quase histrico. - Que diabos! Por que no?
      - Voc quer sair da loja usando as botas?
      - Sim. E o que vou fazer com o meu cabelo?
      - Blanaid j marcou hora para amanh de manh em um salo de-arrasar que fica no Soho. - Blanaid era a assistente de Anton e Mikey. - Ela diz que todas as 
modelos freqentam o lugar.  claro
      que ela no marcou um transplante folicular - avisou depressa. - Acho que eles nem fazem isso l. Mas vo ajeitar o seu cabelo do jeito que voc gosta.
      - Com muito volume - disse, ansiosa.
      - Isso mesmo, com muito volume, foi exatamente o que eu pedi a ela.
      - E quanto s minhas unhas? No consigo pint-las sozinha, acabo sempre com esmalte espalhado pelos dedos.
      - Posso pedir a Blanaid que lhe marque um horrio na manicure. Ou eu mesmo posso pintar suas unhas.
      - Voc? Anton Carolan?
      - Seu criado. Quando eu era garoto, costumava pintar soldadinhos de chumbo com alto grau de preciso. Na poca fui acusado de ser um geek, mas sabia que essa 
habilidade me seria til um dia. Eu tambm pintei uma van que eu tive com os famosos irmos Peludos Doides. Eu tinha quebrado a perna e no dava para andar de bicicleta, 
ento fui aprender a pintar com eles. Eu fao suas unhas.
      - Fabuloso!
      A compra das botas ocorreu sem mais dramas - era um dia daqueles em que tudo d certo - e ento fomos embora. No andar trreo, ao passarmos pelo departamento 
de cosmticos, fomos abordados
      por uma garota alegrinha que me perguntou se eu no gostaria de testar alguns produtos. Segui em frente sem parar. J conseguia ver a luz do dia no lado de 
fora da loja. Morria de medo daquelas mulheres, porque elas sempre me barravam a passagem.
      - Lily! - chamou Anton. - Voc no quer testar alguns produtos?
      Com ar frentico, balancei a cabea para os lados e fiz mmica com os lbios:
      
     "NO!"
      
      - Volte aqui, amorzinho - ele me seduziu. - Vamos ver o que a... - ele olhou para o crach da jovem. - Vamos ver o que a Ruby tem para voc.
      Embora no quisesse, eu me vi sentada em uma banqueta de encosto baixo, tendo uma bola de algodo esfregada por todo o rosto e achando que as pessoas prendiam 
o riso ao passar por mim.
      - Voc tem uma pele muito boa - elogiou Ruby.
      - Tem mesmo, no ? - Anton sorriu de satisfao. - Ela deve isso a mim. Sou eu quem compra os produtos que ela usa.
      - Qual a sua marca preferida? - Ruby me perguntou.
      - Jo Malone - respondeu Anton. - Alm de Prescriptives e Clinique. Na verdade, os produtos da Clinique eu nem compro, porque ela ganha amostras de Irina, uma 
amiga demonstradora.
      - Vou aplicar uma base leve - informou Ruby.
      - timo - eu disse; Qualquer base, leve ou pesada, servia. Ficar ali sentada em plena Selfridges com a cara completamente nua era muito perigoso. Conforme 
a Lei de Murphy, fatalmente ia aparecer algum que eu conhecia. Gemma surgiu em minha mente, embora ela morasse em Dublin.
      Ruby trabalhava em meu rosto e Anton no parava de fazer perguntas:
      - Que troo cor-de-rosa  aquele? Como  que voc consegue traar uma linha to fina com o delineador?
      Quando ela acabou, eu fiquei parecida comigo mesma, s que em uma verso muito, mas muito mais bonita.
      - Voc est linda, amor - garantiu Anton, para em seguida informar a Ruby: - Ela vai aparecer no Show das Onze, na sexta-feira de manh. Provavelmente vai 
usar esse top. Voc tem algo a
      para dar um realce nos ombros dela?
      Ruby fez surgir um p compacto iridescente e um pincel grosso de maquiagem, com muitos plos curtos e macios. Comeou a passar nos meus ombros.
      - Vamos ter que comprar isso - avisou Anton. - E o troo cor-de-rosa tambm. Alm do delineador, para Lily poder se preparar sozinha, em casa. - Olhando para 
mim, ele assegurou: -  um investimento.
      Eu retribu o olhar. Claro que aquilo no era investimento nenhum, porm, levada pela empolgao, no me importei.
      - Tem mais alguma coisa que voc queira? - ele perguntou.
      - Talvez a base - disse eu, baixinho. - Gostei do batom cor-de-boca tambm.
      - Vo os dois, ento - Anton comunicou a Ruby. - Ah, coloque o rmel junto, aproveitando o embalo. - Ele se agachou a meu lado e sussurrou em meu ouvido, enquanto 
Ruby catava os produtos nas gavetas: - Depois de todo o trabalho que ela teve, seria criminoso sair daqui sem levar nada.
      Depois de colocar tudo em uma sacola, Ruby jogou um monte de amostras grtis l dentro.
      - Fantstico! - exclamou Anton. - Como voc  legal!
      - Oh. - Ruby pareceu surpresa pela gratido demonstrada por Anton. - Leve mais algumas amostras. - Pegou mais um punhado, jogou tudo na sacola e eu sorri comigo 
mesma.
      Anton falava aquelas coisas de peito aberto e eu adorava o seu jeito de fazer todo mundo se apaixonar por ele. Ele flertava o tempo todo, mas nunca de um jeito 
vulgar.
      Ruby nos entregou a sacola e samos da loja.
      Eu estava com timo astral; timo por causa das compras; timo por me sentir bonita; timo por minhas coisas novas, todas sem poeira.
      - Ah, eu nem queria ir para casa - comentei.
      - Isso  bom, porque ns no vamos para casa! Zulema est de planto. Vamos sair, s voc e eu.
      Anton me levou a um clube priv no Soho, onde ele parecia conhecer todo mundo. A recepcionista nos instalou em uma cabine s para dois, em um cantinho, com 
bancos macios revestidos em couro; todos os outros ficaram do lado de fora. Ele nem me perguntou o que eu queria beber; no havia dvida que seria champanhe. Fiquei 
sentadinha ali, com as roupas novas, a cara nova e cintilante.
      Por algum tempo, eu me esqueci da casa destruda, do acar espalhado por todo lado, do terror constante que era pensar em Gemma.
      Eu me senti glamourosa, linda e loucamente apaixonada.
      
      o cabeleireiro da moda, no Soho, fez o meu cabelo criar volume de forma maravilhosa; Anton realizou um belo trabalho nas minhas unhas e as roupas novas, juntamente 
com as botas, estavam perfeitas.
      Minutos antes de entrar em cena, descobri que o motivo do convite para eu ir ao Show das Onze era a matria sobre assaltos que eles iam apresentar. No me 
perguntaram nadica de nada sobre os meus livros, s queriam saber o quanto o meu assalto fora terrvel.
      - Voc precisou ser hospitalizada? - perguntou uma das "solidrias" apresentadoras, naquele tom exagerado de "eu me importo com voc".
      - No.
      - Ah, no? Puxa... - Ela se mostrou to desapontada que eu me apressei em informar-lhe que estava grvida na ocasio e morri de medo de perder o beb. Isso 
a animou um pouco.
      Ao voltar para casa, notei vrios recados na secretria. Viv, Baz e Jez me disseram o quanto estavam orgulhosos de mim. Tambm havia um recado de Debs, dizendo: 
"Sei que o dinheiro anda curto, mas voc precisava aparecer na televiso com aqueles trapos?" Era uma referncia ao meu fantstico top novo. "R, r, r", ela riu 
ao desligar.
      
     
28
      
      O ms de setembro trouxe alguns avanos e retrocessos em nossa vida.
      Anton e Mikey haviam passado a maior parte do vero alinhavando um contrato grande e muito importante. Conseguiram um roteiro bom, com muito suspense, arrumaram 
financiamento com
      trs fontes confiveis e o compromisso da jovem estrela do momento, Chloe Drew, bem como o de uma diretora muito promissora, Sureta Pavel. Essa era a cartada 
que iria tornar a Eye-Kon famosa.
      Tudo corria s mil maravilhas e o contrato estava para ser assinado quando o roteiro atraiu a ateno de algum em Hollywood. Antes que eles tivessem a chance 
de dizer "punhalada", o roteiro foi vendido e todo o esquema desmontou como um castelo de cartas. Isso jogou Anton em um fosso de depresso.
      Testemunhar seu desespero foi absolutamente assustador, porque o estado natural de Anton era o de otimismo invencvel. Mas, com tanta coisa dando errado ao 
mesmo tempo, era difcil ele dar a volta por cima daquela vez. Comeou a reclamar do grande fracasso que era, o quanto decepcionara a mim e a Ema, e chegou a dizer 
que ia procurar outra coisa para fazer na vida. "Atendente de bar, talvez", disse ele, deitado de bruos. "Quem sabe apicultor."
      Pelo lado positivo, alguma coisa no ar sombrio e desesperado de Anton afetou os operrios. Sem que fosse preciso ningum ligar para empentelhar a vida deles, 
os rapazes instalaram trs ou quatro dos novos lintis e at comearam a emassar o quarto principal.
      Por uma semana inteira, Anton tirou folga do trabalho.
      - Estou sem estmago para aquilo - disse ele. -  to difcil conseguir material de qualidade... Essa era a nossa grande chance! Acho que a coisa nunca vai 
dar certo para a produtora.
      Anton passou muito tempo com Ema. De algum modo, ele conseguiu afastar Zulema de casa por toda a semana. Desconfio - embora no tenha perguntado - que ele 
pagou para ela no aparecer.
      
      Anton ficou parado na porta do meu escritrio, observando-me digitar no teclado. Vrias emoes apareceram em seu rosto.
      - Voc trabalha tanto! - exclamou e, em seguida, perguntou: - Ema, onde est voc?
      Ema entrou no aposento, usando seu macacozinho com listras horizontais vermelhas e azuis. Anton a observou com ternura.
      - Voc parece um halterofilista hngaro... - disse, e concluiu, depois de analisar atentamente: - ... do incio dos anos cinqenta.
      Foi ento que eu percebi que ele estava melhorando.
      Entretanto, nunca mais voltou ao que era. Fazia referncias constantes ao meu trabalho pesado, ao fato de todo o dinheiro que entrava em casa ser gerado por 
mim, e dizia que se no fosse por mim no teramos nada.
      Isso me assustou, porque embora, naquela poca, toda a nossa renda estivesse sendo produzida por mim, eu nunca considerara aquela uma situao permanente. 
Na verdade, eu confiava em Anton, nas suas idias e na sua energia inesgotvel. Imaginava que de repente ele estaria produzindo dinheiro bastante para nos manter 
em segurana. No gostei da sensao de que tudo - desde as despesas com moradia at a comida - dependia de mim.
      No ltimo dia de setembro, o primeiro cheque de pagamento dos direitos autorais de As Poes de Mimi chegou. Seu valor era to absurdamente alto - cento e 
cinqenta mil libras - que parecia at brincadeira de algum. Chorei de orgulho. Peguei meu exemplar de As Poes de Mimi em uma prateleira empoeirada, olhei para 
aquele monte de letrinhas impressas nele e me maravilhei ao ver que tudo aquilo resultara em tanto dinheiro, o qual, por sinal, iria garantir o nosso lar... A coisa 
toda era um milagre, desde a criao do livro a partir de um momento triste at o seu inesperado sucesso.
      Anton tirou uma foto em que eu aparecia segurando o cheque como se erguesse uma taa, e depois eu dei um beijo de despedida no papel, porque quase toda aquela 
grana j estava comprometida. Com o banco, com a empreiteira e com os cartes de crdito.
      - S mesmo voc e eu conseguiramos ganhar um cheque de cento e cinqenta mil libras para dois dias depois ficarmos quase duros novamente! - eu disse a Anton.
      - Mas toda a grana que gastamos foi por uma boa causa - afirmou ele. - Olhe para ns, somos adultos responsveis. Pagamos a primeira parcela da casa ao banco 
e agora eles no vo mais poder tir-la de ns.
      Eu recuei diante disso. Era a pessoa errada para ouvir aquele tipo e piada sobre perda de imveis.
      - Desculpe. - Anton percebeu. - Bobeira causada pela empolgao.
      - E quando vence a prestao seguinte?
      - No dia 30 de novembro, depois de voc renovar o contrato com a Dalkin Emery. - Ele parou de falar e eu senti uma das suas recadas de baixo-astral. Torci 
para ele no desabar. No no dia em
      que tnhamos motivos para alegria! - Eu me odeio por saber que todo esse fardo est sobre suas costas - comentou ele, sentindo-se pssimo.
      - No, por favor - implorei. - Hoje no! Deixe para se odiar outra hora. Tire um dia de folga.
      
      - Estou deprimida!
      Era Miranda England, ao telefone.
      - So os hormnios - garanti. - Isso acontece durante a gravidez.
      - No so os hormnios.  a porra do site da Amazon. Acabei de entrar l. No sei por que eu fao essas coisas comigo mesma. Meu mais recente lanamento est 
com uma mdia de trs estrelas e meia na opinio dos leitores. O anterior tinha um monte de resenhas cinco estrelas, e as pessoas que escreveram dessa vez so muito 
cruis!
      - Puxa vida... - eu reagi, sem saber o que dizer. - Eles sabem ser horrveis, mesmo.
      - Quanto a isso, voc nem precisa se preocupar - disse ela, com voz triste. - Dei urna olhada na pgina de As Poes de Mimi. Todos amam voc. Quase todas 
as avaliaes tm cinco estrelas. Eles lhe dariam seis, se pudessem.
      
      Eu no devia ter feito aquilo.
      Assim que ela desligou, fui at o site da Amazon, olhei a pgina de As Poes de Mimi e passei alguns minutos muito felizes olhando resenha aps resenha, cada 
urna com mais elogios ao livro que a anterior.
      Mas no se deve cantar vitria antes do tempo, porque logo depois - justamente quando eu devia ter parado - fui pesquisar se algum j escrevera alguma coisa 
sobre Claro como Cristal. O livro
      s seria lanado no fim de outubro, mas alguns exemplares j haviam sido distribudos nos aeroportos.
      Digitei "Claro corno Cristal" e fiquei toda empolgada ao ver que j havia resenhas de leitores! Apenas trs, mas j era alguma coisa. Foi quando eu li o ttulo 
da primeira resenha e senti urna espcie de enjo. "Pobrezinha!" era o ttulo.
      ''Pobrezinha!' - resenha enviada por urna leitora de Darlington. "
      A avaliao dela foi uma estrela, das cinco possveis. Pelo menos ela me dera urna estrela, pensei, tentando me agarrar em qualquer coisa para no afundar. 
Ento comecei a ler:
      A nica razo de eu dar uma estrela para esse livro  que o sistema no permite que o leitor no d nenhuma.
      -...
      Quase fiz xixi nas calas de tanto rir ao ler As Poes de Mimi mas no h uma nica cena engraada neste monte de estrume. Comprei Claro como Cristal no aeroporto, 
a caminho de uma semana em um lugar ensolarado.Seria melhor ter economizado essa grana para tomar mais uns drinques  beira-mar.
      Caramba! Minha nossa! Com o corao martelando, corri para a resenha seguinte, torcendo para que ela fosse melhor. A leitora me dera duas estrelas.
      "De volta ao Prozac", de uma leitora de Norfolk.
      
      Eu estava deprimida e sem sair de casa havia quase seis meses quando As Poes de Mimi caiu em minhas mos. O livro me animou tanto que eu consegui voltar 
a freqentar as reunies dos Vigilantes do Peso. Imaginem a minha empolgao ao descobrir que Lily Wright tinha lanado um novo livro. Pedi a uma vizinha para me 
comprar um exemplar na livraria do aeroporto, pois ela ia visitar a me em Jersey. Tinha esperana de comear a procurar um emprego de meio expediente assim que 
acabasse de l-lo. Algum j leu? Saibam que  muito deprimente. Ele me fez voltar ao auge da depressa. Minha cotao  duas estrelas, mas na verdade no gostei 
nem um pouco do livro. Mesmo assim, eu me considero uma boa pessoa
      .
      Na resenha seguinte eu tambm recebi duas estrelas.
      
      "Estou extremamente desapontado", de um leitor compulsivo do noroeste do pas.
      
      Gostei muito de As Poes de Mimi, embora no seja o tipo de livro que eu costumo ler. (Adoro Joanne Harris, Sebastian Faulks e Louis de Bernieres.) Mesmo 
assim, sou obrigado a admitir que estava curioso para ver o novo livro de Lily Wright, pois a considerei uma boa promessa ao ler As Poes de Mimi. Ao ver o novo 
livro no aeroporto (a caminho de uma exposio de arte em Florena), eu o comprei. Entretanto, minhas esperanas foram abortadas.
      Claro como Cristal no  bom e eu nem sei a que compar-lo.  to ruim (embora,  claro, no exatamente!) quanto um exemplar da chamada literatura "mulherzinha". 
Ele merece s uma estrela, mas resolvi dar duas s pelo fato de no ser exatamente um livro do tipo "mulherzinha"!
      
      - An-TON! - gritei. - ANTONNNN!
      Escorregando - quase surfando - sobre acar, ele apareceu correndo e eu lhe mostrei as resenhas.
      - E se todo mundo odiar o Claro como Cristal? - perguntei. - E se ningum comprar o livro? A Dalkin Emery no vai renovar o meu contrato e vamos ficar arruinados. 
E o meu novo livro tambm no  l essas coisas!
      - Calma, calma! - acudiu Anton. - As Poes de Mimi tambm recebeu resenhas ruins.
      - Mas foram feitas por crticos velhos e embolorados. No por pessoas de verdade. No por leitores!
      Agora eu entendia. o porqu de Tania estar to apavorada e apressada para mudar de capa. Eles estavam preocupados com o fato de os leitores terem expectativa 
de uma nova histria no estilo
      de As Poes de Mimi, como obviamente acontecera com aqueles trs. Cheia de medo, senti um gosto de metal na boca.
      Aquela baguna infernal no poderia ser obra de Gemma, a no ser que ela mesma tivesse escrito as trs resenhas. Mesmo assim, resolvi culp-la.
      - Claro como Cristal precisa vender muito bem - agarrei o brao de Anton - , porque, se isso no acontecer, a Dalkin Emery no vai me oferecer um novo contrato. 
E sem contrato no vamos ter grana para pagar a prxima prestao da casa.
      Perder a casa! Senti um formigamento no alto da cabea. No conseguia imaginar nada pior.
      Com toda a calma, Anton comeou a sua ladainha:
      - Claro como Cristal  um grande livro. A Dalkin Emery vai fazer uma campanha macia para ele. Ser um grande sucesso! A editora acha que ele vai alcanar 
o primeiro lugar entre os mais vendidos na poca do Natal. Daqui a um ms, Jojo vai lhe oferecer um novo contrato e voc vai receber um adiantamento gigantesco. 
Tudo vai acabar bem. Tudo est bem.
      
     
PARTE TRS
   
   JOJO
      
      Desde o dia em que Olga e Richie pegaram Jojo e Mark no flagra, almoando juntos no Antonio's, Jojo receava que todo mundo no trabalho ficasse sabendo. S 
que, tirando o fato de o Rei das Piranhas se referir a ela como Nojo, em vez de Jojo, para depois negar que o fizera, ningum mais a tratava de jeito diferente.
      Na verdade, sem que ningum pedisse, tanto Dan Swann quanto Jocelyn Forsyth garantiram a Jojo que, quando chegasse a hora de decidir qual seria o novo scio, 
em novembro, ela poderia contar com o voto deles. Considerando que o voto de Mark j estava no papo, ela s precisaria de mais um, e se perguntou quem deveria tentar 
influenciar. Jim Sweetman? Por que se dar ao trabalho de tentar?
      As coisas andavam esquisitas entre eles h meses, desde aquele dia em que Cassie Avery aparecera no escritrio. Alm do mais, Jim j andava de amizade com 
Richie Gant havia muito tempo. S que uma mulher inteligente no deve guardar rancores e Jojo no viu nada de errado em ser gentil com Jim. No em demasia,  claro, 
porque seno ela ia parecer carente, certo?
      Olga Fisher? Apesar da bandeira de ela ter ido almoar com Richie Gant, Jojo chegou  concluso de que no havia nada a perder em atacar por aquele flanco. 
Assim, comprou-lhe um DVD sobre os hbitos de acasalamento dos pingins-imperadores e evitou qualquer referncia sobre solidariedade feminina. Olga no era mulher 
de se impressionar com essas coisas.
      E quanto a Nicholas e Cam, em Edimburgo?  claro que ela j os encontrara um monte de vezes, mas nunca chegou a criar laos de amizade. Eles quase no iam 
a Londres, e quando o faziam ficavam s o tempo necessrio para dizer a todos o quanto odiavam a cidade.
      - Por que ser... - reclamavam sempre - ... que essas reunies no podem acontecer em Edimburgo, de vez em quando?
      Aquela era urna dupla manhosa. Nicholas tinha uns quarenta e poucos anos, cara de mau e usava barba; Cam era um celta superplido com olhos azuis muito claros, 
cabelos castanhos-claros e um grande repertrio de comentrios ferinos.
      Jojo tentou encurral-los em uma sexta-feira, aps a reunio semanal.
      - Oi, Nicholas, eu...
      - Odeio Londres! - gemeu Nicholas. -  um inferno todo esse trfego!...
      - ... Sem falar nas pessoas! - ele e Cam entoaram a urna s voz. - Vambora, Cam! Vamos tirar o time de campo.
      - Sim, mas... - disse Jojo, ansiosa para conversar um pouco com eles.
      Nicholas lanou-lhe um olhar furioso e Cam pregou os olhos muito azuis nela, explicando:
      - Ternos um avio para pegar.
      - Tudo bem, desculpem. Ahn... Boa viagem!
      Antes da visita seguinte dos dois a Londres, Jojo enviou-Ihes um e-mail sugerindo um almoo. Nada feito. S topariam almoar se houvesse um motivo muito importante 
para impedi-los de pegar a ponte area de trs e meia da tarde para Edimburgo, respondeu Nicholas. Obviamente, Jojo no era um motivo muito importante.
      Droga, pensou ela. Aqueles dois eram mais difceis de pegar que gotas de mercrio e s lhe restava urna opo. Era meio radical, talvez, mas a nica forma 
de conseguir ter urna conversa decente com eles seria ir visit-los.
      Tudo bem, aquele no seria um problema to grande. Ela sara dizer que Edimburgo era linda, e quem sabe Mark tambm no arrumaria um pretexto para lhes fazer 
urna visita?
      O problema  que estava difcil conseguir urna chance. Cam sara de frias por trs semanas em setembro; depois, Jojo teve que ir  feira do livro em Frankfurt; 
logo em seguida, Nicholas sumiu por duas semanas. Por fim, todos concordaram em fazer urna reunio no fim de outubro, menos de quatro semanas antes de Jocelyn se 
aposentar. Jojo no ficou muito satisfeita por deixar aquilo para a ltima hora, mas talvez fosse melhor. Ela seria lembrada por eles na hora da votao.
      Ela voou com Mark para Edimburgo em um horrio indecentemente cedo, em uma sexta-feira de manh; ela ia se encontrar com os rapazes ainda de manh, e Mark 
ia v-los s  tarde, e depois... Fim de semana de lazer em um hotel legal. Obal...
      No avio, Jojo perguntou a Mark:
      - Algum conselho?
      - Faa como quiser, mas no se mostre condescendente. Eles so um pouco... Como direi?... Sensveis com relao  sua posio secundria, por trabalharem fora 
de Londres. Especialmente pelo fato de conseguirem para a agncia uma quantidade assombrosa de contratos. A Esccia produz um nmero desproporcional de escritores 
bons de venda. A palavra-chave neste caso  R-E-S-P-E-I-T-O.
      - Saquei.
      Mark levou as coisas para o hotel e Jojo foi de txi at a Lipman Haigh de Edimburgo, que ficava em uma casa antiga de quatro andares em um largo cheio de 
construes antigas. Jojo adorou o lugar. Nicholas e Cam a cumprimentaram de forma educada, mas sem muita empolgao. Ela, porm, sorriu sem parar. Estava muito 
feliz de estar ali. Tudo era to antigo.
      Eles a apresentaram aos sete outros membros da equipe e lhe mostraram os escritrios, a minissala de reunies e at a quitinete.
      -  aqui que Nicholas e eu preparamos o nosso almoo  base de Cup Noodles.
      - Sim - grunhiu Nicholas. - Entre outras iguarias finas.
      Jojo no sabia se devia rir. Era mais seguro no faz-lo, decidiu. De volta  sala de Nicholas, ele disse:
      - Creio que voc no fez essa longa viagem s para admirar nossas humildes instalaes. O que podemos fazer por voc, Jojo?
      Fingir que aquela era uma simples visita social seria desonesto; ela preferiu a idia de ser clara e direta:
      - Meus caros, vocs tm algo que eu quero.
      - Uau! Mas eu tenho uma esposa e sou feliz no casamento - explicou Nicholas.
      - E eu sou "frutinha" - informou Cam.
      - Droga! - Jojo bateu na coxa, indignada. - Perdi a viagem!
      - De qualquer modo - disse Nicholas, com a voz arrastada - , um passarinho nos contou que voc quer o nosso voto para se tornar scia da empresa.
      Jojo ficou ruborizada. No esperava aquilo. Ser que todos os outros scios j sabiam?
      - Que passarinho foi esse? - perguntou ela. - Esperem, no me contem!
      - Foi esse mesmo, o rapaz sardento. Richie Gant.
      Jojo deu de ombros, fazendo de tudo para esconder a raiva.
      - O que posso dizer, ento? - Foi a reao dela.
      - E Mark Avery, em carne e osso, est vindo para c hoje  tarde para um encontro conosco. - Nicholas se virou para Cam e fingiu surpresa: - Isso no  uma 
espantosa coincidncia, Cameron? Jojo e Mark aqui em Edimburgo, no mesmo dia?
      - Ora, Nicholas, coincidncias acontecem.
      - Mas eles devem ter vindo em vos diferentes,  claro.
      -  claro - confirmou Cam, virando-se para Jojo. - No vieram?
      Ela forou uma risada.
      - Tudo bem. Vocs me pegaram nessa! - Nossa, aqueles dois eram cruis.
      - Relaxe, garota - arrulhou Nicholas. - Curta o seu fim de semana de sacanagens numa boa. Onde vocs se hospedaram? Em algum lugar espetacular? Espero que 
estejam no Balmoral.
      Jojo inclinou a cabea para o lado. Droga! Era prefervel ter reservado uma penso barata com duas camas e um banheiro no fim do corredor. No p em que as 
coisas iam, dava a impresso de que ela marcara aquele encontro como pretexto para um feriado sexual, e aqueles caras j eram suscetveis demais sem precisar disso.
      - No gostamos de Richie Gant - afirmou Nicholas, com ar descontrado. - Gostamos, Cam?
      - No - concordou Cam, com ar quase sonhador. - Ele  vilanesco!
      - Eu diria odioso.
      - Atroz!
      - Monstruoso!
      Pelo menos uma coisa ela era obrigada a reconhecer, pensou Jojo. O safado no era de perder tempo
      - Ah, veio, sem dvida. H muitos meses. Assim que o velho
      Jock anunciou a aposentadoria.
      Pelo menos uma coisa ela era obrigada a reconhecer, pensou Jojo. O safado no era de perder tempo.
      Mantenha o sorriso na cara, disse a si mesma. No h mais nada a fazer. E tente no ser condescendente, embora j esteja dando pinta. A palavra-chave  R-E-S-P-E-I-T-O.
      - Ento vocs realmente j sabem o porqu de eu estar aqui. - Ela pegou a pasta com a sua apresentao, que inclua a sua lista de autores, grficos em forma 
de pizza e diagramas de vendas, tudo para mostrar as perspectivas de seu trabalho a longo prazo.
      - Agora no! - Nicholas dispensou aquilo com um aceno de mo. - Deixe essa pasta conosco. Vamos dar uma olhada nela quando no tiver nada de bom passando na 
tev.
      - Agora que temos voc todinha para ns, queremos saber de algumas coisas a seu respeito.
      Jojo suspirou, de forma teatral.
      - Querem que eu prove que sou uma ruiva legtima. Vocs no imaginam o nmero de vezes que...
      Isso os fez dar uma gargalhada. Que sorte!
      - Nada disso. Queremos que nos conte como  ser uma policial. Voc alguma vez transou de farda? Com algum tambm de farda, de preferncia homem?
      - Ora, Cam - ralhou Nicholas. - Voc no pode perguntar uma coisa dessas  garota.
      - Claro que pode! - garantiu Jojo.
      - E ento?... Transou?
      - Infelizmente no. Sinto muito, Cam. Mas j fiz sexo com um bombeiro. Ele foi meu primeiro namorado de verdade. s vezes, estava de uniforme, ou parte dele, 
quando no conseguia tirar tudo a tempo. E s vezes eu usava o seu capacete durante a transa.
      - Conte mais!
      - No! Estou interessado nas perseguies aos bandidos - disse Nicholas.
      - Tudo bem, eu sou do tipo multitarefa.
      No era exatamente o que Jojo esperava da reunio, mas, se isso era necessrio para conseguir a sociedade, ento era assim que ia ser. Ela contou sobre o homem 
que deu um tiro no vizinho por ele assistir  tev com o volume muito alto; sobre o suicida que ela achou pendurado dentro do closet e contou da fase corrupta do 
seu pai, quando ele costumava chegar em casa com eletrodomsticos usados que jurava ter comprado. Batalhou muito para tornar os relatos dramticos e assustadores, 
e, quando chegou a hora de Nicholas e Pam sarem para encontrar um cliente, na hora do almoo, Nicholas elogiou:
      - Jojo, voc  estimulante!
      - Sei que ns pegamos um pouco no seu p, mas gostamos muito da sua visita - disse Cam. - Voc tem esprito esportivo, no como a beb-chorona da Aurora Hall.
      - Ela tambm esteve aqui?
      - Ela e tambm aquela esnobe, Lobelia French; sem falar da esquisita sem queixo, no me lembro o nome; todas vieram at aqui. A cada semana nos perguntvamos 
por que voc estava demorando tanto. Achamos que estivesse ofendida por algo que fizemos. - Os
      dois se apoiaram um no outro e caram na gargalhada, rindo de alguma piada que s eles conheciam.
      Jojo se levantou, estendeu a mo e disse:
      - Obrigada por me receberem. - Virou-se para ir embora.
      Nicholas e Cam olharam um para o outro, atnitos.
      - Voc no nos trouxe nenhum presente? - perguntaram.
      Merda, pensou Jojo. Richie Gant provavelmente tinha levado bebidas, charutos... Danarinas de striptease. E as esnobes devem ter chegado com vinhos raros da 
adega do papai. Ela devia ter comprado alguma coisa.
      - Nenhum presente - disse ela, arrasada. - Nem pensei nisso.
      - Gostamos de presentes.
      - Sinto muito.
      - Mas respeitamos voc por ter vindo de mos abanando.
      - Srio mesmo? Quer dizer que estou no preo? - Ela sorriu.
      - Precisamos analisar o histrico de todos os candidatos. Vamos bocejar de tdio, mas gostamos da sua visita e de voc. No gostamos? - Nicholas se virou para 
Cam.
      - Sim, sem dvida. Gostamos muito mesmo.
      - Eu no sou vilanesca?
      - No. Nem odiosa, nem atroz e nem monstruosa. Na verdade, voc ... aromtica.
      - E pitoresca.
      - Exatamente! Uma regio preservada, cheia de maravilhosas belezas naturais. Tenha um fim de semana adorvel e sexy com o adorvel e sexy Mark Avery.
      No domingo  noite, quando Jojo colocou o p fora do avio, em Heathrow, estava feliz. Em tudo e por tudo, mesmo depois do incio esquisito, a sua reunio 
com os scios de Edimburgo no poderia ter corrido melhor.
      
     ***
      
      Segunda-feira de manh, incio de novembro
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Novidades. Provavelmente ruins
      
      Jocelyn adiou a data da sua aposentadoria para janeiro. Ele comeou sua carreira na Lipman Haigh tambm em janeiro, trinta e sete anos atrs, e, tradicional 
como sempre, quer completar um nmero redondo de anos antes de sair.
      
      PARA:Mark.avery@lipman-haigh.co
      DE: Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Trinta e sete no  um nmero redondo
      
     I
      
      Jxxx
      
      Ingleses, pensou Jojo. Todos eles eram malucos de pedra.
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Novidades. Provavelmente ruins
      
      Isso significa que a deciso sobre o novo scio no vai ser tomada antes de janeiro.
      
      Jojo olhou para a tela.
      - Merda!
      Ela estava preparada para resolver tudo at o fim de novembro. Sua vida, embora no exatamente em ponto morto, estava toda focada naquilo.
      
      Segunda-feira  noite, apartamento de Jojo
      - E agora, o que fazemos? - quis saber Mark.
      - A respeito de qu?
      - A respeito de ns.
      Jojo ps-se a pensar.
      - Resolvemos esperar at a votao do novo scio. Nada mudou. Vamos s adiar tudo por dois meses.
      - Mas qual  o objetivo dessa espera? Todo mundo no trabalho j sabe, graas ao Richie Linguarudo.
      - Achei que j havamos resolvido isso.
      - Estou cansado de esperar e todo mundo j sabe mesmo.
      - Mas  como voc mesmo disse no vero passado... Todo mundo saber que estamos tendo um caso no  to ruim quanto voc largar sua mulher e ir morar comigo. 
Qual ?... - brincou ela, tentando persuadir Mark. - No  tanto tempo a mais para esperar.
      Mas ele no se convenceu. Estava revoltado com ela e nem tentou esconder o fato.
      - Foi voc mesmo que preferiu esperar at a deciso sobre o novo scio! - reclamou ela.
      - Mas agora que todo mundo sabe, isso no faz mais diferena. Vou pra casa.
      Ela ouviu a porta fechar. Droga, pensou. Aquilo no era nada bom. E ela ainda tinha outro problema na cabea.
      
      Quarta-feira de manh
      Jojo ligou o computador. Estava ansiosa. A lista de bestsellers da semana era atualizada todas as quartas-feiras, s nove da manh. Ela estava um pouco temerosa 
com o desempenho do novo livro de Lily Wright. Depois do sucesso estrondoso de As Poes de Mimi, todos davam como certo que o novo lanamento iria subir ao topo 
da lista, e em algumas das reunies do pessoal de vendas da Dalkin Emery a expectativa era de que ele chegasse ao primeiro lugar antes do Natal. No incio, porm, 
Jojo teve algumas dvidas incmodas sobre isso; Claro como Cristal era um livro muito diferente de As Poes de Mimi. (Diga-se de passagem, um livro excelente, um 
testemunho social escrito com inteligncia e compaixo. S que era em estilo realista, em oposio direta a As Poes de Mimi, que era escapismo puro.)
      Tania conseguiu que Lily lhe enviasse Claro como Cristal sem Jojo ter visto o original, e quando esta foi informada sobre isso, j estava tudo acertado - uma 
atitude presunosa de Tania. Se Jojo tivesse visto o livro, talvez a aconselhasse a no public-lo naquele momento. Poderia sugerir a Lily que tirasse um ano de 
folga para escrever outro livro antes de lanar aquele. Mas ela no teve a chance e fazer nada disso.
      Verdade seja dita, Tania se empolgou muito com Claro como Cristal - e ela conhecia bem seu ramo de trabalho. Alm disso, o mais importante foi Tania ter assegurado 
uma propaganda macia e oramento para uma grande operao de marketing, obviamente todos na Dalkin Emery embarcaram no barco. Em maio, logo depois de Tania aceitar 
o livro, Jojo participara de uma reunio preliminar de marketing, e eles pareceram to empolgados com o lanamento que at ela ficou convencida. A editora pretendia 
gastar rios de dinheiro. Todos adoravam Lily, dos livreiros at os leitores, e Claro como Cristal era um grande livro. Tudo ia dar certo.
      De repente, surgiram alguns problemas. Em agosto, duas cadeias de supermercados cortaram os pedidos do novo livro pela metade, depois que os compradores leram 
a prova final do livro e descobriram que Claro como Cristal era completamente diferente de As Poes de Mimi. Depois, a Dalkin Emery entrou em pnico por causa da 
capa, que era muito parecida com a do primeiro livro. Recolheu tudo e rodou uma nova, muito mais sria. O livro fora lanado oficialmente no dia 25 de outubro. Os 
relatrios das lojas e algumas prvias sem nmeros definitivos indicavam que as vendas mostravam-se lentas e inexpressivas, mas a lista daquela quarta-feira era 
o teste final.
      Jojo olhou com ateno os dez primeiros: nada. Os vinte primeiros: nada. Achou Eamonn Farrell no quadragsimo quarto lugar e Marjorie Franks, uma das suas 
escritoras de livros de suspense, firme e forte no sexagsimo primeiro lugar. Mas onde estava Lily? Foi descendo, descendo, descendo. Devo ter passado por ela sem 
perceber, pensou, e ento a avistou l no fundo, em centsimo sexagsimo oitavo lugar. Na primeira semana de lanamento, ela vendera uma quantidade ridcula: 347 
exemplares. Merda. Claro como Cristal era para estrear entre os dez primeiros, mas, pelo visto, estava mofando nas prateleiras.
      - As Poes de Mimi tambm demorou a decolar - lembrou Manoj.
      - As Poes de Mimi no teve uma campanha publicitria macia no valor de duzentas mil libras.
      Na mesma hora, ela telefonou para Patrick Pilkington-Smythe, chefe do departamento de divulgao da Dalkin Emery, e tentou convenc-lo a soltar mais dinheiro 
para publicidade.
      - Precisamos de mais anncios, especialmente nos jornais de domingo, quando chegar perto do Natal. E o preo de capa vai ter de diminuir um pouco.
      - Calma, Jojo. No vamos nos desesperar por enquanto - disse Patrick, com voz arrastada. - Ainda  cedo. H um monte de bons livros entrando no mercado nessa 
poca do ano.
      Tudo bem, talvez ele tivesse razo. De setembro em diante, havia sempre uma enxurrada de livros novos, todos lanados a tempo de concorrer ao prmio Booker. 
Sem falar nas biografias que toda celebridade esperava colocar na rua por essa poca, a fim de virar presente de Natal para os fs de todo o pas.
      - As vendas vo acelerar quando estivermos perto do Natal - garantiu Patrick.
      O plano de Jojo era comear as negociaes para o novo contrato de Lily na semana seguinte ao lanamento de Claro como Cristal - naquele mesmo dia, por exemplo 
- , ocasio em que, se tudo corresse conforme o esperado, a estrela de Lily estaria no clmax. Jojo esperava poder discutir as condies do acordo de olhos fechados; 
tudo o que precisaria resolver com a Dalkin Emery era se eles dariam a Lily uma bolada de dinheiro obscena de to grande ou simplesmente uma quantia absurda. Agora, 
ela j no tinha tanta certeza.
      Pelo lado positivo, Lily estava prestes a dar incio  turn promocional de trs semanas. Talvez isso fosse o pontap inicial para o aumento das vendas.
      Jojo ligou para Tania Teal. Mostrando-se animada e confiante, ela cantarolou:
      - Hora de tratar de assuntos srios, Tania: Lily Wright. Estamos prontos para fechar.
      - Fechar o qu?
      Merda. Jojo manteve a voz firme:
      - O novo contrato.
      - Ahhh... Sei... Escute, voc me disse que ela estava trabalhando em um livro novo, no foi? Acho que  melhor eu dar uma olhada no material antes de determinarmos 
um valor exato.
      Aquela no foi a resposta entusiasmada que Jojo esperava. Puxa vida, Tania Teal nem parecia a mesma mulher que a perturbara dia e noite em maio passado para 
Lily assinar logo o novo contrato.
      Mantendo a firmeza e o ar alegre, Jojo props:
      - Vou mandar o motoboy entregar os sete primeiros captulos do FABULOSO novo romance de Lily agora mesmo. Prepare o talo de cheques.
      
      Quarta-feira  noite
      Jojo se encontrou com Becky para comer pizza. Depois de sentarem mesa, Jojo disse:
      - Adivinhe o que aconteceu. Minha menstruao est atrasada.
      Becky ficou absolutamente imvel.
      - Atrasada quanto tempo?
      - Trs dias. Sei que pode no ser nada, mas meu organismo  m relgio. O pior  que eu me sinto meio estranha.
      - Estranha como?
      - Meio... Tonta. E perdi a vontade de fumar.
      - Caraca! Minha nossa! - Becky mordeu os ns dos dedos.-  fez o teste?
      - Hoje de manh. Deu negativo. Mas  cedo demais para ter certeza pelo teste.
      - E isso pode ter acontecido?
      - Hummm... Ns sempre usamos camisinha, mas sabe como... Acidentes acontecem. O pior  que transamos bem no meio do ms.  fcil lembrar o dia exato quando 
a gente namora um homem casado.
      - Pois eu preferia mais sexo e menos violinos - reclamou Becky. - Andy e eu no transamos nem uma vez no ms passado.
      - Mas vocs dois esto numa boa um com o outro?
      - Melhor do que nunca. Espere s para ver... Quando voc e Mark pararem de transar, voc vai descobrir o que  estar junto de verdade. Por falar em Mark, como 
acha que ele vai encarar essa possibilidade? - Becky escolheu bem as palavras: - Existe uma chance de ele no se sentir muito... Feliz com a notcia?
      Jojo considerou a hiptese.
      - Pode ser. - Em seguida sorriu de leve. - O mais provvel  que ele curta de monto, mas... E quanto a mim? Ser que eu vou me sentir feliz?
      - No vai?
      - No  o momento certo para termos um beb.
      - Mas nunca  o momento certo. Isso acontece com todo mundo, no s com voc. Alis, quando a hora certa chega, quase sempre  tarde demais.
      - Tem razo. Um beb no  o fim do mundo. S que... Eu me sinto to mal por causa da Cassie e das crianas. Isso vai piorar muito a situao.
      - Talvez no seja um acidente - sugeriu Becky. - Inconscientemente, talvez ele tenha armado uma cilada. Ou talvez voc mesma tenha se colocado nessa armadilha. 
- Ela suspirou. - Sua sortuda! Eu adoraria ficar grvida sem planejar, mas no temos condies
      de ter um beb por enquanto.
      - Pois , mas se eu me tornar scia da agncia, a minha renda vai despencar nos prximos trs anos.
      - Como assim?
      - Os scios precisam investir muita grana para poder entrar na firma. Agora que Jocelyn est saindo - se  que ele vai SAIR algum dia - , vai levar a bufunfa 
relativa  parte dele na empresa. O novo scio tem que repor essa grana.
      - Quanto ?
      - Cinqenta mil.
      - Cinqenta mil libras? E onde voc vai arranjar esse dinheiro todo?
      - No vou. O que eles fazem  deduzir o capital inicial dos meus futuros pagamentos, e eu vou ganhar menos cinqenta mil libras ao longo dos prximos trs 
anos.
      
      Quinta-feira  noite, na casa de Becky e Andy
      Andy atendeu  porta.
      - ... E o resultado?
      - O teste continua dando negativo, mas...
      Andy balanou a cabea para os lados, com tristeza.
      - Quer um conselho? - ele a interrompeu. - No conte nada a ele. Saia de fininho e faa um aborto.
      - De jeito nenhum! - Jojo detestou a possibilidade. - Esse  um problema dele tambm.
      - -!... - Andy apertou as mos com fora. -  nessa hora que a gente descobre quais so os homens e quais so os meninos.
      Qual , sai dessa, Andy! - Mas Jojo no conseguia deixar de imaginar se Mark poderia fugir, apavorado. Ser que ele ia querer que ela abortasse para em seguida 
amarelar e se esconder no porto seguro do seu casamento? - Vou contar para Mark, e querem saber de uma coisa? Se ele tentar me sacanear, eu vou rir na cara dele.
      
      Sexta-feira, apartamento de Jojo
      - Adivinha o que aconteceu - perguntou Jojo.
      Mark olhou para ela, fez uma rpida inspeo em volta e algo mudou em seus olhos, como se ele recuasse.
      - Voc est grvida.
      Ela ficou muda, atnita.
      - Poxa, voc  bom mesmo, hein? Minha menstruao est cinco dias atrasada, mas o teste deu negativo.
      - Isso no quer dizer nada. Aconteceu o mesmo com Cassie. Os testes davam negativo, mas ela estava gravidssima.
      Os dois se olharam fixamente, absorvendo aquela informao, para em seguida carem na risada ao mesmo tempo, com ar aterrorizado.
      - Merda! - sussurrou Jojo, - Bem, todos sabem qual  a cena seguinte. Essa  a parte em que tudo desmorona em minha vida. Voc deixa a coisa rolar por algum 
tempo e arranja tudo para eu ser despedida da empresa.
      - Ento voc descobre que Cassie tambm est grvida, poucos dias  frente de voc, e ns vamos dar uma grande festa para renovar os votos do nosso casamento.
      - Mas s descubro quando recebo um convite para a festa por engano.
      Todos aqueles eram clichs familiares aos dois, e eles riram juntos.
      - Vou logo avisando, Mark: meu pai ficar uma arara quando descobrir e vai querer matar voc. Vai bater na sua casa muito tarde da noite com meus trs irmos 
e uma espingarda.
      - Nesse caso,  melhor eu transformar voc em uma mulher honesta.
      Em seguida, ao pensar na novidade, a ficha caiu e ele se lanou em profundo silncio. Passou a mo sobre a boca uma vez e depois repetiu o gesto.
      - Isso serve para focar a mente - explicou ele.
      - Voc vai me abandonar?
      A mo dele parou, petrificada, e ele olhou para ela com terror,
      - No.
      - Resposta correta.
      - S que isso  uma coisa muito grande, Jojo. Grande e sem planejamento.
      - D!... Isso eu j saquei.
      - Eu sempre imaginei que isso fosse acontecer, em algum momento. Ns dois. Filhos. - Parou de falar e acrescentou, desanimado: - Mas no to cedo.
      - Voc ficou mal com a notcia, Mark?
      - Quer que eu seja honesto, Jojo? - Ele olhou com firmeza e ela percebeu que ele estava em dvida sobre enrol-la ou dar-lhe ma resposta direta, do fundo do 
corao. - Eu, honestamente, referia que passssemos algum tempo juntos, s ns, antes de termos filhos. Comear a vida a dois compartilhando-a logo de cara com 
mais algum, mesmo um beb, eu acho que... - ele procurou a palavra exata - ... Eu lamentaria isso. - Expirou com fora. - Voc sabe o quanto eu amo meus filhos, 
e vou amar os nossos tambm. Mas, depois de todo esse tempo na clandestinidade, gostaria que tivssemos algum - quase riu para si mesmo - ... Tempo juntos, sem preocupao 
de nenhum tipo. - Ele franziu o cenho. - Como foi que isso aconteceu?
      Jojo olhou para ele fixamente.
      - O rapaz foi para a cama com a moa e enfiou o seu...
      - No, estou falando srio. Ns tomamos precaues, no tomamos?
      - Acidentes acontecem.
      Ele reconheceu:
      - Sim, tem razo. O problema  que esse no  um bom momento, em termos financeiros. Vou ter que pagar penso para Cassie e as crianas, e ns precisamos de 
um lugar para morar. No podemos ficar aqui em seu apartamento para sempre, ainda mais com um
      beb. E se voc parar de trabalhar, vamos perder seu salrio.
      - Mas por que eu deixaria de trabalhar? Estou grvida - se  que estou mesmo - e no doente. Voc est com medo de que eu me transforme em Louisa?
      - No  s Louisa. Vejo isso o tempo todo. Quando as mulheres tm filhos, suas prioridades mudam. No estou julgando ningum,  apenas uma observao. Essa 
 uma prerrogativa das mulheres.
      - Sou diferente.
      Ele encolheu os ombros, sem concordar.
      - Eu realmente sou diferente, Mark.
      Ele riu da fria que se estampou no rosto dela, mas logo ela tambm riu e os dois falaram, ao mesmo tempo:
      -  isso que todas as mulheres dizem.
      - Preciso contar a Cassie agora mesmo. No d mais para adiar.
      Jojo sentiu uma fisgada de vergonha na barriga.
      - O fato de eu ter engravidado vai tornar tudo muito pior para ela.
      - Eu sei. Mas no  justo com Cassie deix-la sem saber.
      - Tem razo, mas no d para voc esperar at termos certeza absoluta?
      Mark pareceu irritado, mas logo se mostrou arrependido e pegou na mo dela.
      - Jojo, escute com ateno, pois  muito importante o que eu vou dizer. Cassie vai ter que saber de tudo em algum momento. Isso  um fato.
      - Eu sei - murmurou ela.
      - Voc conheceu Cassie. Viu que ela  uma mulher inteligente, com grande auto-estima, que no gostaria de ser a ltima a saber. Honestamente, acho que ela 
ia preferir que eu lhe contasse. No gostaria de passar por tola.
      - Voc acha?
      - S que eu quero que voc saiba: no vai ser nada agradvel. Vai ser terrvel, mas resolveremos o assunto. Eu j aceitei isso e ela  minha esposa. Voc  
uma pessoa corajosa, Jojo, e vai precisar ser valente para enfrentar essa barra. As coisas no vo se consertar por um passe de mgica.
      - E se ela conhecer outro homem e decidir abandonar voc? Eu gostaria disso.
      Ele suspirou.
      - OK, reze para Cassie conhecer algum. - Logo, seu tom de voz mudou: - Ou ento pare de me enrolar, Jojo.
      Algo fez o astral dela despencar.
      - Eu no estou enrolando voc.
      - Tem certeza, Jojo? Porque  isso que est parecendo. Oua-me com ateno. A deciso sobre o novo scio vai acontecer daqui a oito semanas. Vou largar minha 
esposa para vir morar com voc. Se isso no for o que voc deseja,  melhor me contar logo.
      Ela entrou em pnico.
      -  claro que eu quero isso. Mas  difcil para mim. Detesto a idia de desrespeitar Cassie e roubar seu marido. No so esses os valores morais sob os quais 
eu fui criada.
      - No foram esses os valores sob os quais eu fui criado tambm. Voc no  a nica nessa histria a se sentir mal, mas vou encarar tudo porque eu a amo. S 
que estou achando que estamos desnivelados em relao a isso.
      O instinto fez Jojo sentir que entrava em territrio muito perigoso. Estava muito perto de perd-lo.
      - Mark, foi voc mesmo quem disse que ns devamos esperar at a reunio para escolha do novo scio. No me lembro de ter me empolgado com isso.
      - No no primeiro momento. Mas depois das suspeitas iniciais sobre eu estar hesitante, bem que voc gostou. At demais, na minha opinio.
      Aquele era o problema com Mark. Ele era muito esperto.
      Jojo precisava escolher: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Tudo bem, ela ia ficar.
      - Espere at termos certeza da gravidez e ento contaremos a Cassie.OK?
      Ele olhou para ela com seus olhos muito escuros e disse, bem devagar:
      - Voc j foi avisada, mas... OK.
      - "Avisada"? No fale comigo nesse tom. No sou uma editorazinha que no paga os direitos autorais dos seus autores.
      Mas ele no pediu desculpas. Saiu sem dizer nada.
      Naquela mesma noite Jojo perdeu o sono, pensando. Mark, como era muito esperto, tinha razo em questionar a sua hesitao. Ela se sentiu arrasada. Nunca quis 
dar o sinal verde para Mark deixar Cassie. Esperava que algum evento externo acertasse as coisas. Seu
      cenrio favorito era Cassie conhecendo outro homem. Mas Mark estava errado em achar que ela o estava enrolando; o comprometimento de Jojo com Mark era forte 
como uma rocha. s vezes ela se perguntava o que havia de to especial nele. Tudo bem, ele atendia
      aos trs grandes quesitos: era inteligente, divertido e sexy, mas o sentimento dela era muito maior, e no efmero. Podemos avaliar os motivos de se amar algum, 
podemos at fazer uma lista deles. No caso de Mark, contavam a sua confiana, a sua inteligncia, o seu belo fsico e o fato de ele nunca deix-la entediada. Porm, 
havia ainda algo a mais, o fator x, o ingrediente mgico. Mark possua esse ingrediente, no importa qual fosse, e em grande quantidade.
      Ele era a pessoa favorita de Jojo e tudo o que ela fazia ou sentia - pelo menos em nvel subconsciente - no lhe parecia real at o momento em que contava 
para ele. Depois de alguns dias longe dele, ela sentia uma dor quase fsica. Ele a conhecia. O relacionamento deles era totalmente honesto e duas pessoas no poderiam 
ser mais adequadas uma  outra.
      Ela conseguia v-los juntos muito alm no futuro. Eram o Senhor e Senhora Terceira Idade, resolvendo palavras cruzadas juntos, ainda loucos um pelo outro, 
sempre os melhores amigos um do outro.
      Naquele dia, Mark verbalizara a resistncia dela e sua raiva a fez ultrapassar as barreiras que ela mesma se impusera. Ele ia abandonar Cassie e isso era bom. 
Ela se lembrou de um ditado: A nica sada  enfrentar. Sua opo era se arriscar a perder Mark e, na verdade, isso era inadmissvel.
      Ela estava pronta. Pelo menos, to pronta quanto jamais estaria. Mas continuava a se sentir mal por Cassie...
      Lembrou o que Becky dissera: talvez aquela gravidez no fosse um acidente. Talvez ela tivesse deixado isso acontecer para a deciso ser arrancada das suas 
mos. O engraado era que, embora no houvesse cem por cento de certeza de ela estar grvida, todos acreditavam nisso mais do que a prpria Jojo. Agora, porm, ela 
comeava a aceitar a possibilidade e at gostou da idia. Ela, Mark e um beb... Seria divertido. A vida deles certamente mudaria, mas no muito, e de uma forma 
boa. Ela devia festejar o fato, e no lamentar. Jojo nunca sentira a vontade que muitas mulheres tm de engravidar, no importavam as condies. Mas como aquilo 
era parte de um pacote e como aquele era um filho de Mark, tudo era diferente.
      Ela colocou a mo na barriga, porque era isso que as mulheres faziam, no era? Viu s o quanto ela fora feita para a maternidade? Como seria o beb deles? 
Nasceria com cabelos escuros, louros ou ruivos? Teria uma vontade de ferro, isso era certo, no importa de que lado ele puxasse. Na verdade, naquele exato momento, 
o DNA dos seus pais devia estar disputando terreno para ver qual dos dois iria prevalecer.
      
     
Lily
      
      "Caitriona estava grvida e morria de medo de que seu terror se materializasse no quarto beb a ser afetado. Ela no precisava de mais provas. Sabia. Tinha 
conhecimento de tudo fazia muito tempo. Aquele tipo de cncer era extremamente raro e alguma coisa o estava provocando... "
      
      Ningum me ouvia. Eu estava em uma livraria de Sheffield, na terceira e sensacional semana da turn promocional para o lanamento de Claro como Cristal. As 
oitenta e poucas mulheres amontoadas na sala analisavam as unhas, contavam os lajotes do piso ou
      planejavam o que preparar para o jantar do dia seguinte - qualquer coisa para fazer o tempo passar at o fim da leitura.
      Dei uma olhada na minha platia; o grupo de mulheres com mantos brancos; o trio que foi obrigado a ficar no fundo da loja porque seus chapus pontudos bloqueavam 
a viso dos outros; a gangue de amigas na primeira fila, todas segurando varinhas de condo feitas em casa, sem falar nos pompons e purpurinas.  claro que havia 
outras mulheres vestidas com roupas comuns na sala, mas as esquisitas atraam mais ateno.
      Tinha sido daquele jeito desde o incio da semana; em todas as sesses de leitura um monte de gente fazia um esforo espantoso para ficar parecido com alguma 
coisa tirada do livro As Poes de Mimi. Porm, mesmo correndo o risco de parecer ingrata, eu preferia que elas no fizessem isso. Eu acabava pensando: Minha nossa, 
que tipo de monstro eu criei? (Para piorar as coisas, aquilo desviava a ateno de Claro como Cristal, o livro que eu promovia e torcia para que todas comprassem.)
      Mais uma vez uma onda de inquietude me assaltou, endireitei as costas em meu banco alto e decidi pular a ltima pgina da leitura. Fizera a mesma coisa nas 
noites anteriores. Eu me sentia perplexa com o bvio tdio demonstrado pelas leitoras e no queria prolongar a sua agonia.
      "Caitriona pegou o telefone. Aquela ligao j devia ter sido feita h muito tempo... "
      Deixei a voz ligeiramente em suspenso para mostrar a todas que eu terminara de ler, e em seguida disse:
      - Muito obrigada. - Com toda a calma, pousei o livro sobre o plpito. Uma educada salva de palmas se seguiu e, quando o silncio voltou a reinar, perguntei: 
- Algum tem alguma pergunta?
      Uma das mulheres se levantou. No pergunte o que est querendo saber, implorei, em silncio. Por favor, no pergunte. Mas  claro que ela perguntou. Aquela 
foi a primeira pergunta em todas as sesses de leitura, em todas as noites da turn:
      - Voc no vai escrever outro livro como As Poes de Mimi?
      A aprovao de toda a sala foi quase tangvel. Todas concordaram com a cabea. As palavras Eu ia perguntar isso ficaram flutuando no ar, como um sussurro. 
Boa pergunta. Sim, excelente pergunta.
      - No. - Foi a minha resposta.
      - Ahhhh! - reagiu toda a sala, em unssono. O tom no era apenas de desapontamento, mas de mgoa, quase raiva. As varinhas de condo da primeira fila foram 
balanadas de forma agitada e as trs "bruxas" no fundo da sala tiraram os chapus pontudos e os colocaram junto do peito, como se mostrassem respeito pelos mortos.
      Desesperada, tentei explicar que As Poes de Mimi fora escrito como um desabafo, em reao ao assalto que eu tinha sofrido.
      - No dava para voc ser assaltada de novo, ento? - perguntou outra mulher, de brincadeira,  claro. Eu acho.
      - R-r-r - reagi, com um sorriso grampeado na cara. - Mais alguma pergunta? - Peguei o exemplar de Claro como Cristal que estava ao meu lado, s para lembrar 
 platia a razo de eu estar ali, mas nada feito. Todas as perguntas que se seguiram tinham a ver com As Poes de Mimi, sem exceo.
      - A personagem Mimi foi baseada em voc?
      - A cidade de Mimi  um lugar real?
      - Voc fez algum treinamento como bruxa antes de escrever o livro?
      Tentei responder a tudo com gentileza e graa, mas comeava a odiar Mimi, e isso era perceptvel nas minhas respostas. Logo depois veio a sesso de autgrafos 
e uma fila alegre se formou, serpenteando at o fundo da loja. S que em vez de todas trazerem a linda edio em capa dura de Claro como Cristal, pegaram na bolsa 
exemplares de As poes de Mimi, alguns to manuseados que pareciam ter sido disputados por matilhas de cocker spaniels. Senti um leve enjo.
      Ao mesmo tempo eu no poderia deixar de sentir gratido pelo calor de cada pessoa que se aproximava da mesa.
      - Obrigada por escrever As Poes de Mimi....
      - Amei este livro...
      - Ele salvou a minha vida...
      - Eu j li pelos menos dez vezes...
      - Comprei vrios exemplares e dei para todos os meus amigos...
      -  melhor que qualquer antidepressivo...
      - Melhor que chocolate...
      - Mal podia esperar para conhecer voc pessoalmente...
      Ganhei muitos presentes. Bombons caseiros, encantamentos escritos em pequenos pedaos de papel, um convite para um casamento drudico. A maioria das pessoas 
pedia para tirar uma foto ao meu lado, igualzinho quele dia com Miranda England, tanto tempo atrs.
      Se a minha carreira no dependesse tanto da boa vendagem de Claro como Cristal, eu at teria curtido as gentilezas e saboreado mais aquele gostinho de ter 
criado algo que comovera tanta gente. O fato, porm,  que a minha carreira dependia de Claro como Cristal vender bem, e das oitenta e tantas pessoas que apareceram 
para a sesso de leitura somente duas compraram o livro. Na vspera, em Newcastle, s trs exemplares foram vendidos, e na noite anterior quela, em Leeds, apenas 
um sara da loja; o mesmo acontecera em Manchester; em Birmingham, no incio da semana, nem um nico exemplar saiu das prateleiras. Aquilo no era bom. E as notcias 
sobre as listas dos mais vendidos tambm no eram nada animadoras.
      A caminho do hotel, depois de sair da livraria, liguei o celular e rezei com todas as foras para encontrar um recado de Jojo, informando que a Dalkin Emery 
queria me oferecer meio milho de libras pelo prximo livro. J estava entrando em delrio de tanto desespero.
      Qualquer notcia animadora serviria. Jojo enviara os primeiros sete captulos do novo livro havia mais de uma semana, no era possvel no ter retorno. A horrvel 
voz eletrnica entoou a ladainha de sempre: Voc no tem nenhuma mensagem. Liguei para Anton, que ficara em casa cuidando de Ema.
      - Pintou alguma novidade?
      - Jojo ligou. Ela no quis telefonar para voc durante a sesso de leitura, mas no h novidades. Tania ainda no deu retorno e Jojo acha melhor no pression-la.
      Engoli em seco. Era uma sexta-feira. No ia acontecer nada at segunda, pelo menos. Um fim de semana inteiro para suportar, sem saber o que o futuro me reservava.
      A extenso do erro de clculo que eu e Anton havamos cometido me deixou atnita. Obviamente devamos ter assinado o contrato com a Dalkin Emery em maio, quando 
tivemos a chance. S que na poca as coisas estavam indo to maravilhosamente bem que era inimaginvel que poucos meses  frente o meu livro novo estaria vendendo 
pouco a ponto de representar o fim da minha carreira literria.
      Analisando tudo a distncia, dava para ver agora que a Dalkin Emery comeara a tirar o time de campo em agosto. O chilique de Tania por causa da capa fora 
provocado, conforme eu descobri depois, porque alguns compradores de grandes cadeias de lojas amarelaram ao descobrir que Claro como Cristal era to diferente de 
As Poes de Mimi quanto um par de cenouras e os bigodes de Adolf Hitler.
      O problema  que ningum me disse nada. Nunca me comunicaram oficialmente que os pedidos haviam sido reduzidos, nem que a Dalkin Emery tinha perdido a confiana 
em mim. Eu  que acabei descobrindo isso pela alegria forada dos seus cumprimentos e pelo
      olhar deles, meio desconfiado. S que eu achava tudo to terrvel que continuei empurrando minhas esperanas com a barriga. Se eu fingisse que a coisa no 
era to ruim, talvez tudo desse certo.
      A questo era simples. Se a Dalkin Emery resolvesse no renovar o meu contrato, no s a minha carreira no mundo literrio estaria acabada, como tambm Anton, 
Ema e eu provavelmente perderamos a casa. O emprstimo nos fora concedido sob a condio de que pagssemos cem mil libras ao banco assim que meu novo contrato com 
a Dalkin Emery fosse assinado. Ns no tnhamos nenhuma outra fonte de renda. Tudo o que havia era o meu prximo cheque de pagamento de direitos autorais, que s 
seria pago em maro, dali a quase cinco meses. Resumo da equao: zero contrato mais zero dinheiro para pagar ao banco era igual a zero casa.
      Voltei para o meu solitrio quarto de hotel, tomei uma dose dupla de gim-tnica e devorei um saquinho de castanhas-de-caju do minibar. Estava exausta. Aquela 
fora uma semana difcil, acordando cedo e visitando inmeras livrarias, sem falar no monte de entrevistas
      para rdios e jornais locais, que se transformaram em um borro na minha cabea. Apesar do cansao, o terror me manteve presa em suas garras e me tirou o sono.
      Para me animar, pensei: Anton me trocou pelo chefe dos garons do Fleet Tandoori; tive gangrena no p e todo mundo reclama do cheiro; alguns profetas no Tibete 
decidiram que Ema ser o prximo Dalai- Lama; ela vai ser tirada de mim e levada para um misterioso
      lugar no Himalaia, onde ficar sentada de pernas cruzadas usando uma tnica cor-de-aafro e pronunciando mantras sbios e incompreensveis.
      Deitei na cama, bebendo meu gim-tnica e saboreando meus infortnios.
      Aquilo era horrvel... Especialmente a parte do p gangrenoso fedendo. Sem falar nos mantras sbios e incompreensveis.
      Esperei at me sentir absolutamente arrasada com a situao, para ento fazer o equivalente a pular de dentro de um guarda-roupa, gritando: "Peguei voc!  
tudo mentira!"
      Sim, avaliei... Dava para sentir uma levantadinha no astral. Aquele truque de psicologia reversa realmente funcionava. Ento percebi que j tinha tomado trs 
doses de gim-tnica e a animao que sentia era provavelmente efeito do lcool.
      
     
Jojo
     
     
      Quarta-feira de manh
      Quando a menstruao de Jojo chegou, com dez dias de atraso, ela se sentiu meio sem graa; a sorte  que ela no fazia o gnero "dramtica". Como o teste vinha 
dando negativo todo aquele tempo, ela no chegara a acreditar que estivesse realmente grvida, ento no se sentiu perdendo um beb. Apesar disso, ficou vagamente 
interessada em saber o que provocara o atraso: a ansiedade por Mark abandonar Cassie? A espera prolongada pela reunio que apontaria o novo scio da agncia? Estresse 
do trabalho? Puxa, nesse aspecto, havia muito com o que se estressar.
      Na segunda semana depois do lanamento do novo livro de Lily Wright, tinha havido uma melhora, mas nada para empolgar. Ela "subiu" do posto 168 para o 94, 
vendendo um pfio total de 1.743 exemplares. Considerando que no havia estao de trem em todo o pas que no tivesse anncios de Claro como Cristal, aquele nmero 
era pssimo.
      A Dalkin Emery estava abalada. Eles fizeram uma primeira edio com cem mil exemplares - s para comear, pois essa seria a primeira de muitas reimpresses 
- ou pelo menos foi o que imaginaram, no incio. Agora estavam calculando o tamanho do prejuzo
      que iriam sofrer.
      Na terceira semana, Lily alcanou o nmero 42 da lista, mas as comemoraes foram prematuras, porque na quarta semana ela voltou para o nmero 59.
      Jojo continuava a pressionar a Dalkin Emery em busca de mais anncios e descontos sobre o preo de capa. Patrick Pilkington-Smythe resolveu atend-la e isso 
foi assustador. A regra era os agentes forarem a barra e o pessoal do marketing resistir. Todos estarem o mesmo patamar de desespero era mau sinal.
      A Book News soltou uma nota depreciativa sobre a situao e, apesar de a Dalkin Emery insistir que ainda era cedo demais para existir e que as vendas iriam 
aumentar quando o Natal chegasse, Jojo sabia que, secretamente, eles no estavam nada otimistas.
      O que a incomodava mais era que a Dalkin Emery evitava falar do novo contrato. No diziam abertamente que no iriam assinar, mas Tania continuava adiando o 
momento, explicando que era preciso que os chefes da editora lessem o novo romance de Lily antes
      de chegar a uma deciso. Jojo achou que enviar o novo livro era mera formalidade, mas agora percebia o jogo da Dalkin Emery: eles estavam escondendo as cartas 
e observando o desempenho de Claro como Cristal antes de decidir se Lily Wright ainda era um investimento vivel.
      A pobrezinha da Lily rodara por todo o pas, aturando terrveis sesses de leitura uma atrs da outra. Todos os dias ela ou Anton ligava, com a voz cada vez 
mais fraca e apavorada, perguntando:
      - H novidades? Eles resolveram alguma coisa sobre o novo contrato?
      Morriam de medo ao perceber que a Dalkin Emery estava levando muito mais tempo que o esperado, mas a situao era delicada demais para Jojo forar a barra.
      Por vrias vezes Jojo tranqilizara Lily e Anton:
      - Tania me prometeu uma posio at o fim da semana - dizia ela.
      Mas o fim da semana chegava e Tania no tornava a ligar. De repente, quatro semanas j tinham passado e no havia data para a renovao do contrato.
      Jojo se sentiu mal, pssima mesmo, por causa de Lily. Ningum gostava de ver um livro muito esperado se transformar em uma bomba. Naquele caso, em especial, 
haveria srias conseqncias para a carreira de Lily. Aconselhar Lily a esperar fora um jogo. Agora estava claro que Jojo calculara mal as probabilidades de ganhar. 
Depois do desastre de Claro como Cristal, talvez a Dalkin Emery no quisesse editar nenhum livro da autora. Alis, nenhuma editora.
      
      Tera-feira  tarde, fins de novembro
      - Tania Teal na linha um.
      - Eu atendo!
      Era a resposta, Jojo sabia. As palavras que iriam condenar ou salvar Lily Wright.
      - Oi, Tania!
      - Desculpe, Jojo, mas Lily Wright j era.
      - Espere um instantinho...
      - No vamos renovar o contrato dela.
      - Tania, voc no pode estar falando srio. J leu o novo livro dela? J percebeu o quanto ele  fantstico?
      - Jojo, vou lhe dizer o que todo mundo por aqui pensa. As Poes de Mimi foi um evento nico, um sucesso isolado. A lealdade dos leitores no  para com Lily 
Wright, a escritora, e sim para com As Poes de Mimi, o livro. Claro como Cristal foi o maior desastre em toda a nossa histria.
      - Tudo bem, eu concordo que as vendas do livro em capa dura esto devagar quase parando, mas voc sabe o que isso significa? - Jojo se forou a parecer alegre 
e casual: - A edio de bolso vai estourar as vendas! Aconteceu exatamente isso com As Poes de Mimi! Acho que foi cedo demais para vocs publicarem Lily em capa 
dura, porque o livro sai mais caro. Os escritores precisam montar uma base slida de fs antes de passar para a capa dura. Mais uns dois livros lanados e os romances 
dela vo sumir das prateleiras.
      Tania no disse nada. No era tola. J ouvira gritos de muita gente na editora e no seria influenciada.
      - Acho que o livro que Lily est escrevendo agora  timo - insistiu Jojo.
      - Se Lily Wright quiser escrever outro As Poes de Mimi, ficaremos felizes em public-lo - disse Tania. - Se no for assim, nada feito. Sinto muito, Jojo. 
Sinto de verdade.
      Apesar da frustrao, Jojo compreendia Tania. Provavelmente ela estava sendo pressionada por todo mundo na Dalkin Emery. Aceitara o livro, levantara a bola 
dele, tratando-o como "o livro do ano" e a bomba explodira na sua cara. A carreira de Tania na Dalkin Emery sofreria um abalo por causa desse desastre. No era de 
estranhar ela estar com o p atrs.
      - Lily Wright  uma das autoras mais quentes que existem por a - garantiu Jojo. - Se vocs no quiserem publicar mais nada dela, h um monte de gente que 
vai querer.
      - Eu compreendo e desejo boa sorte para vocs.
      - A perda vai ser sua. - Jojo se despediu e bateu o telefone com fora. Em seguida recostou-se na cadeira, em sombria contemplao. Uma das autoras mais quentes 
que existem por a... Quem dera! Se as coisas continuassem naquele rumo, Lily Wright teria de comear a usar um sino amarrado no pescoo, como os leprosos na Antigidade.
      Ela enterrou o rosto nas mos. Safados! Agora ela precisava dar a notcia a Lily e preferia dar um tiro na prpria cabea. Suspirando de tristeza, levantou 
o fone do gancho. Era melhor resolver aquilo de uma vez:
      - Lily, tive notcias da Dalkin Emery, a respeito do novo contrato. - Falando depressa, para evitar que Lily criasse falsas esperanas, ela completou: - Sinto 
muito, mas so ms notcias.
      - Muito ms?
      - Eles no querem publicar o seu novo livro.
      - Posso escrever outro.
      - A no ser que esse outro seja parecido com As Poes de Mimi, eles no renovaro o contrato. Sinto muito, muito mesmo - atalhou Jojo, com sinceridade.
      Depois de alguns instantes de silncio, Lily disse, baixinho:
      - Tudo bem. Pode acreditar, Jojo, aceitei a notcia numa boa.
      Aquilo era a cara de Lily: ela era doce demais para sair gritando, reclamando e xingando.
      - Sinto-me pssima por no ter insistido para que voc assinasse o contrato em maio. - Quando eles ainda queriam voc.
      - No se sinta assim. Ningum me forou a esperar - disse Lily. - A escolha foi minha. Alis, minha e de Anton. S mais uma perguntinha: h alguma esperana 
de Claro como Cristal ressuscitar, a essa altura do campeonato?
      - Ainda faltam alguns anncios em jornais e revistas.
      - Talvez se Claro como Cristal se recuperar no final, eles mudem de idia. Ou quem sabe outra editora vai querer me publicar.
      - Isso mesmo, garota!  assim que a gente deve encarar as coisas!
      Jojo desligou, sentindo-se arrasada. Dar ms notcias era parte do trabalho, tanto quanto compartilhar momentos bons, mas ela se viu chateada como no se sentia 
h muito tempo. Pobre Lily.
      Em termos pessoais, e mais egostas tambm, esse no era um bom momento para Jojo exibir um fracasso como aquele. Com a deciso sobre o novo scio da empresa 
se aproximando, aquela marca no seu imaculado perfil profissional no era bem-vinda. Ela continuava gerando muito mais lucro para a agncia naquele ano do que qualquer 
outro agente, mas sua coroa perderia um pouco do brilho.
      
      Manh seguinte
      Jojo foi olhar na lista de mais vendidos, tentando digitar no teclado e manter os dedos cruzados ao mesmo tempo. Milagres aconteciam, mas s um tolo esperaria 
por um coelho prestes a sair daquele mato.
      Ela foi descendo, descendo, descendo, descendo... Ento parou.
      - E a...? - perguntou Manoj, tambm com os dedos cruzados.
      - Parece uma pedra afundando no mar - suspirou Jojo.
      Seu telefone tocou e ela imaginou quem poderia ser: Patrick Pilkington-Smythe.
      - Vamos parar de anunciar o livro de Lily Wright. Estamos jogando dinheiro fora.
      - Vocs vo tirar o time de campo? Isso  mau. Um ltimo empurrozinho para as vendas de Natal poderia fazer toda a diferena.
      Ele riu to alto que parecia um latido.
      - Voc nunca desiste, no , Jojo?
      - Digo sempre o que eu penso.
      Patrick no retrucou. Ele j trabalhava no mercado h muito mais tempo que Jojo. Fingir que as coisas iam bem no significava que tudo daria certo. O rombo 
no oramento provocado pela grana gasta em propaganda para aquele livro era a prova disso.
      Vencida, Jojo desligou. Ela tambm no acreditava mais.
      
     
Gemma
      
      Sabem de uma coisa? Escrever um livro no  assim to simples quanto parece. Primeiro a minha editora (eu adoro falar isso: "minha editora") me obrigou a reescrever 
montes de pginas para tornar Izzy mais calorosa e Emmet "mais humano e no uma caricatura de Mills & Boon", segundo suas palavras - que cara-de-pau a dela! Ahn, 
desculpem... Que cara-de-pau a da "minha editora". Depois, quando deixei tudo conforme o que a "minha editora" mandou - e isso levou sculos, desde o incio de agosto 
at meados de setembro - , uma preparadora de texto (no era a "minha editora") passou um pente-fino e me devolveu tudo acompanhado de um questionrio. O que era 
"man"? O Restaurante Marmoset existia de verdade? Eu conseguira permisso do autor para citar a cano Papa Was a Rolling Stone no texto? Que tal trocar a frase 
para "Papai Era um Traidor Sem-Vergonha"?
      Depois disso tudo, eu ainda tive que rever a primeira prova da grfica, analisando cada palavra para ter certeza de que eu a escrevera de forma correta, at 
que as letrinhas saram do texto de braos dados e comearam a danar canc diante dos meus olhos embaados.
      Que fique bem claro que eu no reclamava de nada, por causa do adiantamento que eles tinham me dado; quase ca dura quando Jojo me informou o valor: sessenta 
mil. Sessenta mil. Libras! Eu teria vendido os direitos por qualquer merreca, pois ser publicada j era um prmio em si; em vez disso, eles queriam me pagar uma 
vez e meia o meu salrio anual e, para melhorar as coisas, era tudo sem taxas. (Na Irlanda, a renda de "atividades artsticas"  isenta de impostos.)
      Minha imaginao, que geralmente j corria solta, ficou descontrolada diante de tal quantidade de grana: eu ia pedir demisso do emprego e viajar pelo mundo 
todo durante um ano; venderia o meu carro e compraria outro; iria at Milo s para comprar tudo que estivesse  venda na Prada.
      Ento coloquei os ps no cho e percebi que aquela sorte inesperada era resultado da desgraa que se abatera sobre minha me. Ela teria que se mudar no comeo 
do ano seguinte; o dinheiro do adiantamento faria toda a diferena na hora de escolher um lugar legal para ela morar, em vez de um barraco ou uma pocilga.
      Eu tambm devia muito a Susan e, quando perguntei o que ela queria ganhar de presente, ela confessou que perdera a cabea na hora de trocar de moblia e comprou 
um monte de enfeites para o apartamento em Seattle; adoraria se eu quitasse um dos seus dbitos. (Pelo fato de seu pai ser um mo-fechada, Susan no tinha a mnima 
noo de como lidar com grana.)
      - Escolha um carto - disse-me ela. - Pode ser qualquer um.
      Escolhi os Modulados Jennifer e prometi zerar o boleto quando ele chegasse.
      Prometi, mas ainda no tinha cumprido, porque at ento, em fins de novembro, eu ainda no tinha visto a cor do dinheiro. O pagamento fora dividido em trs 
parcelas; um tero na assinatura do contrato (eles passaram tanto tempo mexendo nas clusulas que eu
      s o assinara no ms anterior), um tero "na entrega" do texto final e um tero na data do lanamento. Eu achava que tinha "entregado" o texto final no fim 
de junho, quando eles se interessaram pelo livro, mas a tica deles era diferente. Eu no "entreguei" nada at eles terem nas mos um original reescrito que os satisfizesse, 
e isso s foi conseguido havia duas semanas.
      Finalmente eles haviam concordado com um ttulo. Ningum gostou da minha sugesto de Doce Papai, nem Marte Ataca. Choquelate foi o nome final por algum tempo, 
mas algum da Dalkin Emery sugeriu Caando Arco-ris, e, de repente, todos adoraram. Menos eu, que achava o ttulo bonitinho demais.
      O dia em que a capa chegou foi inesquecvel. Uma aquarela meio desfocada em tons de azul e amarelo, em que se divisava uma jovem com cara de quem acabou de 
perder a bolsa. Mas o meu nome estava impresso. Meu nome!
      - Mame, veja s!
      At ela ficou empolgada. J no parecia to pattica e perplexa quanto nos primeiros meses ps-papai. O interesse dele em acertar um acordo financeiro definitivo 
a modificara de vez. Aquilo deixou mame zangada, o que no era mau.
      O temido telefonema de papai comunicando que Colette estava grvida ainda no tinha vindo. No vero, porm, ele nos enviara uma carta confirmando que no minuto 
exato em que a separao completasse um ano ele entraria com uma petio para vender a casa. A partir da, foi como se estivssemos vivendo alm do tempo regulamentar. 
Algo mudara. A partir do dia em que papai foi embora, tanto mame quanto eu havamos considerado a sada dele como temporria, como se nossas vidas estivessem com 
o boto de pausa
      apertado. Depois da carta, porm, tive de negociar algumas mudanas. No podamos continuar do jeito que estvamos.
      No foi fcil. Antes, mame derramava rios de lgrimas e tinha uma seleo de doenas e chiliques, tanto falsos quanto verdadeiros. A partir da carta, ela 
pareceu concordar com a minha necessidade de espao e, no fim do vero, eu j conseguia dormir em meu apartamento por trs ou quatro noites em cada sete. Eu via 
muito mais a minha me do que a maioria das mulheres de trinta e poucos anos, mas mesmo assim curtia uma liberdade maravilhosa.
      Ela analisou a garota meio desfocada na capa do livro.
      - Ela  voc?
      - No, s simbolicamente.
      - Ah, bom. Eu j ia reclamar que o cabelo est com a cor errada. E ela me parece meio desorientada.
      - Como se o pai tivesse acabado de abandonar a me?
      - Como se ela tivesse esquecido o gs de casa ligado, ou no conseguisse lembrar a palavra exata para algo. Meio estranha, como a cara dos reis egpcios que 
morriam e eram preparados antes de ser enterrados nas pirmides. No lembro o nome do processo...Comea com M, est na ponta da lngua... Voc no acha?
      Olhei novamente. Mame tinha razo. Uma mmia! Era exatamente a jovem da capa.
      - Voc vai ter que mostrar isso a Owen - disse ela, com ar dissimulado.
      Mame j sabia sobre Owen: na verdade, ela at o conhecia. Estranhamente, considerando sua desconfiana com tudo que interferia em minha dedicao total a 
ela - como o meu emprego- por exemplo - , mame gostou dele. Eu lhe pedi para no se dar ao trabalho
      de fazer isso, porque Owen no iria ficar na rea muito tempo. Nossa srie de encontros - eu me recusava a chamar aquilo de relacionamento, pois seria valorizar 
demais o caso - continuava aos trancos e barrancos, meio instvel, como se estivssemos para terminar tudo a qualquer momento para nunca mais nos vermos. Mesmo assim, 
continuvamos em frente, brigando o tempo todo com muito entusiasmo durante o vero e entrando outono adentro. Agora estvamos ali, em pleno novembro, e ainda formvamos 
um casal- um casal que estaria na seo de produtos defeituosos se estivesse  venda em lojas; mesmo assim, um casal.
      - Owen. - Eu dei de ombros, com ar de desprezo.
      - No tente diminu-lo para mim - disse mame. - Ele  mais jovem que voc e vai magoar seu corao, mas voc vai acabar se casando com ele.
      - Casar com ele? A senhora bebeu?
      Ela me olhou fixamente e ento pediu:
      - Por favor, no fale comigo desse jeito, porque... Como  mesmo que a garotada fala...? Isso  um golpe abaixo da cintura, e di muito.
      Sorri para ela. s vezes eu tinha esperana. Tinha mesmo.
      - Eu vivo dizendo  senhora... - informei. - Owen  algum temporrio, um namorado provisrio, que s vai funcionar at os profissionais chegarem.
      Mas mame se mostrava inflexvel e garantia que ele era o meu Prncipe Encantado.
      - Voc  autntica quando est com ele; mostra o seu "eu" real;  voc mesma.
      Pode ser, mas o "eu" que eu usava com Owen era o errado, no o da Gemma gente fina.
      
      Por outro lado, ele:
      a) era muito bom de cama;
      b) alm disso, ele... ahn... danava muito bem;
      c) ahn...
      
      - Ningum chega  minha idade sem aprender uma ou duas coisas sobre romance - insistiu mame.
      Eu no disse nada, pois seria crueldade demais.
      - Vocs, garotas, vivem falando do "homem da sua vida", mas ele vem em vrias formas e tamanhos. Muitas vezes a mulher no percebe que ele j  algum que 
ela conhece. Sei de uma moa que encontrou o "homem da sua vida" em um barco a caminho da Austrlia quando ia atrs de outro sujeito. Durante a viagem ela fez amizade 
com um rapaz adorvel, mas estava to obcecada pelo australiano que no percebeu que o rapaz que conhecera era o "homem da sua vida". Tentou convencer o australiano 
a se casar com ela, mas acabou caindo na real. Sua sorte foi que o rapaz do barco ainda estava disponvel. Sei tambm de uma garota que...
      Desliguei mame da minha cabea. Casar com Owen? Duvi-de-od. Como eu poderia casar com Owen se eu e Anton iramos reatar? Alis, isso era uma coisa que Owen 
sabia, e com a qual concordava. (Ele voltaria para Lorna, eu voltaria para Anton e todos iramos passar as frias na Dordonha juntos. J tnhamos planejado tudo.)
      Mame foi em frente com sua fantasia e se mostrou quase animada, o que era bom, porque assim eu nem precisava falar com ela e podia pensar um pouco na minha 
vida.  que eu me sentia meio esquisita por haver mais uma pessoa (alm de Owen) a quem eu gostaria de mostrar a capa do livro: Johnny, o farmacutico. Afinal, aquilo 
me parecia justo, porque ele sabia tudo a respeito do livro; ele me incentivou desde o incio, na poca em que eu era cliente assdua da farmcia.
      No nos vamos mais com tanta freqncia, e no apenas pelo fato de mame estar tomando menos medicamentos. Nada disso. Naqueles dias em que o flerte com Johnny 
comeou a engatar uma segunda, ameaando se transformar em algo importante, eu parei para pensar.
      Mesmo estando a meio caminho da insanidade, vivenciei uma janela de estabilidade mental e percebi que Owen era meu namorado. Apesar dos nossos altos e baixos, 
apesar do fato de eu no planejar que ficssemos juntos, enquanto a coisa durasse eu ia trat-la com respeito como se eu fosse algum altrusta, ou algo desse tipo.
      Johnny deve ter pensado e sentido a mesma coisa, porque, quando tornei a v-lo, logo depois de pensar essas coisas, ele me perguntou:
      - Como vai o seu no-namorado?
      Fiquei vermelha.
      - Ele vai bem.
      - Vocs continuam juntos?
      - Sim.
      - Ah. -  como dizem: s vezes, uma palavra fala mais que muitos livros.
      Ele no disse que no devia pisar nos calos de ningum, mas deixou claro que era o que pensava. Tinha muito respeito por si mesmo. Assim, por mtuo acordo, 
nos afastamos um do outro. Alm do mais, tudo o que nos unia - nosso isolamento do resto do mundo - no rolava mais. Eu conseguira minha vida pessoal de volta e, 
mesmo parecendo maluca, sentia como se o tivesse abandonado.
      s vezes, quando eu saa para ficar bbada com Owen, eu via Johnny e ele sorria para mim, mas nunca chegava junto. Teve uma vez em que pensei t-lo visto com 
uma garota. Na verdade, ele estava com um monte de gente, mas ficava mais perto dela que dos outros. Ela era bonita, tinha um corte de cabelo fantstico, todo picotado, 
e admito que fiquei com cime, mas provavelmente isso foi mais pelas roupas dela do que outra coisa. Entretanto, na vez seguinte em que o vi, ele estava sozinho, 
ento eu talvez tenha imaginado algo inexistente.
      At que eu me comportei muito bem: respeitei a nossa deciso. Inclusive, teve uma semana em que eu estava atolada no trabalho e comprei os remdios de mame 
em outra farmcia.
      Mesmo assim, eventualmente eu ainda inventava um desculpa para v-lo. Qual , pessoal, eu no sou nenhuma Gandhi! Johnny era como uma caixa de sorvete de morango 
com cheesecake da Haagen Dazs - totalmente proibida, mas isso no significava que s vezes eu no fosse acometida por uma verso emocional da fome enlouquecedora 
que sentia antes de ficar menstruada. O mesmo tipo de Fora Irresistvel que me levava a escancarar a geladeira e comer uma embalagem inteira de sorvete me levava 
a inventar um pretexto para ver Johnny, pegar o carro e ir at farmcia s para comprar uma caixa de comprimidos de zinco (por exemplo). O pior  que eu sempre voltava 
para casa insatisfeita. Ele era muito educado e batamos altos papos, mas no havia aquele frisson - isso porque ele era
      um cara decente com uma saudvel dose de auto-respeito. Acho que ningum  perfeito.
      - Me! - Interrompi a histria dela a respeito de algum que deixara de ver o "homem da sua vida" quando ele estava bem debaixo do seu nariz, danando quase 
pelado. - A senhora precisa de alguma coisa da farmcia?
      Ela pensou antes de responder:
      - No.
      - A senhora no acha que devia aumentar um pouco a dose do antidepressivo?
      - Na verdade eu pensei em diminuir alguns miligramas.
      - Ah, ? Ento t...
      Dane-se, vou l de qualquer jeito.
      Equincea, eu decidi.  uma coisa bem razovel de se comprar, especialmente nessa poca do ano. Ao me ver chegar  farmcia, Johnny me recebeu com um sorriso. 
No que isso seja vantagem, porque Johnny sorri para todos os clientes que chegam, at para o
      velho com psorase no corpo inteiro.
      - Que veneno deseja para hoje?
      - Equincea.
      - Voc est resfriada?
      - Ahn... No.  s para prevenir.
      - Muito sensato pensar nisso. Bem, temos vrias opes.
      Droga.
      Ele entrou em detalhes a respeito de dosagem, apresentao (lquido ou cpsulas), com ou sem vitamina C, at eu me arrepender de no ter pedido algo mais simples.
      - Voc est muito ocupado? - perguntei, tentando fazer com que ele sasse de trs do balco e viesse falar comigo.
      - Muito. As seis semanas que antecedem o Natal so as piores.
      - Para mim tambm. Como vai o seu irmo?
      - Est se recuperando numa boa. Ou melhor, se recuperando numa pssima. Anda fazendo um monte de fisioterapia na perna destroada e no est curtindo nem um 
pouco.
      Fiz alguns rudos banais do tipo" Ah...", "Puxa... " e de repente soltei um "Ei!", como se tivesse acabado de me lembrar de algo, e peguei a capa do livro 
na bolsa.
      - Acho que voc vai gostar de ver isso, Johnny.
      - O que ... A capa do seu livro! - Seu rosto se acendeu. Ele pareceu feliz de verdade, por mim. - Meus parabns!
      Ele analisou a capa durante sculos, enquanto eu o observava. Sabem de uma coisa?... Ele era realmente muito bonito, com aqueles olhos inteligentes e o cabelo 
liso, sedoso e brilhante. Se bem que seria uma vergonha se o seu cabelo no fosse sedoso, j que ele tinha facilidade de escolher entre tantos produtos diferentes...
      - Ficou muito bonita - sentenciou, por fim. - Em poucas pinceladas imprecisas eles conseguiram faz-la parecer meio desolada. Muito bom! Estou louco para l-lo,
      Senti uma fisgada estranha, que no reconheci de imediato.
      - O que houve com o ttulo? - questionou ele. Achei que tnhamos concordado que seria Choquelate.
      Choquelate tinha sido a sugesto dele.
      - Pois ... Eu adorei Choquelate, mas o pessoal do marketing da editora no gostou.
      - Bem, no podemos ter tudo o que queremos.
      Ser que eu estava imaginando coisas ou havia um significado mais profundo nessa frase? E no jeito como ele me olhou, ao pronunci-la devagar? Ser que eu 
acabara de ter uma recada do velho frisson?
      Suspeitei que sim, mas logo em seguida me bateu a culpa e ento, aturdida, me virei para ir embora.
      - Sua equincea! - ele berrou quando eu j estava quase na porta.
      
     * * *
      
      Algum tempo antes, em agosto, depois que o departamento de divulgao da Dalkin Emery me enviou uma pgina da Book News mencionando o contrato que eu assinara 
para o livro (ser que Lily tinha lido?), eu passei a comprar a Book News toda semana, para ver se publicavam mais alguma coisa a meu respeito. Embora eu analisasse 
todas as linhas de todos os artigos em todos os nmeros, nunca mais achei nada, mas em novembro vi uma meno a Lily. Era um artigo sobre as vendas de livros para 
o Natal, que estavam decepcionando:
      
      Os livreiros vm relatando vendas "extremamente desanimadoras" do novo livro de Lily Wright, Claro como Cristal. Esperava-se que Wright, autora da celebrada 
sensao do
      ano, As Poes de Mimi, voltasse ao topo das listas dos livros mais vendidos na poca do Natal com o seu novo romance, mas ele no conseguiu figurar nem mesmo 
entre os dez mais. O livro, lanado ao preo de 18,99 libras, vem recebendo expressivos descontos, sendo vendido a 11,99 libras na rede Waterstones, e at mesmo 
por 8,99 em algumas lojas de pontas de estoque. Dick Barton-King, diretor de vendas da Dalkin Emery, declarou: "Claro como Cristal  um livro que ser adquirido 
como presente, e no para leitura pessoal. As vendas vo melhorar nas prximas semanas, perto do Natal."
      
      Por essa mesma poca, li uma resenha de Claro como Cristal no jornal (eu acompanhava as resenhas dos lanamentos literrios, agora). O crtico dizia que As 
Poes de Mimi fora um livro delicioso de ler, mas o novo romance era pesado, sem charme e s iria desapontar os fs da autora sem lhe conseguir novos admiradores.
      Aquilo era terrvel para ela.
      
      Tudo bem, eu confesso: adorei a notcia!
      
     * * *
      
      Um belo dia, em dezembro, ao voltar do trabalho, havia uma caixa sobre a mesa da cozinha.
      - Balancei a embalagem - confessou. mame, toda empolgada. - Acho que so livros. Abra logo! - Ela me entregou uma tesoura.
      Cortei a fita adesiva em volta da caixa e descobri seis exemplares de Caando Arco-ris quase com o formato de um livro de verdade. Minhas pernas ficaram moles 
e precisei me sentar para ler a nota que os acompanhava.
      - So apenas exemplares da ltima prova - avisei. - Ainda existem erros de ortografia, as capas esto soltas e falta a encadernao final. Trata-se de material 
especfico para revisores e crticos literrios.
      - Mas  um livro! - sussurrou mame. - Voc o escreveu. E tem o seu nome na primeira pgina.
      - Sim. - Ver o meu livro praticamente no formato definitivo fez com que eu me sentisse estranha, e no de um jeito agradvel.
      Enquanto o folheava, me senti estremecer por dentro e subitamente entendi a fisgada que sentira na farmcia; ali estava descrita, pgina por pgina, a solido 
de "Will", isto , Johnny. Eu me espantei com o tamanho da minha imbecilidade. Ao escrever o livro, eu me preocupei tanto com a reao de mame que nem me ocorreu 
que outras pessoas tambm poderiam ficar magoadas ao se verem retratadas ali. Especialmente Owen. Na verdade, eu nem pensei na possibilidade de ele ainda estar na 
minha vida quando o livro fosse lanado. Afinal, ele vivia indo embora revoltado e quase no fazamos outra coisa alm de brigar. Mas agora o livro estava pronto, 
Owen continuava ali e meu heri romntico era baseado em outro homem. Owen era supersensvel com os meus arroubos de desconsiderao por ele; alm do mais, sabia 
que eu passava - ou pelo menos costumava passar - um monte de tempo na farmcia.
      Mesmo na poca em que eu fiz os acertos e correes, encarei aquilo apenas como um exerccio acadmico e no algo que iria cair em domnio pblico, disponvel 
a todos que quisessem pegar e ler. Como eu podia ser to burra?
      E quanto a Johnny?  claro que ele ia se reconhecer na histria. Ia descobrir que eu estava a fim dele. Ou tinha estado, pelo menos. Provavelmente ele j desconfiava 
disso, mas de qualquer modo era uma situao embaraosa...
      Todos aqueles personagens eram pessoas de verdade que iriam ficar sentidas. Talvez ainda desse tempo de eu cortar o problema pela raiz. Mas de que jeito? No 
tinha idia de como proceder com Owen. Para Johnny, talvez eu pudesse oferecer um exemplar do livro e fazer piadinhas sobre o contedo, mas desconfiei que isso iria 
piorar as coisas; era melhor deixar tudo como estava.
      Tremendo de medo por dentro, eu me perguntei se haveria jeito de interromper todo o processo. Ento abri outro envelope que veio no pacote: um cheque. Um cheque 
enorme, o primeiro dinheiro que chegava s minhas mos, vindo da Dalkin Emery.
      Olhei para o valor: trinta e seis mil libras esterlinas. Merda. Eles haviam mandado a parcela da assinatura do contrato e a da entrega final do original em 
uma nica remessa, deduzindo apenas os dez por cento de Jojo.
      Pelo jeito, no havia retorno.
      Resolvi que a melhor maneira de lidar com Owen era evitar que ele lesse o livro pelo mximo de tempo que eu conseguisse; ele nunca lia livro nenhum, mesmo. 
Isso me acalmou e eu me senti no controle da situao. Foi ento que cometi um erro terrvel: fui ao banheiro e no levei o celular.
      Ouvi o aparelho tocar, mas deixei que a caixa postal atendesse. S que ele parou de tocar e minha me disse:
      - Que boto eu aperto?... Al!... Owen, meu amor, como vai voc? Temos novidades! Gemma recebeu os primeiros exemplares do livro. Claro que j tem um separadinho 
para voc, chegaram seis! Alm do mais, ela recebeu uma grana preta, mas eu acho que isso  segredo.
      Sa correndo, mas ela j desligara.
      - Owen acabou de ligar pra voc nesse trem - disse ela, apontando para o celular e alheia  minha cara de pnico. - Ele vem buscar o livro dele.
      Olhei com ar de desespero. Mame nunca atendia meu celular, por que resolvera fazer isso?
      Talvez Owen no aparecesse. No se podia confiar nele.
      S pra contrariar, porm, Owen chegou a jato e irrompeu pela sala, todo empolgado:
      - Isso  superdemais! - Passou os dedos sobre o meu nome impresso. - Que capa legal!
      - No parece que a garota que colocaram a no consegue se lembrar da palavra certa para alguma coisa? - Mame se animou.
      Owen analisou a imagem:
      - Ela est com cara de quem acabou de descobrir que o pneu do carro furou, no tem macaco e vai pedir a algum para parar e ajud-la.
      Por que ser que tudo para Owen tinha a ver com carros?
      Ele me entregou o exemplar que segurava, perguntando:
      - Voc vai autograf-lo para mim?
      - So apenas provas da grfica. O texto ainda est cheio de erros.
      - Isso faz com que ele seja ainda mais especial.
      Desisti. Senti que no conseguiria escapar daquela furada. J era. Escrevi rapidamente "Para Owen, com amor... Gemma" e devolvi avisando, meio nervosa:
      - No esquea que tudo o que est a  fico. Eu inventei tudo, nada  real.
      - Aceita uma cervejinha, Owen? - ofereceu mame. Ela comeara a comprar garrafas de cerveja escura Murphy especialmente para ele.
      - Sim, fique mais um pouco e beba alguma coisa, Owen - eu fiz eco.
      - No, obrigado, sra. Hogan, mas vou correndo para casa para ler isto.
      L se foi Owen e eu fiquei me perguntando se algum dia voltaria a ter notcias dele.
      
     * * *
      
      O mais estranho  que Owen, que era supersensvel para certas coisas e se magoava at quando eu no tinha inteno de mago-lo, no ficou chateado ao ler Caando 
Arco-ris.
      Ligou para mim logo cedo, no dia seguinte.
      - Vou levar voc para jantar na noite de sexta para celebrarmos. No Four Seasons.
      Eu adorava o Four Seasons mais que qualquer outro restaurante na vida. (Owen detestava... Dizia que todo aquele luxo o deixava sufocado.) Ele me convidar para 
jantar era um bom sinal.
      - Voc j leu o livro todo? Gostou?
      - Vamos conversar sobre isso durante o jantar.
      Mas era claro que ele havia gostado.
      
      - E ento?
      - Achei o mximo! Quer dizer... Tem muito mais beijos do que gosto em uma histria, e muito menos cadveres, mas mesmo assim  divertido. Aposto que voc baseou 
o personagem Emmet em mim. Eu deveria ganhar at um agradecimento: "Inspirado em Owen Deegan. "
      Eu ri, meio sem graa. No conseguia acreditar que estava escapando daquilo numa boa.
      - Eu tambm sou o cara da farmcia? Ele tambm foi baseado em mim?
      - Olhe o que eu trouxe para voc - desconversei, entregando-lhe um pacote embrulhado para presente. -  uma Ferrari. De brinquedo - acrescentei, antes que 
ele fervesse de tanta empolgao.
      Ele abriu o presente e jurou ter adorado o carrinho.
      - Uma Ferrari vermelha! - Ele brincou com ela pra cima, pra baixo e sobre a mesa, fazendo "NEEEEEEEAAARRNNN!", at atingir o sapato feito  mo de um executivo 
americano. O maitre pediu para Owen parar com aquilo e ele atendeu. Voltou para a mesa dizendo:
      - Sabe de uma coisa?... Andei pensando...
      As palavras terrveis.
      - Eu j conversei com voc sobre esse assunto - disse eu, com ar cansado. - Olhe s... Para celebrar o seu adiantamento, devamos sair de frias, s eu e voc. 
Tem um lugar que eu descobri, um resort em Antgua. Eles oferecem um monte de esportes aquticos para os hspedes, e agora vem a melhor parte:  tudo de graa! At 
mesmo as bebidas, e so marcas de primeira qualidade, no  daquelas manguaas produzidas em fundo de quintal que deixam voc doido no primeiro gole. Devamos ir 
at l; Gemma, vai ser bom para ns, bom para a nossa... ahn... relao.
      - Voc est me dizendo que quer aprender windsurf com a caveira cheia de pifa colada de boa qualidade? - No pretendia bancar uma viagem minha com Owen para 
lugar nenhum. Precisava de cada penny para pagar a mudana da mame. No queria comear a gastar grana comigo mesma. Eu me conhecia bem... Quando comeava a gastar, 
no parava mais.
      - Minha namorada assinou um supercontrato com uma editora e tudo que eu ganhei foi esse carrinho de brinquedo - reclamou Owen, e ficamos sentados ali, ressentidos 
e em silncio. Isto , ele ficou. Eu tambm estava calada, mas era um silncio comum.
      - Puxa,  uma grande conquista conseguir ter um livro publicado - continuou ele, depois de algum tempo. - Voc devia comemorar, e est com dinheiro para isso. 
Devia fazer alguma coisa legal por voc. Sei de sua preocupao com a sua me, mas a vida deve continuar.
      Eu nunca conseguiria decidir se ele era um fedelho egosta ou se estava me demonstrando amor de forma rude.
      - Tudo bem, pegue o folheto, mas vamos passar s uma semana.
      Owen ficou empolgadssimo.
      - Parabns! - disse ele. - Finalmente voc est comeando a se comportar como uma pessoa normal.
      Aquele era um momento histrico. Eu ia sair de frias. Iria deixar a minha me sozinha por uma semana e ela que se virasse. Eu estava melhorando. Minha vida 
estava melhorando.
      - Se ns conseguirmos passar uma semana inteira juntos sem matar um ao outro, acho que devamos nos casar - sugeriu Owen.
      - Legal. - Eu sabia que a chance de aquilo acontecer era zero.
      - Eu acabei de propor casamento a voc.
      - Obrigada.
      - Nunca pedi ningum em casamento em toda a minha vida. Alis, para ser franco, esperava um pouco mais de entusiasmo, alm de "legal" e "obrigada".
      - A vida real no  como nos filmes.
      - Ah. Mas, afinal de contas, o carinha da farmcia foi baseado em mim?
      - No. - Eu no poderia mentir.
      - Ento, quem  esse cara?
      - Owen - expliquei, com ar de superioridade - , sou muito mais velha que voc. Tive vrios namorados e, de certo modo, todos eles me inspiraram na criao 
do Will.
      - No seja condescendente comigo. Voc no  to mais velha do que eu e aposto que tive tantas namoradas quanto voc.
      A isso se seguiu uma competio para ver qual dos dois tinha dormido com mais pessoas, e isso dissolveu um pouco o clima estranho a respeito de Johnny, o farmacutico. 
O pior  que acabamos tendo uma briga monumental quando ficou relativamente claro que eu tinha dormido com mais gente do que ele, mas, enfim,  isso a...
      
     
Lily
      
     BANCO FIRST NATIONAL
      
      Edgeware Square, 23-A, Londres, SW I IRR
      
      5 de dezembro
      Caros sr. Carolan e srta. Wright,
      
      Assunto: Grantham Road, 37, Londres, NW3
      
      Com referncia  clusula 7(b), subclusula (ii) do contrato assinado entre o Banco First National, o sr. Carolan e a srta. Wright no dia 18 de junho do corrente 
ano, vimos esclarecer que: a clusula citada acima determina que um pagamento de 1oo.ooo (cem mil libras esterlinas) deveria ser pago pelo sr. Carolan e pela srta. 
Wright na data limite de 30 de novembro do corrente ano. At o dia de hoje, 5 de dezembro, tal pagamento ainda no foi por ns recebido (e uma conversa telefnica 
com o sr. Carolan confirmou que a dvida no ser honrada em um futuro prximo). Sendo assim, no temos opo a no ser invocar a clusula 18(a), que determina: 
"Na eventualidade de no-pagamento de qualquer dos valores devidos dentro dos prazos determinados, a propriedade ser imediatamente retomada. "
      Desse modo, a residncia localizada na Grantham Road,37, dever ser desocupada at o dia 19 de dezembro, duas semanas a contar da data de hoje. Todas as chaves 
da propriedade devero ser enviadas por correio registrado para o endereo em epgrafe.
      
      Atenciosamente,
      
      Breen Mitchell
      Gerente de Emprstimos Especiais
      
      Parecia o fim do mundo.
      Tudo aconteceu depressa demais. Quando Jojo ligou com a notcia terrivelmente terrvel de que a Dalkin Emery no iria renovar o meu contrato, fiz o que normalmente 
fao sob presso: vomitei o almoo...Depois, resolvida essa formalidade, Anton e eu analisamos nossas limitadas opes. A preocupao que nos assombrava era no 
termos condies de pagar a segunda parcela da casa.
      Apesar disso, erguemos os ombros e decidimos que, em vez de nos escondermos atrs do sof, matraqueando sobre o assunto e gaguejando sem parar, iramos nos 
comportar como adultos responsveis e ser diretos com o banco. Assim, Anton ligou para Breen, o gerente de emprstimos, e explicou que, embora no tivssemos grana 
nenhuma no momento, um cheque de pagamento de direitos autorais por As Poes de Mimi chegaria em maro. Ser que eles poderiam nos conceder um adiamento de prazo?
      Breen nos agradeceu pela ligao e disse que seria melhor irmos pessoalmente ao banco para bater um papo. S que antes de marcarmos o dia recebemos a carta 
dizendo que quebrramos os termos do emprstimo e, em vista das circunstncias, eles no tinham esperana de que os pagamentos voltariam aos trilhos e iriam executar 
a hipoteca. Teramos que sair da casa at o dia 19 de dezembro e devolver as chaves.
      Assim, pouco antes do Natal, nosso pior pesadelo se materializou.
      
      A reao de Anton foram bravatas do tipo "Eles no podem fazer isso conosco" e juramentos de "No vamos perder nossa casa, amorzinho". Mas eu sabia que ele 
estava enganado. Uma casa sendo retomada pelo banco? Eu j vira essa cena antes e sabia que ela poderia - e muito provavelmente tornaria - a acontecer.
       claro que telefonamos para o banco e fizemos todo o possvel para tentar convenc-los a esperar pelo pagamento at maro, quando estaramos salvos (pelo 
menos espervamos). Eu pedi, Anton implorou, chegamos at, por alguns instantes, a considerar a idia de colocar Ema na linha, cantando "Brilha, brilha, estrelinha".
      S que Breen e seus colegas se mostraram irredutveis e no havia nada que pudssemos fazer, pois no tnhamos nada a oferecer em garantia. Por fim, enfrentamos 
a realidade: j era! Assim, com ar cansado, pedimos um perodo maior, pelo menos at depois do
      Natal, mas eles recusaram. Pela primeira vez desde que aquele horrvel pesadelo comeou, ns ficamos indignados, mas eles no se comoveram. Lembraram que, 
segundo os termos do contrato, no tinham obrigao nenhuma de nos dar aviso prvio, e tinham oferecido duas semanas de moradia grtis como prova de seu esprito 
de Natal. Em algum momento desse perodo infernal, Zulema se demitiu, tambm sem aviso-prvio. Ela conseguira outro emprego com uma famlia de Highgate que lhe oferecera 
um apartamento independente e um carro. Claro que aquele no era um bom momento para ela ir embora, mas eu reconheci que no tnhamos como mant-la.
      A essa altura, no vai-e-vem com o banco, j tnhamos perdido uma das duas semanas de prazo para desocupar a casa. Faltavam doze dias para o Natal e tnhamos 
uma semana para encontrar onde morar. Poderamos ter nos mudado para Vanish Hall, mas Anton argumentou - e eu concordei - que ir morar com Debs seria autoflagelao 
demais.
      - Seria melhor irmos para um abrigo do Exrcito da Salvao-garantiu.
      Assim, Anton comprou o jornal e marcou vrios anncios de apartamento. Antes mesmo de ver o primeiro, odiei todos.
      Os corretores devem ter achado que Anton e eu ramos dois esquisitos. Anton, normalmente to charmoso e agradvel, parecia fora do ar. A pessoa que olhava 
por trs dos seus olhos no era o Anton que eu conhecia. Sua pele parecia a de um cadver e, chocada, percebi alguns fios grisalhos em seu cabelo pretssimo e brilhante. 
De repente ele parecia muito mais velho.
      Quanto a mim, era difcil olhar qualquer pessoa fixamente, porque meus olhos ficavam se remexendo de um lado para outro, como acontece com as pessoas muito 
estressadas. Eles pareciam os olhinhos agitados de um peixe. Obviamente os corretores no sabiam que era estresse, deviam estar achando que eu simplesmente acabara 
de fugir do hospcio.
      Eu me sentia to oprimida pelo curto tempo para sair da casa que quase sentia os relgios tiquetaqueando  minha volta, com os ponteiros correndo cleres na 
direo do instante fatdico em que seramos obrigados a "desocupar a propriedade". Como resultado, al conseguia ver direito os apartamentos; preferia passar rpido 
por todos os cmodos para chegar mais depressa ao lugar seguinte.
      Nosso plano era percorrer de txi o caminho para os muitos apartamentos da lista, mas se um veculo com luzinha amarela no parecesse em trs segundos eu forava 
Anton a andar - e andar depressa, muito, muito depressa. A ansiedade me queimava por dentro e me acumulava de tanta energia que eu no conseguia fazer uma pausa, 
mesmo pequena.
      L fomos ns de apartamento em apartamento e eu j tinha esquecido completamente o que acabara de ver quando entrava no seguinte. Meus circuitos da cabea 
trabalhavam numa velocidade to grande que no conseguiam reter as informaes.
      Depois de trs dias de buscas, fomos obrigados a tomar uma deciso e eu optei pelo ltimo apartamento que tnhamos visitado, porque era o que eu conseguia 
lembrar. Ficava em Camden, no muito longe da nossa casa. Era novo e sem nada especial alm dos aposentos pequenos pintados de branco. Assinamos um contrato de locao 
por trs meses. Tivemos de pagar  vista, porque precisvamos mudar correndo e tambm porque nossas referncias bancrias no seriam animadoras
      E ento nos pusemos de joelhos em um piso empoeirado, trabalhando noite adentro para encher um nmero infinito de caixas. A cena era igualzinha  dos pesadelos 
que eu tive quando estvamos para comprar a casa, em maio. At que veio a ltima manh, quando
      o caminho parou na nossa porta com uma equipe de rapazes neozelandeses usando shorts vermelhos. Eu me encostei na parede e me perguntei: Isso est realmente 
acontecendo? Especialmente os shorts vermelhos?
      De repente, no mais que de repente, a casa estava completamente vazia e no havia motivos para ficar ali.
      - Vamos, Lily - chamou Anton, com delicadeza.
      - OK.
      Abandonar a casa dos meus sonhos me deixou muito abalada. Ao levar um ou dois segundos a mais para fechar e trancar a porta da frente pela ltima vez, senti 
uma mudana quase fsica ocorrer dentro de mim. Estava dizendo adeus no apenas a quatro paredes (trs paredes e meia, na verdade, porque os operrios ainda no 
tinham terminado o quarto pequeno - no que isso importasse), mas a toda uma vida que Anton e eu no conseguiramos mais usufruir
      
      Se fosse por mim, acho que eu nem teria desfeito a mudana e as caixas continuariam fechadas no apartamento novo. Eu instalaria apenas o meu edredom, o travesseiro 
e viveria confortavelmente naquela floresta de caixas empilhadas. Entretanto, por causa de Ema, era preciso fazer com que algumas coisas funcionassem de imediato. 
O bercinho dela precisava ser montado e as tralhas da cozinha, desencaixotadas. A tev, claro, era uma coisa da qual ela no abria mo. Bem como do sof, para facilitar 
a viso.
      s oito da noite, a maior parte das coisas essenciais estava no lugar, Anton j tinha at preparado o jantar e a velocidade da mudana foi demais para mim. 
Aquela era a nossa nova casa agora. Aquele cubculo glido estava lotado com os nossos pertences e ali estvamos ns, representando uma cena absolutamente domstica. 
Mas como? Perplexa, olhei para Anton e perguntei:
      Como foi que as coisas puderam dar to errado?
      Olhei em volta das paredes lisas e brancas e vi que seria como viver dentro de uma caixa de fsforos. Odiei aquilo.
      Anton me agarrou pelo pulso, tentando atrair a minha ateno.
      - Pelo menos ns temos um ao outro.
      Eu ainda absorvia a sensao de estar entre as paredes brancas e frias.
      - O qu?...
      Ele olhou para mim, desesperado.
      - Eu disse que pelo menos ainda temos um ao outro.
      
     
Gemma
      
      A noite de vspera de Natal, s eu e mame, foi horrenda. S consegui sobreviver porque matei sozinha quase um litro e meio de Bailey's. A ocasio no seria 
alegre, de qualquer jeito, mas quando eu contei  mame, dias antes, que Owen e eu iramos sair de frias no fim de janeiro, ela ficou plida de to chocada. Tentou 
disfarar o sofrimento e disse "S Deus sabe, filhinha, o quanto voc est precisando de alguns dias de folga", mas sua tentativa de ser corajosa s serviu para 
me fazer sentir pior.
      Durante todo o dia de Natal ela ficou repetindo a mesma frase, como se fosse um velho disco arranhado:
      - Este vai ser o nosso ltimo Natal nesta casa.
      ltimo Natal? Era o ltimo ms. Janeiro se aproximava e papai ia solicitar o mandado judicial para vender a casa. Ser que tudo ia ser rpido? Em quanto tempo 
a casa poderia ser posta  venda? Breda, nossa advogada, disse que o processo talvez levasse meses,
      mas, conhecendo a minha sorte, sabia que provavelmente teramos de nos mudar exatamente no dia em que eu ia sair de frias.
      
      De qualquer modo, vocs nunca conseguiriam adivinhar o que aconteceu alguns dias depois.
      Vamos l, podem tentar.
      Muito bem... Preparem-se!
      No dia 8 de janeiro, data em que completava um ano desde que papai sara de casa, ele voltou. Assim, sem mais nem menos. Acho que nem se tocou que era o aniversrio 
de sua partida; aquilo era apenas mais uma reviravolta esquisita na esquisitice que foi todo o
      drama, desde o incio. Sua volta foi to discreta quanto a sada: ele simplesmente apareceu na porta da frente com trs sacolas de compras cheias de tralhas 
e perguntou  mame - pelo menos teve a decncia de perguntar - se poderia voltar.
      Mame respondeu se empertigando toda at parecer mais alta do que era e perguntando:
      "Sua piranha atirou voc no olho da rua, no foi? Pois muito bem...  melhor acertar as coisas com ela, porque aqui voc no vai receber as boas-vindas!"
      Ah, nada disso, brincadeirinha, gente. Eu no estava em casa nessa hora, ento no sei exatamente quanto tempo mame levou entre coloc-lo correndo dentro 
de casa e partir rumo  cozinha, a fim de preparar comidinhas para ele, mas seria capaz de apostar que foi muito, muito rpido.
      Papai retomou seu status quo antes de eu ter tempo de piscar. Quando cheguei em casa naquela noite, ele estava acomodado em sua poltrona favorita resolvendo 
as palavras cruzadas do jornal. Mame agitava todas as panelas, cozinhando de monto, e, por um
      instante, eu cheguei a me perguntar se tinha sonhado tudo o que acontecera durante o ano anterior.
      Ignorei papai e seu sorriso nervoso ao me ver e encurralei mame junto  tbua de cortar carne.
      - Por que a senhora o deixou voltar para casa assim, de cara? Podia ao menos deix-lo sofrer um pouquinho.
      - Ele  meu marido - informou ela, mostrando-se esquisita, devotada e inalcanvel. - Fiz meus votos matrimoniais perante Deus e os homens.
      Ah, os votos! Esses tais "votos" so o fim da picada; transformaram geraes de mulheres em mrtires e idiotas. Mas o que se pode fazer? No havia argumentos 
contra aquela maluquice.
      Pedi que ela mudasse de idia; nunca era tarde demais para mand-lo ir se foder. Afinal, ela devia ter respeito por si mesma. Mas de que ia adiantar? Ela estava 
velha e tinha a frrea determinao de no se modificar. Se isso no acontecera em nenhum momento ao
      longo do ano que findara, era pouco provvel de acontecer agora. Eu bem que desejava que ela servisse de exemplo para as mulheres em toda parte, mas s vezes 
as pessoas so muito irritantes, recusam-se a fazer a coisa certa e preferem fazer o que querem.
      Alm do mais, analisando a coisa pelo lado egosta, a volta de papai era a chave para eu me libertar da cadeia. Minha vida entraria no ritmo normal.
      - Por que ele voltou? - eu quis saber.
      Imaginei como teria sido o Natal de papai, trancado dentro de casa com os dois monstrinhos de Colette. (Eu nem sabia ao certo se as crianas eram monstrinhos; 
talvez eu estivesse sendo terrivelmente injusta.)
      - Porque ele me ama e deixou de amar a outra.
      - Papai deu alguma explicao sobre o porqu de ele ter passado um ano inteiro morando com uma menina de trinta e seis anos?
      - Algo a ver com ele entrar na casa dos sessenta anos e seu irmo morrer.
      Entendi. Uma crise de meia-idade atrasada, nada que j no tivssemos imaginado.
      - A senhora o perdoou?
      - Ele  meu marido. Fiz meus votos matrimoniais em uma igreja.- Ela se sentou e assumiu uma postura to inflexvel que me deu vontade de ter uma marreta para 
martelar um pouco de bom senso na cabea dela.
      Graas a Deus que eu sou atia,  o que eu sempre digo.
      Se algo daquele tipo tivesse acontecido comigo, acho que o relacionamento nunca mais voltaria ao que era antes, e duvido muito que um dia eu fosse capaz de 
perdoar. Do jeito que a coisa estava, j era difcil eu me imaginar no desprezando papai. S de pensar nela como uma esposa dedicada, em vez de uma mulher com sentimentos 
e direitos, j me irritava. Ver que papai conseguiu de volta o seu lugarzinho na vida que ela mantivera quentinha esperando a sua volta me deixava furiosa alm da 
conta.
      - Como  que a senhora sabe que ele no vai virar as costas em menos de um ms e fazer tudo novamente?
      - No vai no. Ele resolveu as pendncias que tinha consigo mesmo e tudo ficou para trs.
      - Mas ele vai se encontrar com a belezoca da Colette todos os dias, no trabalho.
      - No vai no. - A certeza com que ela disse isso me despertou o interesse, ela parecia quase triunfante. - Seu pai vai se aposentar mais cedo. Voc acha que 
eu ia deixar que ele continuasse a freqentar o lugar aonde aquela mulher vai todo dia? Nem a pau, Juvenal, o que quer que essa frase signifique. Eu mandei que ele 
a despedisse ou se aposentasse. Preferia que ela tivesse perdido o emprego, mas desse jeito tambm est bom.
      De repente eu tive uma grande idia:
      - Vamos at l, mame! - convidei. - Vamos pegar o carro e ir at o escritrio s para rir na cara dela.
      Por um instante vislumbrei uma luzinha nos olhos da mame, mas ela balanou a cabea e disse:
      - V voc. Preciso preparar um ch para o seu pai. - Em seguida disse, sem muito entusiasmo: - Temos que perdo-la.
      Humpf Eu no agentava aquele papo de perdo. Nunquinha eu iria perdoar Colette e no sentia remorso nenhum por isso. Um pouquinho de dio no fazia mal a 
ningum. Vejam s como eu odiei Lily durante anos e aquilo nunca me fez mal algum.
      Por falar em dio, eu precisava contar urna coisa a meu pai:
      - Vou lanar um livro, papai.
      Ele expressou grande alegria - acho que tinha mais a ver com o fato de que eu estava me dirigindo a ele. Quando eu lhe mostrei a capa da ltima prova da grfica, 
ele declarou:
      - Esta capa ficou linda! A moa est com cara de quem se trancou do lado de fora da casa, no ? - Passou os dedos sobre o meu nome. - Vejam s... Gemma Hogan, 
a minha garotinha. Caando Arco-ris  um ttulo belssimo.  sobre o que seu livro?
      - O senhor abandonando mame e indo morar com uma garota s quatro anos mais velha que eu.
      Ele se mostrou profundamente chocado e olhou para mame com a boca aberta, para confirmar se eu estava de sacanagem com ele.
      - No  piada - afirmei.
      - No . - Mame pareceu muito desconfortvel.
      - Minha Nossa Senhora das Letras! - Ele pareceu em pnico. -  melhor eu ler esse troo. - Depois das seis primeiras pginas, com a cara muito plida em um 
tom meio acinzentado, ele levantou a cabea. - Temos que colocar um ponto final nisso imediatamente. Imediatamente! Isto no pode ser publicado.
      - Tarde demais, papai. Assinei um contrato.
      - Vamos procurar um advogado.
      - J gastei o monte de dinheiro que eles me pagaram de adiantamento.
      - Eu cubro o dinheiro.
      - No quero o seu dinheiro. Quero que meu livro seja publicado.
      - Mas olhe s isso! - reclamou ele, batendo no livro com as costas da mo. - Todos esses detalhes pessoais. No que eu me importe, mas o problema  que muito 
disto nem mesmo  verdade! Se essa histria vier a pblico, vou me sentir muito embaraado.
      - timo! - disse eu, colocando o rosto bem perto do dele. - Isso se chama aceitar as conseqncias dos prprios atos.
      - Gemma! - ralhou mame, chamando-me para ir  cozinha. - Ele j disse que sente muito - explicou ela. - Est sendo sincero. Estava passando por uma crise 
e no teve como evitar o que aconteceu. Voc est sendo muito severa com ele. Para ser franca, acho que est sendo severa com todos ns. Sabe de uma coisa? Voc 
precisa trabalhar a sua raiva.
      - E o que a senhora sabe sobre trabalhar a raiva?
      - Assisto ao programa do dr. Phil.
      - Ah, ento t... De qualquer modo, eu no tenho nenhuma raiva para trabalhar, simplesmente gosto de ver as pessoas sendo punidas pelo que fazem de errado.
      - Ento precisa trabalhar o seu desejo de retaliao.
      - Sim! - concordei. - Preciso, mesmo. Gosto de fazer justia com as prprias mos. Sou Gemma, a... O que  que eu sou...? Destruidora? No exatamente, o que 
 uma pena. Disciplinadora? Gemma, a Disciplinadora? No, soa meio sem graa... J sei! Vingadora! Sou Gemma, a Vingadora!
      Circulei pela cozinha apontando os dedos como se fossem uma arma e cantando o tema de abertura da srie Os Vingadores.
      - No faa isso parecer bonito - reclamou mame - , porque no .
      - Alm do mais, essa no  a msica de Os Vingadores - berrou papai da sala. - Esse  o tema de Os Profissionais.
      Parei no portal, segurei uma bolsa imaginria e debochei:
      - Woooooooooh! Agarrem-no!
      
      Naquela mesma noite eu tirei todas as minhas coisas da casa dos meus pais e voltei oficialmente para o meu apartamento. Fiquei me perguntando se eu tinha me 
acostumado com a casa de mame ou se a minha nova liberdade iria parecer com o momento em que a gente acaba as provas finais e se sente culpado por no ter estudado 
mais, mesmo no fazendo diferena. Decidi que no. Eu no estava nem um pouco receosa de voltar  minha antiga vida.
      Liguei para Owen e lhe dei a notcia:
      - Vamos poder nos ver o tempo todo agora, se quisermos. Venha para c, vamos experimentar um pouco da nossa nova vida.
      Quando a novela estava mais ou menos na metade, ele chegou.
      - Preciso conversar com voc - avisou, logo na entrada.
      - Por qu?
      - Adivinhe o que aconteceu! - Ele sorriu, mas de um jeito meio estranho.
      - Que foi?
      - Lorna me ligou. - Lorna era a ex-namorada dele, de vinte e quatro anos, e um formigamento na nuca me avisou sobre o que vinha pela frente. - Ela quer voltar.
      - Quer?
      - Tudo aconteceu exatamente do jeito que voc disse: ela nos viu juntos no sbado passado, no shopping, e percebeu o que estava perdendo. Voc  brilhante!
      - Sou mesmo. - Minha voz estava meio anasalada e irritante.
      - Puxa, voc no se importa com isso, no ?
      - Claro que no me importo. - Quase engasguei, atacada por um ridculo acesso de lgrimas. - Estou superfeliz por voc. Sempre soubemos que a nossa relao 
no ia a lugar algum. - O problema  que no fora a lugar algum por quase nove meses.
      Ele ficou estranhamente calado e, quando eu levantei a cabea, depois do meu ataque de frescura, descobri a razo: ele tambm estava chorando.
      - Nunca vou me esquecer de voc, Gemma - disse Owen, enxugando as lgrimas grossas que lhe desciam pelo rosto.
      - Ah, deixe de ser melodramtico.
      - Ento t... - Como por um passe de mgica, as lgrimas sumiram e ele mal conseguiu conter a felicidade e a empolgao por estar indo embora.
      - E quanto s nossas frias? - perguntei.
      Ele olhou com ar de quem no entendeu a pergunta.
      - Em Antgua. Aprendendo windsurf com a caveira cheia de pifia colada? A viagem est marca da para daqui a trs semanas.
      - Nossa,  mesmo! Desculpe, nem me lembrei. V voc. Leve a sua me. D at para imagin-la aprendendo windsurf. Ela vai se divertir.
      Pouco antes de entrar no carro, ele berrou, com o astral em alta:
      - Vamos nos encontrar todos em breve, eu com Lorna e voc com Anton. Precisamos planejar nossas frias na Dordonha!
      - E no se esquea de dar o meu nome ao primeiro beb que vocs tiverem - consegui dizer.
      - Combinado. Mesmo que seja menino.
      Ento ele saiu a toda com o carro, buzinando como se estivesse em uma carreata ou comemorando um casamento.
      
     
Jojo
      
      Janeiro
      Jojo voltou para Londres, cheia de esperanas para o ano que se iniciava. Ela tinha passado um Natal e um Rveillon maravilhosos em Nova York, com a famlia, 
e sabia que o Natal do ano seguinte seria muito diferente. E no seria em Nova York. Muito provavelmente seria dividindo o espao com Sophie, a propensa a acidentes, 
e Sam, o bebum, na nova casa dela e de Mark, onde quer que ela ficasse.
      Logo no primeiro dia depois de ela ter voltado de viagem, Manoj chegou e largou uma caixa sobre a mesa.
      - Essas so as provas finais de grfica de Caando Arco-ris, de Gemma Hogan.
      A Dalkin Emery acreditava piamente em reutilizao de material: a capa era a de um livro antigo da Kathleen Perry que Jojo rejeitara quase um ano antes por 
ser completamente idiota. Pois ela voltara com uma roupagem de outono, como se fosse nova; era a capa de Caando Arco-ris. Mostrava uma aquarela de uma mulher e, 
embora os contornos no fossem muito precisos e o fundo enevoado, toda vez que Jojo a via tinha a impresso de que a jovem retratada parecia louca de vontade de 
ir ao banheiro, mas estava a quilmetros
      do toalete mais prximo.
      Apesar disso, a produo grfica estava boa. Ela pegou dez exemplares, levou-os para Jim Sweetman e sugeriu que ele os mostrasse aos seus amigos produtores 
de cinema.
      - Faa a sua mgica, Jim - disse ela.
      
     * * *
      
      A eleio do novo scio estava marcada para segunda-feira, 23 de janeiro - dali a trs semanas. A primeira semana correu sem novidades. A segunda, tambm. 
A contagem regressiva da terceira semana j comeara - segunda, tera e quarta j tinham passado - , at
      que na quinta-feira de manh um e-mail chegou:
      
      PARA:Jojo.harvey@lipman-haigh.co
      DE: Mark.avery@lipman-haigh.co
      ASSUNTO:Novidades. Provavelmente ruins
      
      Preciso falar com voc. Pode ser na minha sala, o mais depressa possvel?
      Mxxx
      
      O que seria dessa vez?
      Mark estava sentado  mesa, parecendo muito srio.
      
      - Queria lhe contar logo, antes da reunio de amanh de manh. Richie Gant est com um s na manga.
      - O qu? - Na mesma hora, Jojo ficou agitada e nervosa. O Rei das Piranhas era cheio de surpresas, nenhuma delas agradvel.
      - Ele fez amizade com o pessoal de marketing da Lawson Global.
      - Quem?!...
      - Um conglomerado multinacional. Eles possuem fbricas de bebidas, cosmticos, roupas esportivas... Parece que esto interessados em pagar por menes de produtos 
deles em livros de autores representados pela Lipman Haigh.
      Jojo abriu a boca, mas mal conseguiu falar.
      - Voc est falando de patrocnio publicitrio?
      - No exatamente patrocnio de um ttulo, nada de "A Coca-Cola traz para voc O Encantador de Cavalos". Simplesmente menes a uma marca especfica em um romance.
      - Mas isso  merchandising - afirmou Jojo. - Exatamente o que ns conversamos, quase um ano atrs. Achamos a idia podre. Continuo achando isso de um profundo 
mau gosto.
      - Se a coisa for feita com sutileza, no precisa ser ofensiva.
      Ela lhe lanou um olhar longo e perplexo.
      - Isso no pode estar acontecendo, Mark. Isso  um equvoco. Alis, voc mesmo achou a idia desprezvel.
      - Jojo, trata-se de negcios, e possivelmente muito lucrativos.
      Ele no falou abertamente, mas a implicao era clara. Abandonar Cassie e montar uma segunda casa com Jojo seria muito dispendioso,
      Que se dane! Muito brava, Jojo disse:
      - Quando eu tive essa idia, por que voc no me deu fora para eu lev-la em frente?
      - Porque estvamos falando de brincadeira, e era bvio que voc desprezava a possibilidade. Por falar nisso, se voc tivesse achado a idia realmente boa, 
nem precisaria de incentivo, teria corrido atrs e conseguido.
      Talvez isso fosse verdade, mas s serviu para aumentar a raiva de Jojo.
      - Ento, como foi que a coisa rolou? Gant chegou para voc com o mesmo conceito e voc lhe disse "Muito bem, bom trabalho, garoto! V nessa!"?
      - Nada disso. Soube da histria ainda h pouco, agora de manh. Ele j fez alguns contatos e alinhavou propostas.
      - Aposto que nenhuma delas com autores que eu represento - disse Jojo, com amargura. - Afinal de contas, como foi que Richie Gant teve essa idia ao mesmo 
tempo que eu?
      - Possivelmente porque vocs dois pensam parecido?
      Jojo estremeceu ao ouvir isso.
      - No sou parecida em nada com aquele... Esquisito de cabelo seboso. E quer saber do que mais, Mark? Estou desapontada com voc.
      Ele se mostrou calmo. Assustadoramente calmo.
      - Eu dirijo um negcio. Meu trabalho  explorar idias que possam trazer mais dinheiro para a empresa. Tenho princpios, mas ser escrupuloso demais no funciona 
em termos comerciais. Se voc quer saber, eu reconheo: achei o projeto grosseiro, mas me reservo
      o direito de mudar de idia. Especialmente quando ela j me foi apresentada como um fato consumado.
      - Saquei - disse Jojo. - Entendi em alto e bom som.
      Ela saiu em disparada porta afora, mas ele no fez meno de segui-la. Jojo foi para a rua e ficou parada na calada, fumando com tanta fria que um transeunte 
lhe perguntou:
      - O que esse pobre cigarro fez contra voc?
      Como ser que Richie Gant conseguira fazer aqueles contatos?, questionou-se Jojo. Se ela trabalhasse em uma multinacional e o pequeno pilantra lhe propusesse 
algo daquele tipo, ela mandaria o pessoal da segurana atir-lo no meio da rua. Alis, quando ele estivesse cado na calada, ela iria at l para lhe dar uns chutes 
nos rins. Aquilo doa muito. Ela lhe daria alguns chutes no saco tambm, obviamente, para aproveitar a viagem. E na cabea - s que a suas botas ficariam cobertas 
daquele troo oleoso que ele passava no cabelo... Eeeca
      Muito maior do que a raiva por Richie era a raiva consigo mesma. Ela no devia ter ouvido os conselhos de Mark. Devia ter ido em frente com a sua idia. No 
era apenas questo de orgulho ferido. Aquilo teria profundas e imediatas implicaes de cunho prtico: a deciso
      sobre o novo scio seria tomada na segunda-feira, dali a poucos dias. Ela era obrigada a reconhecer o sexto sentido do cara, pensou, dando mais uma tragada 
furiosa no cigarro, daquelas que duravam trs segundos. Richie escolhera o momento perfeito para jogar a idia no colo dos scios e eles tomariam a deciso envoltos 
no frenesi dos milhes corporativos que entrariam no caixa da empresa.
      O nico consolo  que ela continuava achando aquela idia de muito mau gosto. No fundo do corao, esperava que, em vez de se mostrar cegos de cobia, os scios 
concordassem com ela.
      
     * * *
      
      Reunio na sexta-feira de manh
      Todos j sabiam a respeito das novas ligaes de Richie com o mundo corporativo. Com isso, pelo menos, Jojo no precisou aturar as pessoas se espantando e 
balanando a cabea em "Ooohhhs" de aprovao, como se Richie tivesse acabado de tirar um leno de seda
      fedido de uma cartola ensebada.
      Mas o show ainda no tinha acabado. Em seu eterno papel de mestre-de-cerimnias, Richie se ps a analisar vrios cenrios possveis. Estendeu o brao e anunciou:
      - Olga!
      -  com voc, madame - avisou Jojo, no exatamente aos sussurros.
      Richie se virou em sua direo.
      - Jojo, no se preocupe. Vou fazer o melhor possvel pelos seus autores. Quem sabe eu tambm no posso conseguir para eles alguns contratos de patrocnio?
      - No precisa - garantiu Jojo, com ar encrespado. - Meus autores j ganham o suficiente escrevendo livros.
      - Depende deles - Richie deu de ombros. - Se os caras querem dispensar dinheiro grtis, no podemos fazer nada. Acho que seria interessante voc repassar a 
idia para eles, apenas isso. Fico contente por no ser minha agente!
      - No to contente quanto eu, bafo podre. -  claro que ela s o chamou de "bafo podre" mentalmente. Era muito profissional. Richie voltou a ateno para Olga.
      - Vamos pensar em Annelise Palmer, por exemplo. - Essa era uma das mais famosas escritoras da lista de clientes de Olga, sempre com algum bestseller na praa. 
- O estilo de seus livros combina com um dos carssimos champanhes fabricados pela Lawson Global. Se Annelise topar,  claro. Como eu conheo a velhinha, aposto 
que toparia. - Richie deu risadas com tanta autoconfiana que Jojo precisou se sentar em cima das mos espalmadas para evitar lhe dar uns tabefes. - Pois bem, minha 
gente: se ela aceitar, isso colocar at um milho a mais em sua conta bancria.  claro que todos os agentes conseguiriam os seus dez por cento e, se pedirmos com 
jeitinho, a fbrica ainda mandar entregar em suas casas algumas caixas do champanhe mencionado na obra.
      Jojo quase implodiu, sentindo-se impotente. Puxa!... Um milho de libras para um autor era capaz de eclipsar qualquer vdeo sobre os hbitos de acasalamento 
dos pingins-imperadores.
      - Eles realmente fizeram essa proposta? - desafiou Mark. - Chegaram a mencionar essa quantidade de dinheiro para cada autor?
      - Mencionar? Eles prometeram. De verdade. - Richie concordou com a cabea, subitamente srio. - Podem acreditar, porque  assim que vai acontecer.
      A sala inteira entrou em estado de choque. At mesmo as partculas de p que se moviam eternamente no ar pareceram fazer uma pausa em seu giro perptuo. Um 
milho de libras s para mencionar uma marca de champanhe em um romance!
      Jojo percebeu que todos os olhares se modificaram - passaram a olhar Richie como se ele fosse um alquimista. J estavam gastando a grana. Um Mercedes novo, 
um chal para frias na mbria, uma aposentadoria passada a bordo do Queen Elizabeth 2, grana suficiente para abandonar a mulher e montar uma casa confortvel para 
a namorada, sem responsabilidades. At Aurora French e Lobelia Hall, mulheres que odiavam Gant e nunca veriam muita coisa daquele dinheiro (talvez s a sombra dele), 
entraram no clima de devaneio. Sapatos e bolsas novos brilharam como cifres nos olhos de Aurora, e o cintilar de uma semana em Las Vegas apostando alto nas mesas 
de pquer apareceu nos de Lobelia. Jojo precisava fazer alguma coisa bem depressa.
      - Olga poderia ligar para esses executivos neste instante - props Jojo - , para avis-los que Annalise topa o esquema. Alis, aproveite para mand-las entregar 
aqui na empresa um milho em notas de cinco libras usadas. - Colocando a bolsa em cima da mesa, estendeu o celular para Olga. - Vamos logo fazer essa ligao.
      Mais uma vez a sala pareceu petrificada. Tudo o que se movia eram os msculos das rbitas das pessoas, que jogavam tnis com os olhos, entre Richie e Jojo. 
Os segundos se arrastaram, a mo de Jojo comeou a ficar pegajosa de suor, at que Richie sucumbiu:
      - Mas isso foi apenas um exemplo. Obviamente!
      - Ora... - Jojo fingiu surpresa. - Foi apenas um exemplo? No, no, por favor, no liguem para eles agora. - Fechou o celular suado e piscou para Olga. - Pode 
ser embaraoso.
      Ao ver os prprios sonhos estremecerem para em seguida se dissolverem, todos voltaram os olhos para Richie como se ele fosse um farsante.
      Mas o golpe de misericrdia foi o anncio de que no dia seguinte trs sujeitos da Lawson Global iriam se encontrar com Richie, Jim Sweetman e Mark em um luxuoso 
resort no campo para jogar golfe e falar de negcios. Jojo tentou disfarar sua incredulidade. Mark no lhe contara nada sobre aquilo. Alm do mais, desde quando 
aquele bundo do Gant jogava golfe?
      - Por que eu no fui convidada para esse evento?
      - Por que deveria ser?
      - No ano passado eu rendi mais dinheiro para a firma do que qualquer outro agente, e pelo visto vou repetir a dose este ano.
      - Voc sabe jogar golfe? - perguntou Richie.
      - Claro que sei! - Puxa, no devia ser assim to difcil.Especialmente se ela imaginasse que a bola era a cabea dele.
      - Que pena! - Richie lanou-lhe um olhar duro. - O hotel j foi reservado e no h mais vagas.
      - Ento no vai haver mulheres? Isso no  discriminao? Existem leis contra esse tipo de coisa.
      - Qual  a lei que determina que alguns amigos no podem se encontrar para jogar golfe? E quem disse que no haver mulheres?
      Ele esperou a implicao daquilo no ar, mas Jojo rebateu:
      - Ah, eu tinha esquecido o quanto voc gosta de strippers que sentam no colo dos clientes.
      - Pois eu no esqueci - confirmou ele, sorrindo, o que fez a raiva dela aumentar. - Jim tambm gosta delas, e Mark provavelmente vai adorar as...
      - Um momento! - interrompeu Mark.
      Dan Swann se ergueu do costumeiro estado de apatia e comeou a murmurar baixinho:
      - Porrada! Porrada! Porrada!
      Mark assumiu o controle da situao:
      - J chega! No seja ridculo, Richie, no vai haver strippers sentando no colo de ningum. Pelo menos  bom que no haja.
      Jojo achou que a reao de Mark tornou as coisas ainda piores. Todo mundo ficou imaginando que a namorada de Mark Avery no o queria perto de strippers que 
sentavam no colo de homens. Todos ali eram seus colegas, mas olhavam para Jojo como se ela fosse a esposa pentelha. Os contornos da situao estavam muito enevoados.
      Depois que a reunio se encerrou, ela foi at a sala de Mark, fechou a porta e disse:
      - Voc no me contou que ia jogar golfe com esses caras.
      - Tem razo. No contei.
      - Por qu?
      - Porque voc no  a minha chefe.
      Aquilo foi como uma punhalada no corao.
      - Mark! O que est acontecendo? Por que voc est me tratando to mal?
      - Por que voc est me tratando to mal? - Ele estava absolutamente calmo, e em momentos como esse ela lembrava, de verdade, o porqu de ter se apaixonado 
por ele, para comeo de conversa: sua fora de carter, sua habilidade de ter uma viso ampla da situao...
      - Eu no estou tratando voc mal, Mark.
      Ele deu de ombros.
      - Estou apenas fazendo o meu trabalho, Jojo. - Ele continuava sem entrar na pilha dela.
      - Mesmo quando ele entra em conflito comigo?
      - No vejo as coisas desse modo. Pode ser que voc no acredite em mim, mas tudo o que eu fao  por ns dois.
      Graas ao Richie Sebento as coisas com Mark estavam comeando a sair dos trilhos; Jojo no permitiria isso. Fez um esforo grande, quase sobre-humano, para 
superar o que sentia.
      - Eu acredito em voc, Mark.
      
     * * *
      
      Sbado de manh, apartamento de Jojo
      Antes de Mark sair para o fim de semana jogando golfe, Jojo disse:
      - Voc no vai contar para os caras da Lawson como eu sou na cama, vai?
      - Por que eu faria isso?
      - Sei muito bem como so os homens; vivem trocando piadinhas machistas e contando coisas ntimas sobre suas mulheres.
      - Como  que voc sabe?
      - Eu sou um deles.
      Ele colocou a mo na cintura dela e deixou-a deslizar lentamente pelo seu corpo acima, dizendo:
      - Humm... No acho que voc seja um deles.
      Ele afastou a mo e ela a recolocou no mesmo lugar.
      - Jojo, no temos tempo para isso.
      - Temos sim.
      - Vou me atrasar.
      - timo!
      
      Vinte minutos depois
      - Agora eu realmente preciso ir, Jojo.
      - V! - Ela sorriu para ele da cama. No vou mais precisar de voc por ora. Adeus, querido. Tenha um pssimo fim de semana.
      - Vou ter.
      Naquela tarde
      Jojo estava na Russell & Bromley com Becky, vendo sapatos e bolsas, quando seu celular tocou. Pelo display, viu que era Mark.
      - Oi, Mark! - exclamou. - O cara com quem eu queria falar. Voc sabe qual  a diferena entre uma manga e um pau? Eu lhe conto: as esposas s curtem chupar 
manga! Ka-buum!
      - Jojo...
      - O que voc faz quando a lavadora de pratos quebra? D uma surra nela! Ka-buum!
      - Jojo...
      - Qual  a mulher que voc escolhe na hora de contratar? A mais peituda! Ka-buum!
      
      Domingo  tarde, apartamento de Jojo
      Mark foi do hotel direto para a casa dela.
      - Oi, querido. - Ela o abraou com fora, como se ele estivesse voltando da guerra. - Tudo bem... Tudo vai ficar bem com voc agora.
      Ela o seguiu at a sala de estar e perguntou:
      - As coisas foram muito ruins por l?
      Ele sorriu.
      - Pssimas. Tive que fumar um charuto. Voc sabe que antes de fumar a pessoa deve cortar um pedao da ponta, no sabe? - Jojo no sabia.
      - Pois bem. Um dos rapazes da Lawson ficou fazendo piadinhas sobre circunciso enquanto cortava o dele.
      - Eeeca! Qual foi o pior momento de todo o fim de semana?
      Mark pensou antes de responder:
      - Um dos caras descreveu outro sujeito como "um idiota to grande que seria capaz de cair em uma piscina cheia de peitos e sair dela chupando o prprio dedo".
      - Eeeeca! - repetiu Jojo.
      - Eu contei a eles a sua piadinha sobre a lavadora de pratos - confessou ele. - Acho que os caras gostaram.
      - Fico feliz por ajudar. Como Richie se portou?
      Mark simplesmente deu de ombros.
      - Voc podia me dar uma ajudinha aqui? - explodiu Jojo. - Simplesmente me explique como  que algum pode gostar daquele cara. Ser que estou perdendo algum 
detalhe?
      Mark refletiu antes de responder:
      - Ele  bom para lidar com gente. Tem intuio sobre o que as pessoas gostam e todo mundo acaba comendo na sua mo.
      - Mas ele no consegue essa faanha comigo.
      - Porque no precisa que voc goste dele.
      - Pois vai precisar quando eu for scia da empresa, e ele no.
      Suas palavras ficaram em suspenso no ar e, quando Jojo tornou a falar, a ansiedade que a torturara por todo o fim de semana a derrubou. Ela se sentiu como 
uma carteira de mo ridiculamente cara e pouco prtica.
      - Podemos conversar a respeito de amanh, Mark? Voc acha que eu vou conseguir?
      - Voc merece.
      - Mas voc acha que eu consigo?
      - Tarquin Wentworth, Aurora French e Lobelia Hall j estavam na empresa muito antes de voc. Se o tempo de casa contar, o cargo vai para Tarquin.
      Ela deu um tapa nele.
      - Qual , Mark? Pare de ser o Senhor Vamos-encarar-os-fatos-de-frente. Todo mundo sabe que a coisa est entre mim e Richie Gant.
      - Correto.  entre vocs dois.
      - Pois ... Agora, vamos falar srio. Eu sou uma grande agente, fao mais dinheiro para a agncia que todos os outros, incluindo Gant. Alm disso, j fiz de 
tudo para acabar com a reputao dele. Tem mais alguma coisa que me reste fazer? No creio.
      Jojo acreditava no pensamento positivo. Mesmo assim, acordou no meio da noite pensando de forma no to positiva. Mark fora para casa e ela ficara feliz com 
isso; no queria que ele a visse daquele jeito. Ficou imaginando como seria se ela no se tornasse scia no dia seguinte. Alm do choque e da humilhao, Richie 
Gant seria o novo chefe dela, ou pelo menos um deles. E ele no seria um vencedor generoso. Jojo teria de pedir demisso da Lipman Haigh e comear tudo de novo em 
outro lugar. Comprovar sua capacidade, construir alianas, gerar lucros. Aquilo faria sua carreira profissional recuar pelo menos dois anos. O pnico formou uma 
espiral dentro de sua barriga, subindo e descendo at bloquear-lhe a garganta.
      Por fim, ela se controlou. Richie Gant era bom - e ardiloso. Mas o seu projeto de merchandising era da boca pra fora. Ningum tinha perspectiva de ganhar dinheiro 
com aquilo de imediato. Ela era uma agente melhor. Isso era um fato. Ela gerava mais lucros para a empresa. Seus autores tinham excelentes perspectivas de longo 
prazo. Como seria possvel ela no conseguir o cargo?
      
     
Lily
      
      Anton chegou em casa vindo do trabalho. Irrompeu pela sala e disse:
      - Veja s o que me mandaram hoje! - Eu no o via to animado h muito tempo.
      Ele balanou um troo na minha frente e, quando percebi que era o livro de Gemma, Caando Arco-ris, eu pulei, quase sem ar, e o agarrei, louca para l-lo. 
Uma sensao familiar de nusea se instalou.
      - Como foi que voc conseguiu isso?
      -  a prova final da grfica. Jim Sweetman, o cara dos direitos para cinema e teatro da Editora Lipman Haigh, me enviou. A boa notcia - disse ele, muito empolgado 
-  que o livro no fala nada a respeito de ns dois.
      - E a m notcia?
      - No h m notcia.
      Fiquei grilada. Ningum costuma dizer "a boa notcia ... " se no houver uma m notcia.
      - Que tal a histria? - perguntei. - O livro  bom?
      - Ahn... - Mas a empolgao me pareceu bem clara na expresso de Anton e ziguezagueava em vrias cores pelo ar.
      Surpresa, eu o acusei:
      - Voc gostou.
      - No gostei.
      - Gostou.
      - No gostei.
      Prendi a respirao, porque sabia que havia um "porm" chegando.
      - Porm - ele disse, por fim - ... Eu bem que gostaria de comprar os direitos de filmagem dessa histria.
      Fiquei petrificada e muda.
      A nica coisa que me passou pela cabea foi que ele no pensou em comprar os direitos de filmagem do meu livro. Alis, de nenhum dos dois.
      
      Tnhamos sado da nossa casa h cinco semanas, mas a impresso  de que j fazia muito mais tempo. Passamos o Natal desolados em nosso apartamento do tamanho 
de um ovo. A desolao foi ainda maior porque Jessie e Julian, que vinham da Argentina, desistiram da viagem no ltimo minuto.
      Apesar dos vrios convites para passar o Rveillon em suas casas - desde Mikey e Ciara at Viv, Baz e Jez, e tambm Nicky e Simon - , passamos a noite sozinhos. 
Brindamos um ao outro com o champanhe que a Dalkin Emery me enviara h muito tempo, quando As
      Poes de Mimi seguia firme na lista dos mais vendidos e eles ainda gostavam de mim. Nosso brinde foi "ao ano que vem", na esperana de que ele fosse melhor 
que o passado. Depois veio o ms de janeiro, mas... O que se poderia esperar? Era janeiro. O melhor a fazer em janeiro  respirar, expirar e esperar fevereiro.
      Claro como Cristal no conseguiu, como eu tanto rezara para que acontecesse, decolar no ltimo minuto. Minha confiana e minha criatividade estavam em pedaos 
e desde outubro eu no escrevera mais nada. De que adiantava, quando eu sabia que ningum
      iria querer publicar? Estava frio demais para colocar a cara fora de casa e eu passava o dia todo com Ema, assistindo a Dora, a Exploradora e Jerry Springer 
na tev.
      Perder a nossa casa fora catastrfico, mas eu no alimentava iluses de que havamos chegado ao fundo do poo. Anton e eu estvamos nos distanciando. Eu parecia 
assistir a tudo aquilo de longe, como se acontecesse com outro casal.
      J no tnhamos mais nada a dizer um ao outro. Nosso desapontamento era uma presena avassaladora. Eu me ressentia, com muita amargura, da irresponsabilidade 
de Anton em questes de dinheiro. Ficara obcecada com a casa que perdemos e achava que tudo fora culpa dele. Ele me convencera a compr-la - eu vivia me lembrando 
das inmeras objees que eu criara, na poca - e, se no a tivssemos comprado, talvez no a tivssemos perdido. A sensao de perda era excruciante e eu no conseguia 
perdoar Anton. Por algum motivo, eu no parava de pensar naquele dia em que ele me levara  Selfridges; no tnhamos um centavo no bolso e o que havamos feito? 
Arrombamos o carto de crdito. Na poca eu considerei aquilo um glorioso carpe diem, mas agora tudo parecia apenas uma irresponsabilidade idiota. O tipo de irresponsabilidade 
que nos levou a comprar uma casa que s poderamos perder logo depois.
      Embora Anton no dissesse abertamente, eu sabia que ele culpava a mim por no ter escrito outro livro de sucesso. Por algum tempo, tnhamos estado no auge 
e era difcil aceitar que toda a empolgao e esperana nos haviam sido arrancadas.
      Quase no nos falvamos mais e, quando isso acontecia, era simplesmente para trocar instrues sobre os cuidados com Ema.
      Eu sentia como se h muito tempo no respirasse. Cada ato de inspirar era um superficial e assustador esforo que no me trazia alvio, e eu no conseguia 
dormir mais de quatro horas por noite. Anton continuava me prometendo que as coisas iriam melhorar. De repente ele me pareceu achar que isso acontecera.
      - Chloe Drew ficaria perfeita no papel principal! - comentou ele um dia, muito entusiasmado.
      - Mas a Eye-Kon no tem dinheiro para comprar os direitos de filmagem do livro.
      - A BBC est interessada em uma co-produo. Eles toparam entrar com a grana se Chloe aceitar o papel.
      Eu me inclinei na direo dele, com ar de questionamento. Anton j conversara a respeito disso com a BBC? Estava alinhavando um acordo?
      - Voc j conversou pessoalmente com Chloe sobre isso?
      - J, e ela topou.
      Minha nossa!
      - Gemma nunca vai aceitar vender os direitos para voc. Depois do que fez com ela, pode tirar o cavalinho da chuva.
      Mas ele tinha esperanas. Dava para ver em seus olhos. Ele j a estava persuadindo, utilizando-se de todos os meios que fossem necessrios. Eu sabia que Anton, 
apesar de todo o seu charme de cara largado, era muito ambicioso, mas confirmar isso foi como levar um soco no peito.
      Pelo fato de nossas vidas terem desabado de forma to traumatizante antes do Natal, ele precisava daquilo desesperadamente. J fazia muito tempo desde que 
ele conseguira tornar realidade um projeto profissional. Ele tinha voltado a fazer os comerciais que odiava s para trazer algum dinheiro para casa, mas era nos 
filmes que seu corao morava.
      - Lily, isso pode ser a nossa salvao! - Ele parecia uma chama de entusiasmo. - A histria tem um fabuloso potencial de sucesso. Todo mundo vai ganhar rios 
de dinheiro com ela. Nossa vida vai voltar aos trilhos.
      Anton precisava disso para recuperar o orgulho. Tambm precisava achar que alguma coisa poderia dar certo para ns. O problema  que, para garantir os direitos 
de filmagem do livro, at que ponto ele iria com Gemma? Pelo tamanho do seu desespero, fui atingida por uma forte convico de que ele era capaz de ir longe. As 
ltimas palavras dela comearam a latejar dentro da minha cabea: "Tudo o que vai, volta; lembre-se bem de como voc o conheceu, porque  assim que vai perd-lo. 
      - No se envolva nessa histria - pedi baixinho e com ar de desespero. - Por favor, Anton, nada de bom pode sair disso.
      - Mas, Lily! - ele insistiu. -  uma tremenda oportunidade!  exatamente o que estamos precisando.
      -  Gemma!
      - So negcios.
      - Por favor, Anton. - Mas a luz no sumiu dos seus olhos e senti vontade de chorar.
      As voltas que o mundo d...
      Durante os ltimos trs anos e meio, Gemma havia sido uma fonte constante de preocupaes. Desde que eu lera sobre o lanamento do seu livro, o terror efmero 
que senti havia se solidificado e tomado forma real. Durante meses eu me preparei para algum tipo de retaliao. S que nunca poderia imaginar que a coisa se manifestaria 
assim, que ela seria a soluo para Anton salvar sua carreira, seu orgulho e sua esperana.
      O pior  que Gemma no poderia ter calculado melhor o momento para voltar  vida de Anton nem se tentasse: ele e eu estvamos em crise...
      Qual o tamanho da crise? Precisei me perguntar isso, mesmo sentindo o terror escurecer minha viso. Qual o tamanho da crise? O que aconteceria se Gemma aceitasse 
a proposta de Anton...?
      Foi a que eu descobri que no levava mais f em ns dois, em mim e Anton. No passado eu achava que permanecendo unidos seramos indestrutveis. Agora estvamos 
frgeis, empoleirados  beira de um abismo. Eu no sabia a exata natureza disso, nem exatamente
      como a coisa iria se desenrolar; porm, com uma certeza repugnante, alcancei um ponto de equilbrio e tranqilidade no centro de mim mesma e vi meu futuro 
talhado em pedra: Anton e eu iramos nos separar.
      
     
Jojo
      
      9:00, segunda-feira de manh
      Provavelmente a manh mais importante de toda a carreira de Jojo. A caminho do escritrio, ela passou pela sala de diretoria. Atrs da porta fechada, estavam 
todos, at mesmo Nicholas e Cam. Votem em mim. Ela tentou uma espcie de vodu, enviando ondas de pensamento atravs da porta. Ento riu para si mesma: ela no precisava 
do poder do vodu. Era uma agente boa o bastante.
      Mesmo assim, estava muito agitada. Acusou Manoj de pousar a xcara de caf sobre a sua mesa com fora s para assust-la e, quando o telefone tocou, seu corao 
quase pulou do peito.
      - Vamos ter a resposta at a hora do almoo - tranqilizou-a Manoj.
      - ...
      Pouco depois das dez, algum apareceu na porta de sua sala. Mark! Mas era cedo demais. Ser que eles tinham feito uma pausa para o caf ou...
      - Oi.
      Em silncio, Mark fechou a porta cuidadosamente atrs de si e se encostou nela; em seguida, olhou para Jojo fixamente. Na mesma hora ela soube. Mesmo assim, 
no conseguiu acreditar. Ouviu o som abafado de sua voz perguntar:
      - Eles decidiram oferecer a sociedade a Gant?
      Mark fez que sim com a cabea.
      Ela custou a acreditar e por um instante achou que poderia explodir. Aquilo no estava acontecendo. Era s uma fantasia em estilo "isso  o pior que poderia 
acontecer". S que Mark no sumiu e continuava ali, olhando para ela com preocupao. Embora ela se
      sentisse em um sonho, sabia que era real.
      Mark atravessou a sala em sua direo e tentou abra-la, mas ela se desvencilhou.
      - No estrague meu momento de baixo-astral.
      Foi at a janela e ficou ali, olhando para o nada. Tudo acabara. A votao aconteceu e ela no conseguiu o cargo. Tudo correu rpido demais. Eles ficaram em 
reunio por apenas uma hora. Ela esperara tanto por aquilo que no estava pronta para uma soluo rpida.
      Uma onda de pnico a invadiu. Isso no  real.
      Tentou pensar de forma lgica, mas suas faculdades mentais haviam recebido um duro golpe.
      - Voc acha que pode ser por causa de ns estarmos juntos?
      - No sei.
      Mark parecia muito plido, meio acinzentado, exausto, e Jojo vislumbrou, por um instante, o quanto aquilo devia ter sido difcil para ele.
      - Quem votou em mim? Alm de voc?
      - Jocelyn e Dan.
      - Perdi por quatro a trs, ento. Cheguei perto, mas no d para acender um charuto e comemorar, certo? - Ela tentou um sorriso forado. - No consigo acreditar 
que Nicholas e Cam no tenham votado em mim. Pensei que eles tivessem me escolhido. Pensei mesmo!
      Mark encolheu os ombros, em sinal de impotncia.
      - No consigo compreender. Sou responsvel por grandes autores, com longas carreiras pela frente. A curto e a longo prazo, sou a melhor escolha. Qual a sua 
avaliao sobre o que aconteceu, considerando que eu produzo mais dinheiro para a empresa do que Richie
      Gant?
      - Pouco mais.
      - Como disse?
      - Desculpe, eu me expressei mal. O que eu quis dizer foi que eles analisaram apenas os lucros desse ltimo ano. Voc e Richie esto quase empatados
      Mark estava com uma cara de quem queria morrer e Jojo sentiu pena por estar descontando em cima dele. Mark no tinha como controlar a cabea dos outros scios, 
eles tomavam as prprias decises. Mesmo assim, ela precisava saber.
      - Conte-me como foi.
      - Sinto-me muito mal por voc. - Os olhos dele brilharam, rasos d'gua. - Voc merecia esse cargo e ele significava tanto para voc. S que, pela viso deles, 
se Richie conseguir um nico contrato de merchandising, vai deixar voc para trs.
      - Mas ele no trouxe nada de concreto at agora. Richie est de papo e eles foram levados no bico. O conceito  grosseiro, sem classe, e aposto que ningum 
vai comprar essa idia. Os escritores tm respeito prprio.
      Mark encolheu os ombros e os dois permaneceram imveis, em silncio, infelizes e separados.
      Ento Jojo percebeu o que houve e a surpresa disso, mais que outra coisa, a fez atropelar as palavras:
      -  porque eu sou mulher! - Ela j ouvira falar nisso, mas nunca imaginou que pudesse lhe acontecer. -  o famoso glass ceiling, a barreira profissional acima 
da qual as mulheres no podem ascender em uma empresa!
      At aquele exato momento Jojo nem sabia se devia acreditar na existncia do glass ceiling. Sempre que analisara o assunto, suspeitava que isso era s desculpa 
de funcionrias incompetentes para salvar seu orgulho ferido quando colegas homens com mais mritos eram promovidos antes delas. Ela nunca se sentiu parte dessa 
fraternidade
      feminina; cada mulher tinha de correr atrs de seus objetivos profissionais e cuidar de si. Jojo sempre se considerou to boa quanto qualquer homem e sempre 
se achou tratada  altura do seu merecimento profissional. Pois sabem o que houve? Estava enganada.
      - Jojo, isso no tem nada a ver com o fato de voc ser mulher.
      - Em poucas palavras - explicou Jojo, falando devagar - , eles o elegeram scio porque Richie pode conseguir um bom contrato publicitrio junto de seus amiguinhos 
golfistas.
      - No! Eles votaram nele porque acham que a longo prazo ele vai trazer mais grana para a empresa.
      - E como vai conseguir isso? Jogando golfe com outros homens? Pare de tapar o sol com a peneira. Isso  um caso claro de glass ceiling.
      - No  no.
      -  sim.
      - No  no.
      - S pode ser!
      - No .
      - Tudo bem, voc acha que no. Escute, depois a gente fala disso. - Ela o queria fora de sua sala. Precisava pensar.
      - O que vai fazer?
      - Qual o seu medo, Mark? Que eu d uma surra em Richie? - Ela apontou para a mesa. - Tenho um monte de trabalho atrasado.
      Ele pareceu aliviado.
      - Nos vemos mais tarde. - Ele tentou abra-la novamente, mas ela tornou a se esquivar. - Jojo, no me castigue por isso.
      - No estou castigando. - O problema  que Jojo no queria que ningum tocasse nela, no queria nada. Ia ligar o piloto automtico at descobrir o que fazer.
      Dez minutos depois
      Richie Gant se encostou no portal da sala dela, esperou at ela levantar a cabea e soltou uma risadinha de deboche, dizendo:
      - Eles fazem sexo demais, ganham dinheiro demais e acabam as reunies rpido DEMAIS.
      Foi em frente pelo corredor, deixando Jojo com o corao descompassado de raiva.
      - O que est rolando por aqui? - perguntou Manoj ao entrar na sala.
      - Richie Gant foi eleito o novo scio da empresa, e no eu.
      - Mas...
      - Exato.
      - Isso no  justo! Voc  muito melhor que ele.
      - Eu sei. Mas tudo bem. Afinal, ningum morreu, certo?
      - Jojo! - Ele pareceu surpreso, quase desapontado. - Voc vai deixar a coisa assim barata?
      - Manoj, vou lhe contar uma coisa que pouqussima gente sabe a meu respeito.
      - S porque me ama?
      - No, porque voc  a nica pessoa disponvel em minha sala agora. Quer saber o motivo de eu ter abandonado o trabalho na polcia e ter vindo para Londres?
      Manoj balanou a cabea para a frente, a fim de incentiv-la.
      - Porque meu irmo matou uma pessoa. Ele era policial. Alis, ainda . Precisava fazer horas extras e aceitou a misso de ir dar ordem de priso para um cara. 
Isso  muito comum no ms de outubro, quando os tiras tentam juntar alguma grana extra para o Natal. Para encurtar a histria, meu irmo achou o tal traficante e 
este, durante os procedimentos legais para a priso, apontou uma arma para os policiais. Ia atirar. Meu irmo perdeu a cabea, puxou a prpria arma e matou o cara. 
Tudo bem, talvez ele no tivesse outra opo... Legtima defesa, atire para no morrer, como eles dizem, mas voc quer saber de uma coisa? Eu no queria um emprego 
em que um dia pudesse matar algum. No dia seguinte pedi baixa. Vim para a Inglaterra trs semanas depois. Trabalhei em um bar como garonete, depois como leitora 
crtica para uma editora e acabei me tornando agente literria porque, no importa o que acontea, eu jamais poderia matar algum fazendo esse trabalho. Nada em 
relao ao resto (negociaes e o diabo que acontecesse) importava
      tanto assim porque, no fim das contas, nunca seria questo de vida ou morte.
      Manoj concordou com a cabea.
      - Agora Richie Gant foi eleito scio quando devia ter sido eu. Isso est errado, mas ningum se feriu e ningum morreu, certo?
      - Certo.
      Em silncio, ela ficou remoendo tudo na cabea.
      - De qualquer modo, foi uma MERDA! - desabafou.
      - Concordo.
      - Eu devia ter conseguido essa promoo. Sou uma agente melhor que ele e merecia.
      - Certssimo. Voc no pode aceitar isso assim, numa boa.
      Jojo pensou por um instante.
      - Isso mesmo! Vou falar com Mark.
      Na mesma hora a mente de Manoj se encheu de imagens de Jojo ajoelhada diante de Mark, fazendo-lhe um boquete durante o expediente. Jojo colou o rosto no de 
Manoj e sussurrou entre dentes:
      - Eu no fao esse tipo de coisa.
      Manoj engoliu em seco e a viu indo embora. Como  que ela descobriu?
      Sala de Mark
      Jojo no pretendia escancarar a porta e deix-la bater na parede. No queria ser dramtica, mas, puxa vida, aquelas coisas aconteciam. Ele levantou a cabea, 
assustado.
      - Mark, vou entrar com um processo.
      Ele pareceu ainda mais assustado.
      - Contra quem?
      - Contra a Lipman Haigh.
      - Baseada em qu?
      - Baseada em qu? Tornozelo torcido? Pra-choque amassado? - Ela arregalou os olhos. - Discriminao sexual no trabalho, o que mais poderia ser?
      O rosto de Mark ficou com a cor de talco. De repente, ele aparentou dez anos mais.
      - No faa isso, Jojo. Richie ganhou em uma disputa justa, sem trapaas. Isso vai parecer despeito.
      Ligeiramente perplexa, ela o olhou fixamente.
      - Trata-se da minha carreira. Estou pouco ligando para o que vai parecer.
      - Jojo...
      Mas ela j dera as costas e fora embora.
      Assim que entrou na sala, foi direto para o telefone. Ligou para Becky, mas o nico advogado que ela conhecia era o que os ajudara a comprar o apartamento 
- e eles detestaram o seu trabalho, devido a problemas que surgiram na reta final.
      - Ligue para Shayna. Brandon certamente conhece algum. Ou ento ligue para Magda, porque ela conhece todo mundo em toda parte.
      No foi preciso ligar para Magda, porque Brandon conhecia uma boa profissional.
      - Eileen Prendergast  a melhor advogada trabalhista que existe. Ela se parece um pouco com voc: gente fina, mas assustadoramente boa naquilo que faz. Quando 
quer v-la?
      - Agora mesmo! - Jojo pareceu surpresa. - Quando mais poderia ser?...
      - Puxa, voc est determinada. Eileen s deve ter horrio vago para daqui a algumas semanas, mas vamos ver o que eu consigo.
      Ele ligou trs minutos depois.
      - Voc me deve uma, Jojo. Eileen cancelou um almoo. Venha agora mesmo.
      - Chego a em vinte minutos. - Ela pegou a bolsa e avisou Manoj: - Se Mark aparecer me procurando, pode dizer que eu fui consultar uma advogada trabalhista, 
mas no conte isso para mais ningum.
      Segunda-feira, hora do almoo
      Ao entrar na famosa torre de vidro em pleno centro de Londres, Jojo parou para pensar por um instante. As circunstncias de tudo lhe atingiram o crebro de 
forma quase palpvel e ela se sentiu tonta. Como foi que as coisas haviam chegado quele ponto? E to depressa? Naquela mesma hora, na vspera, ela j praticamente 
planejava a comemorao da sua promoo  condio de scia da empresa. Agora tudo sofrera uma reviravolta de cento e oitenta graus e ela os estava processando.
      Brandon a encontrou na recepo e a levou para conhecer Eileen, que era alta, linda e se parecia um pouco com Liv Tyler.
      Ele fez as apresentaes e saiu. Jojo se sentou e passou a relatar s detalhes do caso Richie Gant:
      - Eu gero mais lucro para a agncia do que ele, mas a diretoria escolheu porque ele sabe jogar golfe, se enturma com os rapazes do mundo corporativo e est 
tentando convenc-los a fazer merchandising em obras literrias. Eu, sendo mulher, no poderia fazer isso, na
      viso deles.
      Eileen ouviu tudo, fazendo anotaes em um bloquinho, interrompendo Jojo de vez em quando para fazer perguntas:
      - No existe um padro de voc ter sido prejudicada por favorecimentos a ele ou a outro homem?
      Jojo balanou a cabea para os lados.
      - Ento  um caso isolado, o que torna mais difcil de provar.
      - Pode ser, mas no pretendo ficar por l esperando tornar a acontecer!
      Eileen sorriu.
      - Sim, tem razo. Agora, vamos s coisas que voc precisa saber logo de cara: mesmo que voc ganhe a causa, o tribunal no tem o poder de ordenar a sua nomeao 
como scia da empresa. Em outras palavras, no importa qual seja a deciso do tribunal, voc no se tornar scia.
      - Ento, para que eu vou me dar a esse trabalho?
      - Se vencer, vai receber uma gorda indenizao, alm de recuperar a reputao.
      -  melhor do que essa marretada na cabea, eu acho - reagiu Jojo, fazendo uma careta.
      - H outros detalhes. O caso vai ser decidido por um tribunal, mas no se trata de um julgamento. Isso significa que o acesso  aberto, ou, em outras palavras, 
voc no precisa de representao legal para entrar com a ao, embora a maioria das pessoas escolha um advogado. Devido a isso, eles no vo estabelecer um valor 
para as custas. Portanto, Jojo, mesmo que voc vena, vai encarar uma despesa de dez mil, vinte mil libras, talvez mais. Qualquer indenizao que voc receber poder 
ser engolida pelas custas legais. E isso
      no caso de voc vencer.
      - Quais so as chances disso?
      Eileen avaliou com cuidado.
      - Cinqenta por cento. Mesmo que voc vena, pode se tornar complicado continuar trabalhando l. E se perder, ser impossvel. Alm disso, vai ser difcil 
conseguir emprego em outra agncia literria, pois ter adquirido a fama de pessoa difcil.
      - Por qu? Por ter feito a coisa certa?
      - Eu sei, mas infelizmente algumas mulheres usam a justia de forma vergonhosa. Por exemplo, quando elas tm um relacionamento com um colega e a coisa acaba 
mal, alegam "discriminao sexual" para criar problemas e... O que foi? Por que est fazendo essa cara?
      - Escute... - Jojo respirou fundo. - Eu tenho um relacionamento com um colega. O scio administrativo. No rompemos, estamos muito bem. Isso representa algum 
problema?
      Eileen considerou a informao.
      - Jojo, voc me garante que a relao est indo bem? Jura que ele no acabou de dar o fora em voc e isso tudo  apenas uma vingana?
      - Juro.
      - E est preparada para que o caso de vocs se torne de conhecimento geral?
      - Como assim?
      - As audincias so pblicas e h sempre reprteres por l, farejando alguma histria suculenta. Tenho a sensao de que o seu caso  bem suculento.
      - Esses caras so reprteres de tablides?
      - Exato.
      - Mas eu sou obrigada a contar ao tribunal os detalhes do meu envolvimento com Mark?
      - Voc no vai conseguir manter isso em segredo. - Eileen ficou muito sria. - Todos os detalhes relevantes devem ser disponibilizados. E se no fizer isso 
por vontade prpria, tudo poder ser usado contra voc.
      Jojo meditou a respeito. Seria uma barra, mas todo mundo acabaria sabendo em breve, de qualquer jeito.
      - Tudo bem - concordou. - Agora, deixe-me ver se eu entendi tudo. Tenho cinqenta por cento de chance de ganhar. Minha representante legal (voc, certo?) vai 
me custar milhares de libras, mas, se eu vencer, ganharei uma indenizao que dever cobrir as despesas. Se perder, vou desembolsar essa grana, mas, puxa, no posso 
perder, porque a justia estar do meu lado!
      Eileen no pde deixar de sorrir, mas teve de acrescentar:
      - Pode ser que o tribunal no concorde com voc. Eles podem achar que Richie era simplesmente o melhor agente, merecia a nomeao e...
      - Eles no vo fazer isso. Escolheram-no s porque o sebento sabe jogar golfe. Foi a nica razo. Vamos nessa! Qual o primeiro passo?
      - A primeira coisa a fazer  enviar uma notificao aos seus empregadores. Eles precisam saber que esto sendo processados.
      - Quando poderemos fazer isso?
      - O mais depressa possvel.
      - timo!
      No txi de volta para o trabalho, o alto-astral de Jojo foi diminuindo. Ela acabara de embarcar em um longo e assustador perodo de provao. Eileen dissera 
que havia cinqenta por cento de chance de vitria; Jojo imaginava que as probabilidades seriam maiores, mas Eileen era especialista nesses casos...
      E se ela perdesse? Comeou a suar frio s de pensar na possibilidade. S porque ela sabia que Richie no merecia a promoo, isso no significava que o tribunal 
concordaria com ela. A justia nem sempre acertava; ela trabalhara na polcia e sabia como tais coisas eram.
      Sentiu uma sbita vontade de cancelar o processo. Seria fcil interromper tudo agora, antes que a notificao fosse entregue  Lipman Haigh. De que serviria 
process-los? Mesmo que ela ganhasse, Richie Gant no seria removido do seu cargo, nem ela poderia se instalar em seu lugar. Puxa, o pior j tinha acontecido; ela 
no poderia desfazer a deciso da diretoria. Nada consertaria aquilo. Ser que ela queria correr o risco de ser humilhada novamente, dessa vez em pblico?
      Mas ela no queria desistir. Recusava-se a deixar Gant sair daquele jeito, valsando diante dela. A determinao a deixou feliz. Os prximos trs meses ou sabe-se 
l quanto que o processo iria levar seriam duros, muito duros. A sorte  que ela tambm era durona.
      
      De volta ao trabalho
      - Mark esteve  sua procura - avisou Manoj.
      - Eu sei. - Ele deixara dois recados no celular dela, dizendo que eles precisavam conversar, e quando ela verificou os e-mails, um deles era de Mark, pedindo 
que ela fosse  sua sala assim que voltasse do almoo. Foi o que ela fez.
      - Eu no acredito! - disse ele. - Voc foi procurar uma advogada trabalhista?
      - Fui.
      - E ento?
      Ela engoliu em seco, pois no era nada animador ter de contar tudo a Mark.
      - Vou processar a Lipman Haigh por discriminao sexual. A notificao judicial vai chegar at o fim da semana.
      - Eu no acredito! - ele repetiu. Parecia ter sido esbofeteado.
      - Mas, Mark... Aquele lugar era meu. Foi errado Richie conseguir a nomeao.
      Ele olhou para ela e o desespero apareceu estampado em seu rosto.
      - Por favor, no olhe para mim desse jeito - implorou Jojo, - No sou sua inimiga.
      - Caia na real, Jojo. Voc est processando a minha empresa.
      - No  a sua empresa...
      - Sou um dos diretores dela, e um dos donos. O que tudo isso vai fazer com voc e comigo? Jojo, eu lhe peo, por ns, para parar com isso.
      - Mark, no fale assim. Para voc, est tudo bem, voc  um dos scios, e scio administrativo ainda por cima. Por favor, Mark, preciso que voc me apie.
      - Isso vai nos destruir e voc no se importa.
      - Mas eu me importo sim! E isso no vai destruir nada! Continuo querendo que voc conte tudo  Cassie hoje  noite. Conte a ela e depois v dormir comigo.
      Ele esfregou os olhos.
      - OK.
      - Tudo vai dar certo, Mark, eu garanto.
      Mais tarde, porm, ela recebeu um torpedo pelo celular. Mark nem ao menos deixou uma mensagem de voz na caixa postal.
      
      Esta noite no d.
      Mxxx
      
      Tudo bem, ento era assim que ia ser.
      
      Dez minutos depois
      O telefone tocou e ela atendeu correndo. Mas era Anton Carolan, companheiro de Lily Wright.
      -  sobre o livro de Gemma Hogan, Caando Arco-ris. Preciso conversar com algum a respeito dele, mas no consigo encontrar Jim Sweetman. Li a prova final 
da grfica e ns, da Produtora Eye-Kon, achamos que ele pode virar um fantstico longa-metragem para a tev. J conseguimos um compromisso de Chloe Drew, que se 
interessou pelo papel de Izzy.
      -  mesmo?! - Por que se dar ao trabalho de se empolgar? Chloe era a estrela do momento, mas a Eye-Kon era um zero  esquerda.
      - Tambm conversei com Gervase Jones, diretor de dramaturgia da BBC, e ele tambm se interessou.
      Ora, ora... Se a BBC tinha interesse em investir em uma coproduo, a coisa era diferente. Tentando injetar um pouco de animao na voz, Jojo disse:
      - Tudo bem, Anton, vou ligar para Gemma agora mesmo.
      
      Nessa noite, sentindo-se profundamente deprimida, Jojo foi para casa. No queria ver ningum. Aquele tinha sido uma merda de dia para a sua carreira, e Mark 
estava dando para trs com relao a ela. Azar em dobro.
      E se ela e Mark rompessem por causa daquilo? E se a Lipman Haigh a suspendesse de suas funes durante o processo? Agora era tarde demais para desfazer tudo. 
Se ela cancelasse o processo, passaria o resto da vida culpando Mark por tentar faz-la desistir. Alm do mais, se ela desistisse, Mark, no fundo, ficaria desapontado. 
A garota enrgica pela qual ele se apaixonou no levaria desaforo para casa s para manter a harmonia. Ele queria que ela processasse a empresa, simplesmente no 
se dera conta disso! Puxa... Na verdade, ela no conseguia convencer nem a si mesma disso.
      Jojo admitiu: estava zangada com ele; se ele a amasse o suficiente, apoiaria sua deciso de processar a agncia. O problema  que era a empresa dele, e era 
fcil de entender por que, na sua viso, Jojo o estava atacando. Que salada! Se ela tivesse sido nomeada scia, eles
      estariam celebrando, felizes, a sua primeira noite oficialmente juntos.Bem, talvez no estivessem to felizes, devido  culpa pela famlia dele e tudo o mais...
      Viu s? Era nisso que dava se envolver com um colega de trabalho. Por outro lado, eles nunca teriam se apaixonado se no trabalhassem juntos.
      E agora, o que iria acontecer? Como ela poderia continuar trabalhando na Lipman Haigh? Para onde mais poderia ir? Seu currculo afundara e outras firmas talvez 
no demonstrassem muito interesse em contrat-la ao saber que ela no conseguira ser nomeada scia da Lipman Haigh. A nica opo era comear a trabalhar por contra 
prpria, mas isso era muito caro e assustador para ser vivel.
      Durante toda a noite seus pensamentos giraram sem parar, at que, por fim, ela acabou dormindo no sof, derrubada pela exausto e por uma garrafa de merlot 
bebida quase at o fim. s dez e quinze o telefone tocou e a acordou.
      - Al?!... - atendeu ela, sonolenta.
      Mark disse:
      - Tudo bem, scia?
      - O qu?...
      - Tudo bem, scia?
      Jojo estava confusa. Ser que Mark tentava fazer graa?
      - Acabei de chegar de uma reunio de emergncia com os outros scios da Lipman Haigh - gritou Mark - , e eles querem oferecer sociedade a voc! - Ele parecia 
eufrico e com o astral l em cima.
      Ela se remexeu no sof at conseguir se sentar.
      - Eles mudaram de idia? Vou ser eu?... Em vez de Gant?
      - No, junto com ele.
      - Como assim? Eu achava que s poderia haver no mximo sete scios.
      - Se todos os scios concordarem, os estatutos da sociedade podem ser alterados - e todos esto dispostos a fazer isso porque querem voc a bordo! Essa  uma 
proposta boa, muito boa, Jojo. Eles no queriam dividir os lucros com mais algum alm do necessrio, mas aceitaram fazer isso porque adoram voc.
      E no queriam a publicidade negativa de um processo nas costas deles, mas no havia necessidade de jogar isso na cara de Mark.
      - Posso passar a? - perguntou ele.
      - Claro. Venha correndo.
      
      Na manh seguinte
      Um e-mail foi enviado a todos os funcionrios da Lipman Haigh, dando a notcia. A confirmao oficial apareceria na Book News de sexta-feira.
      - Est feliz agora? - perguntou Mark.
      - Hummm.
      - Hoje  noite vou resolver tudo com Cassie.
      -  melhor esperarmos at sexta-feira - sugeriu Jojo - , at tudo estar certinho e oficializado.
      Ele olhou para ela, srio.
      - Isso no  um truque.
      - Tudo bem.
      
     ***
      
      Jojo estava em sua sala, analisando uma papelada com Manoj, quando uma sombra caiu sobre a mesa. Na mesma hora ela sentiu um cheiro de loo gosmenta para 
cabelo. Richie Gant. Ele sorriu para ela, com ar cruel, e disse:
      - Ora, ora... Vejo que o seu namorado conseguiu torn-la scia.
      - Saia da minha sala - ordenou Jojo, com ar sereno.
      - S queria saber... Por que ser que ele no votou em voc logo de cara?
      - Saia daqui, por favor!
      - Ele no votou em voc. Votou em mim.
      Jojo se sentiu empalidecer de choque, mas se manteve firme. Olhou para a figura magra dele e avisou:
      - Sou pelo menos dez quilos mais pesada que voc e conseguiria quebrar o seu brao como se fosse um graveto. No me faa machuc-lo. Agora, caia fora!
      Ele recuou, ainda sorrindo, e, quando desapareceu de vista, Jojo comeou a tremer. Uma coisa ela j aprendera: o Rei das Piranhas no mentia. Se ele afirmou 
que Mark no votara nela  porque ele no tinha votado mesmo. Mas como ela poderia descobrir? A quem
      poderia perguntar? A essa altura do campeonato, ela no confiava em ningum.
      - Voc realmente conseguiria quebrar o brao dele como um graveto? - perguntou Manoj.
      - No sei. - Os lbios dela pareciam irritantemente trmulos. - Mas at que seria uma boa chance de descobrir.
      - Ignore-o. Ele ficou putinho porque no foi o nico a ser promovido. Est s tentando colocar voc contra Mark.
      Talvez. Era possvel. S havia um jeito de descobrir.
      - Vou falar com Mark. - Pelo menos dessa vez Manoj no imaginou Jojo de joelhos praticando sexo oral em Mark. No havia chance de acontecer. No naquele dia.
      
      Sala de Mark
      Ele ergueu a cabea ao v-la chegar.
      - Mark, conte-me a verdade, porque eu vou acabar descobrindo de qualquer jeito. Voc votou em mim?
      Fez-se um silncio longo demais. E ento:
      - No.
      Ela ficou parada ali em p um tempo, imobilizada pelo choque. Mais uma vez se sentiu como se flutuasse, em um sonho. Comeava a se sentir enjoada daquelas 
experincias fora do corpo.
      Ela puxou uma cadeira e se sentou diante da mesa dele.
      - Por que no? - quis saber ela. - Tomara que a desculpa seja muito boa.
      - Na verdade, . - Mark pareceu to seguro de si que Jojo ficou surpresa... E superaliviada. Tudo ia dar certo, tudo ia acabar bem. Aquele era Mark.
      - Faa as contas, Jojo - pediu Mark. - Acabar com o meu casamento, eu abandonar Cassie e montar casa com voc, tudo isso vai nos custar uma grana preta. Richie 
avisou que se no fosse nomeado scio ele iria se demitir da agncia, levando consigo a idia de levantar grana com merchandising. Alm do mais, se voc se tornasse 
scia, a sua - a nossa - renda iria despencar por trs anos. Depois daquele sufoco da suposta gravidez, eu percebi que havia a possibilidade de voc acabar desistindo 
de trabalhar, de qualquer jeito. O que vou dizer parece um pouco novelesco, mas eu fiz isso por ns. E tem mais uma coisa... Todos j sabem que estamos juntos e 
ficaram ligados em qualquer sinal de favoritismo. Para conseguir manter o respeito dos meus scios, eu no poderia votar em voc, ainda mais quando fazia mais sentido, 
em termos financeiros imediatos, votar em Richie.
      Muda de frustrao, Jojo olhou para ele. Tudo o que Mark falava fazia sentido, pelo menos em tese. Tudo o que ela conseguiu dizer foi:
      - Por que voc no conversou nada disso comigo?
      - Porque conheo voc, Jojo. Sabia que voc seria capaz de escolher o trabalho em vez de mim. Em vez de ns.
      Ela no conseguiu segurar a raiva e explodiu de indignao:
      - Voc arruinou a minha chance de me tornar scia da empresa em troca da grana que nos garantiria ficar juntos.
      Ele a olhou de um jeito astuto e disse:
      - Analise isso de outro modo. Voc arriscaria as chances de ficarmos juntos em troca de virar scia.
      Ela levou muito tempo para responder.
      - No percebi que isso representava uma escolha - disse ela, por fim.
      
      Jojo foi embora com a alma arrasada. Ser que Mark tinha razo? Ela era ambiciosa demais? O problema  que essa descrio nunca se aplicava aos homens. Do 
mesmo modo que era impossvel uma mulher ser magra demais, era impossvel um homem ser ambicioso demais. Um homem jamais teria de escolher entre a ambio e a vida 
emocional.
      Alm disso, comeou a crescer por dentro de Jojo uma coisa que ela no queria ver - Mark no tinha o direito de tomar aquela deciso por ela.
      Mas ela amava Mark. Puxa, amava de verdade. De repente lhe veio  cabea uma pergunta que seu pai costumava fazer: O que voc preferiria na vida - vencer ou 
ser feliz? Alm disso, como o prprio Mark lembrara, ela se tornara scia. Conseguiu o que queria. Tudo estava bem, ela s precisava fazer os sentimentos encaixarem 
nos fatos.
      
      Escritrio de Dan Swann
      Jojo precisava conversar com algum e confiava em Dan, pois ele era maluco demais para ser traidor.
      - Adorei voc ter se transformado em scia - ele assegurou.
      - Obrigada. E eu agradeo muito por voc e Jocelyn terem me apoiado.
      - E Jim.
      - Jim? Sweetman? Jim Sweetman votou em mim? - Novamente lhe veio aquela sensao de estar fora do corpo. J estava virando um hbito.
      - Ahn... Sim.
      - Por qu?
      Dan mostrou um ar perplexo. Como, diabos, ele poderia saber?
      - Porque ele acha voc competente?...
      - OK, Dan. Obrigada, mesmo. Preciso ir.
      Ela foi direto  sala de Jim.
      - Jim, por que voc votou em mim?
      - Ol para voc tambm.
      - Desculpe... Ol. - Ela se sentou. - E ento, por que voc votou em mim?
      - Porque considerei voc a melhor pessoa para ocupar o cargo.
      - No o Rei das Piranhas?
      - Tenho muito respeito por Richie, ele  um grande agente literrio, mas no  to bom quanto voc. A idia de merchandising convenceu os outros, mas eu achei 
- e continuo achando - que livros so um veculo errado para propaganda, no so sexy o bastante.
      Pode ser que eu esteja errado, mas acho que aqueles milhes que ele prometeu nunca vo virar realidade.
      - Sei... Bem, obrigada. - Ela se levantou para sair, mas ento tornou a sentar. - Puxa, Jim, ns ramos to amigos um do outro. Depois daquela noite no Coach 
and Horses, quando me disse que eu no conseguiria tentar voc, as coisas ficaram meio esquisitas entre ns. O que foi aquilo?
      Dj-vu - ela j tinha tido essa conversa antes. Quando? Ento ela lembrou: foi com Mark, e serviu de gatilho para ele declarar o seu amor por ela.  cus!...
      Jim pareceu embaraado, remexeu-se na cadeira e por fim riu, pouco  vontade.
      - Tudo bem, Jojo,  melhor eu contar logo. Eu tinha uma quedinha por voc. Vamos reconhecer, minha cara Jojo Harvey: voc  ma mulher fabulosa.
      Merda, pensou ela. Merda, merda.
      - J superei isso agora - completou ele. - H trs meses estou saindo com uma mulher especial.
      Merda, ela pensou de novo. Merda, merda. Puxa vida, ela era apenas humana.
      - Ela  fantstica. Eu estou... - Jim procurou a palavra exata - gostando muito dela.
      - Que legal! Fico feliz por voc.
      
      De volta  sala de Jojo
      Algo se encaixou naquela histria e ela se viu sem escolha. De qualquer modo, no perderia nada em tentar.
      Disse a Manoj:
      - Preciso de voc trabalhando at mais tarde durante todo o resto da semana.
      - Fazendo o qu?
      -  segredo. - Ela se inclinou at chegar junto dele. - E se contar a algum, eu mato voc.
      - Parece justo. - Ele engoliu em seco e Jojo se sentiu mal com essa situao, no devia apavor-lo desse jeito, mas era to fcil.
      - Quero os telefones pessoais de todos os meus autores.
      - Por qu?
      - O que foi que eu acabei de lhe dizer?
      
     
Gemma
      
      Depois que Owen terminou comigo, para minha grande surpresa, fiquei arrasada. Embora soubesse que era uma tolice sem tamanho, chorei o tempo todo dirigindo 
a caminho do trabalho; no dia seguinte chorei durante o expediente e chorei em casa,  noite. Ento acordei no dia seguinte e repeti o mesmo padro. Era como voltar 
aos quinze anos de idade e passar por tudo novamente.
      Foi diferente quando Anton me dispensou - aquilo me deixou amarga e vencida, me modificara por dentro. Com Owen, eu no o chamei de canalha nem embarquei em 
fantasias sobre receb-lo de volta. No pretendia nem tentar isso. Em vez de gerar amargura, a sua partida abrira dentro de mim um abismo de tristeza.
      Liguei para Cody; ele me levou para tomar uns drinques e ficou segurando a minha mo.
      - Nunca o levei a srio, Cody, mas... E se Owen for o homem da minha vida?
      Ele riu com cara de deboche.
      -  srio! - afirmei. - O homem da sua vida vem em vrias formas e tamanhos! Muitas vezes no se percebe que ele  algum que voc conhece. Sei de uma mulher 
que encontrou o "homem da sua vida" em um barco a caminho da Austrlia, quando ia atrs de outro sujeito; ao chegar l, estava fazendo mil planos de casamento e 
percebeu que o carinha do barco era o verdadeiro homem da sua vida...
      - E que mulher  essa?
      - Algum que mame conhece.
      - Meu bom Deus, ela anda pedindo conselhos para a sua vida amorosa a Maureen Hogan.  como aprender a voar com Osama bin Laden.
      - Agora eu no tenho mais com quem compartilhar minhas fantasias sobre Anton.
      - Como  que ?!...
      - Ns inventvamos histrias. Nelas, Owen sempre voltava para Lorna e eu para Anton. Agora, Owen voltou de verdade para Lorna, e eu... Eu... - Uma longa pausa, 
para esperar passar um ataque de lgrimas. - NINGUM.
      - Voc passava o tempo com o seu namorado fantasiando (em voz alta, eu suponho) sobre reatar com o seu namorado anterior? He-llo?!....
      - A coisa no  do jeito que parece. Estvamos oferecendo conforto um ao outro. - Comecei a chorar to alto que fiz barulho de canudinho, como Hannibal Lecter, 
s que sem querer. - Eu gostava muito de Owen e agora sinto tanta falta dele... - Uma nova torrente de lgrimas transbordou de meus olhos e me escorreu pelo rosto. 
Isso no  nada legal....
      Cody me observou, fascinado.
      - Meu bom Deus Todo-Poderoso... Vocs brigavam o tempo todo!
      - Pois ! Sei perfeitamente que isso no faz o menor sentido.
      - Qual foi a ltima vez em que voc chorou desse jeito?
      Tentei lembrar. Quando papai foi embora de casa? No, eu no derramei uma lgrima. Quando Anton me largou? No, tambm no, pelo menos no desse jeito. Eu 
simplesmente me fechei e passei a odiar todo mundo. Senti um aperto to grande no corao que no tinha chorado, e aquele aperto nunca mais me abandonou.
      - No sei qual foi a ltima vez que eu chorei assim. Nunca, eu acho. Puxa vida, Cody, ser que estou tendo um esgotamento nervoso?
      Qualquer um teria dito "Shh... shh..., no seja tola, voc est apenas um pouco chateada". Mas no Cody. Parecendo srio, ele sentenciou:
      - Tem algo acontecendo com voc, disso no h dvida. Alguma coisa do passado que est sendo resgatada, ou algo assim. Transferncia, esse tipo de coisa.
      - Acho que o melhor ento  colocar tudo pra fora. - Engoli em seco.
      - Hummm...  - concordou ele, meio em dvida. - Mas tente no fazer isso em pblico.
      - Obrigada, Cody. - Mais um ataque de convulses de choro acompanhadas pelo barulho de canudinho me fez estremecer. Quando consegui falar novamente, eu disse: 
- Voc est me dando muito apoio... Em se tratando de voc.
      Chorei ao tentar cancelar minhas frias em Antgua e chorei ainda mais quando eles se recusaram a me devolver o dinheiro da entrada.
      - Seu namorado voltar para a antiga namorada no  um fato passvel de cobertura pelo seguro contratual- explicou a agente de viagens.
      - Mas sempre tem alguma escapatria nesses casos - disse eu, quase me desmontando de chorar.
      - Por que voc no viaja, mesmo assim?
      - No posso. No estou em condies de entrar num avio.
      Como a mulher ficou realmente com pena de mim, quebrou as regras e me disse que eu no precisava perder o dinheiro e poderia marcar outra viagem no mesmo valor 
daquela quando estivesse me "sentindo melhor".
      - Sei que est achando que isso nunca vai acontecer - disse-me ela, antes de eu ter tempo de argumentar. - Mas ficaria surpresa ao ver como as coisas so.
      Eu era a suscetibilidade em forma de gente. Chorava por qualquer coisa. E o fazia deliberadamente. Alugava filmes lacrimosos aos quais nem uma pessoa com corao 
de pedra conseguiria assistir sem chorar. Nas noites em que saa, eu me agarrava s pessoas e as obrigava a ouvir a ladainha da minha tragdia. Na festa de Natal 
da minha firma (tnhamos sempre que festejar o Natal em janeiro, porque ramos organizadores de eventos e passvamos todo o ms de dezembro atolados, preparando 
festas alheias), eu fui a garota bbada que teve de ser levada em casa por no conseguir parar de chorar. Sempre tem de haver uma dessas.
      At mesmo o trabalho me deixava arrasada. Estava organizando um evento muito incomum - Max O'Neill, um rapaz de apenas vinte e oito anos, sofria de uma doena 
terminal e me contratara para organizar o seu funeral. A princpio eu me senti lisonjeada e feliz por ele ter me escolhido (ao contrrio de F&F, diga-se de passagem. 
Frances vivia resmungando: "Pelo jeito esse a no vai se tornar um cliente assduo."). Toda vez que eu o encontrava e fazamos vdeos. nos quais ele pedia aos amigos 
que no usassem luto nem sofressem por causa dele, ou quando planejvamos os drinques que seriam servidos na "festa", eu voltava para casa me sentindo um caco.
      E em meio a toda essa lacrimosidade, eu acabei indo parar na companhia de Johnny. Um dia, depois de um encontro particularmente arrasador com Max, passei de 
carro pela farmcia e resolvi, por impulso, ir visit-lo, em busca de conforto, como se ele fosse um sorvete emocional. Depois de trocarmos votos de um feliz ano-novo, 
ele me perguntou:
      - Deseja alguma coisa da loja?
      Eu nem tinha pensado naquele detalhe.
      - Oh... Ahn... Eu vim comprar... Um pirulito e... O que  isso aqui? Gaze cirrgica? Vou levar um pacote tambm.
      - Tem certeza, Gemma?
      - No, no, acho que no. Quero s o pirulito.
      Mesmo depois de eu tentar pagar pelo produto ( claro que ele no deixou. "Pelo amor de Deus,  apenas um pirulito."), no fui embora dali.
      - Como andam as coisas? - perguntou ele.
      - timas - respondi, com a cara arrasada. - Papai voltou para casa. E o seu irmo? Como vai?
      - Muito bem, vai voltar a trabalhar em breve e eu vou ter a minha vida de volta. O seu livro j est para ser lanado, no?
      - Em maio. Mas vai estar  venda nas livrarias dos aeroportos de todo o pas antes disso, em maro.
      - Puxa, voc deve estar empolgadssima!
      - Hummm.
      - Estou louco para l-lo.
      - Vou ver se eu lhe consigo um exemplar. - Minhas preocupaes sobre ele ler a respeito de si mesmo haviam diminudo, levadas pela tristeza.
      Depois de algum tempo, ele perguntou (eu estava querendo saber a mesma coisa a respeito dele):
      - Ah, humm... Como vai o seu no-namorado?
      - Ah, aquilo acabou. Ele voltou para a antiga namorada. Ns nos separamos de forma amigvel.
      Meus olhos se encheram de lgrimas. No exatamente aquelas do tipo "uma exploso de emoes", mas o lance foi forte o bastante para Johnny me oferecer um leno 
de papel. Tudo bem, ele tinha um estoque deles.
      Mais tarde, no conforto do meu lar, percebi que foi a gentileza dele em me oferecer o leno de papel que deu incio ao momento de insanidade que se seguiu. 
Enxuguei minhas lgrimas e me ouvi dizendo:
      - Sabe?... Acho que a gente poderia sair para tomar um drinque uma hora dessas... Voc e eu.
      Joguei a cabea meio de lado, para ouvir melhor. Eu realmente tinha dito isso?
      Ento olhei para rosto dele. Vocs precisavam ver. Ele me pareceu realmente insultado.
      - Puxa, desculpe - eu disse, e sa correndo. - Sinto muito.
      Entrei no carro agarrando com fora o meu pirulito grtis. Papai voltara para casa e eu estava muito mais maluca do que jamais estivera.
      
      Mal sabia eu que a vida estava para mudar de maneira radical.
      Tudo comeou com um telefonema de Jojo:
      - Puxa, tenho uma boa novidade, de arrasar, mesmo - disse ela. - Acabei de receber uma ligao de uma produtora de filmes chamada Eye-Kon, Eles esto interessados 
em comprar os direitos de Caando Arco-ris e transform-lo em um filme para a tev, pois adoraram a histria. No tm grana para a produo, mas andam conversando 
com a BBC sobre assinar um contrato de co-produo. Anton me disse que...
      - Anton?
      - Sim, Anton Carolan. Ei, ele  irlands, quem sabe voc o conhece...?
      - Sim, eu o conheo.
      Houve um instante de silncio.
      - Puxa, eu falei brincando, mas... Voc conhece Lily, ento  claro que tambm conhece Anton.
      - Eu o conheci antes de Lily. - Na verdade eu no disse isso para contar vantagem. Estava atordoada: Anton desejava algo que eu possua. Eu tinha uma coisa 
que Anton queria. Mesmo em minhas fantasias mais elaboradas, eu jamais imaginara uma situao como essa. Meu pensamento voltou atrs trs anos e meio, quando eu 
me sentia quase suicida pela falta de Anton. Uma poca em que eu o queria de forma total e absoluta, mas me via completamente sem condies de reav-lo, A vida era 
mesmo muito louca. Quase sem flego, pedi: - Jojo, me fale mais a respeito dessa histria.
      -  s isso. Eu lhe contei tudo o que sei.A Eye-Kon no tem grana, mas a BBC sim. Voc est interessada na proposta, a princpio?
      - Claro que estou interessada!
      - Vou avis-los, mas saiba que essas coisas levam tempo, no fique muito empolgada no. Eu a mantenho informada.
      - Mas...
      Ela desligou e eu fiquei l sentada, olhando para o telefone, atnita demais para seguir em frente com as minhas atividades dirias. Anton!... Aparecendo do 
nada!... Querendo meu livro!
      Jojo tinha dito que a produtora se chamava Eye-Kon, Na mesma ora eu fui pesquisar na internet e no consegui acreditar no que li: Eles estavam numa merda federal. 
Um artigo recente de uma revista de economia dizia que a Eye-Kon no conseguira realizar nenhum projeto, no ganhara dinheiro algum em mais de um ano e se no se 
erguessem rapidamente teriam de fechar as portas. Pelo visto, Caando Arco-ris era uma espcie de tbua de salvao para eles.Ou tudo ou nada. Talvez eu estivesse 
errada, mas... Se fosse isso, at que ponto Anton iria querer o projeto? Pela primeira vez em muito tempo, especulei comigo mesma a respeito dele e de Lily. Ela 
tambm no deveria estar numa boa, ainda mais com o fracasso do seu novo livro. Talvez Anton estivesse de saco cheio dela, talvez estivesse pronto para saltar do 
bonde.
      O que eu deveria fazer?, me questionei. Ser que devia esperar que a sua proposta para a compra de direitos do livro chegasse atravs dos canais oficiais ou 
deveria entrar em contato diretamente com ele? Afinal, ramos velhos amigos...
      Ao longo dos dois dias que se seguiram, no consegui pensar em praticamente nada; na verdade, fiquei to envolvida com aquilo que quase esqueci de chorar.
      Ento Jojo tornou a ligar.
      
      - Gemma, podemos conversar? Tenho uma proposta para voc.
      - Outra? V em frente.
      - Eu resolvi - ela parecia empolgada - trabalhar por conta prpria e gostaria de levar voc comigo.
      Que sortuda! Eu adoraria fazer isso, abrir meu prprio negcio. O problema  que eu gostava do meu rosto do jeito que ele era.
      - Ento, o que me diz? Est dentro ou fora?
      Eu no tinha a menor idia do que dizer e me deu um branco. Aquela era a mulher que conseguira sessenta mil libras pelo meu livro. Por que eu no deveria colar 
nela?
      - Pode contar comigo, Jojo. Quais os outros autores que voc est levando?
      - Miranda England, Nathan Frey, Eamonn Farrell...
      - Lily Wright?
      - Bem, ainda no conversei com ela, mas sim, espero que sim. - Mesmo o livro dela no tendo ido muito bem? - Uma catstrofe. Tinha sado outro artigo na ltima 
Book News a respeito do fracasso do livro e do prejuzo gigantesco que isso causara  Dalkin Emery. Lily estava sem contrato com a editora e o artigo insinuava que 
ela teria muita sorte se conseguisse publicar outro livro na vida.
      - Bem, o romance dela foi muito bem recebido pela crtica.
      - Ah, foi? Puxa, eu no li nada a respeito disso.
      
     
Jojo
      
      Sexta-feira de manh
      Jojo confirmou que a notcia sobre sua nomeao como uma das novas scias da Lipman Haigh tinha sado na Book News. Foi  sala de Mark e lhe entregou um envelope. 
Ele olhou para o papel.
      - O que  isso?
      - Minha carta de demisso. Estou caindo fora.
      Mark olhou com cara de cansao. Parecia profundamente fatigado.
      - Jojo, pelo amor de Deus... Voc virou scia! No  exatamente o que queria?
      - S consegui porque meu namorado mexeu uns pauzinhos.
      - Se o seu namorado tivesse feito a coisa certa logo de cara e votado em voc, no precisaria mexer os pauzinhos. Sinto profundamente por isso.
      - Voc fez o que achou certo.
      - No tome essa atitude - ele suplicou. Horrorizada, ela percebeu que ele poderia chorar a qualquer momento. - Voc precisa de um emprego.
      - Eu j tenho um emprego.
      - Trabalhando para quem?
      - Para mim mesma. Vou ficar sozinha, montar minha prpria firma.
      Mark soltou uma exclamao de cansao, algo entre um riso e um suspiro.
      - Tenho que fazer isso, Mark. No h clima para continuar aqui. Imagine... Eu trabalhando lado a lado com Richie Gant, sabendo que no consegui virar scia 
pelos canais normais? Nunca daria certo. E tambm me recuso a trabalhar para outra agncia e um dia assistir a tudo isso de novo.
      Ele riu, parecendo derrotado, e perguntou:
      - E quanto a ns, Jojo? Voc e eu? Pretende ficar sozinha em nvel pessoal tambm, alm do profissional?
      O engraado  que ela ainda no havia decidido o que fazer com relao a isso, at aquele momento. Olhou para ele, para seu rosto adorado, to familiar e to 
bonito; pensou no afeto e no quanto os dois se curtiam, a amizade que vivenciavam, suas esperanas para o futuro, os filhos que teriam juntos, o companheirismo e 
o estmulo intelectual que sempre haviam compartilhado e continuariam a faz-lo,  medida que envelhecessem.
      - Sim - ela afirmou. - Est tudo acabado, Mark.
      Ele fez que sim com a cabea, como se isso j fosse o que esperava ouvir.
      Ento, pela primeira - e ltima - vez, Jojo fez uma coisa que nunca fizera no trabalho: abraou-o. Colou o corpo contra o dele, de cima a baixo, na esperana 
de deixar impressa em sua alma a lembrana de como ele era, do seu cheiro, do calor intenso de seu corpo.
      Ela o abraou de forma quase violenta, tentando deix-lo estampado para sempre em sua memria. Ento, virou as costas e foi-se embora.
      
      Ao limpar sua mesa, Jojo se perguntou onde estava o monte de caixas de papelo que se materializava do nada quando as pessoas abandonavam o emprego de uma 
hora para outra nos filmes. No que ela tivesse muitas tralhas. No era mulher de ter vasinhos de plantas. Elas eram to carentes...
      Os corredores da Lipman Haigh fervilhavam com especulaes sussurradas: Jojo estava esvaziando a mesa, o que estava rolando?
      Seu telefone tocou e ela atendeu, com ar distrado. Miranda England.
      - Jojo, eu andei pensando...
      Jojo ficou gelada.
      - Na sua nova agncia voc no tem um departamento de direitos autorais para o exterior, tem?
      - Ainda no. Mas terei.
      - E tambm no tem um departamento de divulgao, certo?
      - Terei.
      - Sabe o que , Jojo...? Agora que no estou escrevendo um livro por ano, preciso muito da renda dos meus livros no exterior. Na Alemanha eu vendo quase tantos 
livros quanto na Gr-Bretanha. E os direitos para o cinema tambm rendem uma boa grana.
      - Miranda, quem procurou voc? Richie Gant?
      - Ningum me procurou!
      - O que ele ofereceu?
      - Nada!
      - Uma comisso mais baixa para o trabalho dele? Foi isso? Nove por cento? Oito? Sete?
      Miranda esperou um pouco, mas acabou confessando, com ar infeliz:
      - Oito. E ele tem razo com relao aos direitos para cinema e teatro, e tambm a negociao de direitos para o exterior.
      Manoj danava diante dela como um macaco, segurando uma folha com um aviso escrito: "Gemma Hogan na linha.  urgente!"
      - Miranda, eu lhe ofereo sete por cento, e estarei com um departamento de mdia e direitos para o exterior montado e funcionando em trs meses.
      - Vou pensar no assunto.
      
     
Gemma
      
      Eu voltava para casa de carro quando meu celular tocou. Atendi e um homem disse:
      - Eu poderia falar com Gemma Hogan?
      -  ela.
      - Aqui  Richie Gant, da agncia literria Lipman Haigh.
      A firma de Jojo, lembrou Gemma.
      - Ol, corno vai?
      - Gemma, eu adorei o seu livro.
      - Obrigada. - Por que ser que ele estava me ligando?
      - Voc provavelmente ainda no sabe, mas a sua agente, Jojo Harvey, decidiu sair da Lipman Haigh e vai trabalhar por conta prpria.
      - Sim, eu soube.
      - Ah, soube?... Bem,  isso... O caso  que Jojo  uma agente excepcional, mas trabalhar por conta prpria? Ns, os scios da firma, estamos preocupados com 
o futuro dos clientes dela.
      - Srio?
      - Trabalhando por conta prpria, ela no vai ter um departamento de direitos autorais para o exterior. Acho que Caando arco-ris poderia virar um filme excelente, 
mas no h corno Jojo lhe oferecer essa possibilidade com urna empresa pouco estruturada.
      - Sim, mas...
      - O que eu lhe pergunto : que tal continuar com a Lipman Haigh? Temos vrios agentes excelentes aqui e eu mesmo ficaria muito satisfeito em represent-la. 
Alm disso, sou um dos scios da irm.
      Eu disse que ia pensar no assunto e liguei na mesma hora para Jojo. Ela estava ao telefone com outra pessoa, ento eu avisei ao assistente que era urgente. 
Ela me ligou logo em seguida.
      - Jojo, um tal de Richie Gant acabou de ligar dizendo que voc no tem um departamento de direitos para o exterior e ele quer me representar. O que est acontecendo?
      - Voc tambm? Mal apresentei minha carta de demisso e ele  est tentando roubar meus clientes? - Sua voz ficou meio esganiada. Isso est parecendo o filme 
Jerry Maguire.
      Em sua ligao anterior, Jojo me fizera achar que trabalhar para uma nova agncia era uma coisa boa, mas percebi um pouco de pnico na voz dela. Por algum 
motivo ela precisava cair fora e andava catando clientes para poder montar sua prpria agncia.
      Em um instante, como um choque, tudo se tornou claro na minha cabea e eu mal acreditava na chance que acabava de cair no meu colo. Jojo precisava de clientes 
- e se eu lhe dissesse que s topava ir com ela se ela no levasse Lily? Eu seria muito mais valiosa para Jojo do que Lily: a carreira de Lily como escritora estava 
em queda livre, enquanto a minha estava apenas comeando.
      Sem agente, a carreira de Lily escorreria pelo ralo, e eu tinha o poder de fazer isso acontecer. Alm do mais, Anton precisava dos direitos de filmagem do 
meu livro. Quanto ele estaria disposto a sacrificar, a fim de salvar a prpria carreira?... Anton era terrivelmente ambicioso, pelo menos fora h trs anos e meio.
      Nem nas minhas mais loucas fantasias para me vingar de Lily eu consegui imaginar algo assim - aquilo era muito maior, melhor e, acima de tudo, real.
      Uma onda de alvio me invadiu. Onde foi que as coisas comearam a dar to certo? De repente, e de forma estonteante, eu tinha nas mos a oportunidade de dar 
uma virada em minha vida, de apagar anos de humilhao e ainda ficar por cima da carne-seca. Olhei para o poder que tinha nas mos e cheguei a me sentir tonta. Ser 
que Lily tambm estava vendo tudo aquilo?
      Eu precisava ir a Londres. Era hora de reencontrar Anton.
      
     
Lily
      
      Gemma vinha me pegar. At aquele momento eu admitia que talvez fosse tudo parania com relao a ela, e minha culpa inventara tudo aquilo. S que agora no 
era mais imaginao.
      Anton levava em frente o seu plano de comprar os direitos de filmagem do livro de Gemma. Eles ainda no tinham marcado um encontro, mas era apenas uma questo 
de tempo, e ento tudo acabaria.
      Entretanto, Gemma no estava satisfeita em fazer apenas isso, conforme eu descobri na sexta-feira  tarde, ao falar com Miranda England ao telefone.
      - Lily - disse-me ela - , andei pensando a respeito da situao de Jojo. Voc no est preocupada com o fato de ela no ter um departamento de direitos para 
o exterior nem um setor de vendas para o cinema e o teatro? Aquele cara de cabelo oleoso, Richie Gant, acabou de me ligar e...
      - Que "situao" de Jojo?
      Miranda soltou um guincho.
      - No me diga que voc ainda no sabe? Jojo est saindo da agncia! Vai trabalhar por conta prpria.
      Eu no ouvira nada a respeito.
      - Ela est entrando em contato com todos os autores que representa, para lev-los com ela.
      Ento aquilo significava que ela no ia me querer? O pnico apertou-me o peito como um torno mecnico.
      - Quem mais vai com ela? - perguntei.
      - Eamonn Farrell, Marjorie Franks, aquele esquisito do Nathan Frey... - Nossa, tantos autores j tinham sido contatados e eu no. Como no era burra, sabia 
que aquilo tinha um significado. Ento Miranda disse as palavras que eu receava ouvir: - ... e aquela autora nova tambm, Gemma Hogan.
      O suor brotou-me da testa na mesma hora. Naquele instante eu descobri o porqu de Jojo no ter me telefonado. Gemma devia ter lhe dito, abertamente, que no 
trocaria de agncia se ela me mantivesse como cliente. Sem agente, a pequena brasa que restava da minha carreira literria seria extinta. Nenhum outro agente me 
aceitaria. Sem Jojo, eu estava liquidada.
      
     
Gemma
      
      Peguei o vo de seis e trinta e cinco da manh, saindo de Dublin, e, ao descer em Londres, fui direto do aeroporto de Heathrow para a Lipman Haigh. Vestia 
o meu novo terninho preto, da Donna Karan. No, na verdade era Prada. De qualquer modo, ele fazia com que eu
      parecesse uma mulher de cintura fina, muito chique. Consegui compr-lo em uma liquidao por um preo espantosamente razovel, considerando a marca.
      - Jojo! Com relao  sua nova agncia, eu estou dentro.
      - timo, voc no vai se arrepender!
      Porm, antes mesmo de aceitar a sua mo estendida para o cumprimento e selamento do acordo verbal, eu disse:
      - Tem s uma coisinha.
      - Sim?
      - Lily Wright.
      - Lily Wright?
      - No quero que voc a traga para trabalhar conosco.
      Jojo pareceu preocupada.
      - Mas, Gemma... Nem a polcia iria querer Lily Wright neste momento. Se eu a deixar na Lipman Haigh, dificilmente algum vai querer represent-la. Isso vai 
significar o fim da sua carreira literria.
      Encolhi os ombros.
      - Meus termos so esses - afirmei.
      Jojo me analisou por alguns instantes. Percebi respeito em seus olhos. Lentamente, ela concordou:
      - Tudo bem. Nada de Lily, ento.
      - timo! - Apertei a mo dela. - Vai ser um prazer trabalhar com voc.
      No elevador, fechei as mos com fora. O sucesso estava ao meu alcance. Em breve a vingana seria minha. Minha, minha, toda minha!
      O escritrio da Eye-Kon ficava apenas a trs quarteires dali, mas a caminho de l eu parei em uma loja de sapatos e comprei dois pares de botas em liquidao. 
Devido a isso, ao chegar ao compromissa que fora agendado com Anton, eu estava vinte minutos atrasada.
      No estava nem a para esse detalhe... Entrei no prdio balanando o corpo e exibindo minhas sacolas de compras.
      Encontrar Anton pela primeira vez depois de trs anos e meio foi esquisito. Ele parecia exatamente o mesmo: os olhos agitados, o estilo chique-largado. E 
o mesmo carisma,  claro. Toneladas dele. Tem coisas que no mudam.
      - Como vai voc, sua maluca? - Ele sorriu. - Vamos, entre e sente-se. Quer beber alguma coisa? Pode sentar. Voc est com uma aparncia fantstica!
      Na ltima vez em que o vira, eu estava doente de amor por ele. O "Incidente-da-Splica"* passou vagamente pela minha cabea, mas eu o fiz desaparecer por um 
passe de mgica. Naquela poca Anton estava com todo o poder, a faca e o queijo na mo. Mas agora, no. Devido a um inesperado capricho do destino e pelo fato de 
a vida ser, pelo menos uma vez, justa, eu tinha o futuro dele em minhas mos.
      Ele sorriu para mim e era um sorriso largo, vencedor.
      - Venda os direitos do seu livro para mim, Gemma. Vamos l, a histria  o mximo! Vamos fazer um filme excelente a partir dela. Prometo no desapont-la
      
      * Incidente-da-Splica (substantivo) - Trata-se de um evento do tipo rito de passagem que marca o fim de todos os relacionamentos. Caracteriza-se pelo fato 
de a dispensada fazer splicas ao homem que a dispensou, pedindo para que ele durma com ela uma ltima vez, enquanto ele, preocupado por no ter ainda alcanado 
o elevadssimo nvel de humilhao e rejeio que planejara para ela, se recusa a fazer isso.s vezes, ele conheceu algum recentemente e, nesse caso, invocar o 
nome da criatura, dizendo: "Eu jamais faria isso com Anne/MagslDeirdre" (insira o nome apropriado ao caso).
      
      - Ento  assim? - perguntei, com frieza. - Anton, andei fazendo algumas pesquisas. A Eye-Kon est quase falida. Voc precisa desesperadamente desse livro.
      Isso serviu para nocautear a autoconfiana dele.
      - Talvez - reconheceu.
      - Nada de talvez,  um fato. A boa notcia, Anton,  que voc pode ficar com os direitos. Sem lhe custar um nico centavo.
      - Posso?!...
      - Sob certas condies.
      - Quais so elas?
      Esperei passar alguns segundos para aumentar a intensidade dramtica.
      - Como vai Lily? - perguntei. - Como vo as coisas entre vocs dois?
      Para minha surpresa - eu no esperava que ele admitisse tudo to depressa, o que era sinal de que as coisas deviam realmente estar HORRVEIS - , ele deixou 
a cabea pender para a frente.
      - No vo muito bem.
      - No vo muito bem? timo! Isso tornar as coisas mais fceis para voc, na hora de deix-la.
      Eu esperava um turbilho indignado no estilo "Do que voc est falando?" ou "No seja louca". Mas ele simplesmente concordou e replicou, baixinho:
      - Est bem.
      - Est bem? - questionei. - Est bem? Simples assim? Voc no deve am-Ia muito, para colocar a carreira na frente dela.
      - No amo. No a amo nem um pouco. Nunca amei. Foi tudo um engano. Eu estava solitrio, na primeira vez que vim a Londres, e confundi amizade com amor. Depois 
ela ficou grvida. Como  que poderia larg-la? Mas ento li o seu livro e achei que ele tinha tanto a sua cara... Ele me fez lembrar da grande garota que voc  
e do quanto costumvamos nos divertir. Agora, ao ver voc aqui hoje, com esse lindo terninho Prada, j no tenho mais dvidas de que foi voc que eu amei todo esse 
tempo. - Parou junto da janela e olhou para o cu com cor de mingau, to tpico de Londres. - Eu j sabia h muito tempo que ficar com Lily era um erro. Desde que 
ela fez o implante e entrelaamento capilar em estilo Burt Reynolds, para cobrir a clareira em seus cabelos. - Deu um longo suspiro. - Sei que deveria ter ido embora 
naquela poca, mas os folculos infeccionaram e ela comeou a tomar antibiticos pesados que lhe arrasaram o estmago. Teria sido criminoso abandon-la em um momento 
como aquele...
      Parei. No, no estava bom. A fantasia j no funcionava mais. Nem pensar em seguir aquele plano, porque eu no conseguiria ir at Londres s para propor tal 
coisa a Jojo e Anton, visando destruir Lily. Fiquei quase desapontada comigo mesma - que vingadora de meia-tigela eu era... Uma coisa  querer ir de carro at o 
trabalho de Colette, esper-la no estacionamento e zoar da cara dela depois que papai a abandonou. Aquele outro tipo de vingana que eu fantasiara, porm... Ser 
que alguma pessoa real seria capaz de faz-la?
      Talvez uma mulher muito, muito esquisita, conseguisse. Quem sabe algum que levasse a vida como o roteiro da srie Dinastia. De qualquer modo, vinganas planejadas 
minuciosamente ou no, eu no era esse tipo de pessoa. Ser que tinha sido alguma vez na vida? Ser que eu simplesmente havia perdoado Lily?
      Mesmo que eu forasse a barra e tentasse negociar as coisas naqueles termos com Jojo e Anton, eles provavelmente iriam rir na minha cara ou me mandariam  
merda.
      Alm do mais, que tipo de criatura pattica ficaria satisfeita consigo mesma ao conseguir um cara s por ter servido de motor de arranque para sua carreira? 
Seria o mesmo que comprar algum.
      Jojo continuava do outro lado do meu celular,  espera de uma resposta.
      - Jojo, no se preocupe - eu disse. - Estou com voc e no abro. S tem uma coisinha, j que voc mencionou Jerry Maguire...
      Liguei o rdio do carro e procurei um rap para servir de fundo. Eminen... tudo bem, ele servia. Aumentei o volume at ficar quase surda e berrei:
      - Jojo, s de gozao, voc poderia gritar "Me mostre a grana!", como no filme?
      Ela hesitou, obviamente sem muito clima para brincadeiras.
      - Ah, tudo bem - aceitou, por fim. - "ME MOSTRE A GRANA!"
      Parabns - disse eu, massageando a orelha. - Voc continua sendo minha agente.
      
     
Jojo
      
      Sala de Jim Sweetman
      - Jim... E quanto ao seu novo relacionamento? Ele  srio? - Quis saber Jojo,
      Jim se mostrou surpreso, meio desconfiado at.
      - Sim, acho que  srio, sim.
      - No h nenhuma possibilidade de voc mudar de idia a meu respeito?
      Com todo o cuidado, ele disse:
      - Olhe, Jojo, sem querer ofender voc...
      - Devo considerar isso como um "no"?
      - Ahn... Deve.
      - Excelente!
      - Por qu?
      - Gostaria de lhe oferecer um emprego.
      - O qu?!
      - Sim, como responsvel pelos direitos para cinema e teatro, na minha nova empresa. No quero nenhuma paixonite de sua parte estragando as coisas. Quanto a 
Olga, na sua avaliao, quais as possibilidades de sucesso se eu convid-la para o departamento de direitos autorais no exterior?
      - Jojo, eu... Escute. Eu no...
      - Pense bem a respeito - disse ela. - Dividiremos os lucros com menos gente e em propores iguais. - Vamos ganhar rios de dinheiro.
      Ela se levantou para sair e ele berrou, na direo das costas dela:
      - Jojo, quero conversar com voc a respeito de um assunto.
      - Que foi?
      - No sei se voc est interessada no caso, mas sabe o livro de Gemma Hogan, Caando Arco-ris? Aquele que a produtora Eye-Kon quer filmar em co-produo com 
a BBC, tendo Chloe Drew como protagonista?
      - Claro que estou interessada: Gemma ainda  uma das minhas autoras.
      - Acabei de ouvir, na hora do almoo, que Chloe ingeriu uma overdose de um coquetel maluco de cocana com lcool e est internada em uma clnica de recuperao. 
Fiz algumas ligaes para tentar confirmar a histria.
      - Diga que no  verdade.
      - Sinto muito, Jojo.
      - O contrato j era, ento?
      - O contrato definitivamente j era. Chloe era o gancho que garantia o projeto. Sem ela, a BBC no vai aparecer com a grana. Ningum quer trabalhar com uma 
drogada ou bbada, nem mesmo ex-bbada. As seguradoras vo querer distncia dela.
      
     
Lily
      
      O mais engraado  que, menos de uma hora depois de Miranda ter me telefonado, Jojo ligou, explicando que ia trabalhar por conta prpria e me pedindo para 
continuar sendo sua cliente. Quando tomei coragem e perguntei por que ainda no tinha me ligado at aquele momento, ela explicou que todos os seus autores estavam 
com contratos em vigncia.
      - Eu precisava saber se eles iam comigo para preparar os acertos jurdicos necessrios.
      O meu caso, por outro lado, era maravilhosamente simples; no havia contrato com o qual ela se preocupar.
      - Se voc resolver escrever outro livro - completou ela - , traga para mim e vamos ver o que conseguimos.
      Mais tarde, naquele mesmo dia, Anton soube que Chloe Drew tivera uma espcie de esgotamento nervoso - os boatos eram que, na verdade, tratava-se de algo ligado 
a lcool. Ela era a pea principal para Caando Arco-ris; sem ela, a BBC no se interessaria pelo projeto e o contrato simplesmente no aconteceria.
      Eu devia ficar feliz. Anton e eu estaramos em segurana agora, no ?
      Infelizmente, no: o rpido contato de Anton com Gemma, ou pelo menos com o livro dela, revelara toda a extenso da infestao de cupim que corroa o meu relacionamento 
com ele.
      Alm disso, a verdade  que mais uma vez um projeto de Anton fora por gua abaixo, convencendo-me de que a vida com ele seria uma eterna montanha-russa financeira. 
Eu no conseguiria viver desse jeito. Precisava buscar estabilidade em nossa vida, pois devia isso a Ema.
      
     ***
      
      Naquela mesma noite, fui visitar Irina em seu maravilhoso apartamento novo. No comeo falamos muito sobre maquiagem e cuidados com a pele, mas ento, aproveitando 
um hiato na conversa, tentei jogar um verde:
      - Anton e eu vamos nos separar.
      A maioria das pessoas gritaria, na mesma hora: "O qu? Voc e Anton? Mas vocs so loucos um pelo outro! Devem estar apenas passando por uma fase ruim."
      Como era lrina, porm, ela simplesmente exalou uma pensativa espiral de fumaa do cigarro e deu de ombros, afirmando:
      - Eza  a ferdadeira natureza do amor.
      Seu pessimismo fenomenal me serviu de exemplo e incentivou o meu prprio pessimismo a tomar conta de tudo na vida. Irina forneceu o ambiente frtil que me 
fez ver a extenso do desastre. No havia a mnima chance de um otimismo descontrado entrar alegremente
      em minha vida e tomar conta do palco, tirando a desesperana de cena. Pelo menos, no na casa de Irina, pois ela no admitiria aquilo. De repente, eu me ouvi 
dizer:
      - Preciso achar um lugar para Ema e eu morarmos.
      - Tenho dois guartos vagos. Voze bode vigar morando agui gomigo. Vassily guase nunga vem a Londres. Grazas a Deus! Ele z penza em vazer zexo. - De repente 
ela se ligou no que dizia e mudou levemente de ttica: - Voze vai gostar dele, guando o gonhecer.
      Aquele era um lindo apartamento e eu fiquei tentada. Mas minha imaginao criou imagens de Ema e eu presas em alguma guerra de territrios; de ns duas amarradas 
a cadeiras de cozinha com esparadrapo na boca enquanto dois homens de palets jeans desbotados e bigodes espessos, chamados Leonid e Boris, nos convenciam a revelar 
o paradeiro do homem/dinheiro/pacote.
      Irina adivinhou o que eu estava pensando.
      - Vassily est no pas legalmente.
      - Est? - Certamente a implicao disso era que apenas as atividades dele eram ilegais.
      - Ele  griminoso - reconheceu ela, parecendo entediada. -  glaro gue  griminoso. Mas no  da Mfia.
      Ora, ento tudo bem!
      Quais eram as minhas outras opes? Vanish Hall? O impacto negativo que Vanish Hall teria em Ema provavelmente seria maior do que ser amarrada a uma cadeira 
com a boca presa por esparadrapo. At mesmo um abrigo da assistncia social do estado seria melhor que Vanish Hall.
      Assim, a partir do momento em que Irina ofereceu sua casa, a sorte estava lanada.
      
     
Jojo
      
      Na sexta-feira  tarde, Manoj ajudou Jojo a colocar todas as suas caixas de papelo em um txi.
      - No acredito que voc esteja realmente indo embora! - balbuciou ele, com os lbios trmulos.
      - No seja viadinho! - disse Jojo. - Vou mandar buscar voc. Assim que estiver caminhando com as prprias pernas.
      O ponto alto que fora a sua demisso dramtica estava comeando a perder efeito sobre Jojo. Tudo aconteceu to depressa... Na tera-feira ela comeara a convidar 
seus autores a ir embora com ela, para ver se uma carreira solo seria vivel. S trs dias haviam passado.
      Durante toda a semana ela se alimentara com a idia de estar dando um troco ao sistema. Ficaria conhecida como a mulher que derrotara a hierarquia sexista 
do mercado de trabalho. Aquilo a deixou empolgada e a fez acreditar que essa atitude era correta. Porm, ao olhar para o queixo trmulo de Manoj, Jojo se viu de 
volta ao estado onrico que parecia ter sido a tnica de toda a semana e perguntou a si mesma: O que foi que eu fiz?
      Ela tinha acabado de sair da Lipman Haigh e no pretendia voltar. A percepo definitiva disso foi como um saco de cinco quilos de areia caindo em sua cabea, 
atirado de uma altura muito elevada.
      No havia como voltar atrs e retomar a posio de scia muito bem paga. Ou voltar para Mark.
      Ela mesma fora a responsvel por tudo aquilo acontecer.
      A viagem de carro para casa foi uma espcie de pesadelo. O que ela estava fazendo - ou melhor, j fizera - consigo mesma?
      Seu celular tocou. Ela viu quem era na tela - Mark - e deixou a caixa postal atender. Ao chegar em casa, despejou as caixas e notou que a secretria eletrnica 
piscava. J?
      O primeiro recado era de Jim Sweetman:
      - Jojo, sinto-me honrado por sua oferta, mas vou ficar na Lipman Haigh.
      Droga!, pensou ela. Mas tudo bem, e da? Ela conseguiria outra pessoa para cuidar dos direitos para outros meios e alga ainda estava com ela. Tudo bem, na 
verdade Olga no dissera "sim" abertamente quando Jojo fez sua abordagem. Simplesmente ficara sentadinha em sua cadeira, exibindo a expresso do mais absoluto assombro. 
Mas tambm no dissera "no", e Jojo decidiu que isso era to bom quanto um sim.
      O segundo recado era de Mark:
      - Voc  realmente boa nessas coisas, reconheo que sim. Quase me convenci, mas no h necessidade de nada disso, Jojo. J rasguei sua carta de demisso. Simplesmente 
venha trabalhar na segunda feira e tudo vai entrar novamente nos eixos. Voc  scia da empresa agora, Jojo. Com relao a ns dois, voc continua sendo a pessoa 
mais importante que eu conheci em toda a minha vida e seria bom resolver isso logo. Precisamos resolver, precisamos de verdade, porque a alternativa  impensvel...
      Nesse momento o tempo da mensagem acabou, mas o recado seguinte tambm era de Mark, continuando o discurso como se no tivesse sido interrompido:
      - ... Isso tudo pode ser consertado neste exato momento. Voc e eu, Jojo, podemos fazer com que as coisas dem certo. Podemos fazer com que qualquer coisa 
d certo. Voc pode ter o seu velho emprego de volta, ou a sociedade e qualquer coisa que queira. Simplesmente me diga o que voc quer e ter na mesma hor...
      Ao todo, havia seis recados dele.
      
      Ela foi passar o fim de semana com Becky e Andy.
      - J sei! Voc quer ficar junto de pessoas que amam voc - compreendeu Andy, solidrio, ao abrir a porta.
      - No,  que eu aposto que Mark vai aparecer no meu apartamento no meio da noite e esquecer o dedo na campainha at eu deix-lo entrar.
      - Tome um clice de vinho. Coloque os ps para cima e esquea tudo por alguns instantes - tranqilizou-a Becky.
      - No posso! - Jojo acabou de dizer isso e o celular tocou. Ela olhou para a tela, mas no era Mark, pelo menos dessa vez. Apertou o boto verde.
      - Oi, Nathan Frey! Sim, fui eu que liguei para voc, mais cedo. Andei imaginando se voc no teria recebido um telefonema de Richie Gant lhe oferecendo a lua 
e as estrelas.
      Jojo foi atender no saguo, onde ficou andando de um lado para outro, falando sem parar. Ento voltou  sala e se deixou despencar no sof.
      - Era Nathan Frey. Pelo visto, Richie ligou para todos os autores que eu represento. Todos os importantes, pelo menos. Vou passar o fim de semana trabalhando 
no rescaldo do incndio, tentando traz-los de volta para o meu lado.
      O celular tocou mais uma vez, estridente, e ela mergulhou sobre ele, olhando para o identificador de chamadas. Atendeu com muita jovialidade:
      - Ora, ora,  o sr. Eamonn Farrell! Por onde, diabos, voc andou?
      De volta ao saguo, ela recomeou a andar de um lado para outro e os sapatos de salto alto duelavam com o tom alto de sua voz. Ento, por fim, voltou  sala.
      - Caraca! Isso  um pesadelo! Gant est oferecendo porcentagens to absurdamente baixas que vai acabar trabalhando praticamente de graa. Est fazendo isso 
por pura maldade.
      O celular deu novamente sinal de vida.
      - Ignore-o - sugeriu Becky.
      - No posso. - Mas, ao olhar na tela, largou o aparelho de volta sobre a mesa como se ele estivesse em brasa. -  Mark novamente.
      O telefone tocou e tocou sem parar; parecia aumentar de volume, de forma cada vez mais insistente, a cada toque no atendido. Os trs reunidos na sala olharam 
o aparelho com ar assustado, at que o barulho parou e o ar pareceu vibrar, grato pelo misericordioso silncio.
      - Deixe o celular desligado - implorou Becky.
      - Querida, sinto muito, mas no posso. Ainda estou esperando notcias de... - ela contou nos dedos - ... Oito autores. Deixei recados na caixa postal dos meus 
clientes mais importantes quando percebi o que Gant estava aprontando. Ele os assustou, argumentando
      que vai ser um desastre eu trabalhar por conta prpria. Preciso estar disponvel para tranqiliz-los.
      O celular gorjeou uma vez, depois outra.
      - Mensagem de Mark - disse Jojo.
      - E voc no quer saber qual ?
      - No preciso. Ele vai dizer que me ama e que podemos resolver tudo.
      - E voc no pretende fazer isso? - perguntou Becky. - Isto , resolver tudo?
      Jojo balanou a cabea uma vez s e deu um pulo de susto quando o celular tornou a tocar.
      Ela olhou para o nmero que aparecia na tela e entregou o aparelho a Andy.
      - Voc pode atender para mim?
      -  Mark, novamente?
      - No  o seu nmero, mas estou com um pressentimento de que possa ser ele.
      Meio desconfiado, Andy atendeu.
      - Ah, ol, Mark!
      - Ele  espertinho - disse Jojo a Becky. - Deve estar ligando de algum orelho.
      Andy conversou um pouco com Mark e, por fim, desligou.
      - Era Mark - anunciou ele. - Est parado em frente ao seu apartamento, e tocou a sua campainha por mais de meia hora. Disse que vai acampar l at voc receb-lo. 
Vai ficar a noite toda, se for preciso.
      - Ihhhl... Vai ter muito o que esperar! - Jojo parecia animada, mas sentia-se pssima. No queria que as coisas estivessem daquele jeito.
      
      Durante o sbado, o domingo e todos os dias da semana seguinte o telefone de Jojo tocou loucamente, sem parar, mas os telefonemas eram do tipo que ela dispensaria. 
Sua demisso criou - o que era compreensvel - grande furor nos crculos publicitrios; afinal, ela se demitira no mesmo dia em que fora anunciado que seria scia 
da agncia. POR QU? As teorias eram muitas. Jojo descobrira que Richie Gant era o filho ilegtimo que tivera aos doze anos e entregara para adoo (essa foi a teoria 
de um editor especializado em sagas); Jojo era lsbica e estava de caso com Olga Fisher, que a trocara por Richie Gant (essa era de algum da Virago, uma editora 
especializada em livros para mulheres); ela estava de caso com Mark Avery, que no votara nela e ainda por cima lhe dera um chute no traseiro (essa era a verso 
de quase todo o mundo literrio de Londres).
      Muito pior, porm, do que as pessoas exercitando sua desavergonhada curiosidade eram as ligaes de vrios escritores. Na tera-feira de tarde, veio a ligao 
de Miranda England. Ela queria tornar a coisa oficial - iria trabalhar com Richie Gant. A notcia atingiu
      Jojo como um taco de beisebol.
      Na quarta-feira, Marjorie Franks assinou contrato com Richie. Na quinta, Kathleen Perry, Iggy Gibson, Norah Rossetti e Paula Wheeler pularam fora do barco, 
e, na sexta, trs escritores de livros de suspense se foram, todos com boa vendagem.
      Toda vez que um autor ia embora, as chances de Jojo como agente independente encolhiam mais e mais.
      Becky no parava de perguntar:
      - Por que voc no volta? Voc poderia voltar  agncia, ainda por cima como scia. Pense bem... Scia, Jojo.
      - No aceitarei entrar em cumplicidade com aquele sistema patriarcal. - Jojo aprendera a palavra "patriarcado" com Shayna e gostou. Usava-a sempre que algum 
tentava persuadi-la a voltar para a agncia. - Agora que eu descobri certas coisas, voltar seria autodestrutivo.
      Se bem que era tentador, muito tentador.
      O tempo todo ela era bombardeada com recados de Mark: dia e noite ele lhe enviava e-mails, torpedos, escrevia cartas, mandava entregar flores e caixas de produtos 
Jo Malone, telefonava para o seu nmero de casa, para o celular e circulava pela rua em frente ao prdio. Por duas noites, muito bbado, colara o dedo na campainha 
por mais de trs horas. Ficava na calada e gritava para a janela. As vizinhos reclamaram e ameaaram chamar a polcia se ele continuasse a fazer aquilo. A prpria 
Jojo pensou em ligar para a polcia, mas
      a idia lhe provocava a reao de suco de limo sobre uma ostra. Ela no podia fazer uma coisa daquelas com ele, seria triste demais.
      Muito pior do que Mark se comportando de forma alucinada, porm, era quando ele era astuto e lhe deixava mensagens reiterando que o cargo de scia ainda estava 
 sua espera na Lipman Haigh e lembrando que uma vida a dois em companhia dele ainda era possvel a qualquer hora. Puxa vida, isso era tentao demais!
      Sua frase-slogan era: "Diga o que voc quer, Jojo, e voc ter."
      S que ela no poderia ter a nica coisa que realmente queria: reescrever o passado. Ela queria que Mark tivesse votado nela e no em Richie Gant.
      Era esquisito... Ela estava zangada com Mark, mas sentia sua ausncia como se lhe faltasse um brao. Porm, no havia volta. A que quer que acontecesse - e 
ela no sabia exatamente o que seria - , j contaminara a relao deles alm de qualquer esperana. Estava tudo acabado.
      O espantoso era que, apesar de Mark persegui-la praticamente o dia todo, ela nunca mais falou com ele nem o viu.  claro que isso a ajudava a manter sua posio. 
Jojo temia que se eles se vissem ela iria desmontar. As coisas, do jeito que iam, eram to assustadoras que, se
      ela voltasse ao casulo representado por sua antiga vida, onde era amada e se sabia segura, seria muito difcil de resistir.
      
      Segunda-feira de manh
      O incio da sua segunda semana como agente independente. Jojo se sentiu confiante e esperanosa, como se ultrapassasse uma barreira.
      O telefone tocou. Era a esposa de Nathan Frey, para comunicar que o novo agente de Nathan era Richie Gant.
      Meeerda.
      S lhe restava um escritor importante: Eamonn Farrell. Jojo resolveu ligar para Olga Fisher. Mais de uma semana se passara e ela ainda no lhe informara a 
partir de quando iriam passar a trabalhar juntas.
      - Oi, Olga. Voc j apresentou sua carta de demisso? A partir de quando vamos comear a trabalhar juntas?
      - No seja insolente; que idia a sua!  claro que eu no apresentei a minha carta de demisso.
      - Ei, mas voc devia ter me avisado - reagiu Jojo, irritada. - Pensei que voc vinha trabalhar para mim.
      Minha cara, essa idia  to obviamente ridcula que... Por que diabos eu sairia... Oh! - Com essa exclamao indignada, Olga encerrou a ligao.
      Na tera-feira, dois autores de no muita importncia saram.
      Quarta-feira, porm, foi o dia em que tudo melou.
      Ao ligar o computador, Jojo encontrou um e-mail de Eamonn Farrell avisando que ele fechara contrato com outro agente. Jojo encostou a testa na tela. Ento 
era isso... Seu ltimo grande autor se fora.
      Logo em seguida o telefone tocou: Mark. Ele tinha deixado uma splica desesperada em todos os dias desde a sada de Jojo. Naquela manh, porm, seu tom de 
voz pareceu diferente. Mais normal.
      - Jojo - comeou ele - , vou deixar de incomodar voc. Sinto muito no termos conseguido resolver as coisas no trabalho. Nunca lamentei algo tanto assim em 
toda a minha vida. Estivemos a poucos passos da perfeio e quase chegamos l, mas sei reconhecer uma
      derrota. Boa sorte na sua vida. Estou sendo sincero.
      Depois de dizer isso, desligou. Jojo quase sentiu as molculas de seu telefone entrando em um estado de relaxamento, aps tanto trabalho pesado.
      Isso no era mais um truque de Mark para faz-la mudar de idia. Jojo conhecia seu estilo; ele se entregou de corpo e alma  tarefa, no conseguiu o resultado 
esperado e estava tirando o time de campo. Fim de jogo.
      Exatamente o que ela queria. Jojo nunca pensou em voltar para ele.
      S que, como em uma experincia fora do corpo, ela viu a si mesma sentada no seu apartamento em uma quarta-feira fria de fevereiro, com seu melhor amigo indo 
embora para sempre e sua carreira em runas.
      Diante disso, Jojo chorou tanto que mal se reconheceu no espelho. Ao colocar o rosto na pia cheia de gua gelada para diminuir o inchao dos olhos, pensou 
em se deixar ali dentro at se afogar. Pela primeira vez em seus trinta e trs anos de vida, conseguiu compreender a vontade de tirar a prpria vida.
      Mas s por meio segundo.
      No instante seguinte ela se recuperou. Colegas? Quem precisava deles? Escritores? Puxa, havia muitos mais de onde os clientes dela tinham sado. E outro Mark? 
Tinha um monte deles por a tambm. Ela estava pouco ligando.
      
     
Lily
      
      Durante mais de uma semana, convivi com a certeza de que estava tudo acabado entre mim e Anton. Sentia isso no fundo de mim mesma, era uma espcie de conhecimento 
terrvel, como saber que havia uma arma letal debaixo do colcho, algo que me deixava em constante desassossego. Mas eu era incapaz de dar o primeiro passo.
      Minha convico de que estvamos completamente fora de sintonia tinha um peso extra pelo fato de eu j ter passado por aquela situao antes, no s em minha 
vida pessoal, como tambm no tempo de papai e mame. Eu sabia que o pior realmente acontecia
      todos os dias, em toda parte. Anton e eu pensamos que ramos especiais, imunes aos sufocos da vida. Na verdade, porm, no havia nada incomum ali. ramos apenas 
duas almas que no conseguiam segurar a barra quando o bicho pegava.
      Apesar de tudo, fiquei profundamente surpresa com a reao de Anton quando eu lhe comuniquei que ia embora. Pensei que ele estivesse com um estado de esprito 
semelhante ao meu, achei que ambos sabamos que tudo acabara e estvamos tocando as coisas at pintar o momento certo para a separao. Nas semanas que se passaram 
desde a mudana para o novo apartamento, ns nos falvamos to pouco que eu sinceramente acreditei que tnhamos acabado e apenas morvamos na mesma casa. Sabia que 
ele ia me deixar sair sem dizer nada, reconhecendo com tristeza que era uma pena, as coisas no tinham dado certo e, considerando as circunstncias, era um milagre 
termos durado tanto tempo juntos etc.
      Mas ele enlouqueceu.
      Quando Ema foi para a cama naquela noite, eu peguei o controle remoto da tev e, sem prembulos, desliguei o aparelho.
      - Que foi? - perguntou Anton, parecendo surpreso.
      - Irina disse que eu e Ema podemos ficar com ela por algum tempo. Quanto mais cedo formos embora, melhor. Amanh est bom?
      Estava pronta para desfiar meu pequeno discurso sobre como ele podia ver Ema sempre que quisesse, mas nem tive a chance porque ele pirou.
      - Sobre o que est falando? - Ele apertou meu pulso com tanta fora que me machucou. - Lily? - ele perguntou. - Lily, o que houve?
      - Estou indo embora - disse, baixinho. - Pensei que voc soubesse.
      - No! - reagiu ele, totalmente horrorizado.
      Ele implorou. Suplicou. Pegou minhas chaves na bolsa e ficou de costas coladas na porta, embora eu no estivesse de partida naquele exato momento.
      - Lily, por favor... - Ele quase engasgou. - Eu lhe peo... Eu lhe imploro para pensar bem nisso.
      - Mas, Anton, no tenho feito outra coisa na vida a no ser pensar nisso.
      - Pelo menos curta uma boa noite de sono para refletir.
      - Sono? Eu no tenho uma boa noite de sono h meses.
      Ele passou a mo na boca e resmungou alguma coisa; percebi as palavras "por favor" e "Deus".
      - Anton, o que foi que voc achou que ia acontecer conosco?
      - Achei que as coisas iam melhorar. Pensei que j estavam melhorando.
      - Mas a gente nem fala mais um com o outro.
      - Porque perdemos nossa casa. Foi algo terrvel o que aconteceu. Mas achei que estvamos nos refazendo!
      - No estamos nos refazendo. Nunca vamos conseguir nos refazer. Nunca deveramos ter ficado juntos, para incio de conversa, foi errado desde o comeo, e  
claro que s poder acabar de forma terrvel. Sempre soubemos disso.
      - Eu no.
      - Porque voc insiste em ver as coisas pelo lado cor-de-rosa, mas a verdade  que somos um desastre, juntos - lembrei a ele. - Olhe s para o caos em que transformamos 
nossas vidas. Tnhamos um monte de coisas boas pintando, mas estragamos tudo. - Eu disse "ns", mas queria dizer "Eu tinha um monte de coisas boas pintando na minha 
vida e ele estragara tudo." Mas era preciso jogar aquilo em sua cara com todas as letras; ele no era bobo e j devia ter sacado.
      - No tivemos sorte - insistiu.
      - Fomos arrogantes, com mania de grandeza e tolos. (Voc foi.)
      - S porque compramos uma casa com dinheiro que todo mundo sabia que ia pintar? Qual  a mania de grandeza disso? Foi mais uma combinao de planejamento equivocado 
com falta de sorte, no meu modo de ver.
      - Um negcio impulsivo e arriscado, na minha viso.
      Ele se encostou  porta.
      -  por causa do seu histrico de seu pai perdendo a casa onde a famlia morava. Foi isso que provocou danos terrveis em voc.
      Fiquei calada. Provavelmente ele tinha razo.
      - Voc est com raiva de mim - completou ele.
      - Em absoluto! - garanti. - Toro para um dia sermos bons amigos. S que eu quero que entenda, Anton: ns no combinamos, somos ruins um para o outro.
      Ele olhou para mim com o rosto chocado e eu baixei os olhos.
      - E quanto a Ema? - perguntou. - Uma separao no vai ser algo bom para ela.
      - Resolvi fazer isso pensando em Ema. - Subitamente fiquei furiosa. - Ema  a minha prioridade nmero um. No admito que ela seja criada do jeito que eu fui. 
Quero segurana para ela.
      - Voc est com raiva de mim - repetiu Anton. - Muita raiva.
      - No estou! Mas continue insistindo que vou acabar ficando.
      - No a culpo por essa raiva. Eu mesmo tenho vontade de dar um tiro na cabea por ter feito tanta burrada.
      Resolvi ignorar essa declarao. No importava o que ele dissesse, eu no ia mudar de idia. Anton e eu tnhamos acabado definitivamente e era necessrio nos 
separarmos, pois se ficssemos juntos o azar nos perseguiria, at corrigirmos o erro que cometemos quando eu o roubei de Gemma.
      Quando eu lhe disse isso, ele explodiu:
      - Voc est sendo supersticiosa. As coisas no acontecem desse jeito.
      - No era para ficarmos juntos, desde o incio. Eu sempre soube que isso ia acabar em desastre.
      - Lily, mas, Lily...
      - No importa o que voc diga ou faa - afirmei. - Estou saindo fora. Tenho que fazer isso.
      Ele se manteve em silncio, derrotado, e por fim perguntou:
      - J que pretende realmente fazer isso, posso lhe pedir s uma coisa?
      - O qu? - perguntei, meio desconfiada. Certamente ele no seria grosso o bastante para me propor uma transa como presente de despedida.
      - Ema. No quero que ela veja isso. Ser que voc poderia deixar algum tomando conta dela enquanto voc... - parou de falar, engasgado... Faz as malas?
      Ele comeou a verter lgrimas silenciosas e eu olhei para ele, muito surpresa. Por que razo aquilo era um choque to grande para ele?
      - Tudo bem. Peo a Irina para vir peg-la.
      Ento fui para a cama. Isso estava sendo muito mais difcil do que imaginara e, quanto mais cedo acabasse, melhor. Ouvi quando ele se deitou na cama, ao meu 
lado. Na escurido, ele pousou a testa sobre as minhas costas e sussurrou:
      - Por favor, Lily. - Mas eu permaneci dura como uma pedra at ele se afastar.
      De manh, telefonei para Irina, que chegou logo depois, cumprimentou Anton com a cabea em um gesto que quase pareceu solidrio e levou Ema com ela. Ento 
tentei convencer Anton a sair de casa. No queria que ele estivesse ali, circulando pelo apartamento com cara de doente, seguindo-me como uma sombra por todos os 
cmodos, observando o que eu fazia como se assistisse a um daqueles snuff videos em que as pessoas morriam de verdade. Eu no gostava nem um pouco do que estava 
fazendo e seu ar de sofrimento extremo fez com que eu me sentisse pior. Ele me viu fazer trs malas, recusando-se a me entregar qualquer objeto e explicando:
      - No quero tomar parte nisso.
      Mas quando eu lutei para pegar uma mala gigantesca em cima do armrio, ele resmungou:
      - Pelo amor de Deus, voc vai acabar se matando - e a puxou l de cima para mim.
      - Talvez fosse melhor voc no estar aqui na hora em que eu for embora - sugeri.
      Nem pensar. Ele ficou tentando me demover da idia o tempo todo, at o ltimo minuto do segundo tempo. At mesmo na hora de eu entrar no txi, ele disse:
      - Lily, essa situao  apenas temporria.
      - No  temporria no, Anton - afirmei, sustentando o olhar. Precisava que ele se convencesse. - Por favor, acostume-se com a situao, porque isso  para 
sempre.
      Ento o carro partiu, levando-me para uma nova vida, e eu sei que o que vou dizer parece terrivelmente cruel, mas pela primeira vez desde o dia em que conheci 
Anton, eu me senti limpa.
      
      Por tempo demais eu convivera com uma culpa desgraada por causa de Gemma. Libertar-me daquilo me trouxe um alvio imediato e delicioso; praticamente desde 
o instante em que eu deixei Anton, a vida comeou a melhorar. Consegui trabalho de imediato - atravs
      de uma agncia, fazendo freelance como redatora de textos publicitrios e trabalhando em casa - e esse era o grande sinal que eu precisava.
      O apartamento de lrina era grande e silencioso. Eu trabalhava de manh, enquanto Ema estava na creche, e  noite, quando ela ia dormir. Se eu precisasse trabalhar 
 tarde, nunca me faltavam babysitters: papai e Poppy nos visitavam sempre; alm disso, Ema e lrina se davam maravilhosamente bem. Acho que a quarta parte de sangue 
eslavo em Ema se integrou muito bem com o sangue eslavo de Irina. Esta, por sua vez, via o rostinho redondo de Ema como a vitrine perfeita para os ltimos produtos 
da Clinique. Tentei impedir Irina de fazer isso, mas no me sentia com foras para apelos passionais. Alis, no tinha foras para nada passional.
      Gostei da minha vida nova. Era tranqila, sem nenhum elemento dramtico e pouqussimas coisas aconteciam. Nunca encontrei vizinhos pelos corredores silenciosos 
do prdio; at parecia que no havia mais ningum morando no edifcio.
      At mesmo o tempo indefinido conspirava para me anestesiar. Cus sem cor e o ar suave e sem movimento garantiam a ausncia total de reaes de minha parte. 
Mesmo quando caminhvamos pelo Regent's Park, que ficava ali perto, eu no sentia nada.
      No havia a mnima esperana de eu desenvolver alguma coisa que exigisse criatividade. Depois daquela sucesso de fracassos, no tinha nada para escrever e 
estava muito contente preparando comunicados  imprensa e redigindo folhetos publicitrios. No tinha grandes planos nem sonhos para o futuro; tudo o que eu queria 
era que cada dia fosse embora. Curtia a minha vida pequena e discreta. At recentemente era tudo planejado em grande escala - romances, contratos literrios e casas 
- e eu gostava de ver que agora tudo em minha vida acontecia aos pedacinhos.
      Anton estava certo sobre uma coisa: eu tinha raiva por ele ser to descuidado com dinheiro. S que, desde que o abandonara, era como se o meu sentimento de 
raiva estivesse direcionado para outra pessoa; eu sabia que ele estava l, sabia que me afetava, mas no
      conseguia v-lo. Tudo o que sentia era alegria por estar no comando de meu prprio destino.
      No que todos os dias fossem fceis. Houve momentos difceis, como quando Katya, uma amiga russa de Irina, veio visit-la trazendo um lindssimo beb de olhos 
castanhos com apenas seis meses de idade. Seu nome era Woychek e ele at mesmo se parecia com Ema. Isso fez nascer em mim a percepo de todos os filhos que Anton 
e eu nunca teramos. Os irmos e irms que Ema j tinha em um universo paralelo, mas, que jamais conheceria. Isso deu incio a algo terrvel dentro de mim, mas, 
antes que o pesar me envolvesse por completo, Katya disse, comentando a respeito de Ema:
      - Eza griana tem uma pele marravilhoza!
      Imediatamente isso atraiu minha ateno.
      Ser que Irina andava passando cosmticos em Ema? De novo? O redutor de poros com controlador de oleosidade, talvez? Irina tinha verdadeira obsesso por esse 
produto e o usava, com zelo quase religioso, em todo mundo. Sim, admitiu ela com cara emburrada, ela aplicara uma camada quase invisvel de creme redutor de poros 
em Ema. Quando pressionada, confessou que tambm usara um pouco de brilho e, em meio  minha irritao, eu me esqueci de ficar triste.
      Cada dia tropeava no seguinte e todos passavam, sem diferena um do outro e sem nada de especial acontecer. Eu no me interessava pelo futuro, exceto quando 
pensava em Ema. Analisava-a constantemente,  espera de algum sinal de disfuno psicolgica. Ela no faxia xixi na cama, mas isso se devia ao fato de no estar 
ainda totalmente treinada para largar a fralda noturna. s vezes, ao ouvir a chave de Irina na fechadura, ela arregalava os olhos e perguntava:"Anton?" Tirando isso, 
porm, se comportava como de costume.
      Ema sempre fora uma criana forte e talvez sua robustez fsica fosse tambm um sinal de resistncia emocional. Eu era obrigada a admitir que ela no parecia 
abalada pela ruptura em sua vida. Mas eu me preocupava de ela estar, talvez, "introjetando" os problemas, e tudo surgiria aos treze anos, quando se transformaria 
em uma rebelde ladrazinha de lojas e cheiradora de cola.
      Meu nico consolo era eu ter tomado a atitude que achava melhor para ela, alm de saber que ser me significava sentir-se remoda pela culpa quase o tempo 
todo.
      Embora Ema no morasse com Anton, ela o via com freqncia. Quase todos os dias ele a levava ao parquinho depois do trabalho e ela dormia com ele aos sbados. 
Depois das primeiras visitas, quando seus olhos estavam sem expresso devido  tristeza profunda, eu j no agentava v-lo e pedi a Irina que recebesse Ema quando 
ela voltasse da rua com o pai. Sou eternamente grata a ela por ter me atendido. Esse arranjo funcionou a contento at certa noite, mais ou menos trs semanas depois 
de eu ter deixado Anton, quando Irina estava no banheiro no momento errado e eu tive de abrir a porta para receber Ema.
      - Lily! - Anton pareceu chocado ao me ver. E eu fiquei chocada ao v-lo. Sempre foi magro, mas durante aquelas semanas desde que eu sara de casa ele se tornara 
assustadoramente esqueltico.
      No que eu estivesse linda a ponto de ser convidada para algum desfile de moda. (Alis, se no fosse pela generosidade de Irina com o seu creme redutor de 
poros, eu estaria to medonha que talvez precisasse de um transplante de cabea.)
      Ema passou direto por mim e foi para a sala; logo depois ouvi os acordes iniciais de uma cano de Mogli, o Menino Lobo.
      - Eu no esperava ver voc - disse Anton. - Escute... - Ele remexeu no bolso do casaco de couro e fez surgir uma carta. Estava to embolada e amassada que 
parecia estar naquele bolso havia semanas. Anton sempre me trazia a correspondncia, mas eu percebi que aquela era uma carta diferente. - Fui eu que escrevi - explicou. 
- Queria lhe entregar em mos, para ter certeza de que voc a receberia. Sei que voc no vai querer essa carta agora, mas talvez queira l-la outra hora.
      - Tudo bem - disse eu, com o corpo tenso, sem saber o que fazer. Senti vontade de l-la, mas o instinto me aconselhou a no faz-lo. Terrivelmente abalada 
por ver Anton, eu me despedi e fechei a porta na cara dele. Em seguida fui para o meu quarto, guardei a carta em uma gaveta e torci para esquec-la.
      Eu estava em p junto da janela do segundo andar e ainda sentia o corao bater em todas as partes do meu corpo quando vi Anton sair do prdio. Quando Irina 
recebia Ema de volta, eu no me permitia nem mesmo dar uma olhadinha, mas como naquele dia a rotina j fora para o espao, mesmo, fiquei observando a partida de 
Anton. Ele seguiu pela calada e estava a poucos metros da entrada do edifcio quando parou e seus ombros comearam a se mover para cima e para baixo, como se estivesse 
rindo. Eu continuei olhando, espantada, e pensei: De que diabos ele est achando tanta graa? Encontr-Io cara a cara me deixara to abalada e ele achava aquilo 
engraado? De repente, tive a sbita percepo de que ele no estava rindo e sim chorando. Chorava com o corpo todo. Dei um passo para trs, horrorizada, e senti 
naquele instante um pesar to grande que pensei que fosse morrer.
      Levei o resto da noite e um quarto de garrafa de vodca pura para recuperar o equilbrio. S ento fiquei legal. Compreendi que era inevitvel aquilo ser doloroso. 
Anton e eu estivemos apaixonados um pelo outro, tivemos uma filha juntos e sempre fomos os melhores amigos um do outro praticamente desde o momento em que nos conhecemos. 
O fim de algo to precioso s poderia ser terrvel.Porm, eu sabia que em algum momento do futuro a dor iria parar e Anton e eu poderamos ser amigos. Eu s precisava 
ser paciente.
      
      Eu sabia que um dia a minha vida seria completamente diferente, cheia de sentimentos novos, amigos, riso e cor, alm de um elenco totalmente novo de pessoas 
 minha volta; tinha plena certeza de que algum dia apareceria outro homem, novos filhos, um trabalho diferente e uma casa adequada. No fazia a mnima idia de 
como seria a transio entre a vida frugal que eu levava e a que visualizava, muito mais agitada e colorida. Eu s sabia que aquilo iria acontecer. S que, por enquanto, 
tudo estava longe de mim, muito longe, e acontecia com uma Lily imaginria e diferente que eu no tinha pressa de alcanar.
      Minha passividade era to completa que eu no conseguia nem me sentir culpada pela imensa generosidade de Irina, no s com a casa, mas tambm com os cuidados 
que ela dispensava a Ema. Sob circunstncias normais, eu teria me transformado em uma neurtica instvel e pattica, e faria mil planos para ir embora dali o mais 
rpido possvel para no incomodar ningum, sentindo-me como um peso morto cada vez que acendesse a luz. s vezes eu tinha de pedir dinheiro emprestado a Irina - 
meus pagamentos do trabalho freelance eram muito irregulares - e nem disso eu tinha vergonha. Ela quase sempre me emprestava sem comentrios nem censuras, exceto 
por uma vez em que eu voltei de um passeio a esmo pelo parque e disse:
      - Irina, o caixa eletrnico se recusou a liberar dinheiro. D para voc me emprestar algum at meu prximo pagamento?
      Ela replicou:
      - Por gue voz nunga tem dinherro? Rezebeu um grrande chegue na semana pazada!
      - Mas tive que pagar a voc o dinheiro que eu lhe devia, depois comprei um velocpede novo para Ema, pois todas as crianas do parquinho tm um; depois tive 
que lev-la para fazer um corte de cabelo no estilo Dora, a Exploradora, pois todas as meninas esto usando esse penteado e...
      - ... E agora no tem dinherro para aliment-la - completou Irina. Com ar de censura, acrescentou: - Voz odeia Anton por zer relaxado com dinherro, mas voz 
 igualzinha.
      - Nunca disse que no era. No consigo evitar, fui criada desse jeito. Isso s serve para provar o quanto Anton e eu no servimos para ficar juntos.
      Irina suspirou e indicou uma lata de biscoitos.
      - Zirva-se - ofereceu ela, e em seguida me entregou um carto-postal. - Chegou pelo gorreio, para voz.
      Olhei para o carto, surpresa: era uma foto de trs ursos-pardos ao lado de um riacho, tendo ao fundo uma colina com pinheiros espalhados em um lindo cenrio 
natural. O carto parecia ter sido postado do Canad. O urso maior tinha um imenso salmo entre os dentes; o urso mdio tentava pegar um peixe nas guas do rio e 
o menorzinho lidava com um peixe que tentava escapar de suas patas. Virei para ler o verso, onde uma legenda informava: "Ursos-pardos ao lado da barragem." Porm, 
algum com uma caligrafia muito parecida com a de Anton riscara a legenda oficial e escrevera: "Anton, Lily e Ema curtindo peixe no jantar." Para minha grande surpresa, 
eu me vi rindo.
      Ele tambm escrevera: "Estou pensando em vocs duas. Com todo amor, A."
      Aquilo tinha todo o jeito e o esprito de Anton: engraado, inteligente e louco. Pensei ento, com ar sonhador:Aqui comeam nossas lembranas felizes. Finalmente 
eu chegara ao ponto em que conseguia olhar para trs e analisar o tempo que havamos passado juntos sem me sentir arrasada.
      Fiquei feliz o resto do dia.
      Uns dois dias depois o carteiro deixou um carto-postal de Burt Reynolds, com cara de dolo das matins e exibindo um luxuriante bigode. Anton escrevera: "Vi 
esta foto e me lembrei de voc." Mais uma vez eu ri e me senti esperanosa em relao ao futuro.
      De repente comecei a esperar com ansiedade a chegada do carteiro, e logo mais um postal chegou, dessa vez mostrando um vaso enfeitado com imagens em bico-de-pena, 
em estilo chins, no qual se divisavam pessoas, xcaras e artefatos de mesa. A legenda dizia: "Vaso Ming representando a cerimnia do ch", mas Anton riscara essa 
informao e escrevera: "Anton, Lily e Ema, no ano de 1544, curtindo uma xcara de ch depois de um dia fazendo compras no shopping." Quando olhei novamente para 
a figura, realmente parecia haver sacolas de compras atrs das pessoas.
      Virei-me para lrina e disse:
      - Sabe, lrina, andei pensando. Quando Anton vier buscar Ema hoje  tarde, acho que eu mesma vou receb-lo.
      - Voz  gue zabe.
      Naquele dia  tardinha, ao abrir a porta para ele, Anton no mostrou surpresa e simplesmente exclamou:
      - Oi, Lily! - Como se estivesse empolgado por me ver. Ele parecia muito melhor do que na ltima vez em que nos vramos, no to magro e com menos cara de cansado. 
Sua aura brilhante e cheia de vitalidade voltara. Obviamente estava a caminho da recuperao. Ns dois estvamos.
      - Onde est lrina? Aconteceu alguma coisa com ela? - ele perguntou.
      - No,  que eu... Voc sabe... J me sinto pronta, j est na hora... Anton, obrigado pelos cartes-postais, eles so muito divertidos e me fizeram rir.
      - timo! Fiquei feliz por encontrar voc, porque queria lhe entregar isso.
      Ele me deu um envelope que despertou em mim a lembrana culpada da carta no lida na gaveta de roupas ntimas.
      - O que  isso? - perguntei.
      - Grana - informou ele. - Muita grana. Agora que eu voltei a fazer filmes publicitrios, o dinheiro est jorrando.
      -  mesmo? - Aquele era o sinal definitivo de que era melhor continuarmos separados.
      - Compre algo legal para vocs... Para Ema. Li no jornal que a Origins lanou um novo perfume. No se esquea de comprar uma coisinha para voc tambm!
      O brilho estava de volta aos olhos de Anton e eu senti uma imensa onda de afeto por ele, uma onda que quase se transmutou em um abrao apertado. Fiz de tudo 
para me conter dessa vez, mas no iria me segurar por muito mais tempo. Logo, logo conseguiramos nos abraar, como bons amigos
      
     
Gemma
      
      Eu nunca iria conseguir superar a perda de Owen, nem queria isso, pois estava muito bem me sentindo absolutamente miservel. Por isso foi uma espcie de decepo 
o dia em que eu amanheci me sentindo realmente tima. Na verdade, levei at algum tempo para identificar a emoo, porque ela j no me era mais familiar.
      Subitamente, enxerguei o meu relacionamento com Owen por uma tica diferente; tinha chegado a hora de ele voltar para o planeta de onde viera, o Planeta dos 
Homens Mais Jovens. L, Lorna estava  sua espera, recebendo-o de braos abertos.
      Eu me sentia pronta para reconhecer o quanto as coisas eram curiosas; Owen terminara comigo no mesmo dia em que papai voltara para casa. Era como se ele tivesse 
sido enviado para mim apenas enquanto eu precisasse dele. Normalmente eu no acredito em um Deus bondoso (alis, normalmente nem me dou ao trabalho de acreditar 
em nenhum tipo de deus), mas isso me fez repensar essa possibilidade. Parei de focar no quanto eu sentia a falta dele e, em vez disso, me senti grata por ter tido 
a sua companhia por tanto tempo.
      Tudo bem, eu continuava chorosa e instvel, mas no acreditava na mudana que ocorreu em mim - foi como ter uma daquelas gripes que duram s vinte e quatro 
horas. No meio do sufoco, a gente acha que vai ficar uma semana de molho, e ento, ao acordar no dia seguinte, est de volta ao normal numa boa, de forma inexplicvel.
      Para conversar a respeito da minha espantosa condio, convidei Cody para tomar um drinque, e ele, verdade seja dita, no se fez de rogado e aceitou.
      - Prometo que no vou comear a chorar. - Se bem que eu dissera exatamente isso da ltima vez.
      - Vamos a um lugar afastado, s para garantir - props ele e ento, uma hora mais tarde, em um pub desconhecido de Black Rock, eu lhe confessei a minha recm-conquistada 
paz de esprito.
      - E qual  o problema?
      - Estou preocupada de ser muito superficial - expliquei. - Superar Owen to depressa... Na semana passada, e at dois dias atrs, eu continuava devastada e 
agora me sinto tima. Sinto falta dele, mas no acho mais que meu corao vai se despedaar.
      - Voc j chorou por um ano inteiro. De qualquer modo, no era apenas com o seu namorado que voc estava preocupada. Conversei com Eugene a respeito disso.
      - Eugene? Que Eugene?
      - Furlong. - Ele era um dos mais renomados psiquiatras da Irlanda e aparecia muito na tev. - Eugene disse que sua reao foi desproporcional porque voc estava 
pesarosa pelo seu pai.
      - Mas meu pai j tinha voltado.
      - Exato. Era um momento seguro para comear a sofrer.
      - Mas isso no faz sentido.
      Cody encolheu os ombros.
      - Eu concordo. Isso  puro nonsense. Prefiro a teoria de que voc  superficial.
      
      Acabei no trabalhando com Anton na produo do filme baseado em Caando Arco-ris. Algo aconteceu com a atriz principal e o contrato melou. Fiquei desapontada 
- mas s porque o filme ajudaria o livro a vender mais e seria divertido, especialmente a parte de eu aparecer no set de filmagens e usar um vestido longo com uma 
fenda aberta at o alto das coxas e um bronzeado artificial na premire - e no por no ter conseguido encontrar Anton. Depois sa desse clima e descobri que estava 
at aliviada por isso.
      
     
Lily
      
      Ainda estava escuro quando acordei do meu sono profundo e estiquei a mo para tocar em Anton; descobri que ele no estava ali e por um momento fiquei surpresa, 
at me lembrar de tudo o que acontecera.
      Na noite seguinte eu tornei a acordar, e dessa vez a ausncia dele me fez chorar. Desde que eu o deixara, vinha dormindo otimamente bem, muito melhor do que 
quando estava em sua companhia. No conseguia entender o porqu de isso estar acontecendo justamente agora, quando estvamos to perto de processar as perdas e quase 
prontos para ser amigos. Antes de abandon-lo, eu j estava em paz com a nossa situao. O pesar no me deixara incapacitada e no me ocorreu questionar, nem por 
um momento, o porqu de eu lidar to bem com a situao. Simplesmente eu me sentia grata por ser poupada do sofrimento.
      Ento por que, dois meses depois de t-lo deixado, eu estava mais triste do que nunca?
      Na manh seguinte, quando o carteiro chegou, Irina me entregou um envelope pardo com cara de correspondncia sria e eu perguntei:
      - No chegou mais nada para mim?
      - No.
      - Nadinha?
      - No.
      - Um carto-postal, por exemplo?
      - J dizze que no.
      Um pensamento surgiu na minha cabea: Preciso sair um pouco, para mudar de ares.
      Eu devia uma visita  minha me, em Warwickshire h muito tempo. J fazia sculos desde a ltima vez que eu a apavorara insinuando que iria morar com ela.
      Estava preocupada com a grana que iria perder se ficasse algum tempo sem trabalhar quando abri o envelope pardo com cara de assunto srio. Encontrei ali dentro 
um cheque de valor elevadssimo com os direitos de As Poes de Mimi. O dinheiro que poderia ter salvo a nossa casa se tivesse chegado s minhas mos em dezembro.
      Fiquei com os olhos cheios d'gua. Como estaria a nossa vida se aquilo tivesse acontecido? Mas logo enxuguei o rosto e admiti que, analisando o nosso jeito 
de ser, no estaramos em muito melhor situao. Em janeiro teramos de comear a pagar as parcelas mensais do financiamento e salrio regular nunca fora o nosso 
forte.
      Foi terrivelmente estranho receber aquele cheque. Ele fazia parte de uma parte to diferente da minha vida que mais parecia uma mensagem perdida de uma civilizao 
morta h milnios em uma galxia distante. Mesmo assim, foi o "sinal' que eu precisava para espairecer.Graas quele cheque, eu poderia tirar alguns dias de folga 
do trabalho e liguei para mame, a fim de lhe dar a boa notcia.
      - Por quanto tempo voc pretende ficar? - perguntou ela. Um pouco ansiosa demais, talvez?...
      - Sculos - respondi. - Pelo menos alguns meses. Olhe, me, antes que a senhora comece a hiperventilar, s uma semana. Pode ser?
      - Claro!
      Fui fazer as malas e, por baixo de algumas camadas de roupas ntimas, achei a carta toda amassada de Anton. Estava dentro de um suti meia-taa e eu olhei 
para ela, quase esperando que se movesse. Estava louca para abri-la. Em vez disso, peguei-a pela ponta do envelope e a atirei dentro da cesta de lixo, algo que j 
deveria ter feito vrias semanas antes.
      Irina me ofereceu o seu novo Audi emprestado (um dos presentes que ganhara de Vassily) e eu o carreguei de tralhas. Basicamente bichinhos de pelcia.
      Era uma linda manh de primavera e eu me senti bem ao acelerar o carro ao longo da estrada, como se deixasse todos os perigos para trs, em Londres. Menos 
de duas horas depois, j saamos da rodovia principal.
      - Estamos quase chegando, Ema! - Em seguida exclamei:- Opa! - ao ver que minhas curvas suaves e despreocupadas haviam nos colocado atrs de um caminho carregado 
com grossas estacas de concreto, que se arrastava e se sacudia sobre o asfalto a vinte e cinco quilmetros por hora. A estrada era estreita demais, cheia de curvas 
e no dava para ultrapassar, mas tudo bem. - Estamos no campo agora, Ema. No temos pressa. - Ema concordou comigo e nos pusemos a desfiar os quatro milhes de versos 
de "Um elefante
      incomoda muita gente".
      Cantarolando a parte do "incomoda, incomoda, incomoda, incomoda muito mais!...", seguimos nos arrastando lentamente atrs do caminho quando subitamente - 
foi como assistir a um filme em cmera lenta - ele pulou ao cair em um buraco da estrada e as estacas de concreto se soltaram das correntes que as prendiam e comearam 
a se espalhar por todos os lados como se fossem um gigantesco jogo de pega-varetas. Elas despencaram do caminho bem diante de ns, quicaram ao bater no asfalto 
e voaram na minha direo. No deu nem tempo de levar susto. Uma delas estraalhou o pra-brisas; porm, como por um passe de mgica, o vidro se transformou em um 
escudo opaco quebradio e afundou para o interior do carro. Algumas das estacas atingiram o teto do veculo, que tambm afundou sobre nossas cabeas. Eu no conseguia 
ver nada adiante e meu p estava no freio, mas continuvamos nos movendo. Em algum ponto da confuso, paramos de cantar e eu percebi com clareza cristalina, que 
amos morrer. Eu ia morrer junto com minha filhinha em uma estrada secundria de Warwickshire.
      No estou pronta para isso...
      Pelo retrovisor, meus olhos se encontraram com os de Ema e ela pareceu intrigada com o movimento, em vez de apavorada.
      Ela  minha filha e eu falhei na misso de proteg-la.
      A derrapagem pareceu continuar por uma eternidade. Era como se vrios anos tivessem passado: Ema entrara na escola, passara pela adolescncia e j tivera seu 
primeiro susto de gravidez no planejada antes de eu ter o primeiro lampejo de que estvamos parando. Era
      como estar em um sonho daqueles em que a pessoa quer correr, mas as pernas se recusam a obedecer o crebro; o freio estava pressionado at o piso do carro, 
mas no respondia.
      Finalmente, depois dessa eternidade, o carro parou. Fiquei sentada, muda, por um instante, mal acreditando no silncio que descera em torno de ns, e me virei 
na direo de Ema. Ela me estendeu o brao. Havia algo brilhante em sua mozinha.
      - Vidro! - ela informou.
      
      Sa do carro, mas minhas pernas pareciam to leves que eu me senti flutuar. Recolhi Ema de sua cadeirinha e ela tambm me pareceu estar sem peso algum. Seu 
penteado em estilo Dora, a Exploradora, estava salpicado por centenas de minsculos fragmentos de vidro - a
      janela traseira se quebrara atrs dela, mas o estranho  que ela no parecia estar ferida. Nem eu. No havia nada dolorido e nenhuma de ns duas tinha vestgio 
algum de sangue.
      O motorista do caminho se transformara em uma mquina de gaguejar:
      - Mi-minha No-Nossa Senhora! - ele repetia sem parar. - Minha No-Nossa Senhora! Eu a-achei que tinha matado vocs. Pepensei que tinha matado vocs!
      Ele pegou um celular e fez uma chamada pedindo socorro - pelo menos era o que eu imaginava - , enquanto eu fiquei ali abraando Ema, olhando o carro que estava 
em estado de "perda total" e as estacas de concreto espalhadas ao longo da estrada.
      Senti uma urgente necessidade de me sentar, pois mal sentia as pernas. Deixei-me escorregar sobre a grama do acostamento e apertei Ema junto de mim. Ali, sentada 
no acostamento, subitamente percebi a razo de estar sem um nico arranho. No era por um absurdo golpe de sorte, mas sim pelo fato de eu, na verdade, estar morta. 
Belisquei o brao. Acho que no senti nada, mas no tive certeza. Ento belisquei o brao de Ema para confirmar e ela olhou para mim, surpresa.
      - Desculpe - pedi.
      - Puxa, Lily - ela reclamou. - No belisca!
      Estava um dia meio frio - dava para ver o vapor quando eu expirava - , mas eu me sentia absolutamente confortvel: zonza, como se o ar estivesse rarefeito, 
mas muito serena. Puxei Ema ainda mais para junto de mim, encostando a bochecha na dela, e uma paz profunda desceu sobre ns, como se estivssemos posando para uma 
foto. A distncia, ouvi o barulho das sirenes. De repente uma ambulncia chegou, alguns homens pularam l de dentro e vieram em nossa direo.
       isso, pensei. Essa  a parte em que eu os vejo colocando meu corpo sem vida sobre uma maca e descubro que estou flutuando a cinco metros acima da cena. No 
consegui descobrir se Ema tambm estava morta ou no.
      Uma lanterna fina com luz ofuscante foi colocada diante do meu olho, um medidor de presso foi preso com velcro em meu brao e as pessoas comearam a me fazer 
perguntas idiotas. "Que dia  hoje?", "Qual o nome do primeiro-ministro?", "Quem venceu o Big Brother?" O sujeito da ambulncia, um homem de meia-idade com ar calmo 
e reconfortante, olhou para o carro todo amassado e recuou, horrorizado.
      - Vocs tiveram uma sorte danada!
      -  mesmo? - Aquela era a minha chance. - O senhor est me dizendo que no estamos mortas?
      - No, vocs no morreram - disse ele, sem rodeios - , mas esto em estado de choque. No faa nada imprudente.
      - Como o qu?
      - No sei. Nada imprudente.
      - Ento t!
      Fomos levadas para um hospital e examinadas minuciosamente. Concluram que estvamos em perfeitas condies, o que era espantoso, e em seguida mame apareceu 
para nos carregar para casa, um chal idlico localizado em um vilarejo, junto de uma fazenda. O jardim da casa de mame dava para um campo onde havia trs ovelhas 
com ar absolutamente inexpressivo e um carneirinho que pulava animadamente em volta delas como um idiota.
      Ema, uma menina da cidade grande, arregalou os olhos diante das primeiras ovelhas de verdade que encontrava em sua vida.
      - Cachorro mau - gritou Ema para elas. - Cachorro MAU!
      Em seguida comeou a latir - uma imitao muito convincente por sinal- e as ovelhas se reuniram junto do porto para observ-la, com as cabeas lanosas juntinhas 
e uma expresso benigna no olhar.
      - Venham, entrem! - pediu mame. - Vocs passaram por uma experincia terrvel; precisam repousar.
      Eu no queria deixar Ema sozinha, nem tirar os olhos dela depois de quase t-la perdido, mas mame garantiu:
      - Ela vai ficar a salvo aqui. - De algum modo, acreditei nela.
      Minutos depois, ela me instalou em um quarto com piso de madeira brilhante e papel de parede com padro florido, e eu me vi mergulhando em uma cama muito macia 
com aconchegantes lenis de algodo. Tudo cheirava a limpeza, conforto e segurana.
      - Preciso resolver o problema com o carro de lrina - disse. - E preciso entrar em contato com Anton. Tenho de me certificar de que nada de mau vai tornar a 
acontecer com Ema. Mas primeiro preciso dormir um pouco.
      
      De repente era de manh. Abri os olhos e vi mame e Ema no quarto.Ema ria de orelha a orelha.
      A primeira coisa que eu disse foi:
      - Ns no morremos ontem.
      Mame me lanou um olhar em estilo "No diante de Ema, por favor" e perguntou:
      - Como passou a noite?
      - Dormi maravilhosamente bem. Acordei para ir ao banheiro no meio da madrugada, mas no bati com o olho na quina do armrio. Portanto, meu nervo tico no 
ficou danificado e no vou precisar ter viso dupla pelo resto da vida.
      - Minha garotinha! - exclamou ele, com a voz embargada pelas lgrimas. - No tive um segundo de sossego desde que soube. Vocs tiveram tanta sorte!
      - Sim, eu sei. - Consegui me desvencilhar dele e respirei fundo. - Quando a gente pensa nisso, percebe que eu tive sorte durante toda a minha vida.
      Ele me olhou ligeiramente intrigado, mas, como eu estivera frente a frente com a morte, ele precisava me animar.
      - Pense s... - continuei - em todas as vezes que eu bebi uma lata de Coca-Cola em dias de vero sem nunca, nem por uma vez, ter sido picada por uma vespa 
que entrou na lata sem ningum ver. Tambm nunca tive um choque anafiltico daqueles que a lngua enrola como uma bola de beisebol e trava. Isso no  maravilhoso?
      Mame olhou para papai.
      - Ela est dizendo coisas assim desde que acordou. Por que, minha filha?
      - Estou s puxando conversa.
      Camos todos em um silncio desconfortvel e deu para ouvir os berros felizes de Ema e Poppy atormentando as ovelhas. ("Cachorro mau. Cachorro FEIO.") Mame 
olhou na direo do burburinho, mas ento virou a cabea novamente na minha direo e voltou a atacar:
      - E agora, o que est pensando, Lily?
      - Em nada! S estou feliz por lembrar que minhas unhas dos ps sempre cresceram na direo certa. Ter unhas encravadas deve ser muito doloroso. E a operao 
para desencrav-las sempre me pareceu terrvel.
      Mame e papai trocaram olhares.
      ("Cachorro sujo. Cachorro PELUDO.")
      - Voc devia ir ao mdico, filha - sugeriu mame.
      No concordei. Simplesmente sentia um daqueles surtos de gratido que quase sempre me acometiam depois de um trauma qualquer. Tentei explicar:
      - Ontem eu e Ema poderamos ter morrido de tantas maneiras diferentes! Poderamos ter sido atingidas por uma das estacas de concreto, eu poderia ter cado 
com o carro na vala ao lado da estrada, pois no dava para ver em que direo ia, ou poderamos ter ficado debaixo do caminho. Ser salva de tantos modos diferentes 
ao mesmo tempo me fez lembrar as coisas terrveis que podem nos acontecer todos os dias e no acontecem. Mesmo que nem tudo esteja correndo bem para mim, eu me sinto 
com muita sorte.
      Eles me olharam com o rosto sem expresso, como se no compreendessem, e eu continuei:
      - Essa noite eu sonhei que carregava Ema no colo atravs de uma terra desolada; pedras imensas despencavam do cu e caam do nosso lado; fendas terrveis se 
abriam na terra assim que acabvamos de passar. Ema e eu escapamos inclumes e uma trilha segura surgia do nada bem debaixo dos meus ps no exato momento em que 
eu precisava dela.
      Parei de falar. Os rostos de papai e mame continuavam parados, sem expresso.
      Por fim, papai disse:
      - Talvez voc tenha sofrido uma concusso na cabea, querida. - Virou-se para mame. - Viu s o que fizemos a essa menina? Isso  culpa nossa.
      Papai comeou com sua mania de grandeza e disse que ia me levar  Harley Street, pois fazia questo que eu recebesse o melhor atendimento possvel, mas mame 
o fez baixar a bola:
      - Por favor, deixe de bobagem.
      - Obrigada, mame. - Pelo menos um dos dois me entendia.
      Ento ela determinou:
      - O mdico local serve para esses casos.
      Tentei esconder de mim mesma o que acontecia, mas no consegui.
      
      Foi como na vez em que eu fui assaltada, s que ao contrrio, entendem? Naquela ocasio, eu percebi todas as coisas terrveis que podiam acontecer com um ser 
humano. Agora eu via todas as coisas ruins que no aconteciam.
      O mundo  um local seguro, pensei. Viver  uma atividade de baixo risco.
      No dia seguinte papai voltou, um pouco relutante, para Londres - Debs precisava dele com muita urgncia para abrir um vidro de gelia ou algo desse tipo. Ficamos 
sozinhas, mame, Ema e eu. O tempo estava glorioso e meu estado de esprito acompanhava o clima. Pensei que fosse explodir de alegria por no estar com ttano. Nem 
lepra.
      Com olhar expressivo, perguntei  mame:
      - No  maravilhoso no ter artrose?
      Ela resolveu:
      - Pronto! J chega! - pegou o telefone e solicitou a visita de um mdico.
      O dr. Lott, um rapaz de cabelos encaracolados, apareceu em meu quarto revestido de flores menos de uma hora mais tarde.
      - Qual  o problema?
      Mame respondeu antes de mim:
      - Ela acabou com um relacionamento de vrios anos, sua carreira literria se encerrou e mesmo assim se sente muito feliz. No  isso, filha?
      Assenti com a cabea. Sim, tudo isso era verdade.
      O dr. Lott franziu o cenho e sentenciou:
      - Isso  preocupante. Muito preocupante por sinal, mas no  necessariamente sinal de doena.
      - Eu quase fui morta - informei-lhe.
      Ele olhou para mame e levantou as sobrancelhas com ar questionador.
      - No, no foi por ela - atalhei, e expliquei tudo sobre o acidente.
      - Ah! - exclamou ele. - Agora tudo faz sentido..- Seu corpo est to surpreso por ainda estar vivo que voc deve estar com um sbito aumento de adrenalina 
no sangue. Isso explica o seu astral elevado. No se preocupe, isso logo vai passar.
      - Ento em breve eu vou comear a me sentir novamente deprimida?
      - Sim, sim - confirmou ele, para me animar. - Possivelmente voc vai se sentir pior do que normalmente. Voc vai passar por uma queda de adrenalina.
      - Ora, mas que alvio! - comentou mame. - Obrigada, doutor, vou lev-lo at l fora.
      Ela foi com ele at o carro e suas vozes vieram flutuando pela janela:
      - Tem certeza de que o senhor no quer receitar nada para ela? - ouvi mame perguntar.
      - Receitar o qu?
      Mame pareceu intrigada.
      - Algo com efeito contrrio ao dos antidepressivos.
      - No h nada errado com ela.
      - Mas isso est insuportvel! Alm do mais, estou preocupada com o que esse excesso de positividade poder causar  minha neta.
      - Aquela que est berrando para as ovelhas? Ela no me parece traumatizada. Alis, para ser franco, a me estar com o nimo positivo e em alta depois de um 
choque desses  a melhor coisa para a menina.
      Senti vontade de erguer o punho fechado em sinal de vitria. A preocupao com Ema era uma constante pedra no meu sapato; fiquei empolgadssima ao descobrir 
que - ainda que por acaso - eu estava fazendo o melhor para ela.
      - No se preocupe - garantiu o dr. Lott para mame. - Esse alto-astral de Lily vai passar logo.
      - E como aturar isso, enquanto espero?
      - Ela  escritora, no ? Por que a senhora no tenta persuadi-la a escrever sobre isso? Pelo menos enquanto estiver escrevendo, ela no vai estar falando.
      Mal ele acabou de pronunciar essa frase, eu j estava com caneta e bloco na mo e vi minha mo escrever:
      "Graa acordou e descobriu que mais uma vez um avio no cara sobre a casa durante a noite." Era uma tima frase de abertura para um livro, pensei.
      E o mesmo aconteceu com o pargrafo seguinte, em que Graa tomou uma ducha quente sem se deixar cozinhar; comeu uma tigela de msli e no se engasgou at morrer 
com um pedao de noz; esquentou a chaleira no fogo eltrico sem ser eletrocutada; enfiou a mo em uma gaveta sem cortar uma artria na lmina de uma faca; saiu 
de casa sem escorregar em uma casca de banana que poderia te-la jogado diante de um carro em alta velocidade; a caminho do trabalho, o nibus no bateu em nada; 
ela conseguiu no desenvolver cncer de ouvido por causa do celular e nada pesado caiu do cu em cima da sua mesa de trabalho - tudo isso antes das nove da manh! 
Eu j tinha at um ttulo para o novo livro. Uma Vida Encantada.
      Levei menos de cinco semanas. Durante todo esse tempo, Ema e eu ficamos na casa de mame e durante quinze horas por dia, em mdia, eu ficava diante do computador 
dela batucando no teclado. Meus dedos mal conseguiam acompanhar a enxurrada de palavras que vinha do meu crebro.
      Quando ficou claro que eu produzia algo importante, mame assumiu os cuidados com Ema.
      Nos dias em que ela precisava trabalhar (mame tinha um emprego de meio expediente em dias variados, vendendo aventais da campanha do governo para a preservao 
ambiental em um posto ali perto), ela simplesmente levava Ema junto. E quando no estava no trabalho, ela e Ema caminhavam juntas pelas campinas, colhendo flores 
silvestres e se tornando (nas palavras dela mesma) "mulheres que correm com as ovelhas". Isso me deixava livre para transferir minha histria da cabea para o computador.
      Minha herona era uma mulher chamada Graa (nem um pouco sutil, eu sei, mas era melhor que cham-la de Fortunata). Ela protagonizava uma complicada histria 
de amor em que havia seis personagens, e a ao se desenrolava sobre um fundo formado por todas as coisas terrveis que no aconteciam s pessoas em geral.
      A primeira noite eu li o que escrevera para mame e Ema.
      - Querida, isso  lindo! - elogiou mame.
      - Sujo - concordou Ema. - Imundo!
      -  uma histria absolutamente adorvel e muito alegre.
      - Mas a senhora  minha me - disse eu. - Preciso de algum que seja imparcial.
      - Ora, querida, eu no mentiria para voc. No sou esse tipo de me. - Com ar animado, continuou: - Quando insisti para que voc se consultasse com um mdico, 
eu no estava sendo antiptica, apenas preocupada com voc.
      - Eu sei.
      - A propsito, Anton tornou a ligar. Quer ver Ema, desesperadamente.
      - No. Ele no pode vir. No posso v-lo. Estou seguindo os conselhos do mdico. No devo fazer nada imprudente.
      - Mas voc no pode negar-lhe o direito de ver a prpria filha, ainda mais depois de ela quase ter morrido. Lily, por favor, tente ser menos egosta.
      O que me importava Anton? Eu tinha de pensar em Ema, especialmente depois de ela quase ter morrido. Embora ela estivesse lidando com aquele mais recente trauma 
com a resistncia de sempre, o contato regular com o pai era vital para o seu bem-estar.
      - Ento t... - resmunguei, mal-humorada como uma adolescente.
      Mame saiu do quarto, mas voltou logo.
      - Anton vem amanh de manh - avisou. - Ele me pediu para agradecer a voc.
      
      - Mame, quando Anton chegar, daqui a pouco, a senhora vai ter que receb-lo para entregar Ema, porque eu no consigo.
      - Mas por qu?
      - Porque no - insisti. - Recebi esse conselho do mdico. No posso fazer nada imprudente.
      - Como assim... Imprudente?
      - Sei l, apenas... imprudente. Preciso deixar passar esse aumento de adrenalina, essa fase ou l o que seja. S depois vou poder tornar a v-lo.
      Mame no gostou muito dessa histria, especialmente porque eu fechei as cortinas do escritrio, para o caso de a viso de Anton provocar algum comportamento 
imprudente de minha parte. Mergulhei na complicada vida amorosa de Graa e seus golpes de sorte, e esperei o tempo passar.
      Horas mais tarde, mame entrou no escritrio. Tirei os plugues do ouvido (que eu colocara para evitar que a voz de Anton me provocasse um ataque de imprudncia) 
e perguntei:
      - Ele j foi?
      - J.
      - Como ele estava?
      - Bem. Ficou emocionado por ver Ema, e ela mal coube em si de contente.  mesmo a filhinha do papai.
      - Ele perguntou por mim?
      -  claro.
      - O que ele disse?
      - Ele disse: "Como vai Lily?"
      - S isso?
      - Acho que sim.
      - E sobre o que vocs dois conversaram?
      - Bem, nada de especial. Ficamos brincando com Ema. Estvamos fazendo pouco das ovelhas.
      - E na hora de sair ele falou alguma coisa a meu respeito?
      Mame pensou por alguns instantes.
      - No - disse, por fim. No falou nada.
      - Que simptico! - murmurei, olhando para a tela.
      - Por que se importa? Voc o largou.
      - Eu no me importo. S que mal consigo acreditar que ele tenha sido to rude.
      - Rude? - perguntou mame. - Isso, vindo da mulher que se sentou no escritrio com as cortinas fechadas e os ouvidos tapados com plugues de silicone. Rude, 
querida?
      
      A segunda visita de Anton no me perturbou tanto quanto a primeira. Ele viera ver a filha e tinha todo o direito de faz-lo. Como mame disse, eu deveria estar 
feliz por minha filha ter um pai to devotado. A partir de ento, Anton passou a vir de Londres a cada cinco ou seis dias, mas em cada uma de suas visitas eu permaneci 
enclausurada. S uma vez - mesmo com os plugues de ouvido - eu o ouvi rindo e foi como a dor fantasma num membro amputado; fiquei surpresa por ainda ser capaz de 
sofrer tanto.
      Uma noite, ao levar Ema para a cama, ela sussurrou no meu ouvido, to baixinho que eu quase no consegui ouvir: "Anton cheira gostoso." Aquela frase, em si, 
no significava grande coisa. Ema no era muito boa para formar frases coerentes e, assim como disse isso, poderia ter dito "Anton lambe rvores" ou "Anton bebe 
gasolina". Mesmo assim, isso gerou uma nostalgia to intensa e familiar dentro de mim que eu senti vontade de uivar de tristeza.
      Fui obrigada a ressuscitar o mantra que me ajudara a vencer os primeiros dias de separao: Anton e eu nos apaixonamos um pelo outro, tivemos uma filha juntos 
e parecemos almas-gmeas desde o momento em que nos conhecemos. O fim de algo to precioso s poderia ser doloroso, e talvez a ruptura fosse machucar de vez em quando 
por toda a vida.
      Lembrei-me daquele encontro tranqilo, poucos dias antes de eu deixar Londres, quando achei que Anton e eu estvamos a um passo de nos tornarmos apenas bons 
amigos. Pois sim! Eu me enganara redondamente: no estvamos nem perto disso.
      Continuei a escrever todos os dias; as palavras jorravam de mim. Todas as noites, antes de colocar Ema na cama, eu lia para elas o texto que produzira naquele 
dia e mame delirava de emoo. Ema tambm sempre comentava alguma coisa ("animado"; "cansado";
      "fedorento"). Eu no senti a queda de adrenalina que o dr. Lott previu, mas quanto mais avanava na histria, mais o meu senso de salvao encolhia. No comecinho 
de maio, ao acabar o livro, eu j praticamente voltara ao normal. (Embora ligeiramente mais alegre do
      que antes do acidente.)
      Sabia que Uma Vida Encantada era um sucesso certo; todo mundo iria adorar a histria. No se tratava de arrogncia, pois eu tambm sabia que os crticos seriam 
cruis com o livro. S que j aprendera uma ou duas coisas sobre o mercado editorial quela altura. Vira como as pessoas haviam reagido a As Poes de Mimi e tinha 
a
      intuio de que o novo livro geraria uma resposta semelhante. A histria e o local onde se desenrolava Uma Vida Encantada eram completamente diferentes dos 
de As Poes de Mimi, mas o sentimento era igual. Para incio de conversa, era terrivelmente no realista. Para ser simptica com o livro (por que no ser?), diria 
que ele era mgico.
      Era hora de voltarmos a Londres; mame me pareceu triste, mas tentou me esconder isso.
      - No se trata de mim - explicou ela. - As ovelhas vo se sentir arrasadas. Elas adotaram Ema como se ela fosse uma espcie de deusa.
      - Vamos voltar para visit-las.
      - Voltem sim, por favor. E mande lembranas minhas a Anton. Voc vai v-lo quando chegar a Londres? Ser que o medo de voc fazer algo imprudente passou?
      Eu no sabia. Talvez.
      - Posso lhe dar um conselho, querida?
      - No, mame, por favor no faa isso.
      Mas ela j estava no embalo:
      - Sei que Anton  pouco confivel com relao a dinheiro, mas  muito melhor viver com um homem mo-aberta do que com um unha - de-fome.
      - Como  que a senhora sabe? Quem era unha-de-fome?
      - Peter. - Era seu segundo marido. - Ele tirava dinheiro do bolso como se estivesse arrancando um dente. - Eu nunca tinha percebido aquilo. Ou ser que tinha? 
Talvez tivesse uma leve desconfiana, mas, depois de toda a insegurana de viver com papai, imaginei que mame gostasse daquilo.
      - Pelo menos viver com o seu pai era divertido - disse ela, com ar saudoso.
      - To divertido que a senhora se divorciou dele.
      - Oh, querida, sinto muito. O problema  que ele me fazia sofrer com todos aqueles esquemas infalveis de ganhar dinheiro. Mas depois de morar com um homem 
que calculava quantos dias cada rolo de papel higinico devia durar, descobri que  melhor passar um dia ao lado de um mo-aberta do que mil anos junto de um unha-de-fome. 
- Um ar de ansiedade apareceu em seu rosto. - Isso no significa que eu e seu pai estejamos planejando nos casar novamente. Por favor, no saia daqui com idias 
erradas.
      
      Ema e eu voltamos para Londres.
      Eu me senti to mal por devolver o lindo carro de Irina todo amassado que acabei comprando um novo para ela. O fato  que eu estava com aquela grana preta 
dos direitos de As Poes de Mimi depositada no banco, sabem como ... Irina, entretanto, no ficou
      nem um pouco impressionada com a minha generosidade.
      - Voz no prrezizava fazer izo. O zeguro ia me dar uma carro novo.
      Dei de ombros.
      - Tudo bem, ento... Quando chegar o dinheiro do seguro, voc me reembolsa.
      - Voz  dezcuidada com dinheirro - comentou ela, em um tom frio. - Fico irritada com izo.
      Mesmo me desprezando por eu lhe comprar um carro novo, ela me perdoou e permitiu que eu e Ema continussemos morando ali at conseguirmos um lugarzinho s 
nosso.
      Assim que entrei no quarto, notei que a cesta de papis no fora esvaziada desde que eu fora embora. Obviamente, lrina respeitava minha privacidade. Merda. 
A carta de Anton continuava ali, com uma das pontas para fora. Olhei para ela, perguntando-me o que
      fazer, e ento, mais que depressa, peguei-a e a enfiei no fundo da gaveta de roupa ntima, desconfortvel por sentir que ela continuava me assombrando.
      Antes de entregar Uma Vida Encantada a Jojo, resolvi procurar algum para ler o livro e me dar uma opinio neutra, algum que no me enganasse s para me agradar; 
a escolha bvia foi Irina, que passou uma tarde inteira lendo o livro. Ao devolv-lo para mim, seu rosto estava impassvel
      - No gostei - declarou ela.
      - timo, timo! - incentivei.
      - H esperana demais na histria. Mas as outras pessoas vo gostar muito, certamente.
      - Sim - disse eu, com ar feliz. - Foi exatamente o que eu pensei.
      
     
Gemma
      
      De repente, no mais que de repente, era primavera e a vida era boa. Papai voltara para mame, meu livro seria lanado logo - alis, j estava  venda nos 
aeroportos, mas ainda era cedo para saber se ia vender bem - e agora que no era mais preciso salvar mame financeiramente, eu tinha grana suficiente para quitar 
a fatura do carto de crdito, vender meu carro e comprar outro que os homens no se sentissem inclinados a atacar.
      Talvez, em breve, eu seguisse o exemplo de Jojo e passasse a trabalhar por conta prpria. S que devido  minha carreira de escritora, que ainda estava no 
incio, decidi no fazer nada a esse respeito, por ora.
      A nica nuvem negra no meu cu de brigadeiro era eu continuar envergonhada pelo clima que rolara entre mim e Johnny, o farmacutico. Isso me impedia de passar 
de carro em frente  farmcia. Mas tudo bem... Mostrem-me algum cuja vida  inteiramente descomplicada e eu lhes mostrarei uma pessoa mortinha da silva.
      Em abril, poucas semanas antes de meu livro ser apresentado ao mundo, finalmente fui curtir minhas frias em Antgua. Andra resolveu ir no lugar de Owen. 
Depois, Cody avisou que tambm queria viajar, e aconteceu o mesmo com Trevor, Jennifer, Sylvie e Niall. Susan avisou que iria direto de Seattle e de repente ramos 
oito. Como estava virando excurso, sete dias me pareceram pouco tempo. Resolvemos trocar a reserva para duas semanas.
      Antes mesmo de deixarmos Dublin, a empolgao j era grande. Na livraria do aeroporto, alguns de nosso grupo se amontoaram em volta da pequena vitrine onde 
Caando Arco-ris estava exposto e comearam a comentar em voz alta: "Ouvi dizer que esse livro  fantstico" e "Compraria esse livro para mim, se eu estivesse saindo 
de frias". Ento, quando uma mulher realmente comprou o meu romance, Cody colou nela e informou-lhe que eu era a autora; apesar de ela obviamente achar que estvamos 
tirando onda com a sua cara, a pobrezinha me deixou autografar seu exemplar e no se importou de aparecer ao meu lado (eu cheia de lgrimas) no pequeno vdeo que 
Cody fez do evento.
      Ento, ao chegarmos ao resort, uma mulher deitada junto da piscina - uma mulher diferente da do aeroporto, diga-se de passagem - tambm lia Caando Arco-ris. 
 claro que havia seiscentos e quarenta e sete outras mulheres lendo As Poes de Mimi, mas deixa pra l... Admito que eu sentia uma fisgada no corao cada vez 
que via uma delas, mas nada que eu no pudesse administrar.
      Encontramos Susan, que chegara na vspera de Seattle, e as duas semanas que se seguiram foram uma curtio ininterrupta. O sol brilhou, todos se entrosaram 
muito bem uns com os outros e sempre havia algum disponvel para me servir de companhia, embora o lugar fosse grande o bastante para o caso de precisarmos de (aquela 
palavra horrvel) "espao". Havia um spa, trs restaurantes, muitos esportes aquticos e toda a birita de boa qualidade que consegussemos consumir. Me submeti a 
um monte de tratamentos para a pele, fiz aulas de mergulho, li seis livros e tentei aprender windsurf, mas eles me pediram para voltar quando eu no estivesse pra 
l de Marrakech com a caveira cheia de pias coladas. Conhecemos milhes de pessoas e Susan, Trevor e Jennifer descolaram uma transa.
      Na maioria das noites danvamos at o sol raiar em uma discoteca caidaa, mas - essa era a melhor parte - no temamos o dia seguinte. (A vantagem da birita 
de boa qualidade.)
      Essas frias foram o meu momento da virada. Acho que eu tinha esquecido como era ser feliz, mas redescobri l. Na nossa ltima noite, sentada no bar em frente 
 praia, ouvindo o som gostoso das ondas e sentindo o fresquinho gostoso da brisa perfumada, percebi que tinha me livrado da amargura com relao a Lily e Anton, 
depois de arrast-la por tanto tempo. E tambm j no tinha vontade de dirigir at onde Colette trabalhava s para zoar dela. Para falar a verdade, sentia pena; 
com dois filhos, a sua vida no devia ser nada fcil e sua sorte com os homens s podia ser pavorosa de verdade, muito pior que a minha, para ela achar meu pai um 
grande partido. (Com todo o respeito, sei que ele  um homem adorvel, simptico e blablabl, mas fala srio!) Eu at me achei disposta a perdoar papai. Inspirava 
bem-estar, expirava serenidade e sentia boa vontade em relao a todo mundo.
      Olhei para as pessoas sentadas  minha volta - Andrea, Cody, Susan, Sylvie, Jennifer, Trevor, Niall e um carinha de Birmingham cujo nome eu esqueci e se juntara 
a ns na mesa porque andava transando com Jennifer. Na hora, pensei: Isso  tudo o que eu preciso...
      Bons amigos, amar e ser amada. Gozo de boa sade, tenho um emprego bem-remunerado, um livro sendo lanado, um futuro promissor e pessoas que me amam. Estou 
realizada e completa.
      Tentei explicar a Cody o quanto eu me sentia leve e feliz.
      - Claro que sim! - confirmou ele. - Voc est pra l de Marrakech, com a caveira cheia de pias coladas (essa se tornou a frase-smbolo das frias). S que 
desistiu dos homens, Gemma, e no deve fazer isso.
      Tentei explicar a ele que eu no havia desistido, e sim simplesmente revisto minhas prioridades, mas no o convenci disso, provavelmente por estar pra l de 
Marrakech, com a caveira cheia de pias coladas. Mas tudo bem. Felicidade significa no precisar ser compreendida.
      
     
Jojo
      
      Jojo acordou e refletiu sobre os primeiros dois pensamentos que lhe vinham  cabea todas as manhs. Sentiu que aquele era o dia em que alguma coisa tinha 
de mudar.
      Nas primeiras duas semanas depois de deixar a Lipman Haigh, sua vida andou atribulada. O telefone tocava o tempo todo - autores lhe avisando que iriam pular 
fora do barco para assinar contrato com Richie Gant, Mark implorando para ela voltar, pessoas do meio editorial loucas para saber o que acontecera - e ento, num 
piscar de olhos, tudo subitamente ficou calmo. Parecia at uma conspirao. O silncio a incomodava e o tempo comeou a passar devagar demais.
      Jojo descobriu que ficar sentada em sua sala tentando gerenciar uma agncia literria quase sem autores era uma pobreza total. O ltimo levantamento mostrou 
que ela perdera vinte e um de vinte e nove autores para Richie Gant, e s os menores e pouco lucrativos haviam permanecido com ela.
      Nenhum dinheiro estava entrando - nenhum mesmo! - e isso a deixava apavorada.
      Desde os dezesseis anos, Jojo sempre tivera um emprego; estar sem renda era como balanar em um trapzio sem rede de segurana.
      Durante treze semanas, a cada manh, aquele era o seu segundo pensamento ao acordar. Passou-se o ms de fevereiro, e tambm maro e abril. J era incio de 
maio e nada mudara.
      Ela precisava de novos autores, mas ningum sabia dela, e o curioso  que a Lipman Haigh no lhe repassava nenhum dos originais que eram enviados diretamente 
aos seus cuidados.
      Uma reportagem com o seu perfil profissional publicada pelo Times (matria conseguida por Magda Wyatt) provocou o envio de vrios originais para Jojo. A maioria 
era horrvel, mas sinalizava que ela ainda estava em campo. Entretanto, at aquele momento, nenhum deles resultara em um contrato para publicao.
      Os dias de Jojo pareciam interminveis, pois ela continuava enfiada no apartamento, esperando, sem nada acontecer. Os editores no a levavam mais para almoar 
em restaurantes elegantes e Jojo adotara, deliberadamente, a poltica de no comparecer a eventos badalados do mundo literrio em que pudesse dar de cara com Mark. 
Entretanto, s vezes isso era difcil de evitar, porque ela precisava mostrar aos editores que ainda estava viva.
      Mesmo assim, ela fazia de tudo para se manter afastada, porque Mark era a primeira coisa em que ela pensava todas as manhs. Mesmo agora, mais de trs meses 
desde que ela o vira pela ltima vez, havia momentos em que a dor tornava difcil at o ato de respirar.
      Aquele, portanto, era o dia em que algo teria de acontecer.
      No sobrara dinheiro nenhum; ela vendera a sua pequena carteira de aes, retirara alguma grana antecipada do seu fundo de penso e entrara no vermelho, tanto 
no cheque especial quanto nos cartes de crdito. Utilizara todos os recursos, tinha a prestao do seu apartamento para pagar e, no importava o que acontecesse, 
no queria perd-lo.
      Havia duas opes, nenhuma delas atraente. Ela poderia refinanciar seu apartamento ou voltar a trabalhar em uma agncia grande. Seria difcil (melhor dizendo, 
impossvel) refinanciar o apartamento sem um emprego estvel. Ento, na verdade, s havia uma opo,
      mas dizer que existiam duas fazia com que as coisas parecessem melhor.
      Uma parte dela lhe dizia que seria como jogar a toalha se ela voltasse ao sistema que acabara com ela. Outra parte, no entanto, argumentava que sobreviver 
era o mais importante. Ela bem que tentara levar isso adiante, mas a mulher inteligente sabe quando parar de insistir.
      Ela precisava comer. E comprar bolsas.
      Desde que a notcia de sua sada da Lipman Haigh fora divulgada, Jojo recebeu ofertas de emprego de quase todas as grandes agncias literrias da cidade, mas 
recusara todas, educadamente. Na verdade, havia respondido que talvez ela estivesse oferecendo emprego a eles dentro em breve.
      Tudo bem, talvez estivesse confiante demais. Mas se os autores tivessem ficado com ela, tudo teria dado certo. De qualquer modo, no adiantava chorar o leite 
derramado. Jojo sabia de cor e salteado uma lista de pessoas para as quais acharia insuportvel trabalhar, e
      iria comear a escolh-las de baixo para cima.
      Sentindo-se meio estranha e triste, pegou o telefone e ligou para a agncia nmero um da lista, a Curtis Brown. A pessoa com quem precisava falar no estava 
disponvel e ela deixou um recado. Em seguida, ligou para Becky para lhe contar o que resolvera.
      - Mas, Jojo!... Voltar para o sistema patriarcal vai ser muito ruim para a sua alma! - matraqueou Becky.
      - Estou dura. Alm do mais, para que eu preciso de uma alma? Nunca a uso, mesmo. Se tivesse que escolher entre a minha alma e urna bolsa nova, ficaria com 
a bolsa.
      - J que voc pensa assim...
      Quando o telefone tocou, ela achou que fosse algum da Curtis Brown, respondendo ao recado, mas no era.
      - Jojo,  Lily. Lily Wright. Tenho um livro novo para voc. Eu acho que voc vai adorar. Gostar, pelo menos.
      - Voc acha? Bem, ento deixe-me dar urna olhada! - Jojo no tinha esperana alguma nisso. Lily era urna pessoa formidvel, mas, em termos literrios, era 
carta fora do baralho. Depois do estrondoso desastre de Claro como Cristal, nunca mais algum iria querer
      publicar alguma coisa dela.
      - Moro perto da sua casa - lembrou Lily. - Em St. John's Wood. Posso dar urna passadinha a para deixar o original. Ema e eu adoraramos a chance de um passeio 
a p.
      - Claro! Por que no? - Jojo disse isso s para incentivar Lily, mas era melhor do que jogar na sua cara que ela no precisava nem e dar ao trabalho.
      Lily e Ema chegaram e Lily tornou urna xcara de ch. Ema quebrou asa de uma caneca e a pendurou na orelha corno se fosse um brinco; em seguida, tornaram a 
sair.
      Em algum momento  tarde, uma mulher da Curtis Brown ligou de volta e marcou um encontro para sexta-feira. O dia passou lentamente. Jojo falou com Becky vrias 
vezes, viu tev a tarde toda, embora tivesse uma regra estrita de nunca assistir  televiso durante o dia. Foi  aula de ioga, voltou para casa, fez o jantar, assistiu 
a mais um pouco de tev e, mais ou menos s onze e meia, decidiu que era hora de ir para a cama. Ao procurar algo para ler um pouco at pegar no sono, seu olhar 
bateu na pilha de pginas que Lily Wright deixara. J que o livro estava ali, sentou e resolveu dar uma olhadinha.
      
      Vinte minutos depois
      Jojo continuava sentada reta na cama agarrando as pginas com tanta fora que elas ficaram amassadas. Estava no incio do livro, mas sabia! Era AQUILO que 
precisava! Era o original pelo qual estivera esperando, o livro que iria reacender sua carreira. Era As Poes de Mimi, volume dois, s que melhor. Ela conseguiria 
vender aquele manuscrito por uma fortuna.
      Olhou para o relgio. Meia-noite. Ser que era muito tarde para ligar para Lily? Provavelmente. Droga!
      A que horas ser que ela acordava? Cedo, certamente. Com uma criana pequena em casa, Lily devia acordar muito cedo.
      
      6:30 da manh seguinte
      Ser que era cedo demais? Ela se forou a esperar mais uma hora e ento pegou o telefone.
      
     
Lily
      
      Eu no sou idiota. Mesmo antes de Ema quebrar a asa da caneca e coloc-la pendurada na orelha como um brinco, eu j sabia que Jojo no estava exatamente empolgada 
por me ver. No a culpava. O fracasso de Claro como Cristal respingara em todos os envolvidos.
      Mas ela aceitou o original e prometeu l-lo "logo". Depois disso, voltei para a casa de Irina e esperei pela ligao de Jojo. Ela aconteceu s 7:35 da manh 
seguinte.
      - Minha Nossa Senhora dos Livros, Lily - guinchou ela, to alto que lrina ouviu da sala ao lado. - Temos um sucesso nas mos! Diga quanto voc quer! No vou 
nem me dar ao trabalho de oferecer  Dalkin Emery, porque eles no levaram f em voc, no Natal. Podemos ir  Thor. Eles vo se rasgar todos para colocar as mos 
nisso e esto em uma fase tima. Quem sabe...
      Eu j tinha um plano em mente. No tinha certeza se iria novamente conseguir escrever outro livro algum dia; coisas terrveis sempre aconteciam comigo antes 
de eu conseguir produzir algo que prestasse e, para ser franca, eu preferia ser feliz. S que aquela era a minha oportunidade de receber um adiantamento que seria 
a garantia de um futuro seguro.
      - Venda! - autorizei Jojo. - Venda pela oferta mais alta.
      - Falou! J estou saindo para tirar cpias do original. Depois, vou comear a dar telefonemas, pedir que mandem os motoboys e sentar para esperar a montanha 
de dinheiro que vo despejar sobre nossas cabeas.
      
     
Gemma
      
      Ao voltar das duas semanas pra l de Marrakech com a caveira cheia de pias coladas,levei mais uma semana para visitar meus pais - como nos velhos tempos. 
Quando finalmente resolvi ajeitar a minha vida e aparecer l, mame me disse:
      - Isto aqui chegou para voc.
      Ela me entregou um envelope que exibia vrios endereos riscados e outros sobrescritos. Ele fora enviado originalmente para a Dalkin Emery e depois remetido 
para a Lipman Haigh, que, por sua vez, o mandou para meus pais. Tinha um selo irlands no envelope.
      - Deve ser carta de um f - disse papai.
      Nem me dei ao trabalho de responder. As intuies maravilhosas que eu tivera em Antgua haviam sobrevivido  transio para o mundo real, mas no com relao 
a papai.
      Abri a carta.
      
      Querida Gemma,
      Quero apenas lhe dizer o quanto gostei de Caando Arco-lns. (Comprei o livro no aeroporto, a caminho de Fuertaventura.)
      Parabns pela grande leitura. Fiquei feliz por Will e Izzy ficarem juntos no final, depois de todos aqueles sufocas e atribulaes. Achei que isso no fosse 
acontecer, especialmente por
      causa do outro cara que vivia aparecendo. Fiquei com receio de Izzy voltar a ficar mal, mas acabei me convencendo de que eles formam um lindo casal.
      
      Com amor,
      Johnny
      P.S - Venha me Visitar. Recebi uma nova marca de gaze cirrgica que talvez interesse a voc.
      
      Johnny. Era Johnny, o farmacutico. Eu no conhecia nenhum outro Johnny. E ele escrevera "com amor" ao se despedir.
      Foi como se algum me espetasse uma agulha de encher bolas de futebol e tivesse comeado a bombear alvio em todas as minhas partes internas, mesmo as mais 
distantes. Ele tinha lido o livro. Ele no me odiava. Ele me perdoara por eu trat-lo como um tapa-buraco sentimental.
      No tinha percebido o tamanho da angstia que me afligia. Ele queria me ver...
      O que eu senti com relao quilo?... Senti que devia dar uma passadinha l ao voltar para casa, foi isso que eu senti! E compreendi uma coisa: finalmente 
eu estava pronta. Durante todo o ano anterior - at mais - andei muito sem noo para pensar em Johnny, mas acho que, no fundo, queria esperar at voltar a ser eu 
mesma antes de tentar embarcar em qualquer coisa com ele. Descobri que era por isso que eu continuava com Owen - ficar com ele me impedia de tentar algo com Johnny. 
Owen era o meu quebra-molas emocional.
      No que eu me sentisse culpada por usar Owen daquele jeito; afinal, eu tambm desempenhara um papel semelhante em sua vida.
      De repente reparei na data da carta e levei um choque: 19 de maro - seis semanas antes. Aquele envelope passara todo aquele tempo circulando entre a editora 
e a agncia literria, at ser enviado para meus pais. Subitamente era muito urgente eu ir at a farmcia.
      - Que carta  essa?  de algum f? - quis saber papai.
      - Preciso sair.
      - Mas voc acabou de chegar.
      - Volto logo.
      Dirigi feito uma louca, na mesma velocidade da primeira noite, h muito tempo, quando eu me lancei na misso especial de conseguir os remdios que impediriam 
minha me de ficar totalmente lel. Estacionei, abri a porta da loja e l estava ele, com o guarda-p branco, curvando-se com muita ateno diante da mo de uma 
velha, admirando suas marcas senis ou algo assim. Meu corao se encheu de coisas boas.
      Ento ele levantou a cabea e eu levei um susto: no era Johnny. Parecia muito com ele, mas no era. Por um instante ensandecido, imaginei que ele pudesse 
ter sofrido um ataque de aliengenas invasores de corpos, mas ento percebi que s podia ser Manquinho, o famoso irmo acidentado.
      Estiquei o pescoo para olhar atrs da divisria, torcendo para ver Johnny l, enchendo um frasco com plulas ou seja l o que ele costumava fazer, mas Manquinho 
entrou em meu campo de viso.
      - Deseja alguma coisa?
      - Estou  procura de Johnny.
      - Ele no est.
      Alguma coisa no seu jeito de falar me provocou um mau pressentimento.
      - Ele, por acaso, foi para a Austrlia?
      Minha sorte era desse tipo. Provavelmente ele encontrara a mulher da sua vida nessa viagem de barco...
      - Ahn... No. Bem, pelo menos ontem  noite ele no mencionou que pretendia fazer isso.
      - Tudo bem, ento.
      - Quer deixar algum recado?
      - No, obrigada. Apareo outra hora.
      No dia seguinte tornei a ir  farmcia, mas, para meu grande desapontamento, Manquinho continuava atendendo no balco. No dia seguinte aconteceu a mesma coisa.
      - Voc tem certeza de que ele no foi para a Austrlia?
      - No, mas se voc quer falar com ele, por que no aparece aqui durante o dia?
      - Porque eu trabalho o dia todo. Ele costumava ficar aqui no turno da noite.
      - Mas trocou. Ele agora s atende na loja um dia da semana  noite.
      - Que dia  esse? - perguntei, baixinho.
      - Hein?
      - QUE DIA  ESSE?
      - Oh, desculpe. Quinta... Amanh.
      - Quinta-feira? Amanh  quinta-feira? Tem certeza de que amanh  quinta-feira?
      - Sim. Isto , quase certeza.
      Eu estava entrando no carro quando ele berrou l de dentro:
      - No esquea de que fechamos s oito horas, agora.
      - Oito horas? No era s dez? Por que mudou?
      - Porque sim.
      
     
Lily
      
      Jojo marcou o leilo de Uma Vida Encantada para dali a uma semana, mas, como previa, recebeu uma enxurrada de ofertas prvias. A Pelham Press ofereceu um milho 
por trs livros.
      - No - eu recusei. - No vai haver um segundo livro, nem um terceiro. Esse vai ser um evento nico.
      A Knoxton House ofereceu oitocentas mil libras por dois. Repeti que aquele livro era o nico  venda. O fim de semana passou e ento, na segunda de manh, 
a Southern Cross ofereceu quinhentas mil apenas por ele.
      - Aceite! - . eu disse a Jojo.
      - No - ela afirmou. - Eu consigo mais que isso para voc.
      Trs dias depois, na quinta-feira de manh, ela vendeu o original para a B&B Halder por seiscentas e cinqenta mil libras. Empolgada e rindo  toa, ela me 
ligou, dizendo:
      - Precisamos celebrar. Vamos l, encontre-me para um drinque. No se preocupe que eu no vou segurar voc at muito tarde. Vou a um evento hoje  noite.
      Concordamos em nos ver s seis da tarde em um bar em Maida Vale. Quando eu cheguei, Jojo j estava l, com uma garrafa de champanhe sobre a mesa.
      Depois de alguns clices, ela me perguntou, como eu sabia que ia aconteceu o porqu de eu fazer questo de um contrato para um nico livro.
      - Por que insistiu tanto nessa histria de contrato para um livro s? Eu poderia ter conseguido milhes de libras.
      Balancei a cabea.
      - No vou escrever outro livro depois desse. Pretendo voltar a trabalhar em horrio integral redigindo textos, comunicados e folhetos. Isso representa grana 
certa e constante. Eu curto esse trabalho e ningum esculhamba meus esforos no caderno literrio dos jornais de domingo.
      - Sabe o que dizem por a, Lily?
      - "Voc vai encontrar um pedao de castanha cada vez que morder o chocolate?"
      - No... "Quer fazer Deus dar uma gargalhada? Conte-lhe os seus planos."
      - Tudo bem - reconheci. - Nenhum de ns sabe ao certo o que vai rolar no futuro. Mas, se depender de mim, no escrevo mais livro nenhum.
      - E o que pretende fazer com o dinheiro do adiantamento? - perguntou Jojo, - Investi-lo?
      Isso me fez rir alto.
      - Qualquer empresa na qual eu investir vai acabar indo para o buraco.  prefervel deixar a grana toda numa lata de biscoitos debaixo da cama.  mais seguro, 
embora eu reconhea que vou acabar comprando um lugar para morar.
      S que dessa vez eu faria isso da forma apropriada.
      Algum tempo depois, Jojo olhou para o relgio.
      - Sete e meia. Preciso ir. Vou me encontrar com minha prima Becky. Ela vai me acompanhar a uma festa em homenagem a um autor da Dalkin Emery.
      - Festa para um autor da Dalkin Emery? - Coloquei a cabea meio de lado. - Eu no fui uma das autoras deles, um dia? Puxa, no me convidaram para a festa.
      - Quer saber de um segredo? - Ela se inclinou na minha direo, rindo. No me convidaram tambm at a ltima hora. S ontem foi que eles me mandaram o motoboy 
com o convite. Obrigada por voc e pelo seu novo livro, que  fabuloso. Estou de volta ao jogo.
      - Que esquisito da parte deles no convidar voc, Jojo, E que falta de educao. Voc vai l? Eu os mandaria enfiar a festa naquele lugar.
      - Preciso ir - disse Jojo, exibindo um sbito ar sombrio.
      Eu no disse nada, mas sabia dos boatos, como todo mundo. Aquilo tinha algo a ver com o ex-chefe dela. Diziam que Jojo fora obrigada a sair da agncia porque 
ele terminara com ela, ou algo assim.
      Logo depois a sua prima chegou e elas foram embora.
      
     
Gemma
      
      Passei toda a quinta-feira desatenta no trabalho - de empolgao, entendem? Finalmente iria reencontrar Johnny naquela noite. S que um monte de coisinhas 
conspirou contra aquilo e eu no consegui sair do trabalho antes de seis e meia; ento tive de buscar papai no hospital. Ele passara por alguns exames, procedimentos, 
sei l (algo a ver com sua prstata, mas eu no fazia questo nenhuma de saber detalhes). Como ele tomou anestesia, no permitiram que voltasse para casa dirigindo. 
S que ele levou uma eternidade para sair e foi se despedir de cada uma das enfermeiras como se tivesse ficado internado ali seis meses, em vez de seis horas. Quando 
conseguimos sair do hospital, j eram quinze para as oito. A farmcia de Johnny fechava s oito e eu tive de tomar uma deciso drstica:
      - Papai, antes de deixar o senhor em casa, preciso passar na farmcia.
      - Para comprar o qu?
      - Band-Aid.
      - Mas voc no se cortou.
      - Lenos de papel, ento.
      - Est resfriada?
      - Tudo bem ento... Tylenol- disse eu, irritada.
      - Est com dor de cabea?
      - Agora fiquei.
      Estacionei na porta da farmcia e papai soltou o cinto de segurana. Muito ansiosa, pedi:
      - Papai, fique no carro, o senhor no est bem.
      Quem dera... Ele j tinha percebido algo diferente no ar.
      - Eu tambm preciso comprar umas coisinhas.
      - O qu, por exemplo?
      - Ahn... - Ele olhou os produtos da vitrine. - leo de prmula.
      Segurando alguma coisa entre as pernas com as duas mos, ele me seguiu.
      
     
Lily
      
      Depois de Jojo e sua prima irem embora do pub, eu fui para casa, coloquei Ema na cama e ento me preparei. Era hora de ler a carta de Anton.
      No havia escolha. Eu sabia que ela no iria desaparecer dali.
      Recostei-me no sof e tirei do envelope trs folhas manuscritas e muito amassadas.
      
      Minha adorada. Lily
      Quando voc estar lendo esta carta? Seis meses depois de terminarmos? Um ano? No importa quanto tempo faz, obrigada por l-la. Tem s uma coisa que eu quero 
que voc saiba: o quanto estou desolado pela infelicidade que lhe trouxe. Como quem est escrevendo sou eu, provavelmente vou gastar muitas folhas para transmitir 
essa mensagem. 
      Agora voc se sente enjoada s de pensar no tempo que passamos juntos, louca para colocar uma distancia grande entre ns, e convencida de que foi um erro gigantesco 
do inicio ao fim. 
      Quando nos conhecemos, a escolha que voc teve de fazer - entre mim e Gemma - foi terrvel. A verdade, porm,  que naquela poca eu era um grandessssimo 
idiota loucamente feliz, to empolgado com o quanto combinvamos um com o outro que no percebi o tamanho da culpa que voc sentia. Agora, analisando em retrospectiva, 
creio que nunca percebi por completo a profundidade daquela culpa nem o seu medo de ser punida. Em minha defesa, devo dizer que tentei, mas a felicidade que sentia 
por estarmos juntos continuava lavando a minha alma e carregando todo o resto para longe. 
      No sei se voc conseguir se convencer algum dia de que ficarmos juntos era mais do que correto. Por favor, tente... No arrune o resto da sua vida arrastando 
essa pesada corrente de vergonha. Ser que voc poderia focar em Ema? Ela  uma alminha luminosa, faz do mundo um lugar, melhor, e fomos ns que a fizemos, voc 
e eu. Alguma coisa boa, portanto, resultou de estarmos juntos
      Eu tambm queria pedir perdo a voc e a Ema por faz-las perder a casa em que moravam. As palavras so absurdamente inadequadas para transmitir a extenso 
da minha lstima. 
      Analisando o meu entusiasmo na compra da casa, percebo que forcei voc a fechar o negcio e fico doente comigo mesmo s de lembrar. Como poderia explicar o 
funcionamento da minha cabea na poca? Comprar a casa foi um risco, mas me pareceu um risco seguro. Tnhamos todos os sinais de que o dinheiro iria pintar - Jojo 
pensou assim, a Dalkin Emery pensou assim e at o banco pensou assim. 
      Eu temia que se na comprssemos logo uma casa para ns, voc e eu iramos torrar os direitos do livro, conseguidos a duras penas para acabarmos com um monte 
de merda (carros, um som novo e todos os produtos do catlogo da boneca Barbie) e nenhum lugar seguro (voc sabe como ns somos com dinheiro). Aquilo foi uma tentativa 
para nos obrigar a agir como adultos responsveis. Comprar algo alm das nossas posses me pareceu a coisa mais esperta a fazer - em vez de comprar um lugar pequeno 
por um ano, depois fazer outra mudana e pagar duas vezes o imposto de transmisso, era mais fcil pular o processo intermedirio. Como era um tolo, achei que tinha 
uma grande viso de futuro. Nada disso, porm, importa agora. No ouvi os seus temores, tudo desmontou em nossas vidas e eu odeio ouvir minhas tentativas de justificao 
absolutamente patticas. 
      Eu me considerava um otimista e voc me achava um tolo; voc tinha razo, e se eu tivesse a chance de voltar ao passado teria feito tudo de forma completamente 
diferente.
      Sabendo da infncia insegura que voc teve, era mais importante que todo o resto lhe trazer segurana. No entanto, tudo que eu levei para sua vida, foi caos.
      Eu me arrependo muito dos erros que cometi, me arrependo imensamente da infelicidade que lhe causei, mas jamais vou me arrepender do tempo que passamos juntos. 
Quando eu tiver oitenta anos e olhar para trs, revendo a minha vida, vou saber que houve pelo menos uma coisa boa e pura nela. Desde aquele instante em que nos 
vimos pela primeira vez, no lado de fora da estao do metr, eu me senti o cara mais sortudo do planeta e essa sensao nunca desapareceu. Em cada dia que ns passamos 
juntos eu mal podia acreditar na minha sorte - a maioria das pessoas no consegue em toda a existncia o que ns tivemos em trs anos e meio, e serei sempre grato 
a voc por isso. Sei que voc vai seguir em frente e acabar encontrando outra pessoa, e eu vou ser apenas um captulo da sua vida, mas para mim voc foi,  e sempre 
ser o meu livro inteiro. 
      Do seu, para sempre,
      Anton
      
      Baixei a carta e olhei para o teto. Olhei e olhei.
      Eu sabia que isso ia acontecer. Sabia h vrias semanas, desde antes de ir para a casa de mame. Alis, esse era o motivo de eu ter ido para l.
      Ao abandonar Anton, imaginei ter aceitado a situao e suas conseqncias. Depois, na poca em que os cartes-postais comearam a chegar, descobri que no 
aceitara absolutamente nada. Estava anestesiada, como um brao que ficara dormente por mais de uma semana, e ao voltar a sentir coisas nele fugi para a casa de mame, 
em uma tentativa intil de escapar do inevitvel.
      Mesmo naquela ocasio, eu j sabia que teria de escolher. Meu amor por Anton voltara devagarzinho, sem eu perceber. Apesar de ter sido despejado do meu corao, 
que se quebrara por causa da casa, ele voltou com toda a fora, obrigando-me a encar-lo de frente.
      E agora, como eu poderia lidar com aquilo?
      No fazia a menor idia.
      Pelo menos agora eu compreendia o que acontecia dentro de mim: eu tive raiva de Anton - perder casas era um assunto delicado na minha vida. Porm, e eu no 
sabia o motivo - seria o tempo?... A distncia?...- Eu j no o culpava. Achei que jamais poderia perdo-lo, mas j o fizera.
      Antes mesmo de ler a carta, percebi o que ele tentara fazer com aquela casa: ele assumira um risco, mas, se analisarmos bem, fora um risco bem calculado. Ele 
simplesmente no deu sorte. E quanto a mim? Eu tambm estava l, podia ter dado o contra. Em vez disso, fui cmplice de tudo, complacente e passiva, agarrando-me 
a uma posio a partir da qual pudesse culpar algum do fracasso, se necessrio.
      Anton era descuidado com dinheiro, sem dvida. Mas eu no era melhor que ele. Quem nunca contraiu dvidas atire o primeiro cheque.
      Ser, porm, que a percepo de tudo o que deu errado servia como garantia de que as coisas no voltariam a ficar esquisitas? Se fssemos apenas Anton e eu, 
poderamos assumir os riscos de novas mgoas e tentar de novo, sabendo que, se mais uma vez a coisa no desse certo, conseguiramos sobreviver. Mas tnhamos uma 
filha que j passara por muitas coisas em sua vidinha. O prximo passo devia ser muito cuidadoso, ns devamos isso a Ema. De repente, um pensamento me cintilou 
na cabea: certamente seria muito melhor se os pais dela estivessem juntos, no ? Mas talvez eu estivesse dizendo aquilo para mim mesma s porque amava Anton.
      E quanto a Gemma? Ser que algum dia eu conseguiria superar o que tinha feito com ela? Se tivesse tido a chance, nunca teria causado um nico instante de sofrimento 
a ela. No entanto, eu lhe provoquei dores inimaginveis. Isso, porm, era passado, j acontecera. Eu no conseguiria desfazer o que estava feito, mesmo que Anton 
e eu continussemos separados para sempre.
      Dei um longo suspiro, com ar cansado, ainda olhando para o teto, como se esperasse ver as respostas escritas ali.
      Felicidade era algo raro e a gente devia aproveitar as oportunidades de ser feliz quando elas apareciam. Eu queria fazer a coisa certa desde o princpio, mas 
no havia como prever o futuro e no existia garantia de nada.
      Eu poderia ficar ali, tentando racionalizar as coisas at ficar careca de vez, mas no tinha a menor idia do que estava certo ou errado.
      Decidi fazer uma lista, como se pudesse tomar a maior deciso da vida marcando estrelas na margem de um guia de programao de tev. Tudo bem, aquele era um 
mtodo to bom quanto qualquer outro...
      
       Ema ficaria muito melhor se seus pai permanecessem juntos;
       Eu me sentiria pronta a superar a culpa que sentia por causa de Gemma;
       Eu j tinha perdoado Anton pela casa e seriamos mais cautelosos com nossas finanas no futuro;
       Anton era minha pessoa predileta no mundo, disparado (com exceo de Ema)
      Hummm...
      Bem, pensei... Pelo menos no faria mal conversar com Anton. Assim, depois de invocar as foras do universo, tomei uma deciso. Iria ligar para ele - naquele 
momento e uma vez s; se no conseguisse encontr-lo, aceitaria o fato como um sinal de que as coisas no eram para acontecer assim. Com todo o cuidado, levantei 
o fone do gancho, na esperana de transmitir ao aparelho a importncia do momento solene e da misso que lhe estava sendo confiada.
      Perguntei-me onde Anton poderia estar naquele momento e quais seriam os planos do destino para nosso futuro. Ento teclei cada nmero bem devagar e grudei 
o ouvido no fone. Ouvi o primeiro toque e comecei a rezar.
      
     
Jojo
      
      Na festa da Dalkin Emery, Jocelyn Forsyth fazia hora parado na porta, parecendo estar de saco cheio. Estava achando difcil se adaptar  vida de aposentado 
e tinha vontade de continuar em ao. Mesmo assim, talvez pedir um convite para essa festa tivesse sido um erro. At o momento, pelo menos, tudo era terrivelmente 
desapontador. O lugar estava lotado de Jovens Turcos e no havia nenhuma gatinha interessante com quem ele pudesse conversar. Ento, bem na porta, viu algum que 
encheu seu corao de alegria.
      - Jojo Harvey! Achei que voc tinha morrido!
      Jojo parecia particularmente sedutora e vinha acompanhada por uma criatura quase to linda quanto ela, que lhe foi apresentada como sendo a sua prima Becky.
      - Muito bem, meus parabns pela maravilhosa notcia de Lily "Lzaro" Wright. A carreira dela tinha sido declarada morta quantas vezes, se contarmos com essa? 
E voc trabalhando sozinha, o que  sempre um lance arriscado. - Ele se inclinou um pouco. - Aquela histria com o jovem Gant foi algo selvagem e animalesco. Adorei 
que tudo tenha dado certo para voc.  claro que, se havia algum capaz de sair daquela situao ilesa, seria voc.
      Jojo jogou os cabelos para trs e sorriu.
      - Obrigada, Jocelyn. - Em seguida, foi em frente. No tinha tempo para ficar de papo com ningum, pois estava ali em misso. De certo modo.
      Com Becky a tiracolo, Jojo circulou atravs do espao lotado, recebendo aplausos e elogios por onde passava. Seus sentidos estavam em alerta vermelho, seus 
nervos esticados como cabos de ao, e ela ficou o tempo todo atirando os cabelos para trs e sorrindo com exuberncia. Mesmo quando conversava apenas com Becky, 
o show no parava, at que ela sussurrou:
      - Quer parar com isso? At parece que voc cheirou alguma coisa antes de vir para c.
      Jojo sussurrou de volta:
      - No d pra parar. E se ele estiver aqui? Tenho que parecer feliz!
      - Jojo, talvez voc ainda no esteja pronta para essa prova de fogo.
      - Vou ter de encontr-lo em algum momento. No posso ficar me esgueirando pelos cantos, morrendo de medo de dar de cara com ele. J est na hora de enfrentar 
isso.
      S que depois de mais vinte minutos de show, ela admitiu a Becky:
      - Acho que ele no veio. Vamos comer alguns frangos satay e dar o fora.
      
     
Gemma
      
      Acompanhada por papai, que me seguia mancando como se tivesse sofrido uma amputao do saco, corri para a farmcia. Estava quase enjoada de tanta ansiedade. 
Havia um homem atrs do balco e ele vestia o uniforme oficial, um guarda-p branco; tinha o corpo do tamanho certo, mas no dava para ver o seu rosto.
      Se ele se virasse na minha direo e eu desse de cara com o irmo Manquinho, iria desistir, pensei. Era sinal de que o lance entre mim e Johnny no ia rolar.
      Ento, em um excruciante movimento de cmera lenta, o homem se virou e - puxa, obrigada, Senhor - era Johnny!
      - Gemma! - Seu rosto se acendeu, mas logo em seguida ele olhou por cima do meu ombro, com ar questionador.
      - Ahn... Aquele l  o meu pai - informei. - Ignore-o.
      - Certo.
      Cheguei mais perto.
      - Recebi a sua carta - disse eu, com jeito tmido. - Obrigada. Voc realmente gostou do livro?
      - Muito. Em especial da histria de amor entre Izzy e Will.
      -  mesmo? - Fiquei da cor de um carro de bombeiros.
      - Foi legal o jeito como eles ficam juntos, no final. Will era um cara legal. - Ele deu outra olhada para trs de mim, com ar perplexo, na direo de papai. 
Droga de sujeito egosta. Por que ele teve de entrar comigo?
      - Bem, Will  uma cara muito legal. - Tentei me concentrar na misso especfica a que eu me propusera, que era a de assegurar o corao ou pelo menos o interesse 
de Johnny. - Will  o mximo!
      - Izzy tambm.
      Atrs de mim, ouvi papai exclamar:
      - Minha nossa, voc  o Will! Recm-sado das pginas do livro! - Ele mancou mais um pouco at o balco. - Sou Declan Nolan, o pai que fugiu de casa...
      Eu o interrompi antes que o clima de camaradagem aumentasse e anunciei:
      - E eu sou Izzy.
      - Sim, uma boa garota - confirmou papai.
      - A histria  de Will e Izzy.
      Finalmente a ficha caiu.
      - Ah, entendi! - exclamou papai. - Bem... Vou deix-los a ss por um instante. - Ele foi caminhando na direo da sada e eu me virei para Johnny. Tive uma 
sbita viso de ns dois congelados naquela cena para todo o sempre; o balco com tampo de vidro nos separando um do outro, eu pedindo produtos idiotas dos quais 
no precisava e ele vendendo-os para mim com olhos cheios de bondade. Aquele era o momento da verdade. Algo precisava ser dito para a cena ir em frente.
      - Gemma. - Foi ele quem falou primeiro.
      - Sim? - Prendi a respirao.
      - Andei pensando...
      - Sim?
      - ... Em uma coisa que voc me disse faz um tempo.
      - Sim?
      - Sobre sairmos para tomar um drinque.
      - Sim?
      - Bem, ser que no est na hora de...
      - Siiiiim!
      
      Algum tempo depois, j de volta ao carro, papai disse:
      - No consigo acreditar. Voc veio de carro at o trabalho de um homem e lhe passou uma cantada. A que ponto o mundo chegou!
      - Qual , papai, o que isso tem demais? Pelo menos eu no pedi para ele abandonar a esposa e trinta e cinco anos de casamento.Nossa, eu realmente tinha dito 
isso? Ficamos olhando um para o outro, meio desconfiados.
      Por fim, papai falou:
      - Talvez devssemos consultar um psiclogo familiar ou algo desse tipo. O que acha?
      - Papai, corta essa... Somos irlandeses!
      - Mas esse clima de ressentimento no pode continuar.
      Refleti a respeito.
      - Vai passar - garanti. - Por favor, me d algum tempo.
      - O tempo cura tudo, no ?
      Voltei a refletir.
      - No, no cura. - Em seguida cedi um pouco: - ... Mas cura a maioria das coisas.
      
     
Jojo
      
      De repente, depois de quase atirar os cabelos sobre os ombros e jog-los dentro do drinque de Kathleen Perry, Jojo o viu - junto da parede dos fundos do salo, 
vestindo um terno preto. Ele a observava. Seus olhares se cruzaram e isso a atingiu em cheio como um soco no estmago. Era como se (l vinham de novo os escritores 
e aquele papo de pupilas dilatadas) os dois fossem as nicas pessoas em todo o salo.
      O corao dela lhe martelou o peito com mais velocidade; a mo que segurava o drinque ficou suada de um segundo para outro e a realidade pareceu entrar em 
alta definio. Ele pronunciou devagar, fazendo mmica com a boca: "Espere." E em seguida: "Por favor." Ento se virou e comeou a empurrar as pessoas com delicadeza, 
indo na direo dela.
      - Ele vem vindo a! - alertou Becky. - Corra!
      - No. - Aquilo tinha de ser enfrentado. Talvez s houvesse aquela oportunidade para os dois se encontrarem mais uma vez, ento era bom que acontecesse logo.
      Ele sumiu de vista na multido e depois tornou a aparecer, tentando forar a passagem atravs da massa compacta de Jovens Turcos. Becky se dissolveu na paisagem.
      Ento ali estava ele, bem diante dela.
      - Jojo? - Seu tom de voz mostrou que ele queria confirmar se ela estava realmente ali.
      - Oi, Mark. - At mesmo pronunciar o nome dele parecia um alvio.
      - Voc parece... - Ele procurou uma palavra que fosse adequada o bastante para descrev-la: - ... tima!
      - Estou mesmo - ela confirmou. O rosto dele se acendeu de alegria e por um momento era exatamente como nos velhos tempos. At Jojo perguntar: - Como vo Cassie 
e as crianas?
      - Vo bem - respondeu ele, com cautela.
      - Voc e Cassie continuam juntos?
      Ele hesitou e disse:
      - Cassie descobriu tudo sobre... Voc sabe... Ns dois.
      - Merda. Como?
      - Depois que voc foi embora, ficou bvio que algo estava errado. - Ele riu de leve. - Eu desmontei.
      Jojo tambm no se sentira no stimo cu.
      - Ela j desconfiava?
      - Bem, Cassie tinha uma vaga suspeita de que havia algum, mas no sabia que era voc.
      - Sinto muito. Sinto muito mesmo por mago-la.
      - Ela disse - e pode at ser verdade - que foi um alvio finalmente descobrir com certeza. Segundo ela, fingir no reparar que eu nunca estava em casa acabava 
com ela. Nos ltimos meses temos tentado consertar as coisas.
      - E j ofereceram a grande festa para renovar os votos de casamento?
      - No. - Mark conseguiu sorrir. - Mas estamos fazendo anlise. A idia  tentar de verdade, mas... - parou. - Ainda penso em voc o tempo todo.
      Jojo se colocara mais perto dele, atrada por sua presena. Erguendo a cabea e endireitando os ombros, tornou a se afastar, apavorada com a possibilidade 
de sentir o cheiro dele, pois sabia que isso iria desarm-la.
      - Ser que no poderamos nos encontrar um dia desses? - perguntou ele. - S para tomarmos um drinque?
      - Voc sabe que no poderamos fazer isso.
      De repente, ele comeou a desabafar:
      - Mesmo agora, todos os dias, eu no consigo acreditar no quanto as coisas deram errado. Fui muito egosta ao pensar em ns, em vez de pensar em voc. Se eu 
pudesse voltar quele momento, no dia da reunio, eu...
      - Pare, Mark. Tambm andei pensando. No foi s a questo da sociedade na firma. Foi tambm a culpa que eu sentia por Cassie e as crianas. - Na hora H, acho 
que no conseguiria ir at o fim. Cheguei perto, mas amarelei. E sabe de uma coisa? No acredito muito nesse papo de psiclogos, mas aposto que voc no conseguiria 
jogar tudo para o alto, e por isso me cozinhava em banho-maria.
      - No! - ele protestou. - De jeito nenhum!
      - Foi sim! - garantiu ela, com firmeza.
      - Absolutamente no.
      - Tudo bem, como voc quiser.  s uma teoria, mesmo. - Ela no ia insistir naquilo. J no importava mais.
      As pessoas olhavam para eles, pois sua intimidade era muito bvia.
      - Mark, preciso ir embora agora.
      - Srio? Mas...
      Ela foi passando atravs da massa humana, reconhecendo quase todo mundo, sorrindo, sorrindo, sempre sorrindo, at alcanar a porta de sada
      Ao colocar o p na rua, apertou o passo, com Becky atrs tentando acompanh-la. Ao perceber que estava a uma distncia segura, Jojo parou junto de uma porta 
e dobrou o corpo para a frente, deixando os cabelos tombarem em direo ao cho.
      - Voc vai vomitar? - sussurrou Becky, passando a mo em crculos pelas costas da prima.
      - No - respondeu Jojo, com a voz embargada. -  que isso di.
      Elas ficaram paradas ali por alguns minutos. Jojo emitia rudos estranhos, como se choramingasse, e Becky se compadeceu a ponto de mal suportar. De repente, 
Jojo ajeitou o corpo, jogou os cabelos para trs e pediu:
      - Voc tem um leno de papel?
      Becky remexeu em sua bolsa e passou o pacotinho para ela, dizendo:
      - Voc poderia voltar para ele. Sabe disso.
      - Isso nunca vai acontecer. Est tudo acabado e enterrado.
      - Como assim? Voc sente terrivelmente a falta dele!
      - E da? Vou superar. Alis, puxa, j estou quase l. E se eu quiser, arrumo algum qualquer hora dessas. Afinal, olhe s para mim... Sou uma mulher independente, 
tenho meu prprio negcio. Todos os meus dentes so verdadeiros e meus cabelos tambm. Tambm sei
      consertar bicicletas.
      - E se parece com a Jessica Rabbit...
      - Sou ferssima para resolver palavras cruzadas...
      - E faz uma sensacional imitao do Pato Donald.
      - Exato! Sou fabulosa.
      
     
Lily
      
      O telefone de Anton tocou a primeira vez. Tocou a segunda. Meu corao pulava no peito, minhas mos estavam midas e eu balbuciava: "Por favor, Deus." Tocou 
trs vezes. Quatro vezes. Cinco vezes. Seis vezes.
      Merda...
      No stimo toque, houve um dique, uma exploso de risos e conversas ao fundo, como o barulho de um pub, e ento algum - Anton - perguntou:
      - Lily?
      Isso era um sinal. A alegria foi to grande que eu me senti zonza. (Embora deva confessar que liguei para o celular dele. No queria me arriscar a no encontr-lo.) 
Agora, antes mesmo de dizer uma nica palavra, ele j sabia que era eu! Outro sinal! (Talvez ele soubesse que era eu pelo identificador de chamadas.)
      - Anton? Posso me encontrar com voc?
      - Quando? Agora?
      - Sim. Onde voc est?
      - Na Wardour Street.
      - Voc pode me encontrar na porta da estao do metr em St. John's Wood?
      - Vou para l agora mesmo. Chego a em quinze minutos, vinte no mximo.
      Cheia de energia, corri para o espelho e passei uma escova no cabelo. Remexi no meu estojo de maquiagem, mas nem precisava de pintura, pois j parecia transformada. 
Mesmo assim, passei um pouco de blush e brilho labial, porque no faria mal. E rmel. E mais um pouquinho de um creme estranho de cor bege que Irina sempre me forava 
a usar. Ento parei - estava ficando neurtica - e fui pedir a Irina para cuidar de Ema.
      - Vou dar uma saidinha - expliquei.
      - Por qu? - ela perguntou.
      - Vou fazer algo imprudente.
      - Em gompanhia de Anton? timo! Mas voz no pode zair na rua azim gom a gara limpa. Preziza do greme redutor para poros. - Foi pegar sua maleta de maquiagem, 
mas eu fugi.
      Tinha de sair do apartamento. Embora ainda no tivesse dado tempo de Anton chegar  estao, eu estava nervosa demais e cheia de energia para ficar confinada 
entre quatro paredes.
      A noite caa, o cu j estava azul-marinho e, na velocidade em que eu ia, levei menos de cinco minutos para chegar  estao.
      A viso do futuro que eu tive quando estava em estado de anestesia, lamentando por Anton, voltou com fora total; eu tinha me convencido de que uma nova vida 
estava  minha espera, cheia de sentimentos, risos, cores e um elenco totalmente novo de atores para a nova temporada. No deixara de acreditar nessa viso e alguns 
dos atores principais permaneceram os mesmos. Anton ainda era o gal, no papel dele mesmo.
      Virei a esquina, quase chegando l, e atravs da escurido fixei os olhos na entrada da estao, o portal mgico que me traria aquele novo futuro.
      Ento percebi que algum alto e magro junto  entrada da estao me observava. Embora estivesse muito escuro para ver direito e muito cedo para Anton ter chegado 
to depressa do centro de Londres, eu soube na mesma hora que era ele. Tive certeza de que era ele.
      No tropecei nos prprios ps, fisicamente falando, mas senti como se isso tivesse acontecido. Foi como v-lo pela primeira vez.
      Meus passos diminuram a velocidade, eu j sabia o que ia acontecer. Quando eu chegasse perto dele, j era! Ningum diria nada, ficaramos parados, mesclados 
um no outro para sempre.
      Eu poderia ter parado. Na mesma hora eu poderia ter dado meia-volta e apagado o futuro, mas continuei em frente, colocando um p  frente do outro, de forma 
mecnica, como se um fio invisvel me carregasse at ele.
      Cada vez que eu respirava, o ar ecoava, parecia aumentar e diminuir, como se eu vestisse equipamento de mergulho, e conforme fui chegando mais perto me obriguei 
e desviar os olhos dele. Foquei a calada - vi uma sacola vazia da Fortnum and Mason, uma rolha
      de champanhe, restos de lixo brilhantes e sofisticados; afinal, ali era St. John's Wood - at me ver diante dele.
      Suas primeiras palavras foram:
      - Reconheci voc a quilmetros de distncia. - Ele pegou uma das pontas do meu cabelo.
      Cheguei mais perto da sua altura, da sua beleza, do seu jeito todo Anton de ser e mergulhei na luz da sua presena.
      - Eu tambm vi que era voc.
      Enquanto multides passavam por ns, entrando e saindo da estao como em um filme acelerado, Anton e eu permanecemos imveis como esttuas, seus olhos nos 
meus e suas mos em meus braos, completando o crculo mgico. Ento eu disse o que soube desde o incio:
      - Assim que eu o vi, sabia que era voc.
      
     
EPLOGO
   
   Gemma
      
      Quase nove meses exatos depois daquele dia em que Owen terminou comigo, ele e Lorna tiveram uma filhinha e a batizaram como - adivinhem s!... - Agnes Lana 
May. Nada que tenha a ver, nem remotamente, com "Gemma". Eles no me convidaram para ser madrinha
      dela e, at o momento, no existem planos de irmos passar as frias na Dordonha.
      Meu livro saiu no meio de maio e foi um fracasso. Culparam a capa, o ttulo e as crticas pavorosas. O tom geral delas era:
      "...um requentado mingau escapista. A esposa abandonada se reinventa, arranja um namorado muito mais novo e em menos de seis meses j est  frente de um lucrativo 
negcio. Um verdadeiro deboche da situao das mulheres da vida real que se vem abandonadas pelos maridos depois de muitos anos de fiis servios.  claro que o 
marido volta para casa no fim do livro, arrasado pelas constantes exigncias sexuais da amante, e descobre que a ex-mulher no o quer de volta..."
      Isso era terrivelmente humilhante. As nicas resenhas simpticas saam nas revistas de baixo nvel que costumavam publicar histrias do tipo "Roubei o marido 
da minha filha". Uma dessas revistas chamou meu livro de Literatura de Vingana, mostrando claramente que aprovava o texto.
      S que isso no era o bastante para vender livros, e devo admitir que eu tambm no ajudei muito: pouco antes de o livro ser lanado, papai me pediu para eu 
no participar de nenhum programa ou entrevista que confirmasse a parte real da histria, e eu devia estar com o corao mole, porque tive pena dele e concordei. 
(Isso no me tornou nem um pouco popular no departamento de divulgao da Dalkin Emery. Eles j tinham marcado um monte de programas de tev vespertinos, aos quais 
eu e mame iramos para meter o pau em papai. S que mame desistiu de tudo isso no dia em que papai voltou para casa.)
      No haver outro livro; no tenho imaginao para isso e nada de ruim me aconteceu - a no ser as resenhas horrveis e o fato de eu no conseguir escrever 
mais nada, mas isso  meio ps-moderno. O fato  que a minha vida est tima e existem coisas muito piores por a.
      No momento, limito minhas habilidades artsticas a inventar histrias para mulheres abandonadas, sempre falando de seus namorados fujes. Sou muito boa nisso 
e em meu crculo de amizades tenho boa reputao. Para mim, isso j est de bom tamanho. Ainda tenho quase todo o adiantamento que recebi pelo livro (eles no me 
obrigaram a devolv-lo, apesar de o livro ter praticamente encalhado nas lojas). Talvez em algum momento do insondvel futuro eu resolva trabalhar por conta prpria. 
A coisa no  assim to simples quanto parece, e nem todas conseguem ser Jojo Harvey, que agora trabalha em um escritrio cheio de salas de vidro fum no Soho, e 
tem quatro pessoas trabalhando para ela, incluindo o seu antigo assistente, Manoj. Alm de eu ser uma covarde, comparada a ela, sou proibida por contrato de levar 
qualquer cliente meu, se um dia me demitir.
      A carreira literria de Lily vai de vento em popa. Ela escreveu um novo livro, chamado Uma Vida Encantada, que fez tanto sucesso quanto As Poes de Mimi e 
vendeu milhes de exemplares. Depois, Claro como Cristal, o livro que quase levou a Dalkin Emery  falncia, surpreendeu todo mundo ao ser indicado ao prmio Orange 
de literatura, e a partir da tambm vendeu milhes. Parece que ela est escrevendo um livro novo agora e todos esto muito entusiasmados.
      Para falar a verdade, acabei encontrando Lily e Anton em um evento do meio editorial, logo depois do lanamento de Caando Arco-ris, quando meus editores 
ainda falavam comigo. Eu estava no meio de uma multido, tentando encontrar o toalete feminino. Subitamente, eu e Lily nos vimos paradas uma de cara para a outra.
      - Gemma? - grasnou Lily. Ela me pareceu aterrorizada.
      Depois de todas as fantasias que eu criara ao longo dos anos - de jogar um clice de vinho tinto no rosto dela, fulmin-la com olhares mortferos e sair berrando 
pela sala cheia diante de todos os seus amigos e colegas, contando sobre a piranha que ela era - , eu me vi cumprimentando Lily com ar plcido e dizendo, com alguma 
sinceridade:
      - Gostei muito de As Poes de Mimi. Minha me tambm.
      - Obrigada, obrigada de verdade, Gemma. Eu tambm adorei Caando Arco-ris. - Ela me lanou aquele sorriso de menina doce. Nesse momento Anton chegou, mas 
deu tudo certo e ficamos bem. Tivemos alguns instantes de um bate-papo informal e, depois que eles saram, Anton tentou pegar na mo de Lily. Ela no deixou e eu 
a ouvi sussurrando: "Tenha um pouco de considerao." Acho que ela se referia a mim.
      Sim, naquele momento fiquei triste. Aquele gesto de grandeza era a cara de Lily, ela sempre teve preocupao em nunca magoar ningum. Era uma pena no podermos 
ser amigas, porque (tirando o incidente do roubo do namorado) ela era uma pessoa adorvel e eu gostava muito dela.
      Mas vamos em frente que atrs vem gente.
      Quando mame conheceu Johnny, o farmacutico, pela primeira vez, analisou seus ombros largos, seu ar gentil e o brilho dos seus olhos, que so uma caracterstica 
permanente agora que ele no trabalha mais dia e noite. Ela se inclinou na minha direo e murmurou:
      - Gemma, parece que os profissionais chegaram.
      Ela gosta dele. Merda!
      Mas nem isso me fez perder o interesse em Johnny.
      Colette no ficou sozinha por muito tempo. Conheceu um cara - amigo de um amigo do irmo do cunhado de Trevor - e, como Dublin  uma cidade pequena, eu descobri 
logo. Pelo que eu soube, o carinha  muito melhor do que papai. (Pelo menos no usa camiseta regata por baixo da camisa social.)
      Quanto a mame e papai... Bem, ele resolve as palavras cruzadas do jornal e joga golfe; ela compra roupas e o faz tentar adivinhar o preo; os dois assistem 
a filmes de mistrio e fazem passeios de carro. A no ser pelo fato de eu ter publicado um livro e termos um estoque de gaze cirrgica em casa para o resto da vida, 
parece que ele no esteve um nico dia longe de casa...
      
     FIM
      
      
     

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